quinta-feira, janeiro 25, 2018

CRÓNICA NÃO FORMOSA MAS SEGURA - Rosário Breve n.º 539 in O RIBATEJO de 25 de Janeiro de 2018 - www.oribatejo.pt




Crónica não formosa mas segura

1 Lamento, Sebastião, mas não “é pelo sonho que vamos”.
Para que fôssemos riquíssimos, Camões rapou escandalosa pobreza. A meu ver, a edição de 18 de Janeiro do corrente deste Jornal poderia ter sido escrita pelo grande lusíada que viu, descalça, ir Leonor para a fonte. Refiro-me em concreto às páginas 6 e 15 da edição em papel (peças que também podem e devem ser consultadas na edição electrónica, aqui: http://www.oribatejo.pt/).
A incontornável senhora vice-presidente da Câmara de Santarém perpassa pela sexta. A minha Amiga Manuela Marques também. Na décima-quinta página, o caso remete para Salvaterra de Magos. Sim, refiro-me aos casos absolutamente dramáticos e completamente intoleráveis dos cidadãos Carlos T., professor de música, 62 anos, que por Santarém, e literalmente, sobrevive pelas ruas da amargura com & como um cão; e de Henrique C., 42 anos, inutilizado por um pinheiro caduco há mais de duas décadas, arrastando-se por chãos e degraus em aparato desumano.
Ninguém que tenha lido o número anterior deste Jornal pode ter ficado insensível a esta dupla vergonha. Ou pode?

2 Somos um país minúsculo que parece incapaz de entender o desamparo como capaz de tanta letalidade quanto o cancro, os hospitais infecciosos, o perigo rodoviário, a gangrena dos veios-de-água e os incêndios. E a depressão. E a solidão. A miséria não é remediável com natalinhos calendários do tipo ó-p’ra-mim-tão-bom-cristão-uma-vez-por-ano. A besta voraz do capitalismo selvagem, impune & libérrima, tem uma filha: chama-se indiferença social. A fome existe. Estamos no século XXI mas a fome continua a andar por aí. O desmantelamento social é realíssimo. O Outro não é entidade reconhecível. O Trabalho e o Trabalhador são vistos por certos patrões como inimigos da fortuna instantânea. Processional, a carneirada muito bale mas nada vale. Exígua, escassa, rala, rara, a minoria de pessoas para quem Solidariedade não é palavra vã, oca ou maninha, essa talvez ainda acredite no célebre poema do tão precocemente malogrado Sebastião da Gama que antigamente dourava os manuais escolares. Pode ser que essas pessoas ainda acreditem ser pelo sonho que vamos – mas eu não.

3 Deixei há muitos anos de resistir ao cinismo existencial. Revolucionámos cravos – mas arrastamos ferraduras. O meu agnosticismo incréu em matéria religiosa propagou-se ao descrédito, muito meu, quanto a esse animal sem remédio chamado ser humano. E disto ninguém me tira. Reservo-me o direito a esta negatividade. Não nasci anteontem, desconheço se morro depois de amanhã. (Já agora, quero chamar-Vos a atenção para a crónica de Mário Rui Silvestre, também na passada edição do nosso/Vosso O Ribatejo. Intitula-se “O Tejo a quem o polui” e é uma belíssima peça, de uma prosa desassombrada. Revela-nos e releva-nos a insignificância até cósmica da nossa eterna efemeridade. Foi uma das pérolas da minha semana. Recomendo-vo-la totalmente.)

4 Esta minha crónica é toda amarga, sei-o bem. Santarém, Salvaterra, Portugal – terra(s) que ninguém salva de si mesma(s). Aqui onde nasci e vivo, há muitos Carlos e Henriques também. Habitam os intervalos da chuva, invisíveis ao mundo. Ando a ficar parecido com eles: são cães bípedes, destroços oblíquos de naufrágios individuais que é muito lindo fotografar para a lagrimeta de quando há eleições. Já o grande riomaiorense Ruy Belo, com lapidar concisão, no-lo dissera: “O meu país é o que o mar não quer”.
Quero eu, para mal dos meus pecados, ó Sebastião. Ó Manuela. Ó Inês.

quinta-feira, janeiro 18, 2018

Mais dois casos esquisitos cá co’ a malta ribatejana - Rosário Breve n.º 538 in O RIBATEJO de 18 de Janeiro de 2018 - www.oribatejo.pt



Mais dois casos esquisitos cá co’ a malta ribatejana



O epicentro dos fenómenos esquisitos parece ter, de vez, deixado de ser exclusivo do ferroviário Entroncamento para abranger a totalidade desse território a que em Portugal chamamos Ribatejo.
Os “casos” mais recentes têm nome de gente: Arlindo Consolado Marques & Pedro Barreiro. O primeiro é um ambientalista amador por pulsão de dever cívico-ecológico. O segundo é um homem das artes de palco cultoras de Tália.
Arlindo vê-se agora em apuros de tribunal ao ser constituído arguido por alegada difamação e suposto ataque doloso ao “bom-nome” de uma potestade celulósica. Pedro é filho de quem é.
Depois, as coisas emaranham-se: o Tejo está porco à vista até dos mais cegos; uma actriz desnuda em cena e capaz de uma linguagem escabrosa configura, não um atentado ao bom-gosto e ao bom-senso, mas a prova de que a Cultura é um contrapoder.
Ora, as pessoas do poder não gostam de contrariedades. As do poder do dinheiro não querem abelhudos sicofantas como Arlindo. As do poder político detestam manifestações culturais que não alinhem no apimbalhamento atávico, acéfalo e acrítico da carneirada.
Posso dar um contra-exemplo: ninguém espera ver uma vereadora nua em plena assembleia municipal bolçando obscenidades verbais. Ninguém. Não é sítio para isso. Mas, sabeis?, há asneiras que não são da boca para fora, antes sim da vista para dentro. Obsceno, senhores, é o abandono do centro profundamente histórico da capital ribatejana; pornográfica, senhoras, é a podridão a céu-aberto do Tejo; malcriado, rapazes, é o contentor prenhe de lixo dos pés à tampa; impertinente, raparigas, é o esvaziamento turístico de um património que tinha (e continua a ter) tudo para justificar romarias pagantes pró-desenvolvimento local.
Mas o que é que aconteceu a 1 de Outubro último? Aconteceu que as pessoas exerceram o seu incontestável direito democrático à burrice, reempossando nos lugares de mando autárquico mais do mesmo nada. Ou por clubismo partidário ou por abstenção, foi o que foi. Lembram-se das barreiras por consolidar? Lembram-se da estrada encerrada? Ninguém se lembra, cuido bem (mal) que ninguém se lembra. Dividida, a Esquerda ribatejana deu o ouro ao bandido. (“Bandido” por assim dizer, atenção, ó melindrosos senhores do Ministério Público! Linguagem figurada é de antemão perdoada. Vêde bem se ainda me pondes réu por delito opinativo…)
Confio, apesar de tudo, na absolvição de Arlindo. Já confio menos no castigo dos diversos predadores-poluidores do Tejo. Quanto a Pedro, nova corrida, nova viagem. Deixa obra feita no Sá da Bandeira. Sai de pé e de cara lavada. Os actos (não os teatrais) ficam com quem os pratica.
Nisto, cai o pano. E a nódoa nele.


