quinta-feira, abril 23, 2015

Rosário Breve n.º 404 - in O RIBATEJO de 23 de Abril de 2015 - www.oribatejo.pt

Campo do Tarrafal

A Colónia Penal do Tarrafal, situada no lugar de Chão Bom do concelho do Tarrafal, na ilha de Santiago, foi criada pelo Governo português do Estado Novo ao abrigo do Decreto-Lei n.º 26 539, de 23 de Abril de 1936. Wikipédia



A Questão

Gosto de datas. As efemérides proporcionam-me a ilusão de o Tempo poder ser detido, como Aldous Huxley queria, Marcel Proust conseguiu e Ricardo Salgado ainda não foi.
Esta edição do nosso/Vosso Jornal sai a um 23 de Abril. Mas não – não é sobre certa Revolução com Cravos (que depressa passou para o domínio de cravas) que aproveito a boleia da data. Afinal, O RIBATEJO é semanário, pelo que a 25 de Abril próximo é de fresca legibilidade ainda. Mas não. É mesmo de 23 de Abril que quero falar-vos alguma coisita esta semana. Na verdade, de dois 23 de Abril.
O primeiro deles, despacho-o num instantinho: o dito dia de 1616 é tido como o da mais provável data de falecimento de um colosso da Literatura mundial: William Shakespeare, na sua terra natal de Stratford-on-Avon, Inglaterra, onde nascera em 1564. Para muitos, outro gigante literário morreu precisamente no mesmo dia e no mesmo ano: Miguel de Cervantes, o genial criador do Quijote. Mas a datação é polémica. A Wikipédia (que nem sempre é fonte segura deste tipo de águas), refere isto:
“É bem notória a coincidência das datas de morte de dois dos grandes escritores da humanidade, Cervantes e William Shakespeare, ambos com data de falecimento em 23 de Abril de 1616. Porém, é importante notar que o Calendário gregoriano já era utilizado em Castela desde o século XVI, enquanto que na Inglaterra a sua adopção somente ocorreu em 1751. Daí que, na realidade, William Shakespeare faleceu dez dias depois de Miguel de Cervantes.
Deixemo-nos todavia destas afinal ninharias de cronómanos como eu. É do outro 23 de Abril que quero conversar: o de 1936. Porquê? Por isto: é a data oficial da criação, pelo Estado (dito) Novo, na Ilha de Santiago, em Cabo Verde, do Campo de Concentração do Tarrafal. O Morcego Eunuco, vulgo Oliveira Salazar, antecipou-se no horror ao próprio Hitler.
Já lá estive. Digo: fisicamente, no Tarrafal. Foi em Julho de 1997.Era eu então formador do CENJOR / Centro Protocolar de Formação Profissional para Jornalistas, com sede em Lisboa. Um protocolo entre o nosso Governo de então e o seu homólogo de Cabo Verde lá me levou. Missão: seleccionar uma vintena de candidatos íncolas a jornalistas profissionais e leccionar o módulo de Língua Portuguesa no âmbito da Escrita Jornalística. O trabalho era doce, o pagamento à hora era dulcíssimo, as pessoas de lá também. Foram (e são) três semanas da minha vida para guardar no baú bom da parte melhor do sótão mental. Menos aquele domingo.
Certo domingo, gente ministerial que me assessorava a função e a logística dela, levou-me a fazer um périplo pela ilha em que se situa a capital de Cabo Verde: a Cidade da Praia. Quiseram saber se eu desejava visitar o famigerado Campo-Prisão. Respondi que sim. Corri-o todo. Em 1997, estava praticamente intacto: a solidão entenebrecia-o ainda, ainda o exílio apodrecia até a luz total do sol cabo-verdiano, ainda os fantasmas dos prisioneiros espectravam os visitantes. Entrei em todas as celas de progressiva escuridão. Maldisse-me ser português por portugueses terem sido os mandadores daquele imoral e amoral mural de lento extermínio. E como portugueses nele e dele foram vítimas. Li as palavras, os nomes, li o que não deveria nunca ter tido papel onde tal horror fosse escrito.  
Saí de lá de garganta cega em nó. Os meus guias aperceberam-se do meu quebranto e respeitaram a inelutabilidade do meu luto.
Não era tanto a ira anacrónica pelos torcionários que me sufocava a respiração cardíaca. Era mais a vergonha da minha portugalidade.
Foi há 79 anos, à data da saída deste Jornal. Para muita gente dotada de memória (que por alguma razão rima com História), foi ontem. E pode ser amanhã. Não sei, aliás, se o não é já.
Os muros são outros, é certo. São transparentes: este tijolo é o desemprego, esta cela é o tribunal fechado, este refeitório é a sopa-dos-pobres, este pátio é o da escola encerrada, este portão é por onde se entrava para o extinto posto de saúde. Mas os sicários estão vivos. E nunca as vítimas de que se alimentam lhes escasseiam. Se a “coisa” lá não vai pela tortura do sono ou pelo arrancar das unhas, vai pela corrupção bancária, vai pela descredibilização total do regime alegadamente democrático-constitucional, vai pela plenipotência dos super-escritórios de super-advogados onde são urdidas as manigâncias que absolvem o corruptor e metem na prisão o ladrão de uma lata de atum nas hipermercearias dos belmiros. Vai pelo “rating”, que é como em anglo-economês se designa a actividade dos ratos.
Não. O Tarrafal não está fechado. Chama-se Presente e é Europeu.
As celas de sucessivas trevas estão aí: chamam-se um-dia-de-cada-vez-amanhã-não-sei.
23 de Abril e coiso e Shakespeare, dizia-vos eu, não era?  Mas o “Otelo” do genial dramaturgo inglês era de outra qualidade. Por falar nisso, ser ou não ser(mos)  é que é a questão. Agora – quem queremos ser? É essa a questão. A única questão.
Já agora, depois de amanhã continua a ser Abril. Calha a 25. A data lembra-me qualquer coisa, hei-de ver se ainda me lembro de quê antes de acabar a crónica.

