quinta-feira, setembro 01, 2016

Rosário Breve nº 470 - in O RIBATEJO de 1 de Setembro de 2016 - www.oribatejo.pt



Mas isto sem enredos nem dramas



Durante duas semanas, não soube que fazer nem da nem à minha vida – a quinzena de descanso (aliás justo, merecido aliás) dos trabalhadores desta Casa fez com que o meu trânsito temporal pelo tórrido Agosto equivalesse, ora nem menos, a um ardente viático deserto sem fofuras frescas de oásis à miragem. Duas vezes sete dias sem uma embirraçãozinha com a Câmara – caramba, sempre é estopada, sempre é seca, é ferro sempre! Mas enfim, o Jornal está de volta. Vem arejado, ourejado, bronzeado. Vem são como um bebé de boa casta e de rosada compleição já muito capaz de seus gu-gus & de seus dá-dás.
Setembro aí está. Hoje é o dia n.º 1 dele. Já se ouvirá roncar a maquinaria de reconsolidação das barreiras? Daqui onde escrevinho, a não sinto. Talvez amanhã, útil dia também. Cuido tão-só, riscando-me porém a papalvas facetas de ingénuo, que à palavra dada se dê seguido acto – e que as orçadas obras arranquem sem mais. Nem menos.
Nisto, num sítio por acaso não longe daquele em que o meu Leitor me segue as linhas, abeira-se-me um sujeito espadaúdo de que não conheço o nome mas cujos ademanes reconheço. É de cabeça cúbica como uma esfera errada, carão de malares metalúrgicos em que negreja um bigodão de crepe lutuoso, nariz esponjoso qual framboesa feita de fígado, olhinhos desconfiados como pardais pretos e de pescoço grosso sulcado de cordoveias sujas & fortes como lianas amazónicas. No fundo como à flor, não é mau tipo. É apenas burro. É apenas mula. Gosta de atirar trocadilhos sentenciosos mas fáceis do género: “É preciso mudar as coisas do Estado para mudar o estado das coisas!”. Ou então paradoxozitos desta classe de pacotilha: “Isso foi gajo que até no morrer teve sorte!”
Ele àquela mesa, eu a esta. Moita-carrasco (sem flores de trocadilho) da minha parte. Cúnfia nenhuma. Laissez-estar, laissez-palrar. O gajo sente, manando de mim como uma febre electrostática, um silêncio de espessura de edredão. Sorrelf’olha-me de oblíquo viés. Desconfiado, ele – hoje em dia, escrever num Café sem ser no tablet ou no telelé mas sim, ainda por cima, a caneta e em papel – pode ser de grande melro, mas não grande espingarda. Sinto-o presa agónica de uma ardência comichosa. Herpes da mente, urticária da alma, psoríase da perguntação, frieira do diga-me-cá. Incapaz de açudar a torrente daquilo que matou o gato, vozeia-me ele:
Você desculpe, mas isso aí da escritura é mais nódoa atirada ao pano do sôprezdentedacambra ou quê?
Tiro os óculos para o ver mal e, sem uma palavra, meneio o capacete que não.
Mas ele:
Você desculpe se quiser, mas é qu’isto tem sido das suas partes um inzajêro, qu’ele é o home’ nas procissões todas imaizalgumas, el’é ele a birabaixo nas barreiras, el’é ele a deixar sujar o Tejo como se o Tejo num tibesse auga suficiente pa’ se lavar, el’é ele tudo e todo por coisa nenhuma.
Mazeu, sempre assilábico, de uma afonia manhosa sempre, escorneio o meu casco – que não.
Acalmado, o bigodão então assim para mim:
Bom e bem-haja atão assim, q’atão assim é bem melhor. Em-fim, sempr’aforam duas semanitas estas de quétude & sossego, pois atão num foram?
E eu (ou: mazeu), resguardando-me a caneta & guardando-lhe rancor, abandono o proscénio, sem nódoa que caia onde
CAI O PANO.

POUCA TERRA, MUITA TERRA - crónica in Quinzenário TREVIM, edição de 1 de Setembro de 2016


Fotografia de Helder Jorge Tomás Medina



Pouca terra, muita terra

Li, reli e não tresli: “Plano regional de transportes ignora Ramal da Lousã”. Vinha no nosso TREVIM de 18 de Agosto último. Parece que uma tal “Comunidade Intermunicipal da Região de Coimbra”, fundamentada numa remota empresa de engenharia do Porto, a “TRENMO”, nem pia sobre a autêntica ferida aberta que continua a ser a suspensão do serviço ferroviário de Coimbra a Serpins.
Para mim (como decerto para milhares de cidadãos mais), isto é mais do que mera incompetência política. Isto roça a irresponsabilidade criminal. Num português vazio, bem pode a papelada do “Plano Intermunicipal de Mobilidade e Transportes” apregoar a “necessidade de uma inversão da quebra de competitividade do sistema de transporte público”, agitando a bandeirinha retórica do “aumento da eficiência, eficácia, competitividade e conveniência” – tretas, digo eu: tretas. O que queremos todos é o comboio de volta. Chamem-lhe “metro”, chamem-lhe o que quiserem – qual seja o nome, queremo-lo de volta porque é nosso e porque não é um capricho mas uma necessidade crucial que em outros melhores tempos tínhamos por satisfeita.

Setembro tem de ser o mês em que a iniciativa do TREVIM seja ouvida, lida & e tida em devida conta. A petição pública pela reposição do serviço rodoviário do Ramal da Lousã é de uma qualidade democrática cada vez mais rara nestes tempos de esvaziamento cívico e de estupidificação massiva. A linha está bem. Reponham-se os carris onde criminosamente foram arrancados. E que rolem cabeças até que de novo role o serviço de boa memória. Memória oxalá que futura.

quinta-feira, agosto 04, 2016

Rosário Breve nº 468 - in O RIBATEJO de 4 de Agosto de 2016 - www.oribatejo.pt



Um jantar românticochon 
ou 
Crónicóinc



1 Extravagância rara mas perdoável, a minha Senhora & eu fomos, por uma destas cálidas noites do corrente Estio, jantar fora. Andáramos meses amealhando moedas esquecidas. A hora boa era boamente ora. Lá fomos, carregadinhos das moedas.
Ampla, a esplanada era toda de távolas amarelas com réclame ao chá gelado da moda. Derredor, falava-se muito francês com sotaque de Alpiarça. Hordas gordas pastavam com afinco. Tudo entrava à base de azeitonas roídas de coentros alhados e rijinhas ao dente, queijinhos de saudades do da Serra, pâtés de sardinha moída e/ou de atum cirrótico. Atafulhadas de vaporosa legumagem, travessas-inoxes exclamavam ricas fumegações de cozido não-pobre: unha, costela, morcela, linguiça, orelha, farinheira, pesadelos tudo do maralhal islamita. Bêbedas de vinha-de-alhos, caçoilas de barro preto chanfanavam capitosamente o ar nasal. Nacos de bacalhau, espessos como dicionários do bom tempo pré-AO/90, rangiam fofuras ébrias de azeite. Garoupas & robalos decapitados rogavam tão-só, no que prontamente eram deferidos, que os imolassem sobre cama de arroz-de-espigos levado ao forno. Míseras delícias, enfim, desta vida de uma-noite-só-por-ano, que uma noite não são dias. Estar vivo era quanto bastava para ser um bocadito feliz sem remorso. Foi então que.

2 Foi então que se deu aquilo dos porcos. Estávamos todos tão bem da vida como parágrafos abertos e fechados em torno de um segredo bom. Mas então – os porcos. Passou-se que uma viatura de transporte de animais vivos estacionou à face da esplanada. O frete era de suínos-recos-javardos-grunhos-tós. Uma caminéte de porcos, pronto. E de pronto o ar se saturou do pungente perfume da merda mais viva, mais penetrante, mais perfuradora & menos tolerável da nossa vida. Nossa, de todos. Senhoras começaram a gasganetar a bola da mastigação. Criancinhas ficaram de olhos húmidos como estrelinhas do Natal. A minha Graça começou a dizer mal do casamento que fez. E eu esfreguei as patitas de pateta contente: (“Já tenho crónica, caraças! Já tenho alegoria, carago!). E era que tinha. E é que tenho.

3 Tenho, tenho – esta assim, quereis ver/ler? Sei bem que quereis. Cá vai: a risível mas triste historieta do nosso (meu & da minha Senhora Esposa) jantar romântico é muito cotejável ao que ali por bandas de Torres Novas em má-hora acontece. Mais explicitamente: naquele afluente do Rio Almonda a que por triste ironia chamam Ribeira da Boa Água. A diferença entre o meu jantar à beira de porcos parados e a desgraça criminosa daquelas paragens está nisto: no meu caso, os porcos estavam quietos; no caso do Almonda & demais afluentes do pobre Tejo, os porcos não apenas se mexem como agridem as pessoas de bem que vêem a Natureza não como aterro ou esgoto mas como Casa de Todos. Está dito, está dito: e nas fuças dos porcos bípedes, covardes & covardes & porcos.

