sexta-feira, outubro 28, 2016
quinta-feira, outubro 27, 2016
ESCREVER NAS FOLGAS - Rosário Breve nº 478 - in O RIBATEJO de 27 de Outubro de 2016 - www.oribatejo.pt
Escrever nas folgas
Um
amigo meu é historiador amador. Comete monografias. Sabe coisas impensáveis que
as mais das vezes resultam genealógicas. Ou pior. Uma inscrição de fontanário
extasia-o como a mim só me acontece com, com quê?, talvez c’a Sophia Loren aqui
há uns oitenta anitos. Da I República para trás e para os lados todos,
cimabaixestiborbombordo, sabe tudo – menos o que será desta de agora.
Acontece
que ontem, sob a morrinha persistente que acinzentava mais o dia do que à nossa
vista a passagem de uma viúva sincera, apanhei-o esmifrado de nervos &
sudorífero de raivas. Indaguei:
– Atão, pá? Tás
c’umas beiças qu’inté parece que te caiu um músculo a dormir, home’! Qu’é que
foi? Morreu-te a vizinha de baixo ou debaixo?
Ele
desganiu-se-me com a explicação:
– Rafeiro, fui ao
Arquivo Municipal ver se catava uma data infalível e olha, népias.
Tentei
ajudar, claro. (Eu sou assim, ajudante. Nunca hei-de chegar a chefe por causa de
ser assim, assim bom, assim porreirinho, assim amigalhaço, assim sempre-de-ajudar,
assim mentiroso.)
– Que filão é que
escavaste?
E
ele:
–
Os Anais, claro. Mas aquilo era só folgas.
E
eu:
–
Pá, isso é mau. Anais com folgas… E eram
todos de trânsito só de-dentro-p’a-fora?
E
ele:
–
Goza, meu ganda-marreco-das-orelhas, goza
pr’aí. Era coisa importante, pá, coisa importantezinha, mat’rial necessário ó
Pobo, pá, necessário cumò pão pà boca, cumò pão pà boca, pá.
Solidarizei-me.
Ofereci-lhe que beber. (Só beber. É de lei que, co’ comer & co’ fumar &
co’ aquele resto que toda a gente sabe, cada um paga o seu. E o dever acima de
tudo, como na tropa.) Fomos ao Ramiro Tira-Linhas a modos que esvurmar uma tal
pomada que ele lá tem, mas tal, que os médicos só não a receitam para o ranger
das artroses e para as borrachas da figadeira porque isto de médicos e
laboratórios, pá, isto de médicos e laboratórios é tudo Roque-da-Amiga &
Amiga-do-Roque. É-é, mas-é-qu’é mesm’assim. Entonces,
depois de umas pucheiritas lá mudámos para o cântaro, que sempre fica mais em
conta.
Na
brevidade que a vida é, por contar menos um dia do que o carnaval, a
pajens-tantos intentei cognoscer (no mínimo, cognoscer, que eu ainda fiz o quinto-ano antigo), quer’eu dizer,
apurar o âmbito & o intuito das anais escavações do meu amigo.
Ele
recognosceu-me ist’assim:
–
Tinha a ver com a data exacta, ali
exactinha preto-no-branco, da última vez em que a Câmbra interveio, pá, sei lá,
nos problemas. Os problemas, tás-a-ver?, as cenas que dão mau nome aqui à
parvónia, pá, aqui à parvónia, pá, mau nome, tás-a-ver?
E
eu:
–
Tar-a-ver-tou. Mas assim tipo alguma zona
em particular, sei lá, tipo ali nas Trigosas?
E
o sacana do gajo a esgalhar-se todo de risota & a cuspinhar farelo de
pevides pa’ todo o lado, o sacana do gajo assim na mouche qu’eu às vezes c’a pomada fico:
–
Trigosas? Trigosas? Ó meu, bebe cérélác
sem grumos cuspidos, meu! Eles lá nas Trigosas não são de folgas, meu. Se
precisam, não pedem nem esperam. Fazem. Fazem ali feitinho. Entre todos. Para
todos. E pluribus unum, carago! Mete lá esta nos teus anais, anda.
E
eu meti. Tanto meti, qu’inté escrevi esta de pé e tudo.
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quinta-feira, outubro 20, 2016
TRÊS DE JANEIRO, POR EXEMPLO - Rosário Breve nº 477 - in O RIBATEJO de 20 de Outubro de 2016 - www.oribatejo.pt
Três de Janeiro,
por exemplo
A
3 de Janeiro de 1903, Alois Hitler, pai do Adolf, morreu. O mal estava já feito,
todavia. Klara, a mulher dele, foi definitivamente roída pelo cancro em 1907 –
mas o mal não apenas teimava feito como crescia. Sobre a morte desse obscuro
funcionário público austríaco, o mesmo há a reter que da sua vida: cinza uma
como cinza outra. A coisa passou-se.
Exactamente
22 anos depois, eram suprimidos em Itália os partidos políticos que queriam ser
oposição à meteórica trajectória ascendente de um tolo perigoso chamado Benito.
(Nessa precisa data de 3/I/1925, contava a senhora minha Mãe 68 dias de vida –
e era decerto feliz, pois que então purificada pelo esquecimento do futuro.)
O
futuro é que se não esqueceu do seu destino demolidor. Assim foi pois que, num
terceiro dia januário também, mas o de 1935, se assiste em Coimbra a uma cena causadora
de colectiva tristeza. Tem a ver com demolição & destino: por decisão da
Câmara Municipal, é demolida a altaneira e histórica Torre de Santa Cruz, em
frente ao formoso Jardim da Manga. A construção ameaçava iminente &
eminente derrocada. Tinha de um lado o Celeiro dos frades crúzios (onde
funciona hoje em dia a esquadra da PSP) e do outro a Enfermaria, que foi depois
residência do senhor Prior e biblioteca até se tornar no que é hoje: a Escola
Secundária de Jaime Cortesão.
Treze
anos exactos se esfumam. Não estamos já em Coimbra lacrimejando de impotência à
face do sacro entulho. É ora em Lisboa que estamos. Por magia, quantos são
hoje? 3 de Janeiro. O ano é 1948. A noite promete: há fadistagem no Café Luso, como de costume, mas este
serão é especial por ser o da consagração de um fadista chamado Alfredo. Desde
outro Janeiro (o de 1941) que o Luso
já não é na Avenida da Liberdade (onde nascera em 1927), trasladado que foi
para as antigas adegas e cocheiras do Palácio do Largo de São Roque, ali à
Travessa da Queimada (8-A, telefone 32 889). Chama-se agora Cervejaria Luso. Há menos de três anos
que o filho do tal Alois foi ter com o pai. Há menos de três anos que o Benito
foi pendurado pelas patas como uma carcaça de açougue. Os ventos da
democratização que por (alguma) Europa grassam, não desgraçam porém a cinzenta
nau ibérica, cujos timoneiros se chamam Franco e Salazar. Muitos Janeiros
hão-de arder a frio até que seja Abril. Mas hão-de.
Ainda
assim, e meros doze anos passados sobre a boémia consagratória do fadista
Marceneiro, a estagnação estadonovista é furiosamente sacudida de cabo a rabo.
