quinta-feira, novembro 24, 2016

A IDADE DE DEUS & A MINHA - Rosário Breve nº 482 - in O RIBATEJO de 24 de Novembro de 2016 - www.oribatejo.pt

A idade de Deus & a minha

Uma boa maneira de haver menos idiotas no mundo é não fazermos mais filhos às mulheres deles. Digo-o eu, assim um bocadito co’s nervos. Mas só um bocadito: na minha idade, é bem mais curial cansar-me galgando escadas do que dando fôlego à globalizada imbecilidade que pelo mundo campeia e ao mundo infesta.
Ah, tivera eu hoje menos uns vint’anitos no couro que decerto me indignara mais & com mais férrea força ante tanta incomunicação-dita-social do jornaleirismo-croquete em voga. Sabeis? A gula dos mirones ante as sessões de porrada Carrilho-Bárbara. A gosma dos voyeurs perante as neonamoradas do Futebol Pinto da Costa & do Sporting Carvalho do Bruno. O frisson do galinhedo paraliterário cacarejando o-Dylan-merece-o-Nobel-porque-sim-sim-senhores e/ou por-causa-disso-é-que-o-Leonard-Cohen-morreu-de-desgosto e/ou/ainda com-a-azia-o-Lob’Antunes-já-deve-andar-a-sonhar-com-pelo-menos-um-Grammy-para-o-ano-que-vem.
E depois, aquela farruscada toda da questão dos taxistas (de Lx., note-se) co’ a Uber & a Cabify, a qual só me desperta uma ilação de pronto & evidentíssimo teor homofóbicoiso e que é a seguinte: nunca é de confiar num gajo que nos deixa ir atrás. Ou então aquela que mete meninas: o Instituto Nacional de (ment’)Estatística revela que em Lisboa existem 189 meninas virgens por cada taxista sério – mas só há prova confirmada de 188.
Mais: a clara & flagrante certeza de as praxes estarem para a dignidade académica como o Relvas para a mesma. Isto por causa de uma equivalência que me parece clara como aquilo à volta da gema do ovo: se o analfabetismo funcional fizesse ondas, o ensino-dito-superior português seria um tsunami de alto-lá-co’-baile-e-pára-o-charuto.
E a carneirada das selfies? Não V. faz impressão, nas tragicomediantes redes-alegadamente-sociais, aquela malta toda só com um braço? O problema de tanta clonestupidez é afinal napoleónico: por causa do seguidismo, vai tudo para (o) maneta.
E a rábula do declara-não-declaro-nada-o-património dos indigitados (tu)barões daquela Caixa que dizem ser nossa? Ide por mim: fornicar os ricos não é sexo – é amor.
Ainda há pouco, era voz-corrente esta barbaridade acéfala: “Taxar os gajos de 500 mil euros p’ra cima é matar o investimento.” Ai é? Ai é? E fomentar o desemprego é o quê, ó cáfila de cornúpetos descalcificados?
Cá p’ra mim, a pessoa deixa de ser criança quando cessa de acreditar no Pai Natal. E volta a sê-lo quando começa a acreditar no Sócras. Foi como com aquilo das entrevistas do juiz Carlos Alexandre – só achei mal ele ter escolhido a SIC e o Expresso. Sim, mal: então duas vezes o exclusivo para o PSD-à-la-Balsemão porquê? Não há mais papagaios nas outras gamelas partidário-jornaleiras? Há. Então, quid juris?
Ai, estranha és, ó Madre-Língua-Portuguesa minha. Estranha mas bela. Bela mas estranha. Quando decides elogiar alguém, dizes: “Não há pai para fulano.” Ou seja, valorizas o fidapu. Há mas é que não confundir o burkini raso com o Burkina Faso. E saber que a frieira rebenta a pele por vir da geada islâmica. E topar de antemão que a melhor maneira de abrir buracos num green novo é praticar o golf pérsico. O Deus de cá sabe que eu nisto tenho toda a razão, o (a)lá deles é que não. Quanto a mim, só sei que a fé & a ignorância são unha-com-carne vezes de mais. E que não é solução roer as unhas até fazer carne-viva.
E agora que a UE já não é só p’ra-inglês-ver? Agora que a UE já não é só p’ra-inglês-ver, retenhamos do brexit ao menos uma coisa boa, muito boa, pelo menos uma: são maiores as hipóteses de vermos menos por cá os execráveis McCann.
Ó pessoal, por favor atenção: apesar de todo o desarrazoado supra, sou muito menos esquisito do que o mundo em geral & do que a TV-por-cabo em particular. Ainda agora. Olhai-m’esta: acabo de ver uma série com cenas de vampiras lésbicas. Sim. Vampiras. Lésbicas. Coitadas! Devem namorar uma só vez por mês. (Como eu aqui em casa, aliás, num mês bom.) Ai, saudades do tempo da ditadura da RTP-única….Em casa de meus saudosos Pais, certa vez. Certa vez, em casa de meus saudosos Pais, o som do televisor pifou-se. A imagem, na mesma. Mas o som, népias. Eu era então tão moço, que cri com esperança naquilo resolver-se por si só. Continuei a ver. Nisto, aparecem as Doce. Lembrai-vos das Doce? Sem som embora, gostei muito de vê-las cantar. Idade feliz, essa minha. Não é como a idade de Deus. Deus perdoa, a idade não.
Nem eu.


quarta-feira, novembro 23, 2016

Às 12h07m de hoje mesmo, 23/XI/2016, esta estrofe de quatro linhas (não é o mesmo que 'quadra') por causa e para o meu Amigo Joaquim Jorge Carvalho





O mundo é sempre do tamanho do mundo.
Aceita-me, bom King, este truísmo.
Alto de sua fundura, de sua altura fundo:
a terra faz de céu - e o céu, de abismo.

domingo, novembro 20, 2016

Eliot, Cesário, Diniz & o 31 que O Ribatejo é - Rosário Breve nº 481 - in O RIBATEJO de 17 de Novembro de 2016 - www.oribatejo.pt

Eliot, Cesário, Diniz & o 31 que O Ribatejo é

O nosso Jornal perfaz por estes dias a idade que foi terminal para dois vultos absolutamente maiores da nossa portugalidade: Cesário Verde e Júlio Diniz. Estes dois rapazes finaram-se com 31-anos-31, idade em que se deveria florescer, não descer à catacumba. Obstinadamente, O Ribatejo não se propõe morrer – antes sim ( para desgosto antigo de um Moita de que já ninguém mal se lembra & para desgosto presente de um Gonçalves que não deixará boa lembrança) renasce a cada aniversário: mesmo que sem esmoleres capas-falsas. Este periódico continua a ser um trinta-e-um, por assim dizer.
Tenho aqui no bolso, para a festa aniversária do meu/Vosso Semanário de eleição, a prenda de uns versos que não são de Cesário nem de Diniz [sim, insisto no Z do Autor da Morgadinha por ser como o próprio (se) assinava]:
«O tempo presente e o tempo passado
Estão ambos talvez presentes no tempo futuro,
E o tempo futuro contido no tempo passado.»
Os versos são de T.S. Eliot (in Quatro Quartetos, tradução de Gualter Cunha, Ed. Relógio d’Água).
Cuidado: tenho ainda & aqui mais versos para a mesma festa. Estes é que já não são de Eliot. São de João Alves Coelho, versejador que, com o compositor José Maria Pereira (também) Coelho, criou o célebre Fado do 31:
«Ai… Ólarilolela
Como este não há nenhum (…)»
E é que não há. Nenhum. Aos 31 anos de idade, este Jornal continua a não embarcar em seguidismos acríticos, a não embalar-se de modismos trengos (ou trendy – olá, vereador Luís Farinha!), a não ser maria-vai-c’as-outras. O Ribatejo é eliotiano por saber que
«Se todo o tempo é eternamente presente
Todo o tempo é irredimível.»
Como irredimível é, por grave e baixo exemplo, a rábula da Loja do Cidadão em Santarém, que é mas não há. Como eternamente presente é, mas não deveria ser, a tragicomédia das Barreiras/Estrada da Estação/Pró-ano-é-que-é-a-culpa-é-do-Tribunal-de-Contas. Idem-aspas para a lixarada daninha que infesta a Cidade, cujo pecado-capital é ser capital de nada. Não falo no abstracto. Eliot connosco, se fazeis favor:
«O que podia ter sido é uma abstracção
Permanecendo possibilidade perpétua
Somente num mundo de especulação.»
Especular é duplamente congeminar e espelhar. Trocadilhando com outro versejador de grandíssima qualidade, Sérgio Godinho, espelhem a notícia.
Enfim. Retornemos à casa-de-partida. O Ribatejo sopra 31 velas acesas de pura resistência: resistência à sacana da (des)economia, resistência aos ventos adversos da politiquice, resistência ao desinteresse acéfalo do rebanho. Mas, felizmente, também as sopra em persistência: em nome dos que lêem porque pensam & dos que pensam porque, já agora, lêem.
Cá por mim, tanto leio O Ribatejo como Eliot:
«O que podia ter sido e o que foi
Tendem para um só fim, que é sempre presente.»
A partir desta edição, é já no ano 32 que V. escrevo.
Assim sendo, e posto tudo isto assim, termino por hoje com esta rima trinta-e-um-mente bela:
«Ólarilolela».

