quinta-feira, março 08, 2018

Diário da primeira semana marciana de 2018 - Rosário Breve n.º 545 in O RIBATEJO de 8 de Março de 2018 - www.oribatejo.pt






Diário da primeira semana marciana de 2018



Quinta-Feira, 1Felizmente há chover, embora alguma pontual violência dos elementos humanize de mais a possibilidade de tudo se perder num repente. Na estação-de-serviço defronte, os estandartes da promoção-desconto-litro-combustível fremem como virgenzinhas que tanto sabem ao que vão como ao que(m) lhes há-de vir. Primeiro dia de Março: zune o poder eólico, o céu é chumbo negro, corre de estanho o estranho rio, vale mais ficar em casa a quem tem uma. (Nem toda a gente tem uma.) O Inverno vigora com justiça plena. De sudoeste, uma força aérea invencível carrega gelo consigo. Os penhascos rangem como viúvas ainda disponíveis. O mar traga os afoitos inconscientes. Trump quer os professores com pistolas. A Síria está bem, obrigado. Calor no Árctico, neve em Bragança-Vila Real-Chaves-Viseu. Certo. O meu Amigo Manuel M.M. telefona-me para almoçarmos juntos um dia destes. Sinto-me gratificado pela demanda: somos amigos há quase 39 anos. Recolho-me: o briol já aperta mandíbulas em torno dos ossos cinquentenários (upa, upa).

Sexta-Feira, 2É dia de Porto-Sporting. De nada mais falam as televisões da parvónia. Não sei por que chamam “mau” ao tempo: chove ouro, para mim; para mim, é pão que chove. O grande chumbo de ontem ferra ainda o céu de hoje. A cameleira da praceta, que o sol februário fez florir precocemente, tenta não se deixar despir de todo pelo assédio ventoso: mas há já pelo chão as inumeráveis páginas-violetas de suas folhas-lilases. É verdade: a luz parece toda feita de sombra, isso é verdade – mas não é com(o) tristura que assimilo a invernácea condição do dia. Não, isso não. A terra babuja de água boa, as raízes bebem fartamente, o verdor ainda não ardido deflagra no ar qual postal de seiva instantânea. Nisto, trovoada: um fósforo imenso & mudo, primeiro; segundos depois, o fragor de móveis arrastados na casa de Deus. Fracamente a cameleira diz não ao ar movediço, de súbito reforçado por esses populosos descampados. O tempo fala. O Tempo, também. Dizem-nos coisas – nem todas más, aliás. Espero tão-só que, logo, Porto & Sporting empatem.

Sábado, 3Estreia absoluta na minha vida: cortei o cabelo a alguém. Esse alguém, nascido a 11 de Janeiro de 1959, é o meu Amigo Jorge C. Vive sozinho num apartamento quase exíguo e é dono de um pente-lâmina eléctrico. Ele mesmo escolheu no dispositivo a velocidade “pente-3” (acertos & retoques finais a “pente-zero”), sentando-se depois, de toalha-babete sob o queixo como um bambino veterano, de costas para a janela do terraço. Vacilei um pouco, a princípio: responsabilidade assustadora. Devagar, porém, lá lhe fui desbastando & devastando o crânio. No fim, a coisa não ficou mal: pareceu-nos a ambos que era atavio ex-capilar digno q.b. para voltar com dignidade à recruta militar. Como disse, eu nunca tal houvera feito. Foi poupança de seis, sete, talvez dez euros até, no barbeiro profissional. Enquanto o tonsurava, pensei em fixar o episódio por escrito – pode ser aqui mesmo.

Domingo, 4Nunca simpatizei com domingos: o vazio existencial é menos disfarçável, talvez/decerto por isso mesmo. (“Tinha dias e noites idênticos, mas o que mais lhe pesava eram os domingos.” – J.L. Borges, in O Livro de Areia). Recorro à “omnipotência” da escrita para o dar por terminado à nascença.

Segunda-Feira, 5Por instância do meio-dia, um breve dilúvio benigno sitia a Cidade. O ar, varejado a vapor frio, volve-se glauco. A grelha pluvial, harpa sem mesura, aponta-nos a insignificância física nossa. Eu, sob escarlate toldo de lona, miro & aguardo. Lixo urbano é arrastado pela torrente das sarjetas. Agarradas sempre aos inúteis chapéus-de-chuva, já pessoas levitam a alguns metros de altura. Depois, Deus (ou o Diabo por Ele) põe-se na brincadeira: a primeira nesga de sol dá primeiro no campanário da Igreja de São José, fazendo-a bronzear a prima meia-hora da tarde. Envernizados pela plúvia rija, os cedros & as laranjeiras daquel’além tão antiga mansão senhorial reverberam como olhos sadios. Entretanto, das catorze pessoas içadas aos ares pela intempérie de há pouco, só doze voltam à terra: duas aproveitaram a boleia – ou para morrer ou para migrar, o que dá no mesmo. Digo eu daqui, nas lonas, escarlate & toldado.

Terça-Feira, 6Hoje é dia natalício (1927) do gigante Gabriel García Márquez (m. 17 de Abril de 2014). A esse descomunal Colombiano devo muitas horas muito felizes, mesmo (ou sobretudo) nos anos mais tristonhos. Por contraponto, anos bons foram aqueles que me viram contemporâneo & companheiro deste moço aqui mesmo, o Paulo C., que de repente, e ao cabo de mais de 30 anos, encontro no autocarro matinal. O Paulo está fisicamente óptimo. Noto-lhe todavia certo ar fatigado. Ocupa-o & preocupa-o a vida, decerto – como a (quase) todos nós. Foi porém uma breve alegria revê-lo. Apeei-me duas paragens (ou dois parágrafos) depois. Oxalá nos revejamos algures, nem que apenas daqui a mais três décadas.

Quarta-Feira, 7Não sei: nem como vai ser para mim esse amanhã, nem como foi para o meu Leitor esse ontem – o Jornal sai às quintas, eu envio a crónica às terças. Só sei que São José badala, precisamente agora, nova meia-hora: para mim, passada; para o meu Leitor, futura. Outra brincadeira do Diabo, enfim. Ou do Compadre de São José por Ele.  

quinta-feira, março 01, 2018

MARIA & MAIS NINGUÉM - Rosário Breve n.º 544 in O RIBATEJO de 1 de Março de 2018 - www.oribatejo.pt








