12/03/2009

Fala o Ex-recluso

© Jennifer Gordon

Fonte Nova e Pombal,
manhã de 4 e tarde de 11 de Março de 2009


9h14

Não sei o que fiz da minha vida.
Sei o que não fiz da minha vida.

9h18

Está decidido: hoje vou cortar o cabelo.
Mas faço a barba na pensão.
Não suporto que mão alheia me traga lâmina à garganta: só tenho esta, não me cortarão o passado nela.
Nenhuma decisão corta o passado.
Uma lâmina, sim.
Não sei o que fiz do meu futuro, excepto que hoje vou cortar o cabelo.
Mas faço a barba na pensão.

9h27

Um gajo matar-se, não.
Não faz sentido.
A vida há-de encarregar-se de se tirar (d)a vida.
Está decidido: quando o subsídio pingar, arranco estes dois dentes, o de cima e o de baixo.
Tem de ser um dentista barato, mesmo que doa.
Há coisas gratuitas ainda, já não há coisas graciosas.

9h32

Às vezes penso (penso agora) que a minha vida poderia ter dado um barbeiro – ou um dentista.
Não deu.

9h48

Lembrei-me do brasileiro Badaró.
Não sei porquê.
Estava na prisão quando ele morreu.
Talvez me tenha lembrado do Badaró para me desculpar da lembrança da prisão.
Badaró poderia ter dado um bom Beckett.
Um bom Pinter, um razoável Sófocles, um Miller jeitoso, um Tennessee aceitável, até um Osborne bem esgalhado, um Ionesco porreiro.
Mas Badaró nunca deu um bom Badaró.
Isto acontece comigo, também.

9h51

Acho que hoje está a ser mais pensativo que de costume depois da prisão.
Na prisão, era como hoje: pensar tudo a toda a hora e sobre toda a folha.
Mas lá não escrevia, nunca escrevi.
Não sei por que nem para que o faço agora.
Penso: a infância terá mesmo de ser?
Ou assim: a infância terá mesmo de ser o pretexto de tanta veterania?
(Depois, agora, esqueço: uma formiga debate-se de costas no tampo da mesa da pastelaria.
Não a esmago, a vida dela há-de encarregar-se disso e dela.)

10h05

Carpintaria é um ofício bonito.
Aprendi na cana.
Não posso começar uma oficina, não tenho dinheiro para tanto.
Não há emprego cá fora.
Faz-me uma cara oficiosamente triste (mas é tristemente oficial) a menina da Reintegração.
O psicólogo faz uma cara igual à dela.
Às vezes, aparece um biscate.
Faço, pagam-me umas moedas, dá para tabaco e para uma sopa fora da pensão.
A minha especialidade é fazer gavetas à medida, tiro as partidas e meto as novas.
Faz-me jeito: aplico isso à minha vida de um dia por dia, agora que escrevo fora da gaveta.

10h08

Não hei-de morrer com 47 anos, hei-de?

10h12

Lembro-me de pensar assim na prisão: “Um dia isto arde tudo.”
Mas não.
Pelo contrário: hoje chove em toda a parte.
E hoje é um dia.

10h24

De cabelo menos comprido, sem barba e menos dois dentes – serei o mesmo homem?
Sim, mas com menos corpo.

12h08

Almoço na pensão.
Sopa de repolho, azeitonas, um papo-seco, quatro salsichas das pequenas com batata frita e ovo estrelado.
Um café de cafeteira em chávena média e um cálice pequeno de aguardente.
Não servem jantares nem pequeno-almoço.

14h14

Um ar de não sei quem: vi-me atravessado de camisas, o rosto cortado no reflexo da montra.
Preciso de não pensar tanto – ou de não deixar o rosto pensar.

15h09

Uma semana inteira mais quatro dias para vir o subsídio.
Dá para a pensão e para uma semana de cigarros.

16h00

Ciganada por todo o lado, por tudo quanto é sítio e mundo (imundo).
Metiam nojo lá dentro, metem nojo cá fora.

15h18

Coisas que não fiz na minha vida: pensar mais cedo, perceber mais cedo, não deixar que se tornasse tarde.
Coisa que fiz: mal, matando um gajo que me fez mal.

16h48

Pré-noite pior que a noite.
À noite, durmo, o comprimido da Reintegração ajuda, não sei o que faria de tanta noite e de tanta luz preta sem ele.
Mas a pré-noite é pior.
Quase nunca um convite para uma aguardente, dois dedos de conversa sobre bola.
Muita gente – e nenhuma gente, cá fora, quando escurece, quando parece que nunca mais há ser dia, como lá dentro.

19h35

A noite usa as casas para emitir sinais.
São sinais eléctricos.
Não são para mim, os sinais.
A luz não se me dirige.
Talvez eu saiba porquê, não por não saber o que fiz da minha vida, mas por saber o que não fiz dela.

20h48

Convidaram-me para um petisco de iscas na casa-de-pasto em frente à retrosaria do grego.
Aceitei.
No fim, fumei do tabaco deles.
Um chama-se Gregório e é representante de máquinas agrícolas, não é daqui mas é como se fosse, bate a zona há quinze anos ou mais.
O outro chama-se David e é um bocado manhoso, já andou na pintura da construção civil e a recolher fichas numa pista de carros-de-choque de feira em feira.
Também já esteve preso, mas tempo menor, coisa de nada, um ano e picos.
Está junto com uma Marília que faz limpezas.

5h13

Acordo sem retorno a esta hora.
Não sei porquê nem para quê.

Três Dias

6 de Julho de 2008

(Ambas as mãos sobre a mesa, nenhuma das duas escrevendo, vais ter de me ler a partir dos olhos ambos, que ao ar atiro como pombas de concurso de tiro, como estrelas de concurso de tiro.)

9 de Julho de 2008

A corola solar abre para baixo a descomunal flor do mundo.
Fora de brincadeiras, a vida parece-me um caso sério.
Passa a flor Maria do Rosário, mulher da flor senhor Edmundo.
Humano jardim colectivo, do berço ao necrotério.

12 de Março de 2009

Se hoje fizer sol, hoje não chove.
Oxalá que o faça de manhã.
Se fizer sol, Rimsky-Korsakov.
Se chover, então Chopin.




Bom dia, Iké-Kikas e Ca'litos



The Boyhood of Raleigh by Sir John Everett Millais, oil on canvas, 1870.

11/03/2009

As Quatro Estações

Foi há mais de trinta anos, caramba! A 5 de Novembro de 1977, vi o meu primeiro texto publicado. Chamava-se (e ainda se chama, enfim) As Quatro Estações. Saiu na página infantil de O Diário, um suplemento de artes (muito) juvenis coordenado por um tal Oriam, anagrama de Mário Castrim.
Recordo ainda, claro, a excitação de ver o nome no jornal, o milagre da caligrafia ter devindo letra impressa, essas coisas (ainda hoje) pueris.
O poema tinha de ser o que era e o que foi: uma coisa neo-realíssima, própria de quem tinha 13 anos e andava na escola, em Português, a estudar
Esteiros, de Soeiro Pereira Gomes
.
Cá fica, para documento.




As Quatro Estações



Quando chegou a Primavera
transbordou vida nos campos e nos
olhos dos homens. Houve até quem
dormisse por entre madressilvas
congeminando formas de melhorar
a vida.

E no Verão, quando o sol ardente
lambeu os corpos e tornou mais
difícil o trabalho aos aldeões, os miúdos
assaltaram o rio, buscando
na frescura das águas aventura e
desporto.

Chegou o Outono. As folhas das árvores caem como
lágrimas que largam o que foi
a sua companhia. E a poesia dos homens
morre com o enterrar das enxadas
na terra de sempre.

Mas cai o Inverno, e não transborda agora
vida nos olhos dos homens, nem os garotos
procuram aventura. A chuva
encharca a terra e alaga a alma
aos homens. Afoga-se na taberna
o desejo de progresso.
Terras de sempre.



Daniel Santos Abrunheiro
(Pedrulha – Coimbra)

Paul Simon 1991 Tokyo 05/14 Proof

10/03/2009

Finge Comigo, que Eu Mostro-te uma Coisa

© Edward Steichen
The Flatiron
(1905)





Souto, Casa, tarde de 10 de Março de 2009





Pelas ruas seguimos implantando a república pessoal,
esta mon’anarquia a que pertencemos por hábito.
Não há tempo, por momentos pode não haver tempo.
Cerejas, palavras, paisagens cerceadas por esquinas
– tudo se emaranha mas tudo finge que não,
que não se emaranha e que se não sabe que sim.

