domingo, novembro 24, 2019

CADERNETA (título provisório de coisa-em-progresso) - 7




7. Nem Parecem Mortíferas as Sombras

a) Quinta-feira, 31 de Outubro de 2019



Em sossego atento, escutando a Carlos Fuentes, o descomunal mexicano de superlativas elegância & sabedoria-em-prática. Aproveito muito, enquanto chove no mundo local. Sinto-me gratificado por esta invernosa despedida de Outubro. Tirando a tosse cavernosa, estou bem na hora. Por o tempo destas linhas, não saí ainda de casa. Tenho de fazê-lo hoje, sem mais procrastinação. Prédio afora, terei tanto de reencontro quanto de achamento – já o sei.
À cautela, raspei ontem à noite a pilosa queixada. Subirei na vertical ao duche, daqui a um par de hora, para fruir a chuva domesticada.
Fuentes elabora, redivivo. Nomes & lances manam daquela consciência tão clara. Monstro da literatura duradoura – e dura de ouro.

(Tusso até me subir à boca o coração.)

Sempre saí, chuviscava, não achei frio nem frio me achei. Resolvi duas coisas, duas outras ficam esperando-me no porvir, se vier.

Revi parciais do meu mundo, de que constam operários em fim de jornada, vêm dessedentar-se ao bebedouro de pobres que há anos nidifico.

Poalha, a moinha toma tudo.
Relapsa a nostalgia p’la Cidade.
Idêntica idade, identidade
apõe a todos-os-santos ao entrudo.

Achegam-se os mais velhos à lareira,
em funcho há castanha em cozedura.
A dor dos outros é sempre futura.
‘manhã vamos de barco à Figueira.

Tardia, a comoção já nos não leva
pela mãozinha dócil de manteiga.
Tardia é a alegria. A dor, primeva.
Envelhecer é coisa nada meiga.

Morreu Dias (José), fui dele amigo,
nove dias depois só mo disseram.
O q’escrevi com ele, não escreveram
os ensimesmados a sós consigo.

Um triste (de bigode rarefeito)
pede fiado ao amo bebedouro:
este lhe serve cálix morredouro,
aquele rechupa sede pelo peito.

Ser testemunha antiga sem mais fala
q’a da avó mais velha analfabeta
– ser deposta boca de quem se cala,
       matina q’a noite faz obsoleta.

       O Sílvio (contas certas) não obriga
       quem de fora lhe vem por a visita.
O Álvaro Martinho traz cantiga
que à força do passado revisita.



b) Sábado, 2 de Novembro de 2019



Sinto a infiltração da idade – e nem sempre por algum mote negativo. Mesmo ante as contrariedades devindas que, activa ou passivamente, engendrei eu mesmo – mesmo ante essas (con)sequências, encolho bastas vezes os ombros & assobio enquanto sigo o(s) meu(s) (des)caminho(s).
Falo com & para mui pouca gente-gente. Nos sonhos, por igual, sou mais ouvinte do que falante. Tenho sonhado muito. Acordo sempre algo aturdido pela lógica implacável desse universo-alternativo da nebulosa-cerebral. Esqueço rapidamente as peripécias. Não são pesadelos nem jardins, os filmes que sonho. São outra roupa num corpo diverso. Nem menino nem senil, é como se tivesse experimentado uma espécie de eternidade limitada ao stock existente. Já acordado, sacudo o pêlo, bebo água da garrafa á cabeceira, fumo se tiver à mão, iço-me para a hora nova. Mudo, as mais vezes. Surdo, não. Há cantos da casa mais propícios à música. Não telefono nem me telefonam. Está tudo bem – responderia eu se mo perguntassem. Ainda bem, porém, que mo não perguntam, escuso de aldrabar, seja quem (não) for.

Mercê de curiosidade selectiva, vou (col)matando a pouca conversação: interesso-me por papéis vivos, linhas vivas, imagens capazes de vergar o Tempo em espirais alternativas. Um duplo-homicídio na Irlanda, ano 1921. Um sêxtuplo (salvo erro) em miseráveis subúrbios de Glasgow, acho que em 1984. O andrógino Rapaz Jorge em 1981. Correrias em Munique nas décadas 20 & 30 do XX. É corrupio-de-pandora, por assim dizer. Dou de comer ao lápis, tinta por vezes. À dor, nem tanto.

Em povoação tomada de invernia, pela noite, é ainda possível ambular sem prejuízo do mundo. É além a casa do Ambulante. Por ter de manhã cedo azeitado as juntas do portão, o ferro não chia. Em surdina, o rádio rastilha valsas. No lar, o brasido remanescente pede reforço de provisão. O cão, muito velho, abre um olho, boceja, quase dá ao rabo uma voluta de boa-vinda. A mesa expõe tesouros da horta, do mar & da serra: cebolas, bacalhau, queijo. A cafeteira azul, uma vez reanimado o lume, já mana perfume. Da rede-mosquiteira suspensa, toucinho salgado & manteiga abordam a mesa. A luz é cediça. Ergue-se vento no pátio, fremem no pomar as macieiras. O noticiário da radiofonia reporta a um exterior demasiado longínquo (felizmente). Jornais antigos esperam a enésima releitura. Hoje, porém, talvez não. Agora, a doçura mela os olhos. A poltrona, a prudente meia-distância da lenha viva, serve de placenta. As valsas voltam. Fios rarefeitos de sentido medusam pela mente já só semiciente. Estraleja o pinho, casado com o pedaço de oliveira no altar ígneo. Nem lembrança nem espera. Nem espera nem lembrança.

Truz-truz.
Da casa, ó senhor!
Quem luz?
Senhoria, é Leonor!
Entra pois, Leonorita,
entra e toma tu assento.
Entro sim, só um momento:
venho lá da Dona Rita.
E que me quer a boa Rita?
Pois é isso, já vos não quer.
Que me dizes, Leonorita?
Já lhe não vem por mulher…

