quinta-feira, março 24, 2016

Rosário Breve n.º 449 - in O RIBATEJO de 24 de Março de 2016

Via melros, rumo à Graciete & a Bruxelas



As palavras iniciais da minha crónica desta semana eram (e continuam a ser) estas aqui: “Há melros pela linha berma-fluvial que todas as manhãs palmilho em aparato discreto de gajo pastor de palavras, à falta de melhor destino”. A hora de Bruxelas, todavia, fustigou-me irremediavelmente tal bucolismo afinal tão lingrinhas quão flúvio-ornitológico.
O terrorismo é a Noite-sem-(a)Manhã. Duas não-pessoas, convictas de que o seu/delas deus é mais maiúsculo do que os blasfemos deuses (ou não-deuses) dos outros, decidiram matar às cegas os cidadãos não-fundamentalistas que se preparavam para o pecado de ir trabalhar. À hora a que escrevo (11h41m da Terça-Feira-22-III-16), dezenam-se já os mortos & os feridos, em mais um episódio (não será o último) de uma guerra córnea & intolerável que é, em si, antítese a mais crua de Humanidade.
Os meus melros cedo-matinais, aturdidos pelo espavento genocida da noite-sem-manhã belga, desertaram-me a página, proscénio de papel em que me vejo ora sozinho à maneira de uma dessas folhas que, caduco-tombadas à terra, querem ser árvore na mesma como a mãe de ramos. Ao cabo do trilho ribeirinho, porém, vela ainda, valha-me isso ao menos, a Graciete Florista. O cesto a seus/dela pés irrora o ar de sílabas cromáticas que são as violetas a dez tostões, olhos que são os gerânios a doze, sínteses de neve que são as gardénias (carotas…) a vinte-cinco, humildades vegetais feitas dálias a dezoito - & papoilas que tingem o ar de vivíssimos beijitos escarlates pelo que o freguês quiser dar.
(Isto deveria ser sempre assim, Graciete: sem bélgic’arabismos percutores de pólvora.)
Valho-me, pois, da literatura possível para afugentar da manhã portuguesa a minha indignação rábica. Ou (a)rábica. A Graciete vende também xaropes de refresco aquoso: groselha, capilé, café, lima, canela abaunilhada. Enverga, a Florista, uma blusa de chita com aquele florão de estampado que antigamente se designava por “de fantasia”. O home’ dela, que é tão Vicente quão fraca gente, sei-o burgesso, calcanhar-rachado, canastrão, cabotino, impertinente, grosso, acavalgadurado, jogador & ecuménico-bagaceiro. Mas ela gosta dele e a outro não quer, quem sou eu, ninguém, Romeiro.
Eu vinha-vos esta matina pelos melros, juro. São tão bonitos, os caraças dos melros! Carvões vivos, ónixes alados, atiram-me aquelas bocas-de-ouro como crisóstomos retóricos, finos de uma esperteza nunca manhosa, sabedores de serem, eles-mesmos-consigo-de-si-em-si, mestres de pontuação no texto que é o chão. Melros & Graciete: precisa cá um escritorzeco de beira-rio de mais algum tesouro? Não precisa. Eu não precisozeco.
No Outono de 2002, estive em Bruxelas, lá onde se deu o terror de hoje. Exerci o meu francês escolar para com os meus Belgas: a livreira que me vendeu um belo Saint-Exupéry em seu vol-de-nuit, o porteiro melancólico do hotel pago pelo grupo parlamentar convidante deste Vosso criado, o cervejeiro-gato-pingado do célebre & mortuário bar “Le Cercueil” (“O Caixão”) da Rue des Harengs (10-12) & a hospedeira de hálito mentolado e mamitas perfeitas no avião do feliz regresso ao pátrio-mátrio Portugal meu & vosso, que era, a hospedeira, redondilha, perdão!, redondinha como um heptassílabo açucarado.
NB: Já V. disse, em outra crónic’ocasião, que a nossa morte já começou – lá onde estivemos & aonde não voltaremos. Sei que a minha vida não voltará a Bruxelas, nessa Bélgica dividida & estranha onde de quando em vez nascem gigantes tipo Brel & Cortázar. A minha morte irrelevante não se conta, porém, entre as dezenas de hoje, no aeroporto como no metro. A das vítimas de hoje carece de remédio hoje.
De remédio & de vindicta inexorável. O endurecimento repressivo é inevitável. Não é à totó-Trump que falo. Mas é que a pena-de-morte foi restabelecida: por eles-monstros, não por nós. Não nos basta ser civilizados: temos de ser civilizantes. Mas atenção: não iremos lá com espúrios esquerdismos de capitulação: o cancro só extirpação merece. O terrorismo não é remediável com reformatórios paliativos tipo bonzinho-guterres-de-calcutá – é com olho da mesma boca & com dente do mesmo olhar.
Recentemente, perdi a amizade de alguém que, sentindo-me reticências quanto à beatificação automática de tanto refugiado só-porque-sim, me vilipendiou de estúpido para baixo. O lobo com pele-de-ovelha não deixa de cheirar a mijo-de-lobo. E o lobo não é o melhor amigo do homem-caniche. Perder esse ex-amigo (terrível justaposição, mas justa) nada me é. Perder estas pessoas da manhã belga – isso despassara-me de todo os carretos ornitolófilos.
Vou pelos meus melros. Fez-se entretanto toda de cristal, a manhã deles & minha. Interflúvios eu & eles, vamos ter com quem? Com a Graciete. Gerânios. Violetas não viole(n)tas. E uma papoila tingida de groselha viva – viva como o sítio onde estamos & a que voltaremos.




quinta-feira, março 17, 2016

Rosário Breve n.º 448 - in O RIBATEJO de 17 de Março de 2016

Vale mais dizer isto do que andar no gamanço ou na droga




O mundo é depressivo porque o planeta é bipolar.
Depressivo e deprimente. É, é. Foi o que me ocorreu de imediato, esta tarde, ao içar da leitura de um livro maravilhoso o olhar para a circunstância real-terrena. (Cronicar-vos-ei em breve essa leitura e esse livro: foi escrito por um gigante meu Amigo.) Ímpio e míope, o olhar devolveu-me a existência desfocada do derredor: dois velhotes grasnando que “o Tondela facilitou aquilo tudo aos gajos, olha quem é o Petit”; uma solteirona mais encarquilhada do que uma laranja com celulite tripulando à arreata um caniche feio como o susto e incapaz de perder um pneu para mictório; dois toxiarrumadores filhodaputando-se mutuamente a pretexto, et pour cause, do território a explo’esportu’lar; e, ainda, a minha mesma (má-)consciência de algumas obras & algumas pessoas só serem imortais enquanto eu próprio não esticar o pernil.
Voltei logo que pude à leitura – mas o interlúdio pisara-me as vísceras da desesperança. Pedi outro café, incendiei outro fumante e resignei-me a reiterar o desconcerto sem conserto do triste mundo além-óculos.
Olhai comigo aquele autarcazito: se a honestidade pesasse quilos, este gajito seria um ás da levitação à faquir. E ali, vêde-me bem o mal que parece: um energúmeno elegante (e jovem), que não sou eu, a tiracolo de uma moçoila de peito oblíquo-a-subir que não me conhece nem do jornal, a ignorante da boazona.
Entristeci qual círio em derradeiro soluço de cera. Mirrei como outonal parra de vide pós-colheita. Agravamento: começou a chover do quebrado cântaro de Deus que a dava. Mas não era morrinha melancólica, não era poalha-spray: era diluviosa, a precipitação apressada. Considerei taciturnamente que quando a chuva se excede, é pluviolação que se chama. Mandei vir brandy. Dando de beber a mim mesmo, cometi autogolo. Longo, beijoqueiro, macieiro, tipo mil-nove-e-vinte. Já não perdi tudo. A bebida tisnou-me o sobrecenho, porém. Fui ver, a neve não caía: quedava, isso sim, a evidência de as minhas alegrias maiores serem todas do século passado. Ai que caraças. As maiores tristezas também. Por exemplo: tenho mais vinte anos do que o meu Irmão nascido uma década antes de mim. E eu que sempre, só, a sós, só quis que a minha vida fosse oficina com horta ajardinada à porta. E o periquito da Dona Aurora/repenica a fauna/debica a flora.
A minha vida? Enfim: tenho muita pena mas não tenho pena nenhuma. Se não tenho cartão partidário é porque nenhum partido me passa cartão. E gajas? E gajas? Não frequento talhos-de-alterne. E o resto do mulherio é muito mas não é burro. Olhai-me o casaco. Estão-me a ver o casaco? Não me fica mal de todo, verdade? Pois sabei que me custou 130 euros. Custou-me 130 euros mas deram-me 118 de troco. Foi naqueles da etnia egipsya, não se pode dizer sem eufemismo senão é racismo, numa daquelas contrafeiras de marcas com o crocodilo e assim. Olhai agora, agor’olhai: eu deveria ter tirado o brevet de piloto – aquilo que ali vai não é uma mulher, é um avião. Chiça-penico, ó filho pobre do meu pai nunca rico. Enfim: ante o mar, não procuro a torneira. Deus quer, o homem sonha, a mulher pira-se.
A Maçonaria? Nunca experimentei. É para usar avental? Ora, isso faço eu há quarentas & tais anos sem recurso nem ao Grande Arquitecto nem ao Tomás Taveira, que não é, nunca foi, será nunca, nem arquitecto nem grande coisa.
A Ornitologia? Sim, gosto muito de passarada. Até sei um truque verídico que V. transmito com todo o gosto: sabe-se que o periquito não é periquita pela cor que debrua os orifícios respiratórios a norte do bico. Se for azul, é macho. Se não for, é periquita como aquela pinga maravilhosa de que só ouvi beber os outros.
À visão e aos quatro outros sentidos, vi-me compelido a acrescentar o sexto da memória & o sétimo do esquecimento: aquele para remediar a insuficiência do real, este para perdoar a mim mesmo a ilusão de tão irremediável remédio.
Bem, adeus. Quem gosta muito do Islão são os porcos – entenda-se isto como se quiser. Já os alambiqueiros de bagaço não gostam nada dele. Mundo difícil.
Deprimente. Depressivo. Bipolar. No Pólo Norte, geme o esquimó. No Pólo Sul, é eufórico o pinguim.
E no meio dos dois, vossemecês & mim.  