quinta-feira, janeiro 11, 2018

UMA VALSA-HISTÓRIA A TRÊS TEMPOS - Rosário Breve n.º 537 in O RIBATEJO de 11 de Janeiro de 2018 - www.oribatejo.pt

Uma valsa-história a três tempos




Tempo-1 Pode parecer-Vos inverosímil o que de seguida vou contar-Vos. Admito que sim – mas isto Vos garanto: inverosímil mas verdadeiro. Aconteceu mesmo. A Vida & a Morte têm destas coisas. Vamos, pois, a isto:

Tempo-2 A 19 de Dezembro de 2017, o meu querido Amigo & antigo companheiro de bola (três clubes, anos diversos) José Manuel dos Santos Peres morreu. Foi a contribuição sócio-estatístico-hospitalar de Coimbra para o rol de vítimas da legionella dos nossos (e meus) tristes tempos. Nascera a 4 de Agosto de 1961 & casara-se com a Paula a 5 de Agosto de 1985, consórcio amoroso de que nasceu uma filha formosa, a Patrícia. O senhor Peres-pai fôra gravador-ourives do mais fino quilate. (Quantos noivos lhe não devem a finura dos nomes nas recíprocas alianças?) O filho Zé seguiu do pai-Peres fé & profissão, tornando-se muitos anos caixeiro de ourivesaria especializado em relojoaria. (Este pormenor dos relógios é crucial para o que sigo relatando.) Um dia, a ourivesaria que empregava o Peres-filho fechou portas. Indemnizado por tuta & meia, o Zé Peres viu-se no desemprego. Não desistiu. Olha quem. Tirou um curso de vigilância-segurança e arranjou trabalho no ramo. Não era a mesma coisa – mas dava para ajudar ao sustento da casa familiar. Até que, por meados de Novembro passado, caiu doente à cama. Foi acidente de trabalho, dúvida nenhuma: a bactéria mortífera entranhara-se-lhe no organismo durante o turno num dos sítios empresariais que vigiava. Esteve um mês em coma induzido. Não lograram todavia salvá-lo. Inocente de novo, foi a sepultar por as vésperas de Natal. Não consta que algum dia nos retorne.

Tempo-3 Dois dias depois, contei a súmula do exposto no Tempo-2 a um outro meu Amigo de sempre, o Fernando Jorge Domingues Correia. Ele quis saber mais, perguntando-me com aferida pontaria qual o dia de óbito do Zé Peres. Respondi-lhe que a 19. Então, ele fez aquela cara que todos fazemos quando o aparentemente impossível (e daí que inverosímil) entra sem bater por a nossa porta adentro. Eu quis saber porquê: “ – Que cara é essa, Jorge? Conhecia-lo?” E ele disse-me que sim, que conhecia. Disse-me que sim, que conhecia, e mostrou-me o pulso direito. No pulso direito dele (ele é canhoto desde nascido, usa relógio do avesso desde a 4.ª Classe), latejava a encarnado um relógio de ponteiros. Não estranhei nem cor nem avesso de sinistra, posto que benfiquistas nós ambos. Só que não era aquele relógio vulgar o busílis-da-questão. A invulgaridade da questão era de outro teor. Por palavras dele: “ – Ó Daniel, eu só ando com este relógio há dois dias. O que uso há mais de vinte anos avariou-se-me no dia 19. Sim, 19 de Dezembro de 2017. Agora, adivinha onde o comprei. Onde o comprei – e a quem…” Eu gemi: “ – Não pode ser…” E ele: “ – Tanto pode, que foi mesmo assim e é e há-de ser! Comprei-o ao Zé Peres e nunca mais usei outro. Este que trago, estava esquecido na gaveta há anos.” Não foi preciso dizermo-nos mais nada. Olhámo-nos um ao outro – e no rosto de outro & um era, pura como a água da fonte boa, legível a evidência de, uma vez por outra, também o Tempo se dar ao capricho de parar & de se deixar ficar quietinho à espera de que a má-hora, como a do Zé Peres, passe e não retorne. 

terça-feira, janeiro 09, 2018

OITAVA COM PARDAIS + OUTRAS QUE TAIS



OITAVA COM PARDAIS + OUTRAS QUE TAIS




Amo consoladamente os pardais
que o chão lêem com a boca tão esperta.
Abicam & abocam sais minerais
que a Natura dá de porta aberta.
Semelham eles átomos externos
orbitando exposta realidade.
Vigoram, duros, os duros invernos
e o Abril lhes consagra liberdade.

Co’ António Rosinha comi figos
que ele trouxe generoso à minha mesa.
Ele é dos meus mais antigos amigos,
esses da lusa infância concerteza.
Agora estou a sós, qual hibernando.
(Assim tenho estado p’la vida adulta.)
Látego, a bátega fustigando
segue a Natura humana inculta.

Bravia, a pedra não aproveitada
expõe da terra os ossos fracturados.
E a rasteira fauna, remolhada,
exerce a profissão dos apeados.
Na estação-de-serviço, a carneirada
(compro)mete (a) gasóleo (o futuro).
P’ra ela, o pardal só vale nada,
coitada gente própria de monturo.

Janeiro, Inverno & Rosas já florescem,
dadivando beleza infinita.
E dos pólos os frios recrudescem
congelando a sopa na marmita.
Velhotas açoitadas pelo vento
formigam tropegamente pela rua.
Crianças? Já as não há, o q’ lamento.
(E a quem alguma tiver lhe chame sua.)


Café Capa Negra II,
Urbanização do Loreto,
Coimbra,
11h19m de Terça-Feira, 9 de Janeiro de 2018


sexta-feira, janeiro 05, 2018

Ano Novo, Lusa Velha - Rosário Breve n.º 536 in O RIBATEJO de 4 de Janeiro de 2018 - www.oribatejo.pt





