sexta-feira, agosto 21, 2015

A Condição Litoral – versos turísticos para crianças antigas (revista e republicada)






A Condição Litoral – versos turísticos para crianças antigas



(Um dos amores invencíveis da minha vida é a cidade marítima que se dá ao mundo com o nome de Figueira da Foz. Fui feliz nessa terra feita de água e de luz. Justo é que estes versos, dela tendo vindo, para ela sejam.)

Manhã de 9 (I) e tarde de 8 de Outubro de 2007 (II e III).




I

Quando de novo formos a ver o mar
que ele lá esteja é tudo o que peço
pouco pedir não é menos ter
se a nós ao menos nos tivermos.

São alguns gestos da claridade mesma das praias
um copo de água na mão é uma bandeira de chuva
descalços pelo areal tocamos das esferas a música
de antes as gerações viveram tudo quanto viveremos.

Palacetes e casebres da mesma areia erigidos
iguais anseiam todos por praia voltar a ser
ao longo da que maravilhosas coxeiem as crianças
como gaivotas pequenas como grandes (n)aves.

Retornemos à frescura dos bazares miniaturais
da conventual praça onde as sacerdotisas peixeiras
oficiam salmos e salmões e o mitológico polvo
das profundezas da alma onde a memória nada.

Não podemos estar sempre apenas aqui
por nossa casa vazia correm crianças transparentes
somo-las repetidos nos espelhos adúlteros
murchando sem iodo no estanho tóxico.

Não abjuremos a condição domingueira do desejo
lautos farnéis conciliemos em seira de esparto forte
e o ar solar em profundos haustos altos bivalves bebamos
resgatada a botelha da molusca sombra fresca das rochas.

Ao mar me portes de volta muito pois muito
tenho eu enfraquecido de arbóreo mineral langor
sem outro vit(r)al transporte que este dos versos
tossidos manhã muito cedo em enxuta pastelaria.

Que o vento litoral nos accione em levitação
como a panos docemente enforcados em arame
desfraldadores das acústicas vozearias da viração
e dos transcoloridos hologramas de barcos ao longe.

E muito morramos escalando-nos nus deitados
do homem dos gelados a voz vinícola recebendo
recebendo do homem da bolach’americana a solidão de tostão
e da Mãe outra vez nova a água-de-groselha maravilhosa.

E tu não sejas minha mulher sexual mas irmã minha
criança um pouco mais nova menina antiga
precoce reorientadora de minha vida em versos mal gasta
rapazito dado e perdido em nostalgias temporãs.

Na praia o favor farás de amar-me pelo que não fui
e sido deveria ter quando éramos para ser
sempre meninos de iodada derme e naturais dentes
uvas trincando como a pérolas de vinho doce.

O clarão da serra nos chegará florão do alto
a cal dardejando de suas casinhas comoventes
pouco nada nos dizendo não ainda a morte que tais
peças-pedras junta em dominó de esqueci’dados-inquilinos.

Do fundo das águas exumaremos traineiras
com delas os escuros pescadores da prata zichadores
pelas frinchas descalafetadas escorrerá o salitre
e aos fantasmas da lota abraçaremos fraternais.

Nos não falte nem tanto mar nem amor tanto
por sobrevivente turismo de crianças antigas nós
constantes decerto de fotografias versicolores
em gama de negro giz cinza e azul.

Longe do mar em salas de velhas mães
somos já rostos de galeria passe-partout
idênticos marinheiros que perderam as graças do mar
em 1970 ano mesmo desse suicida Yukio.

Tudo o que peço é a memória das uvas lavadas
em copos de água transparente e fria
e o coração poder descalçar de sua pedestre armadura
e testemunhar na praia a memória futura.

Quando de novo formos a ser vistos pelo mar
que lá estejas é tudo o que peço
tudo já tive e nunca pedi
senão que estiveras quando eu já não.




II

Tenho tanta pena de mais vezes não nascermos
está hoje uma tarde convocatória de todo o ouro
a luz é tão bonita que um gajo sorri sozinho
como fazem os tolos como as crianças fazem
como às vezes saltam os animais benignos no monte
e os peixes felizes e amnésicos à flor do oceano
e os cavalos imaginários das infâncias solares
como a minha foi quando eu nascia todas as manhãs
às vezes a Lua demorava-se manhã acima
como uma memória futura um sol de cal
e as árvores inclinavam-se em lapiseiro capricho
e no inverno as cheias davam um pouco vontade
de morrer de beleza de feliz desgraça de pobreza
quintas e casarios fumavam lenhas e ceias
o sino da igreja aportuguesava o Cristo local
e todos os pais eram vivos e trabalhavam e eram fortes
e todas as crianças ovelhavam pela erva das colinas
os velhos usavam chapéu e olhos sábios
de mochos-oitocentistas ilustrando bosques-falantes
longe o mar subia à paleta vidraceira do céu
peixes e estrelas dividiam a religião do infinito
o meu corpo não era ainda espermático ou licoroso
o teu também não que eu sei basta fazer as contas
acontecia-me nascer de noite também
quanto mais chovia mais eu renascia
de olhos fechados na cama aberta pela Mãe ouvindo
o aplauso infinito da chuva ao drama do mundo
o infinito drama do mundo das crianças ouvintes
da chuva desolada desoladora e tão gaiata
como uma criança nua havia-as muito no meu tempo
descalças no esterco dos animais-de-tiro da agricultura
infectadas de moscas e de alcoolismos fundadores
algumas rebentavam do coração numa aflição de pássaros
desasados de golpe pelo gato da miséria patriótica
comecei a desnascer mais e mais a partir delas
dei por mim aos dezassete anos nos bailes do Clube
a música eléctrica entrava no corpo tal formigueiro
líquido era o perfil das raparigas de febras enjauladas
em gangas causticadas de lixívia e primeiras
menstruações aromáticas em fissuras de caramelo
começou então no mundo a desinstitucionalização da eternidade
os homens de chapéu tiravam o chapéu e deitavam-se nos caixões
chorados com violência por filhas e cães muito magros
o sino cantava poemas mais lentos dessa lentidão
que crava as unhas fundo no coração
desapareciam as infantis ovelhas das colinas
umas iam para serventes da construção outras para oficinas
a minha Mãe teimou que eu haveria de estudar
o Século de Ouro da Poesia Espanhola por exemplo
a Porra dos Verbos Franceses a Implantação da República
Capelo & Ivens Gago & Sacadura Stanley & Livingstone
Dr. Jeckyll & Mr. Hyde Marie & Pierre Curie Holmes & Watson
Bucha & Estica Yourcenar & Mishima Nascer & Morrer
à noite revisitava o meu quarto em velório de livros
no pátio os cães rondavam como sentinelas envelhecidas
aos poucos os anos tornaram-se muitos dei-me à corrente
autocarros opúsculos crepúsculos botânicos tabernas frias
nunca percebi fosse o que fosse da minha Cidade
na gare rodoviária os bolos eram fritos a gasóleo
os choupais eram devassados por ciganos e homomulheres
já então a tinta-da-china das matas me matava
de rendilhada beleza litográfica eu ansiava de lápis
na mão nos olhos no corpo que se me erectava
de concupiscente paixão pela pobreza de viver tanto
enquanto já tão pouco renascia digamos assim
dei por mim amando mortos coleccionando almas
expostas em ouro ao sol de tardes assim agora depois
no monte à flor do oceano entre fábricas autocarros
tolos e crianças sorrindo sós.