quinta-feira, novembro 10, 2016

MEIO SÉCULO DE 'O JUDEU' - Rosário Breve nº 480 - in O RIBATEJO de 10 de Novembro de 2016 - www.oribatejo.pt






Meio século de O Judeu



O Judeu de Bernardo Santareno foi publicado há 50 anos.
Obra-prima da literatura dramatúrgica portuguesa do século XX (e de todos os que vierem), é ponto cimeiro do extraordinário repertório teatral criado por António Martinho do Rosário, nome civil do dramaturgo nascido a 19 de Novembro de 1920 na scalabitana freguesia de Marvila.
O Judeu marca, também e ainda, a incursão de Santareno na dimensão épica do entrecho discursivo-dramático, monumento que alguns tolos (críticos de pacotilha, revolucionários de café) acharam “irrepresentável em palco”. (Talvez os engulhasse o parentesco brechtiano da viragem formal da escrita do Santareno pós-neo-realista.) Mas não só. A peça de Santareno tem por núcleo primacial a tragédia pessoal de António José da Silva (1705-1739), autor, como Santareno, de uma produção dramática incómoda (exasperante até) para o regime seu contemporâneo. As sátiras espirituosas deste cristão-novo (como As Guerras do Alecrim e da Manjerona) caíram mal, para dizer o mínimo, entre os intolerantes e fanáticos monstros da “Santa” Inquisição, que de muito mais não precisaram para o queimar em público auto-da-fé a 18 de Outubro de 1739.
Retratado & retratista (António ambos) irmanam-se na desventura trágica das respectivas existências terrenas. A António José da Silva corresponde Bernardo Santareno do paralelo modo como ao Santo Ofício dos séculos XVI a XIX corresponde a PIDE do século XX. A polícia política de Salazar não extinguiu fisicamente, é certo, Bernardo Santareno – mas tudo fez para lhe sufocar a Obra, a torrencial & primorosa obra teatral com que Santareno fustigou o despotismo ao tempo mesmo que exalçava a peremptoriedade da dignidade humana, essa dignidade que outra coisa não é, ou outro nome não tem, que isto & este: Liberdade (e da incondicional).
Em e a partir desse remo(r)to ano de 1966, O Judeu não pôde, naturalmente (aqui, o itálico não é de resignação fatalista mas de fatal acusação), ser levado à cena. Saiu em livro, para prontamente ser perseguido pelas feras cinzentas & analfabetas do salazarismo, que nessa década de 60/XX já estertorava de necrose. Todavia, um facto triste veio adensar a solidão vitalícia do grande escritor. (Faço aqui parágrafo para mais distintamente vos sublinhar a injustiça e a ingratidão dos factos:)
Não havendo, depois do 25 de Abril, qualquer razão (bem antes pelo contrário) para não representar O Judeu, as tricas & baldricas aparentemente fatais do milieu intelectual(óide…) português obstaram a que a magnífica peça tivesse palco & plateia antes da morte física de Bernardo Santareno. Com efeito, o grande dramaturgo, morrendo a 30 de Agosto de 1980, não assistiu já à estreia do seu opus-magnum, que ocorreu apenas e quase meio ano depois (a 20 de Fevereiro de 1981, no Teatro Nacional de D.ª Maria, com encenação de Rogério Paulo). Bem e acertadamente andou Luiz Francisco Rebello quando escreveu (in O Jornal de 5/9/1980):
Santareno não morreu na fogueira acesa pela Inquisição para suprimir o Judeu da sua obra-prima []mas consumiram-no as chamas de mil pequenos fogos ateados pela mesquinhez, pela intolerância, pelo ódio, até pela indiferença às vezes mais cruel ainda, que desde muito longe, desde Gil Vicente e mais atrás, têm sufocado a respiração do teatro português.
Consolemo-nos, digo eu, com a certeza de o gigante Santareno ter morrido na consciência muito íntima da sublime valia não só de O Judeu como de toda a sua Obra literária, a qual, resistindo à corrosão inapelável do Tempo, se iniciou em 1954 com A Morte na Raiz (poesia), permanecendo viva & actual para além da extinção corpórea do Homem/Artista que no-la deu.
Resta-nos demonstrar, como Público & como Povo, que somos merecedores de tão descomunal, tão alta, tão preciosa oferenda. Ou então que, não dela merecedores, ardamos a frio nessa labareda de gelo chamada esquecimento.


quinta-feira, novembro 03, 2016

OU ESTUDO OU NADA - Rosário Breve nº 479 - in O RIBATEJO de 3 de Novembro de 2016 - www.oribatejo.pt



Ou estudo ou nada


Licenciei-me em Letras pela Universidade de Coimbra.
Antes porém dessa glória que para sempre me distingue, melhora, enobrece & separa da reles plebe mortal, tive de fazer (uma-duas-três-quatro) a 4.ª Classe do Ensino Primário – com exame na 3.ª & com exame na 4.ª.
Seguiram-se os 1.º & 2.º Anos do Ciclo Preparatório. Entrou então em vigor a nomenclatura da Escolaridade, pelo que dei por mim cursando (um-dois-três) os 7.º, 8.º & 9.º Anos – com exame no 9.º.
Por essa altura, vieram-me chegando, tomando-me sem remédio, o acne & a estranha consciência da existência do sexo-oposto. Borbulhas & raparigas cercaram-me (um-dois-três) os Anos 10.º, 11.º & 12.º – com exames no 11.º & no 12.º. Só depois, finalmente, as Letras, a Universidade, a Glória.
Través este percurso, dei-me paralelamente a práticas não-obrigatórias & a trabalhos não-forçados. Pratiquei piano, natação, xadrez, guitarra, andebol, futebol, acne & raparigas.
Certo dia, chegou a altura de ir trabalhar. Lá fui. Uns anos, fui professor do Ensino Secundário. Outros pós-estes, fui jornalista encarteirado. Quando sem saída nem fim-de-mês, fui pintor da construção civil. Também fui pai de duas meninas, profissão que nunca é possível trocar por outra impossivelmente mais bem remunerada. Hoje, que nem a pintura de paredes chama muito, vivo do que ganha a minha mulher.
O curso que nunca tirei, Senhores & Damas, foi o de jota. A minha universidade não era de Verão. A minha universidade dava trabalho do Outono à Primavera – e desde a 1.ª Classe. Não encarreirei, portanto. Nem (me) falsifiquei. Os meus livros, sou eu a escrevê-los.  
Sobre (mais uns) escândalos de licenciaturas falsas, digo nada. Limito-me a ter muita pena desta gente alérgica ao honesto estudo, desta maltosa impermeável à qualificação honesta, desta canalha que não sabe nem saberá jamais o que a Glória faz a um homem.
Que o diga a senhora minha mulher.


sexta-feira, outubro 28, 2016

quinta-feira, outubro 27, 2016

ESCREVER NAS FOLGAS - Rosário Breve nº 478 - in O RIBATEJO de 27 de Outubro de 2016 - www.oribatejo.pt



