09/09/2009
Senhoras, Areia, Crianças e Estorninhos
A NOITE EM BREVE ou CORUSCAÇÕES NO IMO DE SOMBRAS (uma portugalidade delével) - 20

Coimbra Antiga, Nora no Choupal
20
Caramulo, tarde de 5 de Setembro de 2007
Ontem e hoje, dois dias ao mesmo tempo exaustivos e exaustores. Fiz-me à estrada, fui a Antuzede buscar o resto da minha biblioteca. Recebi a preciosa ajuda do meu irmão Fernando (que hoje, 5 de Setembro, completa sozinho 53 anos de vida; digo sozinho porque ele foi gémeo, outrora; ainda o é, aliás, de uma maneira dele que só ele sabe).
Milhares de títulos esperam povoar em ordem as estantes novas, que são insuficientes. Tenho muita coisa boa, assim como, enfim, acumulei muita porcariazinha, grâce Dieu: uma biblioteca é uma vida. É um cansaço delicioso e humaníssimo, recompor em casa própria a acumulação de uma vida. Lá estava a minha Maria Alberta Meneres d’O Poeta Faz-se aos 10 Anos. E o Caldwell numa ponta, em cima, mais o Updike na outra, em baixo. A senhora Yourcenar. O Gogol. O Kawabata. O Pasolini entant qu’écrivain. Osvaldo Soriano, falecido não há muito. Messieurs Voltaire, Lautréamont, Gide et Barthes. O grande (enorme) Freeling. Shakespeare ? Sim. Gil Vicente e Bernardo Santareno ? Sim, sim. Shepard, Pinter e Lope de Veja? Trissim. Pulsa, viva, a leda tristeza de Camões. José Rodrigues Miguéis voltou da América, no mesmo voo de Jorge de Sena. Há Lodge, Hamsun e Nerval. Há Eugene O’ Neill. Há Wodehouse e Lovecraft. Há Walter de
Fora do âmbito geológico da prosa narrativa e da poética, a outros nomes faço de agradecido anfitrião. O historiador Duby (grande escritor-escritor). O pedagogo Althusser (o que enlouqueceu e matou a mulher sem saber como nem porquê). O singular Ariès. O senhor Valéry. O senhor Boorstin. O doutor Damásio. O senhor Teófilo. O senhor Julião Quintinha. O senhor Mattoso. Dom Unamuno.
Daqui a duas horas, noutro vector, vou participar do programa da minha senhora. Anuncia-se-me uma hora (21-22h00) de rádio em formato de entrevista. Tem a ver com a afamada Rampa do Caramulo (em moderno, Caramulo MotorFestival). É trabalho. Retornaremos depois a casa, onde os livros que esperam ordem e onde uma sopa hei-de pôr a cocção: um pequeno tijolo de carne de vaca (com gordura), cebola, nabo, cenoura, feijão, couve e azeite. Sal à medida do lingual, conformes as papilas do senhor reitor. Servido o prato, picar cebola crua e espichar um traço de azeite não cozido. Pão. Noite, depois.
Lembrei-me hoje, durante tudo, disto tão triste: este Verão (que corre ainda), não tomei qualquer banho de mar. Não nadei nas ondas, não me derreti ao Sol, não me descalcei na areia, não senti o apito benignamente temeroso dos senhores banheiros que vigiam, por fastio, os mergulhos das crianças e dos proboscídeos. Não tenho férias (nem ofício) há não sei quantas vidas. Deve ser bom sinal, só que eu não interpreto sinais – dou-os à interpretação.
Sobra-me a beleza. Digo: a do mundo. Estou sempre à beira de um enfarte de tílias. Cardiovascula-me sempre a rapidez dos castanheiros ao vento. É-me sempre renal um cálculo de pedras: ao monte, na serra, prateando-se de Lua para acinte sexual de lobos extintos e de raposas quase isso. Habito instâncias e circunstâncias de perigosa formosura: estes montes, estes arvoredos, estes pingos de cal a que chamam casas ainda não percebi porquê. Vivo correrias aéreas, sentado na pastelaria. Tenho em casa muitos fascículos da colecção Jacto. Deito-me na cama e ando de cavalo? Não: já não sou o aríete deslumbrador de torreões femininos. Deito-me na cama e vou à Noruega. Durmo entre gelos que Jack London estabeleceu na estante que ainda lhe não atribuí. Deito-me no sossego triste, suave e civilizado de todo o corpo que se cansa de cansar-se, libertando sinapses incompletas que os sonhos gambiarram como a palimpsestos de feira popular.