Maria & mais ninguém



Entre princípios & fins do século passado, nasceu, viveu & morreu a senhora minha Tia-Avó Maria da Conceição dos Santos.
Morreu de fome – esclareço. Atenção: de fome, sim – todavia não por miséria, pois que um cancro gástrico a extinguiu, condenando-a à impossibilidade de absorção nutritiva & queimando-a, por dentro, de carvões frios cuja brasa gelada a filtrou até à última transparência da cera. Eu vi isso acontecer, foi mesmo assim, acreditai-me Vós por uma vez na vida.
Herdei dela a cama-de-ferro em que dormi a adolescência, essa terra-de-mais-ninguém daquela idade em que todos somos a única pessoa viva & importante do mundo.
A minha Tia-Avó Maria era uma proscrita: nascida virgem & solteira, solteira morreu mas sem já o outro atributo hímen-original. Consta que namorou fisicamente algum inconsequente aproveitador de seus/dela mucosos vinténs. A família (minha: mas anterior ao meu nascimento) soube dessa cópula infeliz & estéril – e nunca lhe perdoou o devaneio, ostracizando-a inexoravelmente sem sombra de perdão: o fascismo vestia chita.
Morreu sozinha como um cão feminino numa casita miniatural de sem-marido, ou tugúrio de boneca sem príncipe, que eu visitava aos sábados dos meus 17 anos sem atender a cadastro sexual, sem inquisição católica & sem resquício sequer de censura moralóide. Talvez me atraísse nela o meu próprio retrato futuro: este de cão masculino auto-exilado em casota mental.
O irmão dela, pai da senhora minha Mãe, nunca a visitou sequer uma vez, como eu tantas vezes fiz: que a terra lhe seja, a ele tal bruto, pesada como chumbo.
E no entanto a minha pobre Tia Maria permanece como a mais alta glória cinematográfica do meu clã: é dela a voz agudinha que se ouve, em pregão cantado, no filme portuguesíssimo chamado Capas Negras [de 1947, com realização de Armando de Miranda e protagonizado pelas maravilhosas pessoas & vozes de Alberto Ribeiro & Amália Rodrigues, naquela cena da Estação Velha (ferroviariamente falando, Coimbra-B actual)]: era ela, na vida dita real, a vendedeira de arrufadas de quem, na dita película, se escuta o chilreio de ave fininha.
Recordo ante Vós a casa-de-boneca que era a dela: ao fundo do Lagar Velho, na propriedade dos Rodrigues, e à esquerda de quem desce a caminho do Cardal cemiterial onde há muito dormem (o sono de que se não acorda) os meus Pais & o meu Irmão, dava para uma eira gretada de ervas sem jardineiro – mas além da qual vicejava uma horta farta miraculada pelas humílimas verduras da terra nutriente & portuguesa: couves, nabos, o episcopal & rubicundo tomate, a terna & tenra alface, a leira de batata gorda que os porcos adoram e os humanos não desestimam.
Entrava-se naquele casinhoto celibatário pela cozinha imediata, acabando-se de imediato a visita no quarto-de-dormir mais sozinho do mundo, esse onde branquejava, qual cisne negro da solidão mais irremediável, a tal cama-de-ferro lacrada a branco-cor-de-asa-de-anjo que depois herdei mas hoje pertence ao meu Irmão Fernando, gémeo do extinto Jorge nosso.
Na cozinha de livro infanto-juvenil para duendes, gnomos invisíveis haviam pregado ripas de pinho, das quais se penduricavam utensílios cozinheiros de menina-velha: o pucarito esmaltado (como esmaltado no quarto o bacio), o tachito breve para aqueles arrozes-brancos que provisionam o jaquim frito, a panela mínima em que ela, da horta, fervia a couve em ração de anã, a faiança cromada de rosas cerâmicas abrilhantada pelo filete-de-ouro do pintor-porcelanista anónimo que o senhor meu Pai toda a vida foi – e a colher-de-pau do tempo da Senhora Dona Maria II. A todo este enxoval presidia a litografia glauca que perpetuava a efígie do senhor Papa Paulo VI.
Paulo VI veio à Cova da Iria em 1967. Foi pelo meio-século da falcatrua fatimista. Na cozinha da minha Tia, porém, e sem que sumopontificemente o pudesse ele augurar, o Papa presidia também ao vero pretexto que a casa de Maria da Conceição dos Santos me levava cada sábado: namorar T., sobrinha do senhorio. Essa adorável T. era uma rosa vertical erguida a partir de dois caules-pernas, factor anatómico que a volvia flora ambulatória. De olhos enormes como lagoas expostas a um luar de prata para que ainda não fora inventado adequado firmamento noctívago, manteve-se pura & ilusória à maneira daqueles natalícios globos de cristal que basta agitar para que a neve & o Natal suspendam perpetuamente os sais e os flocos da mais pueril felicidade eterna. (É certo porém que, no viço nubente, T. acabou casando-se numa cidade estranha com um rapaz fininho, católico como ela, cujas presteza & decência até hoje eu seria incapaz de emular – de modo que.)
Tinha-lhe passado a fome terminal: de modo que inumámos entretanto a senhora minha Tia-Avó em tão campa tão rasa (ou tão rosa) quão os já nonagenários três nomes dela para ninguém. Levei-lhe papoilas ao mármore.
Tenho pensado entretanto na casita que ela deixou devoluta. Talvez se T. voltar desquitada, não sei, sobrinha que continua do senhorio, ali ao Lagar Velho, não sei, sei lá, lá onde a eira, a horta, os fantasmas das bonecas e o pucarito de esmalte, tudo a que eu aporia logo a cama-de-ferro que um dia destes o meu Irmão Fernando vai ter de me devolver, talvez, não sei bem, Maria.


quinta-feira, fevereiro 22, 2018

Especulação do faminto - Rosário Breve n.º 543 in O RIBATEJO de 22 de Fevereiro de 2018 - www.oribatejo.pt





Especulação do faminto



A informação em excesso torna-se, por contraponto de saturação, desinformação. Tal verborreia sem stop é uma massa tóxica que envenena o espírito crítico do maralhal. O mais certo é que seja mesmo para isso: para acarneirar com força o pessoal. O recente fim-de-semana de 17 & 18 do corrente confirmou-no-lo sem apelo & com agravo. Na noite que mediou sábado & domingo, fingi sonhar que os papéis protagonistas tinham sido enganosamente atribuídos. Isto é: que, na verdade, Bruno de Carvalho vencia por quase unanimidade o congresso do Partido Social Democrata e que Rui Rio entregava de mão-bandejada a Marques Mendes a secção de basquetebol do Sporting Clube de Portugal. No entanto, a segunda-feira ulterior contrariou-me a ficção, como é aliás timbre de todas as segundas-feiras da vida.
Sobrevivi a essa afinal ténue decepção: na terça-feira imediata, já a autoridade do esquecimento exercia sobre mim e sobre o nosso País a veleidade da indiferença. Na véspera, eu fôra a uma repartição pública. Enquanto esperava vez, lapijei no bloco-notas: “Antigamente, a ignorância era envergonhada. Hoje, é atrevida, é insolente – e, portanto, mais insuportavelmente imperdoável. Não me refiro ao analfabetismo livresco. Refiro-me, sim, à arrogância voluntária do tipo não-sei-nem-quero-saber-e-tenho-raiva-a-quem-sabe. Sou invariavelmente intolerante ante tal bruteza feroz – sobretudo quando tal espécie de gente se alcandora a postos de mando & comando públicos (os privados não me interessam, neste caso) para os quais não revela pertinente mérito, nem reconhecida aptidão, nem particular competência.”
Uma hora depois, satisfeita a necessidade burocrática que me levara a tal repartição do Estado, mudei de sede. Anotei então: “É em pacata mudez que me dou a estas considerações no curso da bela manhã de Inverno. Ante a minha posição sedentária, nesta praceta livre como o ar mesmo que a vivifica, o choupo sobe principescamente a frescura da hora, encavalitados nele quatro pardais o mais vivazes, o mais furiosamente felizes – conjunto (ou conjunção) flora-animal que me é de refrigerante consolação estética.”
Até aqui, enfim, tudo bem – o problema residia na minha hesitação. Sim, eu hesitava: por que linha seguir cronicamente? Pardais? Repartição? Choupo? Jornalixo? Bruno? Rio? Eu-próprio-outra-vez? Valeu-me dispor de mais notas a lápis. Uma delas trocadilhava sobre o “papel papal” de Francisco, pontífice-sumo que muito me admira não ter sido ainda envenenado pela padralhada pedófilo-banqueira-ultramontana-PioXII(naz)ista. Outra nota soluçava, em verso adiado sine die, a “identidade permanente do coração – que se chama volubilidade.” Outra, ainda, marcava passo à passagem de uma gaja mesmo muito boa – assim: “Ao sol tíbio, vejo passando uma mulher segura de si, a cabeleira dela, tornada fulva pela refracção da luz, chispando dardos de oiro, o peito dela duplicando o milagre do leite adiado.”
Todavia, restava por fazer a crónica. Eu sabia que me era tão-só necessário evitar essa víscera chamada coração, ir pelo racional, seguir pelo lógico, fugir pelo concreto – mas o problema era a fusão toda nuclear PSD/SCP, que continuava, afinal, a zunir-me nos pavilhões auditivos. Outro problema: a formosa manhã invernal dera-se entretanto a pluvial, pois que, quase de repente, e fundida com o ar, a morrinha viera tornar respirável a água de São Pedro. Nisto, era já hora-de-almoço – e eu esquecera-me de trabalhar para merecer a sandes. Comparei a escandalosa evidência famélica do meu presente à fartura gordurosa do passado – e vi logo as diferenças, como na página de entretenimento dos jornais. Felizmente, não me deu para a melancolia. Deu-me, isso sim, para especular sobre a obscura razão pela qual o Rui Rio não pôs ao Santana os patins da secção de hóquei do glorioso Sporting. E também sobre que raio irá agora fazer Bruno de Carvalho da senhora Elina Fraga.

