17/02/2009

Seis Poemas para uma Assombração Lunar à Medida


Assombração: Pombal, noite de 9 de Fevereiro de 2009






I. Entrevendo Robert Wise’s The Haunting

Souto, Casa, madrugada de 2 de Fevereiro de 2009



As crianças envelhecem muito depressa
quando lhes chega a memória.
Ballesteros negava o passado e o futuro,
só o presente existia para ele – inteligente,
chegou a muito velho.
Mas as crianças, Senhor?

Assombramo-nos.
Construímos vastas (infinitas) mansões
de cor.
Alas intersectam alas e alas e
existências.
Armaduras e cabeças animais empalhadas, dentro.
Fora, um jardim-parque glacial, que um jardineiro
sem idade vigia.

Quartetos de cordas transluzem hologramaticalmente.
Mas nos copos-flautas é vinagre o que espera
a boca.
A grande peça de carne assada fervilha de larvas.

Augusto Gil, os Antónios Botto e Nobre, o brando
Raul Brandão, Mestre Camilo Pessanha,
os desolados meninos uno-vários
Fernando, Alberto, Álvaro, Ricardo e Bernardo,
Eça demandando em vão um copo de leite morno
para acalentar a peçonha que lhe aranha as tripas,
Ramalho fazendo (finalmente) sorrir Junqueiro,
o Oliveira Martins ainda chateado por já não ministrar,
Antero sofrendo sofrendo sofrendo sofrendo,
os condes de rodapé da pré-República charutando,
como se nada fosse com eles (e não era e nunca foi)
– tanto fantasma na desolada mansão da não mansa
desolação.

Beleza negra, a da casa torturada de brancas carnes.
Para sempre apagados, lustres enormes choram cristal.
Os largos linhos semelham peles mortas
tomados de tormentos e tomentos.

O argênteo talher, embaciou-o o abandono.
Frascos de licor enrubescem ouros.
Terrinas fumegam de frio caldos enxutos.
Candelabros suspensos no ar sem mordomo.
Risadas e histerismos de criadas há tanto defuntas
enervam ainda os quartos do sótão.
Bacios de louça campestram ainda de rosas inglesas.

As crianças nunca deveriam aprender a ler
– e a escrever, muito menos.
(Olhai as vidas de Fernando, Alberto et alii).

Vamos fumar para o jardim?
A pérgola é perto de fresquíssima água mineral.
Cantochão, pedra, ramos de árvores seculares,
do luar a sideral pérola para um avatar,
rosas portuguesas, espectros de cães de estimação
– é bom fumar sentindo tudo, o decalque
das mãos da raposa na terra verde, a atenção
professoral do mocho, os vidros que caem da Lua,
o vento em câmara-lenta de quando se não sabe
que se recorda ou cria ou recria ou acorda.

(Não podemos ser poetas se nos não enlouqueceu ninguém
na família. Eu
tive uma bisavó que cegou e foi centenária, mas
não chega.)

Assombrações: tanto pessoas como mansões
dependem da qualidade (e da profundidade)
das fundações.



II. Um Dia os Anjos de Gesso Abandonam

Pombal, noite de 2 de Fevereiro de 2009



Um dia os anjos de gesso abandonam os ondes
onde o mármore é jardim para vir para as ruas
tornando-se nós.
Um dia os anjos vão fazer isso
e nós nada poderemos
(sequer algo quereremos)
contra isso.

Vamos ser de gesso como já somos
em tribunal
na mercearia
na fábrica
na discoteca
na biblioteca
no parque
no teatro-cine.

Nós temos da vida o dízimo da pedra.
Um pouco de atenção é quanto basta
para a total percepção do dízimo da pedra.
A vida acontece ser a mais inimiga coisa do viver.
Se de helicóptero nos víssemos, iguais todos a anjos,
em nossos cafés de província, em nossas casas
térreas como atitudes, em nossas dimensões sufocadas,
se de gesso nos confirmássemos:

a vida acontecendo ser,
então,
que vida.

Fundas projecções no basalto, longilíneas vielas
ladradas a cães prisioneiros, a pele das plantas
dos pés tocando a cara húmida da mãe-terra,
projectados e fundos os anjos da clonagem nossa,
nos anos iguais.

Ao alto, a Lua,
vigorosa de catecismo, cáustica e amarga,
candeeiro de ciganos e de motoristas.
Havendo torrado a fímbria do mar,
nenhum Sol,
por pagão e dormente.

Camisarias, ópticas, ferragens, pastelarias.
Mármores, mármore, mármore, mármore.

Ou
gesso, gesso, gesso, gesso.



III. Gosto de Assistir à Ceia dos Casais Populares

Ibidem



Gosto de assistir à ceia dos casais populares na casa-de-pasto.
O casal de hoje é jovem, ela para aí uns 24, ele trinta e picos.
Um menino, claro: na província, a prenhez é que matrimonifica.
Derredor, os homens de rostos roxos azeitonam-se, indiferentes àquela espécie de felicidade em triplicado.

Eu agora tenho tempo na vida para gostar de ver.
(Mais de ver que de viver.)
Gosto deste casal + 1 como já de tantos outros escrevigostei.
Gosto que seja um verso aquela dose para dois e para poupar.
É um verso escrito a tinta de lulas guisadas com batata cozida.
A senhora bebe gasosa, ele bebe um jarrito de rubis.
O menino não come nada, adormeceu, coitadinho.

Os meninos de agora não são como os do meu tempo.
Os meninos de agora passam a vida com os avós-creches.
Os meninos de agora passam a vida à espera dos pais.
Os pais chegam-lhes com a noite, bovinos de cansaço do campo.
Esta mãe esteve todo o dia na escola a lavar a escola.
Este pai todo o dia andaimou matérias de reboco.

Gosto de Portugal.



IV. Lembro-me de um Senhor chamado Duarte

Ibidem



Lembro-me de um senhor chamado Duarte.
Ele bebia, mas vivia.
Agora já viveu, não bebe já.

Era um istmo.
A casa comercial dele dava-se a labirintos:
o do bolor, o da sardinha frita, o do mijo,
o da caldeirada de bacalhau, o do pudim de pão.
Entrava-se no escuro, ele luzia como um cardeal.
Era antigamente, era em Peniche.

Passados uns três lustros, volvi ao sítio.
Não havia sítio.
Era um plano de mármore, a casa.
Ele, um anjo de gesso.



V. Pode Ser

No Moto Clube de Pombal, tarde de domingo, 8 de Fevereiro de 2009



Pode ser que a tua próxima vida
seja algo a que pertenças.
Um país diferente, um corpo-nação
com pernas para andar.

Pode ser que voltes a ser uma bela coisa,
uma flor morena que as mulheres queiram
ter.

Pode ser que o teu próximo tempo não
seja um papel queimado,
uma ardida laranja,
uma rosa aziaga nos dias carburantes.

Pode ser que sejas feliz.
Pode ser que sejas.
Nas tardes de chuva da eternidade,
pode ser que possas.

Tudo pode ser no espaço-tempo,
digo-to com relativa segurança absoluta-
mente.
A mitografia da Noruega/Argentina,
extremos Norte/Sul,
a vida feita encarnado azul.

Pode ser que aconteças como uma árvore,
relâmpago de ti mesmo na cordial condição cardial,
sideral, Portugal.

Pode ser que faças ainda da tua vida uma alfaia agrícola.
Pode ser que a tua mãe nunca mais prescinda da vesícula.



VI. À Medida

No Tó Mota, tarde de domingo, 15 de Fevereiro de 2009



O homem é a medida do dia
como o dia é a medida do homem.
Não tarda nada não tenho nada
excepto meio século ido mais que vivido.

Luzem as luzes na terra de repente azul.
Tenho de fazer alguma coisa por isto.
Diz que há outras terras, onde o pão salga.
Diz que há que fazer, alhures.

Esfumando

Souto, manhã de 17 de Fevereiro de 2009



Certas horas como lobos feitos de luz escura,
como lobos escuros de luz certas horas impensáveis.

Nós quaisquer em uma fotografia esfumando-se,
sobre um móvel húmido numa qualquer casa molhada.

O esplendor da vida retalhado qual a azeitona
que a oliveira atirou ao céu como estrela preta.

A estrela preta do esplendor da vida, quando a terça-feira
bate depressa dentro do coração fugitivo centrípeto.

A fuga para dentro, para baixo e para dentro, na hora.
A mulher ao balcão da retrosaria sonhando netos.

As horas dessa mulher sem câmbio com as nossas
quaisquer. Então, o fotógrafo que nos caça, nos esfuma.

14/02/2009

Esta e este, aprendi-os com o João Pinto, que é de Seia mas apesar disso sabe umas merdas

HABITAÇÃO E POVOAMENTO DE POMBAL (12)

12

Tarde de 14 de Fevereiro de 2009

Morredouro.
A orquídea lança som.
(Isto é prosa.)
Toda a riqueza é na panela: o cabelo-alga dos grelos, a batata a que os Canadianos chamavam raiz, a senhora cenoura pictórica, o alho perfunctório, a cebola totalmente maternal, o nabo jucundo e honesto, o aurífero azeite, o grainho tomate honesto também, a chouriça economia-do-lar – caldo de um poeta sem dentes e sem esperança e com idioma.
A orquídea lança som.
Hoje o Sol voltou ao país.
Hoje o Sol sabadá-se todo, puta velha, masculina.
No Souto, com a Senhora Alzira e o Senhor António, antes com o casal António e Alice Mota: no café, falando de saúde, de internet e do Sol que faz.
Algum desespero nas tripas.
A Buenos Aires de Borges, por Carlos Alberto Zito (tradução de Serafim Ferreira, Editorial Teorema, execução gráfica e impressão por Rainho & Neves, Santa Maria da Feira, Outubro de 2001, por 2 euros, ontem, na pombalense K de Livro, atrás da Prisão Antiga, fim da manhã.)
Viver em morredouro.
Viver em ouro.
Alcançar um dia a casa de madeira, o espeto de pau do ferreiro.
Uma cerveja sangrada devagar, atenta, benigna.
O abandono latente – e as primícias.
O lado miliciano do coração.
E o coração propriamente dito: desculpa para quase tudo.
A Mãe envelhecendo mais um pouco no sofá mijado a desconta-gotas.
A puerilidade tão sábia das gatas economistas-do-lar, bonitas como flores de cabelo torrado a luz e a golpes de chuva.
Necessidade de muitas palavras irremissíveis, digo: hontaluz / gaspárdio / senoctural / reventismo / coliferoz / zapurdanista / telmaquia / ropidastro / sentonete / cloripidistra / zelmuquímaco /estordinal / bengaplor / tuntaliz / sentemuros / gárdio / policoiso / émaco / ónio / cheza / coliflor / flor / sentargem / bastro / custro / roderiquigues / lhãmorta / cavalo / gospistrada / ão / saturnico / çolar / bangue / izola / rândula / guíça / foite / ctar / meleguismo / tidade / ondera / termodlismo / sacúra / alise-com-mice / ôdevèra / burges / ropintinismo / celúbico / túbal / pontinhismo / termostrada / lúpia / banzia / perdói / saluscrinar / anismo / rotal / meiro / eão / sânzio / criso / oiro / e / toiro./
A ORQUÍDEA.
A ORQUÍDEA LANÇA.
A ORQUÍDEA LANÇA SOM.