Ao contrário dos católicos, vivo de desaparições. Não há nisto gravidade. Graves deveras, são raras as coisas. E as coisas apresentam-se duramente concatenadas. Se um ror de palavras me pede alinhamento, sou grato. A mocidade foi. E não volta. Não é natura dela. Chegou, morou por aqui um bocadito – e pôs-se nas putas, bem fez ela. Em o lugar dela, range ossos certa condição que não é ela, é outra coisa, conspícua recolecção, lentidão agravada, não outra pessoa mas menos pessoas nessa pessoa. Força-se aqui – mas sem desespero – um ensaio de matrícula na noção compreensiva. Versos muito mais felizes já o terão eventualmente logrado – não importa. Ou: não me importa. Importa-me, isso sim, muito sim, a palavra-justa (assim com hífen para substantivar foros de, precisamente, justa-posição). Ela é por-si, consigo, em-si – vida melhorada. E não só livros habita. Bocas que pelo mundo não escrevem – também dela são capazes. Tenho recolhido muitas, que em solidão frúo na ciência antecipada de comigo as não poder levar lá para onde foram os que já não podem ler. Posso deixá-las, isso sim, posso. Mais digo: todos os meus anos falantes são mormente ouvintes. Entre eles, deles, faço de secretário.
Vou à janel’alta da sala, miro a obra da noite neste trecho do mundo. Atrás de mim, nem cão nem lareira, nem rádio valsante nem pomar de macieiras – mas.
Mas pontilhada a ouro é a tela que se me abre à janela alta. A hora evacuou as vias, nem parecem mortíferas as sombras. A colmeia humana aceita o anoitecimento, milénios de resignação são imperiosa escola. Sinto em palavra o recolhimento. Nem demência nem euforia. Nem baile, felizmente.
Atrás de mim, esparsos móveis dão de si, emitem acústicas mínimas. Roupa-de-cama faz de mãe. Restos de refeição já arqueológicos, assinatura da hora perdida.
Sim, há justiça no caos – até cortesia, digo. Não mais forjarei um sentido – sequer alguma porta.
Certa vez (que esta noite demonstra improvável), a uma mesa jantando em companhia de outros oito filhos-de-suas-mães, calei-me mais que de costume. Penso que se celebrava uma notícia de noivado. Fumei no quintal. Os carros visitantes afocinhavam o pinhal d’em-torno. Talvez o mote do jantar não fosse noivado. Pode até ser que fosse alegria de recém-divórcio. Antigamente, havia certo pudor. Agora, parece ser razão de júbilo. Depende, se calhar. Comia-se, enfim. Aquela assembleia não era especialmente bebedora, pelo que mais me restou. Voltei ao quintal a pretexto de outro cigarro, trouxe comigo a botelha de conhaque, sentei-me numa pedra trabalhada, recebi da Lua o clarão hipnótico. Essa gente (e a mocidade dela) já não é. Sumiu-se na natura de sua via, eu na minha. O conhaque era bom, era um heterónimo da seda, o fresco da exposição fez-me bem. Todavia, também me não demorei. Agradeci boleia até à gare, esperei menos de uma hora pelo comboio. Então, ardendo de prata, os arrozais emoldurados desfilaram. Pensei logo em um dia escrever isto no pretérito – o que ora se faz presente, amanhã não.

Outra coisa: a morte como hoje-perpétuo. Perpétuo até que o planeta se desfaça, depois disso o Nada Maiúsculo Sideral. Adeus, sentimento; adeus, pobreza; adeus, nossa casa.
Todos temos alguns já. Quietíssimos viajantes, amados nossos que de nós amor não urgem. Impermeáveis à febre, à geografia, à fortunam ao carnaval erótico – e à infâmia chamada Religião. Afortunados afinal, portanto.
Raspa-nos – não a eles já – o sal dos anos. Temos visto cegamente tanta coisa. Fendemo-nos, ofendemo-nos – mas pouco nos defendemos da malevolência consuetudinária. Nunca é o melhor dia para que finalmente alguma coisa etc.

Mutilados – menos do corpo do que doutra coisa. Cada vez mais fácil, topá-los. Um Eduardo entre eles. Conversei com ele algumas vezes. Se tinha alguma coisa, partilhava: pão como vinho, velha ceia. Ou deus frugal. Luís, outro que tal. Valdemar, filho de Sofia Sirius. Ernesto Calendas, há muito falecido. Sepultados na vala municipal. António Polícia, mais amigo de cães que da vida. Pepe Célere, famélico, imparável, colhido pelo exacto comboio em que vinha Filinto Prates, o poeta de Memória Corrupta e de Peregrina Imitação.
De mutiladas, sei menos. Não que as haja menos. Menor é tão-só o meu conhecimento. A franqueza suporta este parágrafo. Maria Irlanda, eis uma. Nos melhores anos, alourava o derredor de si. Manipulava, qual grão-mestre xadrezista, pessoas, situações, negócios, influências. Uma manhã de Maio, acabou. Junho nada repôs. Encostou-se ao tudo o que viesse por nada que fosse. Não vou explicar tudo. Não sei tudo – mas sei mais do que não digo. Maria Irlanda, era uma vez. Mutilada, mortífera sombra.  

quinta-feira, novembro 21, 2019

CADERNETA (título provisório de coisa-em-progresso) - 6




6. Esferovite & Bailes-Ateneus

a) Domingo, 27 de Outubro de 2019



Recebamos & assimilemos, um pouco ainda, este Outubro não de todo desprovido de glória, esta estação tão predatória quão as melhores.
Já anteriores linhas deram de si nomes confundidos pela omnipotência dessa lembrança elaborada & voluntariosa chamada esquecimento. É mas não é, segue sendo no sido qualquer-coisa-1970. 
Como ver em um Victor Hugo apenas um velhote barbado de branco numa ilha do Canal.
Como achar na mais gélida madrugada o cadáver etílico de um Edgar Corvo.
Esses dois na multidão espectral de um gajo outonecido à sua própria custa, aqui, portador de uma carta recebida em data, como todas, definitivamente provisória.
Como Jonita Miguel, rapariga escapada à imensidão canadiana, chegada enfim ao barulho-das-luzes das maiores metrópoles que a sul congeminam o império & a carnificina sistemática.
Em outra linha de outro novelo, o galego Jacob Letício rumando a equivalente sul ele também, onde o aguardava a futura dinastia.
Em obliquidade, um Donato Faldar reporta-se a um celeiro pela época das colheitas, à noite os migrantes tocavam rabeca à face do fogão-a-lenha enquanto as papas ferviam.
Estigo-o-Muito-Claro trepou às faldas da encosta, susteve-se para repor oxigénio, bebeu água do fio que vinha gelando do cume, nenhuma fêmea o turvava nem já nem jamais.
Estas acções invisíveis percutem címbalos inauditos. A manhã espraia-se pelo caderno em feitoria sem mal nem bem. A véspera, nada isenta de certa doçura inócua, produziu seu lote.
Massivo nevão sitia o lugarejo. Dele debandou o grosso de homens em idade viril. Vivem longe, ficaram os velhos e o padre. Até Cristo tem frio. Já pouco gado ferve nos curros. Agosto fica longe como um país ao sol. É mais dura a pedra, mais afiada. No Verão, pela festa, os moços deixaram os paióis plenos de lenha. Criança alguma celebra a terra. A infância acabou como vela soprada. Não Vos deixeis emaranhar de tristura. É como é, são o que são as coisas, uma capela não faz Deus. Soalhos de castanho estendidos em melhor tempo. Na venda, latas guardam alimentos prontos, ferramentas esperam mãos que tão-breve não virão, o olor é compósito: naftalina, bacalhau, café, sabão, cera, vinho, plástico gretado. A rádio murmura lisboas improváveis.

Vai para cinquenta nevões, houve aqui nomes. Sei alguns. Alguns resistem como podem ao meu lápis, tinta por vezes. António Pratas, António Simões de Abadia, José Leão, Joaquim Pratas, Arnaldo Benje Caniço, Augusta Sério, Norberto Corvo (irmão de Edgar), Nina Veríssimo, Nino Júlia Mário, José Maria Morais, Maria Francisco Morais, Rogério Nunes, Jaime Velindro, Alberto Rebelo Ribeiro, Alcides Botelho, Augusto Quintas Borges, Elói Carvalho Elias, Carlos Eduardo, António Lopes Lucas, Edite Maricato, Teresa Pais, Victoria Douta, Fernanda Mota Américo, Augusta Catarino, Anabela Jeremias.