3/I/1960 – de uma das mais perversas prisões de alta-segurança da Ditadura, o
Forte de Peniche (que nos nossos tristes presentes dias os patarecos da
dinheirama fácil & rápida parece quererem transformar em amnésica
hotelaria), chega notícia de sensação: fugiram uns gajos que ali estavam presos
“por seu livre pensamento” (cf. fado Abandono, vulgo Fado Peniche, pela divina Amália). Eram eles: Joaquim Gomes, Carlos
Costa, Jaime Serra, Francisco Miguel, Rogério de Carvalho, Francisco Martino
Rodrigues & um tal Álvaro Barreirinhas Cunhal. A intrépida evasão roça a
ironia histórica. Porquê? Por se dar precisamente
dez anos & um dia depois da morte de Militão Ribeiro, acontecida a 2 de
Janeiro de 1950 na Penitenciária de Lisboa, supostamente ao cabo da greve de
fome que a cabo levava contra a falta de assistência médica. Militão e Cunhal
haviam sido presos conjuntamente pela PIDE em 1949. Nunca mais seriam presos:
Militão, pela absoluta libertação chamada Morte; Cunhal, pela absoluta
liberdade chamada Vida.
De
modo que: 1903, 1925, 1935, 1948, 1960. Tudo depois de Cristo. E a 3 de Janeiro
tudo. Queira todavia o meu Leitor tomar nota ainda de uma outra efeméride. A
próxima edição deste Jornal não há-de esperar pelo 3 de Janeiro do ano que
há-de vir. Pois não. A próxima acontece a 27 de Outubro.
Ora,
a 27 de Outubro nasceu a senhora minha Mãe.
Mas
aí a História, porque futura, porque purificada, porque nunca esquecida, aí a
História já é outra.
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quinta-feira, outubro 13, 2016
Coisas que a vida e Abrantes me ensinam - Rosário Breve nº 476 - in O RIBATEJO de 13 de Outubro de 2016 - www.oribatejo.pt
Coisas que a vida e
Abrantes me ensinam
1. “Lamento ter nascido.”; “Gostei muito de ter nascido.” A
primeira frase é do ensimesmado poeta António Ramos Rosa. A segunda, do feliz
& polivalente fazedor de campeões Moniz Pereira. Constam ambas de um livro
intitulado O que a Vida me Ensinou. A
obra compreende 34 depoimentos (23 homens, onze mulheres) de notórias figuras
da nossa intelectualidade contemporânea coligidos pelo jornalista Valdemar Cruz
para o semanário Expresso entre 2002
e 2005. A edição livresca aconteceu em Março de 2007, sob a chancela editorial
da Temas e Debates. À data do livro,
três dos entrevistados haviam morrido já. No entretanto destes nove anos &
sete meses, muitos deles partiram já também. Todos tinham não menos do que 70
anos quando o jornalista com eles se encontrou.
A
leitura enriqueceu-me. É um trabalho limpo, que vivamente recomendo a todos
quantos dispensam à livralhada uma atenção & uma intenção que só
proveitosas podem ser. Sublinhei muito, gastei todo um lápis. Adriano Moreira
patenteou sem esforço a sua clara, incontornável sageza. O excesso
pró-aforístico de Agustina não me aborreceu tanto, não desta vez. Siza Vieira,
todo elegância. O sobredito Ramos Rosa pareceu-me o que o labor poético dele me
parece: cansado & cansativo. Gostei muito do auto-retrato vital da fadista
Argentina Santos. Eduardo Lourenço é um monumento. O investigador Fernando
Catarino deu-me ideia de areia a menos para a camioneta exibida. Fernando
Lanhas, giro, patusco, sábio. M.ª Helena da Rocha Pereira, maravilhosa. Manoel
de Oliveira, banal & sobrevalorizado. D. Manuel Martins, vero filantropo
& alma boa. Maria Keil do Amaral angustiou-me. Nella Maissa, prodigiosa.
Óscar Lopes, outro monumento. Margarida Tengarrinha, humaníssima &
exemplar. Sequeira Costa, profundo, grave, ortoépio. O industrial José Manuel
de Mello, absolutamente execrável. Completam o rol: Anthimio de Azevedo, Borges
Coelho, Eunice Muñoz, Fernando Távora, Galopim de Carvalho, Glicínia Quartim,
Helena Sá e Costa, José Pinto da Costa, José Saramago, Júlio Pomar, Júlio
Resende, Luísa Dacosta, M.ª de Lourdes Levy, Nuno Grande, Ruy de Carvalho e
Vítor Crespo. Da minha leitura, mais por ora não digo. Diga-me da sua o Leitor,
se caso disso for.
2. Outra proveitosa
leitura que fiz por estes dias: Intelectuais
Portugueses na Primeira Metade de Oitocentos (de M.ª de Lourdes Costa Lima
dos Santos para a Editorial Presença,
Lx., 1988). É tese de doutoramento muitíssimo bem lavrada. A poucas páginas do
fim, aprendi que foi fundada em Abrantes, no remo(r)to ano de 1802, uma tal Sociedade Literária Tubuciana. Era dela
figura-de-proa um Rodrigo da Silva Bivar, “Inspector
da Plantação das Amoreiras e Director da Fiação da Seda”. A doutoranda
Autora remete o interessado (em a nota remissivo-bibliográfica n.º 11, pp. 325)
para uma monografia de há 40 anos – A Academia
Tubuciana e os seus Membros, de Luís Bivar Guerra, in Anais da Academia Portuguesa de História, Lx., 1976. A abrantina
agremiação de nome esquisito não esgotava o intuito pragmático na amoreira e no
bicho-da-seda. Não. Leia-se: “(…) os seus
objectivos eram mais vastos, visando concorrer para a felicidade da Nação
através dos trabalhos dos seus membros nos campos mais variados (nos Programas
da Tubuciana para 1803 e 1804 os assuntos propostos para apresentar
comunicações abarcavam os domínios da História, da Literatura, do Direito, da
Economia Política e da Agricultura).”
Mais: a Tubuciana
não queria saber de não ser na Capital que tinha a sede. Pelo contrário,
chateava Lisboa sempre que tinha por bem chateá-la. Exemplo: faltando “provimento de professores de
primeiras-letras e de latim em Abrantes”, Diogo Bivar (filho e sucessor de Rodrigo) foi de
mandar “uma representação ao Governo,
censurando a Junta da Directoria Geral dos Estudos”. Lisboa ainda refilou,
dando ordem ao juiz-de-fora de Abrantes (que até presidia à Tubuciana…) no
sentido de “repreender severamente a
ousadia com que na representação tinham sido caluniadas as diligências públicas
da Junta” – mas o certo é que, “logo
depois”, houve mando de “abrir
concurso para que as cadeiras de latim e de primeiras-letras fossem providas de
professores seculares com os devidos ordenados”.
3. Que aprendi eu, pois & assim? Aprendi que nem a
Vida nem Abrantes me parecem ser já o que eram dantes.
