terça-feira, janeiro 31, 2017

IMITAÇÃO DE INÊS H. POR RUI B. - Rosário Breve nº 490 - in O RIBATEJO de 26 de Janeiro de 2017 - www.oribatejo.pt



Imitação de Inês H. por Rui B.



Há uma dúzia de anos entregues à bicharada, vem-nos a calhar um zootécnico. Refiro-me, claro, ao engenheiro Rui Barreiro, que, qual Lázaro, ressuscita do purgatório ribatagano e se propõe reconquistar em 2017 o que em 2005 perdeu: a presidência da Câmara de Santarém. Vem um bocadito tarde – mas vem a tempo, por não haver mais tempo a perder. Se vencer, oxalá faça jus ao nome. Neste sentido: Barreiro resolve barreiras. É trocadilho fácil – mas justo.
Como não voto cá, é libérrimo que me sinto para bitaitar alguns emolumentos à cena (triste) da realidade político-social deste futuro interdito chamado Santarém (Cidade & Concelho). Fá-lo-ei socraticamente: destruindo por ironia, reconstruindo por maiêutica.
Três palavras-chave parecem ser as suas, a saber: “Confiança, Esperança e Coragem”. Deixe-se disso, senhor engenheiro. Temos tido, por excesso que não por defeito, muito abuso de confiança, de desesperança razões muitas – e quanto a covardia (vá, a palavra é forte, troquemo-la por pusilanimidade), e quanto a pusilanimidade, o senhor sabe, o senhor bem saberá. Não é, pois, de palavras-chave nem de intenções-fechadura que precisamos todos – mas sim de actos-abertura, de paredes que mudem de cor quando se lhes der por cima uma chapada de tinta.
Até 25 de Abril próximo (boa data), diz o candidato que apresentará os nomes a si & do seu projecto adjacentes & cúmplices. Oxalá tais nomes sejam, mais do que próprios, apropriados. Não há-de ser difícil: isto aqui é joio, aquilo ali é trigo. Joeire o que for preciso até que espigue o melhor. Não vá pelo menos mau. Vá pelo(s) melhor(es).
É confirmação do senhor engenheiro que fervilham discretamente “conversações com outras forças públicas do Concelho para tentar encontrar entendimentos que permitam uma solução pluripartidária estável”. Bem. Muito bem. Não se importe que o já velho & relho apodo de Geringonça venha a ser-lhe ladrado pelos que temem o passar da caravana. Fale pouco e ouça muito as pessoas de bem, que Santarém as tem também. Vá beber um copo ao Quinzena.
Imperativa como imperiosa lhe seja a noção de a política poder sempre, mas não dever jamais, esquecer ser de/com/para pessoas que trata. Estes doze anos têm sido um deserto maninho, estéril, inculto: e torpe e ignóbil – vil até demasiadas vezes & soez não poucas. Barbudos embora, estes rapazes que estão não passam de imberbes a brincar às gilettes como os mais crescidos. Para eles, progresso é um hipermercado por cada cem habitantes. E se o não é, parece muito sê-lo. Olhe o senhor.
Olhe o senhor aquilo da EN 114, aquilo da balbúrdia viária ao pé da estação: que interminável tragifarsa, verdade? Verdade. O prolongadíssimo encerramento sem remédio à vista daquela via crucial (via crucis, precisamente) é, em si mesmo, o retrato perfeito do corrente executivo municipal. (Mas diga-o o senhor à sua maneira, que eu tenho chovido no molhado e a mão também já me dói um bocadito.)
Outra coisa não propriamente menor: o Tejo. Queira escutar os activistas apartidários que a ele velam & por ele pugnam. Seja incisivo nessa escuta. Insista na revisão equilibrada & pragmática do PDM-de-Santa-Engrácia a cuja procrastinação sine die estes ineptos inaptos nos têm condenado, a nós sem culpa formada mas com trânsito em julgado na (não-)prática. Cá p’ra mim, o lixo real das ruas começa a ser varrido com uma vassourada no lixo metafórico disto-d’agora.
Engenheiro: chateie Lisboa, senhor! É no chatear Lisboa que a coisa se dá. Chateie Lisboa! Vá lá fazer com que lhe passem cartão, ao contrário deste, que ainda piou vaguíssima & inconcretizadíssima ameaça de entregar o cartão. Chateie Lisboa. Incomode. Ralhe salivosamente com a secretária do ministro. Fume muito na antecâmara do ministério. Leve merenda para o Terreiro do Paço. Leve campinos, leve um rancho ou quatro, diga que se vai matar em holocausto público, ameace-os com o terror da continuação do Ricardo. Ou então assim: ande muito, marche muito – olhe, marche depressa & bem à imagem & semelhança da valentíssima Inês Henriques, a gloriosa riomaiorense que, a pé, faz mais depressa 50 km do que eu de bicicleta, eu com 35 anos de tabaco no pulmão ainda em vigor, no hálito, na roupa e na vocação de cinza-um-dia como toda a gente. (Já agora, senhor, dê-me-nos lume.)
A sério, muito a sério, senhor engenheiro: imite a Inês. Desta vez, o senhor não terá como concorrente uma medíocre criatura de televisiva génese – mas sim alguém cada vez mais ninguém neste frei-luís-de-sousa mesquinho de que Santarém não tem de continuar sendo palco.
Confiança, senhor. Esperança, engenheiro. Coragem, Rui. 

quinta-feira, janeiro 19, 2017

MAS QUAL CRISE DE QUAL JORNALISMO QUAL QUÊ - Rosário Breve nº 489 - in O RIBATEJO de 19 de Janeiro de 2017 - www.oribatejo.pt





Mas qual crise de qual jornalismo qual quê


Considero que a propalada crise do jornalismo não é real. Como pode estar em crise algo que não existe? Hum? É como dizer: “ – Olha, aquele dinossauro está co’ a gripe.”
O jornalismo não existe quando o jornalista d-existe. O jornalismo não existe quando o jornalista não r-existe. De quê e a quem? Do aturado esforço e ao fedelho economês que o patrão nomeou director, por exemplo. Hoje em dia, parasitam as redacções os servis sicários que mataram as notícias para parir os conteúdos. É a praga das sinergias, a maleita dos empreiteiros/merceeiros donos de jornais. Por todo o lado, são analfabetos funcionais a mandar em quem escreve. Gagos mentais a editar o que se diz. Cegos voluntários a dar que ver. Com isto, jornais, rádios e televisões involuíram para monturos de lixo auto-reciclável que, todo o santo dia, esvaziam de qualquer préstimo todo o amanhã que, hoje, tresanda a ontem.
Ter sido ou não ter sido penalty esmaga ou não esmaga, em presença & relevo, o desemprego real? Esmaga. A última do presidente-da-bola é ou não é mais premente do que o esvaziamento curricular do ensino? É. O sufoco fiscal de trabalhadores & empresas vale alguma coisa face aos debates quadrangulares da recente jornada da Liga? Vale nada.
Reitero: a crise do jornalismo não é real porque o jornalismo é irreal e porque a crise é decalcada da financeira de 2008. O cavador deixa de ser jornaleiro no dia em que for tão dono da enxada como do chão em que a crava. Jornalistas, hoje em dia? Bah, jornaleiros! Acomodados a soldo de caciques (nacionais como multinacionais, de Lisboa como regionais – note-se bem), o escrevente verga o espinhaço gelatinoso ao frete – conseguindo do autarca parlapatão a publicidadezinha nojenta capaz de pagar a água do autoclismo. E aí vai ele de cuspinhar em Microsoft Word o marketing da promoção pessoalizada do fabricante de torneiras local. É vê-lo de microfone a louvaminhar por todo o lado “aqueles que se amamentam da Pátria”, meu bom Jacques Prévert.
Foi felizmente breve a minha incursão pelo jornalismo remunerado. Todavia, não foi por ignorância minha que (re)conheci pouquíssimos jornalistas – foi porque eram e continuam a ser poucos os que merecem esse título profissional. Lisboa era um nojo: campeavam os génios esquecidos, as luminárias do croquete, os amásios da fonte-inventada; grassava a cáfila dos romancistas embrionários tipo Nobel-para-a-semana, dos poetas desiquilibristas, dos guionistas de têvênovela. Coimbra? Jesus Senhor, Coimbra! Mais doutores por metro (como eles) quadrado do que honestas pulgas em cão solto. O Porto? Não sei, passei por lá a caminho de Braga mas retornei de barco até à Figueira da Foz. Aveiro & Viseu? Mas isso existe? Leiria? Não queirais que Vos fale de Leiria. Invoco razões higiénicas. Onde o jornalismo sério for embondeiro, Leiria é logradouro de erva rala. Daninha, naturalmente.
Não, não reconheço nem crise nem jornalismo. O que por aí se faz – é lama da digestão. Restos-zero à esquerda & à direita. Sabujices de obra-nada. Coisas de meter em saco plástico a caminho do contentor mais perto de si. Rácio de dez opinadores bêbedos por cada jornalista sóbrio. Terraplenadores da democracia, papagaios da cotação-em-bolsa que estão para os mercados como os freudianos para as mamas da própria mãe.
Ná! Crise nenhuma, jornalismo quase nenhum. Que me resta? Resta-me O RIBATEJO. Resta-me O RIBATEJO porque aqui a enxada é minha. A enxada é minha e o chão é nosso. Sim, o mesmo chão por onde ontem o dinossauro e hoje a gripe.