Sobra-me a beleza. A mesma hora consumi muitas vezes, em muitos anos muito diferentes, por lares de repouso folheados a mármore e a datonomástica. Sim: não vou a terra que não vá a mortos. Uma excepção se me imprime (grave, gravosa): quando, há coisa de três anos, fui a Santarém dar duas rosas, regressei por Rio Maior. Passei perto do sítio onde suponho durma Ruy Belo. Era late in the evening, porém, não dava para parar, ir, ver, ler, sentir: S. João da Ribeira, Rui de Moura Belo (1933-1978). Estou perdoado, para já: não fiz ainda quarenta e cinco anos. (E, algures entre 1979-82, lancei sozinho, eu também, a bola de basquete à tabela: e também contra a campainha; não era no Liceu de Santarém, era no da Senhora Dona Maria, em Coimbra.)
Alguns Pedidos Gentis
08/09/2009
& - Primeira referência a Iago Flandres, à Pensão Runa e às senhoras Adelina Esteves e Júlia Príncipe
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Souto, Casa, manhã de 8 de Setembro de 2009
(Sombra: 27 de Abril de 2009, algures)
Beleza antecipada do novo dia: pano de luz, pessoas, animais, plantas, pedras. Setembro, mapa vivo, fronteira do Outono. Possibilidade razoável de escrita, certa de leitura. Luta também razoável com os meandros da consciência. Comunidade linguística vingando vindas, partidas & chegadas, idas, vidas. Uma volta documentária por imagens sempre fascinantes, quais elas sejam no dia novo (em folha).
Poder nunca desistir disto: existência redactorial, digo.
Convívio sem vilegiatura de mortos & vivos, inanimados & cósmicos, onde dói e onde não. A vida também como economia emergente em vi(d)as de desenvolvimento. Poder anestesiar algumas vezes o farol dentro: mesmo sem leitura, sem redacção mesmo. Merecer a praia vertical das dez da manhã em plena aldeia, pleno século XXI. Ver passar as bandeiras, os estorninhos, as viaturas do mercado abastecedor, as sombras da noite caídas aos pés do Sol.
Pequenas, ferozes alegrias: um jazz calado a partir de dentro, com muitas janelas, muitas catedrais-de-são-paulo. Inscrição de notas na agenda multianuária para construção íntima do Senhor Iago Flandres, inquilino da Pensão Runa. Nomes de senhoras: Adelina Esteves e Júlia Príncipe.
No televisor, cenas de putas & polícias, donos da bola & autarcas. Carnavais tristíssimos & quotidianos. Mas beleza subida: algumas casas, alguns sertanejos recantos do rio, pontes traçadas a tinta-da-china no ar-papel-de-seda. Isso sim, muitas vezes.
A NOITE EM BREVE ou CORUSCAÇÕES NO IMO DE SOMBRAS (uma portugalidade delével) - 19
19
Caramulo, manhã e tarde de 3 de Setembro de 2007
Agosto foi um mês chilro. A poluição mundial matou as estações do ano. Setembro arrancou em ademanes de Grande Estio – ou grande estilo. A luz é tanta, que a manhã surge como uma catedral sem telhado, devolvendo folhas de ouro ao céu, onde nuvens e aviões parecem deflagrações de cal.
Ma femme reviendra ce matin de Viseu. Precisamos de ir ao sal e ao vinagre. Há chouriço e fruta em casa, mas vinagre e sal acabaram-se-nos anteontem. Falaremos durante. Depois, à tarde, enviarei um Licor para Paris, oferta a Lídia Martinez, uma excelente amiga nova que me chegou do que vou herdando do editor e amigo José Antunes Ribeiro. São coisas boas para a mais recente segunda-feira da História.
