05/07/2007

Para LM, em Paris, que foi a Montparnasse Deixar um Espelho a Beckett

Mãe, Fernando, Jorge e Pai na Nazaré, meados da década de 50 do século passado

Seguem-se algumas páginas escritas no Caramulo entre 2 e 4 deste Julho de 2007. Dedico-as a uma nova leitora: LM, de (ou em) Paris (http://autre-cas.blogspot.com/). E de Paris me enviou ela um comentário que copiei para a caixa de mensagens deste mesmo "post", hoje, agora mesmo. Aos leitores de boa-fé, recomendo vivamente a leitura da mensagem de LM. Aos de má-fé, já agora, também.

Programa:

I – Rosas da Areia mais 23 poemas (tarde de 4.07.07)
II – Da Última Humanidade e de Últimos Versos – 18 poemas (tarde de 2.07.07)
III – Sonhados Damascos e Bolçando Fora – 2 poemas (noite de 2.07.07)
IV – Diário de uma só Tarde – (tarde de 3.07.07)

Haja paciência, portanto. Enquanto vocês lêem isto, vou ali à pastelaria escrever mais umas coisas. Comecemos.





I – Rosas da Areia mais 23 poemas
(tarde de 4.07.07)



Rosas da Areia

(oito nonas e uma sétima)

Era era o tempo do mar
era o mar todo o tempo que tínhamos
nascíamos molhados do interior mar
de nossas mães
éramos como peixes que voam ao sol
tínhamos todo o tempo deferido pelo sol
a nossa infância deve ter sido
a melhor coisa daquele tempo ao sol

Era era quando as sombras tinham corpo
e panos estendiam para refrigério das rosas
era quando havia rosas nascidas na praia
dava-se a areia a prodígios salgados e escarlates
para nosso contentamento nosso maravilhamento
era no tempo antes da pedra
que em todo o lado e para todo o serviço
é tumular

Já nossos pais tinham feito todo o amor
para que sem castigo fosse a nossa nudez
e nossa genitália não mais que fisiológico enfeite
aceite pelos mais reputados especialistas em congresso
e até por Deus em caso disso e em caso Dele
era quando ouvíamos o próprio corpo
aumentar a mesma luz
para que mais sombra mais rosas refrigerasse

Era era tudo através do vento veicular
de palavras coevantepassadas
quando os mortos antigos não matavam o dia
antes senatoriavam como júpiteres benignos
aquém da dor e da lágrima que a vitrifica
aquém do hialúrgico coração que a usar aprendíamos
sem recurso algum à moeda falsa
das canções e dos ceguinhos-de-pedir

As doenças vinham como novidades caloríferas
havia canja era uma festa
os pés adormeciam antes de nós
e as mãos eram pura cartilagem de cebola
na boca os dentes falavam entre si
a língua era portuguesa
e a testa era refrigerada pelos pais
que se volviam sombra para que rosas fôssemos

E éramos e éramos isso
rosas tidas mantidas cultivadas e desejadas
por esses jardineiros mortais
que um do outro um dia
nos descobriram
ao dispor
na areia da praia
que mais dentro lhes era

Não era não era tudo pela graça de Deus
mas quando até Deus era de graça
e a nossa única vilegiatura a eternidade
aos domingos água de açúcar espargia a cidade
perfumava um demorado assado o quarteirão
e tudo o que tínhamos era tudo o que havia
daí nos parecendo que em tal dia
fosse mais evidente o coração

O Pai extraía conselhos de almanaques
a Mãe vigorava enxuta sobre caldos
os iguais a mim e a ti pulsavam iguais
o Verão era uma nação total e totalitária
quase nem acreditávamos que alguma
vez houvesse chovido
chovido mesmo veja-se lá bem
sobre o mar

Eu entro aqui mas saio já
só por me sentir infestado de rosas desde as areias de então
depois de tantos filhos-da-puta hoje
ainda me infestam as rosas de então
como é natural não como disto
mas viver vivo disto
não era não era mas é mar é.



Promessa Escrita ao Pedinte

’inda te hei-de ver a pedir por aí.



Comunidade

Toma por mim às vezes o coração
memórias que me são alheias
sendo próprio dele alhear-se-me
mas precisando de mim para ser ele.

Julgo que tal não é incomum às demais gentes
mesmo às que em versos não procuram
perder-se um pouco melhor,
toma.



Relatóstico



Recebo sempre as mágoas alheias
como a relatórios confirmados.
Nem precisam de corpo
para se me chegarem.
Na cama as sinto
violetas e violentas.
Nunca crescemos.
Somos os miúdos e as miúdas
do hospital pediátrico.
Não se diz relatórios.
Diz-se diagnósticos.



Ventioloncelo

Bastante venera o vento a si mesmo
insta dele constante a voz a esmo
veloz violoncelo da vã melancolia.

Sendo dia muito arvora e desarvora
mistura em segundos os minutos duma hora
e quando vem a noite veio vai a ventania.



Todas essas Palavras Ditas Antigamente

Todas essas palavras ditas antigamente
são exactamente mas exactamente
como relógios antigos mesmo os parados na hora:
continuam a dizer o tempo de antigamente
agora.



Prática

Colecciono peixes a pilhas
parede acima da lareira
tenho retratos das filhas
nem sempre lenha para a fogueira.

Junto de tudo desperdícios
retiro do rumor a harmonia
pratico um só dos mil ofícios
chamo-lhe por graça Poesia.



Fala o Sueco

Aqui na minha terra as pessoas
começam a arder de repente
depois chove e passa-lhes.

Ajudo cães e árvores a reprimir
o terror
perante as pessoas da minha terra.

Mas só faço isso depois
de esconder os fósforos.



Fala o Velho

Deito-me cedo para praticar.



Cat Quero

(Um muito pouco depois de a minha filha Leonor nascer,
tomámos ambos o costume de ir ver os gatos ao pátio.)



Mostrei-lhe os gatos unidos pela fome
era ela uma rosa de quatro quilos.
O meu Pai entretinha-se todo a morrer
nesses meses emoldurados pelo pátio e pelo berço.

Depois viajei. Fui buscar coisas de que
não precisava nem este bocadinho.
Vi lojas de pão lojas de vinho.
E sozinho me tornei gato. Outro. Mais um.



Tristeza na Estação de Serviço

Usufruo de uma tristeza metódica como uma igreja.
Tornam-se-me tabernáculas não resolvidas linhas.
Botija-se-me muito a alma de cerveja.
E gin havendo voltam coisas pergaminhas.

Tudo resolvo com chá preto junto ao lume.
Nos joelhos estão a gata e Conan Doyle.
Fruir mesmo a tristeza é um costume.
Vida não falte ao ir e nem gasóil.



O Problema da Edição em Portugal e no Mundo

A gente não lê os romances escritos pelas casas
que a luz publica para ninguém.



Livro Negro da Globalização

Is it a shiver down my spine?
como dizia um preto meu amigo
que sabia inglês e vivia de
conhecer dinamarquesas
sempre que via uma dinamarquesa.



Desamor

Se tudo em ti
se transforma em –me
isso não é nada
comigo.



Fala o Calceteiro

Ando aqui há tantos anos
a fazer de calceteiro

palavritas azulpretas
palavritas pusbrancas

e não acabo o passeio
carago
e não vejo modo
de acabar o passeio
carago.



Fala o que Trabalha na Agência de Viagens

Não digo que não faças o mesmo
mas acontece-me pouco ir.

Não digo que faças o mesmo
mas acontece-me muito mais
ficar.



A Economia Faz Grande Parte da Vida

(para ler só com bês)

Baixando-te
lamviverás.



Prosa Derivada de Poeta Integrante
do Espólio Geracional dos Últimos Pais que se não Divorciaram

Por pobreza – digamos escassez – de teus pais e de educação, optaste por casar com um salário público e um filho ou dois. Pois fizeste tu muito bem. Agora que eu te pareço amor, não me fodas.



Exit

Diz-me a vida:

– Eu tenho tempo.

Digo-lhe eu, respeitoso:

– Pois oh minha senhora eu não.

(Mas tenho. É só a entrar com ela.)



Tal

Admiraram-se muito uns senhores por causa de tudo isto ser pedra e tal. Eu não tinha ainda, então, voz activa. Não disse nada por causa disso, mas aquilo ficou-me. Aquilo de tal e pedra. Anos mais tarde, para aí uns trinta, voltei a encontrar os senhores. Era certo. Estavam muito bem onomásticos, datados e deitados: em e sob pedra.



Mínima Máxima sobre o Poema Anterior

O futuro é de mármore
desde que haja quem pague.



Receita Dada ao Cozinheiro

Volto agora a casa de que jamais saí.
O carvão, há. Uma tira de vaca assará.
Rondará a gata seu pasodoble vá-lá-dá-cá
em torno d’acesa brasa cor-de-rubi.

À parte refogarei a comovida
cebola que tanto faz chorar.
Leve e ligeiro ’ind’ eu deixarei fritar
Lâmina d’alho que é comer sem ser comida.

Instância esperta: da vaca um bocadito
cortar não mais qu’m’unha dela.
Esse bocado num pote mais negrito
deixar cozer enquanto a vida é bela.

Dour’ eu batatas se as houver.
Faç’ eu um finca-pé ao bom tempero.
Nem toda a vida um homem tem mulher.
O mais é ter fomita e desespero.



Mana, São

Isto emana.
Tudo isto é daqui.
Não é preciso ir muito longe.
Não é preciso ir mais longe
do que a sombra faz
geografia.
A gente está no hospital pediátrico
pronto
a gente é do hospital pediátrico.
Nós somo-nos filhos.
Os pais genitalizaram-se
pronto
está bem.
Não não somos a culpa deles.
Nós imitamos na cozinha
a receita e os frascos da Mãe.
Nós imitamos na memória
os almanaques do Pai.
Mas não pois é não somos
doutores.
O mais que estudámos
foi em verso.
Eu às vezes
pois
e depois.



Canção Final por Agora

Por cantar menos que a morte
perdi letra do viver.
Que o cantar não é ’ma sorte.
Sorte é o não nascer.