4 Moral da alegoria? Nenhuma. Nem tirando o O a alegoria pode dar alegria. É muita tristeza junta. É muita impunidade à solta. É muito ganancioso sem uma cadeirita de ferro pela corneta abaixo. Até que um dia o Diabo se lembre de lhes ser bom.

5 Por falar em Diabo, o diabo do porqueiro lá comeu felizmente depressinha (tinha vindo só para uma bifana no pão com um quartilho de branco-de-cozinha) & cá nos desamparou a loja. A vicissitude mal-odorosa refez-se, rarefez-se &desfez-se. Pagámos & desandámos. Vim para o carro com um sorrisito mefistofélicozito. E a minha Graça assim p’ra mim: “Já tens croniqueta, malandrim!...”.
E era que tinha. E não é que tenho?


ALEGORIA VENATÓRIA - crónica in Quinzenário TREVIM, edição de 4 de Agosto de 2016







Alegoria venatória




1. Esta que passo a contar-vos para efeito de alegoria passou-se mesmo. Mais do que verosímil, é verídica. Bebi-a de fonte limpa. Passou-se pois o acontecido assim:

2. Por certas matas & brenhas do nosso distrito, um homem tinha por uso andar na companhia de seus cães no intuito de apanhar coelhos silvestres para o tacho. Era caça sem licença e sem espingarda. Os rafeiros, exímios farejadores, davam conta do recado às mil maravilhas. O homem só tinha de fazer de batedor. Do resto, tratavam os patudos. Durante não contados tempos a fio, não faltou chicha orelhuda & roedora àquele caçador sem pólvora nem chumbo. Ora, como tantas vezes nesta vida, o êxito particular foi pai de invejas públicas. Aquela cinegética artesanal, coroada como era de tão clamorosa recompensa petisqueira, caiu mal no goto de uns quantos sicofantas. Como “sicofanta” significa “delator”, os meus Leitores já estão a ver o que aconteceu: o homem foi denunciado às autoridades. Em consequência, veio a Venatória. O caçador passou a caça. Seguiu-se o seguinte: devidamente mandatados para o efeito, dois fiscais puseram-se a pé por aquelas brenhas & matas até darem com ele. Isto é, com eles: o dono dos cães e os cães propriamente ditos. Caçaram-no sem procurar muito. Foram direitos a ele & ao assunto: “Então o senhor anda por aqui aos coelhos sem licença, sem caçadeira e fora de época ainda por cima?”. Arvorando um ar seráfico de virgem que nunca sentiu bafo de macho, o homem contestou-lhes isto: “Eu? Eu népias disso. Ando por aqui às pinhas, só isso.” E os guardas: “Às pinhas? Então e os cães são para quê? Para farejar os pinhões?”. E o homem: “Cães? Mas quais cães?”. E os guardas: “Esses mesmos que estão aí a dar ao rabo junto a si, homem!”. Sem se desconsertar, respondeu-lhes o ladino: “Mas ó ‘sôs’ guardas, os cães nem são meus!”. Insistiram os fiscais: “Não são seus? Então por que raio andam eles por todo o lado atrás de si?”. Foi então que o homem lhes lançou esta pérola: “E ‘atão’? Vossemecês os dois também andam atrás de mim mas não me pertencem, pois não?”

3. ‘Por fas & nefas’, fica o conto contado. Que nos sirva de alegoria. Esta aqui: Também a linha ferroviária dita da Lousã, em tempos idos que não sei se voltam, andava sempre perto do povo que servia. E do povo era ela. Até que vieram os fiscais e lhe levaram os cães. Perdão, os carris. Até hoje.

quinta-feira, julho 28, 2016

Rosário Breve nº 467 - in O RIBATEJO de 28 de Julho de 2016 - www.oribatejo.pt



Terrorismos estivais



1 O terrorismo não se esgota nos atentados suicidas, nem no fundamentalismo mascarado de religião, nem no maniqueísmo simplista nós bons/eles maus. Ah pois não. Ele há mais terrorismo. O das famigeradas “sanções” da alegada União supostamente Europeia, por exemplo. Intolerável ingerência na soberania de cada Estado mais “periférico” (isto é: tudo o que não é Paris, não é Bruxelas & não é Berlim), todo este aparato dos “défices estruturais” e da “Dívida” traz água estragada no bico. Para mim, é terrorismo. E não costumo enganar-me nas palavras que uso.

2 Outro terrorismo: a Corrupção. Ela é o fascismo de colarinho-branco. É também & ainda, por dentro da Democracia, o mais voraz inimigo dos direitos básicos que são a própria essência da dita. O direito ao trabalho, o direito à justiça, o direito à saúde, o direito à educação – tudo é quotidianamente minado e apodrecido em consequência do que por aí vai de gente vil, sem uma pinga de vergonha na cara, que infesta a banca. Por exemplo, a banca – claro que articulada com a sabujice de certa política. O clientelismo amiguista à portuguesa prima ainda, todavia, por um outro fenómeno iniludível. Este aqui: uma substancial porção do povoléu não deixa de sentir admiração pelos agiotas que roubam, pelas gravatas que garrotam, pelos euromilhões públicos gamados à escala industrial. É verdade: muito portuguesinho médio sente a sua veneraçãozinha pelos manhosos cujas roubalheiras tornam o erário público numa gamela a céu-aberto & à boca-fechada. Reforço & repito: há por aí muito Zé-Ninguém que gostaria de volver-se Zé-Alguém, não pela justa recompensa de um trabalho justo, mas pelo “esquema”. Haverá por aí algum Leitor meu que não conheça alguém assim?

3 Termino por esta semana com uma confissão: cada ano que acumulo, o Verão torna-se-me mais intolerável. A inflação centígrada dos últimos dias tem-me tornado um bicharoco recluso cozendo à sombra dos quarenta graus. Amanheço a desejar a noitinha. Jornada é fornada. No céu sem fronteiras, o grande Sol, rei ímpar, dardeja uma violência que calcina. Antigamente (falo por mim, só por mim), era uma estação bem-vinda. A trégua escolar chamava & juntava os grandes ócios maravilhosos de ir à fruta, ao rio, à mata, aonde o nariz livre apontasse. Aos 52 anos, sou um velhinho transido de calor que quer tão-só esses estores bem descorridos para baixo, essas cortinas bem encerradas, a casa tornada mosteiro de pedra fechada à violência solar. É como se o Sul da Europa tivesse sido tragado para sempre pelo Norte de África. Ou por Berlim. E ainda temos Agosto aí à porta, raios o partam.

quinta-feira, julho 21, 2016

Rosário Breve nº 466 - in O RIBATEJO de 21 de Julho de 2016 - www.oribatejo.pt



De milhões & anos aos trinta de cada vez



1 Se, como desde sempre planeei e planeio, conseguir viver aritmeticamente um ano mais do que os 77 totalizados pelo senhor meu Pai, em 2042 estico os pernis. E hei-de esticá-los pela mesma ordem com que, vivo, os enfio nas calças: primeiro o esquerdo, depois o outro, depois o outrinho. Se assim for & vier a ser, isto significa que hei-de estar bem morto há já três anos quando se cumprir o multimilionário tridecénio de investimentos agora publicitado pela empresa municipal Águas de Santarém. Mas – ou muito me engano ou nada me deixo enganar: ainda por cá hei-de andar de escorreitos costados sem que ninguém por então se lembre já deste Excel muito giro de 30 milhões/30 anos.
Quê? 929 mil ainda este ano? Quê? Milhão e ½ em 2017? Quê? Um milhão vírgula quatro em 2018? Pergunto eu: e haverá ainda Tejo para tanto milhão pingão? Hum. Estou como as galinhas: adoptei esta postura. Hum. Parece-me que isto é mais dar com os burros nas águas (de Santarém) de bacalhau. Hum. Isto parece-me pueril irresponsabilidade dos miúdos camarários.

2 Entrementes, Passos Coelho, ubíquo & exasperante como a micose, anda por aí angustiadamente angustiado à trela das consequências indivíduo-sociais do peso dos impostos & da tonelagem da austeridade obrigatória. Anda, anda. Hum. Cheira-me a ressabiado. Digo(-to) eu, Pedro: é preciso ter(es) uma cara de pau emoldurando essa boca de caruncho. Ou então um coração vácuo. Ou então um sótão craniano sem inquilino encefálico. Ou então isso tu(do) segregando o nada de tu(do) isto.