Iniciei o boletim de hoje com uma referência grata a Setembro – e no entanto já anseio pelo Inverno, o verdadeiro. Quando o frio voltar, voltarei ao coração monástico de Rilke e às andanças de Holmes e de Maigret: releituras que a invernia nunca deixa de me presentear com. Um mapa de alegrias perdoáveis, enfim. E também: bolsas respiratórias no frio algodoado. Em casa, em silêncio, assisto à condição florestal das estantes. Sou feliz por quase nada.
Longe daqui, o mar fala barcos. Homens maciços tripulam a dura poesia dessa eternidade. Vejo daqui esses longes tripulados. Antigamente, a minha Mãe olhava o mar com o espanto tranquilo de quem gerou tal coisa. As mulheres e o mar esperam-se desde sempre – e correspondem-se. Nós, homens, embarcamos na incompreensão de tanto amor – de tanta perda. Alzheimeriamos as nossas vidas navegantes. Por isso nos soam as ondas a papel amarfanhando-se.
Estou na manhã com este idioma antigo. Trabalho a lentidão do sangue: circuito-fechado. Fujo só pela memória, por sua mentirosa verdade afectiva. Gosto de saber que António Sérgio nasceu precisamente no dia em que morreu Ivan Turguenev (diz-mo o Jornal de Notícias). Coisas que amor saber para nada, para nada e para quase ninguém.
No parque da vila, corredores babujam sombras coruscadas a ouro em flechas de pó voador. Ninguém transita – e no entanto todos passam(os). Por essas ruas vegetais, ambularam outrora os tuberculosos, meses e anos e décadas e manhãs. A terra bebeu-os, deles resquiciando não mais que vaporosas gazes sem lembrança do que foram em vida.
Soeiro Pereira Gomes e John Steinbeck tomaram-me cedo. Esteiros é um livro inesquecível mas esquecido – eu sei por que e por causa de quem. Do norte-americano de Salinas recordo muita coisa, entre que avulta um pequeno-almoço de toucinho e café magnificamente exposto numa das histórias de The Long Valley, salvo erro. Estas coisas solitárias e mundiais: ter lido, desejar essa primeira vez de volta sem ter partido.
Há muito (me) parti, porém. Ainda hoje, no escuro de algum teatro, me apercebo da impossibilidade do regresso. Na luz cénica, corpos e palavras mumificam a angústia essencial dos vivos. Eu estou vivo no escuro. Começo logo de manhã.
Parti muito. Devo nunca ter chegado. Estas são as minhas palavras? Sim, mas menos isso do que (finalmente) uma verdade: estas são as palavras a que pertenço. A estas palavras (a este idioma) entreguei a minha vida e as minhas mãos: três bandejas que adejam de folha na luz negra.
Adejam, sim. Concedo-me percepções que só a loucura da língua esclarece. Perante uma mulher, por exemplo, digo-me: lírio. Não é um lírio, esta branca magrinha de cinquenta anos que pede um biscoito de canela e um chá verde? Um lírio é: e eu entreguei a minha vida a esta floricultura que não toca, mas sente, seus (de)lírios.
Há outras coisas.
Muitos anos me convenci não amar bem. Amo bem. Algumas pessoas, todas as cores, determinados animais – e a Língua Portuguesa. Só isso me conta. No mês passado, tarde do dia 18, um homem chamado Fernando Jorge embaciou-me a vista relatando-me de seu Pai. Há cerca de dois anos, a mulher morrera. O Pai, aprisionado pelo Doutor Alzheimer, telefonava ao filho às sete da manhã.
– Não sei da tua Mãe. Procurei-a por toda a casa.
Era numa piscina de água do mar da Figueira da Foz. Em torno de nós, os filhos dele borboleteavam como papel-de-seda deixado ao vento. O céu abobodava a cerâmica azul de uma doçura quase insuportável. Perante a praia, a Torre do Relógio marcava pontos, perto de bandeiras vivas. Gente dentro de água flutuava silêncios de rã absorta. E eu ouvia aquelas palavras portuguesas de um destino mil vezes português:
– Não sei da tua Mãe. Procurei-a por toda a casa.