Ano Novo, Lusa Velha




Escrevo-Vos no dia-primo de Ano Novo sob uma campânula de cartão chamada céu(-muito-)nublado. O Sol não rompe a cerração. Há uma latência pré-pluvial nos corações agabardinados. Há, há.
Defronte, onde há mais de quatro décadas era o bairro-de-lata da Ervinha, moram as habitações ditas sociais dos antigos pobres da zona. É a esta padaria-pastelaria que os ditos vêm. Estão na mesma: pobres & antigos (crianças incluídas).
Há quarenta & tal anos, isto não era padaria nem pastelaria: era um Café atabernado, servidor (sem modem) de uma magnífica cerveja-à-pressão & de solo fofo e ruidoso, pois que atapetado de cascas de tremoços & amendoins, para além da serradura pejada de beatas mal apagadas & de escarros estrelados como ovos frescos sobre chão de mosaicos que até lembrava a Abadia de Westminster.
Curiosamente (ou paradoxalmente, sublinharão alguns mais puristas do método dubitativo), o ambiente não era grosseiro. Também não era fino. Era o que era: nenhum patronato & muito chinelo-de-enfiar-o-dedo, nenhuma beleza fêmea & muita dentuça podre, nenhuma biblioteca & capela nenhuma – mas era humano, era próximo, era nosso. E só nosso.
O século XXI trouxe consigo as pastelarias todas iguais entre si. Resistimos-lhe(s) como podemos: a roupa do maralhal é melhor do que a de antigamente mas o fino & a caneca são piorzitos; a televisão é a cores mas está sempre na TVI (excepto quando há bola que justifique a Sport TV); os clãs continuam a mastigar em voz-alta mas agora “é mais bolos” porque amendoins & tremoços parecem mal no futuro.
Em suma, é uma alegria. Estamos todos vivos, gostamos todos de cá andar, umas vezes a coisa fia mais fina, outras pia mais grossa, alguns de nós já lavamos a placa com elixir bucal de largo espectro de acção bactericida, toda a gente tem phones espertos, que é o que smart quer dizer, todos gostamos do Marcelo mas do Coelho não porque não foi o partido deste a transformar as barracas de antigamente nas casas de telha & tijolo que ainda agora ali estão e por ser próprio dos falhados como nós gramar os (ou com os) vencedores mas não com os falhados iguais a nós tal como o canhoto dos bilhetes fica dextro ao espelho. (Ainda agora: a duas mesas juntas mas sexualmente separadas, quatro maridos pançudos falam da hérnia do Presidente com descontracção enquanto as respectivas pançudas lacrimejam consternação pelo precário coração do Salvador Sobral, “que é o que dá amar por dois, coitadinho”.)
Hemos de reconhecer que de cá para lá como de lá para cá a via fica muito melhor assim alcatroada do que em paralelo, assim como onde era o baldio do lixo subirem agora dois pinheiros-mansos, um salgueiro-da-babilónia & um limoeiro comunitário-de-todos que até arrepimpa de gosto ver, nem o futuro poderia ser só coiso-digital-smart.
Os que éramos já antigos de mocidade há quarentas & picos anos – ocupamos hoje o lugar dos que eram moços há oitentas. E é assim que está bem, assim é que é conversa.
(Eles daqui não sabem que saem em papel de jornal na primeira edição do ano. Antes assim: chamar pobres a (mal-)remediados poderia melindrá-los. Pod’ria, pod’ria: e eu não quero aqui grosserias. Nem finuras. Finuras & grosserias que vão mas é lá para onde se sumiram os tremoços & os amendoins & os melhores finos da Península Ibérica.)
Nisto, desata a chover. A esplanada debanda em imprecações. Fico mais sozinho do que cão sem pedigree. E é desprovido de mais literatura que me molho sem pressa à chuva de 1975, ano em que a malta era lusa & nova, ao passo que 2018 só nos filmes do espaço dUSAmericanos.




terça-feira, dezembro 26, 2017

The “Pale Blue Dot” — the Voyager‘s view of Earth seen from the outer edge of the Solar System. (Photograph courtesy of NASA.)




https://www.brainpickings.org/2017/12/21/reflection/?utm_source=Brain+Pickings&utm_campaign=a0ca5edc9c-EMAIL_CAMPAIGN_2017_12_22&utm_medium=email&utm_term=0_179ffa2629-a0ca5edc9c-236363293&mc_cid=a0ca5edc9c&mc_eid=31796d253b


Ver também:
https://www.brainpickings.org/2016/04/25/black-hole-blues-janna-levin-joseph-weber/

quinta-feira, dezembro 21, 2017

23 verbogramas só porque sim - Rosário Breve n.º 535 in O RIBATEJO de 21 de Dezembro de 2017 - www.oribatejo.pt





23 verbogramas só porque sim



1 Mulher-de-calças-cor-de-verde-musgo-molhado.
Nádegas dela: duas-meias-melancias-pingonas.
2 Rapaz-de-bigode-escovinha-ralo.
Nariz dele: milhafre-adunco-hebraico.
3 Cão-à-chuva-pela-berma-da-estrada.
Cauda dele: ponto-de-interrogação-sem-pergunta-antes.
4 Homem-de-guarda-chuva-preto-aberto.
Metáfora dele: morcego-convexo-sustendo-as-lágrimas.
5 Aqueloutro-homem-nosso-leitor-que-no-Quinzena-me-interpelou.
Palavras dele: “O-senhor-achegue-lhe-e-arrefinfe-lhe-com-força,- home’!”
6 Rapariga-de-cabelo-cintado-a-seda.
Ornitologia dela: espécie-de-andorinha-primavera-perpétua.
7 Recentes-chuvadas-torrenciais-pós-seca-prolongada.
Lição delas: Natura-maltratada-dá-se-por-vingada.
8 Maria-do-Mar-peixeira-de-Sesimbra.
Marido dela: pescador-Serafim-Petinga,-tinto-ou-branco-tudo-é-pinga.
9 Menino-absorto-à-janela-vendo-o-que-chove.
Olhos dele: de-gato-humano-verdes-como-esmeraldas-incendiadas.
10 Sem-abrigo-romeno-a-quem-dei-blusão-impermeável-que-me-tinham-dado.
Olhar dele: relâmpago-de-gratidão-surpresa-menino-outra-vez-como-o-da-janela.
11 Tecla-do-hífen-do-meu-computador-portátil.
Aspecto dela: cor-de-burro-fugido-ao-dono-por-uso-&-abuso-contuso.
12 Senhora-que-em-2004-vi-no-jardim-da-Casa-Museu-Passos-Canavarro.
       Aura dela: gladíolo-azul-cabeça-toda-d’ouro-viúva-de-poeta-lindíssima-septuagenária.
      13 Funeral-do-meu-Amigo-José-António-Conceição.
Família & Amigos dele: gente-de-vidro-atirada-à-bruta-ao-granito-da-realidade.
14 Quatro-“clubes-grandes”-do-futebol-português.
Por ordem decrescente: Benfica-AntiBenfica-Sporting-&-União-de-Coimbra-&-nem-mais-um.
15 Dez-andorinhas-6-+-3-+-1-em-cabos-suspensos.
Metáfora delas: raparigas-de-cabelo-cintado-a-seda-perpétua.
16 Jogadores-de-sueca-à-mesa-de-pano-verde.
Aposentações profissionais deles: polícia-camionista-cantoneiro-cardiologista.
17 Razão-pela-qual-a-Vida-é-Ave-também:
Por-trazer-a-morte-no-bico-com-ou-sem-grão-na-asa.
18 Pergunta-de-François-Villon-segundo-Umberto-Eco:
“Mas onde estão as neves do ano passado?”
19 Pergunta: O-que-é-a-idade?
Resposta: É-um-total-transitório.
20 Pergunta: O-que-é-ser-intelectualóide?
Resposta: É-chamar-Alorna-à-própria-marquise.
21 Pergunta: A-figura-do-Dom-Quixote-ainda-é-útil?
Resposta: É,-porque-o-que-Cervantes-também-serve-depois.
22 Pergunta: Por-que-motivo-é-tão-fácil-identificar-um-fumador-de-haxixe?
Resposta: Porque-entre-a-Pedra-&-o-Altar-ele-nunca-dá-lume-ao-segundo.
23 Nascimentos-das-minhas-Filhas.
Visitantes delas: Gaspar-Belchior-&-Baltazar-trazendo-consigo-ouro-incenso-&-mirra, sob a belenense & auspiciosa Estrela.