Escrever nas folgas


Um amigo meu é historiador amador. Comete monografias. Sabe coisas impensáveis que as mais das vezes resultam genealógicas. Ou pior. Uma inscrição de fontanário extasia-o como a mim só me acontece com, com quê?, talvez c’a Sophia Loren aqui há uns oitenta anitos. Da I República para trás e para os lados todos, cimabaixestiborbombordo, sabe tudo – menos o que será desta de agora.
Acontece que ontem, sob a morrinha persistente que acinzentava mais o dia do que à nossa vista a passagem de uma viúva sincera, apanhei-o esmifrado de nervos & sudorífero de raivas. Indaguei:
– Atão, pá? Tás c’umas beiças qu’inté parece que te caiu um músculo a dormir, home’! Qu’é que foi? Morreu-te a vizinha de baixo ou debaixo?
Ele desganiu-se-me com a explicação:
– Rafeiro, fui ao Arquivo Municipal ver se catava uma data infalível e olha, népias.
Tentei ajudar, claro. (Eu sou assim, ajudante. Nunca hei-de chegar a chefe por causa de ser assim, assim bom, assim porreirinho, assim amigalhaço, assim sempre-de-ajudar, assim mentiroso.)
– Que filão é que escavaste?
E ele:
Os Anais, claro. Mas aquilo era só folgas.
E eu:
Pá, isso é mau. Anais com folgas… E eram todos de trânsito só de-dentro-p’a-fora?
E ele:
Goza, meu ganda-marreco-das-orelhas, goza pr’aí. Era coisa importante, pá, coisa importantezinha, mat’rial necessário ó Pobo, pá, necessário cumò pão pà boca, cumò pão pà boca, pá.
Solidarizei-me. Ofereci-lhe que beber. (Só beber. É de lei que, co’ comer & co’ fumar & co’ aquele resto que toda a gente sabe, cada um paga o seu. E o dever acima de tudo, como na tropa.) Fomos ao Ramiro Tira-Linhas a modos que esvurmar uma tal pomada que ele lá tem, mas tal, que os médicos só não a receitam para o ranger das artroses e para as borrachas da figadeira porque isto de médicos e laboratórios, pá, isto de médicos e laboratórios é tudo Roque-da-Amiga & Amiga-do-Roque. É-é, mas-é-qu’é mesm’assim. Entonces, depois de umas pucheiritas lá mudámos para o cântaro, que sempre fica mais em conta.
Na brevidade que a vida é, por contar menos um dia do que o carnaval, a pajens-tantos intentei cognoscer (no mínimo, cognoscer, que eu ainda fiz o quinto-ano antigo), quer’eu dizer, apurar o âmbito & o intuito das anais escavações do meu amigo.
Ele recognosceu-me ist’assim:
Tinha a ver com a data exacta, ali exactinha preto-no-branco, da última vez em que a Câmbra interveio, pá, sei lá, nos problemas. Os problemas, tás-a-ver?, as cenas que dão mau nome aqui à parvónia, pá, aqui à parvónia, pá, mau nome, tás-a-ver?
E eu:
Tar-a-ver-tou. Mas assim tipo alguma zona em particular, sei lá, tipo ali nas Trigosas?
E o sacana do gajo a esgalhar-se todo de risota & a cuspinhar farelo de pevides pa’ todo o lado, o sacana do gajo assim na mouche qu’eu às vezes c’a pomada fico:
Trigosas? Trigosas? Ó meu, bebe cérélác sem grumos cuspidos, meu! Eles lá nas Trigosas não são de folgas, meu. Se precisam, não pedem nem esperam. Fazem. Fazem ali feitinho. Entre todos. Para todos. E pluribus unum, carago! Mete lá esta nos teus anais, anda.
E eu meti. Tanto meti, qu’inté escrevi esta de pé e tudo.


quinta-feira, outubro 20, 2016

TRÊS DE JANEIRO, POR EXEMPLO - Rosário Breve nº 477 - in O RIBATEJO de 20 de Outubro de 2016 - www.oribatejo.pt






Três de Janeiro, por exemplo



A 3 de Janeiro de 1903, Alois Hitler, pai do Adolf, morreu. O mal estava já feito, todavia. Klara, a mulher dele, foi definitivamente roída pelo cancro em 1907 – mas o mal não apenas teimava feito como crescia. Sobre a morte desse obscuro funcionário público austríaco, o mesmo há a reter que da sua vida: cinza uma como cinza outra. A coisa passou-se.
Exactamente 22 anos depois, eram suprimidos em Itália os partidos políticos que queriam ser oposição à meteórica trajectória ascendente de um tolo perigoso chamado Benito. (Nessa precisa data de 3/I/1925, contava a senhora minha Mãe 68 dias de vida – e era decerto feliz, pois que então purificada pelo esquecimento do futuro.)
O futuro é que se não esqueceu do seu destino demolidor. Assim foi pois que, num terceiro dia januário também, mas o de 1935, se assiste em Coimbra a uma cena causadora de colectiva tristeza. Tem a ver com demolição & destino: por decisão da Câmara Municipal, é demolida a altaneira e histórica Torre de Santa Cruz, em frente ao formoso Jardim da Manga. A construção ameaçava iminente & eminente derrocada. Tinha de um lado o Celeiro dos frades crúzios (onde funciona hoje em dia a esquadra da PSP) e do outro a Enfermaria, que foi depois residência do senhor Prior e biblioteca até se tornar no que é hoje: a Escola Secundária de Jaime Cortesão.
Treze anos exactos se esfumam. Não estamos já em Coimbra lacrimejando de impotência à face do sacro entulho. É ora em Lisboa que estamos. Por magia, quantos são hoje? 3 de Janeiro. O ano é 1948. A noite promete: há fadistagem no Café Luso, como de costume, mas este serão é especial por ser o da consagração de um fadista chamado Alfredo. Desde outro Janeiro (o de 1941) que o Luso já não é na Avenida da Liberdade (onde nascera em 1927), trasladado que foi para as antigas adegas e cocheiras do Palácio do Largo de São Roque, ali à Travessa da Queimada (8-A, telefone 32 889). Chama-se agora Cervejaria Luso. Há menos de três anos que o filho do tal Alois foi ter com o pai. Há menos de três anos que o Benito foi pendurado pelas patas como uma carcaça de açougue. Os ventos da democratização que por (alguma) Europa grassam, não desgraçam porém a cinzenta nau ibérica, cujos timoneiros se chamam Franco e Salazar. Muitos Janeiros hão-de arder a frio até que seja Abril. Mas hão-de.
Ainda assim, e meros doze anos passados sobre a boémia consagratória do fadista Marceneiro, a estagnação estadonovista é furiosamente sacudida de cabo a rabo. 3/I/1960 – de uma das mais perversas prisões de alta-segurança da Ditadura, o Forte de Peniche (que nos nossos tristes presentes dias os patarecos da dinheirama fácil & rápida parece quererem transformar em amnésica hotelaria), chega notícia de sensação: fugiram uns gajos que ali estavam presos “por seu livre pensamento” (cf. fado Abandono, vulgo Fado Peniche, pela divina Amália). Eram eles: Joaquim Gomes, Carlos Costa, Jaime Serra, Francisco Miguel, Rogério de Carvalho, Francisco Martino Rodrigues & um tal Álvaro Barreirinhas Cunhal. A intrépida evasão roça a ironia histórica. Porquê? Por se dar precisamente dez anos & um dia depois da morte de Militão Ribeiro, acontecida a 2 de Janeiro de 1950 na Penitenciária de Lisboa, supostamente ao cabo da greve de fome que a cabo levava contra a falta de assistência médica. Militão e Cunhal haviam sido presos conjuntamente pela PIDE em 1949. Nunca mais seriam presos: Militão, pela absoluta libertação chamada Morte; Cunhal, pela absoluta liberdade chamada Vida.
De modo que: 1903, 1925, 1935, 1948, 1960. Tudo depois de Cristo. E a 3 de Janeiro tudo. Queira todavia o meu Leitor tomar nota ainda de uma outra efeméride. A próxima edição deste Jornal não há-de esperar pelo 3 de Janeiro do ano que há-de vir. Pois não. A próxima acontece a 27 de Outubro.
Ora, a 27 de Outubro nasceu a senhora minha Mãe.
Mas aí a História, porque futura, porque purificada, porque nunca esquecida, aí a História já é outra.