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II – Da Última Humanidade e de Últimos Versos
– 18 poemas
(tarde de 2.07.07)




1

Daria um ano da minha vida
para assistir a uma tarde de Camões vivo,
outro ano para uma viva noite de Gomes Leal,
sempre em Lisboa.
Tabernas e duquesas,
a mesma ideia neles,
dois versos únicos,
deles.

Quis-me o Fado deixar,
como a eles,
o uso das tabernas.

Mas duquesa nenhuma
e verso nenhum,
como a
eles.



2

Entristeço a horas certas.
Fica-me o coração cheio de ossos.
A garganta fecha como um cinema velho.
São seis e meia da tarde.

O resto do dia, passo-o
albergando cães, cometas,
algarismos, toxinas,
mármores, lenços e
saudades das meninas.



3

Senta-te aqui comigo.
Quero falar-te dos cedros
sem abrir a boca.
Quero apontar-te as ruas
sem erguer a mão.
Não estou aqui, mas
senta-te aqui comigo.



4

A gente às vezes não cabe na gente.



5

Em Matosinhos, uma manhã, senti
o poder dos barcos.
Impôs-se-me o desejo de habitar nenhures,
como habitam os que habitam
tal poder.
Aquilo passou.
Uns doze anos depois, senti
o poder dos barcos.
Foi na Rocha Conde d’Óbidos.
Eu envelhecia,
aquele poder não.
Passaram dez anos.
Habito na montanha
e já não entristeço tantas vezes.
Subo às pedras
e, se isto não é
o poder dos barcos,
então enlouqueci finalmente,
como enlouquecem os que enlouquecem
perante o mar.



6

A gente chega a um piano
prime uma tecla
e sai um pássaro.

A gente chega a um bosque
reprime um grito
e sai uma alma.

A gente chega a um filho
toca-lhe uma face
e sai outro pássaro.

A gente chega a um campo
pede-lhe uma tarde
e passa uma eternidade.

A gente chega a uma confeitaria
pede um anis
e dão-nos um anis.

A gente chega à morte
pede um minuto
e dão-nos um campo.

Eu chego ao pé de ti
tu pedes-me o último verso
e é este.



7

Tenho algumas praias no catálogo,
que folheio sem pressa nos sábados de inverno.
Chiam ao lume as sardinhas de novembro.
A gata alcatifa-se toda de nervos.
Na cozinha, a mulher impera sobre frascos.

Como flores nascem e morrem os minutos.
As cortinas da sala ondulam bosques canadianos.
Tenho alguns bosques no catálogo,
que folheio na cama pelas insónias de outono.
A gata fauna-se toda pelas lãs do chão.



8

Dá-nos o vento na cara
coisas que não podemos aceitar
com palavras.



9

O mendigo roxeia ao sol a perna.
É uma boa perna-de-pedir.
Alguma poesia anda com pernas assim.
Vou mais pelo sol,
embora coxeie como tantos outros
deste ofício.



10

O céu canta, a chuva aplaude.



11

Ondas vermelhas e peixes muito verdes,
de modo que fechar os olhos dentro de ti.



12

Vejo-os chegar de dentro da terra.
À chuva enxugam a sede.
São de ossos claros e pueris
como olhares infantis.
Conhecem todas as árvores.
São de rápidos rancores, são
de perpétua melancolia.
Só falam de noite dos sonhos do dia.
Chegam como o amor: por insensato milagre.
Cavalgam as estações como a trilhos.
Perfumam-se apenas entre si.
Suportam a ancestralidade da memória.
Com lebres brancas em branca neve sonham.
São a última humanidade.

Os cães.



13

Esta noite, tive problemas com os anjos.
Chegaram-me tarde a casa, vinham
todos roçados e sujos, queriam
azeite.
Dei-lhes azeite, beberam, queriam
o lume aceso.
Acendi-lhes o lume, um deles
queria ouvir fados da Amália.
Como a Amália esta noite não veio,
tive problemas.



14

Implica sempre
muito sangue
e
muita luz.
Mas não
vos falo
de cinema.
Falo-vos
dos
filhos.



15

Gerânio é palavra que sozinha floresce.
Janela, palavra que olha para dentro.
E tempo é coisa que decresce.
Ou então cresce, tudo é conforme o momento.



16

Mui bela é a não quebrada mão
do homem que, a mão pousando
em alheio quebrado ombro, uma estrela
lhe pousa.



17

Os meus a quem pertenço
são esses nomes ouvidos
dentro do sangue
com os ouvidos do sangue
à boca do sangue.



18

Eu agora vou falar duns cedros
sem abrir a boca.
Como aqui não estou, também
ninguém há-de notar
por aí além.

Ruas há de tantos anos,
que o tempo é só
uma das pedras do chão.
E rosas há tão encarnadas,
que a gente tem de as morder
para reconhecer
o sabor da família.

Tu agora não estás aqui,
és talvez um dos cedros.
És uma boca cheia de terra.
Macio e lento e macilento,
abres porém a boca
àquilo que a terra dá:
gerânios, pianos, pássaros,
mãos, céu, cães,
gata, ossos, lebres,
noites, outonos, bosques
e últimos versos
como este, também.



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III – Sonhados Damascos e Bolçando Fora
– 2 poemas
(noite de 2.07.07)



Sonhados Damascos

No Verão, o céu só chove em veludo.
São tiras de um azul tão negro quão o dos
sonhados damascos.
Esse veludo chega ao chão
das casas pagas a prestações
pela pobre gente que mora
ricamente em condóminos
sonhos.
Bate um mar de televisão
no sargaço de alcatifas.
Electricidades fazedoras de sumos
plastificam a língua bebedora.
No Inverno, o recolhimento conventual
toca até as boîtes,
frias tostas mistas disfarçam
a nostalgia de mandioca
e feijão preto
às putas brasileiras
como
sonhados damascos.



Bolçando Fora

Quando – finalmente – a idade
nos permitir chegar à Noruega,
o léxico levaremos já para
carne enlatada e peixe salgado.

Ao Escaguerraque bolçaremos fora
a bílis de anos e desenganos
tantos. Sem igreja e sem raça,
chegaremos prontos para a chuva sólida.

Animais obnubilados veremos pastando gelo – e
santuários de madeira à contraluz.
Tudo quanto a idade permite, é belo.
Não é preciso sempre invocar Jesus.

Crianças de mais de setenta anos
milenarão pelos centros culturais.
Guardaremos cedo o sono como aves.
Seremos umas delas, não mais.

Barcos de outros poemas barcarão
nossa intensa sede de sal trazida.
Poucas luzes na noite semestral.
Pouco tempo para quanto esperámos.

Aceitam-nos agora: chegámos.
Dão-nos roupa sintética, conservas.
Somos os sepultos nascituros.
Seremos da idade das ervas.

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IV – Diário de uma só Tarde
– (tarde de 3.07.07)



Há pessoas que são países
a que não podes ir.
Outras, países que
não deves visitar.