quinta-feira, dezembro 14, 2017

Cegueira, clarividência & circularidade do latinismo “et cœtera” - Rosário Breve n.º 534 in O RIBATEJO de 14 de Dezembro de 2017 - www.oribatejo.pt





Cegueira, clarividência & circularidade do latinismo “et cœtera”



Como tantas pessoas, senão todas, vi & vivi já manhãs cegas & noites clarividentes. Sobre umas como outras, os anos exerceram a sua autoridade tão obnubiladora quão propensa à mera, cerce & inescapável obliteração.
Nem a umas lamento, nem a outras louvo – limito-me a dar, de outras como de umas, essa espécie de livro-de-razão duplicemente chamado lucidez & resignação. Um mote subjaz, sólido, a estas voltas: a própria eternidade se volve efémera quando exposta ao esquecimento.
É possível que algumas circunstâncias loco-temporais da minha experiência logrem convencer o/a Leitor/a a não desistir já da corrente crónica. Assim:
pela tarde de uma sexta-feira natalícia de 1984, comprei, numa livraria de referência da Cidade dos meus vinte anos, dois exemplares da tradução portuguesa de Ficciones, do argentino Jorge Luis (sem acento) Borges (ed. Livros do Brasil, Lx., trad. de Carlos Nejas, revisão de Maria Ondina & capa de Lima de Freitas, © 1969). Recordo tê-lo lido na altura com o eufórico ardor de quem começa a reconhecer na (boa) Literatura uma forma-de-vida preferível à vidinha quotidiana.
Três décadas & três anos depois, reencontrei-me com o meu exemplar – o gémeo que dele comprara era de presente para um meu Irmão, mano que hoje, para nossa amargura, se encontra bastante doente. Na manhã de 29 de Novembro do (ainda) corrente 2017, atirei-me à releitura dessa obra magistral, cônscio embora de não ter já os vinte anos d’aquando a primeira leitura & temeroso de os meus correntes cinquenta-e-três, a-páginas-tantas de tantas páginas lidas desde tal remo(r)to 1984, me poderem ofuscar a memória dulcíssima do primeiro fascínio decorrente da descoberta de Borges. Já me tem acontecido, isso de reler em plena madurez livros que me (des)concertaram (n)a mocidadeficando-me o palato da mente por modos insalubre, insaciado: e decepcionado algumas vezes, até.
Tal não foi tal, desta vez. Ficciones (Ficções) continua a ser uma obra-prima de curtos relatos – daquela concisão lapidar tão ao modo & do gosto borgesianos. O Próprio J.L. Borges, no Prólogo à primeira parte da obra (datado de “Buenos Aires, 10 de Novembro de 1941”), é particularmente explícito quanto a este aspecto:
“Desvario laborioso e empobrecedor, o de compor vastos livros; o de explanar em quinhentas páginas uma ideia cuja exposição oral cabe em poucos minutos.”
(Monsieur Proust n’est pas d’accord, don Jorge Luis!)
Como sempre faço em face de livros bons, enriqueço-me de vocábulos & de locuções cuja partilha pública acresce sobremaneira ao meu prazer privado. Tenha uma pérola dessas para Vós. A ostra de que provém é a pág.ª 123 da sobredita tradução portuguesa:
“Pensou que, à hora da morte, ainda não teria concluído o encargo de classificar todas as recordações de infância.”
Ora, por não ser chegada (não ’inda) nem a minha nem a tua, ó Leitor/a, inexorável hora terminal, será talvez curial (re)começar por te (re)dizer que
“Como tantas pessoas, senão todas, vi & vivi…” Etc.


quinta-feira, dezembro 07, 2017

Dois óbitos & uma dívida - Rosário Breve n.º 533 in O RIBATEJO de 7 de Dezembro de 2017 - www.oribatejo.pt





Dois óbitos & uma dívida



Na passada semana, o obituário nacional viu-se acrescido de dois nomes (re)conhecidos por quase todos nós, Portugueses: o do multimilionário Belmiro de Azevedo & o do músico Zé Pedro.
Do hipermerceeiro propriamente dito, parece que tinha uns milhões de euros; quanto ao guitarra-ritmo dos Xutos & Pontapés, os milhões que detinha eram de amigos & admiradores.
Belmiro pertencia àquele um-por-cento do mundo que está na raiz directa do que acontece aos irrelevantes noventa-e-nove percentuais do resto demográfico do planeta.
Nenhum rancor nem inveja alguma me movem contra a imagem do engenheiro. Associei-o sempre, todavia, a baixos salários, a empregos precários e a carreiras profissionais sem depois-de-amanhã. Mas não criou ele muitos postos de trabalho? Decerto. Só que a grande massa dos (sub)assalariados do rol de pagamentos do engenheiro Belmiro não há-de ter muita cera votiva a derreter in memoriam do plutocrático defunto. O hipercapitalismo é um anti-humanismo: e ninguém me tira deste convicto finca-pé ideológico-económico.
Já Zé Pedro me parecia de outra dimensão. Tipo do eterno-jovem, sabeis? Genuíno, de sorriso leve sem leviandade – uma estrela humilde, enfim.
Não seria um génio musical – mas também nunca se armou em tal. Interagia como peixe na água com as múltiplas gerações de músicos que admirou e que o admiravam. Para (muita) pena minha, não pude assistir, aqui há uns anitos, no estádio da minha Cidade, à abertura dada pelos Xutos ao concerto conimbricense dos sempiternos (até mais ver) Rolling Stones. Sei de fonte-limpa que tal actuação foi uma das mais altas alegrias da & na vida dele. Ele & os companheiros “aqueceram” a multidão para os senhores que se seguiam: Jagger, Richards, Watts & C.ª. E fizeram-no à maneira de “homens ao leme”.
Em outras paragens, no entanto, assisti aos Xutos ao vivo. Era gratificante a mescla de idades do auditório: avós & netos & maduros & noviços devolviam unissonamente aos músicos os muitos temas celebrizados por esta banda começada aos 13 de Janeiro de 1979.
Morrer de juventude aos 61 anos não me parece bem. Curiosamente, a má-nova do passamento de Zé Pedro trouxe-me à lembrança um tal António Variações & um tal (esse sim, genial) Bernardo Sassetti. Ardis da memória.
Para todos nós, com ou sem milhões de euros e/ou admiradores, a Lei é material, concisa, orgânica & inexorável: nascendo, cometemos o primeiro acto necrológico. Não sei se, da imensa fortuna que acumulou em vida, restará agora a Belmiro de Azevedo alguma moeda com que pagar ao barqueiro do letal rio – mas sei que lhe pagámos sempre o que lhe comprámos. Por conseguinte, contas aviadas com ele.
Todavia, é ao artista Zé Pedro que ficaremos para sempre a dever alguma coisa. E essa “alguma coisa” não se vende em hipermercado algum, senhor engenheiro.

sexta-feira, dezembro 01, 2017

Uma gratidão vezes 32 - Rosário Breve n.º 532 in O RIBATEJO de 30 de Novembro de 2017 - www.oribatejo.pt