A ORQUÍDEA LANÇA SOM

Alabastrino corrépio dengoso
tura fura marveloscrastia.
Tia crispa fôro puro gozo
além-da-vilha-púrpuramaquia.

Sempótotal? Ão, que redilharga.
Corpora tur sengue derredor.
(A vida é maila vez amarga.
Pão transpira, são, mui ressuor.)

Tento. Língua e tento.
Mélia voj górpe alindritrista.
João Manuel dos Alves Baptista.
Arreguenunquilhofazporsóssustento.

Pó total?
Ão.

Aqui quieto, na antemão. Sábado, 14. Canal do Panamá, excelsa-magna-obra-de-engenharia. Conhecimento-de-ouvir-falar. O meu peito todo marinheiro em doca-seca. O diabo da breca. O meu amor contra certas coisas. A voz da tinta. (A ninguém o digo, mas penso já formalmente a carta de desped(e-v)ida.) Fevereiro. Lígure. Portenho. Havana abana. Fev’reiro: outro em meu corpo. Sustentáculo e cós das calças. Ser ainda. Nascer voluntariamente. Ser de tinta. Não se compadecer-me. Ser-me ainda. Atirar nozes de um balcão de sardinheiras. Íntimo do frio, tu-cá-tu-lá com o gelo. Tárctido. Robentoso. Mágico de uma tristeza crestomatiável. (Mas amável.) Olha o Berno! Olha o Salústio! Mínimo cálice de floração.
Ão.

13/02/2009

Rosário Breve nº 90 - esta semana nO Ribatejo - www.oribatejo.pt

Cinzas


Desconfiei sempre da folia organizada. Isto é, da folia institucionalizada e respeitável, cujo calendário pode implicar (e geralmente implica) consequências e cinzas tão graves como Alberto João Jardim.
O Carnaval deve começar por ser minúsculo. Ou seja: pessoal e intransmissível como a peça de roupa que algodoamos entre partes e calças. Já há folia suficiente nas minúcias com que levamos a vida.
Exemplos: quero um isqueiro amarelo, apesar de todo o arco-íris faiscar; prefiro enquadrar palavras cruzadas a cruzar palavras com gente quadrada; transporto no bolso um livro que não vou acabar de ler porque ando a fazer os possíveis para ser atropelado numa passadeira.Em suma, não alinho em carnavais alheios. Chega-me bem conseguir adormecer em autocarros e almoços, de garfo hirto numa mão que treme. O meu carnaval individual é quanto (me) basta para perceber que a loucura é séria de mais para ser partilhada. Não me estou a rir.
Ainda por cima, antigamente os dois dias da vida só ficavam a perder por um para os três do Carnaval. Agora, o Carnaval tomou conta do resto dos dias com suas noites. A Tragicomédia do Rei Momo por aí grassa sem graça: é ligar o televisor, é ler o desaforo e o assanhado da Câncio, anti-Crespo, a defender o indefensável: o mais-que-tudo-dela, naturalmente. Sim, a folia implica coisas que tais: está na cara das pessoas sem rosto.
Para me proteger das usuras folionas com artistazecos tuga-brasucas empoleirados em tractores alugados pelos parolos dos municípios, releio em clausura o meu santo Eça, redescubro o Canadá pela mãos dos historiadores da Nova França, pondero o meu Rilke, reaprendo português com Antero de Figueiredo e não dou confiança a engraçados boviniformes pelo lado pior da vaca.
E assim farei até que a vaca tussa, que pelo menos a jardim da Madeira nunca chegarei.

12/02/2009

Julio Cortázar sempre!


Passam hoje 25 anos sobre a morte (física apenas) de um gigante: Julio Cortázar.
Para visitar o Cronópio Maior, http://www.juliocortazar.com.ar/

11/02/2009

Até a Dina gosta, claro



Esta e outras fotografias muito (mesmo muito) boas em http://edeuscriouamulher.blogs.sapo.pt/

Na Ronda Columbina de hoje, ora escutemos



E também e ainda Joe Jackson, Duran Duran, Buika, Djavan, Uxía, Rosa Passos, Carlos Cano, Hiromi, The Beatles, Fausto, Nick Cave & The Bad Seeds, Jeanette, Aldina Duarte, Niña Pastori e Screaming Headless Torsos, entre outros.

Em 87.6 FM
e/ou
www.radiocardal.com

(Hoje não há Zé Cid, mas ele volta, ameaço.)

Nos 80 anos do Tintin, para o jornal lousanense O Trevim (suplemento mensal BronKit - coord. de Zé Oliveira)

LEITE DOS SANTOS - 2



Mais 77 do que 7

Pode ser que, como tantos outros miúdos hoje velhos como eu, tenha desejado, aos 7 anos, ser como o Tintin. Pode ser. A verdade é que, rumo aos 77 anos (idade final do meu Pai), estou cada vez mais parecido com o Capitão Haddock: bebo as minhas garrafosas, digo os meus palavrões e tenho a nostalgia do mar na doca-seca da terrena vida de todos os dias.
Para mais, acho o Hergé um bocado pró racista: belga francófono, piadético de “pretos” e de “portugas”, etc. É verdade que o senhor Georges Prosper Remi, de seu nome completo, está para a BD como o Comandante Costeau está para os oceanos filmados. É verdade. Mas devo confessar que o Tintin me interessa cada vez menos. E tudo por causa do Matt Marriott, meu verdadeiro herói dos quadradinhos.
A criação de Tony Weare (insuperável criador da ilustração da tinta com aparo) e de James Edgar cativou o meu coração a partir dos tais 7 anos, idade que me parece hoje inverosímil. Os meus irmãos liam o Matt Marriott, eu praticamente aprendi a ler na cartilha do Mundo de Aventuras que no-lo trazia.Tintin? Tonnerres de Brest! Fichue espagnolette!Mille milliards de mille sabords! Tortionnaire! E por aí adiante.
É verdade também que de vez em quando, sobretudo no Inverno, com os ossos à lareira, me deixo levar pela desintelectualização da vontade e embarco nas aventuras do repórter que não escreve uma linha que seja para os jornais. O traço e as cores de Hergé levam-me pela mão, sem esforço, à minha primeira idade, como decerto faz a tantos milhares de leitores por esse mundo fora, com a provável excepção dos Estados Unidos da América, onde consta que nem conhecem grande coisa do jovem colonialista, perdão!, repórter de ruiva poupa.
Associo-me pois, por amigável encomenda do Zé Oliveira, a esta efeméride. Sem esforço. Ao Tintin, prefiro o Zé Povinho. De longe. O Zé Povinho, a Mafalda, o Torpedo 1939. Ao Hergé, prefiro o José Vilhena, o Comès, o Eisner, o Edgar P. Jacobs e o F. Caprioli.
Ao Tintin, prefiro, enfim, o Capitão Haddock: uma mão lava a outra, hélas!

09/02/2009

Elis Regina - As Aparências Enganam (um poema perfeito, de uma simetria fabulosa, para uma música única) - Composição de Sérgio Natureza/Tunai



As aparências enganam, aos que odeiam e aos que amam
Porque o amor e o ódio se irmanam na fogueira das paixões
Os corações pegam fogo e depois não há nada que os apague
se a combustão os persegue, as labaredas e as brasas são
O alimento, o veneno e o pão, o vinho seco, a recordação
Dos tempos idos de comunhão, sonhos vividos de conviver
As aparências enganam, aos que odeiam e aos que amam
Porque o amor e o ódio se irmanam na geleira das paixões
Os corações viram gelo e, depois, não há nada que os degele
Se a neve, cobrindo a pele, vai esfriando por dentro o ser
Não há mais forma de se aquecer, não há mais tempo de se esquentar
Não há mais nada pra se fazer, senão chorar sob o cobertor
As aparências enganam, aos que gelam e aos que inflamam
Porque o fogo e o gelo se irmanam no outono das paixões
Os corações cortam lenha e, depois, se preparam pra outro inverno
Mas o verão que os unira, ainda, vive e transpira ali
Nos corpos juntos na lareira, na reticente primavera
No insistente perfume de alguma coisa chamada amor.

07/02/2009

HABITAÇÃO E POVOAMENTO DE POMBAL (1 a 3)


HABITAÇÃO E POVOAMENTO DE POMBAL
um catálogo de miudezas e de notações meteorológicas, humanas, animais, vegetais, minerais e cosmo-agónicas


e diz, servindo, o que acontece.

R. M. Rilke
Muzot, fins de Fevereiro de 1924





1

Tarde de 5 de Fevereiro de 2009

Sob um apropriado céu de chumbo, o cedro da Escola Secundária é, na tarde sem vento, uma labareda que não tremula.
O frio fechou as mandíbulas, os corpos passam mordidos pela invernia. Ao tempo da meteorologia mescla-se o cronológico, que desbarata a atenção em memória do presente. Com o tempo, a memória volve-se um bacalhau a pataco, que gasto pelas ruas crepusculares. A tarde é uma ponte breve entre o fim da noite e o começo da noite. A manhã mal existe, sufragada apenas pelos galos das cercanias, clarins ríspidos no livor da alba.

2

Tarde de 6 de Fevereiro de 2009

Segue-se outro dia: o mesmo, a avaliar pelo frio. Quero apenas que a habitação seja povoamento: do dia, da rua, da cidade.
Muitas vezes me sucede o de toda a gente, isto de não coincidir cabeça com coração, como acontece quando se leva um sapato mais apertado que outro. Há uma gravidade natural nisto. Fumar um pouco menos, beber muito menos, acabar a leitura do Canadá quando Nova França, começar a que aborda a questão social para, ou em, Eça de Queiroz segundo Jaime Cortesão, sair para a cidade às cinco ou às seis ou às quatro da tarde, ir rever os catálogos humanos que subjazem às últimas árvores. Relatar tudo isso, imaginando o quase tudo em caso de escassez. O cedro de ontem, por exemplo.
Vi o cedro antes e depois de comprar tinta na papelaria. Era uma presença lúcida: um ser de Inverno. Derivei mais devagar que de costume por causa dele. Julgo tê-lo fotografado, sobretudo com palavras. Surgiu-me insurgindo-se-me. Bicho alto, escurecido de seiva, corpo do frio resistindo ao frio e à materialidade da geral condição.
Depois, mais ouvi do que falei em três, quatro conversas com gente destoutro centro do mundo. Não precisei de desejar a noite, que por estes dias dura o dia todo além de si mesma.
Agora, um casal de velhos crocita em francês a um dos balcões locais. Ela é portuguesa, ele parece alsaciano, misto de franco-alemão com destino lusitano.