Seremos da idade das ervas. Vinha subindo a calçada, vieram subindo estes versos de inconsequente geopolítica humana. O tempo meteorológico é mais responsável por eles do que eu. Está um dia fosco como uma lâmpada caducada. Poalha de água em vez de ar, borrões de quase-cor em vez de árvores. Se se pode trabalhar numa sala hermética, tudo bem. Mas se se tem de sair (para cigarros e café), temperatura e humidade não resistem a tomar o verbo e o verso, arrefecendo a ambos com geopolíticas frustes. O remédio, parece-me, é comprar o tabaco, tomar rápido a chávena de café e reencaminhar os sapatos para a tal sala.
Enquanto não, confirmação da pouca gente no arredor. Nem transportes, nem gente que transportar. Em pleno Julho, uma revisitação do inverno: a geopolítica foi tomada pela rarefacção demográfica. É claro que há vias de saída, algumas das quais, até, de airoso êxodo: tenho Conan Doyle em casa, assim como Beth & Garry Hogg (The Young Traveller in Norway). Mantém-se o televisor tão apagado quanto o dia – e a coisa vai.
Do interior da pastelaria chega à sala de mesas um bafo morno e são de fornos sujeitando a farinha ao milagre do pão, ao prodígio dos bolos doces e dos salgados. Uma pessoa deixa-se estar na mornidão. A janela quadriculada de caixilhos engaiola para fora o inverno anacrónico deste Julho. Ao balcão, breve conversa sobre a catástrofe ambiental do aquecimento, da extinção das estações, dos cabrões poluidores, da merda que fazemos (uns mais, outros menos) ao mundo: frio na África do Sul, calor no Árctico etc..
A tudo isto indiferente, um par de namorados (alienígenas, nunca os vimos por estas bandas e debandas) contrabandeia uma conversa arrulhada de beijicosculações. Ele é de cabelo preto e de suíças à Jim Morrison; ela, de louro natural, peitoril rijo e columbino, barriga direita em escarpa e à mostra. São jarros bonitos, flores de si mesmos. Calculo-lhes 25 anos a cada um: meio século de amor sem cólera, no total.
Na mesa ao lado, o futuro deles: um casal na orla sexagenária. Ele, santantoniado por uma calva epicêntrica, emolduradas de branco a nuca e as orelhas; ela, ainda elegante, traça o torso de blusa verde, o nariz intenso e material, as varizes prensadas às pernas por seda elástica de farmácia.
Com a senhora da pastelaria, comento o tempo. Digo-lhe que, assim sendo, estando e indo o Julho, ela que aproveite enfeitando a casa de gambiarras-de-feliz-natal. Ela ri-se. Como os dois casais saíram entretanto, sou agora o único cliente da casa. Ela aproveita para pegar na revista de têvêcelebridades, sentar-se com ela ao colo no canto oposto do estabelecimento.
Melancolizo sem dor. Afinal, mando vir uma dinamarquesa e acampo por coisa de talvez uma hora mais ou assim, atento ao despovoamento e à irrupção canora de tantas palavras inconsequentes como a vida, a minha.
Ao contrário de minha casa, aqui o televisor trabalha. Distraio-me um pouco com o desfile, na prática ininterrupto, de têvêgente que seria vazia se a não enchesse tanta estupidez. Fala a minha língua, esta gente, garante ter nascido no meu País. Recolho ao caderno – e a vós – com a tristonha culpa do compatriotismo o mais obtuso.
Recordo a manhã. Foi boa, lavada, precoce e útil. Levantei-me muito cedo, verifiquei à varanda se o mundo não tinha d-existido, comi alguma coisa, tomei café, saí para me inscrever no comércio de pão fresco e bons-dias, voltei para casa, li o correio, comecei a trabalhar na edição radiofónica de uma história. Às onze e meia da manhã, já o almoço brandamente se dava a cocções no fogão. Ripei peito de frango para a gata, que, ao perfume da refeição nascitura, me não largava tornozelos, alma e cristandade. Ela comeu e voltou a deitar-se, melancólica ela também à percepção da poalha de água que lhe recordou, como a mim, o espírito de Raul Brandão e o espírito de meu Pai, almas de que lhe falo à lareira quando ela quer dormir e uma história.
Quatro e meia certas da tarde incerta, assisto à vitória final do nevoeiro. É como se Deus fumasse gelo. Entra um homem de queixo quadrado e rala barba negra como um problema de palavras cruzadas. É um sossegado. Tenho-o visto por aqui, sempre só e sem uma palavra. Calças e jaqueta de uma ganga que lhe vai ficando, limpíssima embora, menos bem: a progressiva idade progressivamente há-de afazendar-se – digo eu, que sou uma besta conservadora.
De repente, visão de um belo cavalo na televisão. Ainda bem, farto de burros estava eu.
Cedo ao nevoeiro. Do outro lado da calçada, um cacto institui-me a imagem de um polvo no mar de cinza. É tudo tão bonito. Desde menino que tais epifanias. Me fazem desejar não-viver em prol de um lugar cativo de balcão perante palcos destes. Sim, tudo é muito bonito. Noutros julhos, Julho era Figueira da Foz & Mãe. Isso passou, como passou a Nazaré para Jorge & Pai. Ainda há Mãe, ainda há Figueira, mas não a possibilidade mínima de reconciliar a autonomia dessa mulher-de-armas com as armas autónoma dessa Princesa de Pobres que a Figueira, não o sendo mais, me parece ainda. Cada julho me carece Julho. Passo.
Boa meteorologia com tudo, contudo: visão interna de Veronica Hammel fazendo de Joyce Davenport em Hill Street Blues, quando se me acabara já a Figueira da Foz e quando o mundo iniciava a cutelaria funérea das desepifanias.
Havendo, agora, a mente revisitado a luz única da Figueira da Foz e a luz única do olhar de Veronica/Joyce, não devo, talvez, chamar “luz” ao que esta tarde arde no meu Caramulo: fosca, caducada lâmpada. Talvez não deva. E no entanto é luz. é luz, sim: é uma roupa da hora, fluida, variável, infiel roupa – mas roupa e luz.
São seis e seis. Há tempo. A tarde striptisa-se , inverna-se em plena escadaria. Outra epinefrina (a palavra apareceu numa legenda da televisão) lhe acode ao coração: nesta paz, até uma arritmia seria um orago de festa. Mas não há qualquer necessidade dessa evolação. Conta – tudo se resume a – como um homem se protege do tempo (o que nubla a luz, não o que passa como um rio). Não o nega nem o renega – separa-o de si por uma janela de pastelaria, um cacto, uma actriz, um desejo, uma inocência. Como epitelial (outra palavra de legenda) nos é, a todos, a luz nas mãos – a tantos anos, a mesma marca indicial, inicial, principesca.
Mas – sim ou não? – a profusão da realidade vem dos olhos. Eu passeei pelas pedras vilanadas: onde a história comunga mortos e vivos e pássaros e coisas. Passeei bem, li um anúncio nascido da precaução, alertava de fugas de gás (fugás, portanto), de cansaço de horas (canoras, portanto), de frescas loucuras (fressuras, portanto).
Cerra-se a cerração. Poucos homens, poucas mulheres. Esta vila existe de acordo com a existência: faz desaparecer. Nem a ilusionistas emprego daria – ocupei o lugar.
Mas muitas árvores. Precisam de luz, apenas. Como peixes de ar na água, precisam de luz. Tornam-se-me tinta-da-china, elas, sem a luz postal do bom turismo, essa força que adjudica assadores de cordeiros e cozedores de bolos.
Eu não queria – mas não é possível não, pelo verbo, evitar o verso. Ele, o verso, volta. E canta. Tu queres ver? Tu queres ver:

A rapariga opera a menina que foi.
Ex-trai-se: torna-se mulher.
A quádrupla óssea anca de boi
engana a menina, vaca se quer.

Ela deita idioma e língua, baixas.
Outra mulher relenta veludos.
Ela trabalha em comércio e caixas.
Ela percebe mui de nadas e tudos.

E se não for assim, como já é?
E se não for assim, neste diário,
como já é no mundo?

Procuram os totós do mundo
respostas na poesia,
como se ela as tivera.
Tem.
Não tem.

Hoje, choveu. Mas pouco.
Vinte e cinquenta e nove da tarde. Noite.


04/07/2007

Montanha Mágica nº 14

Hoje é dia de Montanha Mágica. Hoje, quer dizer: quando for meia-noite, mudando o calendário para quinta-feira. É depois do Anoitecer ao Tom Dela (20h00 - 24h00), na Rádio Emissora das Beiras (em 91.2 FM ou http://www.emissoradasbeiras.radios.pt/).
Os textos de ligação são os 18 que há dias por aqui publiquei sob o título geral de Retratos, Cupões e Pérola Nenhuma.
Para compensar os ouvintes da chatice de me ouvirem, há-de surgir por três vezes a voz da Sandra Bernardo lendo poetas muito melhores: Ruy Belo, Jorge de Sousa Braga e Armando Silva Carvalho.
A música é um quarteirão delas:
Luar na Lubre
Nick Cave
Camané
Joan Manuel Serrat
Paul Simon (uma coisa preciosa chamada Night Game em que entra o harmonista Toots Thielemans)
The Strokes
Léo Ferré (sempre!)
Brand X (quando o Phil Collins era só, felizmente, baterista)
Zeca Medeiros (interpretando uma canção do saudoso Sérgio Mestre)
Led Zeppelin (sempre!)
A divina Amália (desta vez, cantando, como só ela, Maria Lisboa)
Tania Libertad
A também divina Ella Fitzgerald (acompanhada pelo guitarrista Joe Pass em dois minutos e picos absolutamente antológicos: Nature Boy)
Manuel Paulo cantado por Sérgio Godinho e Camané
Robin McKelle (que nos foi "apresentada" pelo amigo Rui Correia)
Manuel Freire ("Trova do Emigrante")
Quinteto Violado
Robert Plant (a voz dos Zeppelin agora a solo em "One More Cup of Coffee")
Everything But the Girl
Fernando Farinha (o "Miúdo da Bica", como era conhecido, numa curiosa evocação do "Fado Antigo")
The Clash (ganda Joe Strummer!)
Vozes da Rádio (interpretam "Índios da Meia Praia", do grande José Afonso, em excelente harmonia, não aos gritos como a insuportável Dulce Pontes...)
Cathy Berberian e L. Berio (cantam o Kurt Weill da Song of Sexual Slavery)
Demetrio Stratos (sempre!) acompanhado não pelos Area, mas pelos I Ribelli
e ainda Tito Paris com Paulo Flores.
Sejam bem-vindos.

03/07/2007

Uma Pureza sem Homens - história 76 do Anoitecer ao Tom Dela

Logo à noite, como sempre de 2ª a 6ª, há Anoitecer ao Tom Dela na rádio Emissora das Beiras. Começa às 20h00, vai até à meia-noite. Na rubrica 1002 Noites, uma história mais.
Sintonias: 91.2 FM e, pela net, www.emissoradasbeiras.radios.pt. Bem-vindos.
Uma Pureza sem Homens

1
Esta manhã é de uma pureza sem homens nem mulheres, nem crianças nem animais. É de uma graça perturbadora. Podemos ter morrido – ou nunca ter nascido.

(JOAN MANUEL SERRAT))

2
Entre os frascos de medicamentos está o maço de tabaco. O sol que impera janela dentro filma o fumo. Aguentarei na cama o tempo do cigarro. Pego no copo e bebo o resto da água.

(RONDA DOS QUATRO CAMINHOS
E COROS DO ALENTEJO
COM A ORQUESTRA SINFÓNICA DE CÓRDOBA)

3
Quando saio para ir tomar café à pastelaria, passo por dois rapazes com bicicletas. Levanto a mão para cumprimentá-los, mas é escusado: não me vêem porque, como eu, não existem. Só existe a manhã.

(JOSÉ AFONSO)

4
São várias totalidades: o sol imperial, a montanha diferente, o catálogo botânico, uma veia de água sustentando o parque. Há casas, há casas mas não têm portas nem janelas, nem paredes nem telhado. Eu sonho? Quem (ou o quê) me sonha?

(ART GARFUNKEL)

5
Ninguém na pastelaria. A porta está aberta. Entro. Chamo – mas não me sai voz. A televisão está ligada, emite uma imagem parada. Em primeiro plano, um lago congelado. Em moldura, abetos negros e magros como viúvas. Espero. Imagino-me escrevendo uma carta. Não tenho papel nem lápis. Faço com a mão vazia traços sobre a mesa vazia. Desenho o que não há: mulheres, animais.

(LÉO FERRÉ)

6
De noite, as casas renascem. Pulsam lume dentro. Os fantasmas cozinham. Aldeias esparsas diademam destinos iguais. O céu vem de baixo.

(CALIFORNIA GUITAR TRIO)

7
Depois surge o vento: como um antes eterno. Os abetos despegam-se da borda do lago, deitam-se no ar, a terra roda como uma moeda sem dono. E dentro do lago os peixes brilham um ouro quieto de ourivesaria.

(MILTON NASCIMENTO)

8
O que existo não difere, só o que penso. Já imaginei milhares de pessoas, nem uma vi. Esta pulsão transcende decerto o mínimo laivo de humanidade. Tem mais de pássaro – ou de veia de água.

(ELLA FITZGERALD)

9
Também é mais do que a vida. Não é a morte. Com a mão vazia desenho o vento. Os arbustos inclinam-se a esse dia inumerável. Encho de água o copo e deito-me. Os medicamentos já dormem.

(PAUL SIMON)

10
Dentes, viagens, hemisférios, versos, areia – desenho com a luz. Foram-se-me embora as mãos. Pessoas atravessam as paredes. A montanha recebe o sol na face. Quando não pedir, hei-de acordar – ou nascer.