quinta-feira, outubro 13, 2016

Coisas que a vida e Abrantes me ensinam - Rosário Breve nº 476 - in O RIBATEJO de 13 de Outubro de 2016 - www.oribatejo.pt



Coisas que a vida e Abrantes me ensinam



1. “Lamento ter nascido.”; “Gostei muito de ter nascido.” A primeira frase é do ensimesmado poeta António Ramos Rosa. A segunda, do feliz & polivalente fazedor de campeões Moniz Pereira. Constam ambas de um livro intitulado O que a Vida me Ensinou. A obra compreende 34 depoimentos (23 homens, onze mulheres) de notórias figuras da nossa intelectualidade contemporânea coligidos pelo jornalista Valdemar Cruz para o semanário Expresso entre 2002 e 2005. A edição livresca aconteceu em Março de 2007, sob a chancela editorial da Temas e Debates. À data do livro, três dos entrevistados haviam morrido já. No entretanto destes nove anos & sete meses, muitos deles partiram já também. Todos tinham não menos do que 70 anos quando o jornalista com eles se encontrou.
A leitura enriqueceu-me. É um trabalho limpo, que vivamente recomendo a todos quantos dispensam à livralhada uma atenção & uma intenção que só proveitosas podem ser. Sublinhei muito, gastei todo um lápis. Adriano Moreira patenteou sem esforço a sua clara, incontornável sageza. O excesso pró-aforístico de Agustina não me aborreceu tanto, não desta vez. Siza Vieira, todo elegância. O sobredito Ramos Rosa pareceu-me o que o labor poético dele me parece: cansado & cansativo. Gostei muito do auto-retrato vital da fadista Argentina Santos. Eduardo Lourenço é um monumento. O investigador Fernando Catarino deu-me ideia de areia a menos para a camioneta exibida. Fernando Lanhas, giro, patusco, sábio. M.ª Helena da Rocha Pereira, maravilhosa. Manoel de Oliveira, banal & sobrevalorizado. D. Manuel Martins, vero filantropo & alma boa. Maria Keil do Amaral angustiou-me. Nella Maissa, prodigiosa. Óscar Lopes, outro monumento. Margarida Tengarrinha, humaníssima & exemplar. Sequeira Costa, profundo, grave, ortoépio. O industrial José Manuel de Mello, absolutamente execrável. Completam o rol: Anthimio de Azevedo, Borges Coelho, Eunice Muñoz, Fernando Távora, Galopim de Carvalho, Glicínia Quartim, Helena Sá e Costa, José Pinto da Costa, José Saramago, Júlio Pomar, Júlio Resende, Luísa Dacosta, M.ª de Lourdes Levy, Nuno Grande, Ruy de Carvalho e Vítor Crespo. Da minha leitura, mais por ora não digo. Diga-me da sua o Leitor, se caso disso for.

2. Outra proveitosa leitura que fiz por estes dias: Intelectuais Portugueses na Primeira Metade de Oitocentos (de M.ª de Lourdes Costa Lima dos Santos para a Editorial Presença, Lx., 1988). É tese de doutoramento muitíssimo bem lavrada. A poucas páginas do fim, aprendi que foi fundada em Abrantes, no remo(r)to ano de 1802, uma tal Sociedade Literária Tubuciana. Era dela figura-de-proa um Rodrigo da Silva Bivar, “Inspector da Plantação das Amoreiras e Director da Fiação da Seda”. A doutoranda Autora remete o interessado (em a nota remissivo-bibliográfica n.º 11, pp. 325) para uma monografia de há 40 anos – A Academia Tubuciana e os seus Membros, de Luís Bivar Guerra, in Anais da Academia Portuguesa de História, Lx., 1976. A abrantina agremiação de nome esquisito não esgotava o intuito pragmático na amoreira e no bicho-da-seda. Não. Leia-se: “(…) os seus objectivos eram mais vastos, visando concorrer para a felicidade da Nação através dos trabalhos dos seus membros nos campos mais variados (nos Programas da Tubuciana para 1803 e 1804 os assuntos propostos para apresentar comunicações abarcavam os domínios da História, da Literatura, do Direito, da Economia Política e da Agricultura).”
Mais: a Tubuciana não queria saber de não ser na Capital que tinha a sede. Pelo contrário, chateava Lisboa sempre que tinha por bem chateá-la. Exemplo: faltando “provimento de professores de primeiras-letras e de latim em Abrantes”, Diogo Bivar (filho e sucessor de Rodrigo) foi de mandar “uma representação ao Governo, censurando a Junta da Directoria Geral dos Estudos”. Lisboa ainda refilou, dando ordem ao juiz-de-fora de Abrantes (que até presidia à Tubuciana…) no sentido de “repreender severamente a ousadia com que na representação tinham sido caluniadas as diligências públicas da Junta” – mas o certo é que, “logo depois”, houve mando de “abrir concurso para que as cadeiras de latim e de primeiras-letras fossem providas de professores seculares com os devidos ordenados”.

3. Que aprendi eu, pois & assim? Aprendi que nem a Vida nem Abrantes me parecem ser já o que eram dantes.




quinta-feira, outubro 06, 2016

Rosário Breve nº 475 - in O RIBATEJO de 6 de Outubro de 2016 - www.oribatejo.pt



À vista armada (crónica a olho nu)



Agosto passado, voltei a perder os óculos. Até poder usar uns novos, o mundo volveu-se-me ilegível. Ilegível e ainda mais ininteligível do que de costume. Foram maus dias. Era como, sem ser peixe, habitar um aquário. Na rua, as pessoas (a)pareciam-me como espectros glaucos, o ar ardendo em aura à volta de nódoas escuras que eram as cabeças – um pouco à maneira do povo dos sonhos: adumbrações exiladas de qualquer esperança de nitidez. Da vizinha do quarto-andar, o gato tomou ameaçador & furtivo aparato de tigre. Foi mau. Livros, nem pensar. Internet, adeus. A minha assinatura em papel do noss’O RIBATEJO só trazia fotografias molhadas sob a tutela escarlate do título. O pior passou-se com a minha própria mulher.
Com a minha própria mulher, passou-se que, como eu não a distinguia das outras, comecei a chamar-lhe nomes que ela não tem nem merece. Conseguintemente, passei a dormir exilado na saleta de passar a roupa a ferro. Convivi com meias, pijamas, bonés & camisas que eu já não sabia que tinha ainda. A minha cabeceira foi uma caixa de sapatos sem sapatos mas plena de identidades (e de oportunidades) perdidas. Explico-me: era a caixa de cartões caídos (como eu nesta vida tantas vezes, hélas!) em inutilidade anacrónica por desuso. Revi então as minhas mocidades à-la-minuta:
o meu cartão de xadrezista aos 12 anos pela Académica;
aos 13, o meu passe de iniciado pelo futebol do União;
a quadrícula de director-auxiliar da Tuna, aos 16;
a cédula de pescador fluvial, que acabei por renegar ao descobrir que aquilo era, afinal, uma licença-para-matar;
o meu primeiro BI, amarelidão de documento autenticador mas falsário de uma filiação que por todo o lado, todos os dias & a toda a hora, com ou sem óculos, procuro entre os vivos mas não encontro: o meu Pai, a minha Mãe;
convenientemente roído, o meu certificado de sócio-fundador da Federação Portuguesa de Onicofagia;
o diploma-de-mérito da Sociedade Nacional de Fermentadas & Destiladas;
e ainda, também e finalmente, a certidão de utente da Sopa dos Pobres que ficava ali ao pé da Igreja do Deus-me-Livre.
Chegado o Setembro, a minha Graça condoeu-se. Era muito dia de eu desandar por este triste mundo tiquetaqueando as calçadas de bengalinha extensível de alumínio às risquinhas vermelhas-e-brancas com um cão também cego ao joelho. Comprou-me umas cangalhas novas e mais caras do que os olhos da cara. Lentes progressivas do-perto-ao-longe, muito fixolas, de finas hastes que configuram, no meu rosto de pergaminho, uma iluminura de artista-frade-&-copista. É com elas armadas que V. escrevo.
Olhai ali, por maravilha: beira-rio, os choupos translúcidos filtrafarfalhando a doce luz do novel Outubro. Vêde comigo, além: um maduro de calções pedalando a reforma gorda a cavalo da BTTcicleta de três mil euros, no mínimo três milenas do belo. Assisti Vós ao que ora assisto: pespontando a azul-ferrete a qualidade diáfana da aragem da manhã, uma rapariga clara como a transparência do mais lúcido acetato.
E ainda: o solícito senhor carteiro do meu bairro, portador desta mesma edição do noss’O RIBATEJO, miraculosamente & de novo repleto de palavras que me devolvem uma identidade chamada pertença, esse tipo de pertença ao meu Leitor & ao meu Jornal a partir da qual nem preciso de óculos, por ser, como sempre tem sido & há-de ser sempre, uma coisa de olhos nos olhos.