sexta-feira, março 11, 2016

Rosário Breve n.º 447 - in O RIBATEJO de 10 de Março de 2016

Às primeiras



1 Sétimo de sete, quando nasci o meu Pai era já tão velho, que às segundas-feiras estava fechado como os museus. E como os sapateiros. Esse meu involuntário bioanacronismo azedou-me, de pronto, o soro-doce do mamilo maternal, que amorangadamente virginal me seria, não fôra ele aleivosamente pré-chupado pelos prévios seis bacorinhos de minha irmandade. Mal-estremunhado, mais resinoso de remela do que a lagarta-do-pinheiro, dei por mim desta insensata maneira: quanto futuro o meu Pai pôde para mim ontem, hoje um de nós dois estou errado amanhã.
2 A crónica desta semana esteve para chamar-se “As Mulheres de Sócrates & As Minhas”. Acabei por decidir outra titulação. As minhas mulheres não são de abertura-fácil como a compal-de-pêssego. A senhora Mãe do senhor meu Pai foi Joaquina, Esquina em família. Morreu à beira-tempo do meu nascimento. Recordo-a em projecção: por via & de viés da fala do quinto filho dela, primeiro dos meus homens, sétimo & último que dele fui. A tuberculose levou demasiado cedo o marido dela, que foi José. Ela aguentou o barco. Morria-se muito, naquele quartel primeiro do século transacto, de pulmões que o bacilo-de-Koch obrigava a expectorar rosetas de sangue. Ela levou o barco dos sobreviventes à foz das vidas adultas. Gerou, criou, não esperou agradecimentos. A senhora Mãe da senhora minha Mãe foi Cândida – e não só de nome. Sofreu as do diabo amassador. Levou muita porrada, então legal, e natural até, do marido – a quem ainda hoje não chamo Avô. Nenhuma dessas Senhoras pediu milhares de tostões a ninguém. Daí que a crónica haja de sofrer outro título.
3 A realidade é triste por Paris já não ser o que nunca foi: o Montmartre dos pintores trocado manhosamente pela filosofia de um rapaz incapaz de candidatar-se a filho de meu Pai. Sou do tempo do bacalhau-a-pataco. Sou do tempo das conversas-em-família do Marcello com dois ll, aliás padrinho deste de agora só com um. Também sou do tempo em que a dignidade natural parecia o pêssego que não vem da estufa: por ser tão própria à carne como a pele à mesma.
4 Democraticamente falando, sinto-me saturado da pornografia mediática que impregna o Dossier-Sócrates. Sei que a presunção de inocência etc.. Também sei ir com o pai natal e o coelho ao circo. Também sei nascer outra vez. Vou tentar:
5 Quando nasci, a minha Mãe era tão nova, que o amanhã não tinha ainda sido baptizado ontem. As notícias apareciam emolduradas a lápis-lazúli: era a Censura Salazar-Cristã que, ao menos, morigerava as ignorâncias por assim dizer socráticas da ganância mais lerda. Não eram anos mais felizes. Eram dias de aprender a ler-escrever-contar. E as pessoas eram sérias da mesma maneira que as árvores acontecem pardais. A diferença radical entre o filho que vim ser e o Pai que merecer tive, é só esta: as mulheres dele são as minhas. E nunca vão para museus nem falam com sapateiros, ao contrário de coisas tão mal formadas como nem sei se vos falei já delas. Às segundas.


quinta-feira, março 03, 2016

Rosário Breve n.º 446 - in O RIBATEJO de 3 de Março de 2016

O Buraco de Abrantes não é só de Abrantes



1 O mundo local não carece de universalidade. A nossa parte mundial é urbe que vale orbe. A horta do meu vizinho Fernando é toda a Agricultura. A garagem onde o Né faz rolhas? É a Indústria toda. O Café da Rita? É todo o Comércio. O Desporto? É a sueca-lambida da Associação Recreativa, Desportiva e Cultural. A Educação é a catequese-aos-sábados e as explicações da Menina Patrocínio. A Política tão depressa é na Assembleia da Junta de Freguesia como no Teatro-Circo (fundado ainda D. Carlos I e Último respirava.) E cada vez que me escanhoo, confiro ao espelho a decrepitude da Humanidade toda que há. Posto isto, falemos agora do buraco da/na Avenida de D. João também I, em Abrantes.
2 Há coisa de um ano que o irrequieto munícipe abrantino José Baptista anda a moer a paciência à sô-dona Maria do Céu Albuquerque com a resistência daquela chatice no chão. A edil, népias. Ora, o buraco local não carece de universalidade. Ah pois não. Daí que eu creia com razoável quilate de firmeza que não apenas a onomasticamente celeste Maria Primeira daquela formosa & antiga cidade se deva inculpar no cartório. Ah pois não apenas. Porquê? Simplicíssimo: porque, de cada vez que uma câmara faz népias, a dita edilidade abre buracos na democracia mesma que lhe dá origem. É desassombradamente, pois, que o buraco de Abrantes também boceja desleixadamente & desconsoladamente se arreganha em/por toda a Estremadura e por (quási) todo o Ribatejo. (Já lá vamos ao “quási”.) Ah pois é: o buraco de Abrantes também aparece na Nazaré, em Alcobaça, nas Caldas da Rainha, em Óbidos, em Peniche, no Bombarral, na Lourinhã, no Cadaval, em Torres Vedras, no Sobral de Monte Agraço, em Arruda dos Vinhos, em Alenquer, em Rio Maior, no Cartaxo, na Azambuja, em Benavente, em Coruche, em Salvaterra de Magos, em Almeirim, em Alpiarça, na Chamusca, na Golegã, em Alcanena, no Entroncamento, em Torres Novas, na Vila Nova da Barquinha, em Ourém, em Tomar, em Ferreira do Zêzere, em Constância, no Sardoal e em Mação – tudo participa do buraco-buraquinho-buracão. É do tal factor-népias. Por respectiva ordem, são pois inculpáveis os senhores & as senhoras homólogos/as de Maria do Céu: Walter Manuel Cavaleiro Chicharro, Paulo Jorge Marques Inácio, Fernando Manuel Tinta Ferreira, Humberto da Silva Marques, António José Ferreira Sousa Correia Santos, José Manuel Gonçalves Vieira, João Duarte Anastácio de Carvalho, José Bernardo Nunes, Pedro Paulo Ramos Ferreira, José Alberto Quintino da Silva, André Filipe dos Santos Matos Rijo, Pedro Miguel Ferreira Folgado, Isaura Maria Elias Bernardino Morais, Pedro Magalhães Ribeiro, Luís Manuel Abreu de Sousa, Carlos António Pinto Coutinho, Francisco Silvestre Oliveira, Hélder Manuel Ramalho de Sousa Esménio, Pedro Miguel César Ribeiro, Mário Fernando Atracado Pereira, Paulo Queimado, Rui Manuel Lince Singeis Medinas Duarte, Fernanda Maria Pereira Asseiceira, Jorge Manuel Alves de Faria, Pedro Paulo Ramos Ferreira, Fernando Manuel dos Santos Freire, Paulo Fonseca, Anabela Gaspar de Freitas, Jacinto Manuel Lopes Cristas Flores, Júlia Gonçalves Lopes de Amorim, António Miguel Borges e Vasco António Mendonça Sequeira Estrela.
3 Arguto & atenta, o meu Senhor-Leitor & a Senhora-Leitora minha terão notado de imediato que do rol de crateras supra-desfiado não consta o angelical, o seráfico, o querubínico, o duas vezes Gonçalves e uma vez Ribeiro santareno autarca Ricardo. Ah pois não. Nem ele, nem Santarém. A excepção é regrante: em Santarém, os Josés-Baptistas não são inocentes como os anjinhos de papelão das procissões tão do agrado ó-p’ra-mim do herdeiro de Moita Flores.  São, bem pelo contrário, perigosos agitadores esquerdelhos a soldo da Rússia (ainda) comunista & da China (ainda) maotrotskysta. Ah pois são. Os buracos que possa haver pela terra do grande Bernardo Santareno – são eles & são elas que os escavam de noite para poderem andar aos berros de dia. E se não é assim como digo, há-de ser pior pelo que não sei. Saber, todavia, sei isto: que em Santarém o Buraco não é de calçada. É de poder.
4 Ah pois é.