(ROBIN MCKELLE)


Caramulo, manhã de 7 de Junho de 2007

02/07/2007

Retratos, Cupões e Pérola Nenhuma




Para
o Zé Nhel e para a Gracita,
que hoje cumprem,
cada um,
mais um aniversário.


1

Tendo morrido, os homens continuam em casa
na qualidade de retratos.
Uma sombra veloz, cinzascura, à flor da água?
Levantas os olhos ao céu: nenhuma ave.
Assim deves ver os retratos:
cinzas de que levantaram voo, como tu o olhar, as aves.



2

Recordo-te antes até de inventar-te:
que a ter-te me não falte a arte.



3

Saio à rua para que de vez o vento
me desemoldure.
Sou feliz quando me desemoldura
o vento.
Restos de sonhos maus frapejam,
farrapos consequentes de horas más.
Saio muito cedo para que
o novo dia tarde a noite.
Derrubo-me sem bilhete no banco
do caminho-de-ferro.
Assisto aos comboios comedores de horas.
Registo a inconsolável ternura da erva
entre carris nascida.
E então (agora) o vento
varre pelo cais da gare
um arroio de miniaturas encarnadas:
escarlates floritas tossidas
por anjos tuberculosos.
Levo a mão à boca,
volto assim a casa.



4

Pássaros verticais gritam no sonho
de ignoto adormecido.
Não posso calar os pássaros, não
sei como acordá-lo.



5

Conheço um gajo cujo coração é
como suponho seja Londres:
muito comércio cosmopolita e muitos
rápidos, obscuros assassínios.



6

Um rio pobre de dias
corre ao contrário da nascença.



7

Formosos olhos de viajante
entrevi eu numa inumerável quinta-feira,
anos e anos vão.
Era pela tardinha.
À direita, o rio
(uma veia de mercúrio)
sangrando no mar.
Árvores oblíquas diziam:

Vem o vento, vem o vento, vai o vento, vai.

E foram:
o vento, os formosos olhos
viajantes.



8

Somos
na cidade
ovelhas metalizadas.

no deserto
um homem
uma mulher
somos.



9

Manhã muito cedo,
na pastelaria,
observo as casadas.
Era isto, o
futuro delas:
café-com-leite e lacrimosos bocejos.



10

Isto
entre
um homem
e
um bosque
é
sempre
um duelo.
Adivinhai
quem
sempre
cai.



11

O homem e a mulher partilham a sopa.
Há muito se abateu sobre eles o inverno.
Então, ele diz uma graça, ela ri-se muito
– e sobre eles se abate um verão
de minutos.



12

Gestos há que equivalem a
ciências naturais.
A menina que um só dedo leva à boca.
O cão que sorri à audição do dono.
O tubarão que lapija azul no caderno do mar.
As mãos da mãe na barriga perante o retrato da filha.
O retrato da filha com um dedo no lábio.



13

Frente a um mar de gente,
a praia é solitária sempre.



14

Um canteiro de meninas
ruboriza o pátio da escola.
Um vento de meninos
fá-las, deliciadas, gritinhar mais cores:
– Amarelo, Leonor, rosa rosa rosa, Teresa, fujam!



15

Na minha mocidade, era costume de minha Mãe coleccionar pérolas e cupões de detergentes. Do terceiro andar, descia a solidão radiofónica da mexicana que o senhor Eurico tinha trazido casada com ele. No pátio, eu falava com o Pessegueiro. Além do monte, eram os comboios. Tudo era, ao mesmo tempo, tempo e eternidade.
Guardei os cupões.



16

Há muitos, muitos anos, era o futuro.



17

Albuquerque levou Ana de casa de seus pais.
Meteu-a noutra casa de outra cidade.
A segunda cidade era a última e sem mar.
Ana teve uma filha para albuquerques
que dessem, viessem e tirassem.



18

Em tardes de chá, frequentei
salões domésticos povoados
de velhas senhoras portadoras
da mais especiosa quinquilharia.
Havia sempre um piano.
Ao piano, havia sempre
uma máquina de porcelana
que era sempre a Filha.
Mantive-me solteiro: tenho mais medo
de pianistas que de quinquilharias.


Caramulo, manhã de 2 de Julho de 2007

01/07/2007

À Hora no Parque com Eles




Amo tudo o que não pode ser, que tem de ficar dentro de mim.
(…) aquilo que deveria estar morto vive com mais vida.
Robert Walser,
in Jakob von Gunten – um Diário



Receio um pouco (mas não muito, não de mais) que vos ande eu caramulizando (muito, de mais) a paciência. Teríeis de vir aqui, à hora, para aceitar que me não seja possível senão versejar a tremenda beleza totalitária do sítio.
Fundada em 1920, a estância sanatorial do Dr. Jerónimo de Lacerda acudiu a milhares de pacientes de uma doença que levou, também, alguns dos meus: pelo menos dois José e uma Maria.
Hoje, a maioria dos dezoito sanatórios rui sobre si mesma. Para mim, tolo manso de versinhos, estão tudo menos vazios.
O parque-jardim é em frente à minha casa. Está sempre a chamar-me.

– Anda vê-los, anda ouvi-los.

E eu vou.
Se vos levo comigo tão cedo (sete da manhã de domingo), é por bem: à hora, no parque, convosco.



À Hora no Parque com Eles

Sente:
não frio é já o vento das sete da manhã.
Fino e fresco ele é e te faz ser.
Despertam gentilmente as árvores
sob seus pássaros-despertadores.
Um gato no parque-jardim:
tigre mínimo na selva possível.
Sente:
o mundo foi sempre isto:
foi sempre esta hora,
foi sempre este vento.

Arregaça os braços o vento
das sete.
É como nascer sem
ter de chorar.
Mesma única natureza
entende dedos e ramos.
Não extintas, rumoram ’inda
por aqui
as palavras dos
que aqui foram
mundiais e matutinos
– mortos de espera.

Menininhas de gaze, hemorrosetas de face,
levitam um pouco na quase-névoa da hora.
Meninos vestidos de veludo azul-noite
ponderam gravemente nem começada infância.
Sou o vivo.
Possui-me a esperança de entender a hora.
Só posso saber lê-la, eu sei:
quando a escrever, ressurgir-me-á
quebrada de versos
em folhas que o vento
mal tocará
– por não de árvores serem.

É o que acontece a quem acorda
e vive.
Versos são rumores correndo
os carreiros de um parque-jardim, não as
palavras de um acordado
que o vento consente na condição
de, rápido, se sumir
na pastelaria.
Não choro saber isso.
Sempre assim foi:
o mundo, o vento,
a hora.

Recorro então ao aceitável ardil:
também tenho eu mortos
com quem falar.
Pensá-los basta para ouvi-los
e vê-los.
Também ponderam, levitam também:
ei-los.
Suavizou-os o sabão vegetal que os
embalsama: dormem na erva fresca.
Quando se espedaça em mil vidros,
argentina-os a Lua a eles só,
deitados na noite e na fresca erva.

Não se ouve falar de Deus.
Só têm dinheiro para anjos.
Sorriem mais do que nós, ainda assim.
Ciceronam-me as ruínas de antigos
bailes: o bufete agora diagonal,
o palco apodrecido como um peixe,
os balões rugosos e mirrados
suspensos de fio nenhum,
as senhas rasgadas do
capilé das senhoras, do
anis dos cavalheiros, dos
pirolitos das crianças.

Nenhuma outra formosura me
pode ser que esta.
Já a hora trepa um pouco, já
relincham um pouco as árvores,
gerigotam um pouco mais estrídulas as aves,
instala o domingo seu circo sem
outras feras
que a memória e os versos.
Não terei outra vida
que esta, à hora, com eles, só esta.
Quando chego à pastelaria, chego como
se chega de uma festa.

Texto e fotografia:
Caramulo, manhã muito cedo de domingo,
1 de Julho de 2007

30/06/2007

Baile no Parque



Por esta não estava este most sincerely yours à espera. Quero dizer, escrever e publicar, hoje, o mais quer-que-fosse. Levantei-me antes das sete da manhã, trabalhei alguma coisa, passei e bloguei os textos anteriores – tinha o dia, se não ganho, pelo menos não perdido de todo. Coisa das dez, dez e tal da manhã, eu e a minha veciclete fomos tomar café à pastelaria e, depois, ao minimercado, onde, não sem certa glória, adquirimos verduras, uma gasosa de dois litros e onde, ainda e também, encomendámos um frango assado para o almoço. Frangámos num parque mínimo e alternativo deste Caramulo formosíssimo onde depositámos, há um ano e sete dias, as almas e os esqueletos. Tudo fino, portanto. À tarde, sofámos com distinção perante um televisor povoado das americanices beócias do costume.
Por alvores da tardinha, porém, deu-me para sair, no intuito desportivo de assimilar umas dinamarquesas no centro da vila. Assim fiz. Fui, cheguei, assimilei – e deu-me para isto: havendo, a pretexto de S. Pedro, baile marcado para o parque em frente de minha casa, calhou-me a Musa escrever uma coisita qualquer assim a modos que de raspão à coisa. Escrevi. Era um poema, olha a novidade. Mas depois veio-me a ideia de chamar-lhe Cartaz. Foi uma porra. Desatei a escrever canções para um imaginário baile clonado do real. O conjunto chama-se Baile no Parque. Por esta não estava eu, o mais sinceramente Vosso, à espera. Mas pronto. Está feito. Siga o baile.

Baile no Parque
– canções para a festa

Cartaz

Há baile no parque.
É a última noite de Junho.
Vinho e sardinhas chamam os poucos vivos.
A música é uma atracção irresistível para
as décadas de mortos da Tuberculose.
Não irei ao baile.
Ouvirei o baile.
Não por receio dos fantasmas: vivo deles, afinal.
Não vou por melancolia.

O sol do dia resiste como pode ao
vento que empurra o céu pelas costas.
O nevoeiro cai de peito na vila.
Testes de som tossem electricidade
além do arvoredo.

Uma questão de vila e de morte.

As horas agrutam de música o coração.



Canção nº 1
(cantor mais saxofone-tenor, acordeão de botões, bombo, tarola & pratos)

Lembra-te, Aninhas, do mal o bem
que vivíamos, apesar e porém,
do muito que tossíamos,
lembra-te, Aninhas.