Mas emaranha. A aranha que arranha, a carne exposta,
a loja que vende chapéus ainda, o sobretudo daquele homem,
a estupenda indiferença dos monumentos a nós,
o perambular das contabilidades republicanas de cada um,
o rapaz que dá lume à namorada na paragem do autocarro,
a aluída fábrica de artefactos de borracha, a cruz da farmácia,
a comida atirando lições de estratégia internacional,
os tijolos do Diabo no estaleiro de Deus.

Figuramos na galeria promíscua manequins descamisados.
As famílias assemelham-se como filarmónicas de barro miniatural
– e o sol propaga o amplo incêndio branco de março,
trabalhando as esquinas em prol da orientação dos cegos.

Ciclistas debandam da fábrica ao urro da sirene,
patos cisnam num tanque pútrido,
revoadas de panfletos de circo quebram o sorriso,
à varanda a Senhora Graça penteia-se,
um menino com rosto de leopardo caça um caracol
– tudo finge que não e todos, que sim.

A Robin a dar-lhe com o sol

Passageira do Eternistante


© Robert Mapplethorpe
Tulip
(1988)





Souto, Casa, tarde de 10 de Março de 2009





De ocidente um pano de pinheiros escurece a fresco o azul.
Um poste de alta-tensão faz de torre de menagem.
Há uma quietude solar que entorpece o coração.
Não há tristeza no semblante das árvores muito aquecidas.

Frutificam aves, as sombras muito puras da hora.
Ouço o ronronar dos camiões serventes do comércio & indústria.
O sangue da mão esquerda é de um pulsar arenoso.
Timbram bem os brilhos, os ruídos da porcelana aérea.

A roseira do vizinho, muito enxuta, pede uma esmola de água.
As unhas descascam-se sozinhas como peles de cobra.
Extirpa-se do tempo uma eternidade passageira.
Há um damasco por dentro das coisas do florilégio.

Todas as casas são ao mesmo tempo, como as coisas.
Dona Gervásia parte em a missão de testemunhar Jeová.
Leva consigo a perna quase-nada coxa e Jacinta,
que também nunca se casou nem casará.

Espreguiça-se Serafim, o assador de frangos.
Gosta de hermenêutica e gasta filatelia nas horas vagas.
É vaga esta mesma hora, a oriente do nosso quase-pensar.
Aproveita-se o momento, cuja doçura é de manta mole.

Ouço um piano eléctrico dentro da alma.
Recordadas gotas de água desenham frinchas de sótão.
Uma paz química enobrece a metafísica.
Eléctricos rios pianam tarde ao longo longe.

Corusca um par de fendidos olhos felinos.
Mulher que usa a boca como um álacre trapo de lacre.
Mexe-se um pouco um ramo de cedro.
A rola é toda luz, confere o poema e vai, passageira.

Bruckner com Christus

OS OBJECTOS PARECEM-NOS MUITOS e UM LEVANTAMENTO


© Sandra Bernardo
Pudor - 1
Pombal, 26 de Fevereiro de 2009

Fonte Nova, manhã de 10 de Março de 2009

I. Os Objectos Parecem-nos Muitos






Os objectos parecem-nos muitos mas são poucos
porque cada vez menos visitamos os muitos
e mais os poucos que nos deixam viver.
Os muitos deixam-nos a viver.

A chávena o pente a retrete o cinzeiro.
A cadeira a cama o rádio a janela.
A árvore a parede o sabão o fósforo.
A caixa o lápis o livro a vassoura.

O dia diz-nos bom-dia e põe-se a crescer
como um fruto controlado pelo armazém
onde a noite faz de capataz plenipotenciário
onde a varanda deita para o horto de lixos.

A caixa de fósforos como possível metáfora disto tudo.
O fogo futuro dentro da caixa de tudo isto.
Duas aberturas ao livre-arbítrio.
O livro a mesma coisa nisto tudo isto.

Um pouco de atenção a mais e é o horror.
É o horror das rodinhas dentadas rotinas.
A cidade esparramada como uma raia de cal.
As empregaditas guelreando poemas e esfregonas.

Homens já velhos ainda ou já de sapatilhas.
Canários de um mutismo amarelo-prisão.
Em as casas as cadeiras as conchas de alumínio.
As avós de estanho mumificadas de súbito como pássaros.

Um repente de décadas coadas pelo ralo.
O lavatório ganhando estrias de cera manual.
A insurreição da erva nos interstícios da fala.
A árvore a chávena a caixa a cadeira o horror.



II. Um Levantamento

Um levantamento súbito de pássaros deslocou-me a atenção para outro dos flancos da manhã nacional, a um canto inócuo do País. Floresciam betões para poente, ao alto das bouças que os camionistas da pedreira atormentam noite e dia e epicamente. Empregaditos bancários (todos iguais como pardais) vieram tomar a bica de mínimos espetados no ar-condicionado. Distraí-me logo que pude. Pensei no mês de Outubro, pensei na Bélgica, pensei no silêncio da pétala seca quando cai para o naperon. Desdistraí-me e pus-me a ver tudo o que podia, na condição de não ser para dentro. Um rapaz quase mongol equilibrava a chapadas de banha farpas do canavial do cabelo junto a um balcão de bolos e queijos. Uma mulher comia azeitonas retalhadas num transe budista melhorado pela proximidade do fontanário. Uma camisola azul passava sem corpo rumo às urgências, sem especificar quais urgências nem de quê. Um sinal de haver bifanas tinha acento grave no verbo. Da montra dos electrodomésticos, a Lia Gama fazia de grande actriz numa eira perto de si. Bolhas de asfalto hematomavam o piso da estrada do Norte. Um comboio riscou a pauta em peregrinação semigrave. Cheirava a café-com-leite e a torradas-com-margarina de além da porta de acesso privado da biblioteca municipal. O rio seguia chapeando a estanho uma veia de terra ideal para rios e para estanhos. Por volta das onze e um quarto, já cheirava a assadura na churrasqueira. Distraí-me outra vez para concluir que somos todos apenas subúrbios da cabeça, essa bouça alta de onde, de facto e de súbito, se levantam os pássaros.

09/03/2009

Repetição

© Emmet Gowin
Edith and Ruth
Danville, Virginia (1966)





Souto, Casa, noite de 9 de Março de 2009



A repetição das ovelhas na vida
Como a dos carneiros na insónia
As pessoas galeriadas tais quadros ex-vivos
Ex-votos de seus rostos mesmos
E o pudor da vida contra a sensata morte
E andar nisto ao mesmo dizendo-o diferente
A sorte a morte o destino o tino a correnteza
Depois vem o ano a gente dá-lhe um nome um número
A gente é feliz se faz sol perto da capela
Onde o homem do peixe diz alto como um sino
Ligado a Deus por bateria e preços a giz
Esbugalhados os olhos vítreos dos frutos do mar
Os frutos do mar comedores de cabogramas
Infâncias e senectudes e latas e sons pressurizados
Tudo num tempo de bocas firmes e desoladas
Tremem um pouco as mãos na acepção certa
Tinem os pires de porcelana nas têmporas
A cabeça é a rosa a que sobe a chuva de maio
Muita gente se pudesse evitaria o nó dos Francos
Congestão de tráfego em direcção à do Brasil
À dos Estados Unidos da América
Em Celorico da Beira a esta hora fazem sopa
Em Setúbal um homem está desesperado mas finge
Em Lagos as coxas morenas da casada abrem-se ao rapaz
Vão os animais humanos frequentando a duração
Lá em cima lá em baixo as estrelas gaseiam espirais
Fragmenta-se o dente na dura palavra que o move
Os mitos são baratos são muito acessíveis
Inez de Castro em software à escolha
Com Pedro ou sem Pedro e Dom Afonso a fazer de Darth Vader
É tudo tão fácil cada vez mais fácil com a idade
A gente vê o tabuleiro sem pedras já sabe como acaba o jogo
Dois ou três telefonemas combinam a esplanada do rio
Num sábado fingimos como se tudo fosse Setúbal
Ovelhas e carneiros onde aquele homem que finge por amor
Aquele homem que finge por amor de quem ama
A esta hora numa sala tomada pela noite ouve-se Bruckner
A esta hora é possível ouvir um ribeiro dormir nele
Tantos barcos voam no fundo do mar cheios de madeixas
Os peixes devoram os cabogramas não enviados
Ondulam numa pessoa tantas austrálias tantas astúrias
À boca sobe Celorico da Beira desce o ralho mais azedo
Não estamos aqui muito tempo não nos dói nada
Nos coliseus juntam-se as ovelhas os carneiros os holofotes
Celebra-se algures a comunhão de uma ave feminina
E Bruckner acaba amanhã é outro homem mesmo em Lagos


Raça que deu novos mundos ao Mundo para maior glória pátria, vá lá voilá

Chegadas e Partidas (e Estadas)

© Tina Modotti
Roses
(1925)





Fonte Nova, manhã de 9 de Março de 2009




I

Do lado da manhã chegam as mulheres amarelas
de crianças loiras naturais pela mão branca.
Adquirem bolos e hábitos, alguns torpes, outros
claros como clarins, as faces vermelhas como galos.