quinta-feira, janeiro 12, 2017

ANDAR AOS PAPÉIS - Rosário Breve nº 488 - in O RIBATEJO de 12 de Janeiro de 2017 - www.oribatejo.pt




Andar aos papéis


1 Até que enfim fui capaz de sintetizar na perfeição a minha vida: relê o título desta crónica, Leitor(a). Sem mais nem menos, é o que lá está. Talvez eu nem devesse confessar-me assim tão ingenuamente. Quiçá. Não (me) importa. Eu ando aos papéis. Toda a vida and(ar)ei. Daí (e daqui vai outra ingenuidade confessional) o meu cagaço de algum badagaio que um destes dias se me dê na rua, um daqueles fulminantes que fazem a boca ficar ao lado de mais lado nenhum, sabes, um ai-mãezinha do tipo desta-p’ra-muito-melhor-que-pior-também-há-de-ser-fácil. Mas olha: não cuides tu que é por eu ter medo da morte. Não é. Não tenho. Se muito não erro, há-de ser tão irrisória a morte que me leve quão a vida que tenho levado. Não hei-de ser desses grandes mortos de funerais de três dias. Não é por aí. É por aqui: o meu cagaço do badagaio é que pela rua se me espalhem os papéis enquanto se me estica o perfil, perdão, o pernil. Os papéis? Estes a partir dos que aranho & emaranho as babas & os fios da teia de (escre)viver. Exemplos? Muitos. Posso (e vou) referir-te alguns – embora a vergonha me torne escarlate a bochecha do lado são que o chilique ainda não tolheu. São gatafunhos de inquilino de dispensário psicodoido, daqueles de camisa-de-onze-forças-de-varas, de perpétuo desatarraxado ao nível do parafuso neuro-sináptico. Pois serão. Mas sei que os queres ler. Lê, pois:
2 27/3/2011, Taça INATEL, Campo da Esc. Sup. Agrária Santarém / Jogo Juventude de S. Domingos-Raposense (2-1 no final) / S. Domingos é Abrantes, pop. aprox. 1006 hab., freg.ª Carvalhal / Na bancada: sr. Alfredo Duarte, velho, adepto da Juve, foi vendedor peixe congelado, quando jogador levou pontapé num dedo na Azambuja / Ao pé dele, sr. João Canaverde (cunhado?) / No tempo moço deles, prémio-jogo era duas bolachas-maria + copo vinho / Alfredo cozinhou há dias cabeça corvina c/ grêlos / Equipamento da Juve SD: camisola branca, calção encarnado, meia branca / Do Raposense: todo cor-de-laranja (nota poetizante: dizer que é, conforme o topónimo, “de imitação ígnea da raposa natural”) / São Domingos-Abrantes – distâncias aproximadas: Lisboa-160 km, Porto-270 km / Mais pessoal ao jogo: Pedro Sousa (explora rulote de comes-e-bebes como profissão) / Alexandre Branco (come bifana e bebe cerveja e mastigando diz que “crise há sempre crise, mas quando há 49 mil na Luz a ver um jogo então mas q’ais crise?”) Fátima Amaral (vendedora de rifas, prémios: 1 bicicleta, 1 telemóvel, 1 viagem aonde é que ainda não sabe dizer mas há-de ser a sítio lindo) / Artur Francisco, adepto Raposense, “acredito q’ainda empatamos” / Artesão Herculano Abreu, foi barbeiro, hoje em dia faz fisgas “para atirar engodo na pesca, não é para atirar aos árbitros”, um euro cada fisga. Referir fonte: programa TV “Liga dos Últimos”, report. Ricardo Garrido + Filipe Gomes (imagem).
3 Mais talvez-crónicas: a) Aquela senhoria doida que tive em 1999/00, a dos gatos remelosos que me batia à porta à meia-noite para esconjuro das almas-depenadas & e depois me levava mais 500 paus dos antigos pela botija de gás; b) inventar paleio para dicionário de vidro que, caído ao chão, se estilhaça em o’neill, perdão, mil palavidrinhas; c) inventar guarda-chuva para resguardo da água-dos-olhos que cai sempre quando nos morre alguém (aproveitar sobras estilísticas para crónica do funeral do Avô Carlos); d) gozar c’o Ricardo-pós-Moita da Câmara a pretexto seja do que for; e) citar o Antero naquilo da imitação implicar abdicação: “Um povo que abdica do seu pensamento é um povo que se suicida”; f) irritar-me mesmo a sério e ladrar mesmo a sério contra a mania inglesóide de coisas portuguesas para portugueses (como os corredores da noite em Santarém se chamarem coiso Night Runners); g) fingir que pedi a um amigo rico que pagasse uma capa-falsa a O Ribatejo mas ao Mirante e ao Correio não; h) em Abril que vem, centenário do nascimento do senhor meu Pai; i) no Maio seguinte, arranjar maneira não egocêntrica de assinalar dez anos de Rosário Breve; j) arranjar maneira airosa de manter viva a memória dos cronistas José Niza, Luís Eugénio Ferreira e Eurico Heitor Consciência mas sem cair no ridículo de imitar de um a acutilância, de outro a candura e de outro a graça; k) aplicar palavras ainda mais difíceis do que às vezes o abrantino & plumitivo tribuno Dr. João Salvador Fernandes; l) referir este par de mamas que ainda agora passou como “bolbosa sugestão dupla do leite de figo cristalizado em morango de bolo-rei” mas de maneira a que a minha mulher não perceba; m) velório do Avô Carlos: a álea de pereiras-de-inverno, as mulheres fazendo café e canja na cozinha da casa senhorial, eu com menos de oito anos a pensar nesta crónica sem saber que também como ele, também a um 3 de Março, a senhora minha Mãe andando por aí, ai-mãezinha, aos papéis.
Ou então, senhor Herculano Abreu, fisgas-canhoto.

quinta-feira, janeiro 05, 2017

NÃO QUEIRAIS QUE CONVOSCO SONHE - in Rosário Breve nº 487 - in O RIBATEJO de 5 de Janeiro de 2017 - www.oribatejo.pt

Não queirais que convosco sonhe


1 Sou tido entre os meus Amigos, com justiça aliás, por incurável caturra pessimista. Não enjeito o apodo. O esfarelar dos anos tem-me agravado certa misantropia que acaba escorrendo para o que escrev(iv)o. Ontem à noite, por exemplo.

2 Ontem à noite, sozinho na sala, certo canal de televisão de popularucho sucesso escalpelizava ad nauseam (mais) um crime sórdido que metia o que é costume: personagens-faca & personagens-alguidar, violência doméstica etc. etc. Não era uma reportagem sobre factos – era, sim, um (hor)ror de diz-que-disse-parece-me-que-foi-o-que-ouvi-dizer. A aldeiazinha do cenário cheirava a cães magros à chuva. Tractores rebentados esbeiçando os córregos, milharais ferrugentos, poços a céu-aberto, taberna em dia de festa por andar por cá aquela televisão que “fala como nós”, velhas luzidias de óleo-de-fritar espalmando nos peitos bentinhos prantos digitais & criançolas completamente alienadas pela câmara histrionando momices emplastras nas costas dos entrevistados. Tudo, enfim, de uma portugalice irremediável, pobrete, alegrete, de uma frialdade de sacristia esfregada a lixívia pela perpétua irmã falsa do senhor padre.

3 E no entanto nada disto tinha nada de ser assim. Deveria tudo ser o avesso do que é. A minha geração, iluminada à saída da Escola Primária por aquilo dos cravos, só podia embarcar, com ligeireza mas sem leviandade, no culto da liberdade informada, no uso do livro, no pensar (sem penar) pela própria cabeça. Beneficiámos, afinal, da extinção de um regime obscurantista, armado, sentinela, desumano. O mesmo regime cujo sistema escolar publicava sem qualquer pudor coisas deste género:
“A população escolar pode e deve dividir-se em cinco grupos, a saber: Ineducáveis 8%; Normais estúpidos 15%; Inteligência média 60%; Inteligência superior 15%; Notáveis 2%”. Sem tirar nem pôr, era assim que eles impunham que fosse. Ora, quatro décadas depois do 25 de Abril temos todos a obrigação (até moral, até patriótica) de ser, pelo-menos-pelo-menos, médios. Nem Einsteins ao pontapé, nem galinhas bípedes. Mas a realidade é comandada por essa caixa-que-mudou-o-mundo – para pior. É ou não é? É.