– A morte pode esperar –

ouço dizer à senhora, que quebra as sílabas portuguesas com um martelinho gaulês.
Então, exactamente agora, um raio de sol brevíssimo acalenta tudo: fita de ouro presa a um gorro de chumbo, fugaz epifania do Verão, logo (agora) desvanecida, caída ao chão, solvida já em água fria.
Maravilha: passa uma avó de netinho pela mão. Leva-o preso pela asa – como se arrastasse um periquito. O miúdo lembra-me uma dessas aves inverosímeis: é pequenito, muito verde, a cabecita solta do resto do corpo por causa da liquidez apreensiva do olhar, um olhar como o meu, que muito olha o mundo e pouco dele entende. A visão, como o sol de há pouco, é breve. Mulher e menino desaparecem numa das esquinas com que as ruas brincam aos legos.
Agora, preparo a expedição de final de tarde. Decerto, ocupação de mesa na Casa de Pasto A Social, depois ou antes de passagem pelo Ilídio da Cardigo. Se o Adelino Leitão não der à costa por a zona do Pelourinho, sossego e redacção nA Social por coisa de meia hora. A noite há-de entretanto ter aberto a boca, há-de ser preciso ir receber o Edgar Domingues à rádio. Pode ser que alguns versos me encontrem nesse entretém que a minha vida usa para se parecer consigo mesma.

3

Entardenoitecer de 6 de Fevereiro de 2009

Em frente à Câmara Municipal a vi. Dela, a cabeça florfluorescia como um lírio de néon. Que bela cabeça! Um halo loiro santificava o ar derredor, sobre o par muito azul dos olhos. Desceu-me uma espécie de paz beata ao coração, ou ao estômago, derivada de tal epifania.
Tive sorte, já que pouquíssimos instantes depois, em plena Rua Almirante Reis já, se me deparou outro par de outro azul: à porta de uma das ourivesarias, uma mulher desfechava dentadas em uma maçã muito verde. Belos olhos distraídos aqueles azuis, que surpreendi presidindo ao vermelho muito vermelho da boca fechado no verde do fruto.
Amo que a desimportância da vida me conceda instantes cromáticos que tais – que a beleza seja ligeira sem ser leviana, que importe sem ser vital (ou mortal, melhor), que a beleza não use ser sempre apreensiva, mas por instantes instantânea e segura e bela e distraída.
Foi então que cheguei à Social, onde me dessedentei a preceito entre comedores de iscas e de peixe frito. No televisor, ardia uma imbecilidade artístico-nacional qualquer. Mergulhei nos papéis sem sacrifício. É o que faço agora, dono de cargas novas de tinta permanente (permanente mais do que a própria pobre estética a que superintendo). Mantenho-me em paz. A mulher telefona-me a contar-me do dia dela, que partilho em transes de lealdade e gratidão. Um senhor de rosto arroxeado (um balão apopléctico, uma laranja de sangue) encomenda, e é servido de, um pires de polvo ensalsado. Trazem-lhe vinho tinto, que ele absorve com capciosa demora. Gosto de ver – ver é o meu trabalho, eu seja cego se não é.
O dia acaba, fósforo da hora. Está frio. Não aqui dentro, mas lá fora. As pedras da cidade queimam-se de gelo por dentro. A ourivesaria, sem sol, parece montra de pechisbeques. Disse adeus ao Paulo Figueiredo e segui. Quando? Agora? Outro dia de outro ano? Desimportante, bacalhau a pataco. Tenho Rilke para ler. Os senhores Raymond Douville e Jacques-Donat Casanova, também os tenho: A Vida Quotidiana na Nova França – o Canadá de Champlain a Montcalm, exemplar que (parece mentira, caramba!) adquiri há 27 anos em Trancoso:


“Trancoso (loja em frente à Barbearia S. Paulo), ao 1º de Outubro de 1981”,

reza a nota de aquisição.
Tinha 17 anos, ninguém me tinha morrido. Ia com o meu cunhado Zé Lima a caminho da aldeia natal dele, que se chama Prova e é no concelho da Mêda. Quase três décadas depois, leio o livro para viajar por dentro. Lembro-me de, na mesma ocasião e na mesma loja trancosense, ter adquirido várias obras do Somerset Maugham. Lembro-me até do preço: cada a 50 paus. O meu Pai tinha-me dado uma pequena fortuna para aqueles dias: uma nota de conto de réis. Num café, comprei um maço de Porto e outro de Ritz, tinha começado a aprender a fumar havia dias, péssima ideia. A coisa passou. Agora, finalmente, estou no Canadá. No Canadá e, para já, no século XVII. Ou então nA Social, em Pombal, século XXI.

Será da minha idade, aquele homem, não há-de ter, se os tiver, muito mais anos do que eu. Encaneceu cedo, é o que é. É lojista. Tem balcão de camisaria, camisolaria, intimidades elásticas para senhoras, pijamas unissexuais. É de olhar triste, apreensivo. O porte é ponderado, mas o olhar é apreensivo e triste. Deve vender muito pouco. A loja é obscura, ardem mal as velas eléctricas que farolizam o estabelecimento ao chumbo que voltou a chover no momento em que saí para fumar na rua. Fiquei em frente à camisaria, do outro lado da rua, em outra margem da vida. Fumei. Ele olhou-me. Eu gosto muito do comércio porque sou poeta. Se fosse comerciante, gostaria talvez de poesia – ou de quem com ela falasse. É tão fácil ser o que sou: um corvo caligrafista em meio à global tempestade económica. Ser triste – é uma coisa. Ser um triste – é bem outra.
Adiante, porém.


ADIANTE, PORÉM

Cápsula no espaço-tempo da sexta-feira,
derivador de magros impérios pessoais,
conheço nesta terra a Terra inteira,
à beira das escalas siderais.


Ali o talho, ali a ourivesaria.
Além o tasco (que não é rasco, minha Maria).
Aqui a cabeça apertando a frio o coração.
Aqui a pessoa, aqui a derivação.

Em nenhum tempo, viajo a favor do pouco vento, aragem mais que força bruta, rumo ao Cardal, onde confirmo a passagem semáfora da comunidade. Não levo pressa nem vou devagar. Está tudo bem, tudo estará menos mal. É pela hora da desarmação: avós com seus netos, tipos compridos e sigilosos como ténias, polícias minerais de segurança vegetal, advogados de toga encharcada como andorinhas pluviais, quiosques que recolhem as aranhas postais, gente que arrefece. Já as padarias tocam a finados de farinha, já na hamburgueria se aquece a chapa americana.
Vou sem pressa nem devagar. Chegarei. Chegarei um dia – e será de noite, quando chegar.

06/02/2009

Crónica nº 89 da série Rosário Breve - O Ribatejo - www.oribatejo.pt

Washington, Marselha e Caldas da Rainha

Dois altos cargos da nova administração norte-americana renunciaram às nomeações por comprovada evasão fiscal. Obama assumiu publicamente um mea culpa que só lhe fica bem. O exemplo, por cá, não pega. Ministro que hoje negoceie dinheiros e interesses do erário público com mega-empreiteiros amigalhaços, amanhã, saindo de ministro, é administrador, executivo ou honorário, do ex-cliente. Corre, coelho, como diria o recentemente falecido John Updike.
Em Marselha, um chico-pouco-esperto lembrou-se de assaltar um banco. (Ainda há quem pense que um banco se rouba por fora…) Vai daí, arrendou a casa ao lado e botou-se a escavar, a escavar, a escavar. Escavou, escavou, escavou. Ao emergir do outro lado, pôs a cabecinha estúpida de fora. Era na casa-de-banho que estava, não no desejado cubículo do cofre. Foi preso, o burro. Cá, faziam-no, no mínimo, assessor. Levavam-no ao Cocorós & Contras e tudo, aposto.
Nas Caldas da Rainha, uma mulher de 90 anos (noventa, sim) anda no mercado local a tentar vender pensos rápidos. Com 200 euros (duzentos, sim) de reforma, claro que não ganha para os medicamentos nem para comer nem para a renda da casa, que partilha com um filho velho também reformado. Como a nonagenária senhora não é de uma “etnia” qualquer, paga. Como não é da Covilhã, paga. Trabalhou anos a fio numa escola. Não consta que tenha roubado nada nem ninguém. Não andou para aí a jurar bandeiras nem a esmurrar honras peitorais. Descontou o que era devido. E agora isto.
Não é o penso que é rápido: é a ferida que é lenta. A ferida deste país sem consciência, sem vergonha, sem espelho e sem remédio.
Corre, coelho.

05/02/2009

O JOSÉ Ronda, mas o CID Columbina




Ah poiZé: hoje há Cid na Ronda Columbina.
Ninguém anda aqui a brincar.

Em compensação, também haverá

Thurl Ravenscroft
Classix Nouveaux (sim, Classix Nouveaux)
Vitorino
The Stranglers
David Sylvian
Amália
Norah Jones
Ella Fitzgerald
Frankie Goes to Hollywood
José Mário Branco
Ena Pá 2000
Roxy Music
Tony Bennett
Zeca Medeiros
Rita Pavone (sim, Rita Pavone)
e
Pat Metheny com Ulf Wakenius e C. McBride.

Em 87.6 FM e/ou http://www.radiocardal.com/

Mas há Cid, não esquecer.

04/02/2009

CARTA (MUITO) ABERTA PARA A MINHA IRMÃ EM UM ANIVERSÁRIO MAIS DELA





4 de Fevereiro de 2009



Gosto, como tu, de quando o vento levanta as saias à chuva, alvoroçando os guarda-chuvas de há meio século, quando já eras a menina em que te tornaste para sempre.

Tu reparaste, como ninguém mais que eu conheça, em como as árvores se sentam quando ninguém repara.

Como te interessa sempre onde e que ando a fazer, mais te digo que – por aqui, pensando todos os dias em ti, em coisas que vejo para te contar (faço-o muitas vezes em verso, mas é sempre contigo, de ti e para ti que falo).

Ontem (também como tu, claro), pensei no nosso Pai.
Escrevi-lhe:


Não me toma outra doçura que a de me teres sido.
Ter sido uma luz na tua sombra, alguma noite.
De ti ter sabido a doçura da doçura – e dos
mistérios simples dos azul-azulejos-1700.

Não outra doçura me torna que a de te ter sido.
De ti ter tido o amor aos alfarr’almanaques
(incluindo os marriotts e os mandrakes).
Que tonta doçura, senhora, termos sido
– e só ser, agora, sem senhor.

Julgo que isto assinarás em baixo, comigo.

O amor que temos a esse homem é de uma tristeza amansada pela doçura. Não é, minha Irmã?

Também é: uma carburação de ouro de lareira, um raspar de ramos nocturnos em vidraças de inverno, um eco de sílabas, palavras, frases e apotegmas que fizeram, fazem e farão de nós, os filhos dele, íntimas câmaras de ressonância dotadas de memória e gratidão.

Aprendi a escrever com ele, vê lá tu – com ele que nem escrevia, senão, a lápis, no verso das capas dos livros ilustrados:


“árvores ao vento, pág. 144”
“cavalos em corrida, 81”
“velhos no jardim, 77”
“rosa para a minha filha, 4”


Todos os filhos dele com ele acamparam imaginariamente na choupana do monte, onde o vento levanta as saias à chuva.