Ao fim do dia, jantámos com as crianças dele num sítio preservado pelo frio de Agosto. Tiraram fotografias. Depois, foi cada um à sua vida: a seu Doutor A.
Vejo escurecidos corsos de homens em terras a que não irei senão pela escrita: gandulos escoceses vivendo e bebendo do desemprego em bares sitiados por divorciadas que dão umas baldas à procura do baldado amor; silhuetas pé-de-arroz em água vietnamita, bicudos elmos de palha, curvados como flores terminais; guardas-nocturnos guardando a noite, aguardando a manhã, por condomínios povoados de médicos e traficantes ciganos, um cãozito inofensivo aos pés; autómatos japoneses tirando a gente fotografias automáticas; gaibéus ribatejando vietnames de Portugal nos salazar’anos; Rilke no Castelo de Duíno.
Mosaicos de 30x20 forram as paredes da pastelaria até altura de ombro sentado. Uma rapariga mamalhuda como uma vaca de pé toma descafeinado por chávena vermelha. Os assassínios da noite no Porto são celebrados na TV com uma gula apetitosa. E lá fora a luz desvela a noite interior dos objectos.
Manhã muito cedo, recordo, acordei ao cabo de um porto de sonhos inatracáveis. Levantei âncora, lavei-me, comi fruta, vi o correio (alguma coisa), parti a tomar café e jornais na sala dos anjos terminais. Eles chegaram pouco depois, cerimoniais sempre e sempre cerimoniosos, cada um a sua mesa e em sua cadeira, separados e sós como recados de família. Tomaram café, fumaram. Aquele escreve num caderno de capas pretas como eu. Aquele pediu-me o cinzeiro. Aquele balbuciou coerências só dela. Aquele pestanejou em morse. Eu assisti.
Chega agora a tarde: pano branco atirado à flanela respiratória; país versilibrista de horas que não rimam senão consigo mesmas; estendal de corvos azuis numa manta de ferro. Chego agora à tarde: levo comigo canivetes idiossincráticos, que eu diria, até, aristocráticos, não fora a minha irremediável vocação de pobreza. São palavrinhas justapostas, não reflexivas mas reflectoras: espelhinhos-de-mão, esmaltes dados a água numa luz que é pedra, que é gente e que é antes.
07/09/2009
Nox

Souto, Casa, noite de 7 de Setembro de 2009
As estrelas trabalham lá fora, em casa frita-se peixe, rega-se as plantas, a brisa dá de leve nos cortinados. Movimentos pendulares tem o coração físico, trabalhador ele também. A noite é nova, rapariga antiga perfumada de pobres jóias. Um momento para aceitar o que vem quando vier. Ofício grave, a aceitação. Tem a ver com as esquinas futuras, as porvenientes outonações dos anos feitos corpo.
De longe recebo luzes, vozes. Chegam do que é mundo, amortecidas no espectro, graves também. Costumo supor presenças, pés nus escrevendo areais. Ontem vi o mar. De espuma, geração espontânea de gaivotas: cruzes de sal na abcissa azul. Um barzinho sazonal vendia copos de café. A jornada tinha sal. Pinheiros florestavam a respiração. Depois, estrada, o cedro, a casa. Pude reconciliar-me com o sono, pude receber vozes, luzes. Não todas, porém, do plano dito real.
Consulto imagens que remetem para a solidão fundamental dos nascidos. O trabalho vigora: nomes, datas, dimensões, ícones, sentimentos, rejeições, chávenas e pires. Mulher de nome Graça, carpinteiro de nome Armindo. Ano 1973, ela. 1959, ele. Algures na noite do mundo, uma e outro. Casas com anexos viveiros para animais alimentícios. Leiras abandonadas pela emigração. Candeeiros a petróleo, ainda, muitos. Formigação ubíqua de políticos com seus acólitos. Cronistas, electricistas, copistas, gondoleiros. Melros, cágados, patos, jibóias. Mulher de nome Selma, pedreiro de nome Diamantino. No mundo da noite. 1962. 1951.