Poucas ruas não diminuem o labirinto. Aqui sitiei a minha casa terminal. Leio pelas veredas o sânscrito de ramitos & galhos caídos no cascalho ralo. Aramaica literatura minha, fácil afinal se se tiver em conta o que por ’í vai de bom vinho.

Tinha armas em casa, o velho João Barbeiro Notel. Não era caçador, amava os animais, todos eles, era buda de nem moscas matar. Herdou o rifle de seu avô Benedito; a caçadeira, de seu tio Álvaro Diamantino. Nunca usou maldade. Esteve todavia a ponto de fazê-lo – mas contra si mesmo, quando a mulher o deixou por um criado-da-lavoura, como é de papel-selado nestes folhetins da camiliana vida. Ficou-lhe leal o mulato Assis. De ambos, resta nada senão isto: um rodapé de livro nenhum, caderneta-alguma.

Freixos & choupos bordam similares aléns a poente, para lá arfa a instância aromática do mar.
Nisto, Branquinho da Fonseca na Nazaré. Raul Brandão no Baleal. Fialho de Almeida pitoresco pela Galiza. Forjaz Sampaio também pela mulher traído. Um Zamora em processo histórico (capa verde). Kurt Tucholsky & José Cid, ambos hoje-ontem-amanhã. Camilo de Oliveira & João Gaspar Simões naquela Figueira que não volta. Maria do Céu Guerra & João Perry nessa mesma dita, mas depois que ora é já tão antes.
Bato no escuro. Trago à claridade. Não leste, escrevesses.

Pessoas ardendo à face do país local: inscrevo-as na caderneta-razão em paralelo às minhas mansas – tão mansas – mentiritas. Das mãos: uma quer, outra pode. Chama-se Sânscrito – ou Freixo – ou Arma – ou Pratas.

Recolhe-se a casa Daniel, esteve de plantão nocturno em sua farmácia de serviço, toma café-com-leite com Alice, a mulher, & Alicita, de ambos a Filha Querida & Tida. Deita-se no sofá da sala, não liga o televisor, farto anda ele de tanto Sócrates, tanto futebol, tanta ex-mulher morta à porrada, tanta brasuquice novelesca. Daniel é sardento, é franzino e Barbosa Adamantino. Não chegou a estudar para enfermeiro, os velhos não podiam prover Coimbra, propinas, pensão, sapatos, viagens, comer, livros, uma bica por festa. Não lhes guarda rancor, longe disso. A coisa é o que é, enfermeiros & chapéus ele há muitos, doutor Vasquinho & suas tias no Zoológico, o que nos rimos, Daniel, sim, Alice, o que nos namorámos domingueirazitamente.

Ai tanta voz, Filipe Costa! Foste a escutar João Sebastião naquela noite de nortada a mais cuteleira? Foste. E feliz foste & oratório & tomista & tudo. Ainda nem mínimo indício te ameaçava depressão. Ainda não eras, de ti mesmo, menos uma hora – como os Açores são.

Mishima & Salazar em 70/XX foram a enterrar. Deram ambos na rádio. O Pai ouviu as novas em silêncio. Consultou depois a velha oliveira, deserta então de pardais. Alimentou pombos, gatos, cães, patos, voltou à oficina para desligar a luz, veio pelo pátio com um belo sorriso pátrio no rosto remoçado, beijou Hélia, a mulher, e deitou-se com um suspiro de menino, assim-seja.

Piedade & Ricardo, Luiza & David – r/c-esq.º, Miranda & Soeiro, Pinto & Paula – r/c-d.tº: ninguém no primeiro-esquerdo; Saul a sós no direito; Carlos Alberto na mansarda, a sós ele também.

Eu sei, eu sei: é de esferovite o meu nevão. Não deixa, por tal, de ser gracioso, como graciosa era a entrada a raparigas nos bailes-ateneus. É muito, muito a norte deste cá. Mas olhai, isto não é hermetismo, isto é como tudo conVosco, nada de novo debaixo da neve, tudo tranquilo na frente central. Menos tolerável seria se nos conhecêssemos, os segredos de uns contra outros. A privacidade dá-nos ao menos a ilusão do tesouro próprio, íntimo, gananciosamente intransmissível. Em cursiva escritura, não é menos assim. Daí que eu vença etapas na Revelação Aldrabona, ah pois é. Nem de existir mesmo precisais, Vós. A voz, sim. Essa sim. Ouvi-a Vós:

Ouvi a Voz. De novo a ouvi – mas não era já fármaco-depressiva como em anos piores, esses em que Álvaro, Manuel & Cesaltino naufragavam de pé uma & outra & ainda & sempre & mais uma vez. Não, já não. A minha mudez garantia-a. Era comigo como alguma coisa a tiracolo. Dela eu próprio me agasalhei. Agora que o conto, chove bem no país local. Terei de desandar de casa por algumas horas, espero que poucas. Levo comigo uma carta, talvez me faça cortar o cabelo, aleluias hossanarei ao balcão de Zé Carlos & Fátima, lá onde o viaduto se volve, de Camões-Calhabé, Norton e Matos. E, se não tinta, lápis então.

Contado como vou contar, pode parecer mais rápido do que foi sendo – mas não tão brusco quão o ter-sido. Vamos:

I

Aldina Jorge, filha de Dário dos Anjos, rumou a norte depois de concluir com certidão o estágio industrial. Esperava-a uma colocação naquela fábrica têxtil sita onde a serra sobe. Pôs-se a ganhar a vida sem soluços.
Antes do primeiro Natal, integrou o grupo de cavaquinhos da associação recreativa da vila. Nessa qualidade, viajou a certames municipais de gastronomia & artesanato. Ocupando a casa pequena a partir da qual só pinhais respiravam, dispôs do logradouro como quis, até horta-jardim exerceu.
Tinha vizinhos a setenta metros, o guarda-caça Ismael Rosas & sua mulher Angelina, costureira para fora. Alguns homens rondaram-na, que ela repeliu com gentileza, primeiro, e assertiva rispidez, depois.
Depois do segundo Natal, foi promovida a encarregada-geral, não interessa ser ou não boato que se fizera amásia do patrão fabril. Nesse mesmo Janeiro, comprou carro. Foi nele a buscar Dário dos Anjos, cuja solidão, escreveram por carta a ’Dina, o vinha tornando impermeável à vontade de viver.
Na casa dos pinhais, o pai remoçou como salsa à chuva. Fez de pronto amizade com o guarda-caça, cuja Angelina não descansou enquanto lhe não passajou meias & camisas que a longa viuvez tornara lamentáveis & lamentosas.
O cancro fulminou Ismael em menos de um semestre, pelo que no quarto Natal Cristo renasceu para levá-lo sem inquérito preliminar nem julgamento. Três anos volvidos, Angelina & Dário casaram-se pelo civil, as noites tornaram a ser azuis, ’Dina foi testemunha, a outra testemunha foi um rapaz chamado Raul Fausto, sobrinho da noiva.
Nesse ano, foi campeão o Sporting de Braga.