quinta-feira, fevereiro 15, 2018

Fala o órfão inédito - Rosário Breve n.º 542 in O RIBATEJO de 15 de Fevereiro de 2018 - www.oribatejo.pt





Fala o órfão inédito




“Estou de volta à Cidade que, através de um homem e de uma mulher que se amaram, me deu nascimento.”
A 31 de Maio de 2010, assim começava – e ainda começa – um livro que ainda não arranjei maneira de publicar, concluído que o dei a 3 de Março de 2011. Os três cadernos manuscritos que o enformam, esses preenchem com obstinada paciência a gaveta-alta do roupeiro. Não desisti dele(s) – como na vida, tudo é uma questão de tempo: para o sim como para o mal, para o não como para o bem.
Tenho, por estes dias, relido esses meus dias embalsamados de 2010/11. Era afinal simples, o mote: tinham-me avisado por telefone de que a Mãe iniciara a descida terminal. Contra todas as efabulações mais racionais, também ela era mortal. Dei por mim retornando, pois, ao local-do-crime perdoável de ter nascido de gente d’ali/'qui. A partir da minha escrita irreconciliável, a Mãe durou ainda nove meses & três dias – em espécie, digamos, de anti-nascimento, de avessa gravidez de si-mesma, já ela sem marido embora há dezassete anos. Nesse derradeiro dia de Maio de 2010 (uma segunda-feira), decidi-me por a confecção de uma memória presente, diarística, ubíqua, vigilante, pessoalíssima. Quase oito anos volvidos, não enjeito o escrito. Atenção: não se trata de lamentosa escritura do tipo coitadinho-de-mim-que-estou-para-ser-órfão. Não. Nada disso. Não é coisa impermeável à dor antecipada, pois não. Também não é coisa alheia à solidão essencial (de ser) de todos os eus. Lá está, nessa mesma primeira página manuscrita a tinta preta: “Ando sozinho – como toda a gente na vida.” De toda a maneira, e/mas enfim, o sobredito livro por publicar é um depoimento sem solipsismo umbilicalista de espécie alguma. Receio só que seja, também & ainda, um livro de amor. Intitulei-o “Leite dos Santos – Um Ideário de Coimbra”. A razão titular é esclarecida na dedicatória epigráfica: “In Memoriam Viva de Hermínia Leite dos Santos (27 de Outubro de 1924 – 3 de Março de 2011)”. Muito simples, muito claro, muito directo ao assunto, muita terra-mãe-a-mãe-terra.
Por virtude ou defeito de cronicar agora sobre tal inédito talvez impublicável, recordo esses meus dias na terra-de-ninguém que foram os de me perder da Mãe. A vulnerabilidade era-me total. Eu (man)tinha então uma imitação de trabalho: ensinava num curso profissional que não pagava mal, com dois a três meses de atraso embora. Sobrevivia materialmente num quarto de celibatário contrariado: a mulher anterior, inteligente e/ou manhosa, tinha-me desertado a ocorrência em prol de um homem melhor. Não sem militância, emaranhei-me de muita leitura, muita taberna & muito desamparo. Vi-me febril & fabril de dias quentes como infernos portáteis & de noites regeladas pelo mau costume de pensar nela(s): na Mãe como nas noites mesmas.
O Verão de 2010 aconteceu à maneira de tragédia lenta. Recordo a intolerância solar das visitas ao Lar onde a Mãe, qual flor anacrónica, aprendia a vegetar sem mãos ao volante da bicicleta. Era o meu verdadeiro trabalho, a minha única importância. Eu já só (a) escrevivia. De volta de cada visita, recolhia-me ao tasco sob o viaduto para fazer de conta que o mundo existia à face, et pour cause, do balcão dos deserdados da vida. Cometi muitos versos. Nem todos saíram mauzitos. As noites vinham à maresia seca da Cidade só fluvial.
Uma dessas noites, choveu muito. Recordo: o meu casaco de bombazina cor-de-nestum-com-mel passou a pesar quilos de tão ensopado, eu não me abrigara – nunca até então o houvera feito na vida, como naquela noite o não fiz também: & até hoje o não faço. Chegado ao quarto pré-sepulcral, ri-me sozinho como os doidinhos da minha condição de cavalinho-não-tirado-da-chuva.
O Inverno posterior foi o humanismo do costume: hirta, tiritando, a Cidade celebrou o Natal, essa tragicomédia que faz do cristianismo o Carnaval de costume do consumo irracional. No quarto emprestado por esmola, libei o nascimento do Cristo à morte-para-breve da Mãe. Segui escrevivendo a sobrevivência possível. O porvir era já então o que aqui reitero: uma orfandade lúcida, provida tão-só de pouquíssimas certezas ancoradas na racionalidade da desesperança mais pragmática.
Como disse, o livro está por publicar. Não apenas tem tempo ainda de sê-lo – pois que houve tempo de tê-lo sido. Lamento tão-só que a senhora minha Mãe não possa lê-lo. Pelo menos, até 2 de Março de 2011, essa véspera de mais-nada a partir da qual tudo se me torna tão improvável quão o caraças de um editor honesto, a havê-lo, entre os intervalos de quanto hoje chove, que amanhã faz sol, que 2018 já cá canta(m).

quinta-feira, fevereiro 08, 2018

Acta da Hora Improvável - Rosário Breve n.º 541 in O RIBATEJO de 8 de Fevereiro de 2018 - www.oribatejo.pt





Acta da hora improvável




1 Antigamente (a bem dizer, tão antigamente mesmo, que foi já no século passado do milénio idem), acontecia-me de quando em vez secretariar reuniões. De professores, primeiro, de redacções jornalísticas, depois, com algumas de direcção de sociedade filarmónica pelo meio. Parece-me outra vida, agora. Noutro planeta. Agora que funciono sozinho, resta-me escrever as actas do que se vozeia nas paragens de autocarro (melhor quando chove, pois que o quorum humano jamais resiste a comentar os cântaros que Deus dá ao entorno) e do que se diz nas filas de hipermercearia, em qualquer sala-de-espera das boas (centro de saúde, finanças, segurança social, conservatórias), nas assembleias de mirones de desastres rodoviários – e de preferência nos Cafés de bairro da minha perdição. Segue-se, pois, a acta apurada a partir das 17h17m do passado dia 31 de Janeiro no Café C. (O itálico integral da transcrição é de lei, por isso mesmo que nenhum palavreado nem fraseado algum me pertencem:)