Há quantos anos me sentei para esperá-las?
Há quantos anos me sentei para desesperá-las?
Estou sentado do lado onde o pão envelhece
– e sou feliz, um pouco trágico também, mas

agora menos.



II

Nada me custa ver daqui um comboio ligando árvores.
É do tempo dos êmbolos a vapor, nasci há muito mais
que apenas isto.
Estou sentado noutra idade talvez minha também,
ainda.
Porque não conheço pessoas, crio nomes.
Passo a manhã a criar nomes em cadernos cegos.

Mulher vestida de castanhos calcula o dia, as moedas.
Só tomou café, mas pensa frangos, marido, filhos.
Parece um pardal de óculos na cabeça,
um pardal imitador de apresentadoras de têvê.

Estou sentado do lado onde as águas aplaudem a terra.
Nada me custa receber o frio vegetal das sombras.
Sou o homem que se perdeu na serra, no futuro:
o homem cujos ossos ligam genealogias a fragas.

Nada ligar me custa.



III

Chego a um ponto de desembarque.
A gare é varrida pelo vento mais que pela mulher de bata.
Voz altifalada diz Lisboa, diz Vila Franca das Naves.
Por mim, diria Southampton, diria Marseille, mas não
diz.
Venho coleccionar pensões e mulheres amarelas e corredores pluviais.
Perto, o rio que me deu heptassílabos, um dia frio
que já lá vai.
A luz bate-me bem na cara, desaba-me o casaco,
empurra-me pela frente e pela fronte, isto é parecido
com a felicidade até doer.
Passo o Astória, o Joaquim de Aguiar, a Couraça, a Torre,
o Botânico, o Seminário, a de Moçambique,
o S. João Alto, a Serra do Senhor, chego ao Corvo.
O Corvo
diz Marseille,
diz Southampton.



IV

Sou a máquina de enviar rosas.
Flúem no desconhecido éter, enviadas.
Tenho um posto de recepção solar.
Nunca desisto de traficar cifras, mensagens, imagens,
rosas recebidas e enviadas,
chegadas e partidas.

Pascal Comelade - Russian Roulette

Bom dia, Zuquita e Mimocas



08/03/2009

O Campeão Europeu

Hipóteses de legenda:

1- É cada vez mais vital ser-se Moreira.
2- Este amanhã já cá canta.
3- Nem no PCP gostava dos poemas do Alegre.
4- Isto de ser zita tem que se lhe abra.
5- Não é os braços.

Bom dia, Margarida



John Singer Sargent
Daughters of Edward Darley Boit (1882)

07/03/2009

EU É QUE SOU O TIO-AVÔ DA MARGARIDA ABRUNHEIRO (DE PINHO SARAIVA)


Esta rosita nasceu-nos hoje, 7 de Março de 2009, às 15h05.
É nossa e dos pais: José Eduardo e Lídia.
E a rosita é linda.
Longa vida sã para a Margarida!

Olhos Vivos - 2

© Sandra Bernardo

Quantas Rainhas?

Quantas rainhas tem a República de Portugal?
Descontadas as do catálogo histórico, as que tiveram nome e vilas e matrículas na santidade, há ainda neste País rainhas que nunca foram princesas nem meninas?
Talvez sim.
Provavelmente, sim.
Pelas ruas, ao sol e à chuva, as rainhas levam ainda erva e lenha, instauram o lume nas casas chãs, perfumam ainda de laranjeiras o contraste do céu, jogam ainda nas eiras o xadrez do milho.
São rainhas porque são mães, sobretudo depois de avós.
E nunca desistem desta república, mesmo que a vida lhes mate o rei cedo de mais.

Habitação e Povoamento de Pombal - 7

7

Noite de 9 de Fevereiro de 2009

O tempo vinga sozinhas as pessoas. Rua dos Bombeiros Voluntários de Pombal. Circunscrição e redor. Serra baixa. Cozedura e coração. Gente que procura sopa para levar para casa em embalagens de plástico. Gente só. Gente só gente.
Estou atento às miríades, à pressão do cristal de cima. Estou provavelmente no auge da arte que me coube. Estou em Pombal. A tinta flúi, idiomatizante, rosto escuro no claro instante. Deitada, cada existência galvaniza seus pontos erógeno-turísticos. A vida do foder pelo foder: turva, capciosa imitação do amor em canções.
Deitei a vida barco afora, mar adentro: devo tê-lo feito sem pensar alheiamente. Era uma vez um menino como todos os meninos. Então, no século seguinte, despeço-me de Rilke, deixo-o morrer ao cabo de 1926 (29 de Dezembro).
Tirei fotografias frias por estas ruas sem calor. Andei sozinho por elas, reverifiquei a insensatez humana do comércio, concedi-me versos de passagem, lavei os olhos a frio, suturei de lã o cabelo finíssimo. Eu fui, já estava, voltei.
Em Pombal, as ruas da segunda-noite-feira molham os olhos. Uma escuridão balança alta, funda. Os versos tornam-se inevitáveis – podem ser uma doença, podem ser.
Grande é a formosura da língua que atravessa a pessoa. E
E as crianças que me morreram em criança! A filha do senhor Veríssimo, morta de coração interrupto; de três do senhor Morais, dois: a menina e o menino, sobreviveu só o Chico; não sei quantos da família dos Cucos; a irmã do Augusto do Bairro; o irmão do Victor Detective – tanta permilagem na minha saúde inverosímil.

Dois Poemas e um Bosque para um Pacto Elegante

© Clarence John Laughlin
Enchanted Tree number one (1947)



Fonte Nova e Souto, Casa, manhã de 7 de Março de 2009




I. Aliança, Pacto e Elegância

Esta é a minha aliança, o pacto que posso
com a festa elegante de viver acordado.
Este é o estabelecimento das coisas possíveis,
da teia meteorológica à sinceridade possível,
dos copos plásticos com groselha na praia
à vicissitude dos bailes-das-velhas, sextas à noite.

Chegar a um dia sem muitos dias de então a vante
– e lembrar esta mulher de cabeça amarela,
camisola muito amarela e calça preta, botas pretas:
seu inflamado ar de cabeleireira amarela.
O socorrista namorado dela: banha, cara encarnada,
sapatilhas grossas com válvulas hidráulicas,
calças com bolsos na parede das coxas,
o cachucho de lata amarela no indicador dextro.

Dizer estes mundos com elegância – doravante, ainda.
Recolher à pastelaria mas velejar no árctico possível.
Não ter que fazer por dinheiro mas trabalhar.

Por outras palavras: ser um títere, um titiritero,
como na canção do Serrat.
Aderir à movida é que não, nunca mais.
Preferir-lhe o Árctico, os Campos, a inocente
babilónia-dos-campos, o Bosque, mesmo que
na pastelaria.

Esta é a minha elegante aliança, o pacto convosco.



II. Bosque

A palavra
Bosque
abre frestas respiratórias,
raposas ligam os pontos tracejados a árvores,
uma veia de prata ribeira seixos de ouro outonal,
a ponte de pau é mais postal que ponte,
pomares e pomares de maçãs resistem ao griso de cima,
do húmus chega um recado matermortal,
em alguns troncos a navalha escreveu corações flechados,
pessoas sozinhas como animais plantam a eternidade,
canaviais-da-Índia fulguram celas benignas,
morrer deixa de ser possível ontem,
um avião faz aos picos dos choupos o que as raposas,
a queimadura das laranjas deseja a água da boca,
a beleza começa a ser excessiva,
a casa do guarda-rios é branca de janelas verdes,
sente-se com a pele da nuca, mais que se ouve,
uma risada infantil trinando avezitas,
o coração visita os seus cantos exteriores
e canta vegetalmente, canta os seixos,
canta como um animal,
a palavra
Bosque.

Bom dia, Fêjota



John Singer Sargent
Venice par Temps Gris

06/03/2009

Umaspéce défe






Souto, Casa, noite de 6 de Março de 2009




O teu amor por mim é umaspéce de faxismo
perfeitamente compreensível e aceitável, deribádà
idade que já vou tendo, a ponto de já nem bem
idade ser mas época, o teu amor por mim é assim,
é.

Ainda bem que assim é,
podemos sempre ir a manifestações,
ter até, sei lá, opiniões,
sermos iguaizinhos aos outros faxistas
casados como coelhos em bancos traseiros de fiats
ritmos e coiso.