II

Venceslau Agostinho, patrono dos árcades de Setúbal, foi bonecreiro dos oito aos noventa & dois anos, idade com que lindamente se finou – sem uma nódoa moral & sem dois tostões por junto. Enquanto árcade-mor, que o foi por quase meio-século, legou uma bem acima de razoável obra publicada – própria como, supervista por si, alheia.
Autor, criou Lamentação de Hermes, Penélope com Aquele de Que Ulisses Não Soube e Estela do Taumaturgo, além de crestomatias menores.
Editor, mecenou Carpo de Hollanda (Visões Legendárias), Melro Pasmaceno (Sonetos Autocratas Após Rebelião do Cometa), Dorivaldo Rionomar (Lusitânia Invencível) e Rosalina Guevara (Coração Armilar dos Trópicos).
Fora de versos e de bonecos, pode ser dito pouco mais de sua passagem pelo terreno caos. Se a alguém amou, nada consta em litera’ ou oratura. Se foi odiado, o mesmo. À uma, compareceu ao funeral uma meia-dúzia dos seus detractores académicos, vulgo Sibaritas Arrábidos, para quem o culto do soneto é a demonstração mais cabal de que Darwin era o vero AntiCristo. À outra, a viúva de Venceslau foi entrevista a rir-se mais do que uma vez durante o velório, não a sorrir-se condoída mas a rir-se-rir-se – todavia isso foi antes de saber que a junta do defunto não chegava a dois tostões. Terceiro, a amante não fugiu, antes deu de si a línguas & dentuças – mas dela radiou a invencível simetria de suas passadas, assim como o escândalo de ser bonita, não linda, não bela, não formosa, não toda-chicha, bonita sim: como as mãos lavadas, ou o cão esperando o dono crepuscular, ou uma manhã sem amanhã.
Sepultado Agostinho, fomo-nos dali a beber vinho.

III

Guadalupe da Paz Moreira, recebedora de fodas em pensões de quartos-à-meia-hora, cuidou da mãe velhinha até a doentinha se deslastrar deste morredouro de putas sem resposta ao motivo de por-que-raio-se-nasce.
Pé-de-meia da falecida empochado, retirou-se Guadalupe da tauromaquia de rapidinhas, asilando-se sem sobressaltos em uma vida litoral cuja decência era à prova de espanhóis endinheirados. Não vegetou, porém. Fez dois cursos profissionalizantes do instituto-d’emprego, um de encadernação, outro de restauração de dourados. Se fodeu alguma coisita, fê-lo ou por desfastio ou para não lhe perder a mão, que isto dá muita volta & o amailo nunca se sabe.
Não praticou eremitério: travou conhecimento com raparigas da sua geração, divorciadas quase todas, a quem acompanhou em hílares bailes-das-velhas.
Faustino Miguel Amaral, acordeonista-residente de um de tais antros onde a geriatria ainda se dá a espasmos pasodoblantes, pareceu-lhe o que era: simpático, simples & caseiro como a brisa nos cortinados, parceiro sem ardis & remediado de provisão. Juntaram-se.
Foi boa ideia. Guadalupe reconhecia, dele, a dedicação aos valores ditos pilares: casa, trabalho, parceria. Serralheiro de dia de segunda a sábado, músico às quartas & domingos (matinées) e noites de sexta & sábado, Faustino dava tudo e pedia muito pouco. Era a verdadeira & boa anti-história. Fazendo contas, ela arranjou emprego numa lavandaria, pondo-se de lado o que ele ganhava com o acordeão + o salário dela, vivendo o dia-a-dia com o pré de serralheiro. Deram entrada para um T1 perto da Misericórdia. Sem filhos, foram afagando cão agora, gato depois, por aí.
Quando Armando, irmão dele, morreu de leucemia, ela quis ir, mesmo sem aliança, ao funeral. A ex-mulher estava lá – mas não houve sarrafusca nem nada que se parecesse, há sempre uma altura em que para-quê-o-quê, não é verdade?
Um dos cães de Guadalupe & Faustino era tratado em casa por Mondego – mas no Bairro da Misericórdia era por Xerife que se dava. Morreu de hiperdiabetes & mais cego do que o Ray Charles, o Stevie Wonder, a Helen Keller & o nosso poeta Castilho juntos – a mania do pessoal era dar-lhe do açúcar das bicas no Café Social, ali entre a Misericórdia e o Grémio.
Guadalupe, alertada por uma enfermeira do Asilo, ralhava com o maralhal: – Não dêem lambarices ao meu Mondego que ele tem muito que comer em casa. O maralhal retorquia-lhe: – Mondego? Mas q’ais Mondego? A gente damos ó Xerife, mai’ nada.
O Mondego nunca conheceu cadela mas o Xerife apôs-se a muitas, pelo que há descendência com fartura por aquela vila-mar: netinhos, por assim dizer, de Faustino & Guadalupe. A vida ilude repetir-se nesses cachorros desmemoriados que nem ao açúcar ligam, agora que, felizmente, é mais corrente a noção de que os canídeos não metabolizam a doçura.
Já só falta falar do pai do Mondego-Xerife. Era Sidónio. Crismaram-no assim por ele mendigar a ração de cada dia na sopa-dos-pobres da Misericórdia. O Sidónio uivava como um lobo perdido sempre que lhe tocavam perto uma gaita-de-beiços. Infra-sons, ou coisa que os valha, no espectro auditivo dele, não sabemos. Sabemos porém que tal cena foi durante muitos anos um dos mais seguros êxitos de rua naquele pacato bairro a que Faustino & Guadalupe, em boa-hora, nos levaram.

A Quarta-Feira dá de si o que lhe apetece. A jornada, que foi particularmente pluvial, andou daqui para acolá – mas eu, eu não. Eu consumi algumas pastilhas de resino (de extracto seco de tomilho) a ver se enganava a tosse, estes arrancos cavernosos que me entontecem até ao escarro forçado, oblíquo, agónico. Mais umas horitas vãs, menos uma folha calendária, o dínamo-motriz não perde centelha, de estrelas a descomunal arcada é hoje opaca, glaucomou a massa nublada, altas águas por cima, gelo por baixo nós, disputam algures na China o World Open de snooker, ontem ri-me com gosto, recuperei da net um colóquio sobre o grande Cortázar, o grande Carlos Fuentes era um dos da mesa mas foi Aurora Bernárdez quem fez sorrir o mundo, contou ela que o Julio (então) dela não falhava o vestir do seu robe-de-chambre verde, invariavelmente o fazia, o que Aurora disse transformá-lo, dadas a cor da vestimenta & a altura do marido, numa espécie de “mesa-de-bilhar na vertical”, muito me ri, decerto também se riria El Gran Cronopio.