3 Mas por ora, aí o temos, qual a colossal livro – o Verão, cujos dias facilmente são páginas brancas, que não em branco todavia, antes sim varadas de caracteres iridescentes, antes sim ilumin(ur)adas de mísseis florestais despenhando-se perpendicularmente no mar do céu. As praias fervilham de celulites apetitosas como cascas de laranja espremidas a leite. Pelo entardenoitecer, numa conjuração de violetas à la pintor paisagista, as pracetas juncam-se de vestidos leves à pele de ginotortulhos pesados mas gráceis, mas levitantes, mas torrados do iodo do dia solar & platinados do luar perpétuo-enquanto-dura do comércio sazonal. O Império Salazar-Colonial sobrevive no casamento da sardinha assada com a caipirinha enregelada. Celebridades instantâneas como o AVC & como o Algarve publi’xibem as pernas magriças à maneira de estacas palafíticas & enchumaçam as mamonas moles injectadas em vão de silicone amolgado de tanto zezé-camarinha de taxímetro fodilhão-local. Mas ora mirai: o autarcazito íncola de BTTcicleta fazendo zig-gincana-zag pelas palmeiras de plástico que à pressa mandou plantar à frente do aterro a céu-aberto. Oh sim! O Verão é bom! É bom como um sonho que só há-de acabar quando nos esquecermos de que dormimos a vida.

4 Por falar em vida, não sei se já Vos disse que conto tê-la, à vida, e ela a mim, por mais 26 anos de hoje em diante. Dito assim, parece o que é: pouco. Mas ao menos não me há-de custar um milhão por ano, como parece querer fazer-nos crer aquela miudagem prestidigitadora do Excel (nunca Excelente) que me(n)tem águas & milhões à frente de burros, bacalhaus, coelhos & demais patetas arvoradamente bondosos – tudo malta a quem, malgré tout & enfim, desejo Verões enxutos & sonhos molhados até ao feliz ano 2045 de vez & para sempre sem mim, página que hei-de ser, limpa & finalmente, em branco.  

Rosário Breve nº 465 - in O RIBATEJO de 14 de Julho de 2016 - www.oribatejo.pt



De milhões & anos aos trinta de cada vez



1 Se, como desde sempre planeei e planeio, conseguir viver aritmeticamente um ano mais do que os 77 totalizados pelo senhor meu Pai, em 2042 estico os pernis. E hei-de esticá-los pela mesma ordem com que, vivo, os enfio nas calças: primeiro o esquerdo, depois o outro, depois o outrinho. Se assim for & vier a ser, isto significa que hei-de estar bem morto há já três anos quando se cumprir o multimilionário tridecénio de investimentos agora publicitado pela empresa municipal Águas de Santarém. Mas – ou muito me engano ou nada me deixo enganar: ainda por cá hei-de andar de escorreitos costados sem que ninguém por então se lembre já deste Excel muito giro de 30 milhões/30 anos.
Quê? 929 mil ainda este ano? Quê? Milhão e ½ em 2017? Quê? Um milhão vírgula quatro em 2018? Pergunto eu: e haverá ainda Tejo para tanto milhão pingão? Hum. Estou como as galinhas: adoptei esta postura. Hum. Parece-me que isto é mais dar com os burros nas águas (de Santarém) de bacalhau. Hum. Isto parece-me pueril irresponsabilidade dos miúdos camarários.

2 Entrementes, Passos Coelho, ubíquo & exasperante como a micose, anda por aí angustiadamente angustiado à trela das consequências indivíduo-sociais do peso dos impostos & da tonelagem da austeridade obrigatória. Anda, anda. Hum. Cheira-me a ressabiado. Digo(-to) eu, Pedro: é preciso ter(es) uma cara de pau emoldurando essa boca de caruncho. Ou então um coração vácuo. Ou então um sótão craniano sem inquilino encefálico. Ou então isso tu(do) segregando o nada de tu(do) isto.

3 Mas por ora, aí o temos, qual a colossal livro – o Verão, cujos dias facilmente são páginas brancas, que não em branco todavia, antes sim varadas de caracteres iridescentes, antes sim ilumin(ur)adas de mísseis florestais despenhando-se perpendicularmente no mar do céu. As praias fervilham de celulites apetitosas como cascas de laranja espremidas a leite. Pelo entardenoitecer, numa conjuração de violetas à la pintor paisagista, as pracetas juncam-se de vestidos leves à pele de ginotortulhos pesados mas gráceis, mas levitantes, mas torrados do iodo do dia solar & platinados do luar perpétuo-enquanto-dura do comércio sazonal. O Império Salazar-Colonial sobrevive no casamento da sardinha assada com a caipirinha enregelada. Celebridades instantâneas como o AVC & como o Algarve publi’xibem as pernas magriças à maneira de estacas palafíticas & enchumaçam as mamonas moles injectadas em vão de silicone amolgado de tanto zezé-camarinha de taxímetro fodilhão-local. Mas ora mirai: o autarcazito íncola de BTTcicleta fazendo zig-gincana-zag pelas palmeiras de plástico que à pressa mandou plantar à frente do aterro a céu-aberto. Oh sim! O Verão é bom! É bom como um sonho que só há-de acabar quando nos esquecermos de que dormimos a vida.

4 Por falar em vida, não sei se já Vos disse que conto tê-la, à vida, e ela a mim, por mais 26 anos de hoje em diante. Dito assim, parece o que é: pouco. Mas ao menos não me há-de custar um milhão por ano, como parece querer fazer-nos crer aquela miudagem prestidigitadora do Excel (nunca Excelente) que me(n)tem águas & milhões à frente de burros, bacalhaus, coelhos & demais patetas arvoradamente bondosos – tudo malta a quem, malgré tout & enfim, desejo Verões enxutos & sonhos molhados até ao feliz ano 2045 de vez & para sempre sem mim, página que hei-de ser, limpa & finalmente, em branco.  

Republicação de O Caso da Moral da Porca - in Quinzenário TREVIM, edição de 21 de Julho de 2016



O CASO DA MORAL DA PORCA



O meu vizinho tem uma porca que escapou à morte por causa do cio. Foi ele, não ela, quem mo disse. E eu acreditei e acredito. Acredito mas penso. Várias coisas.
Penso que, afinal, o sexo não é a porcaria que dizem. Pelo menos a partir de sábado passado, dia de matança que não foi de matança.
Reparei há muito no facto português de as quatro letras da palavra “amor” serem as quatro primeiras, também, de “a morte”. Mas isso é ortografia nacional. Este caso da porca ciosa (que se chama Ruça mas é branca e rósea como uma solteirona involuntária) levou-me para outros aléns pensativos. Mesmo. Muito.
Perguntei ao meu vizinho como é que ele sabia. Que ela, enfim, estava “saída”. Ele respondeu: “Anda distraída. E despreza o comer.” Fiquei maravilhado. O povo é deveras o maior sábio. Porque eu quis ver a Ruça. E vi: estava distraída. No olhar, aquela ausência mística de actriz de telenovela. No grunhir, aquela surdina que nasce das trompas do sul do corpo. No mexer, aquela preguiça enérgica de quem iria mas não vai porque só ia se fosse. Na hora, aquele instante de quem, estando ali, estava acolá, perfumando de alma uma essência de corpo, tendo “corpo”, por outra ordem, as mesmas letras de “porco”.
A Ruça não foi abatida no sábado passado. E não o será enquanto estiver como está. O que é bom para os porcos, penso ainda, também há-de ser bom para as pessoas. Sobretudo a moral. Que é esta: se sentirmos a morte por perto, o melhor é comer pouco. Comer pouco e distrairmo-nos muito. O mais possível.