quinta-feira, fevereiro 25, 2016

Rosário Breve n.º 445 - in O RIBATEJO de 25 de Fevereiro de 2016

Roma 0 – Cristo 1

Não se vê uma nuvem. Manhã perfeita. Sem uma gelha. Sem um ponto-persa. Revérberos coriscam no dorso do rio. É muito bom ter, da noite, renascido meridional, atenta a graça da jornada novel. Ao arrepio de antanhos recentes, a luz é de uma pureza riscável à unha. Bêbedas de viço, as aves matinais tripulam os veios azuis, as ramas verdes, o espaço branco, o ouro impagável da totalidade natural. Respirar é uma conspiração de açúcar. Não há por aqui sevandijas, sicários, bandoleiros &/ou corsários. Há gente (não muita) que se desestarrece ao sol franco, pintalgada de joalharias coloridas. Uma dama, que vinha a seu chá-meia-torrada, comete a ontem impensável extravagância da imperial-com-tremoços-mas-é. Um cavalheiro, tido por sisudo, mete-se a graçolar com cada bebé-de-colo que lhe passe ao alcance das unhas aparadas. Fiapo de eternidade, o instante vale um coalho de cal na colina-esmeralda. Não são vaidade, hoje, as lentes-fumadas de marca tornando de mochos cegos os rostos humanos. Não são (tão) frívolas, hoje, as poses do tipo perfil-egípcio com que os leitores do Expresso alardeiam aquela cultura-post-moderna-de-saco que nunca entenderam nem vão entender. Mesmo hoje. Mas adiante. O Sábado, coleante jibóia inócua, vive & deixa viver em uma paz inocente de barbáries. A duas mesas desta sobre que se amanha a crónica pró-Ribatejanos, um miudito faz rir o pai por-causa-de-quási-nada – nada, excepto o facto tremendo de um ao outro pertencerem para sempre. O preto e o branco não dão cinzento, hoje não. Das prévias jornadas februárias, os grandes ventos & as iradas chuvadas não campeiam nem enxurram nem descabelam nem geram gemer. É um bocadito como se o senhor Adão & sua/dele dona Eva não tivessem jamais sido compelidos à reforma mutilada. Com outro bocadito (de atenção, agora), é perfeitamente possível a ressuscitação das espécies extintas pelo plástico do Homem, pelos homens-de-plástico – ou pelo Demo que os não carregou a todos. Até o Tejo (mas, hélas!, só à distância apartada) parece um moço lavado em aparato de pé-de-alferes com a Lezíria que o bebe & deixa beber. Uma pessoa semicerra por instantes as persianas ópticas – & a música, à maneira de toda esfera arredondada pela claridade total, põe-se logo a violinar vivaldismos de passarada sem caçador derredor. A Dívida-Pública? Bah! Hoje (mas só hoje, sabemo-lo bem, que já há muito comemos broa rija), consiste tão-só no que, todos & cada um, devemos ao que é de todos: o perfume das maçãs portuguesas, o patriotismo rescendente do bacalhau, os bons-dias dados como pão novo, a saciedade cervejada daquela tremoceira dama, o patusco que aqueles bebés-de-(tira)colo acham o senhor-sisudo-de-outros-dias. Torpor pasmaceiro – a termonuclear prumo, o vertical meio-dia dardeja todo este santo lirismo sem caruncho, sem génio & sem progénie: este dia é filho-único, como Aquele que sabemos. Como na vida, todavia-toda-a-vida, em instantes se faz tarde. Os telemóveis tornaram a guinchar. O patrão da pastelaria ralha desabrida & altiaudivelmente com a empregadita mai’ nova – que com as duas mais antigas não se atreve ele. O momento é chegado de nos retirarmos à la française. O exemplar do Correio da Manhã foi parar às mãos do miudito causador de patergargalhadas, que a feltros iridescentes o vai exsanguinando.
E ainda: sem uma nuvem sobre que descansar a augusta cabeça nevada, o Senhor, lá tão de cima, é obrigado a vigiar, cá tão bem baixo, Francisco – achando, como eu acho também, que o Argentino não é católico, mas sim cristão só. E sem gelha per(ver)sa, o danado do Homem.


sábado, fevereiro 20, 2016

Rosário Breve n.º 444 - in O RIBATEJO de 18 de Fevereiro de 2016

Lontra-metragem (I & II)

I
Temos aqui na parvónia um amigo que, há anos não estreitos já, passa por uma fase nada boa da e na vida: é macho, está sozinho e quanto mais anseia por fêmea, mais fede ao peixe estragado da falta de predação. Eu & o resto da pandilha passámos a tratá-lo por Laçubra, que é mimoso acrónimo para Lontra do Açude de Abrantes. É cruelzito, sabemo-lo bem – e por isso mesmo nunca mais lhe chamaremos Zé-Tó.
Ele já teve mulher, de quem se deslontrou por causa de ela ter passado de foca a leão-marinho ao cabo de parir cinco crias muito feias, muito cegas e todas desdentadas que só queriam era mamar a-vida-toda-e-mais-um-dia como as parcerias público-privadas. O ele não arranjar rocha nova em que se ponha ao sol(o), deve-se também ao facto de ele se banhar em fossas que, de tão turvas & emporcalhadas, são mais cépticas do que sépticas. Cada transição Inverno-Primavera, a coisa piora: o cio fá-lo chorar onanismos de leite derramado em vão. Nessas alturas de mor pranto, nós-os-amigalhaços nunca lhe falhamos, mimando-o & ninando-o com esta lengalenga: O Laçubra não tem quem cubra! O Laçubra não tem quem cubra! E depois fazemos como na creche: Na-na-na-nãn-nãn-na!-Na-na-na-nãn-nãn-na! E no fim rimo-nos muito dele sem ser p’ra ele e vamos beber copos para nos rirmos ainda mais e prontes.
Na mocidade, o ainda-Zé-Tó era muito bom em natação. Em águas então limpas, era gajo para nadar 4-minutos-4 seguidinhos antes de vir à tona. Agora, à tona é coisa a que ele não vai, por mais que se esganice em excruciantes uivos à lua privada das lontras. Hoje em dia, o Laçubra amostra ao mundo aquele ar de afogado roído pelos crustáceos, em vez de ser ao contrário. Seria de meter dó, caso percebêssemos alguma coisa de música.