2 Se uma pessoa me engana fora do raio-d’acção dela, eu tento perceber a pessoa, eu tento ver onde é que me enganei acerca dela, sim, eu pelo menos posso gabar-me de fazer iss’assim / Se a mãe não te der dinheiro para ires cortar o cabelo, diz-lhe qu’isto não é daqui-d’el-rey, qu’isto ainda é Portugal, qu’isto ainda não é o da-mãe-joana / Agora se lhe disseres que queres-comer-isto-queres-comer-aquilo, então isso já-me-cheira-a-cavalo, iss’é-qu’é-um’-avaria / Quem é aquele?, tem alguma coisa a ver co’ Varela dos Pneus?, pergunto porque não sei mas se me dizes isso-assim-assim então perfeito, então tudo-à-larga / Levas c’uma botija de gás em cima qu’é um mimo / ’Tás bom, ó sô Fócsináite? / Menos uma hora nos Açores / Ele disse Sálvio ou sábio? / Mas olhe / A minha mãe trabalhava na fiação, mais de quarenta anos de descontos, o algodão punha aquela coisa na garganta mas também foi das últimas a sair antes d’aquilo fechar, vá que não vá / Olha, já fostes / Quantos?, setenta-e-seis agora em Julho que vem / Saber o que a gente sabe até hoje, quem me dera na altura / Graças a Deus também já tive os meus problemas de saúde até hoje, ind’esta manhã / Um remate contra as pernas de Ivo Oliveira / Está a ficar frio, mais do q’ontem / Está-m’alembrar de quando íamos p’la’strada-velha / Esse velhadas fazia vinho como um carago mas depois também era uma esponja p’ó dele & p’ó dos outros / Típico trabalho do deus-me-livre-de-todo-o-mal-ámen / O menos que fez disso já lá vai um ano / Eles não ’tão tão cois’assim como ’tás p’-aí a d’zer / Daqui a pouco voltamos para a segunda-parte deste Portugal / Acabam-se os problemas sem ter de gastar mais dinheiro com preocupações de merda / Superfícies giratórias são a solução / Disponha agora disso pelo preço duma sandes-d’iscas, pá / Claro que aquilo é tudo mentira, pá / Zé, já venho, aguenta-m’aí-os caváis/ Eu pago essa mini, deixe-’star / Agora querias mas era mamar mas não te deixam / Já vistes? / Era do tempo em que o de cima ia à Universidade / Tchau, bacano, fica bem / Ui! / Conseguem tudo, o trabalho deve ’tar a aumentar / Ui, ao poste! S’é p’abrir o circuito com vitrine & arca, n’um vale a pena arriscar, superfícies giratórias são a solução / Ricardinho / Bola à procura de Fábio Cecílio / É um peso-pesado, só te digo isso / André Coelho, Cecílio, Oliveira / Qu’é-qu’-estão aí a fazer os dois?/ Eu conto mas é três / Nesse aspecto, uma amizade dá para duas ou três vezes / Eu gostei, sou sincero, eu gostei / Acende a luz da rua, se me fazes o favor / Agora o desvio do manípulo não é o pior / Qualquer válvula fazia o lugar disso s’isso fosse assim fácil ma’-n’é! / Então podes-te preparar / Eh lá, calm’aí! / Então e o Porto?, chupa! / Vá, até já.

3 E p’ra tudo isto poder ser nos Açores, só daqui a uma hora.

domingo, fevereiro 04, 2018

Sétima em memória do sr. António Pires - manhã de terça-feira, 30 de Janeiro de 2018



Sétima em memória do sr. António Pires







Cumpre-se a preceito a hora ingente,
dif’rente não seria boa ideia.
A inumar vai hoje um pai-de-gente
que decente foi dos mais da aldeia
que a mim & aos filhos dele viu crescer.
É da lei do nascimento o morrer.
Não é excepção à regra disso sofrer.



Daniel Abrunheiro,
manhã de terça-feira, 30 de Janeiro de 2018


quinta-feira, fevereiro 01, 2018

Como quem não rói a corda ou Não é A ou B mas A & B - Rosário Breve n.º 540 in O RIBATEJO de 1 de Fevereiro de 2018 - www.oribatejo.pt





Como quem não rói a corda
ou
Não é A ou B mas A & B



1 Reza um provérbio árabe que os homens se parecem com o seu tempo. Se o Tempo é um Rio e o Tejo é outro, com que se parecerá, pois, o senhor ministro do Ambiente quando diz que o estado do t(r)ágico caudal é que é o responsável pela coisa toda, ao ser caudalosamente insuficiente para “depurar” (o termo técnico foi usado por ele) “a descarga A ou a descarga B” (cuja responsabilidade facílima de apurar continua, até hoje, precisamente, por apurar – ou por depurar…)?

2 A morte é a mais democrática das leis. Não conheço outra que a supere nisto do igual-para-todos. Mais, ante Vós, me reitero linhas escritas & caminhos pisados: 1) O tempo todo nunca é muito; 2) Os anos acabam sempre por roer a corda. (Sabemos que a água é vida. Sabemos que, no plural, as águas podem ser mortíferas. Desconhecíamos, parece, que elas mesmas eram morta(i)s: cf. Festival da Lampreia de Mação.)

3 O RIBATEJO não é um seminário: é um semanário. Não há por aqui prédicas pró-evangelizadoras do infiel, nem sermões pró-aculturação do indígena. O que há, é gente que pensa a terra sobre que é vertical como horizonte identitário – e quem isto não souber ler, também não saberá ver, posto que ser não sabe, quanto menos estar.

4 Coimbrão que nasci & hei-de morrer, interessa-me muito a iniludível geminação geo-histórico-portuguesa Coimbra-Santarém. Nem sequer é por também, , haver uma Académica; nem sequer é por também, , haver fados & guitarradas ao modo daqui. É mais por termos feito corpo unitário da trinitária divisão da Península Ibérica em Tarraconense (de que Bracara Augusta/Braga), Bética & Lusitana (de que Scallabis, Conimbriga/Aeminium & Pax Julia/Beja). Sim, é isto. Fica dito & feito.

5 Mansidão dos semiloucos por aquestas esplanadas: ao sol não-tíbio de Janeiro, envernizada a verdura pelas chuvas recentes, os esfacelados sociais perambulam seus itinerários de formiga-sem-formigueiro. Ainda agora (10 & picos da manhã claríssima), um deles soliloquou qualquer coisa a ver com talvez-fátima-talvez-futebol – e em/com voz de fado o fez. Tudo certo, portanto, debaixo do sol januário-português. Entretanto, na mesa mais a oriente da minha, quatro mãos envelhecidas. Pertencem a Osvaldo R., aposentado do comércio retalhista, e a Esmeralda T., que foi mulher de Jerónimo B. mas já não é, embora oficialmente Osvaldo continue marido de Estela S., que não entra nesta história (salvé, Carlos Drummond de Andrade!). O atravessado casal meu vizinho de mesa poderia ser apresentado, para V.º mais luminar entendimento, como Osvaldo Descarga A & Esmeralda Descarga B. Com V.ª licença, os sobreditos e não de todo ausentes Jerónimo & Estela farão de descargas C & D.