Dedo a dedo as mãozinhas,
passo a passo as perninhas.

Dois dias nos separaram,
fulgor breve da hemorrosa,
adormecendo consagraram
eternidade maravilhosa,
ai Aninhas, maravilhosa.

Dedo a dedo as mãozinhas,
passo a passo as perninhas.



Canção nº 2
(cantora mais guitarra, contrabaixo e reco-reco)

A sardinha é tão bonita
seu dorso é tão azul
seu perfume nos incita
a ser povo norte a sul.

Nosso vinho com franqueza
alegria é sem rolha
luz e cor da nossa mesa
santa parra santa folha.

Nosso pão o mais honesto
que um dia alguém serviu
quem não goste seja lesto
vá na puta que o pariu.
(Atenção: no caso de o público instante inchar de severa percentagem geriátrico-católica, o último verso deverá ser: "volte à mãe de que saiu".)



Canção nº 3
(cantora e cantor mais trompete, órgão e tarola de gaiteiro)

Ai há quanto tempo a alegria
de nossas faces descorava
quem na chamasse de dia
’inda ela à noite tardava.

Ai quantos anos meus amigos
faltam ’inda a passar
vida é casa sem postigo
só se a morte a iluminar.

Ai eu quantas tantas horas
por ti tristeza esperei
que viesses a desoras
não vieste bem no sei.



Canção nº 4
(cantor mais clarinete, bombardino e tuba)

Dá-lhe a chupeta
se não põe-se ela a mamar
papas da tua cabeça
até ela se fartar.

Dá-lhe a maminha
se não põe-se ela a chupar
a cantar-te a rã-caninha
só p’ra bem te enganar.



Canção nº 5
(cantor mais pífaro, ferrinhos, cântaro & abano)

Diz lá tu ó Madalena
se co’ Manel vais casar
não casas não tenhas pena
tens bem mais p’ra enganar.

Ó riqueza destas eiras
viras ó moço a cabeça
casa com quem te apeteça
ó princesa das solteiras.

Rapariga moça
de vento na saia
nunca te descaia
vintém nem tostão
Moça rapariga
juízo é preciso
que a falta de siso
’inda te castiga.

Diz lá tu Maria Rita
s’ isso com o Zé é sério
dos olhos com qu’ ele te fita
ou igreja ou cemitério.

Não lhe ponhas tu na testa
duplo par brancos chavelhos
só por ti ele vem à festa
nem que fosse de joelhos.

Rapariga moça
de vento na saia
nunca te descaia
vintém nem tostão
Moça rapariga
juízo é preciso
que a falta de siso
’inda te castiga.



(Intervalo para os músicos irem ao bufete;
oportunidade para versos sérios como os do cartaz:)

Versos Sérios como os do Cartaz

Não bailam os mortos senão em
lembranças.
Algumas crianças:
para elas, não
houve clero ou pneumologista
os suficientes.
Vivas ideias, mortas gentes.

No baile do parque, rondam de novo
os antigos chapéus-sombrinhas, as
celibatárias gravatas de militares
demasiado novos para morrer sem
ser na guerra.

Carros negros, pesados do dinheiro
das famílias ricas, doutores e futricas,
ânsias e saudades as mais
premonitórias: donas Jacintas,
Gencianas e Gregórias,
senhores Alvarez, Durães ou só
Santos.

Só aos desatentos são estas ruas
vazias,
este parque fundado num
húmus chamado memória.

Os livrinhos de Mercedes Blasco,
escritos em pleno desemprego da actriz e
depois da morte do filhinho na Bélgica,
onde ela se vira sitiada pela
I Guerra Mundial,
tiveram por aqui muito sucesso,
sobretudo nas mãos transparentes
das tubersenhoras e dos
hemocavalheiros celibatários
que recitavam sonetos
a si mesmos,
no parque.

Por isso não bailam.
Dizem sonetos como se ouvissem música.



Canção nº 6
(cantora mais violino, violoncelo e fagote; atenção: canção-lembrançomenagem dos tuberculosos que foram a saúde financeira da vila sanatorial; a cantora canta como se fora um deles)

Borboleta dias voa
três ou quatro nenhum mais
traz-me o amor de Lisboa
mais linda das capitais.

Pardalito lusitano
vem trazer-me à cabeceira
semente do novo ano
para a minha vida inteira.

Voadores filhos de Deus
aos céus vós anunciais
vida e morte adeus, adeus
adeus até nunca mais.

Oh mariposa nocturna
não te queimes nessa vela
queimas-te se fores diurna
só de noite tu és bela.

Gaivota desencontrada
minha saudade do mar
praia mais petrificada
na montanha vens achar.

Voadores filhos de Deus
aos céus vós anunciais
vida e morte adeus, adeus
adeus até nunca mais.



Canção nº 7
(cantor e cantora em marchinha para piano solo)

Que entrem todos / nesta marcha de encantar
passo firme é a vida / que morrer é tropeçar.

Bem-vindas todas / solteirinhas e casadas
todas as horas são bodas / alegres e festejadas.

Mesmo que o Junho acabe / vai ser nossa salvação
Julho seu filho é que sabe / todo cabe no Verão.

Esta noite não tem fim / fim tem quem não começou
vou por ti vem tu por mim / pois só por ti é que eu vou.

Marchem também os defuntos / que daqui nunca saíram
todos juntos somos muitos / que os cegos nunca viram.

(Voz extra: “ e que os surdos nunca ouviram!”;
gargalhadas mistas de vivos e mortos.)

Nossa terra linda serra / serra mais linda não há
já fomos a muita terra / guerra a quem ach’ esta má.

Mesmo que o Junho acabe / vai ser nossa salvação
Julho seu filho é que sabe / todo cabe no Verão.

(Repete e acaba; primeiros sinais de bebedeiras e bulhas; mulheres e mortos desandam embora; eu também, que nem lá estive: não há mais versos para ninguém; a partir de agora, e até de manhã, só cassetes.)


Caramulo, tarde, arrefecendo, de 30 de Junho de 2007

Duas Tardes ao Touro de Ouro


O Pessegueiro.
Pátio da Mãe,
Pedrulha, tarde de 23 de Junho de 2007

Foram-me boas, as tardes de 28 e 29 do Junho que hoje acaba. Muitas palavras (porventura demasiadas) acorreram-me querendo, elas, viver em verso(s). Deixei que sim.
Na tarde 28, organizou-se, praticamente sem minha ajuda, a I de duas sequências de 33 quintilhas. Na tarde 29, veio a II. Era
O Sul da Chuva
: uma coisa bífida de 330 versos (mais um, o entreparentético final). Mas não só.
Concluída a dupla sequência, entrelaçaram-se mais quatro poemas breves:
Sonetesmo, Santo António não Percebe nada de Sardinhas, Fala o Gajo de 4Quatro4 Anos e Rosama-me a Cores
. Começo por vos dar estes. Depois vem a tal enormidade de 330 versos + 1.
A tudo isto, a memória fará o favor de esquecer. Mas anoto que, às 6h58m da manhã de hoje (sábado, 30), não chovia como previsto. O sol é um touro de ouro.




Sonetesmo

Mais lindo verso sucede a esmo
na mente do fraco desgraçado
que descurando som a si mesmo
se vê em verso sonorizado.

Porra pa’ isto. Já é secura.
Andar um homem, dia por dia,
lunando o sol de cada dia,
adiand’ ele quanto procura.

Não é por mal. Mais bens terá
o que cruzinhas risca, pisca – achará.
P’ra concluir louco soneto
(que todo o dia nisto mesmo a esmo me meto)
vou cerrar agora, disto, isto mesmo:
Mais lindo verso sucede a esmo.



Santo António não Percebe nada de Sardinhas

Falando de sardinhas, estabelece-se o Verão.
Os pobres acorrem dos lados frios.
Eles ouviram-nos falar do Verão com sardinhas.
Eles foram meninos – e não no sabem já.

Ai a morte. Ai as azeitonas.
Pode alguém descurar o valor
de uma garrafa de azeite em casa
de pessoas que se amam por remédio?

Alho de verde vertical coração.
Frigogestos acorrendo caloríferos.
Por vezes, usamos termos tão mortíferos
que podem, até, ser expiação.

Não. Faz-me mais quadras. Usa
Da língua a recorrência.
Fala da tua mãe viva como se não
tivesse morrido a minha, paciência.

Santantónio, Santantónio,
tu não viveste a ditadura.
Olha-me tu soneto atrás:
Porra pa’ isto. Já é secura.



Fala o Gajo de 4Quatro4 Anos

Aos quatro anos de idade, comecei a organizar
os meus futuros mortos muito bem organizadinhos.
Era o futuro – e eu sabia. Era o futuro – porque
o amor ama sempre no futuro,
sempre – sobretudo mortos.

Depois, aquilo passou e eu entretive-me
coleccionando cacos de louça (e que aqui
ninguém nos ouça) que nenhuma
expolisboa me compraria. Olha, Manuel,
escuta, Maria: cacos – ou dão
clube atlético de campo de ourique
no plural – ou
cacos no plural sem
campo de ourique singular
de vidas partidas como
a minha. E a tua – que me lês ou
ouves.

Bem.

No dia 7 de Maio de 1977, eu estava
sentado – muito bem sentadinho – no
pátio da casa de meus pais.
O sol dava de borla como um
filme repetido. Eu disse assim
ao Pessegueiro: “Pá, isto está tudo a
passar.”
E estava, de facto. Estava a passar.
Fiz treze anos amanhã.
Tinha mais nove,
assim de repente
e em verso.



Rosama-me a Cores
(soneto sem os tercetos)

Ama qualquer coisa que te não diga.
Podem sombras surgir luminosas?
Podem. Basta tal que mão amiga,
(as)sim, de repente, repita rosas.

Carnudas rosas, visuais.
Rosas tão rosas, que, de tão belas,
formosas sejam a extremos tais,
que rubras luzam, mesmo amarelas.



O Sul da Chuva

Como disse a Celeste no liceu,
“tudo se relaciona com tudo”.


I

1
A terra desce – e é mar quando chega.
No fogão, vivificando o café, a rosa do gás.
No céu da noite, o gás dos sistemas.
Lotaritária, a vida é menos
aleatória do que semelha.