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quinta-feira, outubro 06, 2016
Rosário Breve nº 475 - in O RIBATEJO de 6 de Outubro de 2016 - www.oribatejo.pt
À vista armada
(crónica a olho nu)
Agosto
passado, voltei a perder os óculos. Até poder usar uns novos, o mundo
volveu-se-me ilegível. Ilegível e ainda mais ininteligível do que de costume.
Foram maus dias. Era como, sem ser peixe, habitar um aquário. Na rua, as
pessoas (a)pareciam-me como espectros glaucos, o ar ardendo em aura à volta de
nódoas escuras que eram as cabeças – um pouco à maneira do povo dos sonhos:
adumbrações exiladas de qualquer esperança de nitidez. Da vizinha do
quarto-andar, o gato tomou ameaçador & furtivo aparato de tigre. Foi mau.
Livros, nem pensar. Internet, adeus. A minha assinatura em papel do noss’O
RIBATEJO só trazia fotografias molhadas sob a tutela escarlate do título. O
pior passou-se com a minha própria mulher.
Com
a minha própria mulher, passou-se que, como eu não a distinguia das outras,
comecei a chamar-lhe nomes que ela não tem nem merece. Conseguintemente, passei
a dormir exilado na saleta de passar a roupa a ferro. Convivi com meias,
pijamas, bonés & camisas que eu já não sabia que tinha ainda. A minha
cabeceira foi uma caixa de sapatos sem sapatos mas plena de identidades (e de
oportunidades) perdidas. Explico-me: era a caixa de cartões caídos (como eu
nesta vida tantas vezes, hélas!) em
inutilidade anacrónica por desuso. Revi então as minhas mocidades à-la-minuta:
o
meu cartão de xadrezista aos 12 anos pela Académica;
aos
13, o meu passe de iniciado pelo futebol do União;
a
quadrícula de director-auxiliar da Tuna, aos 16;
a
cédula de pescador fluvial, que acabei por renegar ao descobrir que aquilo era,
afinal, uma licença-para-matar;
o
meu primeiro BI, amarelidão de documento autenticador mas falsário de uma
filiação que por todo o lado, todos os dias & a toda a hora, com ou sem
óculos, procuro entre os vivos mas não encontro: o meu Pai, a minha Mãe;
convenientemente
roído, o meu certificado de sócio-fundador da Federação Portuguesa de
Onicofagia;
o
diploma-de-mérito da Sociedade Nacional de Fermentadas & Destiladas;
e
ainda, também e finalmente, a certidão de utente da Sopa dos Pobres que ficava
ali ao pé da Igreja do Deus-me-Livre.
Chegado
o Setembro, a minha Graça condoeu-se. Era muito dia de eu desandar por este
triste mundo tiquetaqueando as calçadas de bengalinha extensível de alumínio às
risquinhas vermelhas-e-brancas com um cão também cego ao joelho. Comprou-me
umas cangalhas novas e mais caras do que os olhos da cara. Lentes progressivas
do-perto-ao-longe, muito fixolas, de finas hastes que configuram, no meu rosto
de pergaminho, uma iluminura de artista-frade-&-copista. É com elas armadas
que V. escrevo.
Olhai
ali, por maravilha: beira-rio, os choupos translúcidos filtrafarfalhando a doce
luz do novel Outubro. Vêde comigo, além: um maduro de calções pedalando a
reforma gorda a cavalo da BTTcicleta de três mil euros, no mínimo três milenas
do belo. Assisti Vós ao que ora assisto: pespontando a azul-ferrete a qualidade
diáfana da aragem da manhã, uma rapariga clara como a transparência do mais lúcido
acetato.
E
ainda: o solícito senhor carteiro do meu bairro, portador desta mesma edição do
noss’O RIBATEJO, miraculosamente & de novo repleto de palavras que me
devolvem uma identidade chamada pertença, esse tipo de pertença ao meu Leitor
& ao meu Jornal a partir da qual nem preciso de óculos, por ser, como
sempre tem sido & há-de ser sempre, uma coisa de olhos nos olhos.
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quinta-feira, setembro 29, 2016
Rosário Breve nº 474 - in O RIBATEJO de 29 de Setembro de 2016 - www.oribatejo.pt
Eu e José António
Saraiva
1 Dirigi
(oficiosamente, um; oficialmente, outro) dois jornais na minha vida de
jornalista encartado. Nenhum deles expressamente
viu o sol. Vale-me isto: eram mesmo
jornais. Um era o Correio de Pombal.
Outro, o Dito e Feito, sito na mesma
parvónia. De ambos me livrei com o coxear rápido dos inválidos ante a ameaça
das carroças sem travões. Tudo isto para preambular a minha leitura, que acabo
de fazer, de “Eu e os Políticos”, de
José António Saraiva, antigo director do Expresso
e do Sol.
2 Li. Juro que li. É
um nojo. Cheira a cuecas mentais que nenhum sabão de honestidade intelectual
lavou. Está mal escrito, foi mal revisto, é mal intencionado. Custa-me mais por
causa disto: José António Saraiva é filho de António José Saraiva (1917-1993),
figura absolutamente maior da História Cultural Portuguesa. Custa-me menos por
causa disto: é também, afinal, sobrinho de José Hermano Saraiva, contador de
tretas reciclado pós-25 de Abril apesar de fascistóide ministro da Educação
aquando da Crise Académica de 1969. Sim, li a coisa. Tem almoços, tem má
sintaxe, tem promiscuidade, tem Lisboa a mais e País a menos. Destapa mortalhas
sexuais que recobriam pessoas mortas. E gaba Maria Cavaco Silva por conseguir
perceber o que ele/EU escrevia, em
nome de um confessado (mas frívolo, mas falso, mas ignóbil) cartesianismo (página 43, sff) de quem
nem da própria idiotia tem dúvidas.
3 António José
Saraiva, pai deste Zé-Tó, foi (e segue sendo-o, mercê da perpetuidade devida
aos livros bem escritos) o meu gajo
absolutamente referencial da História da
Literatura Portuguesa, em co-autoria com o também gigante Óscar Lopes. Pela
portuense Editorial Inova (vivam os meus 17 anos, carago!), o título Inquisição e Cristãos-Novos mora-me e
demora-me no saber necessário da identidade histórica deste (ainda?) Povo que
somos. O volume da Bertrand (capa amarela, riscada obliquamente) de 1977, Filhos de Saturno, trazia o polemista
ex-PCP de outras velhas-guardas. Mas era um plumitivo do caraças, o Doutor
António José Saraiva! Adunco, fanhoso, bigode obstinado. Nada a ver com este arquitecto desvelador das Câncios e das Marantes, dos mentideros propiciadores da amnésia rápida e da influência nenhuma.
Nenhuma. Ou: se alguma – mudar de passeio, até por nojo de alguma contagiosíssima
sífilis estilística, à vista de tal deserdado.
4 Este jornal em que escrevo não oferece almoços in nas espeluncas caras de Lisboa. Mas
também não bate em mortos que não podem defender-se, quiçá, dos boatos de
alcova arrepanhados à liça por um medíocre que nunca escreveu no Correio de Pombal, quanto mais no Dito e Feito, quanto menos em O RIBATEJO.