Fez-nos ele café na cafeteira azul a todos, mitigou-nos o frio, condenou-nos o coração a uma errância peregrina pela beleza do mundo.

Se hoje nos acontece recordar para a frente – é por causa dele, lá onde ele nos espera, de antigo guarda-chuva na mão, o sorriso que lhe nascia triste nos olhos bons.

Fizeste-te entretanto Mãe, pelo que és culpada de rosas.
E de tal te resulta o que a todos quantos criam e procriam resulta – a não suave esquizofrenia de ao tempo mesmo sermos filhos e pais e filhas e mães.

É um aniversário mais e teu: aos 65, és uma menina dourada por fora pela instância outonal dos anos, dourada por dentro do duro ouro de tanto amor.

Porque tens – e dela sofres – essa incurável mania de amar mais do que respiras.

Ajuntadora de tudo quanto é mínimo por máxima condenação, tropeças de choupos de aguarela, de madressilvas pontilhadas a pêlo de marta, de pentes, de retratos esfumados, de bilhetes de lotaria que só sai grande dentro, de números de nenhum resto-zero, de infindos sentidos disto que sentido nenhum faz que lho não tenhamos nós que fazer – a vida.

Nesta vida, pois, minha Irmã, conta mais anos e um só amor – o nosso de todos por ti, desta quarta-feira em diante volvendo, de guarda-sol na mão, levantando a chuva as calças ao vento que dá em certa choupana,

azul.



03/02/2009

Hoje na Ronda Columbina

Logo de Érico Dias
******
Hoje, 3 de Fevereiro de 2009, entre outras vozes:
The Grateful Dead
Aldina Duarte
Siouxsie & The Banshees
Regina Spektor
Tony de Matos
Vanessa da Mata
Paul Simon
Fausto
Frei Fado d'El-Rei / José Afonso
Pet Shop Boys
Jethro Tull / Bach
Sam Cooke
Trijntje Oosterhuis
e
Nick Cave.
Em
e/ou
87.6 FM.
Até logo.

Nick Cave como só Nick Cave

02/02/2009

NOSSA SENHORA DAS LARANJEIRAS - um tríptico oratório

Souto, Casa, tarde de 2 de Fevereiro de 2009



I. CAUSA

Por que causa é tão luminosa mas tão veloz
a infância?

Por ser uma eternidade
à velocidade
da luz.



II. A MÃE

A mãe despovoa a estrada interior que leva ao mar.
Ela não pode mais, a mais não pode ser obrigada.
Ela trouxe todas as cerejas que pôde, agora tenta dormir.
A mãe apascenta agora as crianças fantasmáticas,
os filhos devindos fantasmas.
A mãe agora tem filhos pela nuca.

A mãe não sabe já onde guardou as navalhas.
Batem-lhe à janela as ruas cicatrizadas, ela pensa
que é à porta que batem, vai atender, não é ninguém.
A mãe é branca como a ovelha, ó velha ovelha mãe.
O último lobo ronda-lhe a janela, não descobriu,
ainda não, a porta da mãe.

É inútil procurar a mãe nos cafés da província,
nos da cidade muito menos, a mãe reentrou de vez.
A mãe dá golpes de alumínio no ar que chove.
Ela prolifera de humidade na cama dos pinhais.
A mãe é de uma qualidade florestal que assobia.
A mãe não é um exclusivo da civilização ocidental.

A mãe babuja sombra pela boca da manhã.
A manhã já foi já não é o país declarado pela mãe.
Foi-se fazendo noite, é o que é.
Ela trouxe todo o peixe que pôde, agora medicam-na.

O ADN das nebulosas coincide em espiral com a mãe.
A mão da mãe encarquilha-se na areia como a estrela-do-mar.
A mãe é para sempre copiosa.
Quando enrijece de frio, a mãe madona-se toda.
O sangue da mãe chama o lobo pelo nome do lobo.
A mãe é branca como a ovelha.

A mãe nunca pode ser uma mulher diferente.
A mãe é onde.
Ela usa telepatia com os retratos da sala.
Ela começa a ser a trança da avó no psyché.
Os pés da mãe são tripé-de-galo.
A mãe escreve cartas que fotografam.

A mãe é 0 que assimilou o pai.
A mãe é mãe do pai.
A mãe faz pais.
Agora a mãe não pode mais.

Na casa sublinhada pelo ribeiro está a mãe.
A casa sublinhada pelo ribeiro é a mãe.
O tempo faz de vento que traz e leva a mãe.
A mãe traz e leva o tempo ao vento.
A mãe traz e leva o tempo ao filho.
O filho é mais e mais fantasmático na mãe.

A mãe é caudalosa para dentro.
A mãe é caudalosa para dentro da nebulosa.
A mãe cauda-se toda em espiral.
A mãe vigia o frigorífico como um técnico de partos a frio.
A mãe usa telepatia com o frigorífico.
A vocação da mãe era o lume, mas a neve.
O lobo na neve procura a porta.

A mãe é o sentido do borda-d’água.
Ela faz de agonia e de cosmogonia.
Há mais habilitações na mãe do que fora da mãe.
A mãe frita sardinhas num outono oblíquo.
Bate-lhe à janela a cicatriz do inverno, ela não ouve.

A mãe já não ouve senão para dentro.
A mãe está outra vez a ser filha, agora.
A mãe tem medo que o pai dela não goste dela.
A mãe da mãe não gosta da mãe.
A mãe da mãe está na gaveta de baixo do psyché.

A mãe é o nome que o ar tem na chuva.

A mãe já não sabe tudo sobre os animais.
As plantas sabem tudo sobre a mãe.
O chão das plantas é o chão de toda a mãe.
Quanto mais chão, mais mãe.
Mais mãe quão mais planta.
Quão mais animal.
Quão mais espiral.

É inútil procurar a mãe na província dos cafés.
A mãe não pode trazer mais peixes, mais cerejas.
A mãe toca o ribeiro como uma flauta de água.
Ela reentrou na casa onde os retratos ardem neve.
O lobo e a porta são magnetos.

A mãe é o mapa do coral.
A mãe só é mãe se for o mapa do coral.
A mãe sabe como se constrói uma laranjeira.
A mãe é mãe porque ensinou a construir a laranjeira.
A laranjeira assinala a estrada para o mar.



III. COMO CONSTRUIR UMA LARANJEIRA

É só usar velozmente a luz.

QUATRO TEXTOS DE SETEMBRO DE 2008

TÁBUA

I. Latada
Molelos, tarde de 2 de Setembro de 2008

II. Peça-Carta Sextafeirante
– um ministério palavroso
Viseu, manhã e noite de 5 e madrugada de 6 de Setembro de 2008

III. Palpação
Viseu, madrugada de 13 de Setembro de 2008

IV. Que o Tempo Não Está
Viseu, entardenoitecer de 27 de Setembro de 2008






I. Latada

Molelos, tarde de 2 de Setembro de 2008


Foi debaixo de uma latada fresca e viçosa (tão viçosa e fresca, que a luz solar permeava as nervuras das parras de uma translucidez de orelhas de coelho ou de criança; tão fresca e viçosa, que a sombra possuía a consistência do musgo humedecido pelo rasto e a baba das lesmas) – que te senti, a ti sim, que já comigo não estavas porque quiseste sair da minha vida: e saíste.
Aos meus leitores, digo que foi em vida que me saíste da vida, a ela retornando pela morte, esse ardil mais inicial que terminal a que a nostalgia recorre para impor a sua autoridade desumana.
Era uma latada de traseira de casa, sob a qual os fantasmas rurais merendavam ainda a bela posta de bacalhau assado pontuada de azeitonas duras como certos olhares negros.
O azeite e o vinho recordavam sozinhos os desaparecidos, tu entre eles, para meu desassossego e minha euforia. Senti-te tão materialmente quanto uma dor – ou uma bofetada de vento. Gansos ovelhavam pelo chão de terra. Um cão dormia sem futuro a um canto, ali onde os da casa, hoje morta, guardavam o ferrugento limão e a couve maternal.
Então, espremi o meu coração contra ti: ácido soro gotejou desse barro escuro a que o amor já não molda, antes refracta e estilhaça.
Não voltarei àquela latada.
A ti, sim.



II. Peça-Carta Sextafeirante
– um ministério palavroso

Viseu, manhã e noite de 5 e madrugada de 6 de Setembro de 2008


A jornada amanheceu fresca.
Revoam pelo chão, como moribundas aves, as primeiras folhas outonais.
Saí sem casaco à rua, sabe-me bem o frio.
A luz aluminia o dia, os ossos rangem como ferragens.
De um rádio doméstico, serpenteia um pasodoble que confirma a insensatez de amar.
Todas estas palavras nos arredores do coração.
Todas elas translúcidas como medusas e obscuras como ligações.
O meu corpo há vinte e um anos, noutra cidade, desconcertando-se já ante a arrumação mundial das coisas.
Esta noite, sonhei uma peça de teatro, cujo final perdi acordando: nunca a escreverei nem reverei.
Uma leve angústia por causa disso.
Uma ligeira amargura por causa disso.
As veias dos olhos pulsando a furta-cores.
As árvores como diagramas cervicais.

(MAS:
Minha vida conta nada,
contagem é de meu passar.
Imagem de imaginar,
minha vida conta nada.)

(FAZ-SE FEZ-SE DE REPENTE NOITE:)

Noite frígida, não amorosa noite, assim de repente há milénios.
A coquettevamp de collants cor-de-rosa exerce já seu ministério de defuntos interiores pelo bar tocado a sax e a bateria electrónica, insuportável.
É sexta-feira, é hora da putaria e da bebida fria.

É outra vez 1981, é outra vez sexta-feira.
Elanguescem as veias idiomáticas, o pátrio sangue do rapazinho de bairro que, esquecido de leitibolachas, sai a conquistar o mundo conquistado, enquistado, fatigado, já nem fundo mundo.

(VOZES, AGORA VOZES:)

– Uma, duas.
– Estiquei-me todo.
– Hoje esteve frio todo o dia.
– Todo o dia é hoje.
– Todo o dia é hoje, Maria.
– Não podes querer uma moeda que não é tua.
– Freedom, freedom!
– Tu és um anjinho do caraças, não gosto nada dessas coisas.
– Dóing, dóing!
– Começou ontem!
– Eh, é!
– Esta merda.
– Passava-lhe um pano húmido.
– Vamos a setenta e tal.
– Se fosse vermelho.
– Daqui a quinze dias.
– 80.
– 81.
– Um euro, tu tens cinco euros, mentiroso!
– Metes lá cinquenta cêntimos, o euromilhões.
– Afinal cinco anos, 50 e tal contos.
– O jackpot, compras 1 casa com esse dinheiro.
– Na RTP.
– Na Rita, naquela mesa.

