16/07/2005

Autocanigrafia


Fui nascendo a cada pancada própria e/ou alheia.
Saí de casa e perdi-me logo.
O autocarro parou sem motorista, era eu o único passageiro.
Havia um valado, um caminho-de-ferro, uma figueira de frutos de pó.
O sol morava.
Eu nasci uma vez, depois outra, depois outra e agora quero isto: quero querer.
Seguiu-se um tu e muitos eles e elas.
A garganta apertada por atacadores de sapatilha.
O sabor a couro na boca.
O sol nas costas.
Gosto disto.




Tondela, 15 de Julho de 2005

Autarquias Ucais - 2


Em Pombal, linda terra do Centro de Port'ucal, o PSD já elaborou suas garbosas listas às Câmara e Assembleia municipais. Ei-los, muito penosos, a atravessar intrepidamente o Arunca. O Líder não hesita. Sob a veterinária supervisão daquela Senhora que nunca mais deu nem dará aulas na vida, os candidatos revelam-se prontos para o Tacho. E todos terão Cabidela, graças a um dos povos mais burros de Port'ucal. Bem-hajam.




Tondela (felizmente longe), 15 de Julho de 2005

15/07/2005

Autarquias Ucais - 1


Valentim.
Isaltino.
Fátima.
Narciso.
E Avelino.

Cultura Geral - 5


Tirando por agora o zamericanos de cima da mesa, há que dar uma volta por França. Este Doisneau está bem.
Há que repensar Drieu La Rochelle e Louis-Fernand Céline. Deus e Direita, nazismo e individualismo, pederastia e medicina popular etc.
Tentar ignorar a sobranceria Sartre-Castor/Beauvoir e os insensatos incensos do provincianismo à la Eduardo Prado Coelho (pobre Jacinto Pai).
Camus é melhor.
E o perdido Althusset, o que matou a mulher sem saber como nem porquê.
Estimar Barthes e Foucault pela indesmentível inteligência, derivando até "Incidentes" (ed. portuguesa na Quetzal) do primeiro. E apreciar a magnífica desenvoltura do segundo apreciando Velásquez.
Desprezar o futebol francês e o centrismo caduco francês. E quase tudo o que é francês, excepto o que, sendo-o, não é menos bom por isso.
Rir apreensivamente da pornoloucura da Millet, C.
Éluard sempre, mesmo que Gala o tenha encornado/preterido pelo genial e catalão Dalí.
Sempre também, e arriba, Jacques Prévert. Ainda não se escreve tão bem poesia em francês desde o velho fumador.
Simenon e Brel, belgas de berço: palavras altas. A autobiografia de Simenon ("Mémoires Intimes") perturba e turva, muito muito muito. Mas lê-la depois de muitos Maigrets.
Léo Ferré incontornável. Algum Brassens.
E Paris, aonde nunca fui.
Au revoir, les amis.




Foto: Robert Doisneau
Texto: tarde de 15 de Julho de 2005

Deixar de Beber


Deixar de beber não é fácil.


















Imagem: © Chema Madoz

Mão


Marcam a serra com brutos pénis destes.
O despropósito.
Assusta uma pessoa.
Traz-se as crianças ao domingo de manhã a passear, e ei-lo, o bruto betão fálico.
Mais valera tê-las deixado jogar a consola todo o domingo.
Nalguma coisa tem a Igreja razão.
Isto não se faz. Mas fez-se e está feito.
E para o arrancar dali, imagino o tamanho da mão que é precisa.



Foto: Sicó, 2001
Texto: tarde de 15 de Julho de 2005

Não Há-de Ser Fácil




















Gonna get myself in kinda pretty hell trouble if my Sam's ain't back this morning.
Said LittleBob not to worry but ain't gonna be easy at all all the same.
Got him looking at me. Not a word. O no, not him.
I know not whatta do.







Pintura: Manhã na Carolina do Sul, por Hopper
Texto: tarde de 15 de Julho de 2005

Favor

















O fundo da chávena: mais o passado que o futuro: ambos sujos.
A noite muito densa: lá fora, cá dentro: ambas as noites.
Posso ser olhada por um homem.
Um que seja pintor.
Que assim outros mil me olharão sem me ver.
Mais bem assim.
Outro café, por favor.



Pintura: Autómato, por E. Hopper
Texto: tarde de 15 de Julho de 2005

A Senhora Azul
















Uma senhora emplumada mira a água azul.
Azul a luz, variamente azul a senhora.
As sombras cercam-na, mas inutilmente.
É azul, a senhora de tanta luz.





Foto: Pombal, uma manhã do Outono de 2004

Texto: Tondela, 15 de Julho de 2005

Noite Branca por Causa dEle

E Ele que não chega. Nem tarde nem a má hora.
Se chegar a vir, que Ele será?
E que Ela poderei Eu ser para Ele?
Sei Francês, Piano, Renda e Bordado.
Li tanto Georges Ohnet, Campos Júnior, Luiz de Moraes Carvalho, Pierre Sales, J. M. Villefranche!
Experimento-me tanto dentro de vestidos!
Ousará Ele despir-me?
Se sim, fá-lo-á sem brutezas?
Mas, antes, virá Ele?
Virá Ele um dia?
E de que Eu preciso eu para ser a Ela dEle?







Pintura: Noite Branca (1964), por Mylkinov
Texto: Tondela, início da tarde de 15 de Julho de 2005

Mariana Abrunheiro Volta a Atacar












http://www.ondajazz.com/prog_julho.htm
Dia 28 - Quinta22H30
Mariana Abrunheiro
Concerto do Mês
Maria Abrunheiro l (voz)Ruben Alves (piano)
Mariana Abrunheiro sabe ir ao encontro de quem está a ouvir para lhe entregar as suas emoções .
O prazer que ela tem a cantar é o mesmo que aquele que temos em ouvi-la.
Esta troca propaga-se muito rapidamente na sala. Porque Mariana vive as suas palavras, os seus movimentos, os seus poemas, as suas canções através do vosso olhar, seguindo o fio da história das Marias de todos os países que ela tanto procurou.
http://www.ondajazz.com/prog_julho.htm

Maria canta Marias.
Há em Mariana Abrunheiro aquela força de honestidade, uma voz que não nos deixa indiferentes. Uma voz que aquece, que fica ao pé de nós mesmo quando vamos embora, porque Mariana sabe fazer-nos entrar na sua história, na sua noite.
Com generosidade, força mas também um certo pudor.
Maria canta Marias, é o concerto do mês de Ondajazz.
Quem, melhor do que Ruben Alves, poderia responder para estar ao seu lado, responder aos seus poemas com notas essenciais, ricas, simples, quentes e tão verdadeiras. Notas que transportam rimas, voz e magia naquela viagem única.
Ruben sabe estar presente quando é preciso...
- Mariana Abrunheiro
- Ruben Alves
- Você...
Esta noite, uma história... três cúmplices.
http://www.ondajazz.com/prog_julho.htm