4 Entretanto, fui visitado por uma outra espécie de notícia. Da minha terra original, informam-me que morreu o senhor Joaquim Pratas. Era um nonagenário de quem todos gostávamos muito. Tínhamos todos a semi-secreta esperança de lhe festejar o centenário. Alto como nem era costume entre os homens da geração dele, tinha sido nimbado pelos anos de uma espécie de aura litográfica de árvore antiga. Pai de uma dúzia de rapazes & raparigas (tudo gente decentíssima, garanto-vo-lo sem logro), levou-no-lo o Ano Novo. E agora digo-vos isto: eu sonhara com ele na véspera. Aliás: não sei se foi sonho, se aquela afiguração semiconsciente de pré-adormecido. Não voltei a pensar nele até me darem a notícia terminal, aquela que tudo salda, resolve, conta, arquiva.
O que daqui retiro, Amigos, é mauzito como a minha literatura: sonhar pode ser mortífero. Se eu fosse a Vós, teria cuidado comigo.



sábado, dezembro 24, 2016

PALAVREADO COM DISCRETO REMATE PESSOANO - in Rosário Breve nº 486 - in O RIBATEJO de 22 de Dezembro de 2016 - www.oribatejo.pt

Palavreado com discreto remate pessoano



1 A páginas tantas da sua História da Literatura Portuguesa, Teófilo Braga cita um tal “Caro”. Trata-se talvez (não tenho a certeza) de Elme-Marie Caro (1826-1887), filósofo francês que escrevinhava na célebre Revue des Deux Mondes. Nesse trecho, depois de enumerar os degraus da tomada de auto-consciência da humanidade (que se desanimaliza instituindo a família, a lei da cidade, a domesticação das espécies animais e das forças da Natureza), acontece uma ressalva notável: “(…) a civilização expulsando a barbaria, mas experimentando retrocessos terríveis desta barbaria, como por uma espécie de lei de atavismo que acorda, segundo nos dizem, de tempos a tempos no homem, os instintos ferozes de avós desconhecidos.”
Anotei a passagem, que agora dou à publicidade por partilha convosco. Para mim, são palavras que vingam pela infeliz actualidade: como se os séculos XIX & XXI se mesclassem os idênticos algarismos romanos por que são nomeados. Veja-se isto da Alemanha, mesmo agora: outro camião, outro assassino, outras vítimas mortais; isto da Turquia, com um assassinato em directo à hora da janta; isto tudo da Síria há tantos anos/séculos. Há pouquito, o Vietname, El Salvador, o Iraque, o Afeganistão, Timor-Leste – e mais uma imparável carrada de etc.
Não acho nada que a religião tenha a ver com isto. Trata-se do costume: petróleo, diamantes, narcóticos & matérias-primas essenciais ao forno devorador das grandes produções e dos consumos multitudinários. Trata-se da voragem do Poder, enfim. Deus, chame-se ele Alá ou Jeová ou Manitou ou Zeus ou Júpiter ou Inti ou Rá ou o Diabo por eles todos, pouco é para aqui chamado. Não alimento quaisquer ilusões quanto a isto. E não, não vou com o Pai Natal ao circo.
2 Então vou aonde? Vou, como os marinheiros fazem ao barco, pôr ao largo o coração. Como o que matou Bruce Lee não foi a brucelose, é descontraído que atiro as passadas aeróbicas rumo à minha doença favorita: ver o mundo local com olhos de lápis. É sempre maravilhoso. Exemplo imediato: passagem do Serafim das Arrufadas a bordo de um transatlântico novo – o titanic do dia é uma brasileira egressa de Goiás que ele conheceu durante um Sporting-Arouca ali naquele alterne logo a seguir às bombas da Repsol, vocês sabem e estão mesmo a ver. Adoro ver o desplante de satisfação reverberando nas trombas do Serafim: de Rôsemére do lado direito & a tilintar do esquerdo o porta-chaves do Mercedes importado de Frankfurt em sétima-mão (como a Rôsemére, aliás – digo: a sétima-mão, não a cidade das salsichas-de-lata). A felicidade é coisa tão pouquinha de tão fácil, pois então não é? O Serafim não é desses lingrinhas dados ao verso-livre ou às maluqueiras da pintura cubista, nem ao dodecafonismo intoleravelmente atonal ou ao polemismo azedo do tal Teófilo Braga. Não. O Serafim é feliz: instituiu família (tem dois filhos da Graciete Cabeleireira e um outro de uma estagiàriazita zarolha do Centro de Emprego), domesticou quatro cães, três periquitos, dois árbitros dos Distritais & uma porca para o S. Martinho que vem, anda contente com a nova Loja do Cidadão ao cabo de cinco anos-sant’engrácios, tem pára-raios no canhão da chaminé – todo ele é, enfim, um civilizado. Não é daqueles tristes que, tendo medo da própria sombra, nem sombra de si mesmos chegam a ser. Népias disso. Como ganha a vida com um esquema de facturas-falsas que não dá trabalhinho nenhum & é sempr’àviar, é muito gajinho para singrar na política, tipo presidente-da-junta ou menos.
Quem quiser provas de que só digo a verdade, toda a verdade & nada menos que a verdade, que vá com o Serafim ao circo: mas do flanco esquerdo dele, que à direita vai a Rôsemére navegando.
E é de coração-ao-largo que navegar continua a ser preciso.