(UM RAPAZ MORENO ENTRETANTO ESTABELECE SEU MICROBIGODE-À-CLARK-GABLE-À-FASCISTA-LUSOBRASILEIRO-ANOS-50-DO-SÉCULO-PASSADO:)

– Cara!
– Ninguém me mexe nos joelhos que eu não deixo!
– Cara!
– Rijeza.
– Duro tom, tom, Tom Jobim.
– Liberta os escravos da própria liberdade, vai!
– Sai.
– Um fio de ouro ao pescoço faz bem à saúde e à sorte.
– Quem dera aqui vir um bocado.
– Ôda-se!

(Um dia o dia terá sido 5 de Setembro de 2008, que ridicularia. Homens e mulheres adentraram outonalmente casas-dormitórios, exaustos, fatigadas. Casa com casa, gente que dorme fora, motoristas-camionistas belgicando suécias irredimíveis. Ôda-se. O tempo dos trabalhadores; o povo antigo dos sonhos; o ser interior que resiste quando te barbeias; o silêncio todo sideral como uma joalharia muda; qualquer dia; ó Gonçalo!; estes arredores do palavroso coração; uma boa palavra recebida de uma pessoa boa numa má noite, numa hora má; freedom, freedom!; essa certeza antecipada da morte penteando o macaco da tristeza; o pai multiplicando as sombras como um dador de luz; o pai a sorrir-nos que sim e que esperemos um pouco que ele já não vem; as andorinhas alvinegras ágeis como gatas frescas; ôda-se!)

(AGORA ENTRA A FALA DO HOMEM QUE VENDE SEGUROS E FOGOS-DE-ARMISTÍCIO:)

– Sedu-lo o mar revolto branqueador de crochêspumas? Interessa-lhe o doisimeio de percentagem? Whisky de 30 anos é bom prà imagem? Gosta de ver decote a vermelho de fato-banhista? Gosta de, porizemplo, 1981? É, o senhor, senhor de suas opções? Digamos: de seus genes, seus tomates? Está atento o senhor às mudanças frias prometidas-e-cumpridas pelo zamericanos ecologistas tipo algóre tecetrital? Conhece o senhor o redivivo sangue a partir do chá de folha de laranjeira? Conhece o-senhor-a-senhora a vida inteira?)

(EM CASO DE NÃO, RESPONDER:)

Refrescarei a jornada amanhã, senhora Mãe.
Terei uma atenção personalizada para com as folhas outonais.
E mais:
serei outra vez o teu mamário colo, 5 de Setembro, fora de merdas e de ôda-ses:
e deixarei sempre crescer bigode de avatar de bares, algumas sextas-feiras,
quando outona
e tudo é tão triste quando
uma louça esquecida
entre casas mudadas.

(AQUI ENTRA O ARRUMADOR DO TEATRO, SÁBADO JÁ:)



III. Palpação

Viseu, madrugada de 13 de Setembro de 2008


Palpa devagar os teus retornos.
Palpa o teu coração como se médico foras.
Médico e genealogista, que isto de palpar sempre tem, também, que se lhe diga.
Toca a tua cozinha maternal: os cheiros, as queimadas mães, perdão,
mãos,
dela:
o arroz de frango acovardado a caldo-knorr,
a sobrevivênciazita com massa,
o maior glutão de glúten do arroz,
da papa-para-crianças do quase extinto
salazarismo.
Este é naturalmente um poema português.

Este é naturalmente um poema de um português.

******

Lembro: a minha bebé
dormia de lado como uma gata
das que tenho agora sem bebé.

Era uma frase de leite,
a minha bebé,
mas com zero pêlos.

A minha mão esquerda
era poderosa, mas só lia,
não escrevia.

Eu escrevo com a mão direita.

A minha bebé estava à esquerda.



IV. Que o Tempo Não Está

Viseu, entardenoitecer de 27 de Setembro de 2008


Soube pelo boletim meteorológico que o tempo não está
bom:
depressões, anticiclones.
Anticiclones depressivos.
Depressões anti.

Esta vida é a vida que fiz na vida.
Escrevo boletins meteorológicos.
Chove-não-chove.
Luz do sol nas praças.

Homens jovens no aeroporto
de Figo Maduro.

Nasci tarde até no futuro.

01/02/2009

DOIS POEMAS QUE VINHAM DENTRO DO MAÇO DE SG GIGANTE

Pombal, noite de 1 de Fevereiro de 2009



I


Saí para comprar cigarros e dei de caras
com a solidão gregária das pessoas, casais
incluídos, no café, ante o altar do televisor.

Soube-me bem o café, um pouco de Blake
(o N., não o W.), um pouco de Federico,
no largo as palmeiras clamavam em vão pelo deserto.

Máquinas de venda automática (cigarros, brindes, aperitivos)
e máquinas de compra automática (as pessoas):
tudo em ordem nos respectivos sítios, é a vida.

Vi uma rapariga já não virgem de boné de lã preto,
botins bicudos, calças justas como decalcomanias,
colete de malha roxo sobre blusa fina branca.

Vi um homem de boné de terileno que mantinha
as luvas calçadas, quadruplicado o olhar pelas lentes
cu-de-garrafa, fato completo de riscas, sapatos baratos.

Vi uma mulher pequenina como uma colher de chá,
camisola escarlate que lembrava uma ferida irreparável,
botinas de pelica como já nem me lembrava existirem.

Nas prateleiras de vidro, seis garrafas, sete, seis, sete,
em perfeita ordem e brilho de pano. Dois vasos
com plantas tristes. Um quadro na parede. Dois.

Vi um homem-sexual lamber um pacote de açúcar
como se pensasse, vi um bigode listrado de branco
como um código-de-barras. Não vi criança alguma.

Fui à casa-de-banho prestar contas da minha mesma solidão,
lavei muito bem as mãos no fim, voltei para este papel,
considerei seriamente a hipótese de tomar outro café

mas não tomei, continuei mas foi a ver.



II

Grácil figurinha recém-adolescente,
adentra o lugar do meu coração,
que eu não sou velho, sou ’inda gente
p’ra repenicar cauda de pavão.

Meneia as anquinhas de casca de louça,
levita as mamitas ao cimo apontadas.
Te digo, menina (que ninguém nos ouça),
que tua é casta das abençoadas.

Ó casta de casta e de castidade,
grácil gazelinha de soro de leite,
se não eu, menina, contigo se deite
quem te leve ao altar e ao macio tálamo.
E se o meu coração de velho pavão
t’inda gritar, descuida-mo. Cala-mo.

Vi(d)a de F.

Souto, noite de 1 de Fevereiro de 2009



I

Façamos uns aos outros o favor de não existir tanto
outros para uns.

II

Tirando isto,
que fica daquilo?

III

Sobre que estepes e pistas soprarei o mais glaciar
dos meus corações?

Quantos usei até amanhã?

Lobos, revoadas de neve como papel encarquilhada,
frios que ardem como uma punhalada,
a infância toda de repente no sabor de um chocolate
de determinada marca indeterminável e
terminada.

Subitamente sou claramente um homem no escuro.
Trepido sem que por fora se note, comboio de mim mesmo
como toda a gente
em sua vi(d)a de ferro.

Dando o Vento no Cedro ante a Casa

Souto, noite de 31 de Janeiro de 2009



I

Dando o vento no cedro ante a casa, dei por mim
a pensar na morte.
Não foi triste acontecer-me isso, era uma espécie
de sugestão eólica, algo assim.
O vento labaredava no cedro, eu parecia
nem estar em mim nem em casa, nem
alhures: a morte pensava-me.
Não entristeci, aproveitei aliás o momento.
Um vento num cedro, em tarde fria e pluvial,
é das mais formosas coisas em Portugal.

Depois, tratei-me a canja de galinha e laranjas,
saí para tomar café no café da aldeia, estava
a dar o Sporting não sei contra quem.
Dois homens já descriados falavam da firma,
um deles disse-me que a festa do Casal Fernão João
é hoje.

Dei por mim a pensar na dificuldade das festas
de Janeiro, o frio que faz, a chuva que apaga
o incêndio do vento nos cedros, estas coisas
assim.

Se calhar, penso muito, se calhar isso pode não ser
cá muito bom para a saúde.

Quando vivia em Peniche, o vento ardia todo
no mar.
Eu era muito novo, tinha 22 anos, e então
sim, então eu era triste.

Em Maio, tinha-nos morrido um irmão.
Eu tinha outra casa, então.
Também havia um cedro ante essa casa.
Eu tinha um cão, o mesmo
que de vez em quando me aparece nos versos.

Dando hoje o vento no cedro do futuro (isto
que veio no Tempo), não foi no nosso irmão
que pensei. Não. Foi
na morte,
nisso que acontece por telefonema

ou poema.



II

Depois, que é agora, pensei
nas courelas, nos animais que pastam nelas,
pensei no Rei e na Grei e na Lei,
mas sobretudo pensei
nas courelas.

Gosto deste café porque vende latitas de atum
e bolachas-baunilha e até cassetes do Emanuel.
Agora tenho o nome do meu Pai, Senhor Daniel.
É como me chamam e eu gosto, como se fora um
milagre ele continuar través mim.

Às vezes, ele há pequenas alegrias assim.



III

Drapeja na noite o vento negras, negras bandeiras.



IV

Agora, um homem está sentado no meu corpo no café.
A noite fechou a aldeia como um toldo de circo.
Faz o homem de animal, de malabarista, de circ’artista.
Janeiro acaba em torno, acaba dentro do poço-da-morte.

Que admirável é o nenhures a que chegamos!
Que admirável é o nenhures a que chegámos!
Casitas vigiando laranjeiras, ruelas esconsas como
as veias do coração, onde mói a moinha pluvial.

Arrefecem as mães ao lume da água, mas os cedros
flecham vento oblíquo, ateadores da benigna
flama, muito padece quem ama – etc.
O homem no meu corpo quer não sei quê, quem.



V

Devo ter ido no vento.
Esparsa palavra de gente, devo ter ido no vento.



VI

Agora é amanhã, é domingo, só à tarde
o circo trabalha, depois vai-se embora,
desmantelam os animais, a pobre magia,
concedem à noite o estatuto de
maior espectáculo do mundo,

e então eu e o cedro e o vento,
assim.



VII

Gosto de quando eles jogam as cartas, no café.
Em casa, as mulheres deles urdem caldos,
crianças, cafeteiras, lumes.
Em casa dos jogadores, as avós enviúvam os cantos.
Há retratos de antigos matrimónios a gás, no fumo
do Tempo, na casa dos jogadores de cartas.

Sabe-me a boca a pássaros chicoteados de chuva.
Latitas de sardinhas, pacotes de bolacha-maria.
Crisálidas larvam, pescarias apetrecham.
Muito ama quem padece.

Batem os duros nós dos dedos a pedir trunfo.
Manilham duramente o frio atroz da vida.
Não pensam na vida, só na firma.
Em casa os retratos, as mulheres.

Aqui, o jogo.



VIII

Infinita é a beleza do homem que vive dentro do homem.
Infinita, dele a tremenda antecipação do pó.
Feito de areias, esculpido a água, tremendo, infinito homem.
Tremendo de frio, também.