III

Os olhos cheios de água do mar
orlam do olhar a condição litoral
um homem maduro suporta mal
o sal que enxuga o mesmo chorar.

Por exemplo raparigas ou cães
tidos e perdidas em baías ágoras
cruzando o manso terror da dissolução
uma noite de inverno uma manhã de verão.





quinta-feira, agosto 06, 2015

Rosário Breve n.º 419 – in O RIBATEJO de 6 de Agosto de 2015 - www.oribatejo.pt

Palavreado esti(o)utonal (I & II)



I
História Lenta com Hortênsia mais Dois Azúis

Aconteceu-me há momentos uma coisa que vos quero contar.
Não vou escrever um poema sobre o que se passou.
Vou só contar.
Por volta das seis da tarde, saí para descansar os olhos.
Subindo ia eu pelo lado esquerdo da avenida, o lado do Parque.
Do lado oposto, vinha descendo uma mulher jovem.
Vestia uma blusa azul-celeste.
Vinha longe.
Parei, voltei-me para o Parque e tirei algumas fotografias verbais ao chão vegetal.
A luz era baça, outoniça (ainda o é, posto que escrevo vinte minutos depois).
Quando me preparava para colher a imagem de certa hortênsia azul que ali vigora em solidão, ouvi nas minhas costas a voz:

Boa tarde!

Ela tinha parado no passeio dela para me dizer isto.
Virei a cabeça e mergulhei naqueles totais olhos azúis (como a blusa dela e como a minha hortênsia).
Eu devolvi-lhe a boa-tarde e levantei a mão em saudação.
Nunca a tinha visto por aqui.
É uma rapariga doente.
Tudo dela emanava a outra dimensão, a inexpugnável cosmogonia da doença mental.
Ela deu-se por satisfeita, prosseguiu a descida nos seus passinhos chineses, Ariadne enrolando por si o fio invisível da vida dela.
Eu fotografei a hortênsia e subi até vós.
Eu e ela ficámos, por assim dizer, quites:
nada posso fazer quanto à loucura dela,
ela nada pode fazer pela minha.

II
Fernando António Nogueira

Uma palavra pode ser uma pessoa.
Há uma idade-maçã em cada pessoa.
De novo, e descaradamente, rói a infância-maçã a velha pessoa.
A velhice é o bicho adentro a maçã-pessoa.
A pública noite vence a particular de cada pessoa.
Vence-a pessoa a pessoa.
De mínimas vitórias é feita a Grande Derrota da pessoa.
A minha noite não é a de todos – é a da minha pessoa.
Vou falar-vos da minha mais recente noite em pessoa.
Não vou escrever um poema sobre o que se passou.
Vou só contar:

Sucedia ser pelo entardenoitecer. Sob a latada adoçada pelo Estio e acossada já pelas vespazzzzzzângonas do açúcar verde-âmbar-mel, eu ventilava-me em aura de buda vestido. Da mata derredor, os últimos bichos urdiam deles, e do dia, a música derradeira, essa que antecede o sono – ou o passamento – ou o pensamento.
A hora à aurora avessa adentrava-me a mente à maneira de um nihil obstat o mais generoso. Por conseguinte, a vida mesma coçava-me e acossava-me, vespa ela também, o corpo escrevente à guisa de um imprimatur potest o mais facundo.
Escutei o chiar do carro-de-bois do meu vizinho Nando-Tó Nogueira, cuja xiloacústica tracejava o vidro do ar em limalhas de ponta-de-diamante. Sentia em perfeição a feição da gravidez fecunda e jucunda das macieiras (Há uma idade-maçã em cada pessoa etc.)
Nenhum incêndio queimav’ardia o Bosque-de-Existir-e-Pensar-no-P’ra-Quê-Disso.
Era o sossego, era a açucena, era a cegarrega, a doçura sensível, a seiva sedosa, a seda & a sede saciada. Era a tal hortênsia. Sentia-me bem, a ponto de me não causar mal a consciência de haver nascido sem que opinião me houvesse sido pedida.
Foi então que me chegou a Palavra.
Em Pessoa.




quinta-feira, julho 30, 2015

Rosário Breve n.º 418 - in O RIBATEJO de 30 de Julho de 2015




Missão Jorge



Uma das (poucas) missões sérias que tenho, sigo e persigo na vida é a de manter vivo o meu Irmão Jorge. Não é tarefa fácil: vai para trinta anos que morreu.
Como faço? – querereis, talvez, saber Vós.
Faço assim:

Onde a tua sombra refrescou o chão, acendo a vela do olhar.
Àquele e àquela a quem o teu nome lembra ainda um rosto vivo & bonito, saúdo pelo próprio nome no rosto mesmo.
Se uma das tuas canções favoritas me acode aos pavilhões auditivos, cantarolo-a com a tua voz.
Se algo é referido como Património Mundial da Humanidade, penso sempre que é do teu Corpo que falam.
Se vêm com aquilo do Objecto Voador Não Identificado, eu identifico-o logo como sendo a tua Mente.
Os cães vadios das ruas tresandam à tua bondade e à tua solidão, meu malogrado Irmão.
Na época das andorinhas, Maio não é o mês da tua morte – nem o do meu nascimento.
É um bocado chato da tua parte fazeres-te de nove-horas, agora que são as dez para sempre.
O Pai declinou a olhos nus com o teu passamento: era um pássaro quebrado como um galho. Não durou oito anos, esse pássaro nosso progenitor.
A Mãe deu mais luta. A Mãe deu sempre muita luta. Luta & luto. Durou quase um quarto-de-século sem ti. Ou contigo, lá bem à maneira só dela, essa campeã de filhos, essa vencedora nata.
Passo muitas vezes à porta do teu quarto-casa terminal: fecharam a janela ao n.º 210, receio que lá dentro as trevas te impeçam o gesto branco, a fala clara.
The Rolling Stones ainda andam por aí. (Percebo que isto te faz sorrir. A mim, não – deverias ter-lhes seguido o exemplo.)
Outras famílias como a nossa perderam também seus Jorges – a família Conceição do teu Tó, por exemplo. (Arrependo-me e penitencio-me: não deveria ter-te contado isto.)
O Botânico continua frondoso & formoso.
O Mondego continua de cobalto vivo: uma tira de Céu.
A tua Filha Daniela é uma mulher linda como uma manhã de sol acordando em vidro não-cortante um campo verde-ferrete.
Os Irmãos sobreviventes fazemos pela vida: endureceu-nos a todos, a manhã de 23 de Maio de 1986. Do teu gémeo Fernando, nem falo.
Repara: tu em Maio, o Pai em Abril, a Mãe em Março – o Tempo desce.
1986. 1994. 2011.
Sim, passei hoje pela tua rua Antero de Quental, alimentei o pombal à tua porta, a altaneira Torre da Universidade já não cabreja a estudantada como antigamente, mas também a verdade é que tudo me sabe a antigamente quando entristeço de arroz & pombas à tua porta, à tua janela fechada.
És difícil de manter vivo. Uma pessoa sobrevive por egoísmo. Tenho livros & discos que te dar e de que te falar, dá-me uma trabalheira dos mil-diabos andar com este sacão repleto de belezas escritas & cantadas, pareço a Liginha com o saco dos brinquedos a caminho da praia, pá.
A minha Filha Leonor formou-se em Composição Musical na quarta-feira, 22 de Julho de 2015. Ela não faz (mas faz) ideia de quem sejas.
Eu faço: És.
Não deve ser fácil para ti, isto de ser.
Mas És.
Tu seres é o meu trabalho.
A minha missão não impossível, Jorge Manuel Leite dos Santos Abrunheiro.




sexta-feira, julho 24, 2015

Rosário Breve n.º 417 - in O RIBATEJO de 23 de Julho de 2015




Tela Cénica ou então – Tudo Ou Nódoa


Nota Preambular – Porque sou doido por bom teatro (Arte-de-Talma para os eruditos e para os decifradores de palavras-cruzadas), a ponto de de mim poder dizer-se que tenho ‘pancada’ de Molière, e porque gosto muito de listas telefónicas pela razão de serem obras com muitas personagens e acção nenhuma, surgiu-me a composição do seguinte aparato dramatúrgico:

À esquerda-alta, o cavalheiro de azul remói o desgosto-mor da sua vida: a filha única desgosta dele – já a mãe dela e a mãe dele lhe fizeram o mesmo. É de joelhos pontudos e de coxas magras, calvas e muito brancas – vir de calções para esta crónica teatral não foi grande ideia sua. Nem ajuizado adereço. Fuma como se pensasse, baforando argolas perfeitas quais calamares de fumo.
Ao centro-alto, duas mulheres-pavoas. Bustos como bandejas. A mais velha cheira a cabeleireiro recente: fede a madeixas quentes, que lhe estriam o capacete de unhadas postiças; a mais nova é uma rosa branca como aquelas que se amontoaram em plenário miraculoso aquando do enterro da Alexandrina de Balasar (morte a 13, funeral a 15 de Outubro de 1955: “"Hoje no Porto não há rosas brancas, foram todas para Balasar."), a santinha daquela mui pia freguesia do concelho da Póvoa de Varzim. Só que a sobredita não é santa nem virgem, é só rosa branca. E está viva, também. E é vivaça como as rosas encarnadas.
À direita-alta, a mesa está desocupada, assim permanecendo até final desta peça quieta mas não isenta de seu drama (como no fim se verá). Por conseguinte, as quatro cadeiras conversam umas com as outras, mormente acerca dos traseiros volvidos que os tampos lhes enceraram do muito uso, tampos e tempos ora velhos mas outrora bons, anos de muita freguesia, de muito tostãozinho amealhado chávena a galão, carioca a cálice, prego-no-pão a meio-bife-no-prato-com-ovo-a-cavalo, bola-de-berlim a pirâmide de massa-de-chocolate, macinho de cigarros a (valha-nos Deus!) cigarrilhas-de-café-creme, ’inda o isqueiro carecia de licença de porte & uso, salazar-salazar-salazar. E cerveja preta à pressão como outra não havia nem voltou a haver.
À esquerda-baixa, uma criança-menina obtém da mãe o emolumento (“uma-vez-sem-exemplo”) de um ovo-kinder com néctar de manga-laranja avec palhinha de plástico. A mãe propriamente dita tem qualquer coisa de tremente zebra: ou de égua gentia, brusca, nervosa, fremente – do ser divorciada há pouco tempo, só pode.
Ao centro-baixo, um senhor que foi padre mas que agora prèga benefícios, protecções e condições excepcionais para uma companhia de seguros. Não desleixou, todavia, nem a castidade genital nem o latinório daqueles antigamentes de rendadas sobrepelizes & de mulheres ajoelhadas: vive só numa garagem com quarto-de-banho (só com retrete e lavatório, lavando-se estoicamente ele a balde & púcaro) que uma tia velha devota da Alexandrina cedeu por caridade ao desavindo e materialista, quiçá marxista, apóstata.
À direita-baixa, uma arara enjaulada apregoa a aguarela tropical de si mesma. Bisneta de enjauladas, não compreende nem enseja qualquer veleidade aeronáutica – é feliz com umas poucas sementes e bebedouro fresco como o povo português, além de nicotinómana passiva, pois que se pode fumar (e fuma-se, como já vimos) em palco.
O fosso-da-orquestra não tem músicos nem música a sério, mas sim um “DiJêi” de bairro-social que faz uma máquina bolçar kizombas & hip-hops intermináveis e iguais entre si como a universalidade da merda, pseudomúsica intolerável até ao mais rude pavilhão auditivo. (Cometemos o crime continuado do colonialismo bélico-cristiano-civilizador-ultramarino, não cometemos? Cometemos. Então agora há que aguentar e penar, em remorso mal-mordido, tal caca sonora.)
A plateia apresenta um punhado octogonal de melros que cuspimastigam pipocas em voz-alta e não puseram em silêncio os respectivos telemóveis. São deveras oito, ao todo: um que escreve coisas idiotas na contracapa de um jornal em acelerado e recrudescente descrédito (o jornal e ele); outro que é idiota também e mais nada; outro que é coisa também; o quarto é professor há 29 anos e concorreu para os Açores mas nem assim; o n.º 5 é o Chanel mais famoso; o meia-dúzia quis, em pequenino, ser astronauta mas não chegou a astronauta, ficou sempre pequenino e cá em baixo como os outros; o hepta é um hepático tipo Bílis-the-Kid cuja amarelidão de rosto reverbera e refulge no escuro como uma hóstia de pus, para além de croupier de vinte-e-um, banca-francesa & roletas vesgas numa manhosa tabanca clandestina; e o derradeir’oitavo é um dos meus irmãos, aquele que não fala comigo por causa de algo de que nem ele nem eu nos lembramos já o quê, o porquê e o para-quê.
O arrumador-lanterninha coxeia o reumatismo sem esperança de gorjeta. A da bilheteira cobiça tão-só na vida a sopa requentada e o gato sarnento que em casa a esperam ao cabo de representada a representação, desligada a ribalta e aferrolhado o pórtico-hall. Só que não é, a dela, uma casa-casa – é, isso sim, uma garagem anexa à do ex-padre-agora-mediador. E paga um balúrdio de renda pelo cubículo (mas com bidé para o inevitável chape-chape das mulheres), ao contrário do sobrinho da velha-alexandrinófila, que não paga nada mas há-de pagar nos infernos por haver renegado a Deus.
Nisto, mesmo à maneira daquelas coisecas para representar na TV (com a respectiva mulher a protagonista, claro) que o senhor Moita Flores escreve, não cai o pano – cai a nódoa.