quinta-feira, julho 14, 2016

Rosário Breve nº 465 - in O RIBATEJO de 14 de Julho de 2016 - www.oribatejo.pt



Crónica chocalhante



Raramente vou a hipersuperfícies comerciais. Aliás, nunca vou – levam-me. Não é por religião, não é por intelectualite – é só porque não & apenas porque sim. Quando quero ver rebanhos, vou à serra ou ao campo. A frívola transumância humana não me atrai. Na terça-feira, todavia, lá fui a uma hipercoisa dessas. Fui, não – levou-me a senhora minha mulher.
Era o que tinha de ser: um antro plástico cromado, espécie de nave colossal cujas entranhas estão fechadas ao sol. Roupa com palavras inglesas. Crianças clonadas a partir de matrizes tv-formatadas. Casais-carrinhos, todos com evidências de terceiras ou quartas-núpcias. Velhas pintadas como galos-de-Barcelos. Avôzinhos que vêm trocar dois meses de reforma por um par de sapatilhas xispêtêó para o netinho-nike. Máquinas rápidas. Salários-mínimos basbacando ante montras de inutilidades faustosas. Cuecas de marca mais caras do que o meu fato de casamento. Balões sem infância. Nenhuma igualdade, mas tudo igual. Tudo idêntico, mas sem identidade. Aborreci-me.
O paliativo foi ir para a zona dos fumadores, que é na rua. Os imortais, vulgo não-fumadores, ficaram todos lá dentro, enferrujando nos curros inoxidáveis. Cá fora, em torno & no subúrbio dos dois cinzeiros verticais de boca larga, éramos sete.
Éramos os sete: este Vosso servidor, a cavalo de um Camel; mais uma ruiva de mentira-coiffeur que chupava uma palhinha branca de filtro asséptico; mais um gordo de ar triste que levava a cigarrilha-creme à boca como se martelasse uma cavilha nos queixos; mais um magriço com ar de médico arrependido de não ter estudado poesia trovadoresca fumando Português Suave; mais um que trabalha como acordeonista numa escola de cegos & fumador de Kentucky; mais uma mulata esplendorosa (esplendor de rosa) de olhos verdes & de para aí uns sete metros de altura mais uns dois de peito fumando Dunhill; e ainda um rapazito inquieto que esperava acabássemos de fumar sem ser até à beata para poder fumegar, ele também, qualquer coisita.
Era a Modernidade. A Europa. A Social-Democracia-Cristã. O Futuro. O Bocejo. Valeu-me a volta da mulher minha senhora.
Era já o entardenoitecer. A brisa refrescava a visão de salgueiros beira-fluviais. Decidimos não ir logo para casa. Por um destes caprichos que de motivo não precisam & razão não usam, cirandámos a brando gasóleo pelas cercanias pós-municipais. Almejámos um tasco rural onde costumam acender carvão debaixo de peixe fresco. O vinho branco da casa, apalhetado de riscas oblíquas que ouriçam o palato, espuma de capitosa epilepsia pela boca bojuda do jarro de louça. Acampámos cá fora, entre grades vazias e operários cheios de fadiga sã.
Nisto, deu-se música natural. Espreitámos: balindo chocalhos, um rebanho tornava às cortes ao cabo de um dia de prado. Cão & pastor saudaram à passagem – o pastor levando indicador e médio à boina, o cão mijando na roda da carrinha do padeiro.
Pois. É mesmo verdade. Raramente me deixo hipercoisificar. E não é por religião, nem por intelectualite – é só porque nem mé nem meio mé.

quinta-feira, julho 07, 2016

Rosário Breve nº 464 - in O RIBATEJO de 7 de Julho de 2016 - www.oribatejo.pt





Ver para querer



Revisito com regularidade o século passado. Faço-o menos por nostalgia do que por necessidade de uma arqueologia crítica do presente. É uma demanda – mas não uma demanda temerária ou templária. Chamemos-lhe curiosidade.
Num clarão, eis-me em pleno Terreiro do Paço. Mataram ainda agora o Rei. A barafunda silva de espadeiradas aleatórias da guarda, de desmaios de senhoras, do tropel caótico dos basbaques. A Rainha esbraceja o ramalhete de flores furiosas. A cena sossega depressa – como tudo neste País.
Noutro flash, ardem ao sol cru os latifúndios cerealíferos a Sul. O território refracta a luz intensíssima: é uma insolação de miragem, uma hipnose eléctrica, um estupor de sobrevivência. Freima de cigarras. Pouquíssima gente – e uma árvore solitária aqui, outra quase em Espanha já.
Amordaçadas as carbonárias e as maçonarias, resultou em pleno o contragolpe católico daquilo de Fátima. Ao frenesi esquizo da I República, sucede a paz podre do cinzentismo totalitário. Embarca-se muito para outros morredouros: áfricas, brasis, cus-de-judas sem retorno.
Mas: Que será isto tão cedo na madrugada? Carros pesados saindo de Santarém. Aonde será a romaria? Lisboa. Cercar os mouros. Contemporaneidade de cravos & pides. Não matam o Rei, desta vez. Brandura. Ligeiro desassossego dUSAmericanos, que o Carlucci e o Soares consertam depressa. Europa nos Jerónimos. Primeiras hipersuperfícies. Jornais em sacas plásticas. Inteligências idem.
Ano 2000. Afinal não acaba o mundo. Nem a superstição. Acabam só o século & o milénio. Mais máquinas para comunicar, menos comunicação pessoal. Ensimesmamento da tecnojuventude, autismo dos explorados. Um por cento a lixar os restantes noventa e nove. Ná – melhor voltar ao ponto de partida.
Terreiro do Paço. Levaram já para o Arsenal o Rei, o Príncipe Herdeiro e os dois Matadores. Dão sais ressuscitadores às senhoras. Canadas de aguardente fervem nas tabernas. No Tejo, as barcaças amarradas quási não ondulam. Sabe-se difusamente que alguma coisa mudou para sempre. E essa coisa é o fim da inocência que nunca houve.
Vem a Grande Guerra. Mal preparada, mal equipada, lá vai a expedicionária carne-para-canhão. La Lys. Heroísmos de pandeireta. Anonimato dos mortos aos milheiros. Vem a nova Guerra Grande. Desta vez, a populaça abriga-se na frígida sacristia em que o País se tornou. No campanário, o Mocho-Mor treme: que (des)farão do meu fascismozito de missal? Nada. O penico ibérico das duas ditaduras pode continuar a receber a mijoca da indiferença mundial.
Mas: Que será isto tão cedo na madrugada? Carros pesados saindo de Santarém. Aonde será a romaria?
Sim. É com regularidade que revisito as catacumbas. O histórico não é morto. Nem é palavra vã. É preciso saber como foi, como deveria não ter sido. E como pode ainda ser.
Estabelecido isso, é esfregar a vulgata da consciência nas fuças dos Alemães. A começar, pelos Alemães. E a continuar por onde quisermos.
Se quisermos.
Quando quisermos.
 




quinta-feira, junho 30, 2016

Rosário Breve nº 463 - in O RIBATEJO de 30 de Junho de 2016 - www.oribatejo.pt

Da arte do chá

1 Parece que a última Convenção do Bloco (dito) de Esquerda ofereceu ribalta a uma farsola triste: a da assuada de que foi alvo a delegação, aliás convidada, do Syriza. Achei mal os apupos como o caraças. Para mim, ninguém lhano, ninguém gentil, ninguém cordato, ninguém bem educado – humilha, achincalha, indispõe &/ou enxovalha a quem, chamado por alguém, à casa de alguém acede. Os meus Pais sempre me inculcaram a evidência de ser o gesto a valer a mão, não o anel a valer o dedo. Catarina: o que aos gregos fizeram (pelo menos parte dos bloquistas com assento na plateia), justapõe duas em uma palavra só – má-criação. Não tem a ver com esquerda. Não tem a ver com direita. Não tem, sequer, a ver com política. Tem a ver com um pouquito mais de chá & com um bocadito menos de erva-fumada-para-rir na idade supostamente adulta. A dita assuada apupa-vaiante do BE ao Syriza fez-me, todavia, bem. Fez-me bem ao fazer-me, como me fez, voltar ao convívio do grande Poeta latino que Horácio foi, é & há-de ser. E a Horácio porquê?
2 Porque Horácio escreveu (cf. Epístolas, Livro II, 1.156): “Græcia capta ferum victorem cepit”. Em nosso Português: “A Grécia dominada superou o seu feroz vencedor”. Mas fará sentido ser, ante malcriados, citador do imorredouro legado horaciano? Fará. Porquê?
3 Porque citar um latino a propósito de gregos causa sempre certo frisson erudito. Impressiona sempre os coríntios. Engasga sempre os zebedeus. Faz sempre tossir à bruta os fumadores de palha magrebina. E faz sempre estacar em gelo os adoradores do fogo fácil: aquele fogo que queima sem saber que um dia tudo arde. Que um dia tudo arde para pedagogia finalmente adulta de certa parte da plateia do BE.
4 Entrementes, numa certa ilha não longínqua da Convenção catarinista, o Reino (des)Unido pôs-se na alheta/de frosques/vila-diogo do projecto pan-europeu nascido do pós-II Guerra Mundial. Sem pedir licença à miúda do Bloco, o mais vulgar cidadão cockney , nostálgico talvez de bifes de vaca não-louca, procedeu à edição de si mesmo em separata do breviário franco-alemão + ex-soberanias-cachopitas-satélites como por exemplo nós-Portugal. O que os Britânicos referendaram hoje será anteontem no dia a seguir a amanhã. Só isso. Ninguém sabe o que a seguir virá. Só eu sei. Só eu sei por que não fico em casa com o que sei. Saio de casa e venho a esta derradeira página do jornal berrar o que sei. Não é da realidade-Brexit-e-agora,-UE? que falo. É de Horácio. É de Horácio & é para aquela parte malcriada do BE. Trata-se do resto da citação do Poeta nascido a 8 de Dezembro quando faltavam 65 anos para o Cristo da manjedoura. Por causa disto: ao receber tão arruaceira & tão infelizmente em sua própria casa os convidados gregos, parte dos bloquistas neófitos da-coisa-depressa-mas-da-causa-devagar merece saber o latinório todo. O qual é: Græcia capta ferum victorem cepit et artes/Intuit agresti Latio”. Ou seja: “A Grécia dominada superou o seu feroz vencedor e introduziu as artes no agreste Lácio”. Ora, quem diz Lácio, Catarina, diz (des)União Europeia. Porquê, Catarina?
5 Porque, Catarina, a boa-criação é adereço comportamental da arte do chá, arte a que os Gregos, miúda, nem sempre chamavam cicuta