Uma gratidão vezes 32




Não se trata nem de elitismo meu nem de apatia minha – mas a verdade é que sinto cada vez mais repulsa por certo opinativo-jornalixo que neste morredouro de tansos chamado Pátria se pratica 24 horas por dia / 7 dias por semana / 12 meses por ano: julgo eu que desde 1143, ainda por cima.
Estou sendo completamente franco para convosco: e bem mais que de costume.
A que me refiro eu em concreto? Em concreto, a tudo: ao terrorismo parolo & ubíquo do futebol; ao facto concretíssimo (ou “naturalíssimo”, já?) de as pessoas irem ao hospital para se curarem de uma maleita vulgar e saírem de lá de pés tão juntos quão frios por causa de um mal que nem era o que as lá levara; os especialistas de toda-a-merda-&-mais alguma a propósito de nada-&-de-tudo (com prevalência do nada, naturalmente); o carnaval grotesco a propósito da tragédia dos incêndios deste ano; a impunidade (até à redentora prescrição judicial) dos corruptores de toda a espécie: política, económica, económica & política.
Farto disto. Não é do meu País que estou farto. É da espécie de desPátria em que se deixou enredar. Números: o salazar-marcelismo durou 48 anos; o 25 de Abril já foi há 43. Pergunto: nada aprendemos em quási outro tanto tempo? Continuamos a fazer da persignação o que deveria ser marcha porquê? Nas redes sociais (que entretanto abandonei de vez por razões cá muito minhas), a idiotia grassa como uma epidemia tão impossível de segurar como, com as mãos, as ondas do mar.
Reajo assim: ambulo pelas ruas. Anoto o que vejo. Ouço o que dizem. Tomo café devagar como um beija-flor filmado em câmara-lenta. Uma vez por semana, é-me dado o alto privilégio de escreve’dizer em voz-alta, nesta coluna mesma, o que o mundo me suscita.
E aqui era ao que eu queria chegar – e cheguei. O meu/nosso/Vosso O RIBATEJO fez por estes dias 32 anos. Em papel como electronicamente, este Jornal NUNCA é jornalixo. É SEMPRE ético, isento, deontológico & limpo sempre de corpo & alma.
Sai às quintas em papel e todos os dias pelo ‘site’ http://www.oribatejo.pt/.
E é uma honra ter-vos ao alcance do olhar, senão das mãos, através dele.
Sou-Vos gratíssimo por tal honra. Ela vos presto em grato retorno.


quinta-feira, novembro 23, 2017

EFEMÉRIDE COM ASAS & GARRAS - Rosário Breve n.º 531 in O RIBATEJO de 23 de Novembro de 2017 - www.oribatejo.pt





Efeméride com asas & garras



Novembro é muito mnemónico para mim, tirante os outros onze meses de cada anuário. Vós tendes lido que sim, não ireis agora desmentir-me sem sequer me dar cá por esta palha.
Foi a 1 de Novembro de 1981. Sétimo de sete filhos, era eu finalmente dono & senhor do meu quarto de celibatário sem pulsões esquisitas de adolescente esquizóide.
Seis meses antes dessa fatídica data, um pardal perdido escabeceara em desespero a vidraça da minha janela. Não tinha leme de navegação. Isto é: não tinha cauda. Recolhi-o na terra como quem colhe do céu uma esmeralda castanha. Dizem que os pardais não são de cativeiro. Coitados. Percebem nada da coisa. Os pardais, como as pessoas que o mereçam, são de quem os ame – mesmo sem rabo. E cativeiro nunca foi amor, a não ser nas Endechas que Camões dedicou a Bárbara.
Chamei-lhe Cachopo. Nunca mais saímos do quarto, claro. Acabei o 12.º ano com a dificuldade própria dos maridos emigrados no Luxemburgo que deixam na aldeia as mulheres ao deus-não-dará. Durante aquele feliz semestre irrepetível, o meu Pardal escagaçou com alegria a minha colecção completa das Obras idem do meu amado Eça. E o meu Conan Doyle todo do meu Sherlock. E os meus primeiros Cortázar, Calvino, Camilo, Camus: todos por C como o meu Cachopo.
Dava-lhe água de beber pela boca. Pela minha boca, digo. Ele sentia o copo a içar-se aos meus lábios. Vinha logo, torto como o bêbedo que eu vim a ser, poisar-me na cabeça. Descia-me a orelha pela suíça. E bebia-me da boca como jamais mulher alguma foi jamais capaz de fazê-lo.
As moscas gordas desse Verão foram a nossa comum alegria carnívora. Nunca spray-fumiguei o meu quarto. Não, nada disso. Esperava por elas entre vidraça e cortinados. Esmagava-as com a delicadeza que me é própria e que Vós tão bem sentis nestas crónicas lacrimosas. Depois, sobre o mesmo papel onde eu já então escrevivia os meus versos ilegíveis, dispunha-as em parada de morgue. O Pardal vinha comê-las, uma a uma, como quem vai ali à cervejaria comer devagar o bife-da-casa. O resto era A&A&A: Água, Arroz & Amor. 
A 1 de Novembro de 1981, comigo fora de casa, o meu Irmão Fernando deixou-me entreaberta a porta do quarto. Em casa de meus Pais, não trancávamos portas. Era como (não) fazíamos ao coração – o que deu no que nos (não) deu para o resto da vida.
Um gato vizinho entrou e matou-(m)o. Dei com o meu Pardal sob as patas do felino, morto já e pronto a ser comido como uma mosca das que eu criava para ele. Pontapeei o gato com a força do desespero. O desespero deu para o gato ir bater no caule do cedro a cinco metros de lonjura. Não consegui acabar de assassinar o assassino. Mas nem eu era Cristo, nem o meu Cachopo podia ser Lázaro. Sepultei-o à vista da janela do quarto que foi nosso. Usei uma caixa-de-fósforos de cozinha como ataúde. Não orei por ele: Deus não existe.
Depois disso, o mesmo gato levou-me o meu Irmão Jorge & os meus Pais. Mais alguns Amigos. É um gato P&P&P: persistente, profissional, permanente.
E nunca tem o rabo de fora, como Deus costuma ter.


quinta-feira, novembro 16, 2017

No táxi 17 do senhor Silva (ou Um doutor de rostos) - Rosário Breve n.º 530 in O RIBATEJO de 16 de Novembro de 2017 - www.oribatejo.pt





No táxi 17 do senhor Silva
(ou Um doutor de rostos)