É amanhã que saio, assim parece. É por obrigação, não por devoção lírica. Alguma coisa aproveitarei, dando-me o corpo para tanto. Uma parte da geografia, por imperativo da função devida, é certa: sair do autocarro ali ao Palácio da Justiça, depois Correios perto da antiga Auto-Industrial, Bota-Abaixo depois, depois logo se vê. O certo é haver sempre fauna digna de linha escrita, não há que perdê-la. Ou como. Os percursos são sempre generosos, o olhar é remunerado em géneros mais especiosos. Todavia, não os antecipo. Fazendo-se idioma, entesouro-os avaramente no papel à mão. E não me entedia tal (aparente) repetição? Não. Nada. Pelo contrário, a revisita segura-me identidade, essoutro nome de pertença.
Sem escrita embora, a senhora minha Mãe fazia o mesmo. Ela chamava-lhe “jogos”. Observava, retinha, cotejava, especulava: rostos, roupas, sapatos, gestos. Casas – como eram. O que entretanto aqui construíram, o que aluíram. Certo trecho do Mondego (nome de rio, nome de cão), alturas da extinta Alta (crime dos fascistas no poder, décadas de 40/XX e ss.), nomes de fantasmas que ela me repetia para eu ser livro (&livre) um dia. Agora, portanto.

Em relance à minha espiral, convoco certa noite do século passado em Madrid, voguei pelas ruas apinhadas, agradou-me la movida, como eles chamam ao corrupio a que se dão em ócio ambulatório, acho que apresentavam Lope de Veja em um teatro de bela fronte, disso não estou seguro já, dei essas voltas sem papel nem lápis, imperdoável mas pronto, lá vai; ou outra em Sevilha, seis anos antes da de Madrid, o calor à meia-noite era de uma pujança alucinante, como alucinante era o fêmeo gado pass(e)ante, nunca-jamais-em-tempo-algum da minha vida vi tanta senhora comestível em tão pouco tempo; outra noite, aquela que em Braga ajanelei, seis anos, não, cinco, cinco anos antes dessa de Braga, era Janeiro, padeci sucessivas noites com seus dias de uma infecção bucal muito imperiosa, fartei-me de encomendar a mudez forçada ao diabo que ma carregara – pela boca, precisamente; sete anos antes de tal abcesso, no decurso do Mundial da Argentina (sob ditadura ferocíssima então, deveriam mas era ter boicotado aquela merda), jantei ao ar-livre, a comida era arroz-de-vaca com ervilhas, tépida era a vida & tépida a respiração, pois que perto oravam rosas ao luar que enfarinhava de prata o céu dos senhores meus Pais. Volto a esta, a que amanhã chamarei ontem. Dínamo, espiral, roda, (v)idas & vi(n)das.

Recortes, por colar, ui, são matéria que me não falta, nunca me faltou, sem esforço prevejo que me não faltarão.
Baptismo de um menino filho de casal amigo, perfume da comida feita pelas senhoras avoengas, indiscutível majestade dinástica daquela gente não-abastada mas ricamente provida de obra, foi em aldeia dormente que o sol tornou volitiva de festa & volante de ouro humílimo, boa lembrança, excelente recorte.
Casamento de P. com P., amicíssimos, ele já morreu, foi por acaso que encontrei a viúva no exacto 33.º aniversário esponsal (um Agosto), lágrimas nos quatro olhos, andemos.
Funeral de Luís M.V.M. (outro Agosto, outro desgosto), música dele tocada para ele pelos alunos dele, sol fortíssimo, intolerável mas tolerado, foi naquela cidadezinha que as cheias de outros invernos tomavam sem promessa de recuo.
Divórcio de J./C., esta é das presentes evocações (ou recortes) a mais antiga, houve amargura que transcendeu os desavindos, comentou-se muito o des-enlace, à boca-mordida se disse mal dele, à boca dita se mordeu nela.

Posso (e aliás pretendo) estar nisto a vida toda. Quando digo nisto, digo isto:

Bordadura arbórea por caminho que desço se vou á zona perfumada pela tenra Carolina J.;
Sapatos encarnados de Rogério Q., inesperada cor que esmifrou falas a ponto de murmurações em pleno velório, delicioso escândalozinho de lugarejo;
Polícia reformado que mulher & filha rejeitaram por causa de muitos vinhos & bebidas-finas, para além de pormenores onerosos de retenção-na-fonte, vendo-se ora, o ex-polícia, em aparato de sem-abrigo;
Baldio próximo da Imprensa Nacional/Casa da Moeda, nele armou tenda um dos circos mais pobres do mundo de circa 1970 d.C., foi das primeiras & mais obstinadas tristuras que senti, ainda sinto, hei-de ressentir sempre, não hei como escoá-la;
Em remota aldeia de montanha, libertação de um gato que tinham enjaulado a pretexto de tinha, mal de pele que aquela gente de rarefeito juízo julgava marca demoníaca, libertação que me fez feliz, uma vez na vida. 