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quinta-feira, setembro 22, 2016
Rosário Breve nº 473 - in O RIBATEJO de 22 de Setembro de 2016 - www.oribatejo.pt
Santa Engrácia,
vera padroeira de Santarém
1 Findava-se a manhã quando, dirigindo-me eu da marquise
à cozinha no intuito de apurar do apuro da enxúndia galinácea que há duas horas
borbotava ao lume brando, me ocorreu, em uma espécie de estremeção messiânico,
o que acima botei por título. Senti logo que a frecha da verdade me varara o
peito. Se a epifania pecava, era por genuína que pecava. Dúvida nenhuma,
senhorinhos leitorões meus, pois que:
Obras da EN 114? – Santa
Engrácia.
Loja do Cidadão? –
Santa Engrácia.
Recolha &
tratamento capazes, eficazes, a tempo-e-horas e limpinhos do lixo? – Santa
Engrácia.
[E
a este pouco santo descaminho parece ir deitando pernada a prometida (para este
mesmo Setembro) intervenção consolidadora das Barreiras.]
Não sei bem a que
propósito, ocorreu-me o malogro das cabaças na Torre a que elas cabaças deram
nome, essas sonoras e repercucientes cabaças ocas que cabeças idem esvaziaram
mais ’inda. O altaneiro e cabaceiro relógio torrejão não despede já chamada
laboral de pega & despega aos trabalhadores que já não há por essas
lezírias que a haver continuam. Mas adiante, que a cabaça é outra.
2 Recolhendo da cozinha ao chuveiro, fui esfregu’ensaboando-me
as misérias dérmicas, envolto eu mais de vapor que de nevoeiro o pobre menino
D. Sebastião. A acima relatada revelação untara-me de um vago misticismo pagão.
Embrulhado no toalhão de felpuda crina que nos ofereceu uma senhora muito
boazinha da Obra do Padre Américo que não perde um pobre, passarinhei descalço
& pingão até à estante onde nos existe & nos assiste outra santidade,
doméstica e máscula esta: São João Baptista da Silva Leitão de Almeida Garrett.
Sentindo-me o refulgente círio do olhar, logo esse meu adorado Cânone assim
para mim:
“Era uma ideia vaga, mais desejo que tenção, que eu
tinha há muito de ir conhecer as ricas várzeas desse Ribatejo, e saudar em seu
alto cume a mais histórica e monumental das nossas vilas.”
Santarém, queria
ele dizer – e disse – logo no capítulo primo das justamente célebres Viagens suas por arredores nossos. Num
arroubo profano, fui de responder-lhe que:
“Meu senhor Clássico, meu apogeu Romântico, meu
Primeiro Moderno: pois olha que Santarém continua tudo que dela disseste – Histórica de mais um século e mais seis décadas e
mais dois anos desde que te finaste; Monumental de ferrolhos caretas e de cerradas tranquetas; e Vila – pois que de citadino pendão tem tão-só o
vício administrativo e a canga fiscal, que, de resto, é mais brejo matoso de
esguedelhada erva daninha sem corte por quanto é sítio público: assim
conseguintemente, Santarém, de cidade, só a tarjeta autárquica e a clientela
viciosa e a indecorosa camarilha de lusitanóide costume. Capital do Ribatejo,
então, muito mais cada vez menos. Fica ciente. E o Vale da tua Joaninha cheira
a voadoras fossas ubíquas e a frades mal lavados. Ciente ficas, meu bom Joaninheiro.”
3 Enxuto finalmente, ornei-me de não possidónias
roupagens puídas mas limpinhas. (Ou limpinhas mas puídas – é conforme me dá na
resignação ou no desassombro.)
Deu-se-me então o
1.º Desastre. Ao vergar a mola mole do espinhaço para efeito de encruzilhação
dos atacadores sapatais, fendeu-se-me em irreversível rasgão a costura que vai
do cós posterior à base da braguilha. Senti logo a friúra da aragem nas
pudendas reentrâncias. Como só tenho aquele par de calças (descontando o de
casamento, que há trinta anos me não sobe o joelho, quanto menos içar posso à
ilharga), foi de calções de caqui cigano que saí à rua.
Deu-se-me então o
2.º Desastre. Ao lustral sol da praça já, lembrei-me do caldo ao lume. Aflição imediatamente
vascular-cerebral! Apocalíptica bofetada de arrelia! E exsudorífera agonia
fria. Deslarguei-me a correr de calções como se por milagre houvesse voltado a
menino. Não esperei pelo elevador. Galguei mas foi degraus & patins – não
aos saltinhos científicos à Nelson Évora, não, mas sim à marido de bombeira na
antemão de caçado em flagrante por fogo-posto ao próprio casebre. Na esfalfad’arfante
atrapalhação, deixei cair as chaves para aí umas setenta-e-catorze vezes.
Adentro já, a esconsa cozinha volvera-se numa ominosa espécie de sauna
crematória. Desfolhei do fogão a obstinada rosa do gás, deitei ao diabo o testo
da panela sem tempo para urrar o calão das queimaduras, espreitei o mais
actor-trágico possível: galináceo cremado, caldo evaporado e o fundo todo
esturricado. Moral da história já a seguir no ponto 4 e último:
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quinta-feira, setembro 15, 2016
Rosário Breve nº 472 - in O RIBATEJO de 15 de Setembro de 2016 - www.oribatejo.pt
Madrigal
Voltei
a despertar sem alarme e a levantar-me às seis da manhã. Durante o
aparentemente infindável Verão, tornou-se-me impossível tal madrugação. Estou
agora todavia pronto a retomar a vocação de guarda-matinas. É outra higiene
mental, garanto-vo-lo sem tretas. É vocação erma & linda.
A
cru, desjejuo a catacumba gástrica com um copo de água tépida. Deixo ferver no
vazio. A nutrição mastigante tem tempo. O mundo da Casa renasce entretanto em
tal singeleza, que nem de palavras precisa. Nem rádio, nem televisão, nem
computador. Para que raio me serviria saber da rotineira balbúrdia dos acessos
viários a Lisboa e Porto, igual todos os dias com seus toques por trás à
Rotunda do Relógio e/ou à Fábrica de Produtos Estrela? E dos famigerados
“mercados” abrindo em baixo hoje o que ontem fecharam mais abaixo ainda? Em vez
disso, passarada trabalhando música lá fora, isso sim. Descerro o estore, deixo
entrar o mercúrio frescote da primeira linha d’alva. Da cadeira do quarto, faço
por revertebrar as roupas quebradas, demando os sapatos desirmanados,
esqueço-me dos óculos afinal já postos ao norte da tromba.
As
decisões começam impondo-se-me já, porém. Raspar a barba hoje – sim ou não?
Calças de lavado? Se sim, as azuis ou as castanhas? Nestum ou resto da sandes de atum? E até que seja meio-dia –
Aquilino ou Cesário? Tudo opções com algum aparato de complexidade, que adio
para depois da chuveirada na carcaça.
Descaso-me.