Tom de Festa



Composição:
Tondela, interior descomplexado de Portugal, música viva e ao vivo, gente-
feliz-sem-lágrimas, luz-cor-alegria (como nos bailes de antigamente,
que bem falta continuam a fazer hoje), livros, vinhos, petiscos e afins, ar
livre, línguas estrangeiras, palavra e autores, pessoas com aspecto diferente
do consagrado no Diário da República e outras que nem por isso,
tambores, violas estranhas, pífaros, solidariedades, trombetas, pacotes
de açúcar, jogos onde o azar não conta, celibatários, dança, meninas em
idade casadoira, crianças sob rigorosa vigilância e outras nem tanto, ácido
cítrico, água purificada, sorrisos sem mentol, gás (a todo o), alumínios
& magnésios, teatro, instrumentistas loiros e culturas de muitas raças,
cores e identidades, melodias de largo espectro de acção fungicida e
demais correlativos.
Forma cultural:
Festival. Síntese de festa + Carnaval, que a vida são dois dias, o Carnaval
três e o TOM DE FESTA / FESTIVAL DE MÚSICAS DO MUNDO, 4.
Programação generalista não despicienda de tradições e contradições.
Bailações espontâneas possíveis entre a assistência. Previstos compassos
binários, ternários, em C cortado e outros ritmos insolfejáveis mas
desejáveis.
Detentor da autorização de introdução no mercado:
ACERT - Associação Cultural e Recreativa de Tondela
Rua Dr. Ricardo Mota
3460-613 TONDELA
PORTUGAL
& todos quantos a ela se juntam para tomar este antídoto contra o
mal-estar, o mau-olhado, a urticária, o mal-de-viver, o quebranto, a falta
de auto-estima, a gonorreia, o parlamento-de-bruxelas e a política agrícola
comum.
Indicações:
TOM DE FESTA / FESTIVAL DE MÚSICAS DO MUNDO é especialmente
indicado para casos de prolongada rotinite, stressalgia, mesmacoisice,
neuroquotidiania, fibroamargurismos, hipossensibilidade, adições consumistas
e uso excessivo de TVrasca.
Contra-indicações:
TOM DE FESTA / FESTIVAL DE MÚSICAS DO MUNDO não deve ser administrado
em impacientes portadores de manifesta e confessa surdez
mental, cassetes piratas e outras alergias derivadas da lã do camelo e/ou
fibra de vidro amarelo. A sintomatologia localizada no bater de palmas
mecânico, género sem-pensar (tipo ‘Natal dos Hospitais’) pode ser contraproducente.
Geralmente, é.
Efeitos secundários:
Nas experiências havidas com este produto nas anteriores tomas, não
foram detectados sinais deformativos da consciência, da visão, audição,
olfacto, gosto e (principalmente) tacto. Existem mesmo sinais de anteriores
utilizadores que, anualmente e chegados de vários pontos do globo,
recorrem à aplicação deste genérico de olhos fechados sem ficar minimamente
arrependidos.
Interacções:
Interacções é exactamente o que se deseja. Uma festa não é unilateral,
pelo que se prescreve, entre balcões e plateias, um toma-lá-dá-cá constante.
Os testes efectuados nas 14 anteriores do TOM DE FESTA / FESTIVAL
DE MÚSICAS DO MUNDO deram sempre poema, nunca eczema. O
que não é nada, mas sossega.
Precauções especiais de utilização:
Na posologia recomendada (uma noite de cada vez, muitas horas cada
noite), não estamos a ver particulares precauções especiais. Em caso de
sobreposição de horários, escolher a(o) legítima(o) esposa(o). Sempre dá
um ar de família.
Advertências:
Ver Precauções especiais de utilização. Adverte-se que foram já detectadas
paixões e casamentos com origem na toma deste produto, não
havendo reclamações a registar pelo efeito colateral causado entre os
tomadores deste genérico.
Efeitos sobre a capacidade de conduzir e utilizar máquinas:
É como diz o povo nos azulejos dos estabelecimentos:
O cliente beba à vontade.
Se ficar com o grão na asa,
Nós guardamos segredo
E vamos levá-lo a casa.
Apela-se contudo a que os utilizadores não usem tractores, retroescavadoras
ou empilhadoras nas suas deslocações, ainda que seja compreensível
o seu desejo de armazenamento cultural do programa para consumo
fora de estação.
Crianças:
É trazê-las. O bom-gosto é de pepino, como o pequenino.
Posologia e modo de usar:
Cada um é que sabe, mas, como o futuro morreu de velho, uma vez por
ano nunca fez mal a ninguém. Genérico com elementos de culturodependência
activos com efeitos saudáveis no cérebro e na forma de olhar a
vida.
Dose excessiva ou intoxicação:
Disso já tem o suficiente na sua vidinha. Não queremos entrar na concorrência
para perdermos.
Avisos:
O preço dos bilhetes ajuda a combater o défice. Sobretudo o nosso. Genérico
cultural infelizmente não deduzível no IRS, mas na má disposição
causada por ter de o pagar.
Apresentação:
Desde que venha limpinho/a, ninguém vai reparar no botão que falta ou
no laçarote despropositado. Venha trajado com o melhor fato de boa disposição
que tiver à mão.
TOM DE FESTA / FESTIVAL DE MÚSICAS DO MUNDO
ACERT, TONDELA, 20-23 JULHO 2005
4 tomas - 12 doses
Genérico Cultural
Dia 20 de Julho
21h.
TRIGO LIMPO TEATRO
ACERT (Portugal)
“Bicicleta de Recados”
Um texto de textos, três
actores, tantas vozes numa
estreia de abertura com a
‘marca da casa’
À palavra poética é dado o protagonismo
teatral. Uma “costura”,
por três actores, de grandes
textos de grandes poetas que
demonstra sem concessões fáceis
a virtualidade musical da(s)
Palavra(s).
22h.
CEDECE Cia de Dança
Contemporânea (Portugal)
“Dominga”
Agustina dançada num
espectáculo de coreografias
visualmente encantadoras
Criado a partir do texto homónimo
de Agustina Bessa-Luís, eis
um espectáculo que enaltece o
sortilégio da dança enquanto arte
de excelência para a sublimação
da música.
23h.
GERALDO AZEVEDO (Brasil)
“Voz e Violão”
Abertura de luxo com um
nome de eleição da música
popular brasileira
Geraldo Azevedo é sinónimo de
uma verdadeira tapeçaria de in-
fluências entrecruzadas. Guitarrista
de grande talento, cria nas
suas canções uma mistura única
entre as harmonias sofisticadas
da Bossa-Nova e os ritmos vivos
e pulsantes da música negra e
nordestina.
O alto nível do seu trabalho e o
seu carisma em palco conquistaram
uma popularidade que não
pára de crescer junto do público
de todo o Brasil e de muito mundo
mais. Desde 1972, Geraldo
Azevedo já gravou mais de duas
dezenas de trabalhos discográfi-
cos, apresentando-se em palcos
de todo o Mundo.
Dia 21 de Julho
22h.
POLVOROSA (Chile e Alemanha)
Um concerto para enamorar
de novidade os “fiéis” da
música de fusão
Um dos projectos mais surpreendentes
da música de fusão europeia
da actualidade, numa manifestação
criativa que percorre a
música pop e electrónica, o rock
alternativo e o latin groove.
Um concerto com cheirinho a
Manu Chao…
23h.
BOSS AC (Portugal)
Uma explosão de rap e
poesia urbana num concerto
imperdível
Um verdadeiro “happening”, capaz
de congregar os mais fervorosos
adeptos do rap, par a par
com os mais sensíveis à música
pop da actualidade.
Um espectáculo de poesia urbana,
cantada, dita, cuspida com raiva,
a entrega e a tenacidade daquele
que é um dos nomes grandes
do rap português. No palco, um
artista polivalente e multifacetado
a dar largas a todo o seu virtuosismo
na apresentação do seu mais
recente trabalho discográfico,
“Ritmo, Amor e Palavras”.
0,30h.
NEW SKETCH (Portugal)
Um projecto musical de jovens
músicos de Tondela: poder
local
Uma banda irreverente de jovens
músicos de Tondela, cujo único
compromisso é transmitir sinais
inconformistas perante a desumanidade
social que nos cerca.
Um tributo deste Festival a quem,
com modéstia e genica, encontra
na música um percurso de liberdade
imaginativa e interveniente.
Dia 22 de Julho
22h.
MOLA DUDLE (Portugal)
“Lâmpada”
Viagem à música dos anos 50,
pelo vídeo e pela exploração
de ilusão de duas dimensões
do pré-cinema
A música, tal como o espectáculo,
é extraída do disco “O Futuro
só se diz em Particular”, produzido
por Mário Barreiros e com a
participação de Armando Teixeira
(Balla e Bullet) e Manuela Azevedo
(Clã). Para contemplar a novidade…
23h.
URBAN TRAD (Bélgica)
Música global num universo
de beleza da vanguarda folk
a impor-se às audiências dos
palcos do Mundo
O projecto é criar nova música de
raiz folk impregnada dos novos
sons contemporâneos (dance,
electrónica etc) com o objectivo
de chegar a um público mais numeroso.
Um novo som carregado
de personalidade que se vem
afirmando nos principais festivais
folk de todo o Mundo com um
número de vendas discográficas
assinalável.
0,30h.
ANGELINA AKPOVO
& YAKUWUMBU (Benim)
A energia das percussões e da
dança africanas para celebrar
uma voz do Benim
Uma linguagem musical rica pela
fusão pertinente da tradição e da
cultura africanas com a cultura
do mundo: um diálogo pleno de
energia e brilho.
Dia 23 de Julho
22h.
RICHARD GALLIANO (França)
“New York Trio” com Larry
Grenadier e Clarence Penn (EUA)
Um dos maiores acordeonistas
de sempre num concerto
único com dois “monstros” da
música de hoje
Compositor e acordeonista, “Richard
Galliano mudou a história
do acordeão: hoje, podemos falar
de um ‘ante’ e um ‘pós’ Galliano”,
como disse Yasuhiro Kobayashi,
o acordeonista japonês que
acompanha Björk.
Convidado especial de Astor Piazzolla
desde 1983. Têm-lhe sido
atribuídos prémios pela critica
de todo o Mundo, tocando com
alguns dos grandes nomes de
distintos estilos musicais.
Com ele, nesta digressão mundial,
dois colossais instrumentistas:
Larry Grenadier (baixista de
Pat Metheny - Trio Live) e Clarence
Penn (um dos mais requisitados
bateristas da actualidade da
sua geração).
23h
KELVIS OCHOA (Cuba)
A música cubana tradicional
recriada num estilo pop
por um intérprete que vem
conquistando públicos pela
renovação das melodias e
força interpretativa
O mais característico de Kelvis é
a sua forma de projectar a canção
tradicional de Cuba, fazendo-
a conviver com todas as influências
de rock e pop.
Trata-se de um fenómeno musical
que se vem afirmando pela
envolvente das melodias, com
textos apaixonantes e divertidos.
Surpreendente…
0,30h.
ALEX IKOT (Guiné Equatorial)
Som africano carregado de
genuinidade a encerrar o
Festival
Um longo e rico percurso musical
com distintas formações amadureceu
este seu projecto. Neste
concerto, apresenta-se com uma
banda que seduzirá pelo domínio
das melodias e ritmos dos diferentes
países e regiões de África.
e mais…
Da Palavra às Artes: Exposições, intervenções teatrais e animações
Os Escritores, a Palavra e O Livro
Feira do Livro
Artes Plásticas: “Bô Neco” - Desenhos e Pinturas de Luís Calheiros
Projectos Solidários
Sabores do Dão

Bicicleta de Recados - 2











AUTORES


Adélia Prado
“Não sou feia que não possa casar, / acho o Rio de Janeiro uma beleza e/ ora sim, ora não, creio em parto sem dor. /Mas o que sinto, escrevo. Cumpro a sina.”
Nascida há quase 70 anos em Divinópolis, Minas Gerais, Brasil, cumpre o que diz. E escreve. E bem.

Alberto Caeiro
Fernando Pessoa gostava, como Eça, de escrever de pé. A uma cómoda alta, no dia 8 de Março de 1914, Pessoa foi ‘visitado’ pela voz do Mestre, Alberto Caeiro de seu ‘heteronome’. Era o nascimento de “O Guardador de Rebanhos”.

Alberto Pimenta
Pouco ou nada dado aos ‘poetastrismos’ dos versejadores oficiais e oficiosos deste lusitano reino cadaveroso, o poeta ‘quase incompleto’ mantém-se firme na sua dele mesma linha de sempre. E tudo leva a crer que para sempre. Uma voz de coração inteligente.

Alda Pereira Pinto
“É-me preciso ir. /Tenho sede /de essências verdadeiras. / Vou em busca de pão /para consolo /da minha fome, /de bálsamos que curem /as minhas agonias. /Não temerei a noite /que não é /e só existiria /se interromper pudesse /a cadeia das horas /na ondulação do tempo.”
Da autora, flui uma poesia muito íntima, intimista e (re)citável. Poesia do coração, da garganta e da língua, duplamente.

Alexandre O’Neill
Inconfundível, irreverente (adjectivo um tanto gasto, e mal, nos dias que correm), O’Neill foi, é e será um falso poeta menor da língua portuguesa. Ou um poeta falsamente menor. Nunca, isso não, um poeta menor falso. O’Neill é grande e p(r)onto.



Álvaro de Campos
O ‘engenheiro’ da família-só-de-homens pessoana. Estridente, impetuoso, navegador em terra, naval de cais de pedra, Campos logrou uma assertividade versilibrista incomparável. E ainda teve tempo para, da janela alta, ver o mundo todo na mínima tabacaria. O resto? Metafísica e chocolates.

António Ramos Rosa
Devolveu à vida, em inúmeros livros, o que a vida lhe deu: muita poesia. Homem de não adiar o amor, ama como (tão) poucos o ofício miseramente remunerado dos versos. Honra lhe seja feita: vem pagando bem, em vida, à mesma.

Carlos Drummond de Andrade
Caso poético em que a muita celebridade só ‘peca’ por justa. Poeta maior, amantíssimo do idioma, urdiu uma obra que muito subsidiou o reconhecimento internacional da língua de Camões e de… Drummond.

Cecília Meireles
“...Liberdade, essa palavraque o sonho humano alimentaque não há ninguém que expliquee ninguém que não entenda...”.
Outro caso absolutamente maior da poesia em língua portuguesa. Com a ‘agravante’ de ser sinal de uma mulher brasileira. Uma voz única no panorama do idioma. Uma liberdade indesmentível e indesmentida.

Eugénio de Andrade
Que morreu há pouco, dizem os jornais. Os jornais, uma vez mais e ainda, estão enganados. Que o corpo tenha falecido, enfim, é menor pormenor quando tida em conta a altura branca a que subiu a obra poética deste português cultor de rosas, Eros e sal. E de gatos e do mar e dos juncos e dos junhos. Morreu nada.