Sentado aqui por enquanto, atento, tonto, português. Capaz de ramificar sentidos ilusórios com a caneta, pensador pendular de vielas e fragmentos frásticos, sílabas como dentes de ouro, tirador de água – e florestador, eu também, como o coração e o sal e Graça e Selma e Armindo e Diamantino.
Em Defesa do Bicho Humano
Souto, Casa, entardenoitecer de 7 de Setembro de 2009
Mais que o poeta vale quem defende
do tigre a vida como a da baleia.
Humano não é ser quem tanto ofende.
Humano é ter por natural ideia
do bicho a natural fraternidade
e neve, pedra e rosa em igualdade.
Conta quem faz, não quem deixa desfazer
do mundo a vida una a viver.
Tarefas domésticas

Portrait of Erik Satie by Santiago Rusiñol
I
Souto, Casa, madrugada de 14 de Agosto de 2009
Ela dá brilho aos anjos que da noite descem do telhado ao quintal cansados de luz, as penas partidas do muito que tiveram de suportar.
Perguntado sobre os abastecimentos, digo-lhe que trouxe velas, azeite, sabão, cordel, sardinhas enlatadas, petróleo, palha-de-aço, fósforos.
Ela esfrega o soalho e os móveis com fluido de abelhas, impregnando as madeiras de sistema solar.
Eu reparo na loja da casa os badalos das ovelhas, as tranças dos cavalos, os sapatos dos bois e o berço que serviu todos os filhos até que se foram embora na permilagem.
II
Ibidem, madrugada de 15 de Agosto de 2009
Com versos vejo mais que versejo.
Ousar a rosa de Eros
Oser – Rose – Eros
é Ronsard, não comigo.
Vê-se verso, vice-versa.
Tarefa doméstica para ninguém,
enfim.
06/09/2009
Antes do Mar

© Joel Meyerowitz
Truro, 1977
Souto, Casa, amanhecer de domingo, 6 de Setembro de 2009
Às vezes os vivos deixam em paz a vida e não pensam, vêem a luz acontecer como se tal milagre tivesse perdão, sei desta vez o que digo.
Bancas de fruta marginam de cor as estradas de cinza, quem vai ao mar deixa em terra toda a dúvida e, se qualquer esperança, toda também.
Na noite que se acaba, a farmácia de serviço serve de farol verde, os derradeiros do turno da bebida recolhem às casotas, dão lugar aos primeiros do turno do pão, do leite, do peixe, da hortaliça, dos jornais.
O tempo arde como um gás.
Então, encharcadas de perfume como passarões tropicais, as senhoras saem à rua e ambulam, maquinais manequins, areados arlequins, sarrafados serafins. Trazem os bicos lacrados a escarlate como malaguetas, sapatos de boa pelica, artelhos duros como nós de oliveira, carteirinhas preciosas repletas de pequenos-nadas.
Já a casa das lotarias estende sortes numeradas de resto-zero e demais noves-fora.
O senhor Ilídio descarrega caixas de laranja e sacos de batata com a ajuda do filho, que tem um relógio partido dentro da cabeça, sobre o lado esquerdo.
Uma criança, julgando-se perdida, chora no jardim público, pensa na vida – por isso chora.
De que lado estarei? Sei desta vez o que digo – mas não sei de que lado. É dia de ir ver o mar, de trazer para casa um pouco de areia tirada a tanto azul, a tanto ouro roubada. A caminho (antecipo já), a delícia humilde de uma chávena de café entre os bicos-de-lacre senhoris que devoram mil-folhas e mil empadas de periquito, um cigarro chupado ao ar fresco, a atenção ao espreguiçar das laranjeiras.
Guardo o resto do papel para ver essa luz acontecer, sabendo-a porém milagre.