À face oriental da ponte, sustenho a passada para arbitrar uma verbosa porfia entre
vendedeiras. Ao que percebo, receiam ambas (ou ambas desejam muito) vir a ser
comadres: o filho da das couves & a filha da das fanecas etc.-&-tal já
com bambino feito e a caminho. Alvitro-lhes que o melhor ainda seja esperar por
quinta-feira, dia em que o Jornal sai com a minha decisão por escrito. Acham-me
sensato. Isso maravilha-me: serão talvez as duas únicas mulheres do mundo a
achá-lo-me. Maravilhado, desando & sigo.
Os
expressos da Rodoviária disparam já à rosa-dos-ventos-cardeais. O de Lisboa
leva um pouco mais de maralhal do que os outros. O de Abrantes leva a velha dos
tremoços. O de Santarém acarreta sete ucranianos que vão para as obras das
barreiras mas, pelo que (não) ouvi dizer, se calhar vão mas é de passeio à
senhora-da-asneira. O de Coimbra não me leva.
Aos
poucos, a terriola fervilha quanto pode. Já há velhas-do-galão-margarina-no-pão
pelas pastelarias. Toxiarrumadores esbracejam já ao níquel no baldio que,
dizem, a Câmara não tarda muito a eriçar de parquímetros mamões. O cónego da Sé
paquidermandarilha com o breviário do Record.
Não
deram ainda as oito & meia, mas os panos de relva do Jardim, rociados ainda
do refrigério nocturno, surgem já esmaltados do sol salvífico. A estátua do
Poeta Oficial, devidamente cagada das pombas à imitação do que lhe fizeram à
Obra as moscas, boceja de bronze na praça das arcadas. Sob estas, tomam anis os
grossistas e ponche os retalhistas: de riscado, de tabaco, de faianças, de
retrosaria, de pitrol & de outros alternes com ou sem kizom(pim)ba.
Ao
quarto-para-as-dez, a madrugada é já uma improbabilidade crepuscular. O nervo
do dia tempera o aço da jorna. Um cantoneiro, furioso por ter tropeçado na
tampa de saneamento que o madraço do gajo das Águas deixou esbeiçada de
esguelha, vai ali à Alice Zarolha amandar-lhe c’um branco só por causa das
merdas. Da gaiola aberta do andaime, o pintor adere esfregaço de tinta areada a
uma empena de terceiro-andar. De patitas carcomidas pela própria dejecção,
pombas coxeiam como polícias reformados. Passa mais além, de rolos-projectos à sovaqueira,
aquele empreitovigarista que é amigalhaço do ex-cunhado do vereador que tem a
mulher metida naquilo do Gás. Carrinhos-bebés passeiam paridas-solteiras. Do
Anselmo das Bifanas mana um fio maravilhoso de petinga frita agorinha-mesmo que
nenhuma perfumaria de Paris pode alguma vez emular.
Parece
impossível: onz&quarent&sete são já elas. Campeio por berma-rio o
retorno ao casebre. Na passadeira, deixo passar, que vai doida, uma ambulância
de tal maneira aos uivos que deve ser um lobo a ir ao guiador. Quando meto a
chave à ranhura, soa a sirena da Cerâmica. Que fazer primeiro? A crónica ou o
almoço? Decido-me pelo raspar da barba, que hoje pode muito bem ainda vir hora
de ser visto pela Ermelinda (erma, linda), a quem nem Cesário nem Aquilino
aquentam ou arrenfentam, à semelhança do deitar-cedo-e-cedo-erguer, que a gente
um dia é toda morrer, case-se ou não o filho da das couves com a faneca da
filha da outra.
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ENCONTROS DE BOLSO - republicação de texto, agora como crónica n.º 11 da série CONTRA OS CANHÕES - in Quinzenário TREVIM (Lousã), edição de 15 de Setembro de 2016
Encontros de Bolso
Junta-se
um sem-fim de coisas nos bolsos. Cada um (não) sabe das suas. É preciso
despejar os bolsos de vez em quando. Caso contrário, o acumulado toma-nos conta
da vida.
Ia
eu no comboio descendente. Meti a mão ao bolso à cata de uma afiadeira.
Encontrei um lenço agora enxuto, resto mortal de um amor que deixou de valer a
pena molhar. Encontrei a chave de um carro que não tenho há muitos anos por me
ter esquecido de onde o estacionei. Encontrei uma unha que roí numa
quinta-feira do ano passado. Encontrei o calor da minha mão. Encontrei um peixe
que se tinha abrigado de não estar a chover. Encontrei um bilhete manuscrito
com a voz do meu Pai a dizer “há arroz de
frango está no fogão”. Encontrei o arroz, mas não o meu Pai. Encontrei uma
maneira diferente de escutar as árvores. Encontrei um pássaro desenhado a
feltro azul por uma estrela de cinco pontas. Encontrei uma estrela de cinco pontas
que era, a feltro encarnado, uma mão de menina. Encontrei uma carta
impreterível do banco. Encontrei a peça principal de uma máquina do futuro.
Encontrei uma ponta de cigarro fumado por outra boca. Encontrei um jornal publicado
antes de tu teres nascido. Encontrei duas folhas de árvore: a nervura de uma
indicava a certeza da morte, a transparência da outra demonstrava a necessidade
de nascermos. Encontrei um bilhete manuscrito com a voz da minha Mãe a dizer “se não quiseres o arroz estrela ovos não
sujes o fogão todo”. Encontrei a tatuagem do marinheiro que todos
deveríamos ter sido. Encontrei um brilhozinho nos olhos sem olhos. Encontrei o
mapa dos rios do sangue. Encontrei a visão aérea da solidão. Encontrei uma
pulga que fazia poupanças há quinze anos para comprar um cão maior. Encontrei a
fotografia que vê a minha irmã vestida de verde a olhar pela janela uma manhã
sem remédio.
Só
não encontrei a afiadeira com que costumo aguçar o lápis que escreve estas
histórias.
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Crónicas
quinta-feira, setembro 08, 2016
Rosário Breve nº 471 - in O RIBATEJO de 8 de Setembro de 2016 - www.oribatejo.pt
Utopias e boas
companhias
1 O senhor meu Pai
comprava todos os dias o jornal. Era o Diário
de Lisboa. Nenhum dos dois existe já. Era um senhor bom Pai. Era um senhor
bom jornal. Fui bem criado, pois: como filho e como leitor. Cheguei a desejar
escrever, um dia, naquele periódico. A realidade da extinção tornou-me
irrealizável tal utopia. Em compensação, escrevo aqui, nO Ribatejo. A vida não me foi madrasta de todo, portanto. Só tenho
pena de, chegando a casa, não poder mostrar ao meu Velhote as palavras que tão
boa companhia me fazem, a saber: as dos grandes Armando Fernandes, Arnaldo
Vasques, António Branquinho Pequeno, Beja Santos, Fernando Paulo Neves, João
Salvador Fernandes, Joaquim Jorge Carvalho, Mário Rui Silvestre e, de longe em
longe, Carlos Cruz e Carlos Chaparro. Mais o traço impagável do António Maia.
Mais tudo o que fazem os profissionais desta Casa.