Fernando Assis Pacheco
Viveu de livros para os livros. Mas foi, entretanto, pessoa. Romanceou, divulgou, poetou. Funda sensibilidade. Amava a vida, que lhe perdoou o abandono súbito à porta de uma, naturalmente, livraria.



José Carlos Ary dos Santos
Voz alta e clara, espalhafatosa ou gorda de ternura, sensualíssima, vibrante. Figura larga, grande, ‘oscarwíldica’ (por assim dizer), cantora. Homem interventor e inconveniente, inventor e (in)decente. Noctâmbulo impenitente que muito buscou o dia claro. E o encontrou.


José Gomes Ferreira
Viu que as nuvens tinham gavetas, este josé-sem-medo. Viveu muitos anos
(quase 90), que decerto lhe souberam a pouco. Chamou ao mar “lágrima de ninguém”. Viu um filho preso. Tinha uma cabeleira branca como uma nuvem. Penteava a gaveta.

José Jorge Letria
Gosta de poesia como gosta de crianças e de canções. Isto quer dizer que gosta muito. Não se poupa a livros para espalhar um credo íntimo, desbaratando a lusitana amargura. Vai levando. Vai levando bem.


Manoel de Barros
Uma alegria brasileira com seu rebuçado de tristeza no bolso do paletó. Ele o ‘dissescreveu’: “Palavra poética tem de chegar ao grau de brinquedo para ser séria”. Com ele, a nós, chega. Chega “mêmo”.


Manuel Alegre
De si mesmo, disse Alegre um dia ser “um poeta com biografia a mais”. Fruto da exposição público-política, apresenta porém uma obra futura que se recusa a descansar sobre os louros resistentes da Praça da Canção. Vivo e activo. A mais? Não.

Manuel Bandeira
“Eu faço versos como quem choraDe desalento... de desencanto...Fecha o meu livro, se por agoraNão tens motivo nenhum de pranto.”
O grande poeta brasileiro fez grande poesia. E fez a grande poesia parecer fácil. Maior a fez, à poesia.

Manuel Maria Barbosa du Bocage
Um grande poeta da língua portuguesa injustamente emprateleirado em glosas espúrias de anedótico-obsceno teor. Também, mas não só. Viveu um défice pessoal que os vários Portugais posteriores confirmaram colectivamente. Sonetista maior. Não é anedota.

Maria Teresa Horta
Fêmea, feminina, feminista. Não esconde, bem antes pelo contrário, a pulsão erótica. ‘Inventou’ o estilo lacónico. Por exemplo. Assim. Anjo malandro. A pele salina. Muito tempo no corpo. Pouco dada a estados de alma.

Nuno Júdice
“Trabalho o poema sobre uma hipótese: o amor /que se despeja no copo da vida, /até meio, como se /o pudéssemos beber de um trago. No fundo, /como o vinho /turvo, deixa um gosto amargo na /boca.” Autor de uma obra já extensa, é nome recorrente de uma geração que ainda não é (só) História (v. anos 60, 70 e ss.)


Paulo Cid
“Não acredito na palavra paz / Lembra-me uma pomba / Com uma bomba / Dentro.”
Poeta de Tondela, (re)visor implacável de um mundo absurdo mas real, Paulo Cid de si mesmo ‘escreviveu’: “Tenho a liberdade / De saber que não sou livre.” Publicou, felizmente, muito. Lê-lo e ouvi-lo é revivê-lo. Privilégio de poetas. De Tondela como do mundo.


Rosa Alice Branco
“Mais uma mulher que olha o rio. Tenho as mãos desatadas, os pés a caminho. As margens alargam quando estou perto, mas do outro lado as mulheres não reflectem o rosto ou mesmo a sua ausência.”
Disse ela. Portuguesa, disse ainda em português:
“Parece simples /a simplicidade que vem das coisas /e nos encontra a meio do /caminho /entre o que não fizemos /e o que não faremos.”


Ruy Belo
Este discreto senhor é um dos maiores poetas de sempre da língua portuguesa. Bastou-lhe estar vivo entre 1933 e 1978. Oficial sem salário da poesia, foi um discreto cidadão. Mais brilha, até e também por isso, na estante mais alta e mais luminosa da poesia. Portuguesa e além.


Sophia de Mello Breyner Andresen
Uma senhora. Claridade. Baía. Vertical e horizontal. A evidência cega do mar e a cegueira vidente da neve. Angra. Ilha e pedra. Luz e dísticos. Notas prazenteiras. Pulsão íntima. Língua branca. E azul.

Vinicius de Moraes
Fez da vida um sábado vitalício. ‘Molto cantabile’, isso sim. Poeta da bossa-nova, mas não só. Cultor divertido de clássicos, viajante líquido, dono de seu dele nariz e resto do corpo, que muito usou em livros e amores. Fez bem. Escreveu do melhor.

Bicicleta de Recados - 1


Estreia: 20 de Julho de 2005, ACERTondela.


Pequeno divertimento poético para três bicicletas


O ponto de partida estabelece-se na morada dos poetas:
no Portugal de Manuel Alegre, Álvaro de Campos, Alexandre O’Neill…
No Brasil de Manoel de Barros, Manuel Bandeira, Adélia Prado...
Enfim, cruzando percursos dos falantes do português.

Três personagens, sem idades definidas, palmilham o percurso tomando as colorações das suas muitas idades.
O seu Mundo é o da poesia que neles habita, projectando-se em imagens e sons que lhes avivam memórias.
Os personagens pedalam as palavras nas suas três bicicletas, acenando aos poetas e ao público que, como numa prova, ladeiam a estrada.
O que lhes interessa, aos actores, é estabelecer um pacto com o espectador. Querem convidá-lo a aceitar as inverosimilhanças que o discurso poético permite.

“Poesia não é para compreender, mas para incorporar.
Entender é parede; procure ser árvore” *

Também estas personagens, tal como o poeta Manoel de Barros, procuram na poesia o que ela possui de brincadeira e interacção recreativa.

“Palavra poética tem de chegar ao grau de brinquedo para ser séria” *

As personagens de “Bicicleta de Recados” são crianças mesmo quando são velhas. São crianças na capacidade de aceitar o novo, o diferente. São crianças também na capacidade de espanto.

“Uma criança de quatro anos pode dizer com toda a espontaneidade: ‘Que esquisito: as árvores se agasalham no verão, ao contrário da gente(…)’” *

Fazem-se pequenas paragens para recolher mantimentos, decorrendo a jornada em cinco Andamentos:

O Primeiro – das palavras, dos poetas e da poesia;
O Segundo – do quotidiano de um Mundo de gente que passa e de outra que a reconhece;
O Terceiro – do amor;
O Quarto – do país;
O Quinto – das crianças, dos velhos, da vida e da morte.

Para a realização desta viagem utiliza-se, para além das óbvias palavras, a musica e o vídeo. Estas duas linguagens artísticas, longe de ilustrarem o que está ser dito pelas três personagens, procuram expressar, em e por si mesmas, um outro nível de discurso poético.

Neste trajecto da criação, muitas questões se nos colocam. As respostas são o instrumento que nos levam a reflectir, a contrapor e a descodificar com prazer.
Porque para a poesia, tal como para o teatro, o que importa são as perguntas, porque o fascínio é decorrente da contradição.

* versos de Manoel de Barros
Pequeno divertimento poético para três bicicletas

Texto – Poemas de: Adélia Prado, Alberto Caeiro, Alberto Pimenta, Alda Pereira Pinto, Alexandre O’Neill, Álvaro de Campos, António Ramos Rosa, Carlos Drummond de Andrade, Cecília Meireles, Eugénio de Andrade, Fernando Assis Pacheco, José Carlos Ary dos Santos, José Gomes Ferreira, José Jorge Letria, Manoel de Barros, Manuel Alegre, Manuel Bandeira, Manuel Maria Barbosa du Bocage, Maria Teresa Horta, Paulo Cid, Rosa Alice Branco, Ruy Belo e Vinicius de Morais

Dramaturgia Carla Torres

Encenação Carla Torres e Pompeu José

Assistência de encenação Gil Rodrigues, Ilda Teixeira, Raquel Costa e Sandra Santos

Interpretação Carla Torres, José Rosa e Pompeu José

Vídeo Marta Fernandes, Pompeu José e Zito Marques

Participação Vídeo Afonso Cortez, André Melo, Bruno, Carlos Arede, David Viegas, Gustavo Arede, Ilda Teixeira, João Bruno, José Rosa, Marta Fernandes, Miguel Torres, Paula Coelho, Rui Sérgio, Rute Lourinho, Ruy Malheiro, Sara Seabra, Solange Frazão e Vera Silva

Cenografia José Tavares, Marta Fernandes

Música Fran Pérez e Neno Escuro
Músicos Brian Carvalho, Fran Pérez e Neno Escuro

Figurinos Ruy Malheiro

Desenho de Luz Luís Viegas

Técnicos Cajó Viegas, Luís Viegas e Paulo Neto

Construção de Cenário Marta Silva e Rui Ribeiro

Apoio Montagem Rui Coimbra, Sílvio Santos e Vítor Sousa

Desenho Gráfico José Tavares

Fotografia Carlos Teles e Eduardo Araújo

Produção Marta Costa

Catálogo Daniel Abrunheiro

Agradecimentos Amolador, Nuno Cash, Manuela Barros Ferreira

14/07/2005

Fascínio















Ela é a Serpente.
Fruta ao lado.
O fim em frente.
Adão, criança, sentado.











Pintura: Bad Boy, por Fischl
Texto: Tondela, 14 de Julho de 2005

Notas para o Desenhador

Daniel dos Santos Abrunheiro (1917-1994)


Olhos bons para lápis macio: brilho, humidade, humildade e humanidade: sombrear estes a gás com delicadeza.
A camisa tigrada não é total ilusão: por dentro, o tigre era. Mas o coração, de cordeiro.
Ombros de força. Para a memória, deixe-se desenhado o carácter fluvial dos braços, que terminavam em mãos delicadas, húmidas, humildes e humanistas.
A boca carnuda, onde ressoava uma voz de solfejo.
E o cabelo perpétuo, que nenhum vento arrancou.
No mais, tristeza.





Tondela, 14 de Julho de 2005, meio-dia

Elegia da Poesia





















Elegia da Poesia
por José Daniel Abrunheiro

Pátria, Lugar de Exílio




















Pátria, Lugar de Exílio
por José Daniel Abrunheiro

Possibilidades Sinonímicas















Filhas.
Foguetões espaciais.
Versos da terra.
Água colorida.
Distracções divinas.
Sobras da infância.
Reclamações de mercado.
Bolsas de valores.
Maná dos pobres.
Gente de outra maneira.

Ou rosas.