Não te ’tejas a rir, q’a vida não ’tá p’ra desmanchos
nem p’ra desmandos,
’inda se fosses pivô de telejornal pisca-olho-bate-orelha,
podias até fazer-me uma festa, chamar-me o-meu-sexual,
assim não podes, não sou engenheiro da telecão, não ligo
telefones por computador, não gosto da bica no colombo,
ós sábados de manhã não passeio o expresso como um cão
ensacado à trela ps-psd, peço-te muntadesculpa mas leio
coisas além do peregrino e do codex,
seu te dissesse assim ó-darrpente qaté leio a Yourcenar em francês mesmo
e coiso e assim,
tu arrepiavas-te mazera toda aos gritinhos pá tua cabeleireira,
vejo p’ra dentro e leio p’ra fora, isto não tem graça nenhuma,
graça era se nos saísse dinheiro a ponto de podermos sair
desta Piolheira que desde o Buíça e o D. Carlos é cada vez mais
piolheira, 48 anos + quase 35 de piolheira, ainda não fui
cagar à campa do morcego magrinho da santa-tomba mas
hei-de ir, tu ádes ver se não eide.

Se queres mêmo gostar de mim,
gosta como debe-de-ser,
deribadófáto deu ter os meus melindres e os meus berlindes
e bibó faxismo.

O que Há, o que se Passa – sem ser pergunta


© Toni Frissell
Weeki Wachee Springs (1945)





Souto, Casa, noite de 5 e tarde de 6 de Março de 2009



I. Gestos

Gestos há suspensos de si mesmos como louça
A colher que leva a mão à boca
A terceira mão que te ajeita no escuro a manta
O ouvido interno que abre palácios de areia no entendimento
O lápis que se quebrou quando escrevia música
A pausa inquieta dessa quebra
A música dessa louça suspensa no gesto.

Gestos passam-se na areia como deuses de terracota
Como gnus fugindo de um incêndio total no céu
Como as mães quando adoecem de mais amor ainda
Como se eu não soubesse o que quero dizer
Como papel manchado de sebo lírico
Como uma recordação de eléctricos ampliando o rio
Como se não fôssemos todos para onde vamos todos.



II. Valsa

O aparato fontanário da música de valsa atira lunambulismos
de azinhagas telhadas muito alto por arabescos rosários.
Damas altas como flautas de champanhe tomam água fria e
riem-se à beira das lágrimas, enervadas da própria beleza.



III. Hospital

Trazem os velhos para as urgências, dão um número falso de telefone na inscrição, pisgam-se nos carritos ferrugentos, os velhos abandonam-se às senhoras do voluntariado, que parecem freiras de bata, aparece logo um tisnado qualquer com uma bíblia brasilesa, cheira a injecções de pus, do lado da psiquiatria chegam gritos que assomam de poços perplexos, o carrinho das bolachas guincha saladesperadesespera, então muita saùdinha é o que mais lhe desejo e não se reprime um bocejo.



IV. Lã

Se te não falo com mais fáceis palavras ao entendimento,
será por causa, não sei, dos palácios de areia no entendimento,
ou do aparato valseado de cada fontanário.
Custa-me que a vida não seja tão hiperbólica como merece.
Depois, há a metáfora mundial da televisão, os carneiros humanos cabisaltos mamando o pus dos novelastros, dos futebolastros, da merdastra que me faz falar-te como se a poesia não fosse, como de facto é, a mais curta recta entre dois carneiros.



V. Peditório

À porta do hipermercado, peditório.
Não para os pretinhos de África nem para os branquinhos da Administração.
Peditório de rimas.
Uma senhora de seus 50 e tal anos, um rapaz com ar de ler paucoelho e danbrão.
Cada um com seu saco.
Recolhiam rimas.
Perguntei-lhes para que eram as rimas.
Perguntei-lhes para quem eram as rimas.
Disseram-me que para ajudar as esposas malfodidas de dentistas a fazer sonetos e assim.
Contribuí com as que tinha no bolso.
É tão fácil ser solidário e bonzinho e poeta, o que para aí vai deles
e delas
elas
elas.



VI. Rimas

A vida não vai render-te
tréguas mansas, isso não.
Podes, é fácil, perder-te,
mas el'-á sempre salvação.

A patinagem artíst’ca
ai faz muito mal aos rins.
É o que vem na ’statíst’ca
e nos sacos d’amendoins.



VII. 18, 19

Meandros de azulejo escureciam os mesmos passos
dos que demandavam nada já senão sombras e espinhas
de descarnadas recordações, atento perto o rio aos lances
voadores dos peixes comedores de aves, de janelas mínimas
caía música de transístor, cheirava a mijo e a lixívia ao mesmo
tempo, eu teria quê, dezoito, dezanove anos, não mais,
nunca mais.
Das vielas nasciam mortos educadíssimos que estimavam o
último fato completo e o fado em tom adequadamente menor,
latas redondas de cavalas azeitavam o pão escuro que o Senhor
dá cada dia a quem Lho pagar com vida de palmo e língua portuguesa,
cheirava a mulheres encardidas como serapilheiras
a quinhentos a meia hora e a polícias aborrecidos e metafísicos,
a mim cheirava-me a estas coisas.
Fui aproveitando tudo para os versos do futuro,
estes.

Rosário Breve nº 93 - in O Ribatejo - www.oribatejo.pt

Hoje Acordei com Portugal na Cama


Tenho esta pátria de peito aberto
coroada de sombra a meu lado.
De cortinas cerradas, sinto, incerto,
alma nenhuma em corpo já passado.

É feita, toda ela, laranjeiras.
Ceifeiras já não tem, debulhadoras
sim, que devastam terras seareiras
e oliveiras de chãs colinas louras.

Se a Portuguesa Pátria amo ainda?
Eu amo até seus circos e rulotes!
Seus gelados pastores, seus capotes,
suas frautas de cana, coisa linda!

À cabeceira busco o copo de água
que à noite rumoreja pluvial.
A busco de outra mão e então afago-a,
lhe digo dulces coisas, trivial.

Chama-se Portugal, a minha gaja.
Acordei hoje co’ ela mesmo ao lado.
Pode não ter futuro, mas bem haja
quem dela me nasceu sem ter pensado.

Decente é todo aquele que ama
a gaja com quem acorda na cama.

Bom dia, Rui



Gassed
John Singer Sargent

05/03/2009

O Homem-Elefante Volta a Atacar em seis fascículos

© Tina Modotti
Cabos Telefónicos (1925)


Souto, Casa, fim da tarde de 5 de Março de 2009




I

Era um homem que dizia vozes.
Não as imitava.
Outros vivos falavam, por ele.
Talvez alguns mortos, não tenho provas.

Espero que ele devolva a minha a quem de direito.



II

Antigamente, eu não precisava disto para nada.
Tinha bem mais que fazer.
As coisas existiam sem ser por capricho.
As pessoas não vinham cá por coisas.
Havia uma simplicidade no ar – tal, que o ar se podia cristal.
Hoje, bem, vidro de tostão.

Ele há coisas.



III

Guardo intacto tudo o que arredoriza o coração.
Pareço um almanaque.
No café, nunca desconfio dos trocos.
Tenho alguma culpa de rever o elefante onde foi o circo?

Nenhuma culpa e nenhuma inocência.



IV

O que mais gostaria de deixar, além das filhas?
Um papel em cada coisa.
Queres ver, assim:

Cedro – papel cedro
Amarelo – papel amarelo
Janela – papel janela
Vento – muitos papéis muitos tudo pelo ar celebrando

ter vivido
ter feito o meu papel.



V

Durante o escanhoar os vejo
frentatrás.

Tão antigos.
Tão quase vivos.
Tão atentos.
Tão quase mortos.



VI

Toda uma colecção de dizeres por todo o lado: as pessoas.
Ando por aqui à caça delas, sozinho em casa.
Abro o armário da roupa, descambam regionalismos das cruzetas.
Uma data de coisas no cesto da lenha:
aféreses, linces, proas, estiletes, esquadros, rositas secas, tranças.
facturas, sonetos, carteiras, algemas, unhas, rositas secas, tranças.

Devo ser um fulano riquíssimo:
faltei a quase tudo,
quase nada me falta.

Nem um elefante,
aquele ali.

Por Isso não Seja

© W. Eugene Smith


Souto, Casa, fim da manhã de 5 de Março de 2009




Través roseiras grassam vozes sem corpo,
infantis, envelhecidas vozes sem corpo grassam
través envelhecidas vermelhas roseiras vivas
como vivas crianças velhas.

Tudo é tempo e é vento tudo.
O frio junta pedrinhas ao estojo da terra,
que escurece de manhã mais que de noite,
quando brilha polenizada de luar, adormecidas
as crianças sem corpo, as antigas.

A atenção minuciosa da composição diz-se
a si mesma: roseiras, grassação, vozearia,
risadas até, na volta do canteiro cósmico, onde
silveiras de estrelas enrijecem de frio, em algum
infantil jardim pronto-a-esquecer.