quinta-feira, julho 23, 2015

Hei uma Menina




Hei uma Menina



Hei uma Menina
feita de água pura.
Seria loucura
não haver Menina.

Lento adejar
de pestanas brandas.
E de mãos tão brancas,
que sabem falar.

Compõe & dispõe
juvenil & grácil.
Amá-la é tão fácil,
que às vezes dói.

Rostito em que a Rosa
dedada & perfume
deixou rubro lume
à Maravilhosa.

Eu de ela sou
mais qu’ela de mim.
Fala com um jardim
quem já lhe falou.

Grato e quieto estou
ante o grácil amor:
pois que é Leonor,
flor-mor do que sou.




quinta-feira, julho 16, 2015

Rosário Breve n.º 416 - in O RIBATEJO de 16 de Julho de 2015 - www.oribatejo.pt



Em cartaz só mais esta semana

Demorei-me um pouco mais pelas ruas do que pela noite é meu costume.
O Estio não sufocava já. Antes pelo contrário: temperada, filantrópica, a aragem nocturna convidava à cirand’ambulação em serenidade acrítica. Acrítica e serenamente cirand’ambulei, pois. Fi-lo cismando pequenos-nadas, desses que mais me vale sonhar acordado do que quando presa indefesa do sono.
Descia eu em perfeita solidão a Avenida (aquela assombrada ainda, e cada vez mais, pelo Teatro extinto). A estudantada desertou-a por o motivo das férias sazonais, a Deus graças. Subindo-a (à Avenida, digo), com estes que a terra há-de enxugar vi o casal MM/AM: Marilyn Monroe & Arthur Miller.
Não me pareceram infelizes como nas fotos daquela época em que respiravam a par e a conjugal preceito. Suavizados pela bonomia da temperatura e do anonimato, pareceram-me tão-só gente tão só: como eu, àquela-hora-naquele-lugar.
Ela cometia o pecadilho indultado à nascença de não simular beijos morango-platinados para a câmara.
Ele não espelhava aquela sisudez de grande dramaturgo que de facto foi.
Duas soledades notáveis (a)notadas por uma terceira irrelevante solidão – isto apenas.
Passaram eles, eu passei – como é de força & é de lei que tudo passe e passem(os) todos. Não olhei para trás: já sou de sal q.b. e quanto sobre.
Lançado sem pressa nessa espécie de epifania-technicolor-a-preto-e-branco, não demorei muito a topar, uns meros metros-décadas a baixo, com outra parelha improvável: BC/VS – Beatriz Costa & Vasco Santana. Muito novos ambos, claro, ambos muito Canção-de-Lisboa, naturalmente.
Ela choraming(u)ava; ele fazia por consolá-la. Julgo ter percebido porquê: ela sabia que o Vasquinho dela iria morrer cedo, como de facto morreu; todavia, ele, maganão vero e fingido malandrim como sempre, ia-lhe cici’sussurr’ando que preferia tal destino àquele que sabia já vir a ser, como a ser deveras veio, o dela, o qual destino era, como foi, o de invern’amargar o outonecimento da vida no desamparo sem cura nem companhia de um quarto-casa de hotel antigo.
Não tive tempo de ter pena deles: retive, sim, não quaisquer fúteis lágrimas de basbaque cinémano, mas um sorriso grato – por ele esbracejar mui gordamente, de charuto à Groucho Marx na beiça, no intuito de fazê-la gargalhar em cristal puro como dela era timbre.
Fantasmas os quatro, caixeiros-viajantes prontos a morrer de novo, lá devem ter arranjado maneira de penetrar no fantasmático Teatro encerrado da Avenida. Não sei. Sei que eram horas do último autocarro. Apanhei-o.
Apanhei-o, mas só depois de baforar à pressa a ponta final do charuto à Groucho Marx que o Vasquinho me atirou do lado de lá da pantalha e em cujo fumo desapareço da minha plateia por mais uma semana em cartaz.