Foto: uma manhã do Outono de 2004, em Pombal
Texto: Tondela, tarde de 13 de Julho de 2005

Janela



A esta janela convalesci todo um inverno, quase.
Quase todo o Inverno, quase convalesci.
A esta janela me tratei.
Eu estava vivo de mais.
Pode morrer-se disso.
Então, a cabeça disse-me coisas diferentes.
Que secasse a íntima fonte de matadouro.
E eu sequei, enxugando os olhos.
Devo ter feito bem.






Foto: uma manhã do Outono de 2004, em Pombal
Texto: Tondela, tarde de 13 de Julho de 2005

Declaração de Matemático Amor à Pátria







Portugal, Julho de 2005.
No exame a Matemática do 9º ano de escolaridade, 75porcento75 de reprovações.
Século XXI.
A reforma do ensino prossegue a toda a bolina.
Mon petit pays de merde, je t’aime.






Foto: Guia, Pombal, talvez Inverno de 2001
Texto: Tondela, 13 de Julho de 2005

Pano


Agradeço a todos e a todas terem vindo à minha vinda.
Em vós penso muito.
Vi o mar convosco, por assim dizer.
Haveis refrescado a minha febre, quando na selva.
A minha comoção é funda, perante todos, todas vós.
Nota-se-me, aliás, o embargo na voz.
Que ninguém pise alguém.
E que, finalmente, caia o pano.












Foto: João Portulez, em ano que não sei
Texto: Tondela, tarde de 13 de Julho 2005

E pur si muove



Serás o 173AZ da Segurança Social.
Sócio nº 21180 do Barreirense.
Irás três vezes ao Algarve na vida toda.
Preferirás bacalhau assado.
Não gostarás de ervilhas.
Serás mal amado e amarás mal.
Conhecerás o sul de França do alto de um andaime.
Beberás ardente água.
Farás um filho, que te fará dois netos.
Nunca lerás um livro.
Nunca escreverás um livro.
E, no entanto, tu moves-te,
como disse o outro que a Terra fazia.






Foto: Lennart Nilsson (1972)
Texto: Tondela, tarde de 13 de Julho de 2005

Uma palavra a sós



Ele disse-lhe que isto não podia continuar assim, que o dinheiro não dava para tudo. Ela disse-lhe que sabia muito bem disso, mas que há coisas que vêm sem avisar e depois há que fazer-lhes frente. Ele disse-lhe que percebia, mas que, a continuar assim, não sabia como fazer. Ela disse-lhe tem calma homem melhores dias virão.









Foto: Cemitério de Pombal, uma manhã do Outono de 2004
Texto: tarde de 13 de Julho de 2005

Aviso
















Aviso que não quero saber

quantos vilipêndios esta casa albergou
de que delicadezas foi bornal
que sexos aqui se desembainharam
que corações dentro se partiram
quantos sonhos, quais velas, escureceram mais a noite interior
de quem
sem aviso
aqui desabita.






Foto: Pombal, uma manhã do Outono de 2004
Texto: Tondela, tarde de 13 de Julho de 2005

A solidão das mulheres é diferente da solidão dos homens.
Deus quis assim, dizem.
As cidades modernas estão cheias do que, parece, Deus quis.
E também do que Ele não quer.






Foto: Pombal, uma noite do Outono de 2004
Texto: Tondela, tarde de 13 de Julho de 2005

Natal e Qual
















Tenho amigos que gostam do liberalismo, mas hão-de ser sempre meus amigos.
Tenho amigos que gostam do pós-modernismo, mas hão-de ser sempre meus amigos.
Tenho amigos que gostam do capitalismo, mas hão-de ser sempre meus amigos.
Tenho amigos que gostam do imperialismo, mas hão-de ser sempre meus amigos.
Tenho amigos que gostam do salazarismo, mas hão-de ser sempre meus amigos.
Tenho amigos que gostam do bushismo, mas hão-de ser sempre meus amigos.
Tenho amigos que gostam do Natal, mas hão-de ser sempre meus amigos.





Foto: Praça 8 de Maio, Coimbra, com a Teresa, tarde de 30 de Dezembro de 2004
Texto: Tondela, sem mas com a Teresa, tarde de 13 de Julho de 2005

13/07/2005

Telurismo
















O mais são os animais.
Raspam a pedra e a terra.
Alimentam-se da cor verde
sob a cor azul.
São castanhos, cheios de sangue
por dentro.
Nós promovemos festivais de gastronomia
e sentimo-nos telúricos.
Nós.







Tondela, 13 de Julho de 2005
sobre foto própria
(Serra de Sicó, 2001)

EN 237, Inverno
















A bordo destas caravelas de chapa e plástico
navegamos os insalubres invernos da
modernidade.
Somos tristes e viajantes
de nenhures a lado algum.
Mas sustentamos filhos e indústrias,
mudamos de óleo, amortecedores, calços, cônjuges.

Só não mudamos de vida.

Nem de viagem.

Nem de inverno.






Tondela, 13 de Julho de 2005
sobre foto própria de outro inverno

Boneca Crucificada


Charneca, Pombal, 2004.
À beira da estrada
encostada
a um tronco de oliveira
uma visão de teatro
do horror a vida inteira:

uma boneca infantil
sorriso de pano gentil
uma cruz e duas rosas.

Brincadeira ou sinal?
Sei tão-só que me fez mal.
Ele há visões horrorosas.








Tondela, 13 de Julho de 2005
sobre foto própria obtida no Outono de 2004

Rilke, Rainer Maria














"(...) eles iluminam a face um ao outro com sorrisos. Tacteiam ante si como cegos, e encontram-se um ao outro como se encontra uma porta. Quase como crianças, que têm medo do escuro, estreitam-se um ao outro. E porém não têm medo. Nada há que esteja contra eles: nem ontem, nem amanhã, pois o tempo ruiu. E eles florescem dos seus escombros.
Ele não pergunta 'O teu marido?'
Ela não pergunta: 'O teu nome?'
Pois eles encontraram-se, para serem um para o outro uma nova geração.
Hão-de dar-se novos nomes e hão-de tirá-los de novo, devagar, como se tira um brinco de uma orelha."


Rainer Maria Rilke, in A Balada da Vida e da Morte do Alferes Christoph Rilke,
cit. por Pedra Mexia, DN, 13 de Julho de 2005

O Desejo














A tinta faz-se luz, faz-se carne.
Ter muito dinheiro.
Casas e cidades.
Uma só mulher,
esta.










Andrómeda (1927-28)
por Lempicka

Tondela, 13 de Julho de 2005, almoço

Cultura Geral - 4




















Desenho de José Daniel Abrunheiro
(originalmente publicado no hoje extinto
Dito e Feito, Pombal, 2004)

Programa da Manhã


O Rui Correia diz que os programas da manhã entretêm milhares de velhinhos e de velhinhas deste País.
O Rui Correia tem razão.
Ainda esta manhã, vi como ele tem razão.
Pois que me levantei da cama 9&picos.
Lerdo, entontecido, freático, cambaleei para a banheira.
Poupei água, muito cívico ainda antes de totalmente desperto.
Esfreguei-me com sabão azul, raspei o maior com um bocado de telha, podei as unhas condóricas, arranquei o pêlo da venta, gargarejei o sangue da guelra.
Conferi no espelho as olheiras tristonhas que me embolsam o castanho do olhar e o engelhar irreparável da pele do pescoço.
Aos 41 anos e às 9&picos da manhã, um homem tem século e meio de idade, no mínimo.
Bebi um leite chilro e engoli um pacote de biscoitos cediços.
Voltei ao lavatório para desobstruir as anfractuosidades cavernosas da cremalheira.
Pendurei-me na roupa de algodão chinês, calcei as mocassinas pretas de adolescente adiado e ala.
Lá fora, abrangente, egípcio de todo, o Sol refulgia como um patrão de siderurgia.
O canteiro do vizinho de cima eriçava-se de couves de pé-alto. Miosótis também havia.
Mais refeito com a evidência de a vida me ter esperado ao portão como um cão amarelo, galguei metros do lado da sombra do passeio.
Reli pela infinitésima vez a placa com o nome da rua, um senhor de Tonda que foi almirante.
Redescobri em duas vivendas outras tantas senhoras-de-fátima pintadas a azul sobre vidrado.
E entrei no café das piscinas babando os bons-dias à menina empregadita e ao roliço patrão, que folheava A Bola e o Record como um padre veterano faz ao missal.
A TV ardia no Alto. Era a Praça da Alegria.
O apresentador improvisava uma canção com o pianista.
Lá atrás, a claque anónima dos assistentes pagos a catorze cêntimos/hora aplaudiam muito a ousadia do rapaz-apresentador.
Parece que o Jorge Gabriel está de férias. O Goucha está na TVI.
Para a mesa ao meu lado direito veio um casal de septuagenários: como serei daqui a 30 anos.
Há 30 anos, ele era como eu. A mulher dele também terá sido como eu.
O casal sorria para a TV, a canção, o jeito do rapaz-suplente-do-Jorge-Gabriel, a maluqueira bem paga do pianista-maestro.
Bebi o meu café e o meu copo de água morna.
Paguei e andei.
Os velhos ficaram lá.
Suponho que uma das duas senhoras-de-fátima lhes pertence.



Tondela, 13 de Julho de 2005, manhã

Louvor

O dia agradeci, manhã cedo.
Louvei todo o ouro, todo o lixo.
Fi-lo em interior calamento.

O dia andei.
Na camioneta adormeci.
Acordei no destino.

Mudei coisas de sítio,
pelo que mudei
sítios também.

Entretanto, rodava a luz
seu relógio de sombra.
Nós, ponteiros.

Entardeceu o açúcar,
agora. Olhemo-lo:
uma hemorragia de laranjeiras.

Agradeço a noite nova,
que agora louvo.
Levanto-me nela.




Tondela, fim do dia 12 de Julho de 2005

Fogo d'ontem

Ontem vi o fogo solto.
Oxímoro perpétuo.
Alimentava-se de ar e árvores.
Insectos helicópteros varejavam a massa de calor.
Avionetas roncavam, absurdos pássaros.
A estrada juncada de carros.
O vento de forno aberto.
A cara sulcada de sal líquido.
A curiosidade da populaça.
Os tropas de manga arregaçada.
Os bombeiros formigando mangueiras grossas.
As viaturas deles arfando como bois vermelhos.
Depois a noite calou tudo.
Os animais da noite não saíram à rua.
O fogo queimou até o ontem.




Tondela, tarde de 12 de Julho de 2005

Um Dia

Um dia
o dia
será sem nós
mas
nunca sem
rosas




Tondela, tarde de 12 de Julho de 2005

A Gente

A gente somos pobres
mas não somos de todo pobres
se temos a quem chamar rosa




Tondela, tarde de 12 de Julho de 2005

12/07/2005

Arunca, Manhã Cedo


De novo.
Ontem, 11 de Julho de 2005, mais centenas de peixes mortos no moribundo rio Arunca.
A indiferença oficial é uma forma de
cumplicidade ociosa.
Fotografado assim, no Outono de 2004, parece (e é) bonito.
O problema, mais que os porcos das suiniculturas, são os dejectos humanos à escala
industrial.
Quem é besta, é bestial.