O senhor Jonas trate-me disto assim assim,
pode podar onde entender, não me exponha
apenas as memórias de outras épocas, quando
por aqui grassavam crianças corpóreas, antes
da incorporação militar para o que aí vinha.

Agora são pergaminho até as madeiras,
madeiros pétreos se volveram as duras roseiras,
e eu não tenho, senhor Jonas, onde chorar.

Não seja por isso, minha senhora.


Bom dia, senhores Robert Schumann e John Singer Sargent



John Singer Sargent Self-Portrait 1907

04/03/2009

E do Espírito Santo



© Sandra Bernardo
Na roulotte de bifanas
Penela, 1 de Março de 2009


Souto, Casa, tarde de 4 de Março de 2009





Andar a tentar vender o passado todo em enciclopédias
é capaz de não ser o melhor dos futuros, mas sempre
alguma coisa fica para contar quando vem a
Feira do Espírito Santo, quando é preciso ter algo a que
se agarrar, contar é uma das formas de agarrar-se.

Passam os dias, ninguém leva o lixo.
O lixo dos dias acaba por se meter no corpo como
um bicho indespistável, todo o cuidado é tão pouco
como o nenhum que se teve, ele é
caixas de camisas sem camisas pelos vários chãos
deste céu, quando é Espírito Santo e quando não é,
ele é sacadas de cascas de amendoins, restos de
crustáceos minúsculos como entranhas de relógio,
fragmentos de louça de barro vermelho escritos
a amarelo, caricas de gasosa sucedânea da verdadeira,
às vezes uma pulseirinha de criança em ouro leve
até.

Se chove, o comércio sofre, as famílias que não vendem
olham para o exterior como cães varados de ultra-sons,
como gente sensível aos infra-vermelhos da não-venda.
Se faz sol, a esperança põe-se herbária, há quase folguedos
nas tendas de roupa, de cassetes, de sapatos, de transístores,
em quase todo o chão há céus, quando faz sol.
Os menos de nós povoam o desconcerto do resto
do mundo, aos frios balcões para um abafado,
um mil-folhas, um biscoito de azeite, uma
barriga-de-freira.
Os outros povoam, grassam, rondam, abordam e largam,
trouxeram e hão-de levar, pelo
Espírito Santo.

Nós se calhar não.

O senhor Clint Eastwood gosta muito da menina Roberta Flack

03/03/2009

Somar Tempo - com estes dois cavalheiros e esta dama

Um Postal para Gotemburgo, outro para o Resto do Mundo, outro para o João Saraiva Pinto

Souto, Casa,
manhã (III),
fim da manhã (II)
e tarde (I )
de 3 de Março de 2009




I. Um Postal para Gotemburgo




Com a ingenuidade que me resta, hei-de alinhavar ainda quantas palavras puder, tal que morrer possa em pleno juízo.
(Morrer, tarde, vamos com calma.)
Por agora lecciono-me e colecciono-me gatas, roseiras que dão laranjas azuis, entrelances de mentes atravessadas daquele sol de quando chove ao mesmo tempo – e de como isso nos retraz e retrai a todos as infâncias exclusivas, a placidez dos velhos, a acidez das amoras mordidas verdes.
Estou muito interessado neste quadro.
Tenho muita pena dos ricos que coleccionam quadros mas andam sempre de óculos escuros nas revistas e atrás do primeiro-sinistro na televisão e que tossem em S. Carlos nas partes mais bonitas do Verdi, que são todas.
Este início de tarde, um prato de nabiças aferventadas poetizou-me todo, urdiu-me um apetite por anchovas (que ontem aliás versejei num poema de amor para a minha mulher) e decassílabos tal, que vos mais não conto.
Agora, demoro-me como um postal de igreja num quiosque rodeado de suecos de terceiridade (como diabo se dirá terceiridade em sueco, que nem em português assim se escreve embora diga?), apaziguado pela benignidade da digestão, torrado de café chilro, fumado como um pernil apreciador déssegêgigante.
Bácora pécora, ínsua imensa – fervilho-me de sílabas altas e baixas como suspiros hidráulicos de camião de longo curso, tenho um amigo camionista que uma noite não voltou, amasiou-se em Gotemburgo e lá ficou, ele é que há-de saber como raio é terceiridade em sueco.
Saúdo o penúltimo sol do dia, não tarda não tarde é o tempo, mas noite sobrevinda para baixo, sub-ida para cima, não é pleonasmo porque hifenizei a coisa, o idioma é muito bonito, o idioma e as favas violáceas dos cactos são do mais bonito que há,
nesta segundidade portuguesa
minha,
nossa.



II. Sem Miúfa




Nenhum medo venha agora adentrar o homem,
nem nenhum fim-do-mundo de teologia de almanaque.
Os pássaros funcionam,
as árvores vigoram,
o ar é limpo
e a si mesmas lavam e de si mesmas correm
as correntes lavadas águas.

É de manhã.

Fui à loja, trouxe-me a casa a vontade
de estabelecer com o mundo uma espécie
de relação unilateral fundamentada nos mais
cordiais laços de boa-vontade de cá para
lá.

Estou em paz com a minha própria merda.
Nada a fazer: gosto disto tudo.

Três cedros: três verdes, maravilhas.
Nenhuma cor é mais promíscua do que a cor verde.
Parece uma pessoa dada a partidos no poder,
a cor verde.
Nove fiapos de recheio de almofada, branquíssimos,
no céu muito esclarecidamente azul: recordam-me
ter treze anos, enumerar a dedo no manual:
cirros, nimbos, cúmulos, estratos.

As minhas gatas condensam em brilho o sol da varanda.
Nos vasos-gaiolas, as plantas-aves cantam brilhos também.
Em gabinetes fórmicos, arquitectos traçam os dormitórios futuros,
os poetas inventam reclamos sombrios,
os médicos pensam nas seis da tarde,
os carpinteiros redistribuem o bosque
e o senhor António do Café verifica as facturas do bacalhau:
nenhum tem medo.

Eu também não,
eu seja Homero
se tenho.



III. Vamos a Contas, Amigo João Saraiva Pinto




Acaba-se-me a manhã e não sei
que contas pedir a quem
do acabamento.
Eu sei eu sei eu sei eu sei:
a vida é um momento

mas

as mulheres da minha terra calçam botas de borracha,
escrevem a terra com lâminas de aço,
escrevem as palavras da horta,
tocam como ninguém a música dos animais,
as mulheres da minha terra são criadoras,
delas nascem obras, não são como certos
encafuados criadores de poemautomatismos,
João,
não são.

De qualquer modo,
hoje,
dia três do terceiro mês
(três por três dá nove,
que é o número do corrente ano,
João, meu magano),
de qualquer modo,

é bom nicoticafeìnar ao resguardo das horas más
como todo, menos um, outro mais, é capaz,
é bom voltar a ter a epifania da nespereira
no quintal do vizinho, nunca deixo, aliás,
de a ver como a uma lona de feira,
agora que uma bonita menina de pulso tatuado
fuma e se cafeína ali, na mesa ao lado,
toda enroupada de seda e ganga,
o baixo-ventre rendilhado de fina tanga
de Taiwan.

Mas a quem, João, hei-de eu pedir contas
do acabamento da manhã?

Diana Damrau - Mozart - Lucio Silla - In un instante... Parto, m'affretto Giunia

Papel para Três Dias, pelo Menos

Da varanda de casa
Tarde de 2 de Março de 2009




Souto, Casa, tarde de 3 de Março de 2009




Ontem nevou para que eu visse como o mundo é um papel todo branco no chão, um papel escrito desde sempre e para sempre por escrever, eu vi, eu li, ontem, nevando.
Obtive fotografias (não era neve, era granizo, mas eu quis neve), aparei a água sólida com as ambas as mãos través uma espécie de fúria deliciada, estava sozinho à varanda colhendo o céu papeleiro, o céu extravagante, o céu fazedor de resmas sobre que assentar a vinda, a vida, a ida.
Pus-me a amar a notícia branca que correu com as gatas para dentro de casa: isto é, expus-me à torrefacção da neve, que saraiva era, que de granizo não passava, mas passou, posto que a quis neve – e neve foi.
Estava sozinho na perfeição álgida, um bebedor de cevada em chávena azul parando de beber para fotografar o meu papel
no mundo.

Hoje o sol entornou-se como um verniz pelas minhas pernas a baixo, como uma urina de ouro, como uma lambedela citrina onde o ácido úrico não medra ainda.
Isso, não fotografei, mas aproveitei. Longe de mim (a quinze metros), o mundo atira scanias, mercedes, mitsubishis, opéis, rovers, mulheres-da-erva. Não ligo. Assimilo o sol nas partes cavas, coço o pêlo das orelhas e espero que

Amanhã o mundo seja ainda um papel de que fruir uma leitura nova dos velhos recorrentes temas: enterrar os mortos, pressupor os vivos, descalendarizar as manhas venosas do coração – e roseirar a puro escarlate tanto branco e tanto
papel.