quinta-feira, dezembro 15, 2016

22 DEZEMBROS NA MELHOR COMPANHIA - in Rosário Breve nº 485 - in O RIBATEJO de 15 de Dezembro de 2016 - www.oribatejo.pt





22 Dezembros na melhor companhia



Mantenho desde 1995 um registo minucioso de leitura(s). A esse acervo vou de quando em volta acender lume na obscuridade do tempo que passa. Acontece-me muito, aliás, proceder a re-leituras por causa disso: como lerei nesta idade o que em outra mais moça li? Desta vez, porém, revisito o caderno para dar cabedal retrospectivo à presente crónica. Catarei apenas alguns títulos – e apenas dos 22 Dezembros entretanto acontecidos.
A 15 de Dezembro de 1995, concluí a frequência de Seis Propostas para o Próximo Milénio, do brilhantíssimo Italo Calvino – cá está uma releitura a fazer em breve.
A 12/XII/96, cheguei ao cume da Montanha Mágica, de Thomas Mann. É obra monumental, que relerei também – e sem qualquer receio de me parecer, duas épocas volvidas, menos montanhosa.
Dezembro de 1997 foi mês-Cortázar: leituras de El Examen (a 17) e de Octaedro (30), além da já então re-leitura de Blow Up e Outras Histórias (também a 17). Tal como Calvino & Mann, o grande Argentino é santo cativo do meu bibliómano altar pagão.
Dezembro/98 começou da melhor maneira: a 8, Peregrino e Estrangeiro, da maravilhosa Marguerite Yourcenar.
Na madrugada de 28/XII/1999, concluí a primeira volta integral ao magnífico Nenhuma Palavra e Nenhuma Lembrança, do nosso boníssimo Manuel António Pina.
O derradeiro mês do ano 2000 foi ocasião propícia para o usufruto de uma obra-prima: a 23, Conversa na Catedral, do peruano Mario Vargas Llosa. Livro profundíssimo, de fortíssima construção.
Na última madrugada de 2001, tive a companhia de uma Senhora. Esclareço: companhia por correspondênciaEngano Astucioso, da ladina Ruth Rendell.
Em Dezembro de 2002, li muito Maigret /Simenon.
Um ano depois, aprendi muitíssimo com um brasileiro que é para aí umas cem (ou mil) vezes melhor cronista do que eu: Luiz Fernando Veríssimo – a 4, Comédias da Vida Privada (101 Crónicas Escolhidas); a 29, Novas Comédias da Vida Privada; nos entrementes veríssimos, papei, a 21, do também brasileiro Fernando Sabino, o excelentíssimo romance O Encontro Marcado.
Acelerando ora o passo antes que o espaço se me acabe:
de Dezembro de 2004, destaco O Ente Querido, de Evelyn Waugh (a 6) e La Symphonie Pastorale (a 21), de André Gide;
XII/2005: teatro do insigne Harold Pinter – O Quarto (a 21); Feliz Aniversário (a 27); O Serviço, a 29;
XII/2006: dentre o mais, a biografia Joan Manuel Serrat, belo cantor catalão (d)escrito pelo gigante, e catalão também, Manuel Vásquez Montalbán (a 26);
XII/2007: andei mormente pelas anglografias – o fantástico (na dupla acepção do termo) E.A. Poe, mais H. Walpole, S. Warren, Prosper Mérimée, E.P. Oppenheim, A. Berkeley, juntando-se a estes insignes senhores o casal Cole (George Douglas Howard & Margaret);
na tarde de 8/XII/2008, li Sobre Não Estares, do nosso Joaquim Jorge Carvalho;
na noite de 28/XII/2009, foi a vez de O Livro da Confiança, de um senhor padre chamado Thomas de Saint Laurent;
o último livro consumido em Dezembro/2010 foi, na noite de 16, de uma estrela literária alemã, Peter Handke de sua graça: Uma Breve Carta para um Longo Adeus;
em 2011, excelentíssimo início do mês terminal: Crónicas de Fernão Lopes (escolhidas e anotadas pela sábia senhora D.ª Maria Ema Tarracha Ferreira).
[Calma, que estamos quase a chegar ao presente.]
2012, dias 4, 10, 13 & 27/XII – viajei pelo Portugal Século XX - Crónica em Imagens, com direcção de Joaquim Vieira para o Círculo de Leitores: é obra monumental que (nos) abarca como Povo de 1900 a 2000, à razão de um volume por década – finíssima síntese documental;
Dezembro de 2013 foi de altíssimo quilate – frequentei com grande proveito, se aproveitamento não, Guy de Maupassant, Brecht, D.H. Lawrence amaila densíssima senhora que houve por nome Virginia Woolf: respectivamente, Bel-Ami (a 6), Histórias de Almanaque (a 12), O Raposo (a 14) & Um Quarto que Seja Seu (a 30);
dos demais de Dezembro/2014, sublinho, do magnífico historiador francês Georges Duby (grande escritor!), As Damas do Século XII (a 12), e a Correspondência 1905-1922 do nosso Fernando Pessoa, a 17.
Já em Dezembro do ano passado, calhou a vez a um bom achado d’alfarrábio que entretanto fizera numa banca de rua (por um eurito): La Crise de la Démocratie Contemporaine, obra ominosamente saída em 1931, ou seja, no imediato pré-hitletarianismo, da autoria de um tal Joseph-Barthélemy.
No corrente mês do ano que, areia entre os dedos, se nos acaba, li finalmente de ponta a ponta Os Simples, do nosso poeta Guerra Junqueiro, lírica precedida de um precioso ensaio de Moniz Barreto intitulado A Literatura Portuguesa no Século XIX.
Hoje, quinta-feira, 15 de Dezembro de 2016, estou a ler o noss’ O Ribatejo. E tu também. 

quinta-feira, dezembro 08, 2016

FALA O CRÓNICO - in Rosário Breve nº 484 - in O RIBATEJO de 8 de Dezembro de 2016 - www.oribatejo.pt



Fala o crónico



Uma volta sem pressa nem ânsia dei por beira-rio, já a tarde declinava o latim do recolhimento de si mesma. Visto de fora, levava-me um corpo como todos: saco de vísceras atado em cima por um olhar em constante retrocesso daquilo a que os pios chamam alma mas os ímpios, lembradura. Desafeito a procurar o que seja ou a esperar o que for, não levava tema nem me traziam motivo, fito ou assunto para a crónica. Ia por ali disponível às possibilidades combinatórias do mundo local – o qual, por artes & manhas do pensamento matizado de doideiras líricas, nunca é apenas o chão que se pisa ou o céu que se não voa, nem apenas o plátano de que se partilha o ar vertical, nem tão-só a imitação de rio que cada um é porque feito quase todo de água também.
Como os doidinhos-mansos, é verdade que me fui apanhando a sorrir sem interlocutor visível, por exemplo ao ocorrer-me aquilo do ex-casamento que tanta má-língua faz salivar por edis terras de Tomar, ou aquilo do afiar-navalhas-amolar-tesouras pró-Autárquicas-2017 por bandas de Abrantes (na forja laranja mormente), ou pela fatal Santarém em que se pranteia (mais uma) degradação a céu-aberto (cf. pavilhão desportivo), ou aquele anedótico tiro-no-pé da petição anti-vinda do Papa a Fátima, ou in Cartaxo a confessa & assumida desunião que grassa entre as corporações bombeirais do distrito, ou o anacronismo da velha ponte entre a Chamusca e a Golegã mais estreita do que a minha carteira, ou o fétido cancro em que o Tejo se volve mercê de um punhado de gananciosos que se não reconhecem feitos da mesma matéria dos rios, da chuva, do mar – que formas são todas do colostro mater-universal.
A todo este rol enxotei porém como a moscas desalmadas. Se por mim o mundo se não perde, também por mim se não salva. Esperto, fui auferindo a branda brisa que em pleno voo caduco rodopi’anim’ava das árvores as folhas terminais: belo é o strip-tease outonal. Abanquei o rosto-de-baixo em uma afável & amável esplanada servida por & de raparigas. Já o entardenoitecer esp(o)alhava derredor sua sangria de açúcar colorido. Era um daqueles instantes sem data que nos maculam de nostalgia: espécie de eternitarde tardia & não-eterna. Aí te apercebes sem esforço de teres nascido sem que to perguntassem & de ires morrer sem que te respondam.
Por precaução posológica, receitei-me uma cerveja fria, de que me ungi qual cristão mui dado à comunhão da fé-33-centilitros. Fui amainando os meus cavalos íntimos até uma espécie de dormência sem pecado nem humilhação.
Um toque no ombro – fecham cedo, à semana. Paguei com as últimas moedas da terça-feira, rederivei o retorno pelas pègadas da vi(n)da, achei-me recomposto em formato de última-página: é-me crónico que a crónica acabe acontecendo.
Para minha boa-sorte, no postigo da página só se me vê o olhar, não o saco visceral que ele ata com guita de lentes bem mais progressivas do que eu. Do que eu – e do que uns quantos que em Tomar, Abrantes, Santarém, Fátima, Chamusca, Golegã & Cartaxo, de Tejo à vista, etc. etc. etc.


quinta-feira, dezembro 01, 2016

SIMPLESMENTE MARIA - (republicação) - in Rosário Breve nº 483 - in O RIBATEJO de 1 de Dezembro de 2016 - www.oribatejo.pt





Simplesmente Maria




O título desta crónica é copiado.
Era como se chamava uma fotonovela (tenebrosa como todas as foto, rádio e telenovelas) que na minha infância enfraqueceu as coronárias a muita costureira. Directamente provinda da pobreza, a Maria em questão chegava à cidade montada num burrinho delicodoce, alcançando, depois de peripécias mil ou novecentas, o clímax e o casamento. Não m’alembra o resto da história, pelo que passo a especular.
Tudo acaba quando acaba em casamento. Ou não? Dissestes vós alguma coisa? Não? Posso continuar? Enfim, agora que o meu outono particular começa amarelecendo até as folhas dos cadernos onde lapijo estas histórias irremediáveis, dou por mim pensando em Maria. Deve ser ela, hoje, mulher dos seus cinquenta e muitos. O mais certo é ter-se separado do engenheiro ou médico ou arquitecto ou advogado de sonho com quem, então, aliançou suspiros. Deve ter-se fartado das patilhas dele, do apartamento em Santo António dos Cavaleiros, das pontas arrefecidas de Ritz a boiar no laguinho triste da sanita. Talvez ele lhe tenha prometido um futuro de manteiga que com os anos se volveu margarina, simplesmente margarina. Quase aposto que ele teve e manteve amantes enquanto ela se aborrecia no cabeleireiro a erguer vasos de cabelo à senhora Knorr e à senhora Maggie e à senhora Vaqueiro e à senhora Dabri e à senhora Tokalon e à senhora Creme Byly. Mas também pode ser que, aos cinquenta e tal, se tenha ela arranjado com um rapazinho directamente provindo da pobreza para tentar na cidade uma carreira de cantor pleibeque ou coisa assim. (O bom de escrever é que tudo pode ser.)
O futuro torna-se, com o passar dos anos, menor do que o passado, essa é que é essa. O passado é o sítio mental onde as donzelas pobres, escarranchadas em burrinhos, continuam chegando à cidade pirilampada de reclamos luminosos na noite cosmopolita. E é também, bem mais bastas vezes do que gostaria, o meu sítio. Nele busco, com a ponta do lápis, as referências mais ínclitas, os mais egrégios avós, os heróis de um mar a que basta somar ia para dar Maria.
Maria que, sozinha de novo, liquida o salão de cabeleireira e regressa, não de burrinho mas de Clio, às berças natais. A taberna tornou-se snack, o padre já não é Sacramento mas Eliseu, a primária fechou por falta de crianças, o outeiro onde as cabras pastavam com lenta filosofia está agora crivado de rápidas maisons fechadas onze meses ao ano, a avó de Maria simplesmente morreu de ter noventa anos há mais de trinta, os cães já não comem broa e o pai de Maria, que lhe perdoou a fuga, lacrimeja pingentes de velho comovido à aparição da filha, cujo telemóvel começa a tocar quando ela o abraça.
Estou, sim pois, é assim, agora já não dá, não, se voltar é porque acabaste de vez com essa sirigaita, tu é que sabes, tu é que sabes, só tenho de saber que acabas de vez, é assim, isso e as beatas no laguinho triste da sanita, caso contrário não dá, Bernardo. Bernardo promete que dá.
O passado acaba sempre bem.