05/09/2009
Do Rosto de Portugal
MANHÃ, TARDE E SENHORAS
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I. COIMBRA, UM FIM DE MANHÃ
Coimbra, fim da manhã de 4 de Setembro de 2009
Uma zona arborizada de prédios bons, deitadores de vistas para bandas do rio, que passo ligeiro do coração. Reconheço alguns detalhes de há três décadas – e mais que tanto, até. Por aqui adquiri gramáticas e peripatetismo soliloquaz. Saí daqui há vinte e três anos. Tinha vinte e dois, quando saí. Ainda não voltei. Talvez só volte já cadáver, como dizem os bombeiros que chegaram tarde ao local do desastre. Não sei. Nunca se sabe. Esta manhã é bonita: é uma manhã conimbricense, a luz é familiar, as árvores e os cães são tuteáveis, cor-e-salteado. As mulheres fumam. Há quem leia jornais. Vi uma pessoa com um livro. Há vinte e três anos que não via disto. Num café antigo perto do novo Estádio, Bolton e Liverpool vão-se empatando a zero (28m51s de jogo). Fui com toda a sinceridade de todas as terras onde já vivi. A verdade é que sou daqui, porém. Não há que enganar(-me). Uma pessoa ama de cor-e-salteado quando e quanto ama. Por mais anos que a queimem, uma pessoa ama de cor-e-salteado. Conheço isto tudo, sobretudo o que descubro. A manhã acaba em poder do sol. A cara da manhã toda ao mesmo tempo: a luz é uníssona, ubíqua, multívoca, toda simultânea. As árvores traem sem maldade a aldeia-em-nós. Senhorinhas utilitárias metem combustível nos carrinhos senhorinhos. O dono de O Nosso Café está estabelecido desde 1964. Eu nasci em 1964, estou portanto estabelecido há tanto tempo quanto ele. Somos pois, por assim dizer, colegas. Colegas são aquelas senhoras – eu sei. Bolton, 1 - Liverpool, 1 – aos 40 minutos. Faço e desfaço horas com o meu distinto perfil de cavalheiro. Olha: um Opel Manta. Aos anos que não via um Opel Manta. Tivemos um vizinho que tinha um Opel Manta. O senhor do Nosso é Senhor Manuel. Pessoas de cabelo que deveio branco. Mulheres bonitas e envernizadas. Setembro também bonito. Lojas de brinquedos, de livros, de trapos. Pus dois euros no euromilhões. Nunca se sabe. Passa longe um homem que conheço. Chama-se David. Recordo nomes. Os nomes ficam, as pessoas passam. Estou aqui e recordo um casamento em Lorvão. Fui com a minha Irmã Xelinha e com a minha também Irmã Gracita. Levaram-me, quero dizer, eu era pequeno como nunca mais deixei de ser, apesar dos centímetros entretanto. Lembro-me das taças de pudim cor-de-rosa. Lembro-me de uma bateria. Lembro-me de um rapaz maior do que eu que vestia fato completo, o que me maravilhou porque o fazia grande como os grandes. Um homem diz
– Incompetências que a gente vê –
e sai porta fora. Converso com o senhor Manuel acerca dos Taborda Nogueira e dos Moura, meus professores antigos e bons do liceal tempo. Estou em Coimbra, o Sol renasce a minha cidade. Um casal: ela de ombros morenos presidindo a um vestido roxo muito (in)justo ao corpo. Ele de camisa branca listrada a castanho-pardal. Lá vão, coitaditos. O futuro ainda mora aqui um tempo mais. Está por aqui perto sepultado Vitorino Nemésio. Há cartazes grandes de propaganda autárquica e da outra, de Lisboa. Também gosto de Lisboa mas menos, por causa do patriotismo regional. Nunca fui a Paris, nem já quero saber: é verde, não presta. No Centro Paroquial de S. José, aqui tão perto, vimos e ouvimos um guitarrista chamado Roberto Olabarrieta, acho que é assim que se escreve. Pass(ad)os surdos no coração, como gemidos sentidos em casa pequena. Operários em folga de almoço, pintores da construção-dita-civil. A luz terrena e alta: atiradora de pontes, deflagradora de árvores. Bolton, 2 - Liverpool, 2: bom jogo