Aconteceu-me a 3 de Novembro do corrente ano. Eu tinha passado a manhã, a hora de almoço e mais duas horas a escrever. Coisa infelizmente rara, chovia. Eu tinha um euro e sessenta cêntimos na algibeira. Por volta das quatro da tarde, entreguei à gerência do Café os sessenta cêntimos da bica. Pus-me então a pé, de derradeira moeda de euro no bolso, a caminho de outro estabelecimento onde pudesse aproveitar o entardenoitecer para escrever ainda mais qualquer coisita. Aproveitei uma aberta pluvial e ala que já era (de) tarde. Fui andando. Voltou a chuviscar a meio do meu percurso. A descer, todos os santos ajudam, mas a subir nem o Diabo empurra. Ora, eu ia subindo.
Foi então que a meu lado, a meio de uma ladeira mais íngreme do que a minha carreira literária, parou um táxi. Disse-me o senhor taxista assim: “ – Amigo, para onde vai?” Eu respondi-lhe que “para tal parte assim-assim”. E ele para mim: “Calha bem. Vou buscar aí mesmo um cliente. Entre, amigo, que está de chuva. Temos de ser uns para os outros.” Eu fiquei siderado. Ainda tentei dizer-lhe que não trazia comigo dinheiro nem para a bandeirada da porta do lugar-do-morto. Ele, todavia, nem quis saber. Mandou-me entrar sem encargos quaisquer. Entrei. O trajecto era breve, mas deu para frases trocadas.
Ele disse-me que era o Silva do Táxi 17. E mais disse: “ – Eu parei porque vi que a sua cara era a de um homem sério, honesto e trabalhador. Vai daí, nem hesitei. Dou-lhe boleia com todo o gosto. Sabe, eu ando nesta tarimba de taxista há 51 anos. Já sou uma espécie de doutor de rostos. Tiro-os logo pela pinta.”
Depois, perguntou-me de onde eu era. Eu disse-lhe a verdade: “ – Sou daqui perto, dali da Pedrulha.” E ele então assim para mim: “– Essa é boa. Tenho lá um concunhado. É o António Lucas, conhece? Ele é casado com a irmã da minha mulher. A minha é Natalina e a dele é Maria.”
Eu conhecia, claro. E repeti-lhe a banalidade de o mundo ser pequeno. E acrescentei: “ – Mas a sua bondade para comigo não é pequena como o mundo. Fico-lhe muito grato.”
Deixou-me na esplanada que eu almejava. Fiquei sem poder escrever uma linha. Tinha sido “vítima” de um acto filantrópico da parte de um desconhecido. Não podia ser. De novo a pé, rumei à minha terra. Fui a casa do meu Amigo Tonito Lucas. Contei-lhe o que se tinha passado. Já era esta crónica em andamento.
E o Tonito assim para mim: “ – Eh pá, tiveste sorte! O Silva é um porreiraço. Entre colegas da profissão, até lhe chamam “doutor”. Ele sabe tudo do ofício e não se importa nada de ensinar os mais novos no ofício.”
Pedi-lhe mais esclarecimentos. O senhor Silva é homem para 75, 76 anos. É casado desde sempre com a Natalina, irmã da Maria do Lucas. É ali de Vale de Marelo, Semide. Tem duas filhas (Margarida e Catarina) e dois netos (Fábio e Ricardo). Trabalhou desde cedo em fábricas de fiação. Depois fez tropa em Moçambique. Ainda trabalhou para o Serviço de Águas e Saneamento do município de Coimbra. Passou depois a taxista empregado. Logo que pôde, tirou alvará profissional e tornou-se patrão de si mesmo. Até hoje. Ou: até dia 3 de Novembro passado, jornada de chuva em que me deu boleia sem ser por esmola mas por pura solidariedade humanista.
Lembro-me de ele me ter perguntado o nome. Eu disse-lhe a verdade: “ – Sou Daniel.” E só então percebi toda a verdade: havendo-me dito ele que o meu rosto era de homem sério, honesto e trabalhador – e para mais chamando-me Daniel –, o senhor Silva do Táxi 17 não me tinha dado boleia a mim. Tinha antes, sim, tirado da chuva o senhor meu Pai. Esse sim sério, trabalhador e a honestidade em pessoa. Ou por outras palavras: o senhor Daniel meu Pai, sócio póstumo do senhor Silva do Táxi 17.

quinta-feira, novembro 09, 2017

Efeméride com recado - Rosário Breve n.º 529 in O RIBATEJO de 9 de Novembro de 2017 - www.oribatejo.pt







Efeméride com recado



1 Foi há quarenta anos. A 5 de Novembro de 1977, vi publicado, pela vez primeira na vida, um texto meu. E logo no suplemento literário infanto-juvenil de um jornal de âmbito nacional. Eu tinha treze anos – e o senhor meu Pai era comprador e leitor quotidiano de dois diários nacionais, nesses anos em que o 25 de Abril ainda era uma data relevante. Era também a época de leitura & análise integral de obras portuguesas logo nos 7.º e 8.º anos de escolaridade. Fui abençoado por duas delas: Esteiros, de Soeiro Pereira Gomes, e Seara de Vento, de Manuel da Fonseca. Notareis facilmente certos resquícios neo-realistas no tal meu primeiro texto em letra-de-imprensa. O título é algo Vivaldiano, mas não vos equivoqueis: a coisa era mesmo de ter lido e amado o meu Soeiro e o meu Fonseca. Eis, pois, o dito:

2 AS QUATRO ESTAÇÕES
Quando chegou a Primavera / transbordou vida nos campos e nos / olhos dos homens. Houve até quem / dormisse por entre madressilvas / congeminando formas de melhorar / a vida. //
E no Verão, quando o sol ardente / lambeu os corpos e tornou mais / difícil o trabalho aos aldeões, os miúdos / assaltaram o rio, buscando / na frescura das águas aventura e / desporto.
Chegou o Outono. As folhas das árvores caem como / lágrimas que largam o que foi / a sua companhia. E a poesia dos homens / morre com o enterrar das enxadas / na terra de sempre. //
Mas cai o Inverno, e não transborda agora / vida nos olhos dos homens, nem os garotos / procuram aventura. A chuva / encharca a terra e alaga a alma / aos homens. Afoga-se na taberna / o desejo de progresso. / Terras de sempre. //

3 Pessoal, atenção & cuidado: esta evocação nada tem de auto-adoração. Nada disso. Tem outro intuito. E o outro intuito é este: mandar recado a um dos 21 presidentes de câmara eleitos no 1.º de Outubro recente. Recado: Senhor Presidente, não acho que o senhor saiba quem foram Soeiro Pereira Gomes e Manuel da Fonseca. Senhor Presidente, acho que V.ª Excelência nem lê as minhas crónicas neste Jornal (embora eu tenha a certeza de que a seus augustos pavilhões auditivos são sopradas as partes-gagas das ditas crónicas a seu respeito.) Ainda assim, Senhor Presidente, há duas outras obras cuja leitura talvez melhorasse o que o senhor (des)faz à & da sua terra. Essas obras são: Dinossauro Excelentíssimo, do português José Cardoso Pires, e O Outono do Patriarca, do colombiano Gabriel García Márquez.
Se não tiver pachorra para lê-las de fio a pavio (até porque nenhuma delas tem bonecos), vá o Senhor Presidente ao Google à cata de resumos fáceis dessas magníficas narrativas. Ou então, em generosa contraproposta minha, não ligue nada nem a mim nem a livros. Aproveite antes o tempo do seu mandato para fazer com que o território a seu (in)feliz (co)mando se não torne, sabe o Senhor em quê? “na terra de sempre”.


quinta-feira, novembro 02, 2017

Fala o Senhor Professor Abelha - Rosário Breve n.º 528 in O RIBATEJO de 2 de Novembro de 2017 - www.oribatejo.pt