Eu tinha só 22 anos, vivia em Peniche perturbado pelo mar.
Parecia-me que não podia ser tanta beleza, que
tanta tristeza não podia ser.
Podia.

Venero a azeite os meus avós portugueses, gente
do tempo do Rei, rostos de fumo em duplos retratos
siamesados pela vida e pela morte e pelo amor,
comedores de caldos, engendradores de filhos,
esses circos do futuro de café de aldeia.

Quantos homens dentro de um homem jogador de cartas?
Especiosa especiaria, cada José, cada Joaquina.
Estupenda tristeza, o ferro no lume, as aves na brasa.
E cada todos em cada um, cada um em sua casa.

Agora, amar ter sido menino é uma pedofilia.
Agora é amanhã, que são de azeite os ontens.
Agora joguemos as cartas à face da pedra.
(As mesas são de mármore, como tudo imita.)

Quantos homens.



IX

Agora, a rosa do lume purpureia rubis de cardiologia.
Esteve muito frio toda a vida o dia.
Floresce a preta rosa, a noite negra.
O cedro diz vento, final palavra de ir

embora.

No Portugal do Zé Piaget Sócrates

30/01/2009

PERANTE O PÁTRIO AFUNDANÇO, DIZ-TE, NÃO SEJAS MANSO

TÁBUA

I. NOTAÇÕES PARA UMA PERI(QUI)TAGEM DA GRAVE CRISE ECONÓMICO-SOCIAL DE PORTUGAL PARA EXEMPLO LÁ FORA – em forma de carta de amor à minha mulher

Souto, tarde de 30 de Janeiro de 2009

II. DO PATRIOTISMO E ARREDORES

Pombal, entardenoitecer de 21 de Janeiro de 2009




******


I


Os cavalos cegos enlouqueceram,
querida,
julgo que de vez,
querida.

Usam botas que encontram no lixo,
levam para casa tudo quanto é garrafa de plástico,
prospectos de dietas milagrosas, restos de corda,
escovas desdentadas, info-reportagens autárquicas,
rodas de carrinho-de-bebé, cotos de lápis.
Que faremos,
ternura minha,
destes animais
a menos?

Estão em promoção as grandes derrotas da humanidade
dos cavalos cegos,
querida.
Estandartes de azul-vermelho tiracolam altos prédios de vidro,
a vida comercial embebeda-se de fria festa sem gente.

Quem diz os cavalos, diz os periquitos,
querida.
Lembras-te de serem mansos e domésticos e solteirões
os periquitos,
amor?
Eram todos de primeiro andar, as donas não
eram viúvas ainda, os senhores Monteiros maridos
delas estavam empregados todos e tinham todos
fim-de-mês,
ao domingo ia tudo, periquitos e tudo, à Caparica ou a Espinho
com arroz-de-tomate e bolos-de-bacalhau a ver
a chuva a dar no mar e os barcos da Marinha
parados como sonhos de chumbo na linha
do horizonte,
querida,
que então horizonte havia ainda,
amor.

Quem diz os periquitos, diz os bêbados,
amor,
que não eram alcoólicos por falta de estudos,
para mais era só vinho o que bebiam,
e quem estava vivo até se ria,
e se alguns nas mulheres batiam,
era da Bíblia,
querida.

A roupa enxuga em máquinas, não ao vento.
Pode ser que sobre cartões sequem ainda em pátios
algumas mãozadas de pevides, mas os tremoços
são de estufa, são pequenos, duros e não sabem
à carnação vibrante do sal em camisa de película
desdentável,
querida.

Cavalos, periquitos, pevides e tremoços concorrem
para uma despatriação pungente e pingente
sem gente dentro,
amor.

Pelos chamados corredores do poder, os passos são
mais que nunca perdidos.
Proliferam os enlouquecedores de cavalos, os agiotas
que agem, os idiotas
que ideiam, os versados
que cevam, os cevados
que versam,
querida,
ternura minha.

Só a morte transigirá alguma piedade,
fechadas as bibliotecas escolares,
encerrados os parques de merendas,
queimadas as maternidades,
estiolados os salões de baile,
embolorecidos os conventos,
roídos os tremoços,
plastificados os cabedais,
fritos os jaquins,
descascados os amendoins,
despedida a função pública,
exacerbada a assadura dos cus,
oleada a rótula de platina,
anelados de bodum os prepúcios,
coçada a virilha,
raspada a axila que se diz sovaco,
amor.

Temo tenham enlouquecido de vez os cavalos patriotas,
querida,
cegos que eram para as evidências até meteorológicas
da Pátria.
São mais rigorosas agora as invernias,
amor,
sabe-lo como ninguém tu,
que nunca foste de periquitos
nem de primeiro andar,
mas rés e chã
e portuguesa.



II

O patriotismo é a fórmula que o inconsciente colectivo encontrou para amar a merda.
Posso dizê-lo de outra maneira – e tenho-o feito – mas fica esta: amar a merda.
O inesgotável filão de imbecis desta puta-pátria tem o seu quê de transcendente, de quase divino, por tão humano e imanente e imbecil.
Eu deste país de merda só queria meia dúzia de oliveiras, talvez nem tanto.
Manhãs rentes ao mar, ele há muitas noutros países.
Isto é tudo tão merdoso, que nem me cansa.
Para me cansar, teria de correr – e estes paços não merecem um passo sequer.
Falo a sério, chiça.

Os insuficientes mentais da rádio-televisão, a quadrilha dos bancos, as seitas evangélicas, os poetas, os de Braga, os actores, os engenheiros, os anais e os menstruais, os cancerosos, os que alugam barcos, os à esquerda da direita e os do avesso da esquerda, os solícitos solicitadores, os abstémios, os não-fumadores, os de Setúbal, os filhos-da-puta em geral e as mães deles em particular, os sindicalistas que não fazem boi e os bois que vão para sindicalistas, os bulímicos, os químicos, os de Abrantes, os que usam cachecol, os que usam o Estado, o estado do uso, o estudo do abuso, os coimbrinhas, os que só dão o cu mas aparecem de piça à lapela, os tónico-capilares, os bic-laranjas, os rosa-cristal, os ciganos e os cigmeses e os cigsemanas e os cigdias e os cigminuto-a-minuto,, os lopes, os palopes, os motores, os promotores, os disto e os daquilo, os reformados, os reformistas, os reformadores, os formadores, os dores, os de Beja, os taxistas, os utentes, os entes, os doentes, os hirsutos, os mansos e os brutos, os anémicos, os da Pampilhosa, os que tossem, os que rumorejam, os do cinema de produção nacional, os nacionais de produção teatral, os que cortam árvores, os que rotundam, os que se arredondam, os que vendem a salvação em brasilês, os que dizem é-assim de cinco-em-5 segundos, os que dão aulas e os que faltam às aulas, os que superbockam, os que acham bem tant’auto’strada entre nenhures e sítio algum, os que amocham com o andor nas procissões, os que mesmo não sendo mulheres não têm colhões, os que tendo mulheres as deixam ir a pé a Fátima ou sabe-se lá aonde, os de Leiria, os cabeleireiros mais fêmeos do que o elástico dos soutiens, os que já redigem sutiãs, os que se pudessem não deixariam ninguém poder, os suinicultores, os que mexem nas partes dos netinhos, os netinhos, os de Tavira, os que mordem a haste dos óculos, os que bebem o vermute com o mínimo esticadinho até à unhaca de tirar cerume dos pavilhões capiloso-auditivos, os dentistas, os aut(omobil)istas, os que têm o cu virado para África, os que nos venderam a Bruxelas, os que estão em Bruxelas a vender-nos ao resto da Bélgica, os que estão em Bruxelas mas voltam, os que rogam por-obséquio, os que pedem tenhamos-a-fineza, os que nunca leram o Nuno Bragança, os que lêem o Torga, os que vomitam, os que crocitam, os que caganitam, os que gritam, os que se vêm mas não se vêem, os que compram nos chineses camisolas para levar à manifestação contra o desemprego, os secredromedários de Estado, os mais altos camelos da Nação, os do Porto, os do FC do Porto, os que têm cataratas no olho-do-cu, os que têm dois-olhos-do-cu na cara, os que fumam mentol, os que dizem cagalhão com boquinha francesa, os que estão sempre a falar no exílio de Argel, os que expectoram pescada, os das poupanças-reformas, os pais-natais, os meninos-jesuses, os das rifas, os do vê-mazé-se-te-abifas, os do torrão-de-Alicante, os de Nelas, os da tropa, os da Europa, os que põem as filhas no ballet ao dispor dos pedófilos que dão Religião & Moral, os que põem os filhos na heroa, os que dolcegabanam e os que só abanam, os que confundem os canhões de Navarone com a ponte do rio Kwai, os que são mágicos, os trágicos, os que são marítimos, os histamínicos, os cómicos, os noz-vómicos, os da Covilhã, os que trocam a rata da mãe por duas embalagens de bacalhau pré-demolhado, os que são trocados pelas mães, os de Bragança, os de Silves, os do Funchal, os do Pico, os de Cantanhede, os de Viseu, os de Peniche, os de Évora, os de Aveiro, os de Pinhel, os de Newark, os de Portalegre, os de Goa, os da Trofa, os de Sacavém, os de Berna, os só-de-taberna, os de S. Paulo, os de S. Paulo de Frades, os de Oliveira de Azeméis do Hospital de Frades do Bairro, os que paulocoelham, os que siddhartam, os que se peidam que nunca se fartam, os que dizem ámen e os que amenizam, os que vertem e os que entornam, os que tornam, os que se encornam, os que se autorretratam e os que nunca se retractam, os que vêem o telejornal, os que já viram ovnis chamados ufos, os bufos, os tartufos, os alecrínicos e os manjerónicos, os que blogueiam, os que bloqueiam, os que manoeldoliveiram no pátio das cantigas, os que nunca se movem, os que se comovem, os que bradam, os que ladram, os que votaram neste cabrão mas agora juram que não, os não foram eles, os que são outros em vez deles por não ter sido o pai deles a foder a mãe deles, os que mandam nas urgências, os médicos, os que têm tétano por profissão, os que fazem do tédio negócio e os do ódio ócio, os ósseos, os seminais, os seminaristas, os sacerdotais e os chupistas, os que foram às urgências para morrer em casa, os que nascem em ambulâncias, os que nem casa têm onde cair mortos, os de Alenquer, os sibaritas, os hermafroditas, os foditas, os jesuítas, os juristas, os naturistas, os que chupam cabeças, os da bandadalém e os que ficam sempre aquém, os de Sintra, os da Madragoa, os porteiros, os parteiros, os excêntricos, os teocêntricos, os dos amanhãs-que-cantam-quando-a-galinha-tiver-cáries, os de Pombal, os que anoitecem de manhã, os que tonycarreiram, os que encarreiram, os que encarneiram, os do poder local, os do foder boçal, os que vendem meias a paraplégicos, os que ladram Deus ao domingo, os que arrolam testemunhas na esquadra de Jeová, os holocáusticos de David, os do tremoço e os da pevide, os que não comem carne de porco sabe Deus porquê, os que dão sangue mas só o do fim da borbulha, os do Estoril e eu também – tudo merda.