quinta-feira, novembro 24, 2016

A IDADE DE DEUS & A MINHA - Rosário Breve nº 482 - in O RIBATEJO de 24 de Novembro de 2016 - www.oribatejo.pt

A idade de Deus & a minha

Uma boa maneira de haver menos idiotas no mundo é não fazermos mais filhos às mulheres deles. Digo-o eu, assim um bocadito co’s nervos. Mas só um bocadito: na minha idade, é bem mais curial cansar-me galgando escadas do que dando fôlego à globalizada imbecilidade que pelo mundo campeia e ao mundo infesta.
Ah, tivera eu hoje menos uns vint’anitos no couro que decerto me indignara mais & com mais férrea força ante tanta incomunicação-dita-social do jornaleirismo-croquete em voga. Sabeis? A gula dos mirones ante as sessões de porrada Carrilho-Bárbara. A gosma dos voyeurs perante as neonamoradas do Futebol Pinto da Costa & do Sporting Carvalho do Bruno. O frisson do galinhedo paraliterário cacarejando o-Dylan-merece-o-Nobel-porque-sim-sim-senhores e/ou por-causa-disso-é-que-o-Leonard-Cohen-morreu-de-desgosto e/ou/ainda com-a-azia-o-Lob’Antunes-já-deve-andar-a-sonhar-com-pelo-menos-um-Grammy-para-o-ano-que-vem.
E depois, aquela farruscada toda da questão dos taxistas (de Lx., note-se) co’ a Uber & a Cabify, a qual só me desperta uma ilação de pronto & evidentíssimo teor homofóbicoiso e que é a seguinte: nunca é de confiar num gajo que nos deixa ir atrás. Ou então aquela que mete meninas: o Instituto Nacional de (ment’)Estatística revela que em Lisboa existem 189 meninas virgens por cada taxista sério – mas só há prova confirmada de 188.
Mais: a clara & flagrante certeza de as praxes estarem para a dignidade académica como o Relvas para a mesma. Isto por causa de uma equivalência que me parece clara como aquilo à volta da gema do ovo: se o analfabetismo funcional fizesse ondas, o ensino-dito-superior português seria um tsunami de alto-lá-co’-baile-e-pára-o-charuto.
E a carneirada das selfies? Não V. faz impressão, nas tragicomediantes redes-alegadamente-sociais, aquela malta toda só com um braço? O problema de tanta clonestupidez é afinal napoleónico: por causa do seguidismo, vai tudo para (o) maneta.
E a rábula do declara-não-declaro-nada-o-património dos indigitados (tu)barões daquela Caixa que dizem ser nossa? Ide por mim: fornicar os ricos não é sexo – é amor.
Ainda há pouco, era voz-corrente esta barbaridade acéfala: “Taxar os gajos de 500 mil euros p’ra cima é matar o investimento.” Ai é? Ai é? E fomentar o desemprego é o quê, ó cáfila de cornúpetos descalcificados?
Cá p’ra mim, a pessoa deixa de ser criança quando cessa de acreditar no Pai Natal. E volta a sê-lo quando começa a acreditar no Sócras. Foi como com aquilo das entrevistas do juiz Carlos Alexandre – só achei mal ele ter escolhido a SIC e o Expresso. Sim, mal: então duas vezes o exclusivo para o PSD-à-la-Balsemão porquê? Não há mais papagaios nas outras gamelas partidário-jornaleiras? Há. Então, quid juris?
Ai, estranha és, ó Madre-Língua-Portuguesa minha. Estranha mas bela. Bela mas estranha. Quando decides elogiar alguém, dizes: “Não há pai para fulano.” Ou seja, valorizas o fidapu. Há mas é que não confundir o burkini raso com o Burkina Faso. E saber que a frieira rebenta a pele por vir da geada islâmica. E topar de antemão que a melhor maneira de abrir buracos num green novo é praticar o golf pérsico. O Deus de cá sabe que eu nisto tenho toda a razão, o (a)lá deles é que não. Quanto a mim, só sei que a fé & a ignorância são unha-com-carne vezes de mais. E que não é solução roer as unhas até fazer carne-viva.
E agora que a UE já não é só p’ra-inglês-ver? Agora que a UE já não é só p’ra-inglês-ver, retenhamos do brexit ao menos uma coisa boa, muito boa, pelo menos uma: são maiores as hipóteses de vermos menos por cá os execráveis McCann.
Ó pessoal, por favor atenção: apesar de todo o desarrazoado supra, sou muito menos esquisito do que o mundo em geral & do que a TV-por-cabo em particular. Ainda agora. Olhai-m’esta: acabo de ver uma série com cenas de vampiras lésbicas. Sim. Vampiras. Lésbicas. Coitadas! Devem namorar uma só vez por mês. (Como eu aqui em casa, aliás, num mês bom.) Ai, saudades do tempo da ditadura da RTP-única….Em casa de meus saudosos Pais, certa vez. Certa vez, em casa de meus saudosos Pais, o som do televisor pifou-se. A imagem, na mesma. Mas o som, népias. Eu era então tão moço, que cri com esperança naquilo resolver-se por si só. Continuei a ver. Nisto, aparecem as Doce. Lembrai-vos das Doce? Sem som embora, gostei muito de vê-las cantar. Idade feliz, essa minha. Não é como a idade de Deus. Deus perdoa, a idade não.
Nem eu.


quarta-feira, novembro 23, 2016

Às 12h07m de hoje mesmo, 23/XI/2016, esta estrofe de quatro linhas (não é o mesmo que 'quadra') por causa e para o meu Amigo Joaquim Jorge Carvalho





O mundo é sempre do tamanho do mundo.
Aceita-me, bom King, este truísmo.
Alto de sua fundura, de sua altura fundo:
a terra faz de céu - e o céu, de abismo.

domingo, novembro 20, 2016

Eliot, Cesário, Diniz & o 31 que O Ribatejo é - Rosário Breve nº 481 - in O RIBATEJO de 17 de Novembro de 2016 - www.oribatejo.pt