andante. Exerço a minha boca, língua adentro. Aquela senhora chama-se Isabel – eu sei. Berlim, Milão, Capri, Odessa – nada disto. Tudo isto: Calhabé, Ginjal, Casa Branca, Olivais, Rocha Nova. Tempo de me acertar sem terrores nem euforias. Deus te pague, que eu estou um bocado à rasca. De momento. Digo: de momento. Onde era o cinema do Girassolum, agora é IURD: Centro de Convenções, chamam-lhe os gajos, papões evangelistas com sotaque de casa-de-alterne. Fui ver. Tive pena. No dia 17 de Maio de 1985, fui lá ver um filme com o Robert De Niro e a Meryl Streep. Também lá vi um filme com um cão que dava peidos, o que me ri deliciadamente escandalizado com o raça do cão e os peidos do cão, chamava-se Hotel New Hampshire, o filme, o cão não me lembro como se chamava, era baseado num livro do John Irving, agora o desgraçado do Cristo é lá ladrado em brasilês. NATO, Afeganistão, Magistrados do Ministério Freeport Público, equipa de futebol do Freamunde toda de quarentena por causa da porca da alegada gripe-dos-A-porcos, essa lend(e)a do piolho farmacêutico à escala global. Tempo. Pássaros calafetam frinchas do ar. O ar é um grande barco azul de costado amarelo. A solidão permite a fuga ao imo sentimento de vergonha. Que o menino era para ser isto, era para ser aquilo. Jogatana, viver. Ali fechou uma fábrica. Céus de Coimbra, homens de pêra.
– Amanhã mesmo –
diz uma mulher de chapéu. Aos anos (vinte e três) que eu não via uma mulher de chapéu. Amanhã, o mesmo – digo eu, que há quanto-tanto não via um chapéu com uma mulher por baixo, a sul da sombra. Os pintores pagam as bicas e as meias-macieiras e vão-se embora. Uma carrinha representante de batatas-fritas-lays. O meu tempo era pala-pala. O século XXI. Isto não ser, por exemplo, 1959. Ou 1964. Descida de receitas nos casinos. Dei dois euros ao euromilhões. Uma volta mental pela chuva, pelo frio que fazia. O corpo sensível ao lume como uma febra pensativa ao carvão. Toques laterais no peito, nos braços, na língua e em Coimbra.
II. POMBAL, A MEIO DA TARDE
Pombal, tarde de 4 de Setembro de 2009
Lentidão dos olhos acalmados de sol, a meio da tarde. Vê-se daqui a linha-do-comboio, parte da Charneca, um pano amplo de céu. Tudo em ordem. Fadiga do foro físico. Casas paradas, carros também. Um rapaz conhecido, como é que se chama, acho que é Rui, lá vai ele de pasta na mão como o boneco da Regisconta, camisa atormentada de calor, o cabelo porém correcto, curto, limpo. Já por aqui andei um milhão ou dois de vezes. Não tem importância, não conta, não faz mal nem bem. Estou acordado. Falei com a minha Irmã ao telefone. Disse-me coisas. Os anos vencem. O Sol é uma maravilha alta. As pessoas também são maravilhas, só não altas todas. Algumas são altas dentro: são fundas. Vêm todas nos olhos. Estendem as mãos: são raras. Estou fatigado. Sei línguas. Conheço paragens: carros, casas. Estou a pensar um livro. Ando aqui parado. Fui a Coimbra de manhã. Vim-me embora. Amanhã, diz.
III. DUAS SENHORAS A MEIO DA TARDE
Pombal, tarde de 4 de Setembro de 2009
A Senhora Newhaven não é correspondente da Senhora Luzia, mas entender-se-iam ao chá (a Senhora Luzia diria e iria por café) sem problemas. As mulheres entendem que a vida não é uma coisa que se atire fora agora para ver se é possível ir buscá-la daqui a bocado. As mulheres e as senhoras. Eu tenho um grande respeito por mulheres que são senhoras. Tenho. Como sei escrever, escuso de pensar. Newhaven,
04/09/2009
03/09/2009
Alvor

Rainha do Café Angola

02/09/2009
Dentes, Falcões e Pré-Românticos - uma Relação

01/09/2009
Até Ser Pedra

Pássaros Frios e Duros e Propícios

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