Fala o Senhor Professor Abelha




Sou um fulano de rotinas. Sou-o de facto. Talvez o seja pela dupla ilusão da segurança e da sobrevivência. A perna das calças em primeiro é sempre a esquerda. Levo sempre o mesmo número de cigarros na cigarreira. Frequento dois Cafés: um de avenida à sombra de tílias; outro de urbanização popular, a cuja praceta preside um choupo todo bonito. A bica matinal é no das tílias; o resto das beberagens é no do choupo. No bornal, os cadernos a manuscrever vão na horizontal; os livros a consultar, na vertical. Os lápis só convivem com os da sua raça no lado esquerdo do estojo triplo. A caneta, os marcadores e as esferográficas, no direito. Ao centro, borracha, afiadeira, tesoura, cola. É só assim que posso ser feliz. E seguro. E sobrevivente.
No Café das tílias, repito com os donos (Luís & Rita) sempre a mesma graçola cifrada: que o copo de água é a sessenta cêntimos, enquanto a bica propriamente dita é oferta da casa; no Café do choupo, peço coisas tipo “uma-ucal-fresquinha-com-meia-torrada-com-manteiga-só-dum-lado”. Respondem-me que sim-senhor-Abelha. E servem-me o bagaço, naturalmente. É uma forma de felicidade como (quase) qualquer outra. Neste mesmo estabelecimento, o Martim (filho do casal que gere a casa, Leonel & Nélia), chama-me de vez em quando para o ajudar nalgum pormenor dos trabalhos-de-casa: ler, escrever e contar, sabem? O menino nem sabe a alegria que me dá: chama-me “Senhor Professor” e depois aperta-me a mão como os homens de bem fazem uns aos outros. Ontem ofereci-lhe livros próprios para a idade dele. Ficou contente, mas voltou logo que pôde à caderneta de cromos da bola que anda a preencher.
O problema é quando entardenoitece. Sinto-me invariavelmente perdido num descampado feito de prédios alheios eriçados de casas a que nunca chamarei minhas. Remedeio o embaraço pondo-me a cirand’ambular a pé pela noite como os doidinhos & os guardas-nocturnos de antigamente. Como a Churrasqueira da minha terra só fecha às 23h00m, para lá me dirijo. Chego-me a ela, adiro a pança ao balcão e peço qualquer coisa tipo “uma-ucal-fresquinha-com-meia-torrada-com-manteiga-só-dum-lado”. Respondem-me sempre: “Está bem, abelha. Compreendi-te.” E servem-me o bagaço, naturalmente. Estou finalmente em casa. Por assim escrebeber, perdão, escreviver, perdão, por assim dizer.

sexta-feira, outubro 27, 2017

Escrevo sempre a mesma coisa, ora vejam - Rosário Breve n.º 527 in O RIBATEJO de 26 de Outubro de 2017 - www.oribatejo.pt







Escrevo sempre a mesma coisa, ora vejam



1 (2006) Antuzede, o Sol mais total deste mundo. Tenho quatro anos. Há funeral de alguém velho, alguém da terra do Pai. O Pai leva-me. Recordo a totalidade pânica do Sol. Em descampado (ou em esta mesma Praça, tantos anos depois’antes), a urna – negra, toda feita de sombra. A par do achado (sob um cartão) no Pátio, é a minha primeira – quiçá definitiva – recordação. Isto tem de estar a acontecer em 1968. Duvido de que possa ser já 1969. Comporto-me como o principezinho que sou, filho tardio de um homem de 51 anos, à data do funeral. Tenho eu hoje 53 feitos, sou mais velho do que essa versão do meu Pai. Como é que isto pode (não) ser, verdade? Verdade. Mentira. Algures nessa cabeça de quatro anos há já sinais desta de 53. Certa afinal serenidade ante o descalabro da morte individual, o escândalo dessa lei não votada nem vetada. Certa concertação resignada ante a totalidade, o absurdo, o corriqueiro, o é-igual-para-todos. (Muitos anos depois’antes, aqui voltarei para inumar José, pai de Joaquim Jorge, Carvalho.) O Tempo, como as medusas feitas de água translúcida, transparecendo-se de si mesmo em volutas de luz + água + resíduos saibro-argilosos, cinema de um só bilhete para a eternidade do Domingo. Nem alegria, nem tristeza, nem outrossim agonia ou júbilo – mas tão-só uma espécie, não sei, sei lá, de sideral serenidade baqueando de pau, bola & ponto ante as bancadas desertas, sobre rala relva, que aliás o descampado do Morto-de-1968 não criava.

2 (2017) - Era uma lembrança veemente da primeiríssima infância: uma praça árida cujo chão de terra aparecia queimado sem sombra nem clemência pelo sol vertical de Junho; os cangalheiros haviam pousado o caixão, limpavam os rostos com grandes lenços brancos; o morto esperava a retoma sem o mínimo queixume; as mulheres eram perfeitos corvos de um negro quase azul, como o de certas noites; e ele não podia, então, ter mais de quatro anos. A lembrança não era equívoca: o funeral continuava a ter sido na aldeia natal do Pai, que o levava no préstito pela mão do lado do coração. Não se tratava, por isso & não ainda, do funeral do Pai. Era o de um homem que já era homem quando o Pai era menino. E então, num golpe cerce, passara meio-século.
A lembrança não era apenas veemente mas assaz recorrente ainda. Não lhe doía nem o animava – era como o nariz a meio da cara sem ter de pensar nisso para que continuassem a existir ambos: ele & seu nariz; a lembrança & ele. Era também como o funeral do Pai: o funeral passara; a morte do Pai, não. E mais isto: aos doze anos, ocorreu-lhe de repente (também num Junho inclemente de sol incendiário) que o Pai poderia morrer um dia. Tal eventualidade escandalizou-o. Estava no quarto da casa paterna. Brincava com lápis-de-cor e calendários, arredondando os dias aniversários da Família com cores diferentes: a Irmã a cor-de-rosa; o Primeiro-Irmão a roxo; o Segundo-Irmão a castanho; o Terceiro-Irmão a verde; os Gémeos Quarto & Quinto, a laranja & encarnado; e o dele a amarelo; o do Pai, a azul; e o da Mãe, a mesma rosa da única Filha. Então, quando azulava o 10 de Abril paterno, a possibilidade de lhe morrer o Pai. E o baque gástrico: como se o coração tivesse passado a morar no estômago. Abandonou brincadeira & quarto, saiu para a torreira solar que deflagrava no pátio, deu água aos cães antes de os desacorrentar, foi com eles para o monte colher os espargos do esquecimento e o caule do funcho que uns poucos anos depois lhe haveria de perfumar, escarchando-o, o anis da orfandade adulta.
Tais lembranças tornaram-se ora crónica de jornal. A vida tornou-se Outubro – mas a inclemência solar é a mesma. Tenho a boca a cheirar a funcho. Antes fosse a espargos.

quinta-feira, outubro 19, 2017

Fora, Pedro! Bem-vindo, Tomé! - Rosário Breve n.º 526 in O RIBATEJO de 19 de Outubro de 2017 - www.oribatejo.pt





Fora, Pedro! Bem-vindo, Tomé!