2
O tempo traz ingleses, leva familiares.
As árvores deitam-se quando chove,
pois que são cães da água.
Há uma violência natatória nos sonhos.
Há passarinhos fritos nas tabernas.

3
Gasolina ferve nos copos da cerveja,
raparigas fisicamente amadas bocejam nuas.
Flores secas colam-se de costas à Lua.
O Egipto sempre desenhou a morte – e
a morte sempre desenhou o passado a vir.

4
Pintores em andaimes tornam branca uma casa,
parecem escuros insectos crucificados no branco.
Água faz cantar de fresco uma fonte fria,
crianças amorangam o coração quieto
de quem as vê passar na rua.

5
Morremos por oito horas nos braços
uma do outro, renascemos separados pela tal
natatória violência.
Um homem só dinamarquiza a rua
já sem crianças. Eu apareço com febre

6
ao sol de quinta-feira. Um rosto, sob
cabelo amarelo, come uvas: é o Verão.
Não nos foi mais duro o Inverno do que
a vida. Estiolamos até a sul da neve.
E há muito que somos o sul da chuva.

7
Cheiros chegam de jardins e de cozinhas.
Aves fundem o viver com o morrer.
Ser já não é o trabalho das alminhas
tão purgatórias que sentem por baixo arder.
Chamas chegam de jardins e de cozinhas.

8
Outonal é a absolvição de tanto desamor.
A vida amou-te, mas não te lambeu,
pelo que te queixas da inglória ramerrónica:
teu nenhum talento, tua tola fingida loucura.
Só nos sonhos, outonal, te não mentiste.

9
Sim, a terra desce – e o mar sobe para
trocar peixes por estrelas, gás por gás.
Há anos de mais, quando eu era menino,
a febre era esperar a vinda avassaladora
dos versos. Eles vieram, o menino foi-se.

10
No dia em que se tornam sul da chuva,
os meninos hominizam-se como macacos tristes.
Engaiola-se-lhes o coração em bazares
eróticos de menos para tão estéril afluxo
de sangue a tecidos erécteis: não amam.

11
Tornam-se as raparigas vorazes,
quase indiferentes, receptadores de
íntimos humores – e maus. Depois,
outonam como relapsas contribuintes,
como se tudo fosse não como mas para elas.

12
Tenho súbitos estios. Esta tarde ainda,
quinta-feira, na rua já para tomar café,
vi a terra descendo – e então foi
que, ao sol da quinta-feira, só pude:
A terra desce – e é mar quando chega.

13
Mui formosa é a pensativa tristeza de certas palavras.
Pode ser que um dia me toque.
Fernando Pessoa, por exemplo, olhava
– como os fatos escuros nos olham.
E ele era a palavra pensatriste e formosa.

14
A minha mulher e eu vamos para a cama e
já não fazemos tanto aquilo. O mais é
conversarmos sobre o comércio, o Alaska,
o Algarve, os dois filhos muito doentes
dos japoneses que apareceram na televisão.

15
Ao sol da quinta-feira, ao sul da chuva.
Desconstruíram a cabana do monte,
recompuseram em jangada os troncos.
Assim, foram acertados e dignos,
devolvendo à passagem o que passou.

16
Camionetas vermelhas descem a rua,
loucas e diligentes como formigas depressivas.
Levam ovos, azeite, carvão, sabão, cassetes.
Voltam pela noite como vacas encarnadas.
Homens pequenos saltam de dentro delas:

17
como se delas nascessem. Não posso
impedir-me de observar estas coisas
deste mundo final. Angario tais
minúsculas e crepúsculas coisas.
Opúsculo, crestomatio-me e arcaízo.

18
Ou não. Por vezes, uma alegria desobsoleta-me.
Sinto as aranhas ácidas patinhando-me o coração.
Levito, até, um pouco. As circunstâncias
apontam todas para um congresso de
azulejos, um jubileu de cristais, uma alegria.

19
Então, se a mulher não foge, fazemos aquilo.
A realidade espera um pouco, a realidade
guarda por meia hora seus fatos escuros,
seu olhar-nos do alto de sua tremenda
banalidade. Fernando deserta a rua como crianças.

20
Vou descendo a terra para marear-me. Faço pouco
barulho nos cafés, deixo correr o pus,
ele lá sabe aonde vai. Em casa, no
sossego das cortinas, as moscas zingam
suas calígrafas bebedeiras voadoras.

21
Em lojas sombrias como árabes, gastei outrora
o tempo em a circumnavegação da melancolia.
Um touro de ouro porcelanava o alto,
de uma campina de castanho, uma cómoda
coxa que fechava roupas tão interiores como segredos.

22
Ou não. Por vezes, uma alegria musica-me.
Florilégios incas valsam strausses de Ano Novo,
a serpente emplumada faz da minha
ambulatória Viena um livro de colorir
com sons os mais humanos, pois de ninguém.

23
Eu já tomei ampolas camionistas em bares de cianeto.
Raposa do meu deserto, rommelizei
montgomerysmos e seis de junhos só
com mortos. Eram todos meus, os mortos, e
nunca precisaram de ser muitos para serem todos.

24
Nada disto é grave porque viver não é grave.
Só nascer é grave, aquele berro vermelho
ungido de placenta e requeijão. Não,
nada disto é grave. Está aí o sol,
capitão do gás que a chuva ferve.

25
Que pousem, então, os músicos-andorinhos.
Um deles há-de ser a que se chama
Mariana, a cantora ferida pela graça de Deus
ferido, ferido porque não acredita
nas cantoras, nem na música, nem nEle mesmo.

26
O representante de fazendas é que pousa.
Vem cansado, pede uma limonada. Hoje
vem de azul – como ontem e amanhã.
Tem uma malinha com produtinhos e palavrinhas.
E tem um filho doente que não virá na televisão.

27
Um poema? Oh… vulgar urgência narrativa
que não chega a ser prosa. Nem rosa.
Falação de fedúncia, quando muito.
A menos que provenha do intramarino
fato escuro que olhava dos olhos de Fernando.

28
Follow me – canta o Afogador de Ratos.
Aprés toi, pas d’aprés – diz o Francês.
Pedacinhos de couro, um bistrot de porta-moedas.
Cheira a ratinhos árabes no escuro.
Muito sofreram os Portugueses para embolsar sem bolçar.

29
Interrompem-me a urgência narrativa
para me lamentar a chuva prevista para
sábado. Digo que sim – e lamento em
coro.
Pedacinhos de coro, um bistrot, só Portugueses.

30
De repente, 1983 fecha como um mau negócio.
Corações e ossos. Violangores e cellochuvadas.
Coimbra escurece de papelões plúmbeos.
Vejo do alto da escada subindo um menino.
Parece um lírio ensalivador de pastilhas elásticas.

31
Bossas lácteas assomam das sutiânicas cintas,
a cabeleireira veio tomar chá-pastel.
As ancas driblam em gestos e fintas,
ela só costuma vir aqui às quintas,
umas vezes ruiva, outras ouropel.

32
Na pastelaria, aranham os nervos.
Zuca mansidão asila os servos
de suas mesmas memórias infrutificáveis.
Não vão (nunca foram) os tempos amáveis.
Cheiros chamam jardins enerváveis.

33
Fora do corpo moram os outros todos.
Dentro do corpo moram todos os nadas.
A vulgarização de certa literatura francesa
encontrou em Portugal certa esquerda
pronta a esquecê-la logo que houvesse dinheiro.



II

1
Amanhã é sábado, prevê-se que chova.
Há-de a montanha cerrar seus negros punhos à água.
Já passou o azul representante de fazendas.
Lá em baixo, o parque tem a tenda toda ao sol.
Os loucos mansos dormem no Lar suas psicossestas.

2
Como se houvera engolido um barco na vertical:
o mar põe-se-me triste na porra da distância.
Não tanto me sucede já a comoção que antes
a visão me dava de um cu bem feito.
Não – é mais, o mar, como um barco engolir.

3
Estes dias sem ele. Em troca dele, o encapelado
petrificado mar quieto da fixa montanha
ameaçando devorar o vale indiferente
das pessoas felizes e amnésicas,
felizes por amnésicas, no vale, sob as quietas ondas.

4
Também é um pouco como, às vezes, uma
dedada cinza mancha o sol – e
todo o dia se reduz a um fecho,
um momento represador de nossa
mais íntima nulidade – o apagamento.

5
Esse xadrez jogado que cada mulher passando velha
significa, nas ruas da sexta-feira do sol.
Peças de aguazulados olhos já frios,
porvindouros bichos-da-seda a
nenhuma outra borboleta que a da morte.

6
Ter vivido: conta que a lápis branco em
papel branco se escreve e conta.
Vejo-as passar, escuros peixes
em encapelado mar de pedra parada.
Vou tendo, branco, vivido também.

7
Vejo-as passar: as velhas, as horas.
Jovens, apenas as más, as horas.
As outras, queimadas de décadas
de más mercearias e maus homens,
tabuleiram a negro a sexta-feira e o sol.

8
Telas de luz muito pura sobreplacam
a realidade de seus mesmos quadros:
superlativos e anónimos são os pintores
que a olham e não pintam – por
terem olhado o que pintado era já.

9
Camionetas azuis descem o oceano mineral,
serenas e diligentes como repressivas enfermeiras.
Voltam trazendo água como elas azul,
cartas, licores, fruta, gelatinas, sal.
Homens sonham dentro delas, as uterinas.

10
No talho, florescem os encarnados cravos
das carcaças. Alimentícia, a fibra,
de onde outrora o animal amou,
é sua mesma ex-vida cesteira,
amparada pelos marfins tutânicos.

11
Em cama de azeite e pranto de cebola
frigem, nas tabernas, os passarinhos.
Gatos pobres assistem da rua à função.
Enquanto não chove, o par de carteiros
ri uma anedota sob a parreira da loja.

12
Sei que estas coisas vos parecem versos.
São-no menos, entanto, que, das leis,
verificações. Moles versos e moles verificações,
certo. O mundo acontece todo ao mesmo
tempo: como peixes e água num aquário.