É muito melhor uma pessoa shostakovichar-se do que andar na droga ou ir ao congresso dos coisos

Quantum

© Adriana Afonso
Prater, Viena de Áustria
10 e 13 da manhã de 1 de Novembro de 2006




Souto, Casa, manhã de 3 de Março de 2009

I

Quantos Amores de Ciana/O & Telmo/A



Três foram os amores de Ciana & Telmo,
o dela por ele, o dele por ela e o
que sem direcção nem norte nem sul
os traspassou de além homem & mulher.
Ciana & Telmo e Telma & Ciano,
menos e acolá e para aquém de mais
que dois, mais que um apenas mais
um:
um anjo caído
no domínio público.
Nenhuma época em particular foi deles,
a época privada alguma pertenceram,
Ciana & Telmo e Telma & Ciano,
não tem o amor segundo,
primeiro sim,
nem dia, semana, nem mês ou ano.
Pode ter – como teve – um par de horas
numa pensão barata dada a ratos húmidos
e a terrinas de sopa bolorosa no rés-de-pasto,
horas como dois frutos de vidro ampolando
as frias febras brancas de mais
que dois corpos, mais que um apenas mais
um corpo:
dois anjos caídos
no domínio púbico.
Muitas árvores tinham ficado de antes tantos amores
como o dela e o dele por ele e por ela e como o
que sem direcção nem norte nem sul
os traspassou de aquém árvore & vento.
Face a face ingeriram o milho & a batata
que da América vieram em barcos feitos
de aplainado bosque, cara a cara tomaram
rosto & rosto e mais
que dois, mais que um rosto apenas mais
um rosto,

três.



II

Quantas Humildes Maravilhas




De quantas humildes maravilhas
serei do novo dia servido,
não sei,
nem quantas servirei.

Estou pronto para caladamente purgar
o incenso turibular
que fumega e fumiga
a lateral nave da cantiga.

Dou-me muito a esta religião de estar vivo,
justapostas em desoração
as glândulas em órgãos de tubos
metabólicos.

Sirvo o meu deus colorido e vão
como de ex-feira um balão.
Cumpro o meu caído anjo,
inócuo diabo que atinjo
nesta que aquela avareza
de meio pão e nenhuma mesa.

Mas que ele tem, o novo dia, maravilhas,
tem.
Convido-te a mirá-las comigo também
no poema que aí vem.



III

Quantum



A torneira esquerda do lavatório que imita
do pólo da glande e do pedúnculo do figo a gota espermática;
a roseira que é uma colheita de sangue;
o alto jacto, de que o rasto branco é venoso no alto azul;
a casa, rosto de si mesma;
as harpas de alumínio na caixa aberta da carrinha do serralheiro;
a mãe quando, oral, telegrafa da ilha deserta em que se volveu;
a areia toda ansiedade de areia, toda de roseira, toda de sangue;
a inumerável vida dos escritores paginados;
as crianças que perfumam as ruas como alecrins de calções;
as borbulhas como cavilhas de acne
no madeiro facial dos adolescentes;
os cus das mulheres muito expressivos;
Jack London no catálogo da Livraria Civilização
(Rua Alberto Aires de Gouveia, 27 – Porto: Lux);
a caspa das especiarias nos frasquinhos ao ombro do armário;
a renda do meu cedro pespontada de teias de seda;
o homem muito doente que se despede à varanda
com um olhar igual a um lenço branco, a uma pomba centrífuga;
as pontas no cinzeiro como jóias de carvão num estojo de grés;
as minhas mãos iguais às dele;
e o poder fazer isto contra tudo:
contra que se acabe a manhã,
contra que se acabe até o acabar,
contra não mais nascer
de vez
desta vez,
indivisivelmente,
de
Ciana & Telmo e Telma & Ciano.

02/03/2009

Keith Jarrett - 20 Shostakovich Prelude and Fugue No.20 in C minor

V. / V. e outros Poemas Normais


Foto: Souto, Casa, noite de 6 de Fevereiro de 2009



I

V. / V.


Souto, Casa, tarde de 1 de Março de 2009


Do que se me ardeu vejo a sombra:
corpo que me duplica o nada
a nada
pelo chão.

Um tíbio sol hoje consulta o mundo de em baixo.
O fresco tirita a árvore da camélia e a árvore do limão.
É vão contar as horas que todas vão.
Viaturas, vermelhas umas, outras cinzentas, vaporizam-se.
Há no ar um estralejar de passaritos ocupadíssimos.

Giesta / esteva / carqueja / arsanha / urze.
Kiel / Danzig / Konigsberg / Mar Báltico / Mar do Norte.
Pundonor / candelária / prostíbulo / samos / face.
Mundo / vida / mundo / vida / vida.

Ao que sombreio / deito fogo.
Vida / vida.



II

Quadro


Souto, Casa, tarde de 2 de Março de 2009


A casa coroa um promontório breve.
Aos pés tem o rio escoltado de seis árvores boas.
O sapateiro frita um ovo ante a menina de sapatos cor-de-lacre.
É tudo vida emoldurável.

Estou ante a parede subindo o quadro ao prego.
Sinto uma espécie de júbilo, de música uma espécie.
Pode trovejar, concatenar-se o lume com a água – nada
me demoverá nem devorará, para já, ante a beleza
suspensa de guita & prego na parede da casa,
no quarto, onde me sepulto de açúcar pestanejado
ante

a casa que coroa, breve, o promontório da minha vida, breve.



III

Oferenda

tudo idem


Oferendo-te a não marmórea lápide do rosto.
Os homens pobres sempre se ricamente deram.
Uma nuvem de sardinhas no mês de agosto.
As águas todas que os invernos já choveram.

Oferendo-te o meu livro de budismo, o meu lápis,
o disco dos Ramones quando era o liceu,
mais o Jimi Hendrix a tocar para os hippies
e oferendo-te-me a mim a ti, que és como sou eu.

Amor, a vida é breve, o amor não.
Se fores ao Raul, traz ’ma lata de anchovas
e um esfregão d’aço igual ao da’ scovas.

Depois, traz-te a ti, que a casa é sozinha,
que enquanto não chegas faz frio à noitinha,
amor, a vida é breve, mas o amor não.

01/03/2009

LIDO CO’ LÁPIS – 1: “Incoerências”, por Umberto Araújo





Esta nova série de textos sublinhados a lápis, começo-a com uma nota pessoal de somenos importância. Há quase 25 anos, adquiri (não anotei onde, coisa rara) um exemplar da primeira edição de “Incoerências”, um livrinho esquecível e justamente esquecido da autoria de um também esquecido e esquecível Umberto Araújo.

Foi no dia 10 de 1984 que o volumeco de 86 páginas me chegou à posse.
Vinha sem capa. Sempre gostei de pescar do pó vertical dos alfarrabistas estas pérolas pobres, sobretudo quando devidamente velhas, esquecidas, ignoradas e… autografadas – ou pelos respectivos Autores, ou por os donos anteriores à minha pessoa.

(Uma vez, luxo dos luxos, cacei, mais do que pesquei, em Coimbra, uma cópia - e em primeira edição! – de “Varanda de Pilatos” autografada pelo Autor, um tal… Vitorino Nemésio, corria o mês de Novembro de 1927!!! Não esquecerei esse dia feliz: 23 de Agosto de 1986. Mas adiante, que o domingo se nos acaba.)

Bem, de volta a Umberto (sim, sem H) Araújo, sempre vos digo que o primeiro dono do meu (muito meu, há quase um quarto de século, sim?) “Incoerências” foi alguém chamado “Manoel Gomes de Mattos…” e não consigo decifrar o último nome do senhor, que o adquiriu, também em Coimbra, aos 20 de Junho de 1925.

Em 1925 foi, precisamente, publicado este "Incoerências" do Sr. Araújo. Deu-o a lume a “LVMEN – Empresa Internacional Editora LISBOA – PORTO – COIMBRA – RIO DE JANEIRO”. E mais vos informo que “ACABOU DE SE IMPRIMIR ÊSTE LIVRO AOS DEZASSETE DIAS DO MÊS DE MAIO DE MIL NOVECENTOS E VINTE E CINCO NA TIPOGRAFIA DA “LVMEN”, EMPRESA INTERNACIONAL EDITORA, SITA À RUA DE FERREIRA BORGES, NÚMERO CENTO E TREZ, NA CIDADE DE COIMBRA.”