Eliot, Cesário, Diniz & o 31 que O Ribatejo é

O nosso Jornal perfaz por estes dias a idade que foi terminal para dois vultos absolutamente maiores da nossa portugalidade: Cesário Verde e Júlio Diniz. Estes dois rapazes finaram-se com 31-anos-31, idade em que se deveria florescer, não descer à catacumba. Obstinadamente, O Ribatejo não se propõe morrer – antes sim ( para desgosto antigo de um Moita de que já ninguém mal se lembra & para desgosto presente de um Gonçalves que não deixará boa lembrança) renasce a cada aniversário: mesmo que sem esmoleres capas-falsas. Este periódico continua a ser um trinta-e-um, por assim dizer.
Tenho aqui no bolso, para a festa aniversária do meu/Vosso Semanário de eleição, a prenda de uns versos que não são de Cesário nem de Diniz [sim, insisto no Z do Autor da Morgadinha por ser como o próprio (se) assinava]:
«O tempo presente e o tempo passado
Estão ambos talvez presentes no tempo futuro,
E o tempo futuro contido no tempo passado.»
Os versos são de T.S. Eliot (in Quatro Quartetos, tradução de Gualter Cunha, Ed. Relógio d’Água).
Cuidado: tenho ainda & aqui mais versos para a mesma festa. Estes é que já não são de Eliot. São de João Alves Coelho, versejador que, com o compositor José Maria Pereira (também) Coelho, criou o célebre Fado do 31:
«Ai… Ólarilolela
Como este não há nenhum (…)»
E é que não há. Nenhum. Aos 31 anos de idade, este Jornal continua a não embarcar em seguidismos acríticos, a não embalar-se de modismos trengos (ou trendy – olá, vereador Luís Farinha!), a não ser maria-vai-c’as-outras. O Ribatejo é eliotiano por saber que
«Se todo o tempo é eternamente presente
Todo o tempo é irredimível.»
Como irredimível é, por grave e baixo exemplo, a rábula da Loja do Cidadão em Santarém, que é mas não há. Como eternamente presente é, mas não deveria ser, a tragicomédia das Barreiras/Estrada da Estação/Pró-ano-é-que-é-a-culpa-é-do-Tribunal-de-Contas. Idem-aspas para a lixarada daninha que infesta a Cidade, cujo pecado-capital é ser capital de nada. Não falo no abstracto. Eliot connosco, se fazeis favor:
«O que podia ter sido é uma abstracção
Permanecendo possibilidade perpétua
Somente num mundo de especulação.»
Especular é duplamente congeminar e espelhar. Trocadilhando com outro versejador de grandíssima qualidade, Sérgio Godinho, espelhem a notícia.
Enfim. Retornemos à casa-de-partida. O Ribatejo sopra 31 velas acesas de pura resistência: resistência à sacana da (des)economia, resistência aos ventos adversos da politiquice, resistência ao desinteresse acéfalo do rebanho. Mas, felizmente, também as sopra em persistência: em nome dos que lêem porque pensam & dos que pensam porque, já agora, lêem.
Cá por mim, tanto leio O Ribatejo como Eliot:
«O que podia ter sido e o que foi
Tendem para um só fim, que é sempre presente.»
A partir desta edição, é já no ano 32 que V. escrevo.
Assim sendo, e posto tudo isto assim, termino por hoje com esta rima trinta-e-um-mente bela:
«Ólarilolela».

quinta-feira, novembro 10, 2016

MEIO SÉCULO DE 'O JUDEU' - Rosário Breve nº 480 - in O RIBATEJO de 10 de Novembro de 2016 - www.oribatejo.pt






Meio século de O Judeu



O Judeu de Bernardo Santareno foi publicado há 50 anos.
Obra-prima da literatura dramatúrgica portuguesa do século XX (e de todos os que vierem), é ponto cimeiro do extraordinário repertório teatral criado por António Martinho do Rosário, nome civil do dramaturgo nascido a 19 de Novembro de 1920 na scalabitana freguesia de Marvila.
O Judeu marca, também e ainda, a incursão de Santareno na dimensão épica do entrecho discursivo-dramático, monumento que alguns tolos (críticos de pacotilha, revolucionários de café) acharam “irrepresentável em palco”. (Talvez os engulhasse o parentesco brechtiano da viragem formal da escrita do Santareno pós-neo-realista.) Mas não só. A peça de Santareno tem por núcleo primacial a tragédia pessoal de António José da Silva (1705-1739), autor, como Santareno, de uma produção dramática incómoda (exasperante até) para o regime seu contemporâneo. As sátiras espirituosas deste cristão-novo (como As Guerras do Alecrim e da Manjerona) caíram mal, para dizer o mínimo, entre os intolerantes e fanáticos monstros da “Santa” Inquisição, que de muito mais não precisaram para o queimar em público auto-da-fé a 18 de Outubro de 1739.
Retratado & retratista (António ambos) irmanam-se na desventura trágica das respectivas existências terrenas. A António José da Silva corresponde Bernardo Santareno do paralelo modo como ao Santo Ofício dos séculos XVI a XIX corresponde a PIDE do século XX. A polícia política de Salazar não extinguiu fisicamente, é certo, Bernardo Santareno – mas tudo fez para lhe sufocar a Obra, a torrencial & primorosa obra teatral com que Santareno fustigou o despotismo ao tempo mesmo que exalçava a peremptoriedade da dignidade humana, essa dignidade que outra coisa não é, ou outro nome não tem, que isto & este: Liberdade (e da incondicional).
Em e a partir desse remo(r)to ano de 1966, O Judeu não pôde, naturalmente (aqui, o itálico não é de resignação fatalista mas de fatal acusação), ser levado à cena. Saiu em livro, para prontamente ser perseguido pelas feras cinzentas & analfabetas do salazarismo, que nessa década de 60/XX já estertorava de necrose. Todavia, um facto triste veio adensar a solidão vitalícia do grande escritor. (Faço aqui parágrafo para mais distintamente vos sublinhar a injustiça e a ingratidão dos factos:)
Não havendo, depois do 25 de Abril, qualquer razão (bem antes pelo contrário) para não representar O Judeu, as tricas & baldricas aparentemente fatais do milieu intelectual(óide…) português obstaram a que a magnífica peça tivesse palco & plateia antes da morte física de Bernardo Santareno. Com efeito, o grande dramaturgo, morrendo a 30 de Agosto de 1980, não assistiu já à estreia do seu opus-magnum, que ocorreu apenas e quase meio ano depois (a 20 de Fevereiro de 1981, no Teatro Nacional de D.ª Maria, com encenação de Rogério Paulo). Bem e acertadamente andou Luiz Francisco Rebello quando escreveu (in O Jornal de 5/9/1980):
Santareno não morreu na fogueira acesa pela Inquisição para suprimir o Judeu da sua obra-prima []mas consumiram-no as chamas de mil pequenos fogos ateados pela mesquinhez, pela intolerância, pelo ódio, até pela indiferença às vezes mais cruel ainda, que desde muito longe, desde Gil Vicente e mais atrás, têm sufocado a respiração do teatro português.
Consolemo-nos, digo eu, com a certeza de o gigante Santareno ter morrido na consciência muito íntima da sublime valia não só de O Judeu como de toda a sua Obra literária, a qual, resistindo à corrosão inapelável do Tempo, se iniciou em 1954 com A Morte na Raiz (poesia), permanecendo viva & actual para além da extinção corpórea do Homem/Artista que no-la deu.
Resta-nos demonstrar, como Público & como Povo, que somos merecedores de tão descomunal, tão alta, tão preciosa oferenda. Ou então que, não dela merecedores, ardamos a frio nessa labareda de gelo chamada esquecimento.


quinta-feira, novembro 03, 2016

OU ESTUDO OU NADA - Rosário Breve nº 479 - in O RIBATEJO de 3 de Novembro de 2016 - www.oribatejo.pt



Ou estudo ou nada


Licenciei-me em Letras pela Universidade de Coimbra.
Antes porém dessa glória que para sempre me distingue, melhora, enobrece & separa da reles plebe mortal, tive de fazer (uma-duas-três-quatro) a 4.ª Classe do Ensino Primário – com exame na 3.ª & com exame na 4.ª.
Seguiram-se os 1.º & 2.º Anos do Ciclo Preparatório. Entrou então em vigor a nomenclatura da Escolaridade, pelo que dei por mim cursando (um-dois-três) os 7.º, 8.º & 9.º Anos – com exame no 9.º.
Por essa altura, vieram-me chegando, tomando-me sem remédio, o acne & a estranha consciência da existência do sexo-oposto. Borbulhas & raparigas cercaram-me (um-dois-três) os Anos 10.º, 11.º & 12.º – com exames no 11.º & no 12.º. Só depois, finalmente, as Letras, a Universidade, a Glória.
Través este percurso, dei-me paralelamente a práticas não-obrigatórias & a trabalhos não-forçados. Pratiquei piano, natação, xadrez, guitarra, andebol, futebol, acne & raparigas.
Certo dia, chegou a altura de ir trabalhar. Lá fui. Uns anos, fui professor do Ensino Secundário. Outros pós-estes, fui jornalista encarteirado. Quando sem saída nem fim-de-mês, fui pintor da construção civil. Também fui pai de duas meninas, profissão que nunca é possível trocar por outra impossivelmente mais bem remunerada. Hoje, que nem a pintura de paredes chama muito, vivo do que ganha a minha mulher.
O curso que nunca tirei, Senhores & Damas, foi o de jota. A minha universidade não era de Verão. A minha universidade dava trabalho do Outono à Primavera – e desde a 1.ª Classe. Não encarreirei, portanto. Nem (me) falsifiquei. Os meus livros, sou eu a escrevê-los.  
Sobre (mais uns) escândalos de licenciaturas falsas, digo nada. Limito-me a ter muita pena desta gente alérgica ao honesto estudo, desta maltosa impermeável à qualificação honesta, desta canalha que não sabe nem saberá jamais o que a Glória faz a um homem.
Que o diga a senhora minha mulher.


sexta-feira, outubro 28, 2016

quinta-feira, outubro 27, 2016

ESCREVER NAS FOLGAS - Rosário Breve nº 478 - in O RIBATEJO de 27 de Outubro de 2016 - www.oribatejo.pt