II
Com isto tudo do Laçubra, acabei perdendo espaço para o arremedo de crónica que aqui me trazia. Era artigalhada sobre as primatas, perdão, primárias para as presidenciais dUSAmericanos de Novembro próximo. Aquele circo que opõe burros a burros e elefantes a burros. E a lontras. Sim – e a lontras.
É que, em amaricano, Zé-Tó diz-se Donald. Mas a trump é a mesma. Entre gente que se dá ao luxo & ao lixo de imitar em cegueira as crias do Laçubra ao eleger figuras como o Nixon, o Reagan e os dois Bush, a hílare Clinton ainda é capaz de não ter de que se rir – como nós temos do Zé-Tó, cujo traseiro apimentado é nosso refresco. 

quinta-feira, fevereiro 11, 2016

Rosário Breve n.º 443 - in O RIBATEJO de 11 de Fevereiro de 2016 - www.oribatejo.pt

Isto se eu fingisse lembrar-me, disfarçasse saber do que falo

1. Das minhas felizes surtidas cometidas às terras de arriba-Tejo, uma assaz recorrente gravura que em retenção memorial se me impõe – é essa de o céu ser mais alto do que em outras (p)aragens do meu País inicial & terminal – vulgo Portugal. É mais alto, esse céu das lezírias subido. Ou mais chã, de diversos chãos, a perspectiva. Outro lance: o da lezíria de húmus-água-verde formosamente perlada a negro pelo touro ainda não chacinado em nome da barbárie chamada “tradição” tão característica de marialvas-monárquicos sem um livro na vida. Outra: as colunas de silêncio vertical subindo o imo da Igreja de Santa Clara, ali à santarena Avenida-de-Gago-Coutinho-e-Sacadura-Cabral, em tri-nave clarissa-gótico-mendicante. Sim: a memória dá-se-me a arquivoltas & a colunelos de rosácea. O esquecimento não usa pintura, nem usa azulejaria, nem sabe o que talha seja – por isso mesmo que a Morte, que nos não esquece, só ao Diabo lembra. Uma retenção mais, com V.ª licença: a de auferir, ao menos, metade da máxima doméstico-epigráfico-heráldica do senhor José Relvas (1858-1929), que “Glória e Vinhos” era. Fico-me pela segunda parte, incapaz da primeira. Assim seja, que assim é. Incontornável lembrança de subido cénico aparato é, ainda, a do Castelo de Almourol (Almorolan em 1129). Dele, as nove torres arredondam outros tantos aparatos de lançamento rumo-espacial – e tantos séculos antes do Cabo Canaveral dUSAmericanos.
(Intervalo agora para nótula romântica: Foi na nabantina Ilhota onde roda a madeira hidráulica do Mouchão que de amor se mutuamente irrigaram & irroraram o senhor Arménio Tomé & sua doravante gentil senhora Lucrécia Vasques. Foi em 1950. Ela era de boa-família, não sendo má a dele. Casaram-se de electrodoméstica vontade, pós o inócuo ósculo semiamorangado de beiços virginalíssimos, na Igreja de Santa Maria dos Olivais que, nos Mil-Centos-&-Tais, Gualdim Pais de propósito reconstruiu para eles-Lucrécia-&-Arménio. O preto-e-branco das fotos esponsais perpetua a mocidade do amor emoldurado pelo pétreo veludo do púlpito de Quinhentos, pelo sorriso transparente de Nossa Senhora da Anunciação & pela sacristia manuelinamente ajanelada. E foram felizes para sempre – durante o sempre até 1981, ano da morte dele, e 1982, marca terminal dela, que sem ele podia mas não queria nem quis.)
2. De Abrantes (a recordação não é minha, é tomada de empréstimo a um pater-avoengo meu, vivo no Ano n.º 130 a.C., que era de gaio nome Caio como o poeta Valério Catulo e que integrou a horda milícia de Décimo Júnio, geralcentudecurião Bruto a valer), isto: o castro lusitano que então Roma tomou à força valia o chão do Castelo abrantino subsequente. A tais politeístas de excelente Língua & Direito forte sucedeu o monofásico Cristianismo, dedicando a Cidade à égide de Vicente & João, santos, as igrejas maiores do rincão.
3. No retorno a Norte (a que sou obrigado por falta de carcanhóis que me permitam aquisição de choupana palafita nas avieiras Caneiras), passo pela Batalha. Já Ribatejo não é, eu sei. Mas é: se arriba, tágide há-de ’inda ser a musa escrita. Ou assim: assim a morte de Mestre Afonso Domingues causa, por obra suplente do catalão Huguet, a derivação de mendicante para flamejante do soberbo estilo gótico, ora já sem Clarissas como no Louriçal. Mas é que já escrevi(vi) sobre essa epifania. Fi-lo assim:
4. - A Secreta Vitória
Fazem as pequenas pedras os grandes edifícios. E pequenos, por igual ideia, parecem os homens que organizam as ditas pedras de modo a que a História encontre marcos no tempo que passa. Que passa para as pessoas, não para os monumentos.
A Batalha, toda ela, vila e mosteiro de Santa Maria da Vitória, evoca essa comparação. Não é possível, perante a beleza descomunal daquela pedra, evitar a íntima inquietude de sermos, nós pessoas, ínfima areia. E que só ela, junta e trabalhada pedra, é eterna.
Ainda assim, retenhamos de uma visita à Batalha (que é, como em tantos outros casos de amor, uma revisita) a noção de que a alma colectiva existe. E que olhando nós o que invisíveis e dissipadas mãos ergueram, também mãos damos ao que eles quiseram olhar por dentro e de frente: a alma da História, a nave do Tempo, as abcissas da Memória.
Visitada, revisitada, nunca esquecida, a Batalha exalta deste modo uma vitória mais secreta que a de Portugueses sobre Castelhanos: o triunfo da arquitectura sobre o esquecimento. Ou a morte da Morte, por assim dizer.


quinta-feira, fevereiro 04, 2016

Rosário Breve n.º 442 - in O RIBATEJO de 4 de Fevereiro de 2016 - www.oribatejo.pt





O siluro não tem futuro
(sermão aos peixes sem Santo António ao barulho)