Rosário Breve nº 463 - in O RIBATEJO de 30 de Junho de 2016 - www.oribatejo.pt

Da arte do chá

1 Parece que a última Convenção do Bloco (dito) de Esquerda ofereceu ribalta a uma farsola triste: a da assuada de que foi alvo a delegação, aliás convidada, do Syriza. Achei mal os apupos como o caraças. Para mim, ninguém lhano, ninguém gentil, ninguém cordato, ninguém bem educado – humilha, achincalha, indispõe &/ou enxovalha a quem, chamado por alguém, à casa de alguém acede. Os meus Pais sempre me inculcaram a evidência de ser o gesto a valer a mão, não o anel a valer o dedo. Catarina: o que aos gregos fizeram (pelo menos parte dos bloquistas com assento na plateia), justapõe duas em uma palavra só – má-criação. Não tem a ver com esquerda. Não tem a ver com direita. Não tem, sequer, a ver com política. Tem a ver com um pouquito mais de chá & com um bocadito menos de erva-fumada-para-rir na idade supostamente adulta. A dita assuada apupa-vaiante do BE ao Syriza fez-me, todavia, bem. Fez-me bem ao fazer-me, como me fez, voltar ao convívio do grande Poeta latino que Horácio foi, é & há-de ser. E a Horácio porquê?
2 Porque Horácio escreveu (cf. Epístolas, Livro II, 1.156): “Græcia capta ferum victorem cepit”. Em nosso Português: “A Grécia dominada superou o seu feroz vencedor”. Mas fará sentido ser, ante malcriados, citador do imorredouro legado horaciano? Fará. Porquê?
3 Porque citar um latino a propósito de gregos causa sempre certo frisson erudito. Impressiona sempre os coríntios. Engasga sempre os zebedeus. Faz sempre tossir à bruta os fumadores de palha magrebina. E faz sempre estacar em gelo os adoradores do fogo fácil: aquele fogo que queima sem saber que um dia tudo arde. Que um dia tudo arde para pedagogia finalmente adulta de certa parte da plateia do BE.
4 Entrementes, numa certa ilha não longínqua da Convenção catarinista, o Reino (des)Unido pôs-se na alheta/de frosques/vila-diogo do projecto pan-europeu nascido do pós-II Guerra Mundial. Sem pedir licença à miúda do Bloco, o mais vulgar cidadão cockney , nostálgico talvez de bifes de vaca não-louca, procedeu à edição de si mesmo em separata do breviário franco-alemão + ex-soberanias-cachopitas-satélites como por exemplo nós-Portugal. O que os Britânicos referendaram hoje será anteontem no dia a seguir a amanhã. Só isso. Ninguém sabe o que a seguir virá. Só eu sei. Só eu sei por que não fico em casa com o que sei. Saio de casa e venho a esta derradeira página do jornal berrar o que sei. Não é da realidade-Brexit-e-agora,-UE? que falo. É de Horácio. É de Horácio & é para aquela parte malcriada do BE. Trata-se do resto da citação do Poeta nascido a 8 de Dezembro quando faltavam 65 anos para o Cristo da manjedoura. Por causa disto: ao receber tão arruaceira & tão infelizmente em sua própria casa os convidados gregos, parte dos bloquistas neófitos da-coisa-depressa-mas-da-causa-devagar merecem saber o latinório todo. O qual é: Græcia capta ferum victorem cepit et artes/Intuit agresti Latio”. Ou seja: “A Grécia dominada superou o seu feroz vencedor e introduziu as artes no agreste Lácio”. Ora, quem diz Lácio, Catarina, diz (des)União Europeia. Porquê, Catarina?
5 Porque, Catarina, a boa-criação é adereço comportamental da arte do chá, arte a que os Gregos, miúda, nem sempre chamavam cicuta

quinta-feira, junho 23, 2016

Rosário Breve nº 462 - in O RIBATEJO de 23 de Junho de 2016 - www.oribatejo.pt

Querendo, leiam só o ponto 6

1 “Recapitalização”. É novo eufemismo para “reiteração de roubalheira”. Aplica-se, agora, à Caixa Geral de Depósitos. A coisa pública. Até agora, parecia coisa exclusiva dos bancos privados. Aqueles que, havendo outrora lucros, gozavam privadamente deles. Aqueles que, havendo agora prejuízos, gozam publicamente da tal “recapitalização”. Um vento de insanidade devasta sem obstáculos a banca à portuguesa. E vai tudo dar ao mesmo. E vai tudo dar aos mesmos.
2 Uma mulher desconfia de andar a ser corneada pelo marido. Vai daí, afoga o próprio filho de ambos. Não consigo descortinar a relação causa-efeito. É como se, de repente, a realidade portuguesa se tenha posto toda a imitar o Correio da Manhã.
3 Recentemente, uma senhora apontou-me o dedo indicador: “O senhor só escreve coisas pessimistas.” Foi o que o dedo me disse. E eu, que tenho por norma não chamar “idiota” a uma senhora, acabei sofrendo a desconfiança de ter começado este mesmo ponto 3 chamando “senhora” a uma idiota.
4 Sem convite, uma recordação irrompe-me redacção adentro: a daquele dia em que a minha Senhora & eu fomos a Santarém visitar o meu cunhado Zé Carlos. Dei uma volta anónima pelo burgo. Fixou-se-me à retina o lixo, o mesmo que agora é bárbara moda incendiar nos contentores. Pelas ruas, as imundícies voavam baixinho como os crocodilos. Garrafas de plástico. Sacos da mesma matéria. Cascas de melão. Fotografias rasgadas. Livros do Rodrigues dos Santos e do Paulo Coelho. Alarmes internos da Caixa Geral de Depósitos. Classificados de massagistas do tal Correio da Manhã. Esse dia já lá vai e cá não volta. Recordo todavia o regresso: deu-se por terras mais limpas, mais lavadas, menos sujeitas à incúria insensata que propicia comportamentos de intolerável vandalismo anti-cívico.
5 Devagarinho e silencioso como um gato, o Verão acabou chegando. É como se o nosso vizinho Norte de África tivesse de repente escancarado o portal do forno. Toda a gente sabe que Outono & Primavera são coisas que já não existem. A Madre-Natura já só exerce o maniqueísmo: ou invernia agreste, ou estiagem canicular. A moderação temperada esticou o pernil. Sofro pena disso. À brutalidade centígrada, prefiro o que já não podemos ter: a sombra humanista da rendilhada latada de cachos, o suavíssimo favónio beira-fluvial de ir ali com a mulher às cerejas. Mas o real não é dado a versos. Nem para eles caminha.
6 Caminho eu para sábado próximo. Será 25 de Junho. Pelas quatro da tarde dessa jornada, procederei à apresentação pública de um livro chamado Júlio Dinis – As Pupilas do Senhor Escritor. A obra tem autoria do nosso Joaquim Jorge Carvalho, que no também nosso O RIBATEJO assina semanalmente, a páginas cinco, a coluna Zona dos Perecíveis. É a tese de doutoramento deste meu máximo Amigo pela Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. Acontecerá no esplendoroso Café Santa Cruz, paredes-meias com o vetusto templo do mesmo nome. Em boa hora, por bom motivo. E por à meia-dúzia ser mais barato, neste exacto ponto 6 dou provimento de fecho à crónica – quanto menos não fosse, para contrariar a senhoril idiota do ponto 3.