quinta-feira, abril 16, 2015

Rosário Breve n.º 403 - in O RIBATEJO de 16 de Abril de 2015 - www.oribatejo.pt




© René Magritte






Animais ou menos

Segunda-feira, 13 de Abril de 2015. O octogenário e prestigioso periódico Diário de Coimbra publica, a páginas 10, uma carta dirigida ao Director daquele jornal. Assina-a uma senhora chamada Maria João L. G. de Oliveira. A missiva tem título: “Especismo”. Começa assim:

“Senhor Director,
Em pleno século XXI, os pombos de algumas cidades continuam a ser vítimas de toda a espécie de maus tratos.”

E mais adiante:

“(…) é possível controlar a reprodução destas aves, recorrendo a métodos humanos. Quem ama os animais, quem é capaz de interiorizar o seu sofrimento, quem não é especialista, sabe como fazê-lo.”

Aqui há anos, uma massiva sobrepopulação de aves marinhas nas Berlengas levou, de facto, a medidas de controle daqueles vorazes seres voadores. Ao que sei, a intervenção foi científica e tecnicamente muito bem feita. Intervieram na nidificação e coisa e tal. Não houve genocídio. Houve racionalidade. Voltemos todavia à carta da senhora conimbrincense:

“Infelizmente, não é o caso da Câmara Municipal de Santarém, que está a provocar um assassinato destas aves, como se não fosse possível resolver, humanamente, o problema da superpopulação dos pombos. Além disso, a matança de animais é crime. Gandhi tinha razão quando disse que o nível de civilização de um povo se pode avaliar pela maneira como os seus animais são tratados.”

Os geniais pintores Picasso e Magritte gostavam de pombas. Terá sido do bico de uma delas que Noé recebeu o ramúsculo de árvore anunciador do fim do Dilúvio. O poeta português João Miguel Fernandes Jorge (JMFJ) disse tudo naquele poema maravilhoso com que finaliza o seu livro, de 1982, “O Regresso dos Remadores”:

“Poemas”: “Aspectos perdidos
pequenas sombras ao redor de poderosa imagem

Aquilo que distingue a palavra ave da palavra pássaro.”