Tudo.


Crónica nº 88 da série Rosário Breve - esta semana, nO Ribatejo - ww.oribatejo.pt

Coisas do caruncho local

Aqui pelas várzeas, berças, gândaras e charnecas continuamos todos a criar o pau carunchoso que é a vera riqueza nacional de que se fazem os santos.
A Lurdes do Ernesto dos Melões mostra ao peito uma medalhinha muito benta que era para ser de prata-de-lei mas, como a comprou àquele senhor do Banco que agora está preso, afinal deve ser só de casquinha, por mais santinha.
A Isaura do Loureiro da Venda não tem medalhinha nenhuma – se a teve, deve-a ter perdido dalguma vez que se portou mal ou com o carteiro ou com o homem das águas da Câmara.
O Felício da Ros’Amélia das Couves anda inconsolável porque não há direito dizer-se tanto mal do senhor Presidente, o da Junta daqui, não é o de Lisboa, e não “lhes” (isto é, a “nós”) acontecer nada, nem prisão, nem multas, nem problemas.
O Ricardino, que foi cabo miliciano em África e voltou sem um olho, sem pensão e com um cantil furado à bala, não acredita nem em nada disto nem em ninguém, e ainda no Natal passado quase foi preso por ter partido o televisor do Loureiro da Venda à cabeçada com o capacete da motorizada posto.
O filho do Jeremias dos Fogões, diz-se que abafa a palhinha.
O Manel da Gervásia dos Frangos também diz que o filho do Jeremias coiso aquilo da palhinha, mas que ele se calhar é que tem razão porque desde a implantação da República sempre os houve, até por isso é que trocaram o Rei pelo Gay.
Eu por mim acho estas coisas todas muito tristes, mas não me ralam nada, valha a verdade, porque o meu já cá canta, que eles em França mandam sempre a “retrete”, que é como eles chamam à reforma não sei porquê.
Modos que é assim, cá se vai desandando para a cova o mais devagarinho que se pode, uns dias chove, outros dias bate sol, como nesta história toda do Dr. Dias Loureiro, que não tem nada a ver com o homem da Isaura apesar do nome, e se calhar com o do Banco das medalhinhas também não tem, não sei.

29/01/2009

Mais Três Coisas Inconsequentes




TÁBUA

I. Dísticos também Pluviais

Souto, tarde de 29 de Janeiro de 2009

II. Não deste Lado

ibidem

III. Dois Sítios

ibidem


******


I. Dísticos também Pluviais

Souto, tarde de 29 de Janeiro de 2009




Como os gatos são alguns olhos:
perfeitas máquinas de brincar e de matar.

As nuvens pelo chão, pelo céu as folhas:
muito gosta de espelhos o deus sem rosto.

Uma pastorela, sete barcarolas, uma bailia e duas tenções:
tão pouco de tanto que foi um tal Martim Codax.

Não gosto de poetas pela cidade:
sujam tudo de água e de sal.

Disciplina, rigor, nenhum ardor e esperança alguma:
uso eu em prol do inconsequente.

Esta mão:
estrela desconectada.

Placenta:
medusa por terra.

Agora eu furto cores:
e sou alvinegro agora.



II. Não deste Lado

Ibidem



Estou do lado do rio onde a piedade não medra.
A minha cidade é uma laranjeira,
as luzes da minha noite são-no se laranjas,
não deste lado medra já a piedade.

Colecciono fotogramas ferroviários.
A minha língua é de ferro.
As mãos, de arame.
A piedade não move.

Já não pergunto, muito menos questiono.
Morre-se no inverno, nascer é no outono.
Pode de outros ser o verão a condição.
Deste lado, não.

É como trazer o vento às costas:
é como levar aos ombros um cão de prata:
é como suportar na cabeça o olhar:
o desejo.

O que é como contar as ondas com as mãos?
O que é como separar estrelas de rosas?
O que é como unir irmãos desavindos?
É não nascer.

Estou do lado do rio onde a piedade não medra.
Urdumes e prosápias, tenho muitas.
Faltam-me moedas, isso sim.
Não deste lado medra já a piedade.

O meu amigo trazia os braços tintos de sangue.
Não lhe perguntámos do que vinha nem de onde.
Trazia-se tinto de sangue e não falava:
tinha de novo nascido.

Deste lado da minha vida as laranjas, luzes nocturnas.
Os cães magros unindo as topografias, deste lado.
As crianças insones cujos nomes repetem os criadores.
Deste lado da minha vida o barco, as vias de vidro.

Olhos que semelham sons ou bandeiras
– conheço.
Olhos como ele os tinha na manhã
– conheço nenhuns mais.

Os magarefes de cavalos sabem do que falo deste lado.
Falo de rotas da seda, da pimenta, do marfim
nenhumas.
Quais rotas, quais carago.

Nenhuma piedade e esperança alguma,
não deste lado, onde as crianças e os cães de prata
suportam a condição do alheio verão,
a autoridade outonal dos deuses da chuva.

Pelas encostas os casais gizam ardósias,
o mais que podemos é o milhafre, não a águia,
nem do sul o condor ou o albatroz do belo norte,
onde a lavanda lava por dentro o ar frio.

O mais que podemos, é tudo deste lado, onde
piedade nenhuma, embora algum idioma.
Das gentes carregadoras de ventos e pianos,
o lugar do lume, o barco, as veias do vidro.

As nuvens ladrilham o chão em charco,
revoam pelos ares as folh’aves outonais.
Isto agora só era preciso um barco.
Um só barco, nada mais.

Não, deste lado, a piedade
não.



III. Dois Sítios

Ibidem



1. Bruxelas

No Outono de 2002 isto já era assim como vos conto:
as coisas olhos adentro.
Éramos já quase todos os últimos, que tão poucos são os primeiros – em qualquer coisa, de uma coisa qualquer.
Cheguei, o hotel era limpo, a cidade pareceu-me tão boa para morrer como para viver – qual qualquer outra.
Estava frio, fazia sol, ruas e avenidas eram limpas, o comércio funcionava, a língua era estranha e bárbara e cheia de esquinas.
Comia-se caro e não mal, também o mais eram quatro dias, não mais.
Foi onde por acidente nasceu o argentino Julio Cortázar.
Comprei umas coisas para trazer para casa com a ideia de lá ter estado, fiz mal, podia ter poupado o dinheiro, bastava ter escrito isto para ter lá estado.

2. O Meu Cão

O meu cão chamou-se Canino Rapazita dos Santos Abrunheiro.
E foi o lugar mais humano onde até hoje (até sempre)
vivi.

Cenas da Vida Pluvial

© Roger Fenton
Cloud (study, 1859)




I. Uma Vez

Souto, manhã de 29 de Janeiro de 2009



Deve estar a chover em Londres e nós aqui.
Uma criança olha de dentro da mercearia o que chove no pátio, ave engaiolada a cristal pobre.
O pinheiro mais alto lava a cabeça primeiro do que os outros.
Cheira a café e a sabão.
Os telhados parecem sangue de novo fresco.
Uma vaca serve de escala a um prado breve.
O homem do Volkswagen, é pena ter morrido.

Hoje não há azul.
Um prédio amarelo-canário acinzenta-se na bátega.
Um cãozito castanha defeca perto da vaca.
Insólita para sempre, a palmeira da aldeia sonha com o Sol.
Os gajos do saneamento lutam contra uma tampa.

A criança é de cabeça vermelha e olhar coralino.
Aquela criança não precisa de Nicholas Blake, só de que não chova.
O que chove, amortece a autoridade daquele sinal de trânsito.
Dão à criança um pacote de bolacha-baunilha, fazem-lhe uma festa na cabeça,

uma vez por chuva,
uma vez por festa.



II. Um Verso de Visita

Pombal, entardenoitecer de 28de Janeiro de 2009



Hoje não fui ver o mar, fiquei por casa.
Entardenoitecendo, saí a rever a terra.
Negrejei pelo subúrbio da vida como quase sempre tenho feito.
Hoje não fazia tanto frio, as bocas não atiravam vapor.
Numa pastelaria, esperei que um verso me visitasse, aquele verso que há tanto me procura e eu não encontro.

Torno-me avoengo, eu sei.
Benedigo, enfim, os aparatos mudos da melancolia, isto que faz de um homem uma espécie de árvore,
uma palmeira da chuva.
Pássaros são acontecimentos de tinta
– e eu só posso lápis.

Tomei café, comi laranjas, fiz um soneto, bocejei.
Andei e desandei.
Esta noite reverei o mar quando, dormindo,
puder quase não pensar.



III. Cantiga Tida ao Sol

Pombal, manhã de 20 de Janeiro de 2009




Estive ao sol da manhã na praça
como se fora um homem de antigamente
numa praça de antigamente
a um sol de outrora.

Faltava-me na cabeça o chapéu preto de Afonso Duarte, príncipe poético da Ereira.
Faltava-me ter tido colocação na Companhia Nacional de Navegação há 70 anos.
Vale-me não me ter faltado o sol, à falta de sal e de navegação e de mar.

Cortei o pão com gentileza, usei bem as mãos.
Sou o homem que quero na pior das hipóteses: um cavalheiro pobre que cheira a sabão.

Devo ter tido outra vida, mas as casas de artistas não pensionam metempsicoses por aí além.
Devo ter sido outra vida.

(E então a música torna-me devagar, vê:)

Um coração na gaiola
Um passarito na mão
’ma cravelha de viola
Um rebento em floração

Uma tricana cantante
Um direito a ser feliz
Uma promessa adiante
Um dizer que se não diz

Uma garrafa de anis
Um vizinho adoecido
A esperança de um petiz
Ex-mulher de ex-marido

Um peixe que luz de prata
Na figuração anil
Quem mui vive muito mata
Mata cem e mais de mil

Quem tem credo dorme junto
Quem não tem é só que dorme
Trinta quilos de presunto
Vêm de um porco enorme

Cantigas tidas ao sol
Entre a passageira gente
Com chapéu de aba mole
Triste e preto, antigamente.



IV. Integral com Navegação e Banda

Pombal, manhã de 20 de Janeiro de 2009



Agora não desejo já o que aliás não poderia ter.
Uma colocação na Companhia Nacional de Navegação.
Um diploma rápido e falso em Literaturas Africanas.
Uma semente maligna.
Ou uma vida mais ainda que esta digna.

Devassei em meu interior tempo lareiras arrefecidas.
Cheguei tarde a quase tudo, a começar pelo nascer.
(Mas não se deve passar as terças-feiras culpando as segundas
e as primeiras.)
Só quis ser navegável como uma floricultura idiomática.
Isso – e nunca ter chumbado à matemática dos idiotas.

Quem viesse do lado do mar, haveria de estranhar-me.
(Olha este gajo ainda por aqui etc.)
Perdoa nos outros os teus erros,
digo-me eu a ele.
Perdoa aos outros os teus erros,
anda.