Tudo coisas lindas, portanto – a começar pela ortografia, que era melhor do que a nossa, esta que, ainda por cima, nos querem prostituir “à la Simplex”…

Seguindo no vento, fiz a leitura do livrinho esta mesma baça tarde dominical e inaugural do mês de Março de 2009, quase 25 anos de o possuir e 84 depois de impresso. “Tempus fugit”, é uma porra.

Foge o tempo e foge-me o conhecimento de quem foi este Sr. Umberto Araújo. Tem, ainda, toda a pinta de coimbrinha, lá isso ninguém lhe tira. Dele, só conheço a leitura que fiz, que inclui o elenco de obras até então publicadas, a entrar no prelo e em preparação por ele, a saber:

PUBLICADAS:

Águias (“LVMEN”, Editora, 1922).
O Terror nas Beiras (Prefácio – Coimbra-Editora, 1924).
Homenagem a António Augusto Gonçalves (Colaboração).

A ENTRAR NO PRELO:

Página Antiga (Cartas de Amor).

EM PREPARAÇÃO:

A Mentira Portuguesa (Impressões Sociais Contemporâneas).
Lírios de Pedra.

E pronto: não sei mais.
Quero dizer: sei o que lapijei (aprendi isto do “lapijar” em “Os Putos”, de Altino do Tojal, era puto eu também) por baixo das "Incoerências" que li. Dela vos darei, infra, breve antologia. Permiti-me só que vos diga o que me ficou.

Ficou-me a ideia de o Sr. Umberto Araújo ser um cabotino do mesmo calibre daqueles que cerceia à pàzada de caneta em oito dezenas de páginas. Misantropo (mas lúcido), misógino (até à quinta casa), finissecular (apesar de publicar ao cabo do primeiro quartilho do novo século XX), decadente, português afrancesado “au (de)goût de l’époque” dita “belle”, o diabo a quatro, enfim.

Certo, certinho, é que a leitura me deu gozo, a ponto de querer partilhar algo dela convosco. São citações de um moralista-antimoralista-moralista, não sei se me faço entender.

O homem venerava, por cá, o Eça (vá lá…), o Camões (vá lá…), o Camilo (de quem Araújo diz que “foi o Wagner do pensamento e da morte”), o Antero, o Guerra Junqueiro (Umberto escreve do poeta de “A Velhice do Padre Eterno”, a páginas 81, isto: “Depois de morrer GUERRA JUNQUEIRO, tenho a impressão de que ninguém mais vive no universo…” – Chiça, digo eu…).

E borrava-se todo, por lá, com o Nietzsche (que epigrafa o livro com isto: “A única coisa que se proíbe é a Verdade.”), o Rabelais, o Diderot, o Picasso (já então, sim), o Tolstoi, a Sarah Bernhardt (saiu “Bernardth”…), o Victor Hugo (claro, só podia), o Molière, o Dante, o Schiller, o Verdi, o Anatole France, o Zola, o Goethe, o Verne, enfim.

Notas paralelas a anteceder a selecção de (anti)moralidades deste Sr.:

- “OCTÁVIO MIRABEAU é um estrangulador de almas.”

- de Ibsen, diz que “foi um sacrílego da vida”, porque “a sua obra dá a impressão extraordinária de um riso de pedra num cemitério adormecido…”;

- a António Nobre, chama “larvado, trágico e doente”, pois que “foi uma flor nascida em lama, sem virilidade e sem perfume…”;

- de Gomes Leal, que “foi o Aretino do século e um velho dandy sentimental”;

- de “A Velhice do Padre Eterno”, “parece que foi obra de um Satan vencido, caído à terra como uma ave despenhada…”;

- de certo filósofo alemão, “Deus fez muito mal em ter criado SCHOPENHAUER. Antes, em vez dele, tivesse dado vida a um burro…”

- de Maeterlink, quando o lia, tinha “a impressão de que andam no ar murmúrios supremos de velhas almas estranguladas…”;

- do, por assim dizer, paulo-coelho da altura, deixou uma engraçada: “Admiro GABRIEL D’ANNUNZIO. Porque é o maior bêbedo de glória da raça latina.”

- daquele que foi preso por gostar de rapazes, deixou araujamente estatuído que “OSCAR WILDE é um rouxinol com reumatismo e sapatinhos de seda…”;

- e, para acabar co’ baile de bufas laterais, fixou que o plácido “LUCRÉCIO foi um sujeito de muito bom estômago e de muito boa pança…”.

Prontos, prontinhos. Dito isto, vamos à amorosa selecta do anónimo Sr. Umberto Araújo:

AMOROSA SELECTA
DO ANÓNIMO SR.
UMBERTO ARAÚJO


-“Coimbra transformou-se últimamente em alfôbre de meninos de côro e em biberon maligno de intelectuais de contrabando.”
(Boa, boa!)

- “A teologia, na sua ânsia de imperialismo espiritual, envolveu na sua lógica todas as invenções, resumiu em si mesma a página ancestal e misteriosa da natureza.”

- “O equilíbrio é uma mentira. O movimento impulsiona a sua essência, e jàmais adquirirá a inércia que a poesia reclama.”

- “Quando a tarde estua nas vibratilidades poderosas dos seus vícios, o ar azul impregna o éter de miasmas, proclamando o império da patologia.”

- “O absoluto é uma negação dentro da complexidade do universo.”

- “A luz, quando rasga o hímen das alturas para chegar aos olhos da humanidade, vibra nas suas eternas espirais dominada pela atracção irresistível dos astros, e quando se transforma em calor poderoso, quando abrasa de evocações o oceano incomensurável da paisagem, vem dirigida em linha recta, numa gloriosa descida de avião pilotado pelo infinito, ungida pela sublime inconsciência das leis do movimento.”
(…da-se!…)

- “O estilo é o homem, disse alguém.
Mentiu.
O estilo é a alma.”
(O catano!, digo eu. E o “alguém” foi o Buffon, totó!)

- “Não há bons livros nem maus livros.”
(Hmm, cheira-me que não te safas assim com essa facilidade toda…)

- “Os corpos nús são a tradução das almas.”
(O que tu queres, sei eu, menino, olha se não sei, ando pràqui ó mesmo el’á séculos…)

- “Finge-se por instinto e por necessidade.”

- “A Arte, como as almas e como as mulheres, quero-as e sonho-as absolutamente núas.”
(Eu nã’ t’o tinha dito, meu?)

- “O manto diáfano da fantasia passou ao museu arqueológico das convenções estreitas (…)”
(Compreendi-te p’feitamente…)

- “É mais fácil derrubar um touro que dominar um insolente.”

- “Quereis fazer de um homem inteligente um cabotino, de uma alma boa um autêntico bandido, de um ajuizado um miserável louco, de um justo uma fera, de um santo um monstro, de um sensato um leviano, indicai-lhe apenas um caminho: o casamento.”

**

-“Não há amor como aquele que faz envelhecer.
A dôr redime e a felicidade engana.”

- “Os homens conhecem-se pelas invejas que levantam.
E as mulheres pelas leviandades que praticam.”

- “Defende-se com mais facilidade um criminoso que um inocente.
Porque os homens foram feitos de barro – e o barro confunde-se muitas vezes com a lama…”

- “Todas as vezes que ladram um cão nascem um orador e um poeta na terra portuguesa.”
(Mas isso do cão é comigo, meu? Mas isso do poeta também, meu?)

- “Sou herói todas as vezes que fôr preciso.
Basta uma mulher, um pedaço de terra, um punhado de oiro e um cântaro de vinho.”

-“O primeiro beijo pode ser a última virtude.”

-“Um pobre que pede é um insulto que passa.”

-“Mulher por mulher, antes quero a que se vende
A que se dá, procura sempre dominar pela brutalidade da sua soberania…”

-“A mulher que eu amei e que me roubou metade da vida, nem sequer já se lembra da sua virgindade. E assim anda levando a vida, roubando as outras vidas…”

-“As mulheres são a maior futilidade do universo.
Mas ainda assim ponha-as o destino à minha porta…”

-“Quando beijo uma mulher, tenho a impressão de que sou o conviva de uma banquete que terminou há muito.”

-“O adultério de certas mulheres é como o casamento de muitos indivíduos…”

-“A beleza é uma anomalia dos sentidos.”

-“Os exércitos são a maior chaga de corrupção que inventou o espírito do homem. Por cada quartel, levanta-se uma taberna e abre-se um lupanar.”

-“Devíamos andar nús.
Os vestidos são os assassinos do ritmo e da graça…”

-“O ódio é o amor exagerado.
Não esqueçamos que Satan foi um dos anjos predilectos de Deus…”

-“Filosofar é apenas escarnecer.
A Verdade nunca se encontra nem nunca se conhece.”

-“No dia em que me falta o dinheiro, não tenho nem um só dos meus amigos.”