Onde já vamos, ó Leitor/a meu & minha: da ‘solução’ (holo)cáustica à la Câmara de Santarém até pintores e poetas. Pois continuemos em tal senda, que má não é e mal não faz. Um ano antes do supracitado livro de JMFJ, um crítico literário chamado José António Llardent publicava no Suplemento n.º 1 da revista Número (Madrid, 1981) algumas linhas sobre o (por mim) mais venerado Poeta português (felizmente) vivo: António Osório, que foi bastonário da Ordem dos Advogados uns anos largos depois de haver nascido em Setúbal a 1 de Agosto de 1933. Traduzo:

“A vida, para Osório, é substancialmente indivisível no que respeita à dor e à morte. Dentro do seu sistema (afectivo), radicalmente unitário, os animais ‘são umas criaturas surgidas no terceiro dia, mais velhas portanto do que o homem e talvez por isso mais sábias ou menos iníquas’. O poeta sente-as inseparáveis da condição humana, ainda que tal condição seja perturbada por leis biológicas que pretendem justificar, em nome da própria vida, a dialéctica da destruição."

No meu bornal, há muitos anos (muitos mesmo) que, ao lado de ninharias como livralhadas e croniquetas, transporto frascos cheios de trinca-de-arroz e sacos plenos de migas de pão. É para dar aos pássaros. Mas é comofernandesjorgeanas aves que as vejo comer. Osoriamente. Não camaramunicipaldesantaremmente. Não barbaramente. Não holocausticamente. Julgamo-nos, nós humanos, superiores a tudo e a todos quantos vivem neste planeta. Fingimos desconhecer que somos a única espécie em voluntária auto-extinção. Estamos (quase) todos abaixo de cão. As nossas malfeitorias para com toda a fauna não sapiens sapiens sub-bestializam-nos. Mas basta. Concluamos com a senhora Leitora do Diário de Coimbra:

“(…) cabe também aos pais e à escola (e eu sei que algumas o fazem…) desenvolver, nos mais novos, a sensibilidade ao sofrimento dos animais, o amor e o respeito por seres que são, a todo o momento, vítimas do especismo, preconceito que lhes nega o direito, que também têm, de não sofrer, ou seja, a igualdade que deve existir entre as diferentes espécies.”
Ámen – digo eu, em terra tão tauromáquica quão columbocida.


 