Não
digo isto por mariquice sentimentalóide. Digo-o por gratidão. São quase nove
anos e meio de comunicação com as gentes leitoras de uma Região tão bela quão
mal aproveitada. Pronto, está feito e fica dito.
2 Derredor o meu par
de óculos, a Realidade quotidiana é insalubrezita. Muita (demasiada) gente sem
trabalho. As televisões industrialmente jorrando lixo. Lixo propriamente dito
pelo chão, manado por gentalha sem pinga de civismo nas ventas. Estoiros
rodoviários perfeitamente evitáveis. Incêndios criminosos. Coisas mal pensadas,
mal escritas & mal lidas. Um ror, enfim, de mediocridades que vou fazendo
por desprezar com a tranquilidade possível. Como não sou super-herói,
desforro-me na frequência agradecida de bons impressos, tais como: A Morte É um Acto Solitário, de Ray
Bradbury; Papéis Inesperados, de
Julio Cortázar; Silja, de F. E.
Sillanpää; As Grandes Correntes do
Pensamento Antigo, de Albert Rivaud; Las
Doctrinas Políticas en Portugal (Edad Media), de Francisco Elías de Tejada
Spínola; a maravilhosa Hélade,
compendiada pela também maravilhosa Doutora Maria Helena da Rocha Pereira; e
ainda, claro, o nossO Ribatejo.
Vou-me safando com algum garbo. Vou, vou.
À
maneira de despedida, sempre V. digo que, se me sair uma batelada brutal no euromilhões, reactivo o Diário de Lisboa e ponho-me Director
dele, para alegria secreta do senhor meu Pai. Há-de ser limpinho. Ou nunca, que
sempre é o mais certo.
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quinta-feira, setembro 01, 2016
Rosário Breve nº 470 - in O RIBATEJO de 1 de Setembro de 2016 - www.oribatejo.pt
Mas isto sem
enredos nem dramas
Durante
duas semanas, não soube que fazer nem da nem à minha vida – a quinzena de
descanso (aliás justo, merecido aliás) dos trabalhadores desta Casa fez com que
o meu trânsito temporal pelo tórrido Agosto equivalesse, ora nem menos, a um
ardente viático deserto sem fofuras frescas de oásis à miragem. Duas vezes sete
dias sem uma embirraçãozinha com a Câmara – caramba, sempre é estopada, sempre
é seca, é ferro sempre! Mas enfim, o Jornal está de volta. Vem arejado,
ourejado, bronzeado. Vem são como um bebé de boa casta e de rosada compleição
já muito capaz de seus gu-gus & de seus dá-dás.
Setembro
aí está. Hoje é o dia n.º 1 dele. Já se ouvirá roncar a maquinaria de
reconsolidação das barreiras? Daqui onde escrevinho, a não sinto. Talvez amanhã,
útil dia também. Cuido tão-só, riscando-me porém a papalvas facetas de ingénuo,
que à palavra dada se dê seguido acto – e que as orçadas obras arranquem sem
mais. Nem menos.
Nisto,
num sítio por acaso não longe daquele em que o meu Leitor me segue as linhas,
abeira-se-me um sujeito espadaúdo de que não conheço o nome mas cujos ademanes
reconheço. É de cabeça cúbica como uma esfera errada, carão de malares
metalúrgicos em que negreja um bigodão de crepe lutuoso, nariz esponjoso qual
framboesa feita de fígado, olhinhos desconfiados como pardais pretos e de
pescoço grosso sulcado de cordoveias sujas & fortes como lianas amazónicas.
No fundo como à flor, não é mau tipo. É apenas burro. É apenas mula. Gosta de
atirar trocadilhos sentenciosos mas fáceis do género: “É preciso mudar as coisas do Estado para mudar o estado das coisas!”.
Ou então paradoxozitos desta classe de pacotilha: “Isso foi gajo que até no morrer teve sorte!”
Ele
àquela mesa, eu a esta. Moita-carrasco
(sem flores de trocadilho) da minha
parte. Cúnfia nenhuma. Laissez-estar,
laissez-palrar. O gajo sente, manando de mim como uma febre electrostática,
um silêncio de espessura de edredão. Sorrelf’olha-me de oblíquo viés.
Desconfiado, ele – hoje em dia, escrever num Café sem ser no tablet ou no telelé mas sim, ainda por cima, a caneta e em papel – pode ser de
grande melro, mas não grande espingarda. Sinto-o presa agónica de uma ardência
comichosa. Herpes da mente, urticária da alma, psoríase da perguntação, frieira
do diga-me-cá. Incapaz de açudar a torrente daquilo que matou o gato, vozeia-me
ele:
–
Você desculpe, mas isso aí da escritura é
mais nódoa atirada ao pano do sôprezdentedacambra ou quê?
Tiro
os óculos para o ver mal e, sem uma palavra, meneio o capacete que não.
Mas
ele:
–
Você desculpe se quiser, mas é qu’isto
tem sido das suas partes um inzajêro, qu’ele é o home’ nas procissões todas
imaizalgumas, el’é ele a birabaixo nas barreiras, el’é ele a deixar sujar o
Tejo como se o Tejo num tibesse auga suficiente pa’ se lavar, el’é ele tudo e
todo por coisa nenhuma.
Mazeu, sempre
assilábico, de uma afonia manhosa sempre, escorneio o meu casco – que não.
Acalmado,
o bigodão então assim para mim:
–
Bom e bem-haja atão assim, q’atão assim é
bem melhor. Em-fim, sempr’aforam duas semanitas estas de quétude & sossego,
pois atão num foram?
E
eu (ou: mazeu), resguardando-me a
caneta & guardando-lhe rancor, abandono o proscénio, sem nódoa que caia
onde
CAI
O PANO.
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POUCA TERRA, MUITA TERRA - crónica in Quinzenário TREVIM, edição de 1 de Setembro de 2016
Fotografia de Helder Jorge Tomás Medina
Pouca terra, muita
terra
Li,
reli e não tresli: “Plano regional de transportes ignora Ramal da Lousã”. Vinha
no nosso TREVIM de 18 de Agosto último. Parece que uma tal “Comunidade
Intermunicipal da Região de Coimbra”, fundamentada numa remota empresa de engenharia
do Porto, a “TRENMO”, nem pia sobre a autêntica ferida aberta que continua a
ser a suspensão do serviço ferroviário de Coimbra a Serpins.
Para
mim (como decerto para milhares de cidadãos mais), isto é mais do que mera
incompetência política. Isto roça a irresponsabilidade criminal. Num português
vazio, bem pode a papelada do “Plano Intermunicipal de Mobilidade e
Transportes” apregoar a “necessidade de uma inversão da quebra de
competitividade do sistema de transporte público”, agitando a bandeirinha
retórica do “aumento da eficiência, eficácia, competitividade e conveniência” –
tretas, digo eu: tretas. O que queremos todos é o comboio de volta. Chamem-lhe
“metro”, chamem-lhe o que quiserem – qual seja o nome, queremo-lo de volta
porque é nosso e porque não é um capricho mas uma necessidade crucial que em
outros melhores tempos tínhamos por satisfeita.