6 Aquilo da manchete da edição anterior (cf. ponto 3) – “Cabras sapadoras chegam a Alcobertas 8 anos antes de o Governo as descobrir” – fez-me o que a vida nem sempre me faz bem: pensar. Vi-me desejando as bravas & bravias cornúpetas alpinistas como devoradoras não só do naturalíssimo combustível florestal de mais raso chão como de certas práticas autárquicas do tipo deixa-arder-que-não-fui-eu-quem-soprou. E recordei, também a propósito, a mais intelectual anedota que conheço. Esta aqui:

7 Omnívoras, duas cabras pastam em um monturo de lixo. Uma delas caça & abocanha o DVD do filme E Tudo o Vento Levou. Já nos dentes dela se estilhaça a furta-cores o redondel digital quando a outra, curiosa, lhe demanda: Então, estás a gostar?” Ao que a outra, ruminantemente plácida, lhe redargue: Hmmm, gostei mais do livro…”

8 Fico-me por aqui, desta feita. Desconheço de que gostará mais o senhor ministro do Ambiente – se da Descarga A, se da Descarga B. Do Tejo propriamente dito é que parece não ser, ó cabrinhas sapadoras que destas águas não bebereis, roendo porém, como os anos, a corda toda. 

quinta-feira, janeiro 25, 2018

CRÓNICA NÃO FORMOSA MAS SEGURA - Rosário Breve n.º 539 in O RIBATEJO de 25 de Janeiro de 2018 - www.oribatejo.pt




Crónica não formosa mas segura

1 Lamento, Sebastião, mas não “é pelo sonho que vamos”.
Para que fôssemos riquíssimos, Camões rapou escandalosa pobreza. A meu ver, a edição de 18 de Janeiro do corrente deste Jornal poderia ter sido escrita pelo grande lusíada que viu, descalça, ir Leonor para a fonte. Refiro-me em concreto às páginas 6 e 15 da edição em papel (peças que também podem e devem ser consultadas na edição electrónica, aqui: http://www.oribatejo.pt/).
A incontornável senhora vice-presidente da Câmara de Santarém perpassa pela sexta. A minha Amiga Manuela Marques também. Na décima-quinta página, o caso remete para Salvaterra de Magos. Sim, refiro-me aos casos absolutamente dramáticos e completamente intoleráveis dos cidadãos Carlos T., professor de música, 62 anos, que por Santarém, e literalmente, sobrevive pelas ruas da amargura com & como um cão; e de Henrique C., 42 anos, inutilizado por um pinheiro caduco há mais de duas décadas, arrastando-se por chãos e degraus em aparato desumano.
Ninguém que tenha lido o número anterior deste Jornal pode ter ficado insensível a esta dupla vergonha. Ou pode?

2 Somos um país minúsculo que parece incapaz de entender o desamparo como capaz de tanta letalidade quanto o cancro, os hospitais infecciosos, o perigo rodoviário, a gangrena dos veios-de-água e os incêndios. E a depressão. E a solidão. A miséria não é remediável com natalinhos calendários do tipo ó-p’ra-mim-tão-bom-cristão-uma-vez-por-ano. A besta voraz do capitalismo selvagem, impune & libérrima, tem uma filha: chama-se indiferença social. A fome existe. Estamos no século XXI mas a fome continua a andar por aí. O desmantelamento social é realíssimo. O Outro não é entidade reconhecível. O Trabalho e o Trabalhador são vistos por certos patrões como inimigos da fortuna instantânea. Processional, a carneirada muito bale mas nada vale. Exígua, escassa, rala, rara, a minoria de pessoas para quem Solidariedade não é palavra vã, oca ou maninha, essa talvez ainda acredite no célebre poema do tão precocemente malogrado Sebastião da Gama que antigamente dourava os manuais escolares. Pode ser que essas pessoas ainda acreditem ser pelo sonho que vamos – mas eu não.

3 Deixei há muitos anos de resistir ao cinismo existencial. Revolucionámos cravos – mas arrastamos ferraduras. O meu agnosticismo incréu em matéria religiosa propagou-se ao descrédito, muito meu, quanto a esse animal sem remédio chamado ser humano. E disto ninguém me tira. Reservo-me o direito a esta negatividade. Não nasci anteontem, desconheço se morro depois de amanhã. (Já agora, quero chamar-Vos a atenção para a crónica de Mário Rui Silvestre, também na passada edição do nosso/Vosso O Ribatejo. Intitula-se “O Tejo a quem o polui” e é uma belíssima peça, de uma prosa desassombrada. Revela-nos e releva-nos a insignificância até cósmica da nossa eterna efemeridade. Foi uma das pérolas da minha semana. Recomendo-vo-la totalmente.)

4 Esta minha crónica é toda amarga, sei-o bem. Santarém, Salvaterra, Portugal – terra(s) que ninguém salva de si mesma(s). Aqui onde nasci e vivo, há muitos Carlos e Henriques também. Habitam os intervalos da chuva, invisíveis ao mundo. Ando a ficar parecido com eles: são cães bípedes, destroços oblíquos de naufrágios individuais que é muito lindo fotografar para a lagrimeta de quando há eleições. Já o grande riomaiorense Ruy Belo, com lapidar concisão, no-lo dissera: “O meu país é o que o mar não quer”.
Quero eu, para mal dos meus pecados, ó Sebastião. Ó Manuela. Ó Inês.

quinta-feira, janeiro 18, 2018

Mais dois casos esquisitos cá co’ a malta ribatejana - Rosário Breve n.º 538 in O RIBATEJO de 18 de Janeiro de 2018 - www.oribatejo.pt



Mais dois casos esquisitos cá co’ a malta ribatejana



O epicentro dos fenómenos esquisitos parece ter, de vez, deixado de ser exclusivo do ferroviário Entroncamento para abranger a totalidade desse território a que em Portugal chamamos Ribatejo.
Os “casos” mais recentes têm nome de gente: Arlindo Consolado Marques & Pedro Barreiro. O primeiro é um ambientalista amador por pulsão de dever cívico-ecológico. O segundo é um homem das artes de palco cultoras de Tália.
Arlindo vê-se agora em apuros de tribunal ao ser constituído arguido por alegada difamação e suposto ataque doloso ao “bom-nome” de uma potestade celulósica. Pedro é filho de quem é.
Depois, as coisas emaranham-se: o Tejo está porco à vista até dos mais cegos; uma actriz desnuda em cena e capaz de uma linguagem escabrosa configura, não um atentado ao bom-gosto e ao bom-senso, mas a prova de que a Cultura é um contrapoder.
Ora, as pessoas do poder não gostam de contrariedades. As do poder do dinheiro não querem abelhudos sicofantas como Arlindo. As do poder político detestam manifestações culturais que não alinhem no apimbalhamento atávico, acéfalo e acrítico da carneirada.
Posso dar um contra-exemplo: ninguém espera ver uma vereadora nua em plena assembleia municipal bolçando obscenidades verbais. Ninguém. Não é sítio para isso. Mas, sabeis?, há asneiras que não são da boca para fora, antes sim da vista para dentro. Obsceno, senhores, é o abandono do centro profundamente histórico da capital ribatejana; pornográfica, senhoras, é a podridão a céu-aberto do Tejo; malcriado, rapazes, é o contentor prenhe de lixo dos pés à tampa; impertinente, raparigas, é o esvaziamento turístico de um património que tinha (e continua a ter) tudo para justificar romarias pagantes pró-desenvolvimento local.
Mas o que é que aconteceu a 1 de Outubro último? Aconteceu que as pessoas exerceram o seu incontestável direito democrático à burrice, reempossando nos lugares de mando autárquico mais do mesmo nada. Ou por clubismo partidário ou por abstenção, foi o que foi. Lembram-se das barreiras por consolidar? Lembram-se da estrada encerrada? Ninguém se lembra, cuido bem (mal) que ninguém se lembra. Dividida, a Esquerda ribatejana deu o ouro ao bandido. (“Bandido” por assim dizer, atenção, ó melindrosos senhores do Ministério Público! Linguagem figurada é de antemão perdoada. Vêde bem se ainda me pondes réu por delito opinativo…)
Confio, apesar de tudo, na absolvição de Arlindo. Já confio menos no castigo dos diversos predadores-poluidores do Tejo. Quanto a Pedro, nova corrida, nova viagem. Deixa obra feita no Sá da Bandeira. Sai de pé e de cara lavada. Os actos (não os teatrais) ficam com quem os pratica.
Nisto, cai o pano. E a nódoa nele.


quinta-feira, janeiro 11, 2018

UMA VALSA-HISTÓRIA A TRÊS TEMPOS - Rosário Breve n.º 537 in O RIBATEJO de 11 de Janeiro de 2018 - www.oribatejo.pt