1. Tenho para mim & por certo que não é cabal a designação de siluro-europeu para a nova praga que assola o imundiciado Tejo da nossa vida tágico-trágica. Não é que esteja errada. É que está incompleta. Falta-lhe especificidade. Siluro-alemão. Assim é que está bem: siluro com alemão a seguir. É peixe tipo gato que come carne? É alemão. Come os espécimenes mais pequenos? É alemão. Nem às avezinhas beira-fluviais permite sossego? É alemão. Até o seu cocó é tóxico quando em aglomerado cardume? É alemão. Tenho provas de que é alemão. Uma metàforazinha me serve de inegável & indesmentível evidência. Esta aqui: O Tejo é Portugal.
2. Portugal é o Tejo. Tal como o Rio sofre de poluentes (olá, Vila Velha de Ródão!; olá, Mação – sim ou não?; olá, Abrantes!; olá, Constância!); tal como o Rio se abaixa de caudal; tal como o Rio é entravado & bloqueado artificialmente por enrediços exploradores desalmados; tal como tudo isto – assim Portugal sofre de ofensas cumulativas ao seu ecossistema financeiro; assim Portugal se abaixa de cócoras para enfermar de atentados incessantes à sua biodiversidade económica; assim à ocidental praia lusitana acode a maré-negra em formato de orca-de-água-não-doce made in Berlim & desovada em Bruxelas com o beneplácito viático de Estrasburgo & de Wall Street.
3. Os Portugueses fazem de sável, de savelha, de saboga, de barbo – mesmo os cuniculófilos. O eixo Berlim-Bruxelas faz de silurus-glanis, que é o nome latino usado para disfarçar aquilo que vos disse: que o siluro é mas é alemão. Mas, ó pessoal piscícola meu compátrio, nota bem que o siluro só é siluro por enquanto. Para nossa haliêutica desgraça, e caso nos obstinemos em democraticamente seguir pela Esquerda, a voraz avantesma há-de passar ao formato do bem pior & famigerado lúcio-perca. Perca a gente a determinação, que assim desgraçadamente será como a gente se perderá.
4. Há muito que a máscara do espantalho teutónico caiu já. Aquela bocarra grande é mesmo para nos comer, à maneira do pedófilo lobo do capuchinho (precisamente, precisamente) vermelho. Ao arrepio da nossa Constituição & ao atropelo da nossa Soberania, o siluro-alemão quer (mais ainda) atirar dentuça omnívora via “alteração estrutural a nível (ou aníbal…) do rigor orçamental”, que é como se diz em economês “mais roubalheira com fartura, que a gente é que sabe, pode e manda”. O lúcio-alemão quer mesmo irrevogáveis (sem ser à PP) as medidas que nos foram coelhamente mentidas como temporárias. O bicho não descansa enquanto nos não infestar a Função Pública e nos não superhipermegagigataxar o IRS. A furtiva besta de fundão fluvial há-de dejectar quanto puder quando em cardume. Há-de continuamente alinhavar equipas técnicas (olá, Octávio Machado!) infamemente capazes de menosprezar quanto vale, sem ser em dinheiro, um centro de saúde, uma escola, um tribunal, uma ponte, um investigador, um enfermeiro, um operário da Rical, um reformado, uma criança.
5. Dispomos todavia de uma esperança sensata. Até leva, ou traz em si, o nome da nossa Capital. Refiro-me à maneirinha boga-de-boca-arqueada-de-Lisboa. É criatura lusitana, tem bebido uns copos e feito umas piscinas ali pelas Ribeiras de Muge e de Almoster, parecendo que no Rio Trancão também. Ora, é minha firme crença e minha férrea disposição que a boga não tem de ter medo do siluro. O siluro é tosco, é gordo, é pesado, é aleijado, é grotesco, é contranatura. O siluro-alemão rima com aberração. A boguinha nossa, não. É miudinha mas é nossa. É quase irrelevante mas é (d)a gente. A semelhança morfológica dela para com afins espécies ciprinídeas é a nossa própria semelhança para connosco mesmos. A boga deve pôr-se em voga. A única modificação que se lhe/nos pede, é esta aqui: que em vez de mandar(mos) bocas arqueadas, mande(mos) mas é o vozeirão a direito. A boga não pode esquecer-se de que duas vezes no século XX o siluro-alemão se armou em super-espécie invasora – e que duas foram as vezes em que foi arpoado à maneira na corneta. A boga deve acreditar que às três só é de vez quando o peixe se deixa morrer pela boca. Ou quando não passa de carapau-de-corrida.
Ora, a maneira que temos de interditar o futuro ao siluro é fazer-lhe ver, e de vez, que, para quem somos, bacalhau já não basta.

quinta-feira, janeiro 28, 2016

Rosário Breve n.º 441 - in O RIBATEJO de 28 de Janeiro de 2016 - www.oribatejo.pt

De volta


1. Há anos que o meu nascimento deixou de ser a notícia mais importante da vida que me coube. Envelhecer é devir subtitular, adjudicando aos Elementos o protagonismo capitular de que eles não abdicam – o vento nos canaviais, o rio construtor do mar pela terra, o céu ao alcance da mão que precisamente nos falta, a majestade do arvoredo fixador de dunas.
Uma das evidências mais bastamente contribuintes para esta minha afinal serenidade aconteceu-me há uns poucos anos, talvez vinte e uns trocos. Nascera-me havia pouco a minha Primeira. Fui visitado pelo seguinte axioma: “A minha morte já começou – lá onde estive e aonde não voltarei.” Como um ósculo do Demo, o sal dessa verdade fulminante mordeu-me o ápice da língua. E da Língua também.
Conservei tal sal, que é da terra como são do campo os lírios. E assim foi que cheguei a este Café. É noite já, a terça-feira instalou na província a sua barraca fugidia como os panoramas de janela de comboio.
2. De ampla, larga, longa camisa roxa (roxa, longa, larga & ampla como a túnica do Senhor dos Passos), um cavalheiro de cerca de meio-século-+-IVA tasquinha tremoços ao escanteiro do balcão-inox. É de pança rotunda como uma jibóia de geleia. Apresenta aquele ar de córnea abulia próprio de quem votou no coiso que se segue. Usa cachucho-pechisbeque a sul da unhaca mínima esquerda. Estrangulando-lhe o cachaço rubicundo, uma medalhinha fosforesce de catolicismo folclórico para inglês (protestante) ver. Os sapatos lamentáveis desmentem dele a abastança feirante: de napa mordida a ourelo falso, conhecem mais lama pecuária do que passadeiras vermelhas. E o porta-chaves cifrado a gritante BMW só dá ignição a um Opel Corsa de 1987 de estribos mais derreados do que asas de anjo desempregado. Nisto tudo, todavia, sei que é bom homem – que é muito bom homem, aliás. Veio da França, onde estava tão bem, ao mote de acudir a um irmão manhoso que, havendo sido bufo da PIDE-DGS, não chegou aos dez-de-junho do coiso que está de saída. O irmão sofria de remela capciosa, que é a cegueira em forma de resina-de-figo. Chegado de França, este senhor-dos-passos pagou tudo por ele: o desquite, o abate do cão, a lepra das dívidas da lerpa, a remoção do chocolate intestinal a que as cuecas dão sudário terminal. O tal irmão depois morreu-lhe – mas este não voltou à Gália. Deixou-se ficar para ser personagem de crónica.
3. Perto dele, mas também sozinha como uma lembrança viúva, mora uma faneca bípede que se calhar votou Belém sem Maria. Empunha um frasquito de anis cintado a filete azul e fuma palitos níveos que tresandam a mentol de casa-de-alterne. De repente, boceja: e é então que me é dada a epifania de suas estalactites aguçadas por aquele azul-cárie que resulta da amargura do açúcar-amarelo soluto em bagaço matinal. Ao fundo do cavername bucal, a úvula estremece-lhe como um pendurichocalho sineiro de capela pobre – e a boca do estômago fervilha de ácidos furiosos próprios só de quem não comeu hoje um freguês sequer. Obliqua-lhe o tiracolo uma faixa azul-celeste à maneira cerimonial da Sãozinha-de-Alenquer. A saia é travada a fundo como os Austin-Morris de fins de bebedeira. E o olhar é-lhe glauco como a borboleta ao quinto dia de nascida. Vale que não incomoda seja quem for. Está ali como um vaso. E aqui fica (d)escrita para V.ª ilustração.
4. Verdade: deixei de nascer desde que a minha Segunda, há década & meia mais uns pós, logrou romper da estapafúrdia corrida de girinos cabeçudos rumo ao sol-óvulo do seu destino. Entretenho-me por estas cercanias de nenhures numa espécie de êxtase grato à galeria infinita do mundo local. Às terças, recolho-me a um nicho cafeíno do pequeno-comércio e escrev(iv)o o que vejo e o que nem preciso de olhar. E dois dias depois a realidade torna-se jornal, o que nunca deixa de me parecer milagre: por ser, ao contrário do meu nascimento, sítio onde estive e aonde sempre voltarei.

domingo, janeiro 24, 2016

Para o senhor Augusto Mota, na Manhã de Domingo, 24 de Janeiro de 2016



(E esses – lacónicos, lancinantes –
instantes em que, de manhã mesmo embora,
a vida se faz tarde?
Qualquer coisa ardeu & já não arde:
é a Hora.)