Setembro
tem de ser o mês em que a iniciativa do TREVIM seja ouvida, lida & e tida
em devida conta. A petição pública pela reposição do serviço rodoviário do
Ramal da Lousã é de uma qualidade democrática cada vez mais rara nestes tempos
de esvaziamento cívico e de estupidificação massiva. A linha está bem.
Reponham-se os carris onde criminosamente foram arrancados. E que rolem cabeças
até que de novo role o serviço de boa memória. Memória oxalá que futura.
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quinta-feira, agosto 04, 2016
Rosário Breve nº 468 - in O RIBATEJO de 4 de Agosto de 2016 - www.oribatejo.pt
Um jantar românticochon
ou
Crónicóinc
1 Extravagância rara
mas perdoável, a minha Senhora & eu fomos, por uma destas cálidas noites do
corrente Estio, jantar fora. Andáramos meses amealhando moedas esquecidas. A
hora boa era boamente ora. Lá fomos, carregadinhos das moedas.
Ampla,
a esplanada era toda de távolas amarelas com réclame ao chá gelado da moda. Derredor, falava-se muito francês
com sotaque de Alpiarça. Hordas gordas pastavam com afinco. Tudo entrava à base
de azeitonas roídas de coentros alhados e rijinhas ao dente, queijinhos de
saudades do da Serra, pâtés de
sardinha moída e/ou de atum cirrótico. Atafulhadas de vaporosa legumagem,
travessas-inoxes exclamavam ricas
fumegações de cozido não-pobre: unha, costela, morcela, linguiça, orelha,
farinheira, pesadelos tudo do maralhal islamita. Bêbedas de vinha-de-alhos,
caçoilas de barro preto chanfanavam capitosamente o ar nasal. Nacos de
bacalhau, espessos como dicionários do bom tempo pré-AO/90, rangiam fofuras
ébrias de azeite. Garoupas & robalos decapitados rogavam tão-só, no que prontamente
eram deferidos, que os imolassem sobre cama de arroz-de-espigos levado ao
forno. Míseras delícias, enfim, desta vida de uma-noite-só-por-ano, que uma
noite não são dias. Estar vivo era quanto bastava para ser um bocadito feliz
sem remorso. Foi então que.
2 Foi então que se
deu aquilo dos porcos. Estávamos todos tão bem da vida como parágrafos abertos
e fechados em torno de um segredo bom. Mas então – os porcos. Passou-se que uma
viatura de transporte de animais vivos estacionou à face da esplanada. O frete
era de suínos-recos-javardos-grunhos-tós. Uma caminéte de porcos, pronto. E de pronto o ar se saturou do pungente
perfume da merda mais viva, mais penetrante, mais perfuradora & menos
tolerável da nossa vida. Nossa, de todos. Senhoras começaram a gasganetar a
bola da mastigação. Criancinhas ficaram de olhos húmidos como estrelinhas do
Natal. A minha Graça começou a dizer mal do casamento que fez. E eu esfreguei
as patitas de pateta contente: (“Já tenho
crónica, caraças! Já tenho alegoria, carago!). E era que tinha. E é que
tenho.
3 Tenho, tenho – esta
assim, quereis ver/ler? Sei bem que quereis. Cá vai: a risível mas triste
historieta do nosso (meu & da minha Senhora Esposa) jantar romântico é
muito cotejável ao que ali por bandas de Torres Novas em má-hora acontece. Mais
explicitamente: naquele afluente do Rio Almonda a que por triste ironia chamam
Ribeira da Boa Água. A diferença entre o meu jantar à beira de porcos parados e
a desgraça criminosa daquelas paragens está nisto: no meu caso, os porcos estavam
quietos; no caso do Almonda & demais afluentes do pobre Tejo, os porcos não
apenas se mexem como agridem as pessoas de bem que vêem a Natureza não como
aterro ou esgoto mas como Casa de Todos. Está dito, está dito: e nas fuças dos
porcos bípedes, covardes & covardes & porcos.
4 Moral da alegoria?
Nenhuma. Nem tirando o O a alegoria
pode dar alegria. É muita tristeza
junta. É muita impunidade à solta. É muito ganancioso sem uma cadeirita de
ferro pela corneta abaixo. Até que um dia o Diabo se lembre de lhes ser bom.
5 Por falar em Diabo,
o diabo do porqueiro lá comeu felizmente depressinha (tinha vindo só para uma
bifana no pão com um quartilho de branco-de-cozinha) & cá nos desamparou a
loja. A vicissitude mal-odorosa refez-se, rarefez-se &desfez-se. Pagámos
& desandámos. Vim para o carro com um sorrisito mefistofélicozito. E a
minha Graça assim p’ra mim: “Já tens
croniqueta, malandrim!...”.
E
era que tinha. E não é que tenho?
ALEGORIA VENATÓRIA - crónica in Quinzenário TREVIM, edição de 4 de Agosto de 2016
Alegoria venatória
1. Esta que passo a contar-vos para efeito de alegoria passou-se mesmo. Mais do que verosímil, é verídica. Bebi-a de fonte limpa. Passou-se pois o acontecido assim:
2. Por certas matas & brenhas do nosso distrito, um homem tinha por uso andar na companhia de seus cães no intuito de apanhar coelhos silvestres para o tacho. Era caça sem licença e sem espingarda. Os rafeiros, exímios farejadores, davam conta do recado às mil maravilhas. O homem só tinha de fazer de batedor. Do resto, tratavam os patudos. Durante não contados tempos a fio, não faltou chicha orelhuda & roedora àquele caçador sem pólvora nem chumbo. Ora, como tantas vezes nesta vida, o êxito particular foi pai de invejas públicas. Aquela cinegética artesanal, coroada como era de tão clamorosa recompensa petisqueira, caiu mal no goto de uns quantos sicofantas. Como “sicofanta” significa “delator”, os meus Leitores já estão a ver o que aconteceu: o homem foi denunciado às autoridades. Em consequência, veio a Venatória. O caçador passou a caça. Seguiu-se o seguinte: devidamente mandatados para o efeito, dois fiscais puseram-se a pé por aquelas brenhas & matas até darem com ele. Isto é, com eles: o dono dos cães e os cães propriamente ditos. Caçaram-no sem procurar muito. Foram direitos a ele & ao assunto: “Então o senhor anda por aqui aos coelhos sem licença, sem caçadeira e fora de época ainda por cima?”. Arvorando um ar seráfico de virgem que nunca sentiu bafo de macho, o homem contestou-lhes isto: “Eu? Eu népias disso. Ando por aqui às pinhas, só isso.” E os guardas: “Às pinhas? Então e os cães são para quê? Para farejar os pinhões?”. E o homem: “Cães? Mas quais cães?”. E os guardas: “Esses mesmos que estão aí a dar ao rabo junto a si, homem!”. Sem se desconsertar, respondeu-lhes o ladino: “Mas ó ‘sôs’ guardas, os cães nem são meus!”. Insistiram os fiscais: “Não são seus? Então por que raio andam eles por todo o lado atrás de si?”. Foi então que o homem lhes lançou esta pérola: “E ‘atão’? Vossemecês os dois também andam atrás de mim mas não me pertencem, pois não?”
quinta-feira, julho 28, 2016
Rosário Breve nº 467 - in O RIBATEJO de 28 de Julho de 2016 - www.oribatejo.pt
Terrorismos
estivais
1 O terrorismo não se
esgota nos atentados suicidas, nem no fundamentalismo mascarado de religião, nem
no maniqueísmo simplista nós bons/eles maus. Ah pois não. Ele há mais
terrorismo. O das famigeradas “sanções” da alegada União supostamente Europeia,
por exemplo. Intolerável ingerência na soberania de cada Estado mais
“periférico” (isto é: tudo o que não é Paris, não é Bruxelas & não é
Berlim), todo este aparato dos “défices estruturais” e da “Dívida” traz água
estragada no bico. Para mim, é terrorismo. E não costumo enganar-me nas
palavras que uso.