Uma valsa-história a três tempos




Tempo-1 Pode parecer-Vos inverosímil o que de seguida vou contar-Vos. Admito que sim – mas isto Vos garanto: inverosímil mas verdadeiro. Aconteceu mesmo. A Vida & a Morte têm destas coisas. Vamos, pois, a isto:

Tempo-2 A 19 de Dezembro de 2017, o meu querido Amigo & antigo companheiro de bola (três clubes, anos diversos) José Manuel dos Santos Peres morreu. Foi a contribuição sócio-estatístico-hospitalar de Coimbra para o rol de vítimas da legionella dos nossos (e meus) tristes tempos. Nascera a 4 de Agosto de 1961 & casara-se com a Paula a 5 de Agosto de 1985, consórcio amoroso de que nasceu uma filha formosa, a Patrícia. O senhor Peres-pai fôra gravador-ourives do mais fino quilate. (Quantos noivos lhe não devem a finura dos nomes nas recíprocas alianças?) O filho Zé seguiu do pai-Peres fé & profissão, tornando-se muitos anos caixeiro de ourivesaria especializado em relojoaria. (Este pormenor dos relógios é crucial para o que sigo relatando.) Um dia, a ourivesaria que empregava o Peres-filho fechou portas. Indemnizado por tuta & meia, o Zé Peres viu-se no desemprego. Não desistiu. Olha quem. Tirou um curso de vigilância-segurança e arranjou trabalho no ramo. Não era a mesma coisa – mas dava para ajudar ao sustento da casa familiar. Até que, por meados de Novembro passado, caiu doente à cama. Foi acidente de trabalho, dúvida nenhuma: a bactéria mortífera entranhara-se-lhe no organismo durante o turno num dos sítios empresariais que vigiava. Esteve um mês em coma induzido. Não lograram todavia salvá-lo. Inocente de novo, foi a sepultar por as vésperas de Natal. Não consta que algum dia nos retorne.

Tempo-3 Dois dias depois, contei a súmula do exposto no Tempo-2 a um outro meu Amigo de sempre, o Fernando Jorge Domingues Correia. Ele quis saber mais, perguntando-me com aferida pontaria qual o dia de óbito do Zé Peres. Respondi-lhe que a 19. Então, ele fez aquela cara que todos fazemos quando o aparentemente impossível (e daí que inverosímil) entra sem bater por a nossa porta adentro. Eu quis saber porquê: “ – Que cara é essa, Jorge? Conhecia-lo?” E ele disse-me que sim, que conhecia. Disse-me que sim, que conhecia, e mostrou-me o pulso direito. No pulso direito dele (ele é canhoto desde nascido, usa relógio do avesso desde a 4.ª Classe), latejava a encarnado um relógio de ponteiros. Não estranhei nem cor nem avesso de sinistra, posto que benfiquistas nós ambos. Só que não era aquele relógio vulgar o busílis-da-questão. A invulgaridade da questão era de outro teor. Por palavras dele: “ – Ó Daniel, eu só ando com este relógio há dois dias. O que uso há mais de vinte anos avariou-se-me no dia 19. Sim, 19 de Dezembro de 2017. Agora, adivinha onde o comprei. Onde o comprei – e a quem…” Eu gemi: “ – Não pode ser…” E ele: “ – Tanto pode, que foi mesmo assim e é e há-de ser! Comprei-o ao Zé Peres e nunca mais usei outro. Este que trago, estava esquecido na gaveta há anos.” Não foi preciso dizermo-nos mais nada. Olhámo-nos um ao outro – e no rosto de outro & um era, pura como a água da fonte boa, legível a evidência de, uma vez por outra, também o Tempo se dar ao capricho de parar & de se deixar ficar quietinho à espera de que a má-hora, como a do Zé Peres, passe e não retorne. 

terça-feira, janeiro 09, 2018

OITAVA COM PARDAIS + OUTRAS QUE TAIS



OITAVA COM PARDAIS + OUTRAS QUE TAIS




Amo consoladamente os pardais
que o chão lêem com a boca tão esperta.
Abicam & abocam sais minerais
que a Natura dá de porta aberta.
Semelham eles átomos externos
orbitando exposta realidade.
Vigoram, duros, os duros invernos
e o Abril lhes consagra liberdade.

Co’ António Rosinha comi figos
que ele trouxe generoso à minha mesa.
Ele é dos meus mais antigos amigos,
esses da lusa infância concerteza.
Agora estou a sós, qual hibernando.
(Assim tenho estado p’la vida adulta.)
Látego, a bátega fustigando
segue a Natura humana inculta.

Bravia, a pedra não aproveitada
expõe da terra os ossos fracturados.
E a rasteira fauna, remolhada,
exerce a profissão dos apeados.
Na estação-de-serviço, a carneirada
(compro)mete (a) gasóleo (o futuro).
P’ra ela, o pardal só vale nada,
coitada gente própria de monturo.

Janeiro, Inverno & Rosas já florescem,
dadivando beleza infinita.
E dos pólos os frios recrudescem
congelando a sopa na marmita.
Velhotas açoitadas pelo vento
formigam tropegamente pela rua.
Crianças? Já as não há, o q’ lamento.
(E a quem alguma tiver lhe chame sua.)


Café Capa Negra II,
Urbanização do Loreto,
Coimbra,
11h19m de Terça-Feira, 9 de Janeiro de 2018


sexta-feira, janeiro 05, 2018

Ano Novo, Lusa Velha - Rosário Breve n.º 536 in O RIBATEJO de 4 de Janeiro de 2018 - www.oribatejo.pt





Ano Novo, Lusa Velha




Escrevo-Vos no dia-primo de Ano Novo sob uma campânula de cartão chamada céu(-muito-)nublado. O Sol não rompe a cerração. Há uma latência pré-pluvial nos corações agabardinados. Há, há.
Defronte, onde há mais de quatro décadas era o bairro-de-lata da Ervinha, moram as habitações ditas sociais dos antigos pobres da zona. É a esta padaria-pastelaria que os ditos vêm. Estão na mesma: pobres & antigos (crianças incluídas).
Há quarenta & tal anos, isto não era padaria nem pastelaria: era um Café atabernado, servidor (sem modem) de uma magnífica cerveja-à-pressão & de solo fofo e ruidoso, pois que atapetado de cascas de tremoços & amendoins, para além da serradura pejada de beatas mal apagadas & de escarros estrelados como ovos frescos sobre chão de mosaicos que até lembrava a Abadia de Westminster.
Curiosamente (ou paradoxalmente, sublinharão alguns mais puristas do método dubitativo), o ambiente não era grosseiro. Também não era fino. Era o que era: nenhum patronato & muito chinelo-de-enfiar-o-dedo, nenhuma beleza fêmea & muita dentuça podre, nenhuma biblioteca & capela nenhuma – mas era humano, era próximo, era nosso. E só nosso.
O século XXI trouxe consigo as pastelarias todas iguais entre si. Resistimos-lhe(s) como podemos: a roupa do maralhal é melhor do que a de antigamente mas o fino & a caneca são piorzitos; a televisão é a cores mas está sempre na TVI (excepto quando há bola que justifique a Sport TV); os clãs continuam a mastigar em voz-alta mas agora “é mais bolos” porque amendoins & tremoços parecem mal no futuro.
Em suma, é uma alegria. Estamos todos vivos, gostamos todos de cá andar, umas vezes a coisa fia mais fina, outras pia mais grossa, alguns de nós já lavamos a placa com elixir bucal de largo espectro de acção bactericida, toda a gente tem phones espertos, que é o que smart quer dizer, todos gostamos do Marcelo mas do Coelho não porque não foi o partido deste a transformar as barracas de antigamente nas casas de telha & tijolo que ainda agora ali estão e por ser próprio dos falhados como nós gramar os (ou com os) vencedores mas não com os falhados iguais a nós tal como o canhoto dos bilhetes fica dextro ao espelho. (Ainda agora: a duas mesas juntas mas sexualmente separadas, quatro maridos pançudos falam da hérnia do Presidente com descontracção enquanto as respectivas pançudas lacrimejam consternação pelo precário coração do Salvador Sobral, “que é o que dá amar por dois, coitadinho”.)
Hemos de reconhecer que de cá para lá como de lá para cá a via fica muito melhor assim alcatroada do que em paralelo, assim como onde era o baldio do lixo subirem agora dois pinheiros-mansos, um salgueiro-da-babilónia & um limoeiro comunitário-de-todos que até arrepimpa de gosto ver, nem o futuro poderia ser só coiso-digital-smart.
Os que éramos já antigos de mocidade há quarentas & picos anos – ocupamos hoje o lugar dos que eram moços há oitentas. E é assim que está bem, assim é que é conversa.
(Eles daqui não sabem que saem em papel de jornal na primeira edição do ano. Antes assim: chamar pobres a (mal-)remediados poderia melindrá-los. Pod’ria, pod’ria: e eu não quero aqui grosserias. Nem finuras. Finuras & grosserias que vão mas é lá para onde se sumiram os tremoços & os amendoins & os melhores finos da Península Ibérica.)
Nisto, desata a chover. A esplanada debanda em imprecações. Fico mais sozinho do que cão sem pedigree. E é desprovido de mais literatura que me molho sem pressa à chuva de 1975, ano em que a malta era lusa & nova, ao passo que 2018 só nos filmes do espaço dUSAmericanos.