***

Somos o que envelhecemos.
Hemos só o que em velhos somos.

quinta-feira, janeiro 21, 2016

Rosário Breve n.º 440 - in O RIBATEJO de 21 de Janeiro de 2016 - www.oribatejo.pt

É engraçado mas falo a sério

Voltarei, nesta Presidenciais, a votar em Manuel de Arriaga.
É-me despiciendo o facto de o ilustre Terceirense (açoreano da Horta, n. 1840) estar fisicamente defunto desde 1917 – é no mesmo que voto na mesma.
Quero-me representado por uma figura de natural humanismo, de cívicas bondade & benevolência, de regrado carácter, de exemplar sentido de causa & serviço públicos, de alto empenho na justiça social – e, já agora, panteísta, que era como chamavam aos ecólogo-ambientalistas quando ainda era preciso meter deuses ao barulho de rerum natura.
Interessa-me, e muito, que o mais alto magistrado da Nação não seja um ganancioso predador-distribuidor de honras, ribaltas, milhões, clientelas & milhões. O Dr. Manuel de Arriaga não é, seguramente o não foi nem o será, desses. Quando eleito, foi o primeiro a ocupar o Palácio de Belém – mas (note-se isto muito bem) por sua conta. O arrendamento de 100 escudos ao mês era satisfeito pelo bolso dele. Assim como a viatura automóvel que oficializou no cargo: comprou-a ele, acabando de pagá-la a prestações quando já resignara à Presidência. Sim, um homem assim interessa-me. Voltarei (sempre) a votar nele. Não tenho feito outra coisa, aliás. Quando foi do Soares, votei Manuel de Arriaga. Quando foi do (outro) Sampaio, votei Manuel de Arriaga. Quando foi disto, votei Manuel de Arriaga. E tenho ganhado sempre, ao contrário do País.
Sabendo-o adversário tenaz do analfabetismo (o do tempo que foi dele, à volta dos 80%; e o do nosso, que andará à volta do mesmo, evidenciando-se tal conclusão de uma rápida mirada às redes ditas sociais), tenho-o por aposta certa & vencedora nestes nossos tão desdentados dias. Agrada-me, além de tudo o mais, que a sua/dele Lucrécia não seja de Bórgia mas de Brito – e não do Vaticano mas da Ilha do Pico.
Sim, a minha cruzinha plebiscitará sem pestanejo o portador do primeiro Bilhete de Identidade alguma vez emitido pelo novel Registo Civil deste País.
E a quem eventualmente me acuse de eleger um morto, um fantasma, uma assombração, um espectro, uma múmia – ouvirá de mim a defesa acusadora de o mesmo terem feito, em recentes anos, os meus contemporâneos – e por dois mandatos consecutivos.


sexta-feira, janeiro 15, 2016

Linhas de há pouco, esta tarde

Tarde de sexta-feira, 15 de Janeiro de 2016



***

Como em bruma as casas, ao lado delas
as árvores que merecem, cuidando-as cuidadas.
Criadas, as crianças, como em bruma,
partem.
E mais não voltam.

***

Pano luminar é a jornada-hoje.
A refracção das cores arco-irisa o olhá-las.
O Tempo é fugaz, mas esta luz não foge.
A um & a outra saibamos merecevivê-las.

***

Íntima química, esta Lux-Portuguesa.
Vale afinal tanta pena,
haver aqui,
dEla,
para-Ela,
nascido.

***

Quatro mulheres portuguesas
àquela mesa da esplanada:
jogadoras sem cartas, cuja presa
é a-vida-das-outras. Mai’ nada.

***

Pela poesia,
o cidadão-pomba
julga-se rôla.
Sobretudo sendo,
a poesia,
tôla.

***

Parda
parada
casa
casada
ao vento
co’squecimento.


quinta-feira, janeiro 14, 2016

Rosário Breve n.º 439 - in O RIBATEJO de 14 de Janeiro de 2016 - www.oribatejo.pt

Expedição

O pico da montanha reverbera no vidro nítido do ar-longe. De cá, mulas & homens, provisões & desejos. Mantimentos longamente acumulados na ideia. Planos que entretiveram vários invernos. Homens & animais em transe de libertação.
Na estalagem toda de madeira, esperam. Toda de madeira excepto a estrutura lareira-chaminé. A mesa longa & larga pode albergar dezasseis comedores, mas os animais comem lá fora.
A Primavera demora o tempo de que precisa. Eles, homens, também; elas, mulas, também. Há um cão: chama-se Rafael e não é moço já.
Os estalajadeiros são o casal Gottlieb: Hermann Gottlieb tem 67 anos e é gordo; Marlene Gottlieb (née Zweig) tem 62 anos e é magra. Dão-se bem, comungam o silêncio retórico de muitos anos de matrimónio construtivo.
Os homens são oito.
Gunther Schwarz é sueco, 28 anos, foi mecânico (de bicicletas).
Telemann Kaltz é alemão, 42, foi aviador (de copos, não de aviões).
Claudio Baresi é suíço do cantão italiano, tem 50 anos, foi pediatra.
Arménio Jordão, português de Sintra, 39, foi rico.
Jelavert Zubizarreta, basco e de 19 anos, estudou enfermagem.
Thomas Osgood é inglês de Yorkshire, 64, foi bibliotecário.
Oleg Mikhaylichenko é russo, 74, foi professor-primário.
E o sénior é Astor Nicopolidis, grego, 85, que não se recorda (ou pretende não recordar-se) do que fez & foi na vida activa.
(Nota do redactor: o tempo verbal que antecede todas & cada uma das oito profissões é o pretérito-perfeito. Não é mera coincidência nem estilístico descuido. É de propósito. E é de propósito porque a ser não voltam aquilo que foram. Estão, os oito, em modo & condição pré-terminal da doença-do-caranguejo. Dispõem de umas muito poucas semanas para que o cancro de vez os desembarace do fardo do nascimento. E é por isso que, supra, foi escrito: “em transe de libertação”.)
E os animais – também? Sim. Também. Chegando os dezasseis seres à montanha, as oito mulas tornar-se-ão libertas. Os homens acamparão para continuar à espera. Quando lá no sopé da majestosa elevação, não terão forças já para qualquer veleidade andina, alpínica ou himalaica. Mas também não há-de ser isso a desconfortá-los, ou a frustrá-los, ou a (di)feri-los. Já só hão-de esperar a espera mesma. Estas coisas são de nenhuma volta a dar-lhes. Estes oito só diferem por ter decidido esperar andando.
Reuniram-se em Istambul, perto do sítio onde ainda agora há poucos dias o sacana dum islamita-radical-suicida deflagrou uma dezena de turistas. Demoraram-se dois dias & duas noites na antiga capital imperial que foi Constantinopla depois de haver sido Bizâncio. Depois, vieram para esta página, perdão, para esta estalagem tão sossegadamente gerida pelos Gottlieb.
Esta noite, jantaram carne prensada, ervilhas, sopa de tomate & marzipã. Ei-los derredor-lume, uns tomando café (Gunther, Claudio, Thomas), outros havendo chá (Oleg, Jelavert) , outros xarope-de-groselha (Telemann, Astor) – e Arménio, vinho tinto aquecido. Antes de subirem para dormir, Claudio sugere que cada um escreva ao seu-alguém (se algum) uma última carta. As oito missivas terão Marlene & Hermann como fidelíssimos-depositários-da-puridade. Uns dizem que sim (Thomas, Telemann, Arménio, Gunther), um diz que não (Jelavert), Oleg & Astor respondem que vão pensar nisso.
Sabe-se agora (sete da manhã mais catorze minutos) que não será já bi-octogonal a expedição terminal-humana. Não pelas mulas, que estão robustas. É que já só sete dos homens respiram – posto que Jelavert, sofrendo de uma marrada mortífera do desespero, se cortou os pulsos antes de afogá-los no balde que faz a vez de autoclismo (é modesta, a albergaria gottliébica).
Nem por isso cancelam a expedição. Ao ar-longe-vidro, a montanha chama-os, um-a-um, pelo nome próprio, à parecença do que nesta mesma redacção acima se fez aquando das enumerações relativas. E como à consciência acontece com a rápida ingestão de ar gelado pelas esponjas pulmonares, o eco amplia os homens: (…) arzzarzzarzz, altztzztzz, ésiésiési, dãoãoão, zgudgudgud, xencoencoenco, ólidislidislidis (…)
Pacientes como budas, as mulas aproveitam para escarvar enquanto esperam, ao passo que o Rafael as azucrina fingindo que lhes morde as assaz delicadas canelas, cena que, apesar de tão divertida & tão preciosa, não constará da carta que por alguma razão Jelavert decidiu não escrever, de si, como se (ou)viu, nem eco deixando. 