Ando há tempos para V. dar conta de dois livros intimamente ligados a Santarém cuja leitura fiz com zelo, lápis, agrado e proveito. Ainda não vai ser desta. E ainda não vai ser desta porque a chaga incendiária – que nos mata tanta gente, nos destrói tantas habitações, nos arrasa tantas matas e nos pulveriza tantas empresas – é a recorrente e implacável temática de cada dia, semana a semana, mês a mês.
Pus-me a odiar São Pedro, coitado do barbudo das chaves-do-Céu.
Na minha mocidade (e na Vossa), as estações eram quatro: e começavam à hora marcada do dia certo. A Primavera existia, vinha no bico das andorinhas, o arvoredo rejubilava, a temperatura era suave & adequada. O Verão amarelejava de grandes fenos, extensos trigais, fundia o azul do céu no azul do mar, os rios ainda não eram fossas pecuárias. O Outono? Era todo Vivaldi: revoadas de folhas revoluteando como arcadas de violino, havia o prazer das luvas de lã, as botas de borracha pelas ruas de terra sem macadame. O Inverno era frio conforme a competente e obrigativa disposição legal desse tal São Pedro que, naqueles bons tempos, trabalhava bem & devagar. Tudo isto deu o berro. Tudo isto ardeu.
A estiagem prolonga-se indecentemente há meses de mais. Em plena segunda metade de Outubro, a brutidade solar, sem ozono que superiormente a estorve, esturrica-nos a nossa própria sombra, que, pelo chão, feita carvão, se esbraseia mais do que nós até. É uma coisa intolerável, este calor sem freio nem calendário. É um túnel de fogo sem água ao fundo. E o imbecil do Trump a rasgar acordos pró-climáticos. E o aqueci/esqueci/mento global. E os glaciares a virem por aí a baixo feitos sopa. Porra, porra, meus senhores.
Como poderia eu, pois, cronicar-vos a mote das minhas leituras pró-santarenas? Livralhada agora, agora que por todo o lado só se lê, vê & ouve que “Olha, subiu o número de mortos; olha, mais uns tantos desaparecidos; olha, os feridos não param de aumentar…”? Ná, leiturices para ninguém.
Eu exijo que chova como deve ser. Estamos em Outubro, catano! Quero o frio que nos é devido em Novembro para podermos matar & escorrer com limpeza e sem mosquedo calorífero & putrefactor o belo porco enquanto roemos a bela castanha assada – ou cozida com funcho.
E olha, ó Pedro tão pouco São, vê se te reformas e dás lugar a outro. Olha, dá-o a São Tomé, por exemplo, que só haveria de crer numa política territorial anti-fogos quando houvesse alguma para ver.



quinta-feira, outubro 12, 2017

(f)Actos da minha vida - Rosário Breve n.º 525 in O RIBATEJO de 12 de Outubro de 2017 - www.oribatejo.pt



(f)Actos da minha vida



1 Descalço, saltei do muro para a banda do monte, cortei-me no pé direito, sangrei muito – e ainda sangro. Não singro, mas sangro.

2 Abraçava os meus cães & os alheios, beijava-os no rosto, sentia deles o frémito humano, olhos de quem entendia o que se lhes dava: como tão pouca gente-gente entende. Ou é beijada.

3 Aprendendo a fumar (às ocultas do entardenoitecer, encostado ao portão da quinta), volvi-me, até estatu(t)ariamente, uma imitação de adulto. Continuo ambos: fumador & simulacro.

4 Os mendigos batiam-nos à porta muito delicadamente. Se era meu Pai a atendê-los, tinham menos má-sorte. Se era minha Mãe, pobre ela também, tinham boas palavras e não mais que cinco tostões. Se era eu, aprendia a ser delicado no bater às portas. Até hoje.

5 As raparigas: deixando de ser meninas, obrigaram-me a tornar-me rapaz. Em paz elas & eu, agora.

6 A Muda dos Tremoços: esperta, ladina, pobre – mas sobrevivente, criadora de gente, de si mesma banca & fruto & sal & tostão.

7 O Leandro Jardineiro: bêbado, blasfemo, praguejador, admoestador, terror das crianças – um vero santo católico, portanto.

8 Na vertical, era, naquela altura, um colosso: seis pisos de armazenamento industrial. Um deles, de botijas de gás. Deu-se o incêndio. O povo foi ver. Eu também era povo. De súbito, a explosão: foi a nossa Hiroshima. Mais de quarenta anos passados, continua a ser o raso chão a que se viu desfeito. E nós japoneses, por assim dizer.

9 O sr. Eduardo da Rua do Leitão que morreu na linha: vinha apeado da bicicleta para a travessia, deixou passar o primeiro comboio, não contava com o segundo. O povo foi ver. Eu também era povo. Aquele lençol da mulher-guarda-da-linha guardando o mistério do corpo, a escandalosa rosa de sangue florindo o pano: inesquecível floricultura.

10 A minha Irmã, de blusa verde, menina & moça qual rouxinol-bernardino, à janela. Sem pose, alheia ao fotógrafo: rosa verde, antítese daquela que vi no lençol da morte ferroviária.

11 Naquele tempo infante, os Verões não eram a calamidade pública que hoje são. Os Julhos eram passados na Figueira da Foz. A Mãe arrendava a mesma casa. Aos fins-de-semana, o Pai reunia-se-nos. Isso não volta. Eu não era, então, a calamidade privada que hoje sou. Mas a Mãe era o Verão. Em pessoa. E é ao sol dela que escrevo quanto escrevo. O Pai chega sábado.

12 Linda como uma conspiração de açucareiros, aquela Maria dos meus dezassete anos embebedou de clorofila a incipiente árvore púbere do meu coração. Depois, rachou-ma em cavacos imprestáveis até para outros lumes. Habituei-me a sentir-me embebedado. Por Ela. Sem Ela. Contra Ela. E contra mim, em minúsculo pronome.

13 Os Irmãos: seis, todos mais velhos – ou, por assim dizer, os meus mais recentes & mais vitalícios antepassados.

14 A Minha-Rua: era um país. É hoje um desconsolado consulado de marcianos que não falam a Língua nem se lembram dos senhores Nunes, Catarino, Gonçalves, Velindro, Pimentel, Ribeiro, Alcides, Pereira, Morais, Sério, Botelho, Alfredo, Sacramento, Carvalho, Abrunheiro.

15 Quando chovia: o cedro do meu prédio semelhava uma labareda negra de verd’outrora à Van Gogh; as mulheres zumbiam no recolher à pressa das camisas crucificadas do estendal; o senhor Carlos da taberna-carvoaria cainhava gemebundamente: “Estava-se-mesm’-a-ver-qu’ia-chover-estava-se-mesm’-a-ver-qu’ia-chover”; e o cedro do meu quintal era o senhor Carlos a cainhar mas em versão Vincent de cinema-mudo.


16 As Fábricas: morreram todas. Corrijo: mataram-nas. Foi então que vieram os marcianos. E foi então que veio a outra Língua, que de nomes antigos nada sabe nem a cedros à chuva entende, quando o céu chove como a olhos acontece, certas vezes. Ou a cães, quando beijados.