quinta-feira, abril 09, 2015

Rosário Breve n.º 402 - in O RIBATEJO de 9 de Abril de 2015 - www.oribatejo.pt


Crónica a dar-lhe para o escatológico

Esperar do actual executivo municipal de Santarém qualquer espécie de (re)acção construtiva que contrarie o autismo anticívico e antitolerante de que sobejas provas tem dado à saciedade e à sociedade sempre que, justa e/ou injustamente o criticam, vituperam e vilipendiam  – é  ou dá o mesmo, por exemplo não inocente, que procurar, encontrar e ter médico de família em Benavente. É, é.
Isso de arrancar, no próprio domingo, cartazes contra o desmazelo da acção da Câmara em diversos (mas tantos!) domínios, é de um zelo equívoco, e escabroso até, mais próprio de tiranetes malformados do que de gente democraticamente eleita (em má-hora, diga-se) pelo povo que (tão mal) serve. E parece mais fácil e mais categórico, isso dos cartazes arrancados à pressa, do que, como é inequívoco dever dos serviços camarários, livrar a histórica Scalabis moderna dos ubíquos monturos de lixo que ao ímpio sol apodrecem fedendo e a que o vento dá asas ou de tipo Ícaro ou de tipo Red Bull.
Quanto à cègada de décadas da revitalização do centro histórico da capital ribatejana, é a treta useira, vezeira & costumeira – daquele tipo de intenções que, tidas por boas e pias e santas e vai-ser-mesmo-assim-como-eu-ricardamente-vos-gonçalvesmente-prometo-e-garanto, ao Inferno repletam incansável e irrefragavelmente. É que, sabemo-lo nós tão bem, é mais lucrativo chamar e entregar a “expansão dos núcleos urbanos” à ganância desmedida dos patos-bravos amigalhaços que assinam os cheques agradecidos pró-próxima campanha, autárquica ou legislativa seja ela. Por alguma razão, os médicos de hoje em dia, ao auscultarem o peito do paciente cardíaco-pulmonar, dizem-lhe que diga “44” e não “33”
Vale-nos a todos, ainda assim, que gente há em acção pró-cívica por a razão afinal simples e franca do amor à Cidade – e não em demanda tachistíco-partidária pró-interesse próprio. Se eu fosse uma dessas pessoas que agem em vez de ficar em casa de chinelos puídos a dizer que não a tudo só porque sim, eu juro que penduraria mas era, nos mesmos exactos pontos críticos da Cidade de onde a Câmara foi tão prestes destruidora dos construtivos alertas, os contentores a abarrotar de lixo com e em que a cada passo se tropeça no velho burgo scalabitano. Só para ver se lhes dava a mesma pressa. Se a mesma rubicunda e furibunda gana os açulava. Todavia, o mais certo é que a coisa, tratando-se afinal de mero dever higiénico-social da edilidade, acabasse demorando pelo menos tanto tempo a ser resolvida como a tragifarsa da Junta de Vila Cã (ou Vila-de-nem-Ontem-nem-p’r’-Amanhã). Alegrias tristes, estas evidências.
Já agora, sempre Vos digo que a palavra portuguesa escatologia é tramada: tanto dá para significar maldosa e mal odorosa alusão ao marulhar intestinal que augura a não raro estrepitosa emissão via-rectal de lamas excrementícias, como para designar certo tipo de mundivisão literário-filosófica relativa ao porvir da condição humana. Desta última acepção, é, quiçá, a História do Futuro, da autoria do grande Autor de Língua Portuguesa que foi, é e será o Padre António Vieira, a opus magnum da escatologia portuguesa. Tal polissémica (e dúbia, portanto) palavra, se Santarém é o mote de sua volta, parece ser a chinela de vidro com a exacta medida para o pé da Cinderela santarena. Neste sentido duplo: pela imundície que se por aí se vê, o futuro já cheira mal de véspera como os gaiteiros vomitados de tão bêbedos.
Não terei eu, todavia, algo de positivo a dizer da terra do meu/nosso Bernardo Santareno/Dr. António Martinho do Rosário? Tenho. As barreiras ainda não aluíram de vez, por exemplo. E, apesar de tanto tempo à espera entre carris que lhe passe por cima o comboio à frente do qual garantiu o pueril Ricardito-das-Procissões fixar-se para por ele, comboio, ser trucidado caso o Governo não fizesse já nem sei quê que não fez nem fará, o efebo edil continua inteiro. Mais: e inteiriço. Do esperançoso vereador Luís Farinha, por não ser (eu) do mesmo saco que ele, nem falo. E da turística-wireless vereadora Susana Pita Soares, idem. Tenho melhores usanças para o meu latim.
Pena, também tenho. Esta aqui: a de não poder estar presente no próprio dia da próxima saída do jornal (9 de Abril do corrente), pelas 15h30m, na Casa-Museu Passos Canavarro, no propósito de ouvir e ver o erudito (sem resquício de ironia minha) Professor Adriano Moreira perorando em uma conferência intitulada “A Europa entre os Projectos e as Memórias”. Gostaria de lá estar porque o tema e o Orador me interessam – e também porque sempre poderia içar-se alguém dentre o auditório para dizer algumas coisas acertadas, eficazes, activas, pró-activas e com calendário & verba subordinadas ao tema “Santarém entre os Dejectos e as Escórias”. Pelo menos, rimaria.
Não poderei lá estar, infelizmente. Isso é garantido. Dia 9 de Abril próximo, se até lá me não der o badagaio esticador de pernis, estarei ocupado a desenvolver a crónica seguinte para este Jornal. E já tenho a primeira frase de arranque: “Não é fácil ser feliz nos tempos que não correm.” O resto está por escre(vi)ver. É que estou ainda indeciso sobre que tipo de escatologia empregar na criação dela/crónica.
Se calhar, uso ambas as merdas.