-“ Gosto da morte.
Porque não me insulta e porque me não mente.”

-“Sempre que me falam em amor lembro-me logo da sífilis…”

-“Quiseram fazer-me padre.
Mas esqueciam-se de que eu era homem…”

-“Esmaga-me a todos os momentos a ideia de que a vida continuará na sua indiferença e no seu egoísmo depois da minha morte.”

-“O jornal é o trapo do progresso.
Por isso é sempre sujo, mísero e maldito.”
(Lá nisso…)

-“A mulher que eu amo verdadeiramente, é aquela que só vejo uma vez, que desaparece e passa…”

-“Há bandidos que parecem santos.
E há justos que parecem feras.
É apenas uma questão de oportunidade.”

-“Os artistas que eu conheço não alem tanto como o aranhão que faz sôbre a minha cama a sua caprichosa teia.”

-“As levianas são as mulheres mais sérias.
Simplesmente porque não se preocupam em forjar mentiras.”

-“O Estado é a mama generosa dos ladrões e dos vagabundos.”
(Lá nisso…)

-“Não odeio os homens nas suas preversidades (sic).
Apenas, como NIETZSCHE, aprendi muito cedo a desprezá-los.”

“Se não fôsse o amor, a ida nem sequer seria uma loucura.”

-“As andorinhas gorgeiam (sic) nos beirais do meu telhado. Mal sabem elas, coitadinhas, que cantam sôbre um túmulo!”

-“Tenho desflorado mulheres perdidas…
As virgens só existem nas telas dos artistas e nos mármores dos museus…”

-“A instrução é a inimiga do progresso.
Maldito seja quem nos ensinou a ler!”

-“O amor, para mim, é o cântico da carne.
Quero a mulher, mas só para a devorar…”

-“Se nos víssemos por dentro, não haveria na terra senão feras e bandidos.”

-“A pobreza é o estímulo da Verdade.”

-“Olho as estátuas e pergunto: qual de nós é que anda adormecido?”
(Ora deixa-me cá pensar…)

-“As bonecas são as melhores noivas que podem encontrar-se.
Simplesmente porque não falam e porque… não mentem…”

-“A verdadeira mulher é aquela que nunca desejou ser homem.”
(Este não chegou a conhecer o “Conde”…)

-“O homem só será justo quando viver sósinho (sic)…”

-“Até hoje ainda não consegui adquirir a máscara de vier.”

-“Conheço dois homens que se odeiam profundamente, como dois tigres.
E tanto assim que desejam ambos que um dêles se case…”

-“Mentir é dizer a verdade à natureza.”
(Esta foi bem…)

-“A aviação é o bandoleiro futuro do território das aves, das almas e da luz.”

-“Um monumento aos mortos?
Ergam antes, na praça, um cadafalso aos vivos…”

-“Um criminoso é apenas um tipo que não teve sorte.”

-“As mamãs são as alcoviteiras oficiais do amor das filhas.”

-“A geração do meu tempo parece que nasceu para envergonhar a humanidade.”
(A minha também; e eu também, deixa lá…)

-“Uma mulher linda é um azulejo de carne viva…)
(Diz-lh’ agora que sim…)

-“Um mulher núa é um fio de leite coalhado.”
(Porcalhão…)

-“Uma virgem é uma bela hipótese a demonstrar.”
(Lá nisso, menino, lá nisso…)

-“Conheço muitos patriotas que pregam a moral.
Mas, no fundo, nem um só se esquece de que tem um estômago.”
(Certo, sô Zé.)

-“As catedrais são gotas de mármore tombadas do céu…)
(Lindo, lindo…)

-“A virtude maior é sempre a que se confunde com as coisas mais pequenas.”
(Bem esgalhada, esta.)

-“Se me perguntarem qual é o conceito que eu tenho da humanidade, eu direi abertamente: em mil almas há novecentos ladrões, cincoenta verdugos e cincoenta doidos.”

-“Não há perfeição nem equilíbrio na humanidade.
Ainda há-de vir o primeiro ser que me desminta.”
(Não hei-de ser eu, meu.)

-“Os reis são os únicos homens que nunca poderam (sic) aprender a andar sósinhos (id.).”

-“A vida nada mais é que o festim ininterrupto e constante dos mortos que passaram.”

-“Um casamento é um funeral que se faz à pressa por causa do contágio.”

-“A natureza é tão hábil e tão astuta, que sem darmos por isso conseguimos envelhecer.”

-“Certas mulheres para se despirem não precisam senão dos olhos…”

-“A pedra tem os estremecimentos da carne.
E por isso tem a preferência até nos túmulos.
(Atão nã’ sejas calhau…)

-“Um banquete de anos é uma afronta.
Ah! quem pudesse antes desfazê-los!

-“Onde começa e onde termina a minha individualidade?”
(Onde terminou, sei eu…)

-“Um beijo, por amor, vale mais que um milhão por esmola.”
(O Tanas, meu, o Tanas e o Jêtas da Ponte.)

-“O amor é uma triste brincadeira que traz o mundo eternamente ridículo e parvo.”
(Bistes?)

-“No dia em que terminasse a vaidade muitos pobresinhos (sic) deixariam de comer.”

-“A arte é como um fruto proïbido (sic) que Deus criou para castigo dos impotentes…”

-“Uma guitarra nas mãos de um português é um sino de aldeia a anunciar finados…”

-“O talento é a primeira qualidade para se morrer de fome.”
(Não debes-de-ter morrido magrinho, ó jeitoso, ó coimbrinha!)

-“Admira-se muita gente de que certos sujeitos sejam hoje monárquicos, ámanhã republicanos, ontem conservadores, agora demagogos, há duas horas democráticos e há cinco minutos socialistas.
Em todo o caso cuido que não há motivo para apreensões. É da própria psicologia do político a tendência ao direito de ser pulha.
(Certinho, certinho…)

E FINALMENTE, DEIXEMOS O SR. UMBERTO ARAÚJO A REQUIESCATAR-SE IN PACE COM ESTA:

-"Os filhos são o prolongamento lógico das anomalias paternas.
De modo que a natureza, por uma astuciosa irreverência, consegue manter sempre à face do universo um enorme superavit de bandidos…"

Estilha

© Elliot Erwitt
Cracked Glass with Boy
Colorado, USA, 1955





Souto, Casa, tarde de 1 de Março de 2009

Permites-te ainda tocar a dedo a cabeça da criança
Fazer dela a máquina-de-escrever a falsa infância
Tudo te permites porque a nada de facto te atreves

Estilhaçar não é para todos /excepto os íntegros
Os que se completam a soluços na inquietude vera
Não essa das galerias / dos hipódromos / das vernissagens

Permitires-te leva tempo / o tempo todo / toda a vida

Uma imagem de hoje


© Sandra Bernardo
Em Portugal, até os Cães São Tristes (nº 3)
Penela, 1 de Março de 2009

É do Shostakovich (obrigado, Gato Maltês!)




Andava aqui o Cão a penar há um (ho)rror de tempo para saber de quem era esta valsa absolutamente ma-ra-vi-lho-sa.
Pois deixei de ganir com um Gato: http://eusouogatomaltes.blogspot.com
Merci bien, gentilhomme!

O meu filme



Não sou capaz de indicar O meu livro favorito.
Mas filme, ah, disso sou capaz: The Misfits - realização de John Huston, argumento de Arthur Miller; com Marilyn Monroe, Clark Gable, Montgomery Cliff e Eli Wallach (1961).
(Trad. portuguesa, salvo erro, Os Inadaptados.)

50 + 4 anos de L'Affiche Rouge



50 anos sobre a música de Léo Ferré, 54 sobre o poema de Louis Aragon,
Resistir continua a ser preciso, nesta contemporaneidade de idiotas espertos.

Informações colhidas neste excelente blog que hoje descobri navegando manhã cedinho: O Gato Maltês:
http://eusouogatomaltes.blogspot.com
(a partir de agora nos Links da Malcata, neste Canil).

Memória de vento na esteira


Acredite quem quiser e quem puder: um tempo houve em que, nos 7º, 8º e 9º anos de escolaridade, os alunos de Português estudavam (e liam integralmente) obras literárias.

No 7º ano, calhou-me a boa sorte de aprender a ser leitor (e, portanto, gente) com Esteiros, de Soeiro Pereira Gomes.

No 8º, a mesma boa sorte trouxe-me (e levou-me a) Seara de Vento, de Manuel da Fonseca, uma estrela maior e humilde da nossa literatura avant-bestas-céleres.

Tive, em 1984, o privilégio de o ver na minha terra. No "clúbio" local, a minha Irmã até disse um poema de Manuel, Mataram a Tuna.
(Eu sei que tu sabes que eu sei que tu sabes de que estou a falar, Manel Barata...)

Canzoada Assaltante