quinta-feira, julho 09, 2015

Rosário Breve n.º 415 - in O RIBATEJO de 9 de Julho de 2015 - www.oribatejo.pt

Foto: Calhabé, Coimbra, 5 de Julho de 2015, 18h11m




Tatus, tatuas, borrões & falcatruas

Eram, antigamente eram, exclusivas de presidiários, de marinheiros e de soldados coloniais. Refiro-me às tatuagens.
Como parece ser (e é) tão próprio como fatal das coisas estúpidas, pegaram moda. O pessoal faz tatuar-se muito, hoje em dia. Não ocorre às pessoas que o resultado seja o de passarem a equivaler a espécimenes ambulantes de carcaças vivas carimbadas à maneira do gado de matadouro. Por dentro, mudo e quedo, designo-as por tatus & tatuas. Merecem o apodo.
Tatus & tatuas gostam particularmente do Verão. O calor (ou “a calma”, como lhe chamava o grande Sá de Miranda de “O sol é grande, caem co'a calma as aves(…)”) despe-os e traveste-as, permitindo-lhes a exibição dos borrões frouxos que lhes mancham o couro.
Não sei, sentem-se talvez símbolos de alguma coisa maior do que as viditas que têm & levam; apresentam-se talvez a si mesmos e a si próprias com algo de muito importante para dizer que ninguém quer nem precisa de saber; julgam-se talvez capazes de tudo, a começar por nada, aptos & prontas a mostrar, demonstrar, cabalizar, revolucionar, espantar. A mim, no entanto, parece-me tão-só gente que nunca mais se pode lavar na íntegra como deve ser.
Que os penitentes dos presídios se maculem de códigos e de pertenças gangue-gregárias – eu percebo: é apenas pueril, perigoso apenas, próprio de crianças ladronas e/ou assassinas.
Que os marinheiros na pele tragam do mar evidências de céu convexo – eu entendo: é apenas Poesia, própria de gente com uma mulher em cada porto e com um porto em cada filho.
Que os praças sentissem no Ultramar premências de deixar escrito no próprio corpo Amor-de-Mãe-Angola-1967 – eu compreendia: Mãe, há só uma, como com a Morte acontece.
Agora, estes tatus & estas tatuas que por aí me embaciam as dioptrias – não. Não gosto. Sujam-se por tudo e para nada. E não me diga ninguém que tomo a parte pelo todo: parte-me todo, tal dito.
Ainda há bocadito, no autocarro nocturno (último da carreira, metáfora rodada e a gasóleo do acabamento e da insensatez da viagem), vi uma tatua. Já tinha mais do que idade para não gastar o siso todo em dentes serôdios. Uma borboleta feia gangrenava-lhe a roxo o bíceps dextro. Em baixo, o artelho do mesmo lado acolhia uma tarântula cega. Na tábua do peito (mamariamente falando, a quarentona saía ao pai), floria-lhe um coração falador que exclamava “Raul” e “Love”. E eu sei que ela agora se amanceba com um que é Júlio, que o Raul a deixou pela Guida Florista, que na vida só há duas hipóteses: ou Raul Forever ou Love do tipo não-empurrem-que-há-lugar-p’a-todos.
O desastre estético da pobrezita culminava nas asas do nariz, agrafadas ambas com piercings evocadores do arganel no focinho dos porcos, e nas unhas de mãos & pés, as quais dez, esmaltadas a verde, me fizeram pensar se ela não viria de jogar à porrada, fazendo-o sangrar, com algum extraterrestre daqueles do Scharwznegger.
Coitadita. Eu não deveria ser assim tão malévolo para com ela e para com os asininos seus homólogos que se deslavam as dermes com anjos, estrelas, búzios, cornetas, morcegos, zodíacos e similares insígnias do género ó-p’ra-mim-a-meter-nojo-e-ainda-por-cima-paguei-um-balúrdio-pa’-isto.
Sou um reles bota-de-elástico, eu sei. Sou. Sei. Sim. Mas é que.
Mas é que a tal tatua me trocou as voltas ao projectado duplo mote da crónica. Amolou-me o ferrão. Embotou-me a verruma. Eu vinha para gozar um bocado à pala do enigmático zootecnocrata que passou a integrar a administração do Hospital (para humanos, em princípio) de Santarém (que já lá tinha poucos, aliás). Era para gozar com isso – e com a Carta Educativa que a Assembleia Municipal de Santarém ratificou à absoluta revelia das autarquias menores que lhe são relativas e em completo desprezo pelas necessidades reais, na vida real, das populações com suas crianças sem eira e suas escolas sem beira. Ora, atraindo-me as hastes (por assim dizer e não desfazendo das vossas) e as lentes, a tatua fez-me falcatrua. Mas não faz mal, afinal. Porque, enfim, sempre simbolizam, as manchas dela, alguma coisa: a nomeação das boy-boletas e a aranha do menosprezo e da repugnância pela Educação que é afim de todas as pesporrências e de todas as prepotências, a começar pelas mais analfabetas, como é o caso da nossa bronca Edilidade.
Mas, ó meu bom Sá de Miranda, calma! Tais aves também caem, ao contrário das tatuagens com que se mancham, a ponto de nunca mais, como deve ser, se possa delas dizer coisa limpa e lavada.

quarta-feira, julho 08, 2015

Muito Novo em Peniche, ao Vento (republicação revista e ligeirissimamente aumentada de original de 4/9/2007)

Muito Novo em Peniche, ao Vento


Caramulo, entardenoitecer de 4 de Setembro de 2007


Eu era muito novo e o vento também
vinha de lado como eu.

Ajudei a mudar móveis de casa para casa,
em Peniche, surpreendido pela
omnisciência ubíqua do mar
peninsular.

Eu era tão novo, que nem descobrira
que comer merda pode ser uma vocação.

Conheci no istmo ’ma mulher triste.
Chamava-se H.ª Lx., não sei s’inda existe,
não sei, não.

As minhas mãos no comboio que vai para o norte.

Isto é um verso escrito por ela.
Ela sobrevivia num quarto com livros
sem estantes.
Ela só tinha instantes – e livros –
e este verso maravilhoso.

Nunca mais a esqueci.
Não mais o vento a esqueceu.

Eu tinha um colega de Geografia
que depois se tornou mercador de gangas
de marca.

Eu tinha um colega de Matemática
que depois deixou de beber
e voltou para casa
no norte.

Eu tinha um colega de Pataias
que comprava heroa ao grama
e pronto.

Eu tinha um colega de Barcelos
que unhava o cavaquinho.

Eu tinha um colega palestiniano da Covilhã
que, pronto, era ele.

Eu tinha 22 anos.

Nunca percebi nada que não fosse a
Nau dos Corvos.

Nunca vi nada em Peniche que não fosse a
maravilhosa oferta a dez escudos
de tantos livros do
Vilhena.
(Comprei lá também um
Carlos Fuentes, O Velho Gringo,
no dia 28 de Abril de 1987.)

Eu era um anjo suspenso: meses de nada,
um pouco antes, tinha-se-me ido
o Jorge.

Eu era aprendiz de professor,
(mas nunca aprendi),
tinha 22 anos, não tinha
nada a dizer ao futuro.