Aos domingos de antigamente, no coreto a banda.
Ourejava da fliscornista a mansa cabeleireira,
negritava retintamente o bigode do bombeiro,
o tarola rufava anda-não-anda,
dia de funeral é dia de bebedeira,
já só desejo ora o meu tudo por inteiro.



V. Desimport-Export

Pombal, manhã de 20 de Janeiro de 2009




Uma das coisas mais formosas que me aconteceram, juro, foi ter vindo fazer a barba e aperceber-me da completa, total e inegociável desimportância de tudo: barba, gilete, espelho, coisa e poema e formosura.



VI. Descrição de Existência(s) em Casa de Pasto

Pombal, manhã de 20 de Janeiro de 2009



Lombo assado no forno e feijoada de chocos, meias-doses individuais.
Copos camélia-forma, armàriozinho de galheteiros.
Portas de saloon-cowboy dobradiçando lavabos.
Cozinheira absolutamente reumática mas sorridente.
Toalhas de papel, naturalmente.
Chão ladrilhado a mosaico 30 x 30.
Pratos de parede de louça grossa.
Fragrância forte a cebola e a vísceras.
Um guarda-chuva verde esquecido desde ontem no coiso de latão.
(Fora: vizinhança comercial de drogaria, advogado, camisaria, pastelaria.)
Às quatro da tarde, fígados de aviário em pires-frango: cominhos e pimenta laváveis em vinho branco.
Até à noite: uma paciência portuguesa,
uma terça-feira.



VII. Estas Coisas assim Pessoais

Pombal, manhã de 20 de Janeiro de 2009



Às cinco e um quarto da manhã, trovejou e granizou com fartura, mas ele há sempre razões para esperança.
Carreiram formigas a negrito pelo lado enxuto da terra.
Dardos de sol alvejam a amarelo lances e esquinas.
Passa um homem de avental branco explodido a vermelho como se Pollock a carregar meio porco na longitudinal.

Depois de almoço, entristecemos todos de melancolia digestiva.
Isso é normal, até porque às cinco, mais coisa menos coisa, uma quase euforia ganhará alforria própria, como um menino recente respira sem pedir ar a ninguém, sequer à respectiva mãe.

A sociedade pode ser uma coisa maravilhosa, amestradas as almas.
(Tem-se apenas de não sofrer de mar nem de mais os cinzentos, os prédios em blocos.)

Eu muito naveguei e navegarei entre bons-dias que o não foram.
Eu muito aprecio ainda e cada vez mais
os quintais
que foram, são e serão
países internacionais
para a criança
que os povoa
de estádios.

Estas coisas assim pessoais.



VIII. Surf

Pombal, manhã de 20 de Janeiro de 2009



Uma onda de água mia e tsunamia os olhos das pessoas de todo o mundo por todo o mundo.
Não há nada a fazer, é a força da natureza, é a força da água.

As pessoas doem-se muito, umas porque são mães, outras porque são pais, outras porque são filhas,

tem ondas.

Dois Sonetos

I. Soneto com Chuva e Chá

Pombal, entardenoitecer de 28 de Janeiro de 2009



Uma tinta aguada plasma a vida destes dias,
pelas ruas cachorram as gentes a existência.
As farmácias pulsam mui árcticas, mui frias.
Parece-me que chove até na consciência.

Ao longo da avenida, a vida desce – e pensa-se
a si mesma qual espelho breve de turvas águas.
Um cavalheiro cachimba e uma dama dispensa-se
de comentar das outras as chitas e as anáguas.

Apesar de o mor pesar, isto é bonito.
Uma loja de chá atrai um pequenito
à montra, onde fulgura um cesto de doçarias.
A mãe do petiz, olhar debruado a negrito,
entra e compra ao seu pequenito
um doce que adoça a vida e seus dias.



II. Soneto talvez Verdadeiro

Pombal, tarde de 26 de Janeiro de 2009



No futuro teremos sido amados e esquecidos,
deitados ao mar, atirados das pontes,
insolados de luar, fendidos e ofendidos,
sublinhados a poente doente de horizonte.

Ontem as mães terão tossido placentas,
invocado a cosmética e a solidão dos pais,
cozido a pescada e riscado sebentas,
sonetado a preceito no peito, onde dói mais.

Hoje eu amo a vida, amanhã não sei,
como ontem também aliás não soube.
A vida é tudo o que tenho, sou o rei
apenas da parte que me coube.

Estas coisas, tal como os sais, os cristais e os brometos,
podem, Gedeão, não ser verdade – mas dão sonetos.

Terceira CRIATURA sai em Abril que vem


28/01/2009

Um Poema por causa do Amor e Outro por causa do Frio

© Sandra Bernardo
Cabanas de Viriato,
8 de Setembro de 2008




TÁBUA

I. Por Amor ou Coisa Assim

Pombal, tarde de 26 de Janeiro de 2009

II. À Queima

Souto, tarde de 21 de Janeiro de 2009



******


I. Por Amor ou Coisa Assim

Pombal, tarde de 26 de Janeiro de 2009


Espera-me um pouco onde não chova,
vou morrer mas tenho tempo, espera-me
nem que seja por delicadeza ou amor
ou coisa assim.

Já fui ver o mar onde a terra começa a ser céu,
já alimentei as aves e os peixes e a nobreza dos gatos,
já trabalhei duro e fundo, já andei no mundo,
agora já não.

Tem paciência comigo, por favor.
Às vezes entristeço como respiro, vou ver as pessoas
e como elas sou pouca gente parda e parada
no Inverno portátil do coração.

Eu tenho uma vocação de ti por natureza,
ainda não tinhas nascido já eu te pertencia,
como às pedras pertenço e à poalha azul do ar,
quando o Verão nos perdoa a submissão.

As coisas principais estão se calhar nos gestos,
não nos livros, não sei, tento saber mas desconhecer
é se calhar a vera missão do coração,
aquele que pensa além do corpo, ante o mar

e a segunda-feira,
dia em que espero que me esperes.




II. À Queima

Souto, tarde de 21 de Janeiro de 2009

O frio destes dias queima-os.
Estamos todos sozinhos, cada um com seu frio em seus dias.
Emolduro a vida com a minha boca.
Boca e mão direita cercam a vida de palavras duras:
frio, saca, autocarro, café, placa, matrícula, janela.

Haveria de pegar-te na mão e levar-te ao futuro da infância.
De frio, os pés roxos como cardeais.
Na infância, os amados animais
atirando palavras terríveis:
eternidade, clínica, fronteira, monte, marco, tarde, frio.

Se era o Verão a nossa maior condição?
A essência vivia porém no Outono,
festim da nudez e do abandono.
Não, não era o Verão a maior condição.

O teu pai envelhece sentado temendo a Deus,
esse passador de passaportes para a lama
que mais castiga a quem mais O ama.
E também a Ele e a ele os dias queimam o frio.

Se tudo o que um homem pode, é um poema – está
tudo lixado nesse homem.

Pode ele ter sido rapaz, fresca voz ao vento,
inumerável e incontado, pode ter sido – agora,
queima-o o frio do eterno Inverno.

Emaranhada de silvas a cristã cabeça,
engolidora do fogo das laranjas a gelada boca,
pátrias do mijo os ossudos pés – onde raio
se terá metido o olímpico corpo
que todos alguma vez fomos no futuro da infância?

Um homem ama a mulher a que chegou
por via de insuspeitados esforços – e
tal mulher compreende mais a vida do que ele
pode – porque de poemas vive ao frio,
não de decisões.

Chão, terreno, esse homem é um de nós-homens, voz
picotada pelo que chove, par de braços esmaecidos,
mariposa rumo à vela irresistível.

Pando, bolinador, homem cercado de rio por todos os lados,
de trementes flancos, coleccionador de calendários de bolso,
comedor de bifanas frias algures no Sul,
nostálgico de um árctico Norte a que nunca foi nem irá.

Passeia à noite cães invisíveis,
o temente-a-Deus, o alma-do-Diabo.

Bicho inumerável e enumerável,
lítio sopesando seu coração repeso,
dele é a maravilha do esquecimento,
nem me lembro de quem te falo.

Pega-me tu na mão, leva-me a conhecer o (f)rio,
as bandas militares, a efusão das rosas municipais,
os bailes absínticos das nubentes cor-de-rosa-municipal,
a tragicomédia da língua portuguesa nos preçários dos bufetes,
a meia-dose que a alegria é,
feitas as contas,
leva-me,
anda.

Mais nos valera a obstinada estupidez da religião,
o umbilicalismo idiota dos messias-de-si-mesmos,
a opaca obtusidade dos moralistas-de-cagalhão,
a córnea intemperança dos que nunca-amaram-só-foderam.

É frio até o sol destes dias, como químico é pensar.
Volteia em torno a álgida noite que de manhã começa,
propiciadora de uma caligrafia tudo menos solúvel,
como solúvel é a cevada (20 % de café) na caneca romba.

E no tanque os queimados meninos nada sabem ’inda
do frio que aí vem, nem do futuro que para aqui veio.

26/01/2009

Crónica nº 87 da série Rosário Breve (O Ribatejo, www.oribatejo.pt)

Da Maria Absoluta e doutros insectos

Somos um país de insectos. Como insectos, somos esmagáveis com uma facilidade de chinelada.
Vem a imagem lepidóptera (mais a ver com traças do que com borboletas) da tragicomédia em que esta terra se volveu.´
É o tremendo sr. Sócrates a requerer a “Maria Absoluta”, essa gaja tenebrosa.
É o inenarrável sr. Madail, ao arrepio das finanças nacionais, a encomendar o Mundial da Bola 2018, depois do fartote pato-bravo que foi o Euro 2004.
É a “benesse” ético-coisital dos casamentos gay (com adopção ou sem adoção de meninos?).
É o desbocado sr. Policarpo, cuja religião não permite sacerdotisas, a dizer aos papás que livrem as filhas de casamentos com aquela maltosa que passa férias em Guantánamo.
(E já que a crónica mete o Cardeal ao barulho, pegue-se na Bíblia, encontre-se o Livro dos Provérbios e leia-se este apotegma: “Por três coisas se alvoroça a terra, e a quarta não a pode suportar: pelo servo, quando reina; pelo tolo, quando anda farto de pão; pela mulher aborrecida, quando casa; e pela serva, quando fica herdeira da sua senhora.”.)
A “senhora” em causa é, claro, a Maria Absoluta. O “tolo” é quem casa com ela.
Assim andam e desandam as coisas cá pelo “reino cadaveroso”. A canalhada mandante é vil. A desvergonha atinge foros de paroxismo. O saque é geral. A perspectiva é nula. A expectativa é magra. O “poder local” deveria levar “h” depois do “p”. O bacalhau sabe a tainha. O vinho das cooperativas é todo igual ao litro. E a traça nunca será borboleta.
Agora, que o meu leitor volte a cabeça de repente e para cima: vê? É o chinelo.

Canzoada Assaltante