domingo, novembro 17, 2019

CADERNETA (título provisório de coisa-em-progresso) - 5






5. Vagas Ondas

Sábado, 26 de Outubro de 2019



Prostração viral. Xarope antitússico & pastilhas coiso. Canalização respiratória rumorosa, nariz pingão de aguadilhas mucosas, lenços-de-papel enxugando quanto podem. Ossos & fibras alquebrados como gravetos pisados.
Resisto mercê de versos de Garrett, o Garrett já mais maduro de Flores sem Fruto. Lentidão de essência. Sol no mundo local, é claro o sábado, não sairei hoje do tugúrio, não ’inda. Se o amanhã contar comigo para o cromo-de-caderneta, veremos. Segunda-feira sim, será dia de saída. Correios, barbeiro, antiquário, voltas pelo labirinto simples da Cidade.
Enquanto não, então por aqui. Estar adoentado é interessante. O corpo dedica-se mais ao egoísmo que lhe é próprio, esse solipsismo sem ética, sem justiça, sem treino, sem outro objectivo, para já, que o de chegar vivo a domingo. A mente evola-se. Por exemplo, penso um pouco no argentino Macedonio Fernández. A viuvez dele, a demanda do livro total. Ocorrem-me os também argentinos, e ambos Osvaldo de primeiro nome, Soriano & Bayer. E o obscuro Sábato de O Túnel. Borges, claro. Cortázar principesco, claro. Estes mortos redivivos na minha prostração semideitada em mantas com inclinação angular de almofadões, ao lado o frasco de xarope, a botelha de água morna, restos da ceia de ontem, cigarros quietos uma vez na vida.
Nada precisa de mim, lá fora. Sem sentimento nem ressentimento. Aproveito a quietude. Assimilo listas ao gosto & à guisa do grande Umberto Eco, outro glorioso defunto. Assisti a uma palestra dele na Faculdade, foi lá para os 80s/XX, Saramago também por essa altura e no mesmo sítio, assim como Mário Viegas à frente do Teatro Experimental do Porto. No princípio deste milénio, voltei a estar um pouco com Saramago, já Nobel ele então, foi em Pombal, apresentei-o na Feira do Livro, foi giro, já tudo lá vai.
Para não desconsiderar, por injusto cotejo a Agustina, penso na maravilhosa Yourcenar. A também Marguerite mas Duras não me seduz nem interessa. Li dela alguma coisa, não restou grande coisa – pareceu-me tipo Catherine Millet mas sem tantas piças.
Mulheres por mulheres, curti a Highsmith & a Rendell, entretenimento prazenteiro me propiciaram com suas/delas tramas criminófilas.
Devagar, mais Garrett. Um pouco de Kafka. Laranja espremida. Bolachas. Coze-se carne de vaca, um naco dela, com cebola & sal apenas. Mais logo, feijão-branco. Compota de morango. Mais logo.
O sábado amadurece bem. Em um parque, arvoredo bem tratado jubila ao sol moderado do mês. Pessoas formigam por ali, não muitas. Vai à médica-dermatologista um rapaz com vermelhidão suspeita em zonas da casca. Incisões certeiras expulsam lipomas de consistência galinácea. Quistos dermoides ou sebáceos. A médica é competente, alivia o maralhal sofredor & sofrido. Cicatrizes mínimas, bom trabalho de costura.
À praia da mente vêm chegando & recolhendo-se mais vagas ondas: a figura trágica de Vítor Baptista predomina. Datas dele: n. 18-X-1948; m. 1-I-1999. A 12 de Fevereiro de 1978, aquela cena dele à procura do brinco depois de marcar o único golo desse Benfica-Sporting. Tenho tudo anotado. A final da Taça de Portugal mais extensa da História: 9 de Julho de 1967, ele muito novo no Vitória de Setúbal, vitória dos sadinos por 3-2 frente à excelente Académica dessa década. A degradação de V.B. (“o Maior”): álcool, gajas, droga, furtos, prisão, morte ao raiar de ’99. Em paz, finalmente, já vinte anos se queimaram ao sol. Foi o nosso George Best, dúvida nenhuma.
Costumeiras convulsões na América do Sul. Afeganistão. Hong Kong. Síria. O Diabo-a-4-pintado-a-7. Parece haver vietnamitas no tal camião-frigorífico-cadafalso no Reino Unido. Chile, problemas & pedradas. Iraque, sessenta mortos em dois dias. Barcelona, inquietação. Marselha, lixeira fanático-religiosa a-céu-aberto.
Aqui, não. Tusso, espirro, escarro, fungo, lenços-de-papel sanita a baixo: o corpo diverte-se. Mas a mente também – paralelismos ocorrem-me: Victoria Ocampo / Natália Correia; Woody Allen / Luiz Pacheco; e sim, definitiva geminação George Best / Vítor Baptista. Inócuo divertimento, que entretém o momento.
Também: clássica é toda a obra pretérita que logra manter-se actual. Neste sentido, recebo sempre Sófocles como novidade. Idem-aspas quanto a Faulkner, Goya, Paredes, Beckett.
Mais dois nomes que brilham nesta caderneta: o coronel John Bevan & o agente-duplo Juan Pujol. Clássicos eles também, por outras vias.
O sábado, de si mesmo viajante, abocou a noite. Já esta exerce seu magistério terraplenador. Desta casa quieta como a esta quieta casa partem & chegam motivos carregados de essência como de ouro líquido as jóias a que chamamos laranjas. Cais da Rocha do Conde d’Óbidos, Pas de Calais, Dover, Angra do Heroísmo. Abwehr, MI5, Securitate, Stasi.  

quinta-feira, novembro 14, 2019

CADERNETA (título provisório de coisa-em-progresso) - 4






4. Lapigrama d’Águas-Fortes

Sexta-feira, 25 de Outubro de 2019



Em profusão tudo menos estéril, águas-fortes impõem-se à atenção. Foi hoje o caso de arreigadas existências – resgatadas ao esquecimento umas, outras à ignorância. Uma mulher chamada Laura, viúva de um Astor. Uma outra, da família Dunlopes, demasiado cedo traída pela doença. Dois homens – Platon K. contando ideias a um Pierre B. Um fulano, salvo erro Hernâni, bolçando vulgaridades, não sei a propósito de quê ou quem. Mais coisas giras: burlas qualificadas, chapas torcidas em colisões rodoviárias de cacarácacá; renovações de contratos; abusos de confiança; a China Formigueira a fazer de vesp’asiática por esse mundo quase todo; corpos moços & dinamarqueses aproveitando o sol; atropelamento mortal numa zona de barracas “sociais”; um decote fêmeo palpitando frescura adiposa; livros de massa-folhada paginados a dedadas de manteiga & ambrosia-de-ovo; uma tenda de rua atirando granadas que são afinal ananases; apóstatas assoprando avenas do Averno; conluios semitácitos na dieta parlamentar em vigor; Ulisses de volta à navegações ensimesmadas; indeterminação já perpétua daquele capitão John Franklin de 1845; súbito raio de lembrança relativa àquele concerto maravilhoso do quarteto Opus Ensemble em meados de 80/XX no Teatro Paulo Quintela; a Religião (qualquer religião) como cancro incurável deste mundo sem remédio; a namorada assim para o namorado – Já estou a ficar com dormência nos lábios – e o namorado assim para a namorada – Quais dos quatro?; miséria obrigatória dos camponeses patagónios nos anos 20/XX (e ss.); um homem ainda moço chamado Severiano cuja exemplar solidão não pode ser repescada por causa de Idiliana – mãe dele – lhe ter queimado os diários; internamento psiquiátrico compulsivo de Ossianne, herdeira n.º 1 da descomunal fortuna Ariel-Tuning; aquele caso até hoje sem clareza de Manuel Maria Botelho Alcarraxe, caído de um céu por que não passavam naves aéreas; Lucas, o polícia, a quem Mena traiu por desfastio; leiloada em Londres a totalidade (conhecida) da obra pictórica de Ortiz Doom (quatro telas, duas serigrafias, lapigramas diversos & todos representantes do rosto de Mónica Prado, sua mãe); Florencio (sem circunflexo) residindo na parisiense Rue d’Alésia; acesso ilegítimo, por parte da gestora bancária, a contas gordas de nonagenário em coma vegetativo; mutualismo gregário da canalhada sacerdotal-pedómana; outra vez mortos nas ruas chilenas; ainda & sempre pindéricas brasuquices; um avo do clã Moreira contra outro gomo do clã Antunes; na Bolívia etc.; etc. na Venezuela; na Baixa da Banheira, uma velhota pergunta se lhe viram a netinha, que morreu de herôa há mais de dez anos; microchips a €2,5 (obrigatórios) no registo de animais-de-estimação.
São não-acontecimentos a que esta minha casa é propícia. Reportam a um mundo quase interessante & deveras impraticável. Só tenho de descerrar-lhes a metafórica janela da atenção. Exemplo: sepulturas sem nome dos monges da Cartuxa. Esquecido até do Prontuário Litúrgico.