quinta-feira, abril 02, 2015

Rosário Breve n.º 401 in O RIBATEJO de 2 de Abril de 2015 - www.oribatejo.pt



(NB: na edição em papel de O RIBATEJO, razoáveis razões de espaço gráfico levaram a uma versão abreviada da crónica, que todavia se publicará integralmente na edição electrónica daquele título. Cf. em www.oribatejo.pt ou no mural Jornal O Ribatejo no facebook. Ou então, e ainda, no meu próprio mural facebookiano.)





Marcello, se não vero, veríssimo

Concluí recentemente a leitura integral duma obra da autoria de um ribatejano. O livro intitula-se Marcello Caetano – Confidências no Exílio (Editorial Verbo, 8.ª ed., Março de 1985). O Autor é Joaquim Veríssimo Serrão (JVS), historiador e professor com sobejas provas dadas no âmbito da historiografia portuguesa de qualidade.
Amigo, confidente e confesso admirador de Marcello (MC), JVS procede neste livro àquilo que sente como necessária reparação do, para ele, bom-nome do visado. Não poupa no mais rasgado encómio da figura, roçando vastas e bastas vezes a louvaminhice do delfim de Salazar e deste último sucessor na Presidência do Conselho, após a célebre queda da cadeira do tirano de Santa Comba Dão e do resto do País todo.
Muitos temos presente o filme daquela malta toda vitoriando no Largo do Carmo a acção militar tão honrosa e tão corajosamente capitaneada por Salgueiro Maia, capitão que, aliás respeitosa mas firmemente, deu ordem de prisão ao deposto Chefe do Governo, tratando-o com uma dignidade que o próprio detido mais tarde reconheceu com sinceridade e sem ironia ou amargura, ao contrário de ditos e escritos seus a propósitos de figuras que, sendo-lhe próximas nos tempos de poleiro, o renegaram depois como Pedro terá triplamente feito ao mesmo Cristo.
Sabemos todos o que depois aconteceu: MC na chaimite, embarque primeiro para a Madeira, voo a seguir para o exílio no Brasil, país em que, sem jamais, por manifesta vontade própria, haver regressado a Portugal (nem para ser sepultado), acabou por morrer no Rio de Janeiro a 26 de Outubro de 1980.
Da referida obra que assunta esta crónica, digo coisas simples: é muito legível, muito interessante e muito propiciadora de muitos toma-lá-dá-cás contr’opinativos. Já tal é, a meu ver, de mérito q.b.
Todavia, o que me fez trazer tal título à colação da crónica foi uma série de referências a personagens da política (mortas algumas já, ainda vivas outras). Com a devida vénia ao Autor do livro e ao Emissor das passagens (ex)citantes em discurso directo (com excepção ao discurso indirecto de JVS a propósito de Veiga Simão), passo assim, em ipsis verbis apropriadamente itálico, à transcrição de tão sumarentos ditames marcellianos.