quinta-feira, setembro 29, 2016

Rosário Breve nº 474 - in O RIBATEJO de 29 de Setembro de 2016 - www.oribatejo.pt





Eu e José António Saraiva



1 Dirigi (oficiosamente, um; oficialmente, outro) dois jornais na minha vida de jornalista encartado. Nenhum deles expressamente viu o sol. Vale-me isto: eram mesmo jornais. Um era o Correio de Pombal. Outro, o Dito e Feito, sito na mesma parvónia. De ambos me livrei com o coxear rápido dos inválidos ante a ameaça das carroças sem travões. Tudo isto para preambular a minha leitura, que acabo de fazer, de “Eu e os Políticos”, de José António Saraiva, antigo director do Expresso e do Sol.

2 Li. Juro que li. É um nojo. Cheira a cuecas mentais que nenhum sabão de honestidade intelectual lavou. Está mal escrito, foi mal revisto, é mal intencionado. Custa-me mais por causa disto: José António Saraiva é filho de António José Saraiva (1917-1993), figura absolutamente maior da História Cultural Portuguesa. Custa-me menos por causa disto: é também, afinal, sobrinho de José Hermano Saraiva, contador de tretas reciclado pós-25 de Abril apesar de fascistóide ministro da Educação aquando da Crise Académica de 1969. Sim, li a coisa. Tem almoços, tem má sintaxe, tem promiscuidade, tem Lisboa a mais e País a menos. Destapa mortalhas sexuais que recobriam pessoas mortas. E gaba Maria Cavaco Silva por conseguir perceber o que ele/EU escrevia, em nome de um confessado (mas frívolo, mas falso, mas ignóbil) cartesianismo (página 43, sff) de quem nem da própria idiotia tem dúvidas.

3 António José Saraiva, pai deste Zé-Tó, foi (e segue sendo-o, mercê da perpetuidade devida aos livros bem escritos) o meu gajo absolutamente referencial da História da Literatura Portuguesa, em co-autoria com o também gigante Óscar Lopes. Pela portuense Editorial Inova (vivam os meus 17 anos, carago!), o título Inquisição e Cristãos-Novos mora-me e demora-me no saber necessário da identidade histórica deste (ainda?) Povo que somos. O volume da Bertrand (capa amarela, riscada obliquamente) de 1977, Filhos de Saturno, trazia o polemista ex-PCP de outras velhas-guardas. Mas era um plumitivo do caraças, o Doutor António José Saraiva! Adunco, fanhoso, bigode obstinado. Nada a ver com este arquitecto desvelador das Câncios e das Marantes, dos mentideros propiciadores da amnésia rápida e da influência nenhuma. Nenhuma. Ou: se alguma – mudar de passeio, até por nojo de alguma contagiosíssima sífilis estilística, à vista de tal deserdado.

Este jornal em que escrevo não oferece almoços in nas espeluncas caras de Lisboa. Mas também não bate em mortos que não podem defender-se, quiçá, dos boatos de alcova arrepanhados à liça por um medíocre que nunca escreveu no Correio de Pombal, quanto mais no Dito e Feito, quanto menos em O RIBATEJO

quinta-feira, setembro 22, 2016

Rosário Breve nº 473 - in O RIBATEJO de 22 de Setembro de 2016 - www.oribatejo.pt





Santa Engrácia, vera padroeira de Santarém



1 Findava-se a manhã quando, dirigindo-me eu da marquise à cozinha no intuito de apurar do apuro da enxúndia galinácea que há duas horas borbotava ao lume brando, me ocorreu, em uma espécie de estremeção messiânico, o que acima botei por título. Senti logo que a frecha da verdade me varara o peito. Se a epifania pecava, era por genuína que pecava. Dúvida nenhuma, senhorinhos leitorões meus, pois que:
Obras da EN 114? – Santa Engrácia.
Loja do Cidadão? – Santa Engrácia.
Recolha & tratamento capazes, eficazes, a tempo-e-horas e limpinhos do lixo? – Santa Engrácia.
[E a este pouco santo descaminho parece ir deitando pernada a prometida (para este mesmo Setembro) intervenção consolidadora das Barreiras.]
Não sei bem a que propósito, ocorreu-me o malogro das cabaças na Torre a que elas cabaças deram nome, essas sonoras e repercucientes cabaças ocas que cabeças idem esvaziaram mais ’inda. O altaneiro e cabaceiro relógio torrejão não despede já chamada laboral de pega & despega aos trabalhadores que já não há por essas lezírias que a haver continuam. Mas adiante, que a cabaça é outra.

2 Recolhendo da cozinha ao chuveiro, fui esfregu’ensaboando-me as misérias dérmicas, envolto eu mais de vapor que de nevoeiro o pobre menino D. Sebastião. A acima relatada revelação untara-me de um vago misticismo pagão. Embrulhado no toalhão de felpuda crina que nos ofereceu uma senhora muito boazinha da Obra do Padre Américo que não perde um pobre, passarinhei descalço & pingão até à estante onde nos existe & nos assiste outra santidade, doméstica e máscula esta: São João Baptista da Silva Leitão de Almeida Garrett. Sentindo-me o refulgente círio do olhar, logo esse meu adorado Cânone assim para mim:
“Era uma ideia vaga, mais desejo que tenção, que eu tinha há muito de ir conhecer as ricas várzeas desse Ribatejo, e saudar em seu alto cume a mais histórica e monumental das nossas vilas.”
Santarém, queria ele dizer – e disse – logo no capítulo primo das justamente célebres Viagens suas por arredores nossos. Num arroubo profano, fui de responder-lhe que:
“Meu senhor Clássico, meu apogeu Romântico, meu Primeiro Moderno: pois olha que Santarém continua tudo que dela disseste – Histórica de mais um século e mais seis décadas e mais dois anos desde que te finaste; Monumental de ferrolhos caretas e de cerradas tranquetas; e Vila – pois que de citadino pendão tem tão-só o vício administrativo e a canga fiscal, que, de resto, é mais brejo matoso de esguedelhada erva daninha sem corte por quanto é sítio público: assim conseguintemente, Santarém, de cidade, só a tarjeta autárquica e a clientela viciosa e a indecorosa camarilha de lusitanóide costume. Capital do Ribatejo, então, muito mais cada vez menos. Fica ciente. E o Vale da tua Joaninha cheira a voadoras fossas ubíquas e a frades mal lavados. Ciente ficas, meu bom Joaninheiro.”