CONTRA OS CANHÕES n.º 5 - in Quinzenário TREVIM de 23 de Junho de 2016

Assunto com janela

Era um homem que tinha e mantinha um gato. O gato era velho, o homem também. Ambos respiravam, comiam e dormiam numa casa do extremo da aldeia. Pela chaminé descia a voz dos pássaros. O gato, enroscado na cama de jornais, abria um olho e recordava caçadas jovens. O homem tinha umas chinelas de pano onde guardava os pés magros. No fogão a lenha, cozia um pedaço de carne entre feijões e couve. Dividia o caldo e a carne com o gato, fazia café, que o gato não apreciava, ficava-se a ver as brasas com um cachimbo de ébano na boca. No mundo de fora, o vento levava a chuva e as folhas a passear pelas alturas.
Um dia, o homem ficou muito doente. O gato percebeu logo. Enroscou-se-lhe aos pés e esperou. O homem não melhorava. O tempo, sim. Cá fora, o sol fazia filmes com os pinheiros, a brisa embebedava as andorinhas, o cheiro da resina tomava conta da madeira perpétua das horas.
O gato levantou-se, saltou da cama e procurou uma saída. As portas e as janelas estavam fechadas. Todas elas. O gato falou, então. Emitiu aquela frase crescente que sobressalta o coração. Há um tigre em cada gato. O homem não reagiu porque estava todo ocupado a morrer. O gato cheirou a presença autoritária do fim do homem. Eram velhos, tinham tido tempo para compreender que se morre de tanto estar vivo.
Pulou para a cómoda e atirou-se pelo vidro. Na rua, entre cacos, o gato olhou a esquerda e a direita. Tinha de decidir-se por um lado.
Na cama, o homem sentiu o ar que entrava pela janela partida. Louvou intimamente a sabedoria do seu gato. Deixou-se estar, não lamentando nada, esperando apenas que a sua noite interior arranjasse maneira de fechar aquela janela, levando-o para longe de uma primavera que já não era para ele, uma primavera que, exclusivamente, era um assunto de tigres.


quinta-feira, junho 16, 2016

Rosário Breve nº 461 - in O RIBATEJO de 16 de Junho de 2016 - www.oribatejo.pt



Onze milhões de Emplastros

É que nem Salazar teria sido capaz de tão alto feito: desmiolar toda uma república mercê de um desporto dito rei.
Não recuo um milímetro nem tiro uma sílaba ao título que escolhi para a crónica desta semana. Desgosta-me profundamente toda a euforia de plástico que pelo meu País, por desgraça, grassa. Outra vez as bandeiretas compradas nos chineses, caraças! Outra vez os patriotas da boca-para-fora, chiça! Ainda e sempre a impossibilidade de ligar a TV, num canal produzido cá, sem que os rebanhos de totós (quantos deles desempregados?) não irrompam pela pantalha mui parv’alegres, micóticos como a sarna, amostardados como o sinapismo cataplasmante – e de uma moral tipo impingem que já não vale a pena coçar.
Eu gosto muito de bola, juro que gosto. Até corri atrás dela que nunca me fartei, na minha remo(r)ta mocidade que não volta. Mas isto é de mais: a alienação a granel de uma gente que não é senão culpada da própria mi(s)tificação a que de tão bom grado se sujeita – e tudo sem um ai, sem um vagido, sem um isto-é-tudo-muito-lindo-mas-então-e-os-contratos-a-prazo-a-dívida-externa-o-Estado-a-socorrer-os-banqueiros-o-petróleo-no-Algarve-o-nuclear-em-Espanha-às-portas-da-fronteira-via-Tejo?
Quem há-de rinchavelhar-se desbragadamente com tudo isto há-de ser o Pepe. Todo o tuga conhece este grande lusíada. Pepe 10 – Jorge de Sena 0.
Rui Patrício 5 – Miguel Bombarda 0. Renato Sanches 4 – Passos Manuel 0. Quaresma 8 – Aristides de Sousa Mendes 0. CR7 1000 – Bernardo Santareno 0. E, de repente, a realidade: Portugal 1 – Islândia 1.
Já tive mais pena que assim fosse, seja & continue a ser. Com os anos, o futebol foi & veio dando lugar, no meu caso como na minha casa, a outras predilecções lúdicas: a gotinha de soro nos olhos a horas certas, a pastilhinha de alopurinol para prevenção da artrite gotosa, o copinho de água fria em jejum para lavar as vielas arteriais seguido do copinho de leite morno para caiar a adega, o chegar cedo ao Café da Graciete tal que a mesa predilecta de fazer as crónicas não esteja ocupada por algum meliante que escreva para outro jornal.
Não, nem sílaba nem milímetro retiro ao título. Tanto patusco também cansa. Tanto carneiro também farta. Tanta micose também exaspera. E tanta idiotia também aleija. Ainda se…
Ainda se os gajos das quinas em campo fossem, sei cá, o Damas, o Jordão, o Vítor Baptista, o Arnaldo, o Lourenço, o Lemos, o Pavão, o Coluna, o Manuel António, o Travassos e o Matateu, isso ’tá bem, isso é que era uma esquadra de ataque à maneira. E o Eusébio no banco a descansar um bocadito sem ser para sempre como agora está.
E, claro, eu como treinador, que percebo muito mais de ser emplastro do que certos 11 milhões de outros que eu bem cá sei mas não digo quem são. 

quinta-feira, junho 09, 2016

PPPPortugal - republicação de crónica, agora in o quinzenário TREVIM (Lousã), edição de 9 de Junho de 2016

PPPPortugal

Passam por Portugal políticos possuídos pela profunda predestinação peregrina prescrita pelos próprios poderes. Poucos praticaram, porém, planos políticos plenamente populares. Preferem passear pelas populações prègando promessas, pedindo palmas, pagando púcaros, pisando pó por perímetros populares, pulando “pasodobles” pimbas, pregando petas pouco polidas.
Presentemente, Portugal passa por pacóvio período. Peço paciência para poder provocar pensamento: poderá Portugal precaver-se perante poderosas panelinhas pantafaçudas? Pândegas, patuscadas, panfletos, pandeiros, passeios: por perfeita portugalidade, Portugal prefere parecer pequenino, perfeitinho, pimpolhinho. Poderia projectar (por plenário popular) palavras potentes, precisas, poéticas. Prefere, porém, pedestais. Pode parecer pouco, pois pode.
Penso poder precisar perfeitamente, ponto por ponto, patentes promulgações. Portugal precisa parar para pensar, para perceber, para proliferar prometedoramente. Posteriormente, procuraria pedalada para, presciente, poder presenciar prezáveis porvires.
Pedi-vos paciência para portugalizar, por palavras portuguesíssimas (perdão pelos “pasodobles”…), pesados pensamentos pensados por puro prazer provocatório. Pedir perdão passa, porém, por perdidas portas. Pela presente, passarei por profano. Pessoalmente, prefiro passar por próprio pé. Porquê? Porque passarei pouco possuído, pouco profundo, pouco predestinado, pouco político.

Rosário Breve nº 460 - in O RIBATEJO de 9 de Junho de 2016 - www.oribatejo.pt

Do estrangeiro quase pobre




1. Pobrezas

A gente é pobre, mas pobre não é gente. Pobre só é gente no Natal, quando faz de pobrezinho. Pobre vota, mas não conta. Pobre desconta.
Pode ser-se pobre estando rico. Mas ser pobre não enriquece. Rico pobre é o que se remedeia. Remediar-se empobrece muito mais no tal Natal.
Uma coisa é a gente ser pobre. Ser remediado é a mesma coisa. Mas estar rico não é o mesmo que ser rico. Ser rico pode ser estar pobre. Remediado é que não.
Remedeio não é remédio. Remédio é cara da coroa da doença. Doença é quando se pensa. Pensar empobrece, não remedeia nem enriquece.
Pobre vale mais quando não tem remédio. Menos quando tem remedeio. Quando tem remedeio, pobre é rico pobre.
Pobre rico é outra coisa. Vive remediado e morre pobre. Enriquecer a vida é empobrecer a morte. Mas remediá-la é matá-la porque é empobrecê-la. Como pensá-la é tudo menos remediá-la.
Pobre vota, mas não bota. Pobre perdigota. Pobre perde e gosta. Não gasta. Gosta. Remediado também gosta, mas bota. Bota rico porque vota pobre.
Que remédio.

2. Um estrangeiro quase feliz

Moro em Portugal desde que nasci, o que, naturalmente, não abona muito a meu favor. Sou mais um estrangeiro, portanto. Sim, é estrangeiro que me sinto. Manhã muito cedo, por exemplo, vou ao café do meu vizinho tomar a primeira chávena do dia. Como trabalho por conta própria, deixo-me estar. Ainda por cima, é permitido fumar. Porreiro. Então, ligam o televisor. É fatal: TVI. É fatal: o Goucha. Sou corrido por aquela portugalidade que me resulta inaceitável, intolerável, insustentável, incontornável. Cá fora, chove. Escolho outro sítio para escrever. Descobri um que, coisa rara, não tem televisão.
É o cemitério. Entro, escolho um jazigo com degraus, sossego o coração, trabalho. Ninguém me chateia. Estou ali na paz do Senhor. O vento dá nas árvores, as aves pontuam reticências pelo papel do céu, deixou de chover, uma farpa de sol fura o cartão das nuvens. Quando preciso de algum nome para uma personagem, dou uma volta pelo labirinto simples das sepulturas. O primeiro nome deste senhor aqui, o segundo daquele e os dois últimos desta tão saudosa e estremecida senhora. Como vou morar em Portugal até morrer, já ando, por assim dizer, entre eternas saudades. Pelo fim da tarde, concedo-me uma hora de faz-nenhum e descanso em paz. Dou pão aos pombos e aos pardais da praça, ouço o canto branco da fonte luminosa, vejo passar as mulheres dos outros, vou ao parque sentir os anjos que se fazem pedra quando são descobertos, desando pelas vielas húmidas, atravesso uma praça de chão de gravilha, leio os nomes das ruas, cheiro as bancadas de fruta que alegram as ruas de uma felicidade vegetal, cheiro o frango voador das churrasqueiras, aprecio o rosto cheio de dignidade dos cães, resisto à tentação de nunca mais parar, paro, tomo um doce num tasco geriátrico cujas paredes contam calendários de santos e posters do Sporting – e sou quase feliz, apesar de estrangeiro no, afinal, meu País.