Vale que havia o vento.
O vento de Peniche é o vento mais humano do mundo.

Também havia o senhor Alfredo
e havia o senhor Manuel
e havia o Cesaltino
do Nau,
um Café que era ao pé da muralha,
já não é.
Havia, à janela do Nau, o ex-embarcado
da Marinha Mercante que lia
livros espíritas, vestido de branco
contra a pele solária acima
do escaracolar dérmico dos pés
nas sandálias mariconças.
Tinha uma pancada muito jeitosa, esse senhor.
Acho que já morreu.

Fui à Praia da Consolação, mas
não encontrei Ruy Belo,
devo ter-me atrasado,
oito sete, sete oito.

Perto da muralha, uma cabine telefónica avariada
deixava telefonar de borla. Telefonei muito.

Um dia, de repente, choveu tanto,
que entre os Correios e a Caixa Geral de Depósitos
não se podia passar sem
carta de Cristo ambulatório
à tona d’água.
Telefonei todo contente do Banco para a Escola:

Olhem, vou chegar atrasado por causa distassimassim.

E atrasado cheguei.

Ainda hoje assim chego.

Vale que hoje,
mesmo longe,
está vento.

Estou é menos novo.
Isso e sem nada que dizer
ao futuro.

quinta-feira, junho 25, 2015

Rosário Breve n.º 413 - in O RIBATEJO de 25 de Junho de 2015 - www.oribatejo.pt



912 578 9setenta à mais dura porta arrebenta


1. Tejo Alporão

Temo que ao Tejo acabe acontecendo o mesmo que há demasiado tempo acontece à EN 114 e aos monumentos santarenos: o encerramento sine die. Se o grande Almeida Garrett quisesse hoje viajar pela nossa terra, que dele era e que ele tão bem fixou em páginas logo clássicas à nascença da tinta sobre o papel, teria de ligar para o 912578970. Parece que é o número mágico-municipal que abre portas que abertas deveriam estar a horas fixas e certas. De monumentos, por exemplo, que as pessoas, essas chatas que mais nada hão que fazer, têm a mania de visitar. Se o atendesse alguma “voz técnica”, o mais certo seria o Visconde escutar em castelhano a revelação de que o Tejo já não é Rio mas sim heterónimo hidrológico do Museu de São João do Alporão, hombre! Entrementes, já sei que o Mouchão de Pernes não faz parte do multitudinário bailarico-de-todo-o-Verão“In.Str.” nomeado. Pois é – hidrologia e barreiras não são “cultura”: são chatices que não dão folguedo aos bisonhos bisontes votantes, chico!

2. Calvinismo ataca sessão municipal

Italo Calvino, o magnífico escritor italiano, foi referido em uma sessão municipal scalabitana do corrente Junho. Estranha coisa. Acabou quase toda a gente por ficar na mesma. Devem ter pensado que é o gajo que vem para adjunto do Jesus no Sporting. Mas pronto, Julho que vem, apurei-o eu já de fonte-suja, é o mês de Thomas Mann magicar montanhosamente em Abrantes; em Agosto, Curzio Malaparte conspira no Cartaxo; em Setembro, Erich Maria Remarque vai obeliscar a negro Almeirim; em Outubro, Malcolm Lowry bebe uns copos valentes debaixo do vulcão que Tomar é; em Novembro, Graham Greene faz de terceiro homem na assembleia de Vila Franca de Xira; em Dezembro, o Autor da Bíblia (que, como toda a gente sabe, é o tenebroso Edgar Allan Poe) vai assombrar todos a todo o lado; e em 2016, não sei nem quero saber – o mais certo é 2016 durar um ano, à maneira daquele famigerado abatimento de estrada junto a um curso de água ali para as bandas das Ómnias.

3. Gaivotas sem terra

Viegas é uma aldeia da freguesia de Alcanede, concelho de Santarém. Duas pessoas de breve idade, na brevidade de três meses, ali se suicidaram. “Não há gaivotas em terra quando”… quê?

4. Vandalixos 0 – Bonitão 1

Ao muito lixo aparentemente perpétuo da capital distrital ribatejana, juntou-se a vandalização aleatória de equipamentos urbanos destinados à higiene pública (deficiente já de si/deles) e de sinais rodoviários. Qualquer coisa como 250 contentores que a Câmara teve de comprar para repor os ardidos. Portas veio à Feira, seu histriónico ambiente socionatural, jantar à pala com mais umas centenas de sombrias figuras-sombra da laia yes-men. A culpa disto tudo só pode ser, claro, da Grécia: tanto da pala, como do vandalismo. Só pode. “Os vazios nunca perduram indefinidamente” – escreveu-o Dinis de Abreu no semanário Sol de 29 de Maio último. Um dia antes, a 28, o grande Chico Buarque, que é tudo menos vazio e que definida e definitivamente perdura, era graciosamente citado pela revista Sábado: “Há gostos para tudo. Há quem me considere um cantor medíocre. Há quem não goste da minha música e sim dos meus romances. Eu prefiro ser bonitão.”

5. Consolidai, filhos, consolidai

Parece que o “passivo consolidado” do município de Santarém em 2014 é de 144 milhões de “aéreos”. E que a “dívida consolidada” do idem é de 103 milhões, apontam Idália Serrão (a tal do coiso Calvino) e Madeira Lopes. Pita Soares contrapõe “resultados líquidos positivos de 1,9 milhões nas contas consolidadas”. Vale-nos António Melão, que não é de Almeirim mas parece do Entroncamento, por fenomenal. Nunca leu Italo Calvino, confessou. Até podia ser o adjunto do Jesus no Sporting, confesso eu por ele. Mas Melão é homem de contas. Certas ou tortas – é outra história. Contas, são com ele. Diz ele. “Resultados operacionais do Município foram positivos em 3,9 milhões de euros.” Diz ele. Vá lá, que não disse “consolidados”. Mas, vá lá, Melão ainda concede “que se façam leituras diferentes”. Mas das contas, diz ele, afinal inferiores em 5 (cinco!) milhões ao ano transacto. Leituras, sim, desde que não sejam do tal Calvino, claro, que se calhar era mas era grego.

6. Contas agora minhas, chiça

250 (contentores) vezes 250 (euros/cada) = 62.500 “paus”. Porra! Poupai tanto guito e deixai arder o lixo, já que o não recolheis a tempo, ó pàzinhos! Se não, como raio havereis de consolidar tanta liquidez?