Foto: Pombal, uma manhã do Outono de 2004
Texto: Tondela, 12 de Julho de 2005

Uma rosa chamada Teresa


Esta rosa tem nome: Teresa.

Uma rosa chamada Leonor


Esta rosa tem nome: Leonor.

Cultura Geral - 3

No CG - 2, deixei expressa a indignação a que tenho direito. No caso, tinha a ver com os EUA. Os comentários que o texto mereceu indicam, quanto mais não seja, que apontar um erro ao zamericanos é pior que violar uma avó sérvia.
União Soviética? Também não, obrigado. Nenhum império se justifica. Nem pelo "contexto histórico", que largas costas tem, teve e terá para justificar tudo o que de mau o género dito humano pratica, praticou e praticará.
A questão é que a nossa geografia é ocidental. Depois de pilharmos o Oriente (e mal) e o Brasil, sobrou-nos essa cepa cinzenta chamada Salazar, o qual, abençoado seja, desconfiava do zamericanos. Nada enfim que o impedisse de vender os Açores à Nato, desde que o não lixassem com a democracia, a rua António Maria Cardoso e Lourenço Marques.
Faulkner? Claro que sim: V. Racismo no Sul dos EUA numa enciclopédia perto de si. O genial escritor branco era de lá. Leiam-no, em vez de o citarem de cor.
O resto é Iraque, que é como quem diz Laos, Cambodja, Indonésia, Granada, El Salvador, Argentina, Uruguai, Paraguai, Chile, Afeganistão (este dá para os soviéticos, também) etc.
Passear nos hipermercados da pós-modernidade (modernidade + uns pós...) e comer Kentucky Fried Chicken pode ser bom para parolos veneradores da águia americana.
Por mim, prefiro El Pardal Pasa tocado pelos incas da Beira Baixa.
Ide-vos agora, vá.



Tondela, 12 de Julho de 2005

11/07/2005

Cultura Geral - 2

A indignação faz parte da Cultura Geral, a qual doravante indicarei por CG.
Um assomo de indignação batucou rijo no final do primeiro texto desta série CG.
Era a propósito, lembro, dos norte-americanos e da política externa perfeitamente assassina que desde Agosto de 1945 vêm sobranceiramente impondo ao mundo, que aliás só reconhecem para mamar.
As bombas de Hiroxima e Nagasaki não foram para terminar mais depressa a II Guerra Mundial, vergando o Japão, último esteio do falido Eixo Berlim-Roma-Tóquio. Foram para mostrar o bíceps atómico à União Soviética. Foram, daí, o primeiro sopro gélido da Guerra Fria.
Com o Plano Marshall, a Europa subjuga-se à "cultura" dos xerifes. Merda plastificada disfarçada de comida, genocídios disfarçados de humanitarismo, arrogância mascarada de exemplo democrático, cara Declaração de Independência - coroa Vietnam.
Sem História quase, os EUA são o exemplo vivo da porcaria que todo o colonialismo dejecta.
Safa-se o jazz, coisa, aliás, de negros.
Que se indignaram também, tocando.


Tondela, 11 de Julho de 2005

O Corpo de Volta

Depois de tantos anos pendurado da alma ou das árvores, o meu corpo está de volta a mim.
Em vão, pelos vistos, o exilei.
Sei de vago modo por onde andou e que andou fazendo, mas só agora me dou conta de quanta falta me fez.
Podia tê-lo vivido, posto a meu serviço.
Não o fiz e, embora não seja tarde de mais, julgo, há coisas que ambos perdemos sem remédio nem resignação.
E se as más vontades julgo que estou a subdeclarar mulheres, não estarão de todo enganadas.
Também, claro que sim, mas não tão-só.
Há mais coisas para que um corpo é útil.
É preciso para se regressar do mar, por exemplo.
Sem corpo à mão, a alma fica lá, lânguida e embrulhada na ondulação como uma alga.
É bom para ir ao mercado sopesar os frutos, auscultar o coração dos morangos e dos melões, unhar o ouro de lei das laranjas, tocar o vidro embaciado do olhar dos peixes, transportar a fome ao tabuleiro da mulher dos bolos, deitar sombra fresca como água aos baldes de flores.
Está de volta, agora.
A questão, agora, não é o que vou fazer dele, mas que vai ele fazer de mim.


Tondela, 10 de Julho de 2005

10/07/2005

Cultura Geral - 1

Fantasma antigo, nem sempre benigno, isto da Cultura Geral.
Problema existencial de operários.
Alguns ainda foram estudar à noite.
Lembro-me deles às voltas com a introdução à política, a história, a filosofia (que nesse tempo englobava a psicologia).
A Cultura Geral é como a tromba, enfim: cada um com a sua.
Não é uma coisa única.
Eu sei que é básico dizê-lo, mas é da cultura geral ser-se básico.
Ainda bem.
Há quem pense que a dita é o que aparece perguntado nos concursos da TV.
Também, mas não só.
A capital do Egipto etc.
Etc. sem vírgula antes?
Sim, por significar em latim "e as coisas restantes". (Olha, Cultura Geral!)
Convém saber do Hitler e dessas coisas.
Cultura, geral ou não, é saber para não repetir o mau e para renovar o bom.
Pode ser sobre milho. Pode, pode. Sobre astros também pode. Também, também.
Milho pré-colombiano. Astros descobertos pela nova tecnologia.
Pode ser sobre água. Pode ser sobre cordilheiras.
Os recursos hídricos, as levas de emigração ilegal, a guerra civil de Espanha (1936-39),
o cinema checo.
O amanhecer em Santiago de Cabo Verde, a sombra da Sé Velha de Coimbra, a casa onde viveu Artur Paredes, o ouro da areia de Sesimbra, a saturação de pó nos cantos da casa da Maria, a mulher de Scott Fitzgerald, a subjugação económica pretextuada de humanitarismo, o massacre de Mi-Lai, os adiantamentos à Coroa de D. Carlos pela besta do João Franco, a Revolta do Grelo em 1907, as cuecas do Vasco Pulido Valente, os óculos do Carlos Cruz, o falecimento de Manuel Vásquez Montalbán em pleno trânsito de aeroporto, a conseguinte orfandade de Pepe Carvalho, a possível tuberculose de Akhenaton, o clássico de W. Ceram "Deuses, Túmulos e Sábios", Julie London chorando um rio por ti, o Sul de Faulkner, a Pré-História viva nos aquários das marisqueiras, Lucília do Carmo cantando "Eu Preciso de te Ver".
E que mais?
A fuga de mais de 80 pides-filhos-de-putas-lambidas da prisão de Alcoentre, a 29 de Junho de 1975, neste impávido país de merda que é o nosso.
Mas também Manuel Freire e António Gedeão, sempre, para sempre.
Frank Carlucci, embaixador dos EUA em Lisboa, depois director geral da CIA.
A amizade da real família Soares com Jonas Savimbi.
Mas também Rosalía de Castro e Federico.
Os dois 11 de Setembro - em 1973, no Chile, a mando dos norte-americanos; em 2001, no cu dos norte-americanos. Ah pois! É da Cultura Geral...

Por hoje, era isto.



Tondela, 9 de Julho de 2005, caindo sossegada a tarde

Alguns Elementos Antigos Novamente Combinados

Eles e elas, sempre.
O minério e a árvore são os exemplos iniciais.
A janela e o elevador.
Tinta forte potenciando a luz natural nas casas.
O homem que passeia o cachorro e vice-versa.
Da mulher do quiosque, a bochecha levantada pela mão amparada no cotovelo sobre a pilha de jornais.
A edição latina do desejo comercial.
Um livro de leis numa biblioteca de excepções.
Mulheres na cozinha senhorial depenando galinhas.
A bacia de água a ferver.
A manhã de Março de 1972 e o poema que mereceu à Irmã.
Um azulejo eidético.
O mar como um recado pessoal.
Escalonamento tríplice: pomba, gaivota, falcão.
A mulher que se poderia ter tido ou teve ou se perdeu.
O homem que a recorta.
O papel e a tesoura.
A caixa amarela de lata com bonecos de plástico duro.
A febre desenhadora de visões nos cortinados.
Antigos, elementares, sempre de novo combinados.



Tondela, 9 de Julho de 2005

09/07/2005

Outro Autor

Mas não é amanhã quando se quer.
Sob o caderno, a toalha branca de papel do restaurante onde como a sopa e o peixe de tantas outras noites: a mesma sopa perpétua, o peixe vitalício, a chávena de café com a tal "saciedade antecipada na asa de todas as chávenas" do pobre Fernando Pessoa.
"Pobre", sim, deixemo-nos de merdas. Restou-lhe, voz que continua viva, não ter mais ontens. É apenas e sempre hoje, para ele, no destino cumprido por antecipação de todos os expressos, todos os comboios.


Pombal, noite de 15 de Dezembro de 2004

Mais dos Autores

"É a voz dos mortos insistente que teima e se nos impõe."

Raul Brandão, Húmus

Há pessoas mortas que teimam em falar-nos. Pior, talvez, que isso: teimam em fazer de nós personagens dos sonhos delas. São os Autores. Mortos como homens e mulheres, mas vozes ainda, ainda vivas e teimosas.
Estou sentado no cais ferroviário de Coimbra-B, talvez por isso escreva o que escrevo neste caderno de viajante físico entre destinos mentais. Corre um vento frio, mas não frio de mais. Um pouco de optimismo é quanto basta para chamar amena à manhã fria. Não sinto, além da presença volátil do vento, quase nada.
O "quase" exclui as vozes dos mortos que teimam. Não tenho dificuldade em percebê-los. Aliás, nada é difícil. Tudo é tão fácil, não? (Sei que falo sozinho, falar mesmo, enquanto escrevo sentado no caderno, não, sentado num banco de Coimbra-B, sim, sentado no caderno, falo sozinho como um velho ou uma viúva ou um pássaro, não espero resposta, e a minha voz torna-se, por assim falar, igual à dos Mortos, à dos Autores.)