Pinheiro de Azevedo - “um tonto” (pág.ª 256, op. cit.);
Alçada Baptista - “com o seu ar de filósofo iluminado, (…) gosta de parecer original e frondeur e agora aspira a ser embaixador em Brasília.” (pág.ª259);
M.ª de Lurdes Pintasilgo - “a primeira freira (embora sem hábito) a dirigir a política de um país. Foi grande amiga minha. É ambiciosa, inteligente e voluntariosa (introduzirá virilidade na política portuguesa...) Esteve para ser deputada pela U.N. em 1969 (só o não foi porque se tinha esquecido de recensear-se) e não foi ministra do meu Governo porque a não convidei. Agora aparece ligada à esquerda, como a sua congregação do Graal já há tempos anda. Que fará uma mulher-homem, ainda por cima com nome de pássaro?” (págs. 259/260);
Spínola - “o parvo” (pág.ª 257);
Costa Gomes - “Por mim não sei que outra coisa se lhe possa chamar: um verdadeiro nojo para a consciência de um homem.” (pág.ª 266);
Vasco da Gama Fernandes - “Veja como o enfatuado Gama Fernandes, que nem os próprios correligionários tomam a sério, conseguiu em 1974 a administração de um Banco estatal e apenas em quatro ou cinco anos logrou uma reforma choruda. ” (pág.ª 266);
PPM - “os monárquicos não passam de uma anedota” (pág.ª 290);
PCP - “Apesar do repúdio da grande maioria do povo português, apesar do combate aberto em que se empenhou a Igreja, apesar da dispersão resultante de grupúsculos à sua esquerda, o Partido avançou, coeso, disciplinado, doutrinado, e conseguiu um milhão e cem mil eleitores com uma representação de quase cinquenta deputados. É inquietante.” (pág.ª 290);
Soares Carneiro - “O homem é excelente, mas a manobra do Sá Carneiro sempre me pareceu mal conduzida e temo que a A.D. se espalhe nas eleições presidenciais.”” (pág.ª 307);
AD - “apesar de tudo, torço pela A.D. …” (pág.ª 307);
Sá Carneiro - “Vejo que o Sá Carneiro é nessas coisas mais autocrata do que o próprio Doutor Salazar.” (pág.ª 307);
Francisco Balsemão - “Aqui tive notícias do Francisquinho Balsemão, mas só pelos jornais. Bem pobre é a matéria-prima em Portugal, para se recorrer a tão medíocre mensageiro.” (pág.ª 315);
Marx (e marxistas) - “É curioso que o Marx tratou com o maior respeito e inteligência a Idade Média, e cada vez que leio O Capital, mais consideração tenho por ele e menos pelos marxistas.” ” (pág.ª 317);
Veiga Simão (palavras de JVS indirectamente citando MC) - “Entre as razões apontadas [para não regressar a Portugal – nota do cronista] dizia não querer encontrar antigos colaboradores, como o Prof. Veiga Simão, por quem sentia o maior desprezo.” (pág.ª 343);
João Soares- “O João Soares, pai do Mário, foi realmente padre (e capelão militar) e nessa condição teve o primeiro filho, ao qual pôs um nome de que só um padre se lembraria: Tertuliano. Este foi meu amigo, era um excelente clínico e nunca embarcou nas ideias do mais novo. ” (pág.ª 347);
Mário Soares - ”sinistro” (pág.ª 361);  (…) “foi um aluno mediano, mas cumpridor. Já então usava do discurso fácil, só que o estudo do Direito exige estudo atento e adequada disciplina mental. Continua hoje a prometer o que sabe não poder cumprir, deliciado com os riscos da manobra política. (…) O Soares pode com o ardor tribunício convencer um parlamento, mas nunca será um homem de Estado. Não tem dimensão nem estrutura para esse papel que julga estar ao seu alcance. (…) Bem vê, não basta apertar a mão ao Mitterrand ou almoçar com o Brandt para se possuir estofo para governar Portugal. (…) nunca precisou de trabalhar, porque o pai se incumbia de o fazer no colégio que tinha em Lisboa. Foi sempre o que pode chamar-se um menino rico. (págs. 332/333);
Álvaro Cunhal - ”Goste-se ou não dele, é um homem de inteligência superior e que tem uma visão messiânica da vida. O Cunhal está convencido de que pode recriar o mundo, mas esquece-se de que milhares de gerações passaram e outras hão-de passar e o mundo há-de continuar com os defeitos que são inerentes à natureza humana.” (pág.ª 332);
Finalmente, ao “menino rico” Soares e ao Cunhal “filho de um advogado com dinheiro”, MC contrapõe-se a si mesmo na companhia de Salazar: “Quem devia então sentir complexos de classe? Eles ou o Doutor Salazar e eu, que viemos da humildade da terra e somos, na realidade, filhos do povo?”
Leia tal livro o meu Leitor. Ou tão-só esta crónica. E por si pense no que leu. E que depois responda como muito bem quiser e entender, sem porém esquecer-se de que foi pelo megafone de um tal Salgueiro Maia que até Marcello Caetano arranjou maneira de exprimir-se livremente.