quinta-feira, junho 02, 2016

Rosário Breve nº 459 - in O RIBATEJO de 2 de Junho de 2016 - www.oribatejo.pt





Lisboa vai ela



Vem tu daí comigo, meu justo & meu fiel Leitor, ao quintal das traseiras da minha lembrança. Concede-me esse obséquio que, impagável embora, tentarei remunerar-te mercê de uma Língua limpa e, como tu, fiel e justa.
Tenho trinta anos. O senhor meu Pai morre há bocadito. Eu bato com a porta. Tenho trinta anos e estou há anos de mais na Escola. Desemprego-me do giz & da ardósia. Vou para Lisboa.
Ânimo que a Lisboa me leva: viver, se não do que escrevo, para o que puder escrever. Escolhi bem o exílio: Lisboa é a brancura perpétua, escândalo de cal que, qual mulher fácil, se oferece sem preço à veia aberta do Tejo.
Adapto-me logo: a pé, venho dos Prazeres à Alameda para (re)conhecer tudo. Franqueio as Águas-Livres, espreito de longe a podridão exposta do Casal Ventoso, tenho cuidado com a carteira quando roço os manhosos de Alcântara, da de São Paulo ao Arsenal colho a sombra já mediterrânica que encharca as casas velhas, pesponto, pedestremente sempre, a Áurea e a Augusta, descambo afinal no mesmo Rossio onde os senhores pais do Eça tiveram um quarto-andar.
É bonita, a Velha Olisipo. Às Portas de Santo Antão, que Rua de Eugénio dos Santos foi mas ingratamente deixou de ser, apetece-me pipis de frango imiscuídos em pimenta e caril. Vou-me a eles.
Enquanto tasquinho as entranhas aviárias e impregno as papilas gustativas de indianas especiarias, sei muito bem que estou existindo sem doença nem remédio na Cidade da multidão chamada Fernando Pessoa, que chamou nomes a Deus, e do douto doutor tomarense chamado José-Augusto França, que felizmente Deus ainda não chamou.
De ali, saio a ver o Passeio Público, a que têm a mania de chamar Avenida da Liberdade. Subo, subo, balão de todo. Escancara-se-me o Marquês, o tremendo anti-jesuíta da Reconstrução pós-1755. Saturo-me sem saciedade possível de todo o articulado geométrico, amplo, respiratório. A luz é tanta, mas tanta, que chega a doer nos ossos da cara. Compasso o passo ao ritmo capital da Cidade. Finjo que sou feliz, que sou liberto, que nunca deixarei de ter trinta anos nem de ser órfão, ou órgão, de Pai.
Tenho um quarto no Bairro dos Artistas, a poucas passadas do Areeiro. Vinte-seis continhos por mês e por baixo da mesa: não há papéis nem Finanças para ninguém. Trabalho ali aos Mártires da Pátria, Jardim do Torel, tão perto do Irmão Doutor José Thomaz de Souza Martins, esse tão bom médico, esse tão bom homem. Recebo sessenta e duas milenas: é curto, mas tem de dar. E dá. Foi dando.
Repara agora, meu Justo & meu Fiel: há quarta-feira europeia, os energúmenos dos cachecóis infestam o metro, há que evitá-los pelo lado certo da noite. Vou ao bar do peep-show sito ao sopé da Calçada de Santo António da Glória. O balconista chama-se Fernando e é sportinguista. A cerveja é a trezentos paus. Ainda não aconteceu a roubalheira da conversão do escudo em euro. Fernando teve qualquer coisa a ver com o Parque Mayer, ali tão perto: não sei se uma nostalgia teatral, se uma mulher. Não inquiro. Saio.
É Lisboa outra vez: se eu quiser, dou à doida pela Fontes Pereira de Melo, devasso os Campos, chego a Campolide. Mas não quero. Quero antes isto: submeto-me à paranóia descomunal da fugacidade do Tempo, tenho mas é 52 anos e dou-me de cara(s) a ti, meu Fiel, meu Justo, num jornal que é, afinal, de Santarém, primeiro e último apeadeiro até à Coimbra de que nunca deixarei de ser, por mais boa que ela vá.

sexta-feira, maio 27, 2016

Rosário Breve nº 458 - in O RIBATEJO de 26 de Maio de 2016 - www.oribatejo.pt

A sangue-frio e sem anestesia

1 A edição passada do noss’ O RIBATEJO deu justo destaque, de capa e tudo, ao intolerável arrastamento do problema relativo ao bloco operatório do Hospital de Santarém. Escuso de sumariar aqui a matéria exposta pelo Jornal: a peça de João Baptista é plenamente clara e demonstrativa. Se volto porém à carga do assunto, é por um pormenor que, como popularmente se diz, me fez espécie.
Trata-se de uma declaração do senhor presidente do Conselho de Administração do Hospital Distrital de Santarém, José Josué. Disse ele: “As dificuldades na actividade cirúrgica prendem-se fundamentalmente com a falta de anestesistas. É o que mais desconforto tem provocado. Podemos ter muitas salas, mas, se não tivermos anestesistas, as cirurgias não se fazem.
Quero dizer isto: há falta de anestesistas porque os médicos não se vêem a si mesmos como servidores públicos. O sistema permite-lhes a concentração faustosa em Coimbra, Lisboa e Porto – e a Província que se lixe. Se fossem professores, teriam de concorrer aonde vagas houvesse – mesmo que a centenas de quilómetros da própria residência. Se fossem futebolistas, treinariam onde o clube contratante tivesse o recinto para tal. Se fossem canalizadores, canalizariam onde fosse a obra. Mas não, eles não: é-lhes difícil suportar o anátema do João Semana. Digo isto assim por ser exactamente assim que vejo, penso e caustico a realidade. Não serão todos assim – pode ser-me objectado. Claro que não. As generalizações são perigosas: mas eu sei do que falo. E os médicos também.
Coimbra, Lisboa e Porto não esgotam o País. Servem muita gente – mas não servem toda a gente. As populações do maltratado Interior merecem ser servidas com o mesmo grau qualitativo de serviço público que as do Litoral e as das grandes aglomerações urbanas. E insisto: os médicos são servidores públicos. Caso o não queiram ser, que se dediquem em exclusivo ao privado, deixando em paz a teta da vaca estatal. Tenho dito.
2 Passo agora a mais doce assunto. Vinha na edição passada também: “Abrantes tem dois campeões de cálculo mental”. João Bento, Rita Mascate, Matilde Santos Lourenço e Miguel Diogo Ruivo foram magníficos nas provas prestadas no âmbito do cálculo matemático. Campeões do mundo, nem menos. Estes meninos e estas meninas são mais do que o orgulho das respectivas famílias. São-no também das escolas que representaram – e nosso orgulho ainda. Na balbúrdia quotidiana de crimes escabrosos, de escândalos roubalheira-financeiros, de desertificação de lugares & ideias, o João, a Rita, a Matilde e o Miguel florescem como excepções de contracorrente. Daqui os saúdo. Quanto mais não fosse, pelo sorriso grato que se me colou à expressão no acto de leitura dos seus elevados feitos. Concluo assim: se algum destes quatro vier a formar-se em Medicina, primeiro, especializando-se em Anestesia depois, que se lembre, sei lá, de que o Hospital de Abrantes pode precisar dele/dela.
Já nem digo o de Santarém – Abrantes também é gente.