3 Enxuto finalmente, ornei-me de não possidónias roupagens puídas mas limpinhas. (Ou limpinhas mas puídas – é conforme me dá na resignação ou no desassombro.)
Deu-se-me então o 1.º Desastre. Ao vergar a mola mole do espinhaço para efeito de encruzilhação dos atacadores sapatais, fendeu-se-me em irreversível rasgão a costura que vai do cós posterior à base da braguilha. Senti logo a friúra da aragem nas pudendas reentrâncias. Como só tenho aquele par de calças (descontando o de casamento, que há trinta anos me não sobe o joelho, quanto menos içar posso à ilharga), foi de calções de caqui cigano que saí à rua.
Deu-se-me então o 2.º Desastre. Ao lustral sol da praça já, lembrei-me do caldo ao lume. Aflição imediatamente vascular-cerebral! Apocalíptica bofetada de arrelia! E exsudorífera agonia fria. Deslarguei-me a correr de calções como se por milagre houvesse voltado a menino. Não esperei pelo elevador. Galguei mas foi degraus & patins – não aos saltinhos científicos à Nelson Évora, não, mas sim à marido de bombeira na antemão de caçado em flagrante por fogo-posto ao próprio casebre. Na esfalfad’arfante atrapalhação, deixei cair as chaves para aí umas setenta-e-catorze vezes. Adentro já, a esconsa cozinha volvera-se numa ominosa espécie de sauna crematória. Desfolhei do fogão a obstinada rosa do gás, deitei ao diabo o testo da panela sem tempo para urrar o calão das queimaduras, espreitei o mais actor-trágico possível: galináceo cremado, caldo evaporado e o fundo todo esturricado. Moral da história já a seguir no ponto 4 e último:

4 Com toda esta desEngrácia de Câmara, viver em Santarém não é canja.  

quinta-feira, setembro 15, 2016

Rosário Breve nº 472 - in O RIBATEJO de 15 de Setembro de 2016 - www.oribatejo.pt



Madrigal



Voltei a despertar sem alarme e a levantar-me às seis da manhã. Durante o aparentemente infindável Verão, tornou-se-me impossível tal madrugação. Estou agora todavia pronto a retomar a vocação de guarda-matinas. É outra higiene mental, garanto-vo-lo sem tretas. É vocação erma & linda.
A cru, desjejuo a catacumba gástrica com um copo de água tépida. Deixo ferver no vazio. A nutrição mastigante tem tempo. O mundo da Casa renasce entretanto em tal singeleza, que nem de palavras precisa. Nem rádio, nem televisão, nem computador. Para que raio me serviria saber da rotineira balbúrdia dos acessos viários a Lisboa e Porto, igual todos os dias com seus toques por trás à Rotunda do Relógio e/ou à Fábrica de Produtos Estrela? E dos famigerados “mercados” abrindo em baixo hoje o que ontem fecharam mais abaixo ainda? Em vez disso, passarada trabalhando música lá fora, isso sim. Descerro o estore, deixo entrar o mercúrio frescote da primeira linha d’alva. Da cadeira do quarto, faço por revertebrar as roupas quebradas, demando os sapatos desirmanados, esqueço-me dos óculos afinal já postos ao norte da tromba.
As decisões começam impondo-se-me já, porém. Raspar a barba hoje – sim ou não? Calças de lavado? Se sim, as azuis ou as castanhas? Nestum ou resto da sandes de atum? E até que seja meio-dia – Aquilino ou Cesário? Tudo opções com algum aparato de complexidade, que adio para depois da chuveirada na carcaça.
Descaso-me. À face oriental da ponte, sustenho a passada para arbitrar uma verbosa porfia entre vendedeiras. Ao que percebo, receiam ambas (ou ambas desejam muito) vir a ser comadres: o filho da das couves & a filha da das fanecas etc.-&-tal já com bambino feito e a caminho. Alvitro-lhes que o melhor ainda seja esperar por quinta-feira, dia em que o Jornal sai com a minha decisão por escrito. Acham-me sensato. Isso maravilha-me: serão talvez as duas únicas mulheres do mundo a achá-lo-me. Maravilhado, desando & sigo.
Os expressos da Rodoviária disparam já à rosa-dos-ventos-cardeais. O de Lisboa leva um pouco mais de maralhal do que os outros. O de Abrantes leva a velha dos tremoços. O de Santarém acarreta sete ucranianos que vão para as obras das barreiras mas, pelo que (não) ouvi dizer, se calhar vão mas é de passeio à senhora-da-asneira. O de Coimbra não me leva.
Aos poucos, a terriola fervilha quanto pode. Já há velhas-do-galão-margarina-no-pão pelas pastelarias. Toxiarrumadores esbracejam já ao níquel no baldio que, dizem, a Câmara não tarda muito a eriçar de parquímetros mamões. O cónego da Sé paquidermandarilha com o breviário do Record.
Não deram ainda as oito & meia, mas os panos de relva do Jardim, rociados ainda do refrigério nocturno, surgem já esmaltados do sol salvífico. A estátua do Poeta Oficial, devidamente cagada das pombas à imitação do que lhe fizeram à Obra as moscas, boceja de bronze na praça das arcadas. Sob estas, tomam anis os grossistas e ponche os retalhistas: de riscado, de tabaco, de faianças, de retrosaria, de pitrol & de outros alternes com ou sem kizom(pim)ba.
Ao quarto-para-as-dez, a madrugada é já uma improbabilidade crepuscular. O nervo do dia tempera o aço da jorna. Um cantoneiro, furioso por ter tropeçado na tampa de saneamento que o madraço do gajo das Águas deixou esbeiçada de esguelha, vai ali à Alice Zarolha amandar-lhe c’um branco só por causa das merdas. Da gaiola aberta do andaime, o pintor adere esfregaço de tinta areada a uma empena de terceiro-andar. De patitas carcomidas pela própria dejecção, pombas coxeiam como polícias reformados. Passa mais além, de rolos-projectos à sovaqueira, aquele empreitovigarista que é amigalhaço do ex-cunhado do vereador que tem a mulher metida naquilo do Gás. Carrinhos-bebés passeiam paridas-solteiras. Do Anselmo das Bifanas mana um fio maravilhoso de petinga frita agorinha-mesmo que nenhuma perfumaria de Paris pode alguma vez emular.
Parece impossível: onz&quarent&sete são já elas. Campeio por berma-rio o retorno ao casebre. Na passadeira, deixo passar, que vai doida, uma ambulância de tal maneira aos uivos que deve ser um lobo a ir ao guiador. Quando meto a chave à ranhura, soa a sirena da Cerâmica. Que fazer primeiro? A crónica ou o almoço? Decido-me pelo raspar da barba, que hoje pode muito bem ainda vir hora de ser visto pela Ermelinda (erma, linda), a quem nem Cesário nem Aquilino aquentam ou arrenfentam, à semelhança do deitar-cedo-e-cedo-erguer, que a gente um dia é toda morrer, case-se ou não o filho da das couves com a faneca da filha da outra.


ENCONTROS DE BOLSO - republicação de texto, agora como crónica n.º 11 da série CONTRA OS CANHÕES - in Quinzenário TREVIM (Lousã), edição de 15 de Setembro de 2016



Encontros de Bolso



Junta-se um sem-fim de coisas nos bolsos. Cada um (não) sabe das suas. É preciso despejar os bolsos de vez em quando. Caso contrário, o acumulado toma-nos conta da vida.
Ia eu no comboio descendente. Meti a mão ao bolso à cata de uma afiadeira. Encontrei um lenço agora enxuto, resto mortal de um amor que deixou de valer a pena molhar. Encontrei a chave de um carro que não tenho há muitos anos por me ter esquecido de onde o estacionei. Encontrei uma unha que roí numa quinta-feira do ano passado. Encontrei o calor da minha mão. Encontrei um peixe que se tinha abrigado de não estar a chover. Encontrei um bilhete manuscrito com a voz do meu Pai a dizer “há arroz de frango está no fogão”. Encontrei o arroz, mas não o meu Pai. Encontrei uma maneira diferente de escutar as árvores. Encontrei um pássaro desenhado a feltro azul por uma estrela de cinco pontas. Encontrei uma estrela de cinco pontas que era, a feltro encarnado, uma mão de menina. Encontrei uma carta impreterível do banco. Encontrei a peça principal de uma máquina do futuro. Encontrei uma ponta de cigarro fumado por outra boca. Encontrei um jornal publicado antes de tu teres nascido. Encontrei duas folhas de árvore: a nervura de uma indicava a certeza da morte, a transparência da outra demonstrava a necessidade de nascermos. Encontrei um bilhete manuscrito com a voz da minha Mãe a dizer “se não quiseres o arroz estrela ovos não sujes o fogão todo”. Encontrei a tatuagem do marinheiro que todos deveríamos ter sido. Encontrei um brilhozinho nos olhos sem olhos. Encontrei o mapa dos rios do sangue. Encontrei a visão aérea da solidão. Encontrei uma pulga que fazia poupanças há quinze anos para comprar um cão maior. Encontrei a fotografia que vê a minha irmã vestida de verde a olhar pela janela uma manhã sem remédio.
Só não encontrei a afiadeira com que costumo aguçar o lápis que escreve estas histórias.