Passam dois dias (13 para 15), já não leio "Cakes and Ale", acabou-se-me, encontrei outro livro, agora não interessa qual. Estou outra vez sentado (passo a vida a tentar pôr-me de pé), mas desta vez no Café Esquina, em Pombal. O estabelecimento enfrenta a noite exterior de vidraças decoradas com motivos natalícios. Fecha às sete e meia da noite: tenho 37 minutos antes de ser expulso com delicadeza pelas duas raparigas que, de sorriso esbranquiçado de fadiga, me dirão "boa noite" sem pensar no que dizem. Diz-se "boa noite" como se diz "bom dia": como se fosse a mesma coisa.
A 29 minutos do encerramento, duas mulheres entram no café e recebem "boas noites" de um dos três homens que conversam de pé ao balcão. "Se não chover", responde a mais velha de ambas. A outra é muito jovem, não deve ter 20 anos. A da chuva já passou os 30. São clientes habituais: já as vi naquela mesa, tomando o de sempre, café com leite e tostas mistas. A última vez que as vi, eu ainda bebia, portanto não foi há tanto tempo assim. E dizer "ainda bebia" quer, é claro, dizer 'álcool'. 'Beber' é 'álcool'. Que será o resto?
De qualquer maneira, na manhã de anteontem, em Coimbra-B, eu vinha de casa de minha Mãe. Ela tinha caído, às 8 horas da manhã, no quintal-estádio. A geada e a condição de octogenária uniram-se para fazê-la tropeçar. Como não tenho carro (estoirei-o devidamente quando bebia), chamei o meu irmão mais velho, que a levou ao hospital. Apanhei o comboio até aqui enquanto no hospital lhe diagnosticavam e tratavam o pulso fracturado. O esquerdo, o pulso esquerdo, onde a presença do coração é diferente da que se conta no direito, não sei porquê.
7 e 13 da noite. Se pudesse, adiantaria o relógio doze horas, evitando a penúria da travessia da noite. À minha frente, todo o novo dia. Talvez amanhã.


Coimbra, manhã de 13, e Pombal, noite de 15 de Dezembro de 2004

A Voz

Encontrou uma voz ou foi encontrado por uma voz, dá o mesmo, isso a que talvez possa chamar-se estilo, modo, impressão digital, marca d'água, rede das veias dos olhos, qualquer coisa, enfim, encontrou ou foi encontrado, e agora sucede-lhe falar por ela, expressar-se através dela, até comover-se nela, tornando-se, a voz, mais premente que ele, e ele não se importa, ele tem-na ou é tido por ela, até no silêncio, eu acho aliás que sobretudo no silêncio.


Tondela, fulvo entardecer de 8 de Julho de 2005

Vento Sul

Domingo, dia 12, ouço um homem dizer:

"Vento sul... Sabem o que quer dizer? Chuva."

De modo que até o vento "quer dizer" alguma coisa.
Como os mortos.
Como os vivos.
Como os autores.



Pedrulha, Coimbra, 15 de Dezembro de 2004

Na Rodoviária de Lisboa com Sylvia Plath, Philippe Claudel e Roderic Ravensworth, entre Outros

"Quiçá te consideres um oráculo, porta-voz dos mortos ou de algum deus."
Sylvia Plath

"Mas os mortos têm as suas ocupações, que nunca são as nossas."
Philippe Claudel

Roderic Ravensworth não pôde existir a sério por se tratar de um pseudónimo imaginado por William Ashenden. E por Ashenden ser, ele mesmo e também, uma personagem de "Cakes and Ale", livro de Somerset Maugham, autor que parece ter podido existir, de verdade, entre 1874 e 1965.
Nem sei por que me chega isto ao caderno. Uma possível razão é a de estar sentado na sala de espera do terminal de expressos de Lisboa, em Sete Rios, numa fria noite de Dezembro.
Ravensworth, isso é claro, já teria morrido entretanto, mesmo que lhe tivesse sido possível existir mais do que como assinatura pseudónima (riscada rapidamente para parecer verosímil) por um adolescente de ficção que não estimava o próprio nome, o nome sob que, aprendi, se ocultava na trama de "Cakes and Ale" o próprio Somerset Maugham.
Também é mais que certo que, nesta altura do meu campeonato particular, outras coisas me deveriam voar ao vento neuroquímico da cabeça. E também teria sido muito acertado, arrependo-me agora (sem que de nada adiante arrepender-me), ter trazido o gorro de lã para a mesma cabeça em cujo dentro Ravensworth, Ashenden e Maugham se fundem e confundem no cadinho de tédio do esperador de autocarros interurbanos.
"Existir de verdade", disse eu a propósito de Maugham, mas não sei se disse bem. Verdade mesmo é ele ter morrido faz este Dezembro 39 anos. E não será morrer a mais liminar maneira de passar-se a personagem? Maugham tem de morto menos um ano e picos que eu de vida. Eu, Roderic Ravensworth, por exemplo. Ou eu, William Ashenden. Somerset Maugham, aliás, também era William, até antes de ser Somerset e Maugham. Para complicar mais ainda, Ashenden (Maugham) confessa nem se importar de, em lugar de chamar-se Roderic Ravensworth, ser reconhecido por Ludovic Montgomery.
Ora, o Montgomery mais famoso é o general que derrotou o alemão Rommel nas areias esbraseadas de El Alamein. Rommel (também por R, como Ravensworth, mas não por A, como Ashenden ou Abrunheiro) existiu, mas foi forçado a deixar de existir. A História (essa ficção menos revista e mais aumentada cada vez que revisitada) diz que o general alemão ('A Raposa do Deserto', como era conhecido por mérito da argúcia estratégica por ele demonstrada no campo militar) foi obrigado a suicidar-se pela própria hierarquia nazi a que pertencia. "Raposa"? R também, como em Ravensworth e em Rommel. Alamein como Asheden e etc.. Willie como William, duas vezes W, mas o mesmo: um só. E um "só", como no som de Somerset.

(Faltam duas horas para o expresso Lisboa-Coimbra, o frio solidifica o ar do terminal, não sei aonde isto vai dar, talvez a Coimbra.)

De modo que nada: o mais sensato é aceitar que Ravensworth tenha existido a sério. Isso aceite, azar dele.


Lisboa, noite (fria, realmente) de 11 de Dezembro de 2004

O Coração das Trevas

O teu nome nas trevas.
A selva que és: cheio de bichos.



19 de Novembro de 2004

Papéis e Boca - Dois Fragmentos Novembrinos

1

Hei-de unir os papéis que os outonos tanto me convocaram como dispersaram. Hei-de fazê-lo, nem encontro outro sentido que fazê-lo.

2

Boca carnuda, palavras frutadas que sorvem o ar.
Em torno, fumo de cigarros e tabelas de preços de cafetaria.
O omnipresente espelho das estantes de garrafas.


17 de Novembro de 2004

Uma Quinta ao Fundo com Cavalos (1967) – 11

Hoje não penso que o silêncio aumente as coisas por dizer. Diminui-as, pelo contrário. Talvez as cure. É o que penso hoje. Desconheço o que pensarei do assunto, se pensar, amanhã. Amanhã é o país da não-garantia. Amanhã é a cidade do silêncio.
Apesar de tudo, tenho sorte: hoje, transitivo, o sol entardece uma casa amarela. É um solar. O que é ser solar? É ser uma casa? É ser próprio do sol? É calado que assisto a isto: o sol fazendo-se casa. Hoje, não amanhã.

Aceito a minha condição, mas discuto o meu destino. A minha condição é discutir o e com o meu destino. Percebo que isto é importante. Pensarei isto até que seja hora de jantar. Depois, voltarei a desconhecer.

Fazemos a nossa vida com palavras.”, disse Jean Giono.
Estava vivo quando o disse.


12 de Julho de 2004

Uma Quinta ao Fundo com Cavalos (1967) – 10

Fiz uma viagem de comboio, não muito depois de 1967. De qualquer modo, depois de 1967.
Vestia roupa de alfaiate, profissão então ainda oficiada. Fato completo cor-de-musgo e sobretudo cinzento. Botas de menino: a única possibilidade que as botas têm de não ser militares. Era por causa de um casamento de prima. Fomos recebidos na estação pelo pai da noiva, um homem de voz igual à do meu pai. Igual, digo. Uma voz igual. Os mesmos ritmos, a mesma espessura, a mesma participação da saliva na humidade do dito: a mesma voz noutra boca.
A estação era enorme. Tudo é enorme para um menino, à excepção da esperança. A esperança é do mesmo tamanho que ele. Pronto, fomos recebidos na estação, entrámos com exiguidade num mini verde 8não sei se morris, se austin, a memória traz sempre defeito de marca). Levaram-nos.
Era a véspera do dia em que a prima ia vestir-se de laranjeira branca. Lembro-me do noivo. Era um rapaz polido e aromatizado como um sabonete. Ia transformar-se em genro por força da Igreja e do Amor.
Ficámos hospedados numa casa de caseiro de quinta, onde o tio habitava por suspeito favor de uma senhora rica, a tia só suspirava. A prima era única: como noiva e como folha. Achei-a linda.
Andei perto do palacete patrimonial. Pelas vidraças largas, vi o que a ausência prolongada faz aos móveis: torna-os ingleses. Era como se tudo fosse do meu tio, o que a meus olhos aumentou tio e quinta.
Nesse ano sem número (só comecei a numerá-los depois de saber que, de qualquer modo, os perderei), a vida parecia tudo menos um animal em vias de extinção: um tigre perpétuo, um coala dono de eucaliptais intermináveis. O fato era verde, o sobretudo era cinzento, o alfaiate era Rodrigues. A quinta anunciava Lisboa: toda a enormidade do mundo. Já então eu enfardava uma melancolia provincial, que com o tempo se volveu capital. A verdade é que ninguém era europeu na altura.


5 de Julho de 2004

Uma Quinta ao Fundo com Cavalos (1967) – 9

Um momento nocturno junto a uma laranjeira devassada pelo vento. Oceânicos, verticais, negros, alguns eucaliptos exsudam lavanda. É como não haver dentro nem fora, entre os corpos. O vento folheia o meu, dá-lhe laranjas. Eu dou à noite uma fosforescência tranquila. Não assustarei sequer um coelho que tenha vindo visitar as couves dos meus vizinhos já recolhidos à paz da lareira, talvez mesmo ao leito, são idosos, deitam-se com o sol e acordam com ele.
Posso urinar na terra sem maculá-la. Ela gosta. Caracóis vegetais nascem da carnação húmida do trevo, da hortelã sensual, da roseira amarela. A lua poalha-se no veludo, senhora nua dedicada a uma insónia feliz. Um cão denuncia a distância rouca. Um clarão de indústria doura a noite: crepúsculo de fábricas, labor de formigueiros humanos a que hoje escapo na sombra dupla da laranjeira. Sei que, um dia (uma noite?), o meu corpo se desembaraçará desta perfeição. Voltará a ser um interior, em cujo bojo uma glândula se queixará do tempo, um osso rangerá como uma porta demasiado tempo fechada. Isso não é agora. Agora, é a laranjeira e é o vento contemporâneo dela, vindo da lua onde estou, quase eucalipto, contrabandeando couves para o invisível coelho.

Há outros verões a que posso chamar 1967, dá o mesmo – porque é perder o mesmo. Luz explodida, granada que se fez ouro branco, ouro piado de gaivota, ouro salgado. Nas sandálias, os dedos dos pés sentiam-se como se fossem o que sempre desejaram ser: dedos de mãos.