13
Eu ver(s)ifico coisas assim. É o meu
trabalho, é o trabalho do meu corpo.
O trabalho do vosso é procurar.
O do meu já não é. Nem encontrar:
é ser encontrado por camionetas anis e escarlates.

14
Penso que, ao menos neste ponto, me
estou a explicar bem. Trata-se de ver
através da tinta, través o papel.
Uma vida pode não ser mais do que isto.
A minha não é.

15
Um pássaro negro ’ind’ anda voando
nossos brancos ares: o senhor Fernando,
que foi quádruplo pintor da casa portuguesa
e branca. Seus pretos corvos faíscam azul
nas águas desta emaranhada montanha marinha.

16
Ou então, o guarda-redes envelhecido
de Luís Filipe Costa, d’A Borboleta na Gaiola,
seus rins que já não respondem à urgência
mortífera do centro que vem da direita,
a cabeçada goleadora aspergida de cristais de suor.

17
Ou então outra coisa. Outra vez os lobos
como furtivas palavrinhas pretas
no caderno de neve, a choupana
do Homem Velho no meio de nenhures.
Em inglês: snowhere. Sim.

18
Lady Purce went to the ballroom.
Will she kiss the bride, neglect the groom?
Lady Purce makes no mistake
by taking reality as a thick fake
of what the Lord, once, had in mind: His zoom.


19
Deixa andar, Lady, tu deixa andar.
Vem-me aqui antes ver passar
estas oleiras tanoeiras carpideiras
de ninguém. Elas vivem. São elas
as horas pretas como lobos, passando.

20
Sofro súbitos invernos. Esta tarde mesma,
sexta-feira, tomado já o café,
vi o mar não descendo por pedra ser – e
e então foi que, ao repetido sol, só pude:
Amanhã é sábado, prevê-se que chova.

21
Cal e opascarlates saem o santo em procissão.
Grelhadas sardinhas, broa, garrafões.
Oitocentos milhões de anos nos não mudariam.
Mais machos os homens, mais eles mariam
em Agosto, pelo santo, pelo tanto, pelo quanto.

22
Aqui chama-se Margarida, o santo.
Tem um sino de cassete, a dela capela pequenina.
Mas são boas as pessoas, não lisboas,
onde a tristeza invade as casas de bifanas
e até, sei lá eu bem porquê, o Teatro Nacional.

23
Eu moro feliz aqui, na nossa santa terrinha.
Guidinha é a nossa santa, só em Julho acontece.
Por vezes sei que apetece mudar de vida-vidinha,
PSD ou PS, qualquer coisa assim tenrinha.
Vou ficando mais e mais português, ver(s)ificando.

24
Ao sol da sexta-feira, ao sul da chuva.
Tenho de construir no monte a cabana,
deixar-me de navegações. A Noruega não
está por modas nem por modos. Não
aceite, mas digno, passarei o passado.

25
A minha mulher sente os pássaros pretos.
Ela está alerta, não se foi, não ’inda, embora.
Isto é tudo um campo de milho e talho:
os animais comem ouro, acordam mortos
e frios, cesteirando as fibras ominosas.

26
Os músicos ouvem com o olhar. Tenho visto
isso acontecer. A cantora estabelece lírios
irrepetíveis. O flavo lírio que do estômago
cresce até tornar-se produto solar em
plena, pleníssima noite. Somos o sul dos músicos.

27
Sim, o mar sobe – para que a terra
aprenda a pescar mais do que apenas
peixes. Nas cómodas coxas, dormem as
tranças mediúnicas das avós, as mesas
pé-de-galo dos avós também coxos. E tristes.

28
Eu hei-de viver um pouco na laranja-néon
dos balcões memoriais a que bebi e estimei.
Algumas frases inglesas com ingleses trocadas
estimarão uma universidade afectiva
que controlei só até onde quis.

29
O resto foi quase tudo em francês,
incluindo Céline e a parvoíce à propos de Céline por
Cesariny, Mário, em carta, ou boca, a Pacheco, Luiz.
Isso já não conta. O que conta, bem,
é sermos todos de esquerda até haver dinheiro.

30
Will you ever sperm me against all the odds?
Oh menina, ou te calas ou te fodes, deixa-te
de britanices e come a sopa, tenho 43 anos e foge-me
a pachorra para tudo o que não seja Graham Greene,
está bem assim ou escrevo-te um postal?

31
De modo que as arrendatárias vísceras
pulsam ainda seu pus cuspidor de sentenças.
Na mínima vila, enorme e verme é
a humanidade concentrada em pensões
de reforma e habitação: PORTUGAL.

32
Acabou-se-me o sol, sábado é amanhã.
Lido com as ácidas aranhas ver(s)ificadoras.
Tenho tempo, estou vivo, respiro na neve.
O sol fez assim: andou de lado como um
apresentador arrependido. Faça favor.

33
E, clarobscuramente, dentro do corpo
habitam os mortos-vivos todos
os que tossem hálitos de retratos,
follow me d’aprés o Afogador de Ratos,
se amanhã chover, vem para sul.

(Cá estaremos.)

29/06/2007

Rosário Breve - 6 Hey Joe

Sai hoje n'O Ribatejo
a sexta crónica da série
Rosário Breve.
Hey Joe

Eu, o senhor Berardo e a Arte Moderna parecemos ter uma evidentíssima coisa em comum: nenhum dos três percebe nada dos outros dois.
Isto é mesmo assim e não tem mal nenhum. Já com a vida acontece, a nós três e a toda a gente, a mesmíssima coisa: ela não percebe nada de nós e nós não percebemos nada da vida. Vem a morte e resolve tudo: a vida, a Arte Moderna, o senhor Berardo et moi.
Tenho um amigo que é artista moderno e me conhece, do que lhe resulta ser pobre, ao contrário do senhor Berardo.
Tenho uma vida que é uma riqueza, já que, como o senhor Berardo, sou conhecido por artistas (embora só dos modernos).
Já o senhor Berardo, entre milhentas outras coisas, há-de ter pela Arte Moderna o mesmo que tem pelo Rui Costa: algo a que se deve tirar o número, pôr à venda ou arrecadar.
Tudo isto, assim mal posto, deriva, naturalmente, da minha estupidez artística e da minha córnea desconfiança quanto a madeirenses que já tenham ido à África do Sul, agravando-se a desconfiança, por córnea, até a madeirenses que nunca lá foram mas fizeram da Madeira outra África do Sul.
Já o senhor Berardo (que, cada vez que tenta falar, demonstra ser um cidadão de todo o mundo menos daqui) nem deveria para aqui ser chamado. Quem, aliás, o chamou, deveria, no mínimo, ser obrigado a comprar uma reprodução do quadro do menino-que-chora.
Termino com uma tripla seta que nem é seta mas é tripla: eu, o Benfica e o senhor Berardo. Dois de nós três gostamos muito um do outro. E nenhum dos dois é o senhor Berardo.

28/06/2007

Tenho 22 Anos

Primeira comunhão em Juazeiro do Norte
Brasil, 1981
© Sebastião Salgado



No futuro, todos teremos passado.
De vez.

As enfermeiras entregam-nos às mães
dentro de tábuas de papelão.
Ominosas, as gajas.

Ama-me pelo lado contrário a quem sou.
Não pode ser, dizes?

Eu vi o teu peito branco na noite preta.
Tinha dois olhos cor-de-rosa.

O animal triste coita contra si mesmo.
É uma alegria.
Breve.

A mulher do outro não compra nada
que seja nosso.

Hás-de um dia estar no chão da cozinha
de tua Mãe – e só dois serem lá,
o chão da cozinha e tu.

Este é o pequeno tempo das grandes perdas.
Este é o grande tempo das pequenas merdas.

Ela tocou o cabelo do marido com a boca.
Eu estava no banco de trás e não esqueço.

O teu silêncio é tão ruidoso,
que ninguém te ouve.

O sol faz do teu coração uma caravela.
Não há mar, não há mar, não amar.

Todos teremos passado, alguma vez, na vida.
Mas nem todos a passámos.

O educado senhor veste quatro fatos pretos.
Fernando. António. Nogueira. Pessoa.

A guerra é sempre duas:
pátria e/ou colonial.

A boca ardida.
O coração queimado.
Dá-me lume.

Quem passou uma ponte de madeira sabe
que as pernas tristes não t(r)emem cair.

Tu e a tua sombra são
o par mais desavindo.

A criança é tocada pela loucura do amor.
Nunca recupera.

O amor não é o ser gordo com que se casa
para ter um apartamento
ou uma merda assim.

O amor só pode ser
o nosso pai mesmo
na outra mãe.

Aos 22 anos, a idade
tornou-se-me inumerável:
tenho 22 22 22 22 anos.

A morte é um braço dormente:
sente-se, não age.

Por que razão faz gente mal
a outra gente?
Por tudo ser gente.

A minha carne sobrestima-me.
Olha que a tua também.

Com andamento de braço
e caligrafia de pé,
s’aguenta muito madraço,
muita merda, muita fé.

Caramulo, tarde de 27 de Junho de 2007

27/06/2007

Montanha Mágica - programa nº 13


Às zero horas, mais logo, o Montanha Mágica vai para o ar.
Os textos de ligação são os mesmos de "Dicções Radiofónicas", já aqui publicados para leitura.
Poetas convidados de hoje: António Botto (na imagem; poema "Reportagem"), Jorge de Sousa Braga ("Tristeza") e Armando Silva Carvalho ("Natureza Viva").

A música é mais que muito e ainda mais que muito boa. Alinhamento:

Ronda dos Quatro Caminhos (com orquestra e coro alentejano)
Cassandra Wilson
Chet Baker
Chopin
Léo Ferré
Jimmy Bruno / Howard Allen
Jimmy Page / Robert Plant
Joni Mitchell
Ralph McTell
Roberta Flack
Robin McKelle
California Guitar Trio
Sailormoon
Screaming Headless Torsos
Mafalda Arnauth
Tania Libertad
Ute Lemper
José Afonso
Zeca Medeiros
Led Zeppelin
Sérgio Godinho (com Adriano, Fausto e José Afonso)
Carlos Mendes
Joan Manuel Serrat
Léo Ferré (outra vez, pois).

Audível em Emissora das Beiras (91.2 FM) ou pela net em http://www.radios.pt/PortalRadio
(concelho Tondela, distrito Viseu).