quinta-feira, setembro 08, 2016

Rosário Breve nº 471 - in O RIBATEJO de 8 de Setembro de 2016 - www.oribatejo.pt





Utopias e boas companhias



1 O senhor meu Pai comprava todos os dias o jornal. Era o Diário de Lisboa. Nenhum dos dois existe já. Era um senhor bom Pai. Era um senhor bom jornal. Fui bem criado, pois: como filho e como leitor. Cheguei a desejar escrever, um dia, naquele periódico. A realidade da extinção tornou-me irrealizável tal utopia. Em compensação, escrevo aqui, nO Ribatejo. A vida não me foi madrasta de todo, portanto. Só tenho pena de, chegando a casa, não poder mostrar ao meu Velhote as palavras que tão boa companhia me fazem, a saber: as dos grandes Armando Fernandes, Arnaldo Vasques, António Branquinho Pequeno, Beja Santos, Fernando Paulo Neves, João Salvador Fernandes, Joaquim Jorge Carvalho, Mário Rui Silvestre e, de longe em longe, Carlos Cruz e Carlos Chaparro. Mais o traço impagável do António Maia. Mais tudo o que fazem os profissionais desta Casa.
Não digo isto por mariquice sentimentalóide. Digo-o por gratidão. São quase nove anos e meio de comunicação com as gentes leitoras de uma Região tão bela quão mal aproveitada. Pronto, está feito e fica dito.
2 Derredor o meu par de óculos, a Realidade quotidiana é insalubrezita. Muita (demasiada) gente sem trabalho. As televisões industrialmente jorrando lixo. Lixo propriamente dito pelo chão, manado por gentalha sem pinga de civismo nas ventas. Estoiros rodoviários perfeitamente evitáveis. Incêndios criminosos. Coisas mal pensadas, mal escritas & mal lidas. Um ror, enfim, de mediocridades que vou fazendo por desprezar com a tranquilidade possível. Como não sou super-herói, desforro-me na frequência agradecida de bons impressos, tais como: A Morte É um Acto Solitário, de Ray Bradbury; Papéis Inesperados, de Julio Cortázar; Silja, de F. E. Sillanpää; As Grandes Correntes do Pensamento Antigo, de Albert Rivaud; Las Doctrinas Políticas en Portugal (Edad Media), de Francisco Elías de Tejada Spínola; a maravilhosa Hélade, compendiada pela também maravilhosa Doutora Maria Helena da Rocha Pereira; e ainda, claro, o nossO Ribatejo. Vou-me safando com algum garbo. Vou, vou.
À maneira de despedida, sempre V. digo que, se me sair uma batelada brutal no euromilhões, reactivo o Diário de Lisboa e ponho-me Director dele, para alegria secreta do senhor meu Pai. Há-de ser limpinho. Ou nunca, que sempre é o mais certo.




quinta-feira, setembro 01, 2016

Rosário Breve nº 470 - in O RIBATEJO de 1 de Setembro de 2016 - www.oribatejo.pt



Mas isto sem enredos nem dramas



Durante duas semanas, não soube que fazer nem da nem à minha vida – a quinzena de descanso (aliás justo, merecido aliás) dos trabalhadores desta Casa fez com que o meu trânsito temporal pelo tórrido Agosto equivalesse, ora nem menos, a um ardente viático deserto sem fofuras frescas de oásis à miragem. Duas vezes sete dias sem uma embirraçãozinha com a Câmara – caramba, sempre é estopada, sempre é seca, é ferro sempre! Mas enfim, o Jornal está de volta. Vem arejado, ourejado, bronzeado. Vem são como um bebé de boa casta e de rosada compleição já muito capaz de seus gu-gus & de seus dá-dás.
Setembro aí está. Hoje é o dia n.º 1 dele. Já se ouvirá roncar a maquinaria de reconsolidação das barreiras? Daqui onde escrevinho, a não sinto. Talvez amanhã, útil dia também. Cuido tão-só, riscando-me porém a papalvas facetas de ingénuo, que à palavra dada se dê seguido acto – e que as orçadas obras arranquem sem mais. Nem menos.
Nisto, num sítio por acaso não longe daquele em que o meu Leitor me segue as linhas, abeira-se-me um sujeito espadaúdo de que não conheço o nome mas cujos ademanes reconheço. É de cabeça cúbica como uma esfera errada, carão de malares metalúrgicos em que negreja um bigodão de crepe lutuoso, nariz esponjoso qual framboesa feita de fígado, olhinhos desconfiados como pardais pretos e de pescoço grosso sulcado de cordoveias sujas & fortes como lianas amazónicas. No fundo como à flor, não é mau tipo. É apenas burro. É apenas mula. Gosta de atirar trocadilhos sentenciosos mas fáceis do género: “É preciso mudar as coisas do Estado para mudar o estado das coisas!”. Ou então paradoxozitos desta classe de pacotilha: “Isso foi gajo que até no morrer teve sorte!”
Ele àquela mesa, eu a esta. Moita-carrasco (sem flores de trocadilho) da minha parte. Cúnfia nenhuma. Laissez-estar, laissez-palrar. O gajo sente, manando de mim como uma febre electrostática, um silêncio de espessura de edredão. Sorrelf’olha-me de oblíquo viés. Desconfiado, ele – hoje em dia, escrever num Café sem ser no tablet ou no telelé mas sim, ainda por cima, a caneta e em papel – pode ser de grande melro, mas não grande espingarda. Sinto-o presa agónica de uma ardência comichosa. Herpes da mente, urticária da alma, psoríase da perguntação, frieira do diga-me-cá. Incapaz de açudar a torrente daquilo que matou o gato, vozeia-me ele:
Você desculpe, mas isso aí da escritura é mais nódoa atirada ao pano do sôprezdentedacambra ou quê?
Tiro os óculos para o ver mal e, sem uma palavra, meneio o capacete que não.
Mas ele:
Você desculpe se quiser, mas é qu’isto tem sido das suas partes um inzajêro, qu’ele é o home’ nas procissões todas imaizalgumas, el’é ele a birabaixo nas barreiras, el’é ele a deixar sujar o Tejo como se o Tejo num tibesse auga suficiente pa’ se lavar, el’é ele tudo e todo por coisa nenhuma.
Mazeu, sempre assilábico, de uma afonia manhosa sempre, escorneio o meu casco – que não.
Acalmado, o bigodão então assim para mim:
Bom e bem-haja atão assim, q’atão assim é bem melhor. Em-fim, sempr’aforam duas semanitas estas de quétude & sossego, pois atão num foram?
E eu (ou: mazeu), resguardando-me a caneta & guardando-lhe rancor, abandono o proscénio, sem nódoa que caia onde
CAI O PANO.