7. Resposta à pergunta de há pouco

“Não há gaivotas em terra quando”… quê?
“Quando um homem se põe a pensar”… na aldeia de Viegas, freguesia de Alcanede, concelho de Santarém – Portugal.

Não, não estamos “em festa, pá”, ó Bonitão. Estamos mas é na merda, para falar curto, grosso e direito.

quinta-feira, junho 18, 2015

Rosário Breve n.º 412 - in O RIBATEJO de 18 de Junho de 2015 - www.oribatejo.pt


Edward Steichen
Woods Interior
1898
© Estate of Edward Steichen



Coisas que me dão n’alembradura tipo aforismos ou pior


Vou pelo lema estóico tão do agrado do polígrafo (mas Poeta sobre tudo o mais, acho eu) Manuel António Pina e de outros plumitivos de alta e cavalar nomeada tais como Walt Whitman (que Álvaro Fernando de Campos Pessoa leu) e Ezra Pound (que valorizou a tempo e horas um tal James Joyce): Nec spe nec metu Nem esperança nem medo.
Em relação a tudo – ou a quase tudo.
Em relação a todos – ou a quase todos.
Até porque, antigamente, a Ignorância se envergonhava de si mesma. Hoje, forma (des)Governo.
Seria preferível morrer ignorado a viver na ignorância, se viver não fosse, como de facto e deveras é, preferível a morrer.
A 18 de Agosto de 2007, andava eu, não sei já por ou para quê, pela Figueira da Foz. Num repente (mal tive tempo de tomar nota), ocorreu-me esta evidência:
“Um dia, a minha vida será uma sombra numa frase alheia.” Estranhamente talvez, essa certeza serenou-me. Lá estava aquilo do nem-esperança-nem-medo: é que, depois, nem sombra nem sobra.
Já muito antes (por volta de 1994, talvez, teria meses apenas a minha Leonor), me ocorrera algo deste tipo:
“A minha morte já começou, lá nos sítios onde estive e a que não voltarei.”
E é que já.
Outra do género (mas de que não recordo com precisão a data):
“Só a ubiquidade me/nos volveria eternos/s.”
Pois é: só estando em todo o lado ao mesmo tempo nos tornaria indeléveis, quando deléveis é o que somos – basta que morra o último que se lembre de nos botar o nome numa frase para que de todo nos apaguemos. O grande António Osório já, claro e claramente, o sabia, quando se referiu, algures, à “eternidade sem luz do esquecimento.”
Finalmente, pelos estertores da primeira década dos correntes século e milénio, estremunhei certa madrugada com isto já escrito (ou já inscrito, que não é bem a mesma coisa) na mente:
“O amor é cego.
A memória é o cão do cego.”
Memória. Esquecimento. Esperança. Medo.
“Words, words, words”, enfim – o velho Lelo Shakespeare sempre faz e dá sempre jeito.
Por instantes, revivo a tarde de 12 de Setembro de 2007. Dessa vez, a carcaça andava-me pelo Caramulo. Palavreado na cabeça às voltas.
A palavra ente.
A palavra utente.
Para a primeira, isto:
“Nada disto tem a ver com a vida.
Uma coisa é um gajo estar vivo.
Outra coisa é um gajo sê-lo.”
Para a segunda, isto:
“Nada disto usa a vida.
Uma coisa é um gajo estar vivo.
Outra coisa é um gajo usá-la.”
Tudo coisas que me dão n’alembradura tipo aforismos. Ou pior. Poderia dar-me para andar no gamanço ou na droga. Não ando. Ando nisto. (Des)governo-me com estas, e afins destas, verbosas inutilidades. Mas para andar a sério (mesmo a sério e à séria) no gamanço, formaria eu (des)Governo.
Não formo. Não formarei. Falta-me ignorância para isso.
E medo. Falta-me medo para isso.
E esperança (essa usança da espera), coisa de que não sou ente nem utente. Falta-me esperança para isso.
Vou sendo o cão do cego, mas com a devida pulga atrás da atenta orelha.
Pronto. Já está. Crónica feita. Para o ano que vem, outra vez Feira do Ribatejo, vulgo Nacional da Agricultura – mas não há-de ser (iupi!) o Cavaco a inaugurá-la.
Sempre há qualquer coisita de que ter, afinal e sem medo, esperança.

quinta-feira, junho 11, 2015

Rosário Breve n.º 411 - in O RIBATEJO de 11 de Junho de 2015 - www.oribatejo.pt



A Escolha
(acta de consulta)