Em tempos de maiores viagens, vi cantarias de mui polida brancura a que o frio fazia aderir o pó em vidro.
Vi em Penamacor uma sala-de-jantar muito bonita forrada a luz & fruta;
Vi em Esposende uma cadela gentia parindo quatro crias no imo de um arbusto;
Em Santiago do Cacém (terra do grande Manuel da Fonseca), vi uma mulher olhando em frente sem hesitação;
Em Odivelas, um rapazola vi traficando papeletas guardadoras de poeira injectável.
Viajo estes hojes de diverso modo. Apraz-me a lã destas meias, como me satisfaz haver lá fora o lago que me apetecer. Neva para os lados do hipermercado, cuja mastodôntica configuração troco sem esforço por duriense encosta graduada & vitivinícola. Na noite individual da cama, vogo a matina fria por sendas estaladiças de geada. No adro da cabana pastoral, já o honesto zagal sopra o breve lume sobre que se esbraseia o naco de toucinho & palpita a cafeteira coroada de borra fresca.
Alinhei no tampo da cómoda os ícones singelos:
de porcelana, um touro dourado de patitas & cornitos brancos;
Um cristo de serapilheira tingida de roxo & amarelo;
O dedal da Velhota;
Desasada, a chávena achada no areal da Figueira há trinta & dois anos; uma migalha rutilante que sigo sem saber se é de quartzo, se é o que resta de um olhar de ave;
Um número da Gaiola Aberta do grande Vilhena.

O tesouro enumerado no rol anterior é tão verdadeiro quão a lembrança do nascimento. Vale-me ele – e não poucamente ele me vale & vela. A ele hei-de juntar (de propósito, ou por acaso, ou por distracção) garantidas premonições, algumas das quais são:
Nunca ir nem a Buenos Aires nem a Viena de Áustria;
Rejeitar sempre a fala espúria, o vocábulo maninho, a ricaça-pobrete & o parvo-alegrete.

Eu desando disto há muitos anos. A velhice veio, como Outubro, a horas – mas, ao avesso do mês, não cederá ela lugar ao que for/fosse/já-lá-vai.
Aspérrimo sentimento algum por aqui? Não deveras. O tecto é baixo mas dá para se ser cosmonauta à mesma. Eriçada de estrelas a gambiarra-silveira cósmica, alicerça-a esta casa mesma. É quase como ir do Maputo à Beira à beira duma puta, isto de merecer literatura o quase-nada de quase-tudo.
Já na cozinha assobi’silva, peremptória, a chaleira. Há geleia-de-marmelo, pasta-de-sardinha, doce-de-tomate, biscoitos-de-arroz, chocolate & pão-branco. Escolhi a toalha de quadrados cor-de-musgo em campo púrpura. Não sei que horas (ainda) são. Não conto com elas. A sexta-feira veio, é quase ida. Não fui à caixa ver se chegou ou não certa carta.
Que sábado, enfim, seremos?    

sexta-feira, novembro 08, 2019

CADERNETA (título provisório de coisa-em-progresso) - 3




3. Um Gajo Organiza-se

Quinta-feira, 24 de Outubro de 2019



Uma chamada Rosa com banca de flores, velas votivas, pagelas de miraculadores, de configuração facial por assim dizer macedónia, linhas de um vento de violentas violetas, por assim dizer também. Essa Rosa? Viúva de um Ortega inencontrável até nos mais ébrios arquivos desta quinta-feira. Rosa do Nascimento, cuja pobreza hereditária lhe cravou antiguidade desde a hora mesma de nascida.

Em esta casa sita em este outeiro é que congemino tal Rosa, viúva do desencontrado Ortega & órfã natural de um Sebastião estivador & de uma Cecília operária dali da farinha-de-peixe. Nisto, campainham-me o pórtico, atendo, são três meninas dos escuteiros do bairro, compro uma rifa de quermesse a cada uma, pode ser que me saia um livro.

A Quinta-Feira-24 deu-me café, pão-com-manteiga, bacalhau-com-batatas – e um ladrilho de marmelada, como usava, em pobreza senescente, o antigo Theophilo Braga. Voguei tinta-em-papéis: formigas patinhando leite. Houve mansidão decorrente de esperar nada. Escutei, por assim dizer, vozes de um que se chamou Fernandes; e também as de: Lajos, Mortimore, Clough, Alfonso, Azaña (que de mais pouco rimou com España), Federico, Salinas & Osvaldos (Bayer, primeiro; Soriano, depois).

Meias de lã grossas, cinzentas, palhetadas de castanho-ferrugem; calças de feltro azul; camisola amarela, daquela amarelidão de canário cirrótico – assim me estatuei pela casa desertada. Ouvi Bach transposto por Liszt, se não erro. Gás fugaz, cada hora. Todavia, assisti à pré-aurora. Vinha das costas do mundo, lá dos bastidores orientais. Pressa nenhuma me atarantava. Curti versos muito juvenis de Garrett, pensei-os (a ele & aos versos dele) no antigo Teatro Avenida, depois deixei-me dessas considerações e adormeci sobre almofadões amolgados como esposas inertes.

Há batatas de duas qualidades, na esconsa despensa tão minh’amiga. E ainda: pacote & ½ de farinha-de-cacau; quatro cebolas (uma média, três grandes); seis cabeças-d’alho; um garrafão a ¾ de azeite; oito postas de bacalhau de calibre muito jeitoso; um frasco outrora de cevada solúvel agora pleno de cotovelos-de-macarrão; um boião outrora de caramelos-de-fruta agora meio de arroz-agulha; um saco para três quilos agora quilo & ½ de trinca-de-arroz para pombas & pardais; duas sopas pó-instantâneas: uma de rabo-de-boi, outra de creme-de-marisco; latas de atum (oito), cavalas (quatro), sardinhas (duas); uma barra de sabão azul-branco por estrear; um garrafão plástico de lixívia; jornais velhíssimos para forrar gavetas & sonhos molhados, uma galinha de faiança com o costado oco para guardar ovos, deixada cá pelos vizinhos prévios.

Quanto à despensa referida no parágrafo imediatamente anterior, digo ainda que a prateleira superior me vai servir à maravilha para empilhamento de livralhada há demasiado tempo inumada em caixões de papelão. Vou lá enfileirar: o A.J. Saraiva da inquisição/cristãos-novos; a antologia seiscentista do Amadeu Torres (dito Castro Gil); o joão mínimo do Garrett; o Fielding do tom jones; o Milton perdido-paradisíaco; o enoch do Tennyson; o calhamaço-bio do Keats (não confundir com o Yeats); todo o Simenon que-não-maigret; o carriego & a infâmia do Borges; a bíblia dos Alcoólicos Anónimos; o são-francisco do juvenil Steinbeck; as cartas do Musil; toda a dourada geração do 27 espanhol (toda, a que tenho – pois muita me falta); as sobrevalorizadas lengas-tretas do Hemingway; dois MachadosdAssis; os Fialhos fotocopiados; a primeira edição do pilatos de Nemésio; os Namoras ao lado dos Vergílios só para fazer rir o Pacheco; para optimizar espaço, ponho lá também as melhores traduções da Europa-América, que são nenhumas; por ser sítio de mercearias, vou lá deixar esquecida do finado Eduardo Prado Coelho, aquela do “mais um copo de rum” & coisital; e a caixa outrora para sapatos cheia de cassettes de jazz-na-madrugada q’antigamente a Antena 2 servia a granel acho que aos sábados.