E pronto, por hoje vai ser isto. Repete às zero de sexta para sábado.
Abraço.

D.A.

26/06/2007

Não Viajando na Noruega



Alguns sabem que não é a morte,
é a espera por ela.
Algumas casas dentro de jardins secos,
esperam os jardins que elas sequem.

Elas secam.

Um fragor de sangue despenha o dia.
Galinhas poentes cambaleiam de sono.
São perdidos os alguns que vêem estas coisas.

Alguns perdem-se.

Da volta do mercado de Stavanger,
bordando a água sólida do mundo,
alguns esperam em andamento.
O tempo compagina-os.
Tal terribilidade é maravilhosa.

Os caminhos das florestas, como
as avenidas das cidades, assistem
ao levamento deles e delas.

Elas e eles levam-se.

Por mim, confirmo-me em presença
de sucessivos salões de baile abandonados.
Pesados reposteiros, mumificados de pó e da
cor de esquecidas menstruações sentinelam
o acesso ao bufete desertado, à galeria
de cadeiras que se inclinam para a frente
sem ninguém por trás, ao soalho raspado
de tangos guiados pela ginjinha, ao
palco diagonal sobre que uma caixa de
acordeão sem acordeão ensina o óbvio
do corpo e da alma.

Dentro das casas de secos jardins,
alguns
acendem velas ainda,
profanam fotografias,
naftalinam roupas de crianças avoengas,
esperam um cão amarelo que não virá
porque nenhum pó vem,
está.
Há cinquenta anos,
duas crianças ilusórias e inglesas
foram à Noruega.
Tornaram-se postais.
Saíram em 1960 em tradução portuguesa.
Agora, estão na memória de
alguns
– e doem
como sombras
aos que nunca irão
nem à Noruega
nem a lado algum.

O que as vidas de
todos
não foram,
é na televisão e nos videoclubes
que estão:
finiadolescentes de um Verão perpétuo
maliciando vermutes a espiões elegantíssimos,
cujo crédito é royal em tudo o que for
casino; uma África branquíssima e viva
como uma tulipa de cristal
ilustrada a gazelas de gás na boca
de trepadores leopardos; recados zodíacos
de absoluta garantia escatológica final
quanto ao casamento da costureirinha do Sabugal
(não de Stavanger, nem de Trondheim)
com um herdeiro riquíssimo de Cascais
(não de Oslo, nem de Kristiansund);
ou, melhor, St. Oréans de Gammeville
em vez do Sabugal
e Paris
au lieu da cascalense pasmaceira de
D. Carlos I e último.

Alguns sabem que não é a televisão,
nem o videoclube,
nem a Noruega.

As crianças esperam, depois
secam.

Molelos, tarde de 24 de Junho de 2007

Ilustração: © Maria Helena Abreu
para a edição de Viajando na Noruega
(tradução portuguesa de Alexandre Pinheiro Torres de
The Young Traveller in Norway, de Beth e Garry Hogg).
O original inglês é da Phoenix House, Londres, 1956.
A edição portuguesa é de
Livraria Civilização - Editora, Porto /
Companhia Editora do Minho, Barcelos, 1960.

24/06/2007

Dois Sonetos e Sete Banalidades Verídicas




Soneto com Ossos e Espinhas

Também a infância é crepuscular.
De ante tudo o que pós viria a ser,
toda já era símile face do morrer.
Nenhuma luz a pôde mais fotografar.

Fritamos peixe, derivamos na avenida.
Em estações de gasolina pontuamos.
Cidade antiga, mais ou menos reclamos,
a una morte toca à mais diversa vida.

É tudo o mesmo. Livro de reclamações,
nem no turismo de invernos e verões.
Assamos frango, ambulamos na praceta.

Mais onerosos, os idosos, ultrajados,
firmam sonetos que queriam fossem fados.
Ossos e espinhas, tudo vai ter à valeta.



Mãe, Eu Moro Aqui

Descem as rolas ao povoado de raposas.
Bancos de pedra acamam os ralos lobos.
Publifolhetos verbam pomadas ossuárias.
Mais indigente do que o povo, o sacerdote.

Pilares da ponte são barras só de sabão.
O rio chora dum olho enxuto ao sol.
Se vem o vento, evapora criancinhas.
Fica a rua calçada de bonequinhas.

Escassa, a luz repassa roupa estendida.
No adro velho, cospe pus o sacristão.
O coração bombeia más sabedorias.

Do lar de idosos chega a cassete gravada.
A ortoépia foi bem há muito erradicada.
Desci aqui, que rola sou despovoada.



Sete Banalidades Verídicas

1
Tudo passa – o cigarro, o café, o copo ao lado.
Tudo passa – menos o passado.

2
Hei-de deixar de ser uma rola?

3
Baixaram as persianas,
não nos bate tanto o sol.
Matilhas de comedores de bolos,
tomadores de moscatel,
arranjadores de sardinhas assadas,
matinais conspiradores da harmonia.
Somos de espasmos sossegados.
De calças pretas, os filarmónicos.
Esta dor tão humana quão
um número.
O número da pastelaria.

4
Não quero mas convoco os meus santos escuros.
Apascento ao domingo cartucheiras de ovelhas.
A Norte, detiveram um padre falso:
olha, já começaram – não tarda,
chegam-me.

5
Irrefragável é a sexta hora da manhã,
quando renasces de mãe nenhuma.
Do sistema impensável, uma cinza de cortinas.
E do teu corpo, o espectáculo abandonado
a meio.
Salvando-te vem um tirocínio breve, futuro.
Futuro repetido em anedotas porcas,
insensatos versos, noções de geografia,
cálices mais gesto que cálices.

Toca-te a visão de homens em escarpas.
Mais voa a fixa fraga do que eles.
Soltas-te tu, não alcanças mar nem céu.
Antes do machado, socorre-te do registo
dos morning port drinkers, sua horária melancolia.
Não chegará alguém para resgate algum.
Mulheres de unhas pedestres sujas de verniz,
profetas brasileiros do amor-de-jézuze,
herdeiras inglesas de Westmoreland e alhures,
nem sequer um morto decente com que
possas engravatar-te ao domingo,
às seis e meia da manhã.

6
Não mais me afundei em corpo algum.
Não mais fundei corpo algum.
O meu corpo olho e dele digo:
outro nenhum.

7
A velha come na cozinha,
a velha chora na sala.
A velha chora na cozinha,
a velha sonha no pátio.
A velha sonha na cozinha,
a velha come o que chora.


Textos: Caramulo,
manhãs de 23 (sonetos)
e de 24 de Junho de 2007
Fotografia: Mãe (Pedrulha,
tarde de 23 de Junho de 2007

São Quê?




Se os santos fossem mesmo populares, não seriam santos, mas gente do povo. E gente mais virada para a terra do que para o céu.
Comer gafanhotos no deserto e prègar às dunas é mais coisa de capelão-fuzileiro do que de santo. E é pouquíssimo popular.
Outra coisa estranha é o facto de todos os santos só o serem depois de mortos. De modo que a santidade, condenada como está a ser póstuma, de pouco serve aos vivos, a quem os exemplos só aproveitam enquanto por cá andam.
Podemos não acreditar neles, mas que os há, há, como se diz das outras. Quase todos andam de sandálias e cheiram a alho que tresandam. A sua moral é feita de ralhos sexuais, abstinências dietéticas e crepúsculos mais tristes que de costume.
Há-os simpáticos, claro. António, por exemplo. Malicioso consertador de bilhas, alcoviteiro. Mas também de sandálias.
E há os antipáticos. Paulo, por exemplo. Depois de chatear os outros pelo mal, desatou a chateá-los por um bem que nem tinham encomendado, como acontece com aqueles concursos da Reader’s Digest.
Altar, enfim, cada um tem o que merece. Eu, que não mereço, despeço-me aqui e vou converter-me à pesca. Sem sermão aos peixes. Isso nunca.
Pub.
n'O Ribatejo (www.oribatejo.pt)
de 22 de junho de 2007

22/06/2007

Fado com Lírio e Rosa



Para o meu Amigo João (da) Bininha,
que hoje completaria 44 anos.




Refrão
A absoluta boca da madurez
come os próprios dentes.
O pão negro da lucidez
come as próprias sementes.



Já me foge o lírio da perspectiva.
Varre-se-me insone o doce sono.
Ando por mate tapete de outono
que não me quer que morra, nem que viva.

Tudo aceito. Os dias vão. A noite fica.
Luminosas mulheres que queres são rosas.
À luz de velas sombram, vaporosas,
umbrosas sopram o fumo da bica.

Já refulgiram dias que fugiram.
Os campos desertaram sem destroços
que não apenas corpos já sem ossos,
lucimaduros mesmos se engoliram.

Não tem a vida ’sperança, só vã guarda.
Inserta, a vida na morte é certa.
Acerta o passo cedo, que não tarda
viagem acabada em estrada aberta.

Tens aqui tu tudo o que me foi lírio.
Rosa não tens, não tenho, se perdeu.
Marcial é do viver o martírio
e mártir do morrer quem não viveu.

Não espero, não volto a este lado,
não tem espelho o lado que não espera.
Quem tape o tapete à primavera,
mate lhe fica o mesmo e outonado.

Casas onde o frio se alumia
brilham de noite em prata de cal.
Cá fora, sempre noite, nunca dia.
Dentro, a fria noite por igual.

Cãezitos tossem ungidos de chuva.
Gatinhas parem dúzias de ratinhos.
Mãozita enregela quando a luva
dedilha pelo chão gestos sozinhos.

Um pouco de toucinho, pão de milho,
canoro vinho lento sonolento.
Café. E de aguardente um quartilho
p’ra suportar da noite gelo e vento.

Escutar a horta, à porta as laranjeiras.
Sentir no escuro o lume a rubricar
a cinza do que gerações inteiras
esqueceram mas quiseram escutar.

Vem connosco daí, ó nossa idade.
Uma noite estira e atira acabada.
Uma idade é ida, vida e chegada.
Partir não é quebrar, é mocidade.

Quando, final, vier o frio eterno,
numa coisa o lixa o coração:
é ter o lírio vivido de verão
’inda a rosa não vivera o inverno.



Caramulo, tarde de 22 de Junho de 2007

Canzoada Assaltante