quinta-feira, maio 19, 2016

ROSÁRIO BREVE n.º 457 - in O RIBATEJO de 19 de Maio de 2016 - www.oribatejo.pt


Duas Suíças ou menos




1Tenta viver como se fosse manhã.”
Isto é Nietzsche lido por Bloom (H.). Parece-me boa injunção. Não é fácil: a noite figurada parece invencível as mais vezes. Não é fácil – mas é possível. E se é possível, está ao alcance.
Em caleidoscópio, as imagens do mundo concorrem-nos sem cessação. A atenção dispersa-se ao sabor (quantas vezes amargo) dos estímulos. A honestidade existe, mas não campeia. O banditismo parece integrar a essência humana. Os valores tidos por essenciais (direito à vida, ao trabalho, à saúde, à honra, à paz) podem ser e são escamoteados a pretexto de fantasmas obstinados: a superstição, a ganância, a ignorância, o preconceito, a dominação.
A veracidade evidente destas constantes é avessa à tal manhã existencial. Mas é possível combatê-la – antes que se faça tarde.
2 Na exígua paróquia do Universo chamada Portugal, os últimos tempos voltaram a ser fustigados pela euforia bêbeda da bola. Pelas redes sociais, umas (poucas) almas ainda verberaram tanta barulheira gráfica. Tipo assim: “Ah Portugueses dum caraças, se o desemprego, a saúde, a justiça e a austeridade forçada vos fizessem cerrar sempre fileiras combativas assim, seríamos para aí duas Suíças”. Mais ou menos isto. O espírito era este, se não o texto. Mas – quê? Rui Jorge Vitória Jesus, Jonas Fisgas Slimani Pistolas etc. etc. etc. etc.
3 Nos entrementes, há quem queira (e o queira muito) intoxicar a opinião pública com a antinomia Escola Pública – Colégios Particulares/Cooperativos. É natural que sim: estão em jogo os milhões de todos a saque de uns poucos. A necessidade pretérita dos ora famigerados contratos de associação tem sido em muitos casos, mercê do crescimento da oferta pública de rede escolar, debelada. Assim sendo, proponho três equações simples: Dinheiro Público – Escola Pública; Dinheiro Privado – Escola Privada; Caixa de Esmolas – Ensino Religioso. Pim, pam, pum. Posto de outra maneira: onde o contrato de associação se justifique (e há casos em que sim, note-se bem), cumpra-se; onde não, rasgue-se. E siga(mos) para bingo.
4 Se duas causas há que não apenas me não merecem simpatia como bem antes pelo contrário, elas são: 
- a dos taxistas de Lisboa; 
- a dos suinicultores nacionais.
Há tempos, na TV, um taxista queixava-se de que “por causa da Uber, só fazemos serviços para a chungaria”, acrescentando que “a polícia anda sempre em cima de nós e se levamos um euro a mais é o diabo”. Isto nem carece de comentário.
Quanto à suinicultura nacional, relembro tão-só que a ganância impura e simples, anos/décadas a fio, tem levado os produtores íncolas a desprezar as mais básicas condições ecológico-ambientais suas envolventes. ETAR? Os municípios que as paguem. Sei, infelizmente sei, muito bem do que falo: habitante há anos de uma região enxameada de pecuárias afins, não desconheço os recorrentes (e não punidos) atentados contra, por exemplo, os aquíferos e os flúvios. Como se também os suinicultores estendessem à chungaria consumidora a pouca higiene do seu/deles porquinho.
5 Onde isto já vai: comecei citando Nietzsche e já ronco… Não é grave, porém: a realidade ficará exactamente no mesmo sítio, pesada, inamovível, indiferente a estas minhas filosofices impotentes. Salva-me todavia o facto vero & mesmo de ser manhã. Objectivamente manhã. Horariamente manhã. Tenho o dia todo (tê-lo-ei?) por minha conta. Na cama que dele fizer, a noite passarei.
E nela sonharei, naturalmente que sim, com o meu tetra na próxima época.
Assim seja.

quinta-feira, maio 12, 2016

ROSÁRIO BREVE n.º 456 - in O RIBATEJO de 12 de Maio de 2016 - www.oribatejo.pt

Com a senhora de violeta

Sonhei há tempos com a minha morte.
Não foi um sonho mórbido. Teve, pelo contrário, qualquer coisa de apaziguamento. Deu-me mais placidez do que acidez. Posso contar-Vos, claro.
Parece que a minha morte é uma senhora. Tem a minha idade: nasceu no meu nascimento. Apareceu-me sem fogos-fátuos-de-artifício. Os sonhos são filmes-mudos e a preto-cinza-e-branco, pelo que preciso de escrever aqui “violeta” para Vos dar a ver o vestido dela; e de oculta aparelhagem áudio surdia um fio que tanto podia ser de Bach como de Tony de Matos.
Era num relvado violeta também, posto que o escrevo. Arvoredo disperso exclamava a prosa do ar. Eu tinha uma caixa pequena de queijadas idênticas àquelas de que um homem se esquece em Sintra e uma botelha plena de um vinhito branco muito enxuto, muito decente, muito capaz de embaciar o palato e a espera por melhores dias.
Apesar da amplidão por assim dizer cinemascópica do cenário aberto, não havia passarada, facto que me angustiava um bocadito. Um trecho de rio fulgurava de mercúrio vivo ao canto exacto da tela. Medas de palha enxuta torravam ao sol frio. A senhora & eu, era descalços que estávamos.
Uma espécie de curiosidade serena quis que eu lhe desvelasse o rosto. Consegui, mas não foi fácil. Bastava não olhá-la directamente. Bastava fechar os olhos para descortinar na perfeição a sua efígie: era a minha cara mas em rapariga. Aquilo fez-me sorrir: a minha morte usava mamitas e tinha de urinar sentada.
Não falámos um com a outra por a absoluta desnecessidade de poluirmos com sílabas oxidadas a qualidade limpa-metal da quietude. Entendemo-nos como nem nos melhores casamentos.
Ela mordiscou um doce, serviu-se a si mesma de um cristal de branco, suspirava de quando em vez como se fosse ela a sonhar. Eu ainda quis recorrer à telepatia para lhe falar da importância devastadora que a poesia de Carlos de Oliveira, tão precocemente desaparecido, teve – e continua a ter – na minha vida, mas a senhora telegrafou-me isto sem abrir a boca: “Essa morte não era eu.”
Condenado como toda a gente a reatar os liames do re-nascimento por força do despertar, despertei. Dei por mim sozinho na cama como um feixe de ossos numa cova sem leões, Daniel sendo embora. A boca sabia-me a branco agora morno e a pedacitos de Sintra. Não me sabia a amargura, como tão de costume.
Até hoje, não voltei a vislumbrá-la. Tenho ido à senhora minha médica, a contagem dos glóbulos-brancos não indicia leucemias, o tabaco tem sido muito mas queima-se bem tipo ashes to ashes, o apetite varia com a exposição maior ou menor às malevolências da política e o meu Benfica, enfim, parece querer saudar de novo a memória do senhor meu Pai.
Estou agora numa expectativa quase trémula: morro de curiosidade. Morro de curiosidade por acabar, ou seja, morro de curiosidade por acabar sabendo quem me voltará primeiro – se ela, se os pássaros.

CONTRA OS CANHÕES n.º 2 - in Quinzenário TREVIM de 12 de Maio de 2016

O cão do Café Pagelou

Passou-se esta há quase trinta anos. Era no Café Pagelou, ali ao centro da vetusta & formosa Lousã da minha vida moça. Para além do atendimento de qualidade, mais ainda do que pela sua excelente localização, o estabelecimento atraía-me os favores cafeínos por causa do cão da casa. Sim, por causa do cão da casa.
O número dele fazia sorrir toda a gente. O meu sentimento, porém, era dúbio, era equívoco, era contraditório, era paradoxal. Também eu sorria, é verdade, mas ao mesmo tempo aquilo entristecia-me. Porquê?
Porque o cachorro era viciado em açúcar. O pessoal mandava vir a bica, sacudia a saqueta – e zumba!: lá o tinha à perna, de esbugalhados olhos vítreos, mesmerizados pela doce droga, sacudindo o rabiosque a 180 km/hora. Se lhe davam o resto da saqueta, ele era virtuosíssimo no segurá-la com ambas as mãozitas dianteiras, estraçalhando-a sem apelo & com agravo. E então, lambia-lhe os dentros como um possesso. Sim, aquilo gerava sorrisos certos no derredor da freguesia. Mas, já vo-lo disse, também tinha o condão de entristurar-me. É que os cães não metabolizam o açúcar. São capazes de muitas coisas de alto mérito – mas da metabolização do açúcar,  não são. Eu sabia-o, portanto, condenado a um destino atroz: o da cegueira diabética. As três décadas volveram-se cinza.
Deixei há muito de habitar na Lousã de boa memória que revisito com gosto sempre que posso e/ou me lá chamam. O cãozito do Pagelou há muito terá ascendido ao céu dos quadrúpedes. Oxalá que, nesse merecido Paraíso, nem a pulga lhe resida atrás da orelha, nem o açúcar o cegue. Pode até ser que alguém, esta crónica lendo, se recorde do animal. Ou que, maravilha!, se lembre de como lhe chamavam. Por mim, sou tão-só capaz de vos garantir, em boa-fé & de boa-mente, a veracidade do exposto.
O titular cachorrito há-de perdoar-me, quero crer, que a lembrança dele seja por mim revisitada a pretexto alegórico. Este aqui: que outrora coisa relativa à Lousã se me insurja. E ela é esta – onde o cão é viciado em açúcar, e por causa disso cego, é a gente lousanense (e não só) viciada em amargura: pois só um cego não vê o que (des)fizeram à linha ferroviária que da Lousã tem nome, embora até Serpins chegasse.
Perdoado estás e ficas, cãozito, à face da voluntária cegueira tua não voluntária.
Não me perdoo porém eu a mim, ou a Vós por mim, por, cada vez que de novo arribo à honesta, formosa, vetusta e perpétua Lousã, ouvir ladrar tão pouco à falta do roubo de tanto açúcar.