terça-feira, dezembro 26, 2017

The “Pale Blue Dot” — the Voyager‘s view of Earth seen from the outer edge of the Solar System. (Photograph courtesy of NASA.)




https://www.brainpickings.org/2017/12/21/reflection/?utm_source=Brain+Pickings&utm_campaign=a0ca5edc9c-EMAIL_CAMPAIGN_2017_12_22&utm_medium=email&utm_term=0_179ffa2629-a0ca5edc9c-236363293&mc_cid=a0ca5edc9c&mc_eid=31796d253b


Ver também:
https://www.brainpickings.org/2016/04/25/black-hole-blues-janna-levin-joseph-weber/

quinta-feira, dezembro 21, 2017

23 verbogramas só porque sim - Rosário Breve n.º 535 in O RIBATEJO de 21 de Dezembro de 2017 - www.oribatejo.pt





23 verbogramas só porque sim



1 Mulher-de-calças-cor-de-verde-musgo-molhado.
Nádegas dela: duas-meias-melancias-pingonas.
2 Rapaz-de-bigode-escovinha-ralo.
Nariz dele: milhafre-adunco-hebraico.
3 Cão-à-chuva-pela-berma-da-estrada.
Cauda dele: ponto-de-interrogação-sem-pergunta-antes.
4 Homem-de-guarda-chuva-preto-aberto.
Metáfora dele: morcego-convexo-sustendo-as-lágrimas.
5 Aqueloutro-homem-nosso-leitor-que-no-Quinzena-me-interpelou.
Palavras dele: “O-senhor-achegue-lhe-e-arrefinfe-lhe-com-força,- home’!”
6 Rapariga-de-cabelo-cintado-a-seda.
Ornitologia dela: espécie-de-andorinha-primavera-perpétua.
7 Recentes-chuvadas-torrenciais-pós-seca-prolongada.
Lição delas: Natura-maltratada-dá-se-por-vingada.
8 Maria-do-Mar-peixeira-de-Sesimbra.
Marido dela: pescador-Serafim-Petinga,-tinto-ou-branco-tudo-é-pinga.
9 Menino-absorto-à-janela-vendo-o-que-chove.
Olhos dele: de-gato-humano-verdes-como-esmeraldas-incendiadas.
10 Sem-abrigo-romeno-a-quem-dei-blusão-impermeável-que-me-tinham-dado.
Olhar dele: relâmpago-de-gratidão-surpresa-menino-outra-vez-como-o-da-janela.
11 Tecla-do-hífen-do-meu-computador-portátil.
Aspecto dela: cor-de-burro-fugido-ao-dono-por-uso-&-abuso-contuso.
12 Senhora-que-em-2004-vi-no-jardim-da-Casa-Museu-Passos-Canavarro.
       Aura dela: gladíolo-azul-cabeça-toda-d’ouro-viúva-de-poeta-lindíssima-septuagenária.
      13 Funeral-do-meu-Amigo-José-António-Conceição.
Família & Amigos dele: gente-de-vidro-atirada-à-bruta-ao-granito-da-realidade.
14 Quatro-“clubes-grandes”-do-futebol-português.
Por ordem decrescente: Benfica-AntiBenfica-Sporting-&-União-de-Coimbra-&-nem-mais-um.
15 Dez-andorinhas-6-+-3-+-1-em-cabos-suspensos.
Metáfora delas: raparigas-de-cabelo-cintado-a-seda-perpétua.
16 Jogadores-de-sueca-à-mesa-de-pano-verde.
Aposentações profissionais deles: polícia-camionista-cantoneiro-cardiologista.
17 Razão-pela-qual-a-Vida-é-Ave-também:
Por-trazer-a-morte-no-bico-com-ou-sem-grão-na-asa.
18 Pergunta-de-François-Villon-segundo-Umberto-Eco:
“Mas onde estão as neves do ano passado?”
19 Pergunta: O-que-é-a-idade?
Resposta: É-um-total-transitório.
20 Pergunta: O-que-é-ser-intelectualóide?
Resposta: É-chamar-Alorna-à-própria-marquise.
21 Pergunta: A-figura-do-Dom-Quixote-ainda-é-útil?
Resposta: É,-porque-o-que-Cervantes-também-serve-depois.
22 Pergunta: Por-que-motivo-é-tão-fácil-identificar-um-fumador-de-haxixe?
Resposta: Porque-entre-a-Pedra-&-o-Altar-ele-nunca-dá-lume-ao-segundo.
23 Nascimentos-das-minhas-Filhas.
Visitantes delas: Gaspar-Belchior-&-Baltazar-trazendo-consigo-ouro-incenso-&-mirra, sob a belenense & auspiciosa Estrela.



quinta-feira, dezembro 14, 2017

Cegueira, clarividência & circularidade do latinismo “et cœtera” - Rosário Breve n.º 534 in O RIBATEJO de 14 de Dezembro de 2017 - www.oribatejo.pt





Cegueira, clarividência & circularidade do latinismo “et cœtera”