Pelo que podeis ver, portanto, um gajo organiza-se. No entrementes, escrevo as quatro letras da palavra hoje – e sei que não é vocábulo que dure muito. Enquanto porém dura, estou ainda sem saber se aqueles 39 mortos do camião em Inglaterra eram búlgaros ou, afinal, chineses. Mete-se a dar o Sporting-Rosenborg para a Liga Europa, partida que vou seguindo em periférica sorrelfa.

Derredor, há sossego neste trecho de bairro onde (me de)moro. O outeiro é, felizmente, ventoso – sempre gostei muito dos caprichos eólicos da Madre-Natura. Gosto do uivo vivo dele nos elementos mais vibráteis: telhas, arames-da-roupa, antenas, lembranças. Para pena minha, não choveu. Ou: se choveu, não (cho)vi – ou porque dormia, ou porque reiterava, nos papéis sobre a mesa maior da casa. A paciência que a Morte é obrigada pelo império da Beleza.

A Beleza?  
Bach.
A Damrau (Diana).
A Mitchell (Joni).
A Flack (Roberta).
N. Yepes dando-se-nos Recuerdos de la Alhambra.
Satie, chovendo ou não.
Certos plainos eriçados de minério da Beira Baixa.
A penichense Nau dos Corvos tendo aos pés o Tempo soluto, a irremediável beleza dessa dissolução.
Certo céu nocturno acontecido de 11 para 12 de Maio de 1994, à face do Jardim-Parque, ouvindo-se gaiteiros transviados na álea que se dá ao Mondego.

A Beleza?  
Bach.
A Amália.
Magritte 8º casal René/Georgette com seu cão depois da guerra, segundo São Paulo Simão.
Antónios (Nobre; Gedeão; Osório; dos Santos d’Alfama; Pina, Manuel; Maria Lisboa; Pinho Vargas; Vivaldi).
Hopper dando-se-nos falcões noctívagos de bares terminais.
Camus, fazendo sol ou não.
Certos canaviais esquecidos de gente que penteiam os ventos transviados como gaiteiros em Maio, pela noite.
Visto de Cacilhas, o postal de Lisboa sem sequer um antropóide à vista, o sol sim, dando-no-lo para sempre até ontem.
Certo céu matino acontecido a 1 de Janeiro de 1974, no sopé suave da macia encosta a nordeste da minha PaterMaterCasa.

Acabou-se a vela amarela que me perfumava de amarela discrição a cabeceira. Namoro há tempos uma cor-de-veste-do-Senhor-dos-Passos à venda na Rua da Sofia, tenho de aforrar moedas para ela. A sul da cama, no chão de tacos polidos, dorme, alquebrada pela espinha, a manta única sob que uso dormir. Mínimos acontecimentos embora, são lances que me existem. Já a noite, de lá de fora, atirou aqui adentro seus panos. E eu sem vela para ela.

(Projecto, ainda assim, algum futuro: faço amanhã a barba. E lavo-me as partes, de caminho.)

Tirando este, deixo por ora em paz os papéis da mesa maior. Ou seja: recolho-me ao & no próprio recolhimento. É sarau em monolugar. Eu sei. Faz mal nenhum. Espero para amanhã uma carta, far-me-ia bem que chegasse. Chegando ela, partiria eu – rumo por algumas poucas horas a outros azimutes da Cidade. Se amanhã não, só segunda ou terça, se lá chegar(mos).

(São asiáticos, os 39 mortos no bojo do camião-frigorífico apresado no Reino Unido.)

Mais tesouros simples de hoje:

um rapaz inglês relatando os piores anos sofridos à mercê da psicose maníaco-depressiva que desde menino o limita;
uns cabrõezitos islâmico-coisos vandalizando Marselha, que já foi francesa;
visão de manuscritos do argentino Macedonio Fernández, a quem Borges chamava “Mestre”;
destroços verticais de Berlim na Primavera-Verão de 1945;
rumores da canalização-cagadeira do vizinho de cima (que desconheço);
e houve ainda outra instância talvez merecedora de parágrafo próprio:

Foi pela implantação definitiva da nova noite. A parede-sul do quarto fez-se mar vertical, o qual eu sobrevoava do céu-norte da cama. Norte ou zénite, sul ou nadir. Embarcações transparentes sulcavam aquele pélago em derrotas imponderáveis. Gaivotas zuniam como parturientes. Apostos a invisíveis altos de rocha, faróis pestanejavam em pura orfandade. Ventos cruzados vieram maremotar-me o roupeiro, espalhando-me a pouca roupa pela água perpendicular da parede, destroçando-me a cadeira & o psyché de espelho-triplo, afogando na garganta do retrato o susto da senhora minha Mãe. Só quando despertei me decidi a dar paz ao televisor, que a frio ardia para ninguém, órfã lareira, praia esquisita.

Readormeci – mas isto foi escrevendo-se na mesma. Outubro vela-me os sonhos, os mais recentes dentre os que me fazem assistir em perplexidade & desconcerto às contas que a mente pseudoadormecida faz de cabeça. Ainda de domingo para segunda-feira (fazendo conta acordada, de 20 para 21): em filme-mudo & não a cores, além-corpo, achei-me habitando uma fracção de prédio antigo, desses com porteira à maneira francesa sitos em bairros ainda não racimulticultuconfessionais, por assim dizer. Parece que a minha condição monetária não era má de todo. Jantava fora, tinha mais livros do que quando acordado, quatro fatos completos & uma dúzia de gravatas (duas de seda), sapatos clássicos à utente de academia de música. Na sala-de-jantar, encimando a lareira, uma belíssima reprodução (a preto-e-branco embora) de um quadro de Hopper, aquele da mulher sentada na cama olhando a claridade da incerteza. Nisto, o marido da porteira, homem pequenino de maravilhosas mãos de tudo benfeitoras, chamou-me sem para tal abrir a boca. Acorri – mas levitando, vêde bem à convocatória, só que não foi na portaria que dei por mim, dei por sim mas foi na periferia da zona estuária, ali onde tanto era a Figueira da Foz ao pé da estação ferroviária como poderia ser Danzig ou Gibraltar ou Espinho ou Cornualha: era à face de movediças águas, enfim & pronto. Então, outras (con)fusões floriram: a minha Tia Maria da Visitação oferecia peixes vivos capazes de respirar o ar das pessoas sem problema algum, a quem oferecia ela o pescado é que não sei; estrangeiros do Norte alouravam o ar do momento, só que nos sonhos os momentos contemporizam anos, décadas súbitas, eternidades paradas como lagos, ainda assim não tive tempo de apurar o que fosse.
Animais benévolos subiram-me o corpo. Era já terça-feira, não conservei a propriedade da casa com porteira & faz-tudo, só a mulher ocupa agora aquela cama estuária.