Escrever nas folgas


Um amigo meu é historiador amador. Comete monografias. Sabe coisas impensáveis que as mais das vezes resultam genealógicas. Ou pior. Uma inscrição de fontanário extasia-o como a mim só me acontece com, com quê?, talvez c’a Sophia Loren aqui há uns oitenta anitos. Da I República para trás e para os lados todos, cimabaixestiborbombordo, sabe tudo – menos o que será desta de agora.
Acontece que ontem, sob a morrinha persistente que acinzentava mais o dia do que à nossa vista a passagem de uma viúva sincera, apanhei-o esmifrado de nervos & sudorífero de raivas. Indaguei:
– Atão, pá? Tás c’umas beiças qu’inté parece que te caiu um músculo a dormir, home’! Qu’é que foi? Morreu-te a vizinha de baixo ou debaixo?
Ele desganiu-se-me com a explicação:
– Rafeiro, fui ao Arquivo Municipal ver se catava uma data infalível e olha, népias.
Tentei ajudar, claro. (Eu sou assim, ajudante. Nunca hei-de chegar a chefe por causa de ser assim, assim bom, assim porreirinho, assim amigalhaço, assim sempre-de-ajudar, assim mentiroso.)
– Que filão é que escavaste?
E ele:
Os Anais, claro. Mas aquilo era só folgas.
E eu:
Pá, isso é mau. Anais com folgas… E eram todos de trânsito só de-dentro-p’a-fora?
E ele:
Goza, meu ganda-marreco-das-orelhas, goza pr’aí. Era coisa importante, pá, coisa importantezinha, mat’rial necessário ó Pobo, pá, necessário cumò pão pà boca, cumò pão pà boca, pá.
Solidarizei-me. Ofereci-lhe que beber. (Só beber. É de lei que, co’ comer & co’ fumar & co’ aquele resto que toda a gente sabe, cada um paga o seu. E o dever acima de tudo, como na tropa.) Fomos ao Ramiro Tira-Linhas a modos que esvurmar uma tal pomada que ele lá tem, mas tal, que os médicos só não a receitam para o ranger das artroses e para as borrachas da figadeira porque isto de médicos e laboratórios, pá, isto de médicos e laboratórios é tudo Roque-da-Amiga & Amiga-do-Roque. É-é, mas-é-qu’é mesm’assim. Entonces, depois de umas pucheiritas lá mudámos para o cântaro, que sempre fica mais em conta.
Na brevidade que a vida é, por contar menos um dia do que o carnaval, a pajens-tantos intentei cognoscer (no mínimo, cognoscer, que eu ainda fiz o quinto-ano antigo), quer’eu dizer, apurar o âmbito & o intuito das anais escavações do meu amigo.
Ele recognosceu-me ist’assim:
Tinha a ver com a data exacta, ali exactinha preto-no-branco, da última vez em que a Câmbra interveio, pá, sei lá, nos problemas. Os problemas, tás-a-ver?, as cenas que dão mau nome aqui à parvónia, pá, aqui à parvónia, pá, mau nome, tás-a-ver?
E eu:
Tar-a-ver-tou. Mas assim tipo alguma zona em particular, sei lá, tipo ali nas Trigosas?
E o sacana do gajo a esgalhar-se todo de risota & a cuspinhar farelo de pevides pa’ todo o lado, o sacana do gajo assim na mouche qu’eu às vezes c’a pomada fico:
Trigosas? Trigosas? Ó meu, bebe cérélác sem grumos cuspidos, meu! Eles lá nas Trigosas não são de folgas, meu. Se precisam, não pedem nem esperam. Fazem. Fazem ali feitinho. Entre todos. Para todos. E pluribus unum, carago! Mete lá esta nos teus anais, anda.
E eu meti. Tanto meti, qu’inté escrevi esta de pé e tudo.


quinta-feira, outubro 20, 2016

TRÊS DE JANEIRO, POR EXEMPLO - Rosário Breve nº 477 - in O RIBATEJO de 20 de Outubro de 2016 - www.oribatejo.pt






Três de Janeiro, por exemplo



A 3 de Janeiro de 1903, Alois Hitler, pai do Adolf, morreu. O mal estava já feito, todavia. Klara, a mulher dele, foi definitivamente roída pelo cancro em 1907 – mas o mal não apenas teimava feito como crescia. Sobre a morte desse obscuro funcionário público austríaco, o mesmo há a reter que da sua vida: cinza uma como cinza outra. A coisa passou-se.
Exactamente 22 anos depois, eram suprimidos em Itália os partidos políticos que queriam ser oposição à meteórica trajectória ascendente de um tolo perigoso chamado Benito. (Nessa precisa data de 3/I/1925, contava a senhora minha Mãe 68 dias de vida – e era decerto feliz, pois que então purificada pelo esquecimento do futuro.)
O futuro é que se não esqueceu do seu destino demolidor. Assim foi pois que, num terceiro dia januário também, mas o de 1935, se assiste em Coimbra a uma cena causadora de colectiva tristeza. Tem a ver com demolição & destino: por decisão da Câmara Municipal, é demolida a altaneira e histórica Torre de Santa Cruz, em frente ao formoso Jardim da Manga. A construção ameaçava iminente & eminente derrocada. Tinha de um lado o Celeiro dos frades crúzios (onde funciona hoje em dia a esquadra da PSP) e do outro a Enfermaria, que foi depois residência do senhor Prior e biblioteca até se tornar no que é hoje: a Escola Secundária de Jaime Cortesão.
Treze anos exactos se esfumam. Não estamos já em Coimbra lacrimejando de impotência à face do sacro entulho. É ora em Lisboa que estamos. Por magia, quantos são hoje? 3 de Janeiro. O ano é 1948. A noite promete: há fadistagem no Café Luso, como de costume, mas este serão é especial por ser o da consagração de um fadista chamado Alfredo. Desde outro Janeiro (o de 1941) que o Luso já não é na Avenida da Liberdade (onde nascera em 1927), trasladado que foi para as antigas adegas e cocheiras do Palácio do Largo de São Roque, ali à Travessa da Queimada (8-A, telefone 32 889). Chama-se agora Cervejaria Luso. Há menos de três anos que o filho do tal Alois foi ter com o pai. Há menos de três anos que o Benito foi pendurado pelas patas como uma carcaça de açougue. Os ventos da democratização que por (alguma) Europa grassam, não desgraçam porém a cinzenta nau ibérica, cujos timoneiros se chamam Franco e Salazar. Muitos Janeiros hão-de arder a frio até que seja Abril. Mas hão-de.
Ainda assim, e meros doze anos passados sobre a boémia consagratória do fadista Marceneiro, a estagnação estadonovista é furiosamente sacudida de cabo a rabo. 3/I/1960 – de uma das mais perversas prisões de alta-segurança da Ditadura, o Forte de Peniche (que nos nossos tristes presentes dias os patarecos da dinheirama fácil & rápida parece quererem transformar em amnésica hotelaria), chega notícia de sensação: fugiram uns gajos que ali estavam presos “por seu livre pensamento” (cf. fado Abandono, vulgo Fado Peniche, pela divina Amália). Eram eles: Joaquim Gomes, Carlos Costa, Jaime Serra, Francisco Miguel, Rogério de Carvalho, Francisco Martino Rodrigues & um tal Álvaro Barreirinhas Cunhal. A intrépida evasão roça a ironia histórica. Porquê? Por se dar precisamente dez anos & um dia depois da morte de Militão Ribeiro, acontecida a 2 de Janeiro de 1950 na Penitenciária de Lisboa, supostamente ao cabo da greve de fome que a cabo levava contra a falta de assistência médica. Militão e Cunhal haviam sido presos conjuntamente pela PIDE em 1949. Nunca mais seriam presos: Militão, pela absoluta libertação chamada Morte; Cunhal, pela absoluta liberdade chamada Vida.
De modo que: 1903, 1925, 1935, 1948, 1960. Tudo depois de Cristo. E a 3 de Janeiro tudo. Queira todavia o meu Leitor tomar nota ainda de uma outra efeméride. A próxima edição deste Jornal não há-de esperar pelo 3 de Janeiro do ano que há-de vir. Pois não. A próxima acontece a 27 de Outubro.
Ora, a 27 de Outubro nasceu a senhora minha Mãe.
Mas aí a História, porque futura, porque purificada, porque nunca esquecida, aí a História já é outra.

quinta-feira, outubro 13, 2016

Coisas que a vida e Abrantes me ensinam - Rosário Breve nº 476 - in O RIBATEJO de 13 de Outubro de 2016 - www.oribatejo.pt