POUCA TERRA, MUITA TERRA - crónica in Quinzenário TREVIM, edição de 1 de Setembro de 2016


Fotografia de Helder Jorge Tomás Medina



Pouca terra, muita terra

Li, reli e não tresli: “Plano regional de transportes ignora Ramal da Lousã”. Vinha no nosso TREVIM de 18 de Agosto último. Parece que uma tal “Comunidade Intermunicipal da Região de Coimbra”, fundamentada numa remota empresa de engenharia do Porto, a “TRENMO”, nem pia sobre a autêntica ferida aberta que continua a ser a suspensão do serviço ferroviário de Coimbra a Serpins.
Para mim (como decerto para milhares de cidadãos mais), isto é mais do que mera incompetência política. Isto roça a irresponsabilidade criminal. Num português vazio, bem pode a papelada do “Plano Intermunicipal de Mobilidade e Transportes” apregoar a “necessidade de uma inversão da quebra de competitividade do sistema de transporte público”, agitando a bandeirinha retórica do “aumento da eficiência, eficácia, competitividade e conveniência” – tretas, digo eu: tretas. O que queremos todos é o comboio de volta. Chamem-lhe “metro”, chamem-lhe o que quiserem – qual seja o nome, queremo-lo de volta porque é nosso e porque não é um capricho mas uma necessidade crucial que em outros melhores tempos tínhamos por satisfeita.

Setembro tem de ser o mês em que a iniciativa do TREVIM seja ouvida, lida & e tida em devida conta. A petição pública pela reposição do serviço rodoviário do Ramal da Lousã é de uma qualidade democrática cada vez mais rara nestes tempos de esvaziamento cívico e de estupidificação massiva. A linha está bem. Reponham-se os carris onde criminosamente foram arrancados. E que rolem cabeças até que de novo role o serviço de boa memória. Memória oxalá que futura.

quinta-feira, agosto 04, 2016

Rosário Breve nº 468 - in O RIBATEJO de 4 de Agosto de 2016 - www.oribatejo.pt



Um jantar românticochon 
ou 
Crónicóinc



1 Extravagância rara mas perdoável, a minha Senhora & eu fomos, por uma destas cálidas noites do corrente Estio, jantar fora. Andáramos meses amealhando moedas esquecidas. A hora boa era boamente ora. Lá fomos, carregadinhos das moedas.
Ampla, a esplanada era toda de távolas amarelas com réclame ao chá gelado da moda. Derredor, falava-se muito francês com sotaque de Alpiarça. Hordas gordas pastavam com afinco. Tudo entrava à base de azeitonas roídas de coentros alhados e rijinhas ao dente, queijinhos de saudades do da Serra, pâtés de sardinha moída e/ou de atum cirrótico. Atafulhadas de vaporosa legumagem, travessas-inoxes exclamavam ricas fumegações de cozido não-pobre: unha, costela, morcela, linguiça, orelha, farinheira, pesadelos tudo do maralhal islamita. Bêbedas de vinha-de-alhos, caçoilas de barro preto chanfanavam capitosamente o ar nasal. Nacos de bacalhau, espessos como dicionários do bom tempo pré-AO/90, rangiam fofuras ébrias de azeite. Garoupas & robalos decapitados rogavam tão-só, no que prontamente eram deferidos, que os imolassem sobre cama de arroz-de-espigos levado ao forno. Míseras delícias, enfim, desta vida de uma-noite-só-por-ano, que uma noite não são dias. Estar vivo era quanto bastava para ser um bocadito feliz sem remorso. Foi então que.

2 Foi então que se deu aquilo dos porcos. Estávamos todos tão bem da vida como parágrafos abertos e fechados em torno de um segredo bom. Mas então – os porcos. Passou-se que uma viatura de transporte de animais vivos estacionou à face da esplanada. O frete era de suínos-recos-javardos-grunhos-tós. Uma caminéte de porcos, pronto. E de pronto o ar se saturou do pungente perfume da merda mais viva, mais penetrante, mais perfuradora & menos tolerável da nossa vida. Nossa, de todos. Senhoras começaram a gasganetar a bola da mastigação. Criancinhas ficaram de olhos húmidos como estrelinhas do Natal. A minha Graça começou a dizer mal do casamento que fez. E eu esfreguei as patitas de pateta contente: (“Já tenho crónica, caraças! Já tenho alegoria, carago!). E era que tinha. E é que tenho.

3 Tenho, tenho – esta assim, quereis ver/ler? Sei bem que quereis. Cá vai: a risível mas triste historieta do nosso (meu & da minha Senhora Esposa) jantar romântico é muito cotejável ao que ali por bandas de Torres Novas em má-hora acontece. Mais explicitamente: naquele afluente do Rio Almonda a que por triste ironia chamam Ribeira da Boa Água. A diferença entre o meu jantar à beira de porcos parados e a desgraça criminosa daquelas paragens está nisto: no meu caso, os porcos estavam quietos; no caso do Almonda & demais afluentes do pobre Tejo, os porcos não apenas se mexem como agridem as pessoas de bem que vêem a Natureza não como aterro ou esgoto mas como Casa de Todos. Está dito, está dito: e nas fuças dos porcos bípedes, covardes & covardes & porcos.

4 Moral da alegoria? Nenhuma. Nem tirando o O a alegoria pode dar alegria. É muita tristeza junta. É muita impunidade à solta. É muito ganancioso sem uma cadeirita de ferro pela corneta abaixo. Até que um dia o Diabo se lembre de lhes ser bom.

5 Por falar em Diabo, o diabo do porqueiro lá comeu felizmente depressinha (tinha vindo só para uma bifana no pão com um quartilho de branco-de-cozinha) & cá nos desamparou a loja. A vicissitude mal-odorosa refez-se, rarefez-se &desfez-se. Pagámos & desandámos. Vim para o carro com um sorrisito mefistofélicozito. E a minha Graça assim p’ra mim: “Já tens croniqueta, malandrim!...”.
E era que tinha. E não é que tenho?


ALEGORIA VENATÓRIA - crónica in Quinzenário TREVIM, edição de 4 de Agosto de 2016







Alegoria venatória




1. Esta que passo a contar-vos para efeito de alegoria passou-se mesmo. Mais do que verosímil, é verídica. Bebi-a de fonte limpa. Passou-se pois o acontecido assim:

2. Por certas matas & brenhas do nosso distrito, um homem tinha por uso andar na companhia de seus cães no intuito de apanhar coelhos silvestres para o tacho. Era caça sem licença e sem espingarda. Os rafeiros, exímios farejadores, davam conta do recado às mil maravilhas. O homem só tinha de fazer de batedor. Do resto, tratavam os patudos. Durante não contados tempos a fio, não faltou chicha orelhuda & roedora àquele caçador sem pólvora nem chumbo. Ora, como tantas vezes nesta vida, o êxito particular foi pai de invejas públicas. Aquela cinegética artesanal, coroada como era de tão clamorosa recompensa petisqueira, caiu mal no goto de uns quantos sicofantas. Como “sicofanta” significa “delator”, os meus Leitores já estão a ver o que aconteceu: o homem foi denunciado às autoridades. Em consequência, veio a Venatória. O caçador passou a caça. Seguiu-se o seguinte: devidamente mandatados para o efeito, dois fiscais puseram-se a pé por aquelas brenhas & matas até darem com ele. Isto é, com eles: o dono dos cães e os cães propriamente ditos. Caçaram-no sem procurar muito. Foram direitos a ele & ao assunto: “Então o senhor anda por aqui aos coelhos sem licença, sem caçadeira e fora de época ainda por cima?”. Arvorando um ar seráfico de virgem que nunca sentiu bafo de macho, o homem contestou-lhes isto: “Eu? Eu népias disso. Ando por aqui às pinhas, só isso.” E os guardas: “Às pinhas? Então e os cães são para quê? Para farejar os pinhões?”. E o homem: “Cães? Mas quais cães?”. E os guardas: “Esses mesmos que estão aí a dar ao rabo junto a si, homem!”. Sem se desconsertar, respondeu-lhes o ladino: “Mas ó ‘sôs’ guardas, os cães nem são meus!”. Insistiram os fiscais: “Não são seus? Então por que raio andam eles por todo o lado atrás de si?”. Foi então que o homem lhes lançou esta pérola: “E ‘atão’? Vossemecês os dois também andam atrás de mim mas não me pertencem, pois não?”

3. ‘Por fas & nefas’, fica o conto contado. Que nos sirva de alegoria. Esta aqui: Também a linha ferroviária dita da Lousã, em tempos idos que não sei se voltam, andava sempre perto do povo que servia. E do povo era ela. Até que vieram os fiscais e lhe levaram os cães. Perdão, os carris. Até hoje.