3 de Julho de 2004

Uma Quinta ao Fundo com Cavalos (1967) – 8

Fui eu aquele que perdeu o Verão de 1967. Outros perderam outros. Eu perdi o de 1967. Os verões são para perder como jóias. E jóias eles são, enquanto fulguram como cristaleiras incendiadas, como tubas em fogo. É, portanto, escusado procurá-lo, ao de 1967. Mesmo neste livro, sobretudo neste livro.
A eternidade não vai ser: não é humana. Estar é animal e mineral. Só ser é humano. E isso perde-se: deixa de ser. Deixa também um lastro amargo, o de ter sido, o de ser tarde – perder. Resta o trabalho de ordenar as cinzas, soprar alguma brasa não de todo extinta, tratar a ferida da fogueira.
As pessoas tornam-se lentas. A razão é esta: preparam-se para a fotografia ou a pintura, onde demorarão, julgam. Julgam mal. A fotografia não tem pessoas, os retratos são tinta sobre madeira. A alma nunca esteve lá, nem Deus.
Quando aprendi a ler, alguns poucos anos depois de 1967, vi com nitidez que os canários engaiolados se tinham perdido de canários. Eram borrões amarelos que piavam entre arame, não mais o que se chama canários. Quando pude ver, isto é, ler mal, aceitei que o pintor, fixando fantasmas, configurava (desfigurava, mais bem dizendo) a sua própria ausência: o seu mesmo desaparecimento, do lado de cá, é contemporâneo do aparecimento dos fantasmas. Isabel d’Este, por Leonardo. Magritte, por Magritte. Marquês Sommi, por Lempicka: iguais fantasmas. A memória do cão não é o cão. A irmã fotografada é tão a brincar como a guitarra do menino.

Os olhos praticam uma força brutal sobre o mundo. Lembro-me de estar sentado a fazer andar pessoas, a congelar carros, a levitar árvores, a fechar janelas de prédios muito altos. Tudo com o olhar. A força era tão brutal, que nem precisava de olhar. Nem de luz precisava. Bastava o escuro, bastava desejar. E o escuro escurecia o escuro, como o desejo desejava o desejo.
A criança brutal repunha os objectos do mundo, duvidando da suficiência insensata dos nomes: o pato, o popó, a pipa, o pé. Era uma forma de felicidade. Ainda exerço essa tirania, mas limito-a ao papel quadriculado e ao bico negro do objecto que sangra aranhas – as letras velhas do ano em que morria Magritte, como se então escrevesse o Verão por mim, não ainda eu, que todo me dedicava ao trabalho de o perder, olhando o chão de fotografia.

26 de Junho de 2004

08/07/2005

Uma Quinta ao Fundo com Cavalos (1967) – 7

Chegavam poucas notícias. O mundo era todo ali: isso é a infância. A criança é contemporânea de si mesma. O adulto perde esse equilíbrio de tempo com corpo. Adquirindo outros corpos, perde-se no labirinto errático da memória e da projecção improvável do futuro. Notícias, não. Apenas canções. Música e pintura. Então, as letras vieram. Trouxeram com elas o tempo, o que desarranjou definitivamente as coisas.
Uma tarde, apareceu um homem à porta. Vendia livros de saúde. “A Saúde pelos Alimentos”. O Pai comprou. O Pai não conhecia a palavra “não”. Depois, o homem foi para o monte. Segui-o sem que me visse. Sentou-se à sombra magra de um cedro, tirou nozes de um saco e comeu-as. Era um homem de silêncio. Mastigava as nozes e olhava o campo agrícola que fica depois do monte (não se vê na fotografia de 1967). Fiquei com essa imagem na cabeça: um homem que vendia livros e comia nozes, tudo incensado de silêncio, cedros, solidão. Como já tinha letras, eu sabia que a imagem voltaria muitas vezes à minha vida. Nem reescrevendo-a a perderei, como talvez gostasse.

25 de Junho de 2004

Uma Quinta ao Fundo com Cavalos (1967) – 6

O mendigo era um homem alto e magro. Barbas brancas de uma neve profética. Oferecia calendários de Jesus e de idílicas casas de madeira à beira de lagos escolhidos pela Lua. Aceitava dez tostões, um pão e uma sopa. Comia num banco que se trazia da cozinha para fora da porta. Comia no patamar das escadas.
Um mendigo? Disseram-me: “ É um homem que perdeu a casa.” Percebi (bem) isto: “É um homem que se perdeu de casa.” Também era um homem nascido da vontade do Inverno. Ele era, aliás, o Inverno: a inchuvação. Percebia-se que tivesse parentesco com Jesus. E que a cara dele fosse a Lua.
Guardava o pão no saco de pano sem magoar os calendários. Se calhar, os calendários mostravam doze novembros. Não sei. Naquele tempo, o Verão era uma caixa de luz. Para mim, era. Não sei como era para ele. Tudo nela cabia, até um pé cortado, até a sexualidade incompreensível dos animais e a de João com Maria.
Depois, João apareceu de rosto igual a uma mão cicatrizada. Um dos meus irmãos foi também para a guerra. Talvez tenha sido ele o fotógrafo de 1967, não há provas disso, tenho de recorrer a outras maneiras de falsear o lado de lá.
Já sei ler, já sei perder. No reca(n)to da oficina paterna, confundo o Tirsense com a Académica, mas já leio o suficiente para perceber que a perda pode ser disfarçada de conhecimento.
Walt Disney parece ser boa pessoa. Tem aquele fio de bigode da década anterior, aquele bigode repetido pelos homens brasileiros. Numa edição, Matt Marriott aparece como Calidano, mas é Marriott. Wes Slade e Matt Dillon partilham os verões apaches, chineses multitudinários constroem as ferrovias de Santa Fé, o agente Ene 3 age no escuro, Camões salva a nado (um braço, um olho) o manuscrito de ‘Os Lusíadas’ para glória nacional, mas alguém lhe rouba, para desgraça nacional, o manuscrito do Parnaso (desenhos de Carlos Alberto).
O Pai conversa com o Mendigo na oficina. Em segredo, dá-lhe 20 escudos: uma nota verde onde a bonomia de Santo António iliba a assinatura do governador do Banco de Portugal.
Perco verões como perco cães. Como me perco de casa.


24 de Junho de 2004

Vate 97

Estive vivo em Cabo Verde em Julho de 1997.
Aprendi a viver sem chuva, essas três semanas. Falarei agora de algumas visões enxutas desses 21 dias e dessas 21 noites.
Vi gente amadurecida pela resignação solar que me dizem ser a condição das ilhas.
Vi um posto de gasolina aceso na noite cor-de-camurça.
Numa taberna da Praia, uma parede dizia Académica, Benfica, Sporting, Porto. Me bibi grogue. Muito e morno. “A bo budibi bibi agu”, disseram-me. “Catem problema”, respondi. Aviaram-me, ofereci uma rodada, fui servido de outra. E às dez e meia da manhã o mundo tornou-se bom outra vez.
Meninos de bicicleta faiscavam de ébano ao sol inclemente. O pó ensurdecia-me a boca. Havia um bordado verde: o mar. A luz tinha uma qualidade material diferente da da minha terra: era feita de outro tempo.
Um dia, convidaram-me para um baptizado. A cachupa foi em Santa Catarina. Havia um bolo azul e uma garrafa de Vat 69 que me recuperou Ruy Belo sem pré-aviso. A festa tinha uma mulher lindíssima: tinha trocado os olhos por duas pedras verdes. Um rancho de homens estava sentado à sombra da única árvore. Falaram comigo como se sempre tivesse sido assim: homens à sombra de uma árvore, falando sem levantar a voz.
Outro dia, levaram-me ao Tarrafal. Entrei em todas as celas. A garganta tornou-se-me um nó cego. Refrigerei-me na praia da maldade da História, onde conheci um francês de extrema-direita que consentia em partilhar a areia com os nativos. Perto, a sepultura de um padre branco que me contaram ter sido pai de oitenta e tal filhos naturais.
Uma noite, o filho do dono do hotel levou-me à discoteca. Uma multidão lenta dançava com as ancas mais lúbricas e mais lubrificadas do mundo. As mor(e) nas povoavam as estrelas. E o mundo fazia o milagre de ser um bom sítio outra vez.
Falei com gente cubana, portuguesa, argentina e cabo-verdiana. Não falei muito. O meu prazer já era então o que hoje é definitivamente: ouvir.
Não pude ir ao Mindelo. Nem ao Fogo, nem à Boa Vista. Regressei pelo que tem sido a minha vida: pelo Sal, sem metáfora.
E tenho saudade de ter estado vivo.


(Escrito para o sítio na net http://www.liberal-caboverde.com/ na manhã de 8 de Julho de 2005, em Tondela.)

Higiene

J. Cardo Flores tomou banho sem noticiar o vago erotismo da solidão.
Espumou o corpo, que olhava de cima sem ver o que em baixo resultava líquido, a clara morenidão.
Ao enxugar-se com uma toalha rija, conferiu alguns pêlos, sorriu de esguelha para a neblina do espelho londrino, espirrou restos de palavras nasais, desdobrou o tapete do bidé e saiu nu para o corredor.
Escolheu roupa leve e branca.
Saiu para a brisa possível de julho, tomando ares antes de café.
Tresleu os atentados da véspera, resolveu meio problema de palavras cruzadas, pensou no mar.
Chegou ao trabalho e trabalhou.
À noite, estava livre de novo e a precisar de um banho.



Tondela, manhã de 8 de Julho de 2005

Cartão

Um velho com um cartão quadrado debaixo do braço.
Sai de casa, atravessa a rua, desce a rampa dos bombeiros, atravessa outra rua, entra no café.
É esperado por outros velhos, três.
O velho número um põe o cartão na mesa, os outros tratam da caixa das pedras, do anis e do cinzeiro.
O dominó começa.
Ao meio-dia menos um quarto, o jogo é suspenso.
Ao meio-dia, em quatro casas, os quatro velhos comem os quatro almoços.
O número um trouxe consigo para casa o cartão quadrado.
Quatro sestas acabam ao quarto para as três.
Às três, os quatro estão no café.
O número um deposita o cartão.
Jogam.
Alguns anos e anis assim.
Um dia, em pleno jogo, o número um sente-se mal.
Chamam a ambulância, levam-no.
O cartão, pela primeira vez, fica no café.