sexta-feira, janeiro 01, 2016

Rosário Breve n.º 438 - in O RIBATEJO de 7 de Janeiro de 2016

Cesário Laranja

Vou esta manhã à minha terra. É pelo funeral de uma senhora-mãe de gente da minha criação. Mais uma, menos uma. A prova-dos-nove é consabida.
Ainda lá não cheguei. Preparo em casa a expedição. Preciso de coisas mínimas, que passo a enumerar: lápis, afiadeira, caderno pequeno, Cesário Verde em edição-de-bolso; sapatos pretos, casaco melhorzito dos dois que tenho, gorro tapa-orelhas, suspensórios cor-de-ceroula; pacote de bolachas-baunilha, laranja, rebuçados de anis, garrafinha de sovaco sem ser com água; moedas para dois cafés, óculos de perder ao perto & ao longe, número de telefone da minha Senhora escrito em vários papéis espalhados pelos bolsos, medalhinha-de-São-Cristóvão para afugentar os azares de andar um dia inteiro fora de casa; cartão de sócio dos Bombeiros, fotografia de um cão que tive & a que ainda pertenço, lembrança do nome das ruas primevas, fixação do meu próprio nome para quando, no cemitério, as mulheres mais velhas me perguntarem qual dos sete da D.ª Hermínia é que eu sou afinal.
Estou agora a sair de casa. Frescote das sete da manhã. Gasto a penúltima moeda no primeiro café. Atiro-me pela beira-rio, faço a azinhaga dos plátanos, saúdo os patos, desemboco na praça da antiga moagem. Adquiro-me o bilhete, aproveito o jornal velho que dormia aos pés de um sem-abrigo caído em combate no banco-de-espera da gare, folheio a perpétua inactualidade do real, como a primeira baunilha. Embarco. Viagem espacial: vórtice-continuum feito de estrelas apeadas, berma-árvores velocíssimas, pastagens salpicadas de ovelhas como poalha de diamantes, colinas-constelações, oficinas-auto com os nomes dos donos em manchete. Pouca gente na minha nave: um rapazola de phones autistas, um cavalheiro de hepática amarelidão, um casal sem alegria de o ser e o motorista, cujos tufos de pêlo peitoral lutam para estoirar os botões da camisa. Pela énemilésima vez, o meu Cesário ajuda a regateira de verduras a içar a giga do chão.
Estou chegando: eis o Mondego do Joaquim Jorge. A Cidade, num clarão de postal, faz-me bem de imediato. Conheço isto tudo. Cada canto me é episódico. Disponho de alguém conhecido por cada rua onde me vi sozinho. As pombas são as mesmas de há cinquenta anos. Já não há fábrica de artefactos de borracha, mas a paragem do autocarro é na mesma em frente a ela. Ali é a fábrica dos bilhetes-de-identidade. Além é onde se matou o filho do fotógrafo. Mais aquém, a parede da loja de ferragens continua manchada da sombra que lhe imprimiu a passagem de uma rapariga muito branca, muito vestida de azul, em 1977. Mas eis que eis o autocarro. Agora sim, muita gente. Rostos meus: o Serafim da Preciosa, que está reformado dos serviços municipalizados; a viúva do carteiro Arnaldo, que anda amigada, dizem as melhores-línguas, com o Antunes da serração; as netitas gémeas de um que foi polícia e depois preso e depois não se sabe que seja feito dele; e o motorista ser mulher chapa-me de repente o que isto mudou.
Apeio-me na minha Rua. Estou pronto.
Fiz bem em deixar a laranja como paga do jornal ao homem. 

quinta-feira, dezembro 24, 2015

Rosário Breve n.º 437 - in O RIBATEJO de 28 de Dezembro de 2015

Queres assim ou queres que embrulhe, Rical-do?

0. Do velho mas não esquecido nem extinto Aristóteles (in Política): “(…) existe por natureza a cidade antes da casa e de cada um de nós, pois o todo é necessariamente anterior à parte.”
1. O sumo da citação é bebível com proveito por tudo quanto for sítio gregário de humana habitação colectiva – e Santarém não tem por que ser excepção. O caso da ruína (mais uma) de um telhado em plena Rua 1.º de Dezembro, seguida, meras sete horas depois, pelo enfim-deferimento do licenciamento de obra de recuperação do mesmo edifício (que há um ano era pe[r]dido & [des]achado nas catacumbas insondáveis para onde esta Câmara ostraciza os documentos de mor interesse público), esse caso seria, enfim, de gozão gáudio motivo, se não fosse, como enfim & de facto é, tão desbragadamente demonstrador da militante & impenitente incúria por parte desta Vereação e do todo deste Executivo. Até porque cada 1.º de Dezembro se comemora (ou comemorava), precisamente, a… restauração. (Assim em caixa-baixa e em itálico para o trocadilho funcionar à maneirex, que é como quem diz na-mouche-au-point.)
Esta Câmara(-lenta) acumula medalhas-de-cortiça que só a cobririam de opróbrio na eventualidade improvável e nunca provada de, ela-Câmara, ter duas coisas: cara e vergonha para agarrar à dita. Não tem. É ver outro gritante caso: o da cratera da/na estrada das Manteigas, que há um lustre está por reparar. Cinco anos para tapar um buraco? Já nem é descuido – é dolosa (e dolorosa) incompetência. Será preciso ir laurear-a-pevide à Coreia do Sul com a pandilha dos cônjuges a pretexto de ir buscar um bocado de brita e uns baldes de alcatrão? É obtusidade a mais, para falar com a franqueza mais escancarada. Aquele buraco é, afinal, espelho da maltosa (eu não disse maldosa, mas…) mandante na Cidade e no Concelho, para mal de concelho e de cidade.
À cratera-das-Manteigas só logro equivalência & cotejo no encerramento da Escola do Salvador, ré culpada da própria qualidade pedagógica e presa condenada do economicismo cego extensivo, pelo desditado País nosso afora, a centros de saúde, tribunais e coisas tipo Rical à la Pires de Lima. Os números devem servir as pessoas, não fazê-las penar. O parentesco geopedagógico da Educação (a educação a sério) para com a Pessoa-Educanda também passa, nos seus decisivos & cruciais anos primeiros, pela proximidade da Escola em relação à porta de casa. E só se é de todo de algures quando algures em parte nos pertence. Desta maneira, todavia, a parte pelo todo é que me parte todo.
Aristóteles não discordaria, quero crer.
2. Por estes mesmos tristes dias-da-ira do descalabro do sistema bancário em que o ínvio & madeirense BANIF emula o famigerado BES continental, o também madeirense AJ Jardim é medalhado em Belém pelo ramsésico Cavaco – mais cortiça, portanto. As coincidências são as migalhas do pão que o Diabo amassa à conta da farinha de Deus.
Aristóteles decerto lhe preferiria broa.
3. No porvir próximo, temos as Presidenciais. Votarei, claro está – quanto mais não seja, para honrar a memória dos muitos que combateram (e derrotaram!) a ditadura monstro-salazarenga; quanto menos não fosse, para a eles render grato preito pelo poder de que me investiram no sentido de, mercê de uma simples cruzinha na quadrícula que achar mais parecida comigo mesmo, dizer o que quero, o que não quero, de onde venho & para onde (não) vou. Mas sempre V. digo o mesmo em mais terrena dicção: no mico-de-circo, não voto; na do terror-das-cabeleireiras, também não; no Eusébio, já não posso; no Ricardo Salgado, só se ele vestir o uniforme-45.
Aristóteles? O Aristóteles que vote no Sócrates, se o Platão não vier atrapalhar.
4. A célebre tirada de Porfirio Díaz (que mais anos presidiu à república do seu país até do que o truculento Alberto João à das bananas adjacentes), pode, afinal, não ser dele. Há quem diga que foi criação de um jornalista chamado Nemesio García Naranjo, director de La Tribuna. Não sei. Sei a tirada: “Pobre de Mexico – tan lejos de Dios y tan cerca de Estados Unidos.”
Grande frase, seja ela de quem for. Apetece-me nacionalizá-la. Ou antes: escalabitanizá-la. Facílimo. Fica assim: “Pobre Santarém – tão longe de Aristóteles e tão perto da Rical-do Gonçalves.”
Ora toma lá desta e embrulha-a tu.