Coisas que a vida e Abrantes me ensinam



1. “Lamento ter nascido.”; “Gostei muito de ter nascido.” A primeira frase é do ensimesmado poeta António Ramos Rosa. A segunda, do feliz & polivalente fazedor de campeões Moniz Pereira. Constam ambas de um livro intitulado O que a Vida me Ensinou. A obra compreende 34 depoimentos (23 homens, onze mulheres) de notórias figuras da nossa intelectualidade contemporânea coligidos pelo jornalista Valdemar Cruz para o semanário Expresso entre 2002 e 2005. A edição livresca aconteceu em Março de 2007, sob a chancela editorial da Temas e Debates. À data do livro, três dos entrevistados haviam morrido já. No entretanto destes nove anos & sete meses, muitos deles partiram já também. Todos tinham não menos do que 70 anos quando o jornalista com eles se encontrou.
A leitura enriqueceu-me. É um trabalho limpo, que vivamente recomendo a todos quantos dispensam à livralhada uma atenção & uma intenção que só proveitosas podem ser. Sublinhei muito, gastei todo um lápis. Adriano Moreira patenteou sem esforço a sua clara, incontornável sageza. O excesso pró-aforístico de Agustina não me aborreceu tanto, não desta vez. Siza Vieira, todo elegância. O sobredito Ramos Rosa pareceu-me o que o labor poético dele me parece: cansado & cansativo. Gostei muito do auto-retrato vital da fadista Argentina Santos. Eduardo Lourenço é um monumento. O investigador Fernando Catarino deu-me ideia de areia a menos para a camioneta exibida. Fernando Lanhas, giro, patusco, sábio. M.ª Helena da Rocha Pereira, maravilhosa. Manoel de Oliveira, banal & sobrevalorizado. D. Manuel Martins, vero filantropo & alma boa. Maria Keil do Amaral angustiou-me. Nella Maissa, prodigiosa. Óscar Lopes, outro monumento. Margarida Tengarrinha, humaníssima & exemplar. Sequeira Costa, profundo, grave, ortoépio. O industrial José Manuel de Mello, absolutamente execrável. Completam o rol: Anthimio de Azevedo, Borges Coelho, Eunice Muñoz, Fernando Távora, Galopim de Carvalho, Glicínia Quartim, Helena Sá e Costa, José Pinto da Costa, José Saramago, Júlio Pomar, Júlio Resende, Luísa Dacosta, M.ª de Lourdes Levy, Nuno Grande, Ruy de Carvalho e Vítor Crespo. Da minha leitura, mais por ora não digo. Diga-me da sua o Leitor, se caso disso for.

2. Outra proveitosa leitura que fiz por estes dias: Intelectuais Portugueses na Primeira Metade de Oitocentos (de M.ª de Lourdes Costa Lima dos Santos para a Editorial Presença, Lx., 1988). É tese de doutoramento muitíssimo bem lavrada. A poucas páginas do fim, aprendi que foi fundada em Abrantes, no remo(r)to ano de 1802, uma tal Sociedade Literária Tubuciana. Era dela figura-de-proa um Rodrigo da Silva Bivar, “Inspector da Plantação das Amoreiras e Director da Fiação da Seda”. A doutoranda Autora remete o interessado (em a nota remissivo-bibliográfica n.º 11, pp. 325) para uma monografia de há 40 anos – A Academia Tubuciana e os seus Membros, de Luís Bivar Guerra, in Anais da Academia Portuguesa de História, Lx., 1976. A abrantina agremiação de nome esquisito não esgotava o intuito pragmático na amoreira e no bicho-da-seda. Não. Leia-se: “(…) os seus objectivos eram mais vastos, visando concorrer para a felicidade da Nação através dos trabalhos dos seus membros nos campos mais variados (nos Programas da Tubuciana para 1803 e 1804 os assuntos propostos para apresentar comunicações abarcavam os domínios da História, da Literatura, do Direito, da Economia Política e da Agricultura).”
Mais: a Tubuciana não queria saber de não ser na Capital que tinha a sede. Pelo contrário, chateava Lisboa sempre que tinha por bem chateá-la. Exemplo: faltando “provimento de professores de primeiras-letras e de latim em Abrantes”, Diogo Bivar (filho e sucessor de Rodrigo) foi de mandar “uma representação ao Governo, censurando a Junta da Directoria Geral dos Estudos”. Lisboa ainda refilou, dando ordem ao juiz-de-fora de Abrantes (que até presidia à Tubuciana…) no sentido de “repreender severamente a ousadia com que na representação tinham sido caluniadas as diligências públicas da Junta” – mas o certo é que, “logo depois”, houve mando de “abrir concurso para que as cadeiras de latim e de primeiras-letras fossem providas de professores seculares com os devidos ordenados”.

3. Que aprendi eu, pois & assim? Aprendi que nem a Vida nem Abrantes me parecem ser já o que eram dantes.




quinta-feira, outubro 06, 2016

Rosário Breve nº 475 - in O RIBATEJO de 6 de Outubro de 2016 - www.oribatejo.pt



À vista armada (crónica a olho nu)



Agosto passado, voltei a perder os óculos. Até poder usar uns novos, o mundo volveu-se-me ilegível. Ilegível e ainda mais ininteligível do que de costume. Foram maus dias. Era como, sem ser peixe, habitar um aquário. Na rua, as pessoas (a)pareciam-me como espectros glaucos, o ar ardendo em aura à volta de nódoas escuras que eram as cabeças – um pouco à maneira do povo dos sonhos: adumbrações exiladas de qualquer esperança de nitidez. Da vizinha do quarto-andar, o gato tomou ameaçador & furtivo aparato de tigre. Foi mau. Livros, nem pensar. Internet, adeus. A minha assinatura em papel do noss’O RIBATEJO só trazia fotografias molhadas sob a tutela escarlate do título. O pior passou-se com a minha própria mulher.
Com a minha própria mulher, passou-se que, como eu não a distinguia das outras, comecei a chamar-lhe nomes que ela não tem nem merece. Conseguintemente, passei a dormir exilado na saleta de passar a roupa a ferro. Convivi com meias, pijamas, bonés & camisas que eu já não sabia que tinha ainda. A minha cabeceira foi uma caixa de sapatos sem sapatos mas plena de identidades (e de oportunidades) perdidas. Explico-me: era a caixa de cartões caídos (como eu nesta vida tantas vezes, hélas!) em inutilidade anacrónica por desuso. Revi então as minhas mocidades à-la-minuta:
o meu cartão de xadrezista aos 12 anos pela Académica;
aos 13, o meu passe de iniciado pelo futebol do União;
a quadrícula de director-auxiliar da Tuna, aos 16;
a cédula de pescador fluvial, que acabei por renegar ao descobrir que aquilo era, afinal, uma licença-para-matar;
o meu primeiro BI, amarelidão de documento autenticador mas falsário de uma filiação que por todo o lado, todos os dias & a toda a hora, com ou sem óculos, procuro entre os vivos mas não encontro: o meu Pai, a minha Mãe;
convenientemente roído, o meu certificado de sócio-fundador da Federação Portuguesa de Onicofagia;
o diploma-de-mérito da Sociedade Nacional de Fermentadas & Destiladas;
e ainda, também e finalmente, a certidão de utente da Sopa dos Pobres que ficava ali ao pé da Igreja do Deus-me-Livre.
Chegado o Setembro, a minha Graça condoeu-se. Era muito dia de eu desandar por este triste mundo tiquetaqueando as calçadas de bengalinha extensível de alumínio às risquinhas vermelhas-e-brancas com um cão também cego ao joelho. Comprou-me umas cangalhas novas e mais caras do que os olhos da cara. Lentes progressivas do-perto-ao-longe, muito fixolas, de finas hastes que configuram, no meu rosto de pergaminho, uma iluminura de artista-frade-&-copista. É com elas armadas que V. escrevo.
Olhai ali, por maravilha: beira-rio, os choupos translúcidos filtrafarfalhando a doce luz do novel Outubro. Vêde comigo, além: um maduro de calções pedalando a reforma gorda a cavalo da BTTcicleta de três mil euros, no mínimo três milenas do belo. Assisti Vós ao que ora assisto: pespontando a azul-ferrete a qualidade diáfana da aragem da manhã, uma rapariga clara como a transparência do mais lúcido acetato.
E ainda: o solícito senhor carteiro do meu bairro, portador desta mesma edição do noss’O RIBATEJO, miraculosamente & de novo repleto de palavras que me devolvem uma identidade chamada pertença, esse tipo de pertença ao meu Leitor & ao meu Jornal a partir da qual nem preciso de óculos, por ser, como sempre tem sido & há-de ser sempre, uma coisa de olhos nos olhos.