Quinta de Almargem, Viseu, 2 de Julho de 2005

Acabamento Rápido

Isto é um domingo. Os Outros almoçam.
Preferi morar meia hora sob as tílias da praça central, comendo um gelado enquanto lia a ourivesaria do uruguaio Eduardo Galeano ("Cada pessoa é uma cor que caminha.", escreve ele a páginas 154 da tradução brasileira de 'Bocas del Mundo').
Aí me visitou a ideia para uma história, a ver: palavras e frases em torno de uma senhora de companhia, pessoa/personagem que ganha (mas perde) a vida aturando os mandos e desmandos de senhoras cuja prosperidade e cujo Alzheimer as fizeram ficar órfãs de filhos vivos sem vida para elas. Não desenvolvi a história. Tenho-a num dos bolsos da minha cabeça de ganga.
Levei o gelado ao fim, encomendei café e tudo estava bem. Depois, levantei-me e vim para aqui.
Entre lá e aqui, reparei no facto de a capela de S. Sebastião estar de portas abertas. A curiosidade de visitar-lhe o dentro podia finalmente ser satisfeita. Mas era um velório.
Eu só queria ver o altar, respirar o frio perpétuo deste time-sharing de Deus, só queria ver e respirar.
Mas era o velório de uma senhora de 85 anos. Duas senhoras antigas, mas vivas, eram todo o velório. À entrada, no painel de notícias do templo, o prospecto funerário dava o nome e o parentesco da defunta senhora.
Não fui sentido pelas duas velórias, tendo-me daí sido possível uma retirada digna. Ainda pude sorrelfar a visão da urna aberta, onde a partida dormia acolchoada de cetim branco e de flores arranjadas profissionalmente. Decoro e lei. As duas vivas ciciavam, talvez para que a senhora não acordasse. Se se visse naqueles preparos, morreria decerto e de susto.
O tudo disto não durou um minuto, mas já me deu várias linhas. Agora, abrigado à sombra do bar, não já das tílias, uno as pontas: foi a senhora de companhia da minha história que morreu e está a ser velada.
História acabada.


Largo do Pintor Gata, Viseu, 3 de Julho de 2005

O Mapa das Nespereiras

Ainda aqui está comigo, a velha força. Bem, assim. Bem, então. Vamos ver.
Hoje, cruzada a meia-noite, no mesmo aldeamento onde, vejamos, há 24 anos cruzava outras meias-noites.
Rostos iguais na memória, 24 anos diferentes apenas no facto de a idade.
A mesma esperança, não tão cega embora.
Muitos livros sob as pontes desde então, entre cá e aqui.
Terra da Mãe.
Novos prédios bloqueando o monte.
Alguma infância, muita adolescência: dois frutos pisados.
As fábricas desmanteladas, lugares mortos devassados pelos fantasmas dos meus cães.
Mas alguns vivos, também, na rua pintada de noite.
Uma das ruas do lugar tem o nome de hoje: 4 de Julho. Ela e a minha, a 1º de Maio, entroncam no Largo de S. Simão, ninho de autocarros e 'dealers'.
Ser de um sítio? Bem, ter caminhado todas as ruas. Saber de cor o mapa das nespereiras. Reconhecer no animal o amor do dono: o homem das pombas, a mulher dos gatos, o senhor do corvo, eu com os cães.
Meia-noite, meia vida.
Força toda.


Pedrulha, madrugada de 4 de Julho de 2005

Sala de Espera

Estas mulheres cheiram a flores de enterro.
Sentadas nas cadeiras verdes, quase todas vestidas de negro, orelhas argoladas de ouro, poderiam ser minhas mães.
Estoiradas de filhos, gastas mas rijas, contam-se mutuamente os episódios iguais das vidas.
Uma só vida multiplicada: o mesmo filho de motorizada, o mesmo falecido esposo, os mesmos vasos com sardinheiras ao mesmo janelo da cozinha.
Eu não tenho motorizada, mas poderia ter tido.
Talvez devesse ter tido uma.
O que tenho, é sono.
Vem-se cedo para aqui, há muita gente para o mesmo.
Copos, depressões, tristezas vitalícias.
Chá, café ou leite.
Dão bolachas.
A instalação sonora debita o terço dos nomes, esses portáteis rosários.
Espero o meu nome.
Uma reprodução fotográfica do tamanho da parede apresenta um caminho na manhã de um bosque.
Ninguém vê o caminho.
Celestina de Jesus, gabinete 3.
Só sabemos este caminho, ao cabo do qual nos darão bolachas, paroxetina e flores velhas como mães de motorizadas.


HSC, Coimbra, manhã de 6 de Julho de 2005

Gato Nele

Outros olhos azuis, mas de um menino, esta vez.
Sob a linha de cabelo negro, fulminavam: dois instantes da alma.
Concebidos por um deus ceramista, olhos de um gato com pastilha elástica, t-shirt e sandálias.
O menino teria dez, onze anos.
O gato, quatro, cinco mil anos.


Quinta de Almargem, Viseu, 2 de Julho de 2005

03/07/2005

O Pasteleiro

A semana passada. Oito e tal da manhã. À espera da boleia para o trabalho. Numa pastelaria de Viseu. A empregadita, muito diligente, vê o tipo a ler um livro e a tomar notas marginais a lápis.
"O senhor lê tanto! É escritor?"
Ele, feliz e mentiroso, responde: "Sou."

Realização Profissional

A sarça ardente é o dia total.
As horas: pontas de cigarro.
Mas um jornal fresco ao alcance da vida, que me trouxe a esta sombra de tílias.
Casais casados perdigotam gelados feitos de silêncio,
isso a que chamam felicidade.
Noutros pontos do País, também arde, mas mais.
O sábado é a minha pátria.
Na agenda preta, a lápis, tive tempo de manhã para apontar a mais perfeita,
a mais plena realização profissional:
um cão ser técnico de Raios X.
Por exemplo.

Do domingo não falo

Há dois vizinhos que se não dão.
Nem ver-se podem.
São eles o sábado e o domingo.
Vivem geminados contrariados.
O sábado é feliz, tristonho é o outro.
Escrevo isto sábado.



Viseu, 2 de Julho de 2005

02/07/2005

Disto

Há caminhos de terra juncados de pedrículas.
A terra respira com dificuldade sob os pés das pessoas e dos animais que
vão ou regressam.
Séculos disto.


Tondela, 1 de Julho de 2005

Lavatório Moral

Pode ser que dia me farte de cuspir na própria cara.
Tenho sempre a possibilidade de, nesse dia, pensar:
Olha, tenho a cara lavada.


Tondela, 1 de Julho de 2005

S. Pedro do Sul

Ontem, última noite de Junho, a minha vida levou-me pela mão a S. Pedro do Sul.
Ao contrário do dia, a noite ilumina a partir de baixo.
O Vouga tinha olhos de luz, vi-os eu de um café de móveis de madeira.
Antes, um passeio pela zona dos hotéis termais.
Na esplanada de um deles, uma orquestra tocava, para uma plateia de reformados ricos, uma música das 'fogueiras' sanjoaninas de Coimbra.
O ar da respiração era uma seda.
Comi um pão-de-ló macio como um beijo de filha.
Não me parecia Portugal, mas eu sei, era.
E era que era bom.
Foi uma noite que já era, sendo ainda, depois, dessas que sabemos para guardar.
No regresso, a rua que dava acesso à estrada para Viseu estava juncada de carros vermelhos.
Os bombeiros rescaldavam uma tragédia.
Tinha explodido (mais) uma oficina pirotécnica.
Três mortos e um ferido grave.
A noite mudou de futuro.
Encontrei outra maneira de chegar a Viseu.

O Futuro segundo Virginia

"O futuro é sombrio, o que no fim de contas é o que o futuro tem de melhor, acho eu."



Virginia Woolf, 18 de Janeiro de 1915, Diário, I

01/07/2005

Uma Quinta ao Fundo com Cavalos (1967) – 5

João pastava Maria na palha do estábulo da quinta dos cavalos invisíveis. Cheirando-lhes ao amor, os cavalos punham-se a resfolegar como acordeões inquietos. O rapaz era baixo e forte. A cara dele, depois de África, parecia uma mão aberta de cicatrizes. João suava Maria, fazendo-a soar como uma pele de bombo.
Esse era o meu mundo: o monte, o amante a monte, o estábulo suspeito, a ronda fotográfica da sensibilidade a tudo. Eu queria ver.
Saltei de cima do muro do pátio-estádio e cortei um pé numa lata afiada que a silveira escondia. Sangrei no bidé feminino. Lembro-me da água debruando, como um pincel de pintor, o sangue, recordo a cor corredora do vermelho-vivo na louça do bidé, recordo o ralo gorgolejando o meu sangue. Conservo a cicatriz na base dos dedos do pé direito: uma ferida reavivada e revivida pela areia da praia. Fulgor e glória do menino ferido, salteador de muros, devassador de silveiras prenhes de frigoríficos, ratos, sofás e outros despojos fascinantes.
Um cão acompanhava-me. Era de pêlo malhado de ouro ruivo e branco-nácar. Era um animal muito inteligente, dono de um olhar apreensivo. Pertencia a si mesmo com uma nitidez decisiva: um príncipe carnívoro. Também ele, um entardecer, acabou. Sem querer, descobri que um irmão o levava para lá da silveira cortante, tinha-o metido num saco de farinha de padeiro, sepultou-o já anoitecia. Apercebi-me de que já então me escondiam a morte, como se ela jogasse às escondidas comigo, a criança em transe perdedor dos primeiros e últimos verões. Chorei mais pelo cão do que por ter cortado o pé. A morte do Cão é uma monstruosa lição infantil. Estamos, deixamos de estar: Verão, Inverno. Fui aprendendo assim.
Com a aprendizagem, veio a perda. Veio a perda porque veio o tempo. E o tempo era o tempo perdido. Sem cão, perdia-me no monte da fotografia. Esfregava as mãos nas ervas aromáticas, mordia folhas de oliveira, bebia água de uma fonte muito pura que chorava de dentro da terra, para lá da linha do comboio, como se chorasse pelos que via passar dentro do cavalo-de-ferro. Comia figos da Figueira do Carmo, apedrejava o ar, pastoreava as vacas interiores de uma tristeza que já se me tinha tornado tão inexplicável como sem remédio.
Georgette Magritte perdia o marido, entregue ao cancro terminal de 1967. René e Magritte com o meu cão depois da guerra, mais ou menos como na canção de Paul Simon. A guerra de João, o cavalo de Maria. Ao longe, morteiros da festa de Verão, morteiros da guerra de África da Piedade, as mortes de Magritte e do cão a que eu pertencia.
Caixas vazias de ananás dos Açores serviam-me de cavalos faroesteiros. Manhãs assim, no pátio-estádio, cavalgando imóvel, sendo tão feliz como a ideia de rosa que uma rosa dá sem pensar nisso. O meu corpo contava caracóis, delia as paletas do sol caindo além da quinta onde os cavalos sofriam o odor de João aleitando Maria, desferia pedradas contra Deus, esse assassino de cães e pintores.
Mas então vieram as letras, essas minhocas pretas que catalogam a terra: Selecções do Reader’s Digest em edição brasileira, a morte de Francisco Lázaro na maratona olímpica de Estocolmo (1912), ano do suicídio da mãe de Magritte, os nomes coloridos de países que nunca visitarei, centenários de santos, ilustrações francesas, Matt Marriott no Mundo de Aventuras, uma das muitas vidas de Leonardo, uma colecção espanhola de ‘dibujo’ (como eles chamam ao desenho), um folheto de psicanálise mágica que não sei se de Freud se do Professor Karma, um atlas tão pobre como o mundo que representava, Edmondo de Amicis, Mark Twain, R. L. Stevenson e o Pai Tomás na colecção Fruto Real, tantas letras que me induziram na pura perda de tempo que a eternidade era para ser e não foi.

22 de Junho de 2004

Canzoada Assaltante