quinta-feira, dezembro 17, 2015

Rosário Breve n.º 436 - in O RIBATEJO de 17 de Dezembro de 2015






R. & A. mas é 


Às 08h43m de quarta-feira, 16 de Dezembro de 2015, Cavaco ainda não tinha aparecido a garantir aos Portugueses que o BANIF merece toda a confiança pela óbvia razão de porque-sim. E todos sabemos que o senhor Silva e a Madeira se entendem bem, sempre se entenderam bem, que são panela & testo, Roque & Amiga, etc. & etc. E quão ele é infalível guru em imbróglios económico-financeiros. E quão nada duvidosos são os seus enganos, aliás nenhuns, jamais-em-tempo-algum. E quão a Academia sueca já há q’anos o deveria ter nobelizado – se não com a Economia, ao menos com a Paz. Ou com a Literatura, que o Churchill também dela foi agraciado – e mais era gordo e bebia e fumava.  
Às 08h56m da mesma matina, o facialmente barbado mas politicamente imberbe edil de Santarém ainda não tinha percebido a relação causa-efeito entre estudo de mobilidade e estado de imobilidade. Nem que o pandemónio evitável da Estrada da Estação é um atestado a céu-aberto de que a puerícia e a política autárquica não são panela & testo, Roque & Amiga, etc. & etc.
Às 09h03m, a entrevista de Sócrates à antiga têvê da Igreja ainda não tinha atingido as duas centenas e meia de repetições, o que é estranho. Muito estranho, aliás – posto estarmos na quadra em que estamos, acreditar no Pai Natal sempre nos faz mais bem do que mal.
Às 09h11m, a rábula triste do 2.º aniversário da morte dos praxados do Meco já não comovia nem revoltava senão os pais dos afogados – pela economia da comiseração, talvez. Ou pela saturação colectiva de um “jornalismo” baseado em ora-a-desgraça-seguinte-ó-fáxavôr. Ou porque as licenciaturas à la Lusófona não obstam a uma carreira no Ministério Público, muito pelo contrário talvez até.
Às 09h23m, um pardal pousou na grade do meu terraço. Cessei imediatamente de mexer-me. Nem um caracter crónico inscrevi no papel virtual enquanto aquele atirador de voos livres sentinelava a realidade a partir do meu promontório de terceiro-andar. Foi só quando partiu que voltei a contar minutos, esses grãos de areia que ao rio da vida assoreiam.
Às 09h29m, os agricultores de horta-para-a-panela (sem testo) ainda não eram licenciados todos em Fito-Farmácia, nem mestrados em Nitrato-do-Chile, muito menos doutorados em Couves-Esquizofrénicas-de-Bruxelas, havendo inclusivamente a suspeita de nem todos terem, sequer, o 12.º novo-oportunista das vacas-mais-gordas daquele senhor que está sempre a passar na TVI.
Às 09h32m, enrolei um mata-ratos e fui cuspinhar fumo & pedacitos de tabaco para o terraço onde há pouco o pardal. Era amena a temperatura, temperada a luz, luminosa a realidade. Mas atenção: é da realidade das 09h23m que falo. Levei trinca-de-arroz para o varandim. Pode ser que a ave volte.
Se voltar, faz de minha Amiga.
E eu faço de Roque só para ela.
O resto, que se banife mas é.




quinta-feira, dezembro 10, 2015

Rosário Breve n.º 435 - in O RIBATEJO de 10 de Dezembro de 2015

Fala o da voz que não chega ao céu



Uma senhora da minha terra colecciona presépios. Consta que já juntou coisa de um quarto-de-milhar deles. Serão, pois, cerca de 250 vaquinhas. É muito corninho de barro. O mais curioso, no entanto, não é tanta vaquinha junta – isso em qualquer casa-de-alterne se caça por trinta aéreos ou nos pinhais por quinze. O mais curioso é ser só um burrinho. Um só. 250 Meninos-Jesus. 250 Sãos-Josés. 250 Nossas-Senhoras. 750 Reis-Magos. Mas só um orelhas-de-feltro.
Como em tempos andei disfarçado de repórter, deu-me para breve retorno a essa prática inquiridora que é o fel-de-boca dos autarcas mais fraquitos & o desassossego dos menos. Fui-me (por assim dizer) à senhora e zingas!, inquiri-a. Para amnésia futura, aqui fica a acta oratória da dita entrevis(i)ta(ção):

– Olá, ti’ Maria!
– Olá, ti’ Coiso!
– Atão só um burrinho a modos que proquê?
– Proq’ foi o único suficientemente pa’ mim.
– Suficientemente pa’ si o quê?
– Suficientemente burro, menino.
– Menino?
– Jesus…
– Ah.
– Os maiores m’stérios às vezes num custam nada.
– Tou a ber.
– Num sei se tá.
– Faz-m’um bocado ’spé’ce ser só um.
– É quanto me chega. Quanto mais burro, mais zurro.
– Atão e com’é q’a senhora faz quand’a chamam pa’xposições & assim?
– Bou.
– Num é isso. Não a chagam por ser só um burro?
– Não, nadinha. Dão-me mazé munta binho-do-Porto & trouxas-d’obos como à Josefa d’Óbidos dita pelo Mário Viegas.
– E as vaquinhas?
– Tamãe bêm muntas.
– Num é essas, é as de barro.
– Essas num tugem nem mugem.
– Proqu’é q’ não?
– Por respeito ao senhor.
– A mim?
– Não: ao senhor burrinho.
– Tou a ber.
– Num sei se tá. Ao Senhor, burrinho.
– Acha a s’nhora que s’eu puser isto no jornal as pessoas ficam a pontos que’sclarecidas?
– Num m’aq’enta nem m’arrefenta.
– Mazé q’eu preciso d’escrabêr coisa assim tipo sentimentos-de-natal, ó ti’ Maria…
– Acontece munto, ó ti’ Coiso.
– O q’é q’acontece munto?
– O Natal. E os burrinhos q’ind’acreditam nele.
– Diga-m’agora cá, faxabôr: o q’é q’a s’nhora a modos que colecciona nos outros onze meses do ano?
– Barizes.
– Tou a ber.
– Não tá mazeu amostro-l’e.
– Sou casado, ó ti’ Maria.
– Burrinho…

E pronto, era isto. Para a semana, conto entrevistar outra Maria – a de Belém-népias. Esta já tá.
– Num sei se tá.


quinta-feira, dezembro 03, 2015

Rosário Breve n.º 434 - in O RIBATEJO de 3 de Dezembro de 2015

R-existir sempre, d-existir nunca

Dezembro.
Antigamente, era dourado, rescendia a musgo fresco – e ninguém nosso havia morrido. As manhãs alvoreciam como tratados hialúrgicos. O fascismo era mais em Lisboa. A minha Aldeia, que o crescimento industrial volvera bairro operário, trabalhava o existir com a naturalidade do rio – o rio que é & passa & descobre o mar. Os animais eram livres como o vento, andavam soltos pelas ruas sem chips que nem havia.
Crescer para sempre era coisa que não passava pela cabeça a ninguém. Os adultos já tinham nascido grandes, as avós eram velhas desde meninas – e nós, enfim, não tínhamos fim.
Com a alva iluminada por um tal Salgueiro Maia, pôs-se-nos a todos, assim de repente, um problema – e o problema chamava-se Liberdade. Era coisa que nunca nos tinha faltado. Ficámos apreensivos. Era então preciso empunhar armas a sério para que todos tivessem paz? E que como os cães da rua fôssemos livres a sério & à desfilada? Era.
Noutro repente, trocaram-nos os calções de pano por um fato estranho – a História. A televisão parecia a cores. Um soldado fardado a preceito não era já pretexto para foguetes de euforia regressada da remo(r)ta guerra – mas sim natural como o choupo de sentinela à ponte velha do Campo.
Houve milagres profanos: por exemplo, o senhor meu Pai rejuvenesceu como um pêssego de volta ao pessegueiro; por exemplo, a senhora minha Mãe parecia capaz de ter mais sete filhos pelas mãos.
As paredes passaram a amanhecer pintadas de palavras que eram vozes altas. Não era Dezembro – era Abril para sempre. Era. Era para ser. Era para ter sido.
Dou por mim a receber Dezembro de esquisito modo: que faz aqui a lembrança de um Abril que, rio, foi, passou & se perdeu num mar estrangeiro? Julgo que é consequência de me pôr a escreviver às sete da manhã num terceiro-andar-gaiola sem vista para o Campo da minha terra.
Todavia, é novo o dia. Dezembro começou ontem – e hoje, hoje vou de viagem às bandas do meu Natal pessoal. Tenho lá que fazer. Anotarei o que por lá houver de casas novas & de descalabros antigos. Não conto ir de braços caídos nem de cabeça murcha. Por assim dizer, faço que sou como o Almonda que o cidadão Mário Costa tanto e tão bem guarda: r-existo.
Pensar que sim acabou fazendo-me bem. Apetece-me mais café feito de fresco, já a mulher pela casa ciranda de primeiros afazeres.
Se ela & eu voltarmos a ter casa térrea com quintal, a primeira coisa é fazermos um rafeiro. Se sair cão, chamamos-lhe Dezembro.
Se vier cadela, há-de ser Abril.