Como tantas pessoas, senão todas, vi & vivi já manhãs cegas & noites clarividentes. Sobre umas como outras, os anos exerceram a sua autoridade tão obnubiladora quão propensa à mera, cerce & inescapável obliteração.
Nem a umas lamento, nem a outras louvo – limito-me a dar, de outras como de umas, essa espécie de livro-de-razão duplicemente chamado lucidez & resignação. Um mote subjaz, sólido, a estas voltas: a própria eternidade se volve efémera quando exposta ao esquecimento.
É possível que algumas circunstâncias loco-temporais da minha experiência logrem convencer o/a Leitor/a a não desistir já da corrente crónica. Assim:
pela tarde de uma sexta-feira natalícia de 1984, comprei, numa livraria de referência da Cidade dos meus vinte anos, dois exemplares da tradução portuguesa de Ficciones, do argentino Jorge Luis (sem acento) Borges (ed. Livros do Brasil, Lx., trad. de Carlos Nejas, revisão de Maria Ondina & capa de Lima de Freitas, © 1969). Recordo tê-lo lido na altura com o eufórico ardor de quem começa a reconhecer na (boa) Literatura uma forma-de-vida preferível à vidinha quotidiana.
Três décadas & três anos depois, reencontrei-me com o meu exemplar – o gémeo que dele comprara era de presente para um meu Irmão, mano que hoje, para nossa amargura, se encontra bastante doente. Na manhã de 29 de Novembro do (ainda) corrente 2017, atirei-me à releitura dessa obra magistral, cônscio embora de não ter já os vinte anos d’aquando a primeira leitura & temeroso de os meus correntes cinquenta-e-três, a-páginas-tantas de tantas páginas lidas desde tal remo(r)to 1984, me poderem ofuscar a memória dulcíssima do primeiro fascínio decorrente da descoberta de Borges. Já me tem acontecido, isso de reler em plena madurez livros que me (des)concertaram (n)a mocidadeficando-me o palato da mente por modos insalubre, insaciado: e decepcionado algumas vezes, até.
Tal não foi tal, desta vez. Ficciones (Ficções) continua a ser uma obra-prima de curtos relatos – daquela concisão lapidar tão ao modo & do gosto borgesianos. O Próprio J.L. Borges, no Prólogo à primeira parte da obra (datado de “Buenos Aires, 10 de Novembro de 1941”), é particularmente explícito quanto a este aspecto:
“Desvario laborioso e empobrecedor, o de compor vastos livros; o de explanar em quinhentas páginas uma ideia cuja exposição oral cabe em poucos minutos.”
(Monsieur Proust n’est pas d’accord, don Jorge Luis!)
Como sempre faço em face de livros bons, enriqueço-me de vocábulos & de locuções cuja partilha pública acresce sobremaneira ao meu prazer privado. Tenha uma pérola dessas para Vós. A ostra de que provém é a pág.ª 123 da sobredita tradução portuguesa:
“Pensou que, à hora da morte, ainda não teria concluído o encargo de classificar todas as recordações de infância.”
Ora, por não ser chegada (não ’inda) nem a minha nem a tua, ó Leitor/a, inexorável hora terminal, será talvez curial (re)começar por te (re)dizer que
“Como tantas pessoas, senão todas, vi & vivi…” Etc.


quinta-feira, dezembro 07, 2017

Dois óbitos & uma dívida - Rosário Breve n.º 533 in O RIBATEJO de 7 de Dezembro de 2017 - www.oribatejo.pt





Dois óbitos & uma dívida



Na passada semana, o obituário nacional viu-se acrescido de dois nomes (re)conhecidos por quase todos nós, Portugueses: o do multimilionário Belmiro de Azevedo & o do músico Zé Pedro.
Do hipermerceeiro propriamente dito, parece que tinha uns milhões de euros; quanto ao guitarra-ritmo dos Xutos & Pontapés, os milhões que detinha eram de amigos & admiradores.
Belmiro pertencia àquele um-por-cento do mundo que está na raiz directa do que acontece aos irrelevantes noventa-e-nove percentuais do resto demográfico do planeta.
Nenhum rancor nem inveja alguma me movem contra a imagem do engenheiro. Associei-o sempre, todavia, a baixos salários, a empregos precários e a carreiras profissionais sem depois-de-amanhã. Mas não criou ele muitos postos de trabalho? Decerto. Só que a grande massa dos (sub)assalariados do rol de pagamentos do engenheiro Belmiro não há-de ter muita cera votiva a derreter in memoriam do plutocrático defunto. O hipercapitalismo é um anti-humanismo: e ninguém me tira deste convicto finca-pé ideológico-económico.
Já Zé Pedro me parecia de outra dimensão. Tipo do eterno-jovem, sabeis? Genuíno, de sorriso leve sem leviandade – uma estrela humilde, enfim.
Não seria um génio musical – mas também nunca se armou em tal. Interagia como peixe na água com as múltiplas gerações de músicos que admirou e que o admiravam. Para (muita) pena minha, não pude assistir, aqui há uns anitos, no estádio da minha Cidade, à abertura dada pelos Xutos ao concerto conimbricense dos sempiternos (até mais ver) Rolling Stones. Sei de fonte-limpa que tal actuação foi uma das mais altas alegrias da & na vida dele. Ele & os companheiros “aqueceram” a multidão para os senhores que se seguiam: Jagger, Richards, Watts & C.ª. E fizeram-no à maneira de “homens ao leme”.
Em outras paragens, no entanto, assisti aos Xutos ao vivo. Era gratificante a mescla de idades do auditório: avós & netos & maduros & noviços devolviam unissonamente aos músicos os muitos temas celebrizados por esta banda começada aos 13 de Janeiro de 1979.
Morrer de juventude aos 61 anos não me parece bem. Curiosamente, a má-nova do passamento de Zé Pedro trouxe-me à lembrança um tal António Variações & um tal (esse sim, genial) Bernardo Sassetti. Ardis da memória.
Para todos nós, com ou sem milhões de euros e/ou admiradores, a Lei é material, concisa, orgânica & inexorável: nascendo, cometemos o primeiro acto necrológico. Não sei se, da imensa fortuna que acumulou em vida, restará agora a Belmiro de Azevedo alguma moeda com que pagar ao barqueiro do letal rio – mas sei que lhe pagámos sempre o que lhe comprámos. Por conseguinte, contas aviadas com ele.
Todavia, é ao artista Zé Pedro que ficaremos para sempre a dever alguma coisa. E essa “alguma coisa” não se vende em hipermercado algum, senhor engenheiro.

sexta-feira, dezembro 01, 2017

Uma gratidão vezes 32 - Rosário Breve n.º 532 in O RIBATEJO de 30 de Novembro de 2017 - www.oribatejo.pt





Uma gratidão vezes 32




Não se trata nem de elitismo meu nem de apatia minha – mas a verdade é que sinto cada vez mais repulsa por certo opinativo-jornalixo que neste morredouro de tansos chamado Pátria se pratica 24 horas por dia / 7 dias por semana / 12 meses por ano: julgo eu que desde 1143, ainda por cima.
Estou sendo completamente franco para convosco: e bem mais que de costume.
A que me refiro eu em concreto? Em concreto, a tudo: ao terrorismo parolo & ubíquo do futebol; ao facto concretíssimo (ou “naturalíssimo”, já?) de as pessoas irem ao hospital para se curarem de uma maleita vulgar e saírem de lá de pés tão juntos quão frios por causa de um mal que nem era o que as lá levara; os especialistas de toda-a-merda-&-mais alguma a propósito de nada-&-de-tudo (com prevalência do nada, naturalmente); o carnaval grotesco a propósito da tragédia dos incêndios deste ano; a impunidade (até à redentora prescrição judicial) dos corruptores de toda a espécie: política, económica, económica & política.
Farto disto. Não é do meu País que estou farto. É da espécie de desPátria em que se deixou enredar. Números: o salazar-marcelismo durou 48 anos; o 25 de Abril já foi há 43. Pergunto: nada aprendemos em quási outro tanto tempo? Continuamos a fazer da persignação o que deveria ser marcha porquê? Nas redes sociais (que entretanto abandonei de vez por razões cá muito minhas), a idiotia grassa como uma epidemia tão impossível de segurar como, com as mãos, as ondas do mar.
Reajo assim: ambulo pelas ruas. Anoto o que vejo. Ouço o que dizem. Tomo café devagar como um beija-flor filmado em câmara-lenta. Uma vez por semana, é-me dado o alto privilégio de escreve’dizer em voz-alta, nesta coluna mesma, o que o mundo me suscita.
E aqui era ao que eu queria chegar – e cheguei. O meu/nosso/Vosso O RIBATEJO fez por estes dias 32 anos. Em papel como electronicamente, este Jornal NUNCA é jornalixo. É SEMPRE ético, isento, deontológico & limpo sempre de corpo & alma.
Sai às quintas em papel e todos os dias pelo ‘site’ http://www.oribatejo.pt/.
E é uma honra ter-vos ao alcance do olhar, senão das mãos, através dele.
Sou-Vos gratíssimo por tal honra. Ela vos presto em grato retorno.