De seu/dela lado da mesa, a Senhora pergunta-me:
– Qual é a sua Primeira Recordação da/na vida?
É uma pergunta profissional. Clínica, não cínica. A mesa é de consultório.
Respondo:
– No Pátio da Casa dos Pais, 1967, tenho três anos, algo debaixo de um papel ou cartão, acho algo que me enche de alegria, alguma quinquilharia-tesouro, não consigo saber o quê, talvez uma carica de garrafa de laranjada para fazer um ciclista, talvez um cromo ainda bom de jogador da bola para a caderneta, só recordo o ter achado, não o achado em si, ou em mim, só o ter feito um descobrimento, a emoção intensa (chamam-lhe “adrenalina”, hoje em dia), o sapato direito garimpando aquela fortuna incalculável,  que, de facto, ficou por calcular.
A Senhora então assim para mim:
– É mesmo essa a sua Primeira?
Ardil. Tento esconder o gato sem mostrar o rabo. Em vão: ela sabe do ofício.
Eu assim para ela:
– Até que ponto, Doutora, são as recordações deveras factuais? Quanta ficção maquilhada pelo desejo as não emboneca? Quanto real é/há nelas? Quão sincero (nos) é o Passado (ou nós sinceros para com ele)? Quanto tem ele de fabricação?
Ela sossega-me:
– As recordações têm sempre algo de verdadeiro, de histórico, na origem. A essa verdade antiga costuma associar-se, inconscientemente embora, o contexto, a época, o ouvido, o falado, o que os mais Velhos disseram, o que a Criança apre(e)nde(u).
E insiste:
– É mesmo essa a sua Primeira Recordação?
Decido abrir o jogo:
– É. Mas há uma Segunda que é Primeira também. Ex-æquo, diria eu. E digo.
E ela:
– Conte-ma, por favor.
E eu:
– Tem de ser 1967 ou 1968, no máximo. Não pode ser mais perto no Tempo. Nem mais longe – eu sou dos de ’64. Ainda não ando na Escola. É na terra do meu Pai, não naquela onde moramos, que é a da minha Mãe. Levavam então as crianças a essas coisas fúnebres. Acho que ainda levam. De repente (é uma espécie de clarão na mente), num adro (árduo), vejo o Caixão. Já saiu da Igreja, ainda não chegou ao Cemitério. Terra seca. Está completamente só, o Morto. Como deve ser, s(up)onho eu agora. O Rosto é um lenço sobre o rosto. Brisa nenhuma. O Rosto-rosto não se mexe. Os homens pousaram-no ali. Talvez para descansarem um pouco. Os homens desapareceram. O séquito desapareceu. O Sol a pino. A pique. Absolutamente Só. Absolutamente Sol. Absolutamente ninguém em torno do esquife. Não me vejo a mim mesmo – sou Aquele-que-Olha.
A Doutora:
– De quem era o funeral?
Eu:
– Era de um homem já grande quando o meu Pai ainda era menino.
A Senhora:
– Muito calor?
Eu:
– Insuportável. Aquela luz irrespirável à García Márquez, sabe a Senhora? O negro acérrimo do ataúde. Ninguém à volta daquela Caixa-Preta. A força do calor açulada pela força do Ninguém-à-Volta, pela força do Nada-por-Todo-o-Lado. Nem o meu Pai à vista. Até hoje.
A Senhora:
– Há estudos que apontam no sentido de um maior pendor para a sobrevivência no caso das pessoas cujas primeiras recordações estão associadas à alegria, ao prazer, a sentimentos bons como a gratidão, a surpresa agradável etc. O senhor tem duas Primeiras.
Qual delas escolhe?
E eu:
– Mas eu posso escolher?
Então a Senhora assim:
– Pode. Pode sempre escolher. Fixe isso: pode escolher sempre. Creia nisso. Mas é bom que tenha sido franco com o acréscimo da “Segunda-também-Primeira”.
E eu:
– Então escolho a primeira-Primeira. A do Achado.
Então a Senhora assim:
– Como, ou o quê, são hoje para si os dias de muito calor?
Eu:
– Acho que compreendo a pergunta. São mortíferos e mortais e sozinhos. Olhe a Senhora que eu gosto de praia no Verão. Mas prefiro-a de Inverno. Ao Estio, prefiro de longe o Outono temperado. Até a Invernosa mais álgida lhe prefiro.
A Senhora:
– Compreender é bom. Ajuda a escolher. Não muda o Passado. Mas muda qualquer coisa (para) hoje.
Eu:
– Mas nunca saberei o que estava sob o papel/cartão, o que achei, o que me alegrou tanto.
A Senhora:
– Escolha o tesouro que quiser. Mesmo que esteja calor a mais.

Consulta acabada, sozinho na paragem de autocarros. Sol forte, implacável, daquele de enegrecer rosas. Mas, perto, há uma orla de sombra viva: como uma gaze fresca atirada pela Mãe. Acolho-me a ela. O autocarro vem a horas. E, uma vez na vida ao menos, eu também.
Obrigado, minha Senhora.
Obrigado, acho eu.
Ou escolho.




quinta-feira, junho 04, 2015

Rosário Breve n.º 410 - in O RIBATEJO de 4 de Junho de 2015 - www.oribatejo.pt



Duas por uma resto zero

1. O Regresso do Emigrante

À saída do comboio, sentiu que o tempo tinha mudado de espessura. A ausência tinha oxidado os pombos e as palmeiras. O jardim era do esmalte que consubstancia o futuro anterior. No coreto, fantasmas filarmónicos tocavam Roberto Carlos.
Comeu um quarto de frango numa churrasqueira enegrecida. O recepcionista da pensão aceitou-lhe as malas com um gemido artrítico.
De volta ao largo, conferiu a eternidade das mercearias, os jogadores de cartas aposentadas, a sesta dos táxis e a fragrância mortífera da desesperança.
Trinta anos em França. Doze na Alemanha. As mãos dormentes de tanto trabalho. E, agora, o regresso, essa missão impossível. As crianças tinham-se casado. As aldeias eram iguais entre si como requeijões. As pastelarias repetiam-se umas às outras como sonhos feios. Os arquitectos pariam cubos de cimento como galinhas geométricas. Os farmacêuticos aviavam pastilhas contra o problema de ter nascido. E os futebolistas da equipa local eram brasileiros que entristeciam de frio na noite dos cafés cibernéticos.
Ao jantar, na mesma churrasqueira, ainda considerou a possibilidade de voltar para trás: França, Alemanha. Mas decidiu que não, que ficaria.
Que, no próprio dia seguinte, trataria de comprar um táxi ou um baralho de cartas, de modo a poder usufruir, em pleno esmalte, da glória de Roberto Carlos tocado até nunca mais pelos benignos fantasmas da filarmónica de quando isto era vila e ele não tinha partido para sempre.

2. Ao Alcance das Mãos

Contar e ouvir histórias não são actividades exclusivas da infância. Pertencem igualmente ao mundo do envelhecimento. Porquê? Porque as histórias, próprias e alheias, narradas e ouvidas, servem para melhorar a realidade. A realidade, sim. Porque a realidade nunca é bastante. Porque raramente é bonita, construtiva, adequada. E porque a realidade sai distorcida do velho conflito entre as mãos, que representam a prática, e o coração, que é a despensa sangrenta de tudo o que realmente vale a pena. Por tudo isto, trago hoje outra história.
Era uma vez uma pessoa que tudo deixava cair das mãos. Bebé, compreendia-se que tal lhe acontecesse. Veio a puberdade e, com ela, o ostracismo. “Ostracismo” quer dizer (mais ou menos) que tudo e todos ficam longe de nós, porque todos e tudo assim o querem. Todas as coisas vinham parar ao chão, segundos depois de tentar segurá-las nas mãos. Estas eram, ao menos na aparência, normais: dez dedos e dez unhas, mais as oito linhas que marcam o delta do destino. Garfos, jornais, jarras com suas flores, anéis até: tudo acabava no chão.
Já adulto, não segurava nem empregos nem amores. Das mãos lhe caiu a vida do pai e a de um irmão. E também a do cachorro amarelo, único dos seres que tinha podido conservar, pois, como é sabido, são os animais que nos possuem e seguram.

A história acaba assim: deixou de tentar agarrar com as mãos coisas e pessoas. Descobriu que a única forma de ter está no olhar. E que, vistas as coisas assim, a realidade não é tão má como parece. Sim, mesmo aquela que temos ao alcance das mãos.