2 Outro terrorismo: a
Corrupção. Ela é o fascismo de colarinho-branco. É também & ainda, por
dentro da Democracia, o mais voraz inimigo dos direitos básicos que são a
própria essência da dita. O direito ao trabalho, o direito à justiça, o direito
à saúde, o direito à educação – tudo é quotidianamente minado e apodrecido em
consequência do que por aí vai de gente vil, sem uma pinga de vergonha na cara,
que infesta a banca. Por exemplo, a banca – claro que articulada com a sabujice
de certa política. O clientelismo amiguista à portuguesa prima ainda, todavia,
por um outro fenómeno iniludível. Este aqui: uma substancial porção do povoléu
não deixa de sentir admiração pelos agiotas que roubam, pelas gravatas que
garrotam, pelos euromilhões públicos gamados à escala industrial. É verdade:
muito portuguesinho médio sente a sua veneraçãozinha pelos manhosos cujas
roubalheiras tornam o erário público numa gamela a céu-aberto & à
boca-fechada. Reforço & repito: há por aí muito Zé-Ninguém que gostaria de
volver-se Zé-Alguém, não pela justa recompensa de um trabalho justo, mas pelo
“esquema”. Haverá por aí algum Leitor meu que não conheça alguém assim?
3 Termino por esta
semana com uma confissão: cada ano que acumulo, o Verão torna-se-me mais
intolerável. A inflação centígrada dos últimos dias tem-me tornado um bicharoco
recluso cozendo à sombra dos quarenta graus. Amanheço a desejar a noitinha.
Jornada é fornada. No céu sem fronteiras, o grande Sol, rei ímpar, dardeja uma
violência que calcina. Antigamente (falo por mim, só por mim), era uma estação
bem-vinda. A trégua escolar chamava & juntava os grandes ócios maravilhosos
de ir à fruta, ao rio, à mata, aonde o nariz livre apontasse. Aos 52 anos, sou
um velhinho transido de calor que quer tão-só esses estores bem descorridos
para baixo, essas cortinas bem encerradas, a casa tornada mosteiro de pedra
fechada à violência solar. É como se o Sul da Europa tivesse sido tragado para
sempre pelo Norte de África. Ou por Berlim. E ainda temos Agosto aí à porta,
raios o partam.
quinta-feira, julho 21, 2016
Rosário Breve nº 466 - in O RIBATEJO de 21 de Julho de 2016 - www.oribatejo.pt
De milhões &
anos aos trinta de cada vez
1 Se, como desde
sempre planeei e planeio, conseguir viver aritmeticamente um ano mais do que os
77 totalizados pelo senhor meu Pai, em 2042 estico os pernis. E hei-de
esticá-los pela mesma ordem com que, vivo, os enfio nas calças: primeiro o
esquerdo, depois o outro, depois o outrinho. Se assim for & vier a ser,
isto significa que hei-de estar bem morto há já três anos quando se cumprir o
multimilionário tridecénio de investimentos agora publicitado pela empresa municipal
Águas de Santarém. Mas – ou muito me engano ou nada me deixo enganar: ainda por
cá hei-de andar de escorreitos costados sem que ninguém por então se lembre já
deste Excel muito giro de 30
milhões/30 anos.
Quê?
929 mil ainda este ano? Quê? Milhão e ½ em 2017? Quê? Um milhão vírgula quatro
em 2018? Pergunto eu: e haverá ainda Tejo para tanto milhão pingão? Hum. Estou
como as galinhas: adoptei esta postura. Hum. Parece-me que isto é mais dar com
os burros nas águas (de Santarém) de bacalhau. Hum. Isto parece-me pueril
irresponsabilidade dos miúdos camarários.
2 Entrementes, Passos
Coelho, ubíquo & exasperante como a micose, anda por aí angustiadamente
angustiado à trela das consequências indivíduo-sociais do peso dos impostos
& da tonelagem da austeridade obrigatória. Anda, anda. Hum. Cheira-me a
ressabiado. Digo(-to) eu, Pedro: é preciso ter(es) uma cara de pau emoldurando essa
boca de caruncho. Ou então um coração vácuo. Ou então um sótão craniano sem
inquilino encefálico. Ou então isso tu(do) segregando o nada de tu(do) isto.
3 Mas por ora, aí o
temos, qual a colossal livro – o Verão, cujos dias facilmente são páginas
brancas, que não em branco todavia, antes sim varadas de caracteres
iridescentes, antes sim ilumin(ur)adas de mísseis florestais despenhando-se
perpendicularmente no mar do céu. As praias fervilham de celulites apetitosas
como cascas de laranja espremidas a leite. Pelo entardenoitecer, numa
conjuração de violetas à la pintor
paisagista, as pracetas juncam-se de vestidos leves à pele de ginotortulhos
pesados mas gráceis, mas levitantes, mas torrados do iodo do dia solar &
platinados do luar perpétuo-enquanto-dura do comércio sazonal. O Império
Salazar-Colonial sobrevive no casamento da sardinha assada com a caipirinha
enregelada. Celebridades instantâneas como o AVC & como o Algarve publi’xibem
as pernas magriças à maneira de estacas palafíticas & enchumaçam as mamonas
moles injectadas em vão de silicone amolgado de tanto zezé-camarinha de
taxímetro fodilhão-local. Mas ora mirai: o autarcazito íncola de BTTcicleta
fazendo zig-gincana-zag pelas palmeiras de plástico que à pressa mandou plantar
à frente do aterro a céu-aberto. Oh sim! O Verão é bom! É bom como um sonho que
só há-de acabar quando nos esquecermos de que dormimos a vida.
4 Por falar em vida,
não sei se já Vos disse que conto tê-la, à vida, e ela a mim, por mais 26 anos
de hoje em diante. Dito assim, parece o que é: pouco. Mas ao menos não me há-de
custar um milhão por ano, como parece querer fazer-nos crer aquela miudagem
prestidigitadora do Excel (nunca Excelente) que me(n)tem águas &
milhões à frente de burros, bacalhaus, coelhos & demais patetas
arvoradamente bondosos – tudo malta a quem, malgré
tout & enfim, desejo Verões enxutos & sonhos molhados até ao feliz
ano 2045 de vez & para sempre sem mim, página que hei-de ser, limpa &
finalmente, em branco.
Rosário Breve nº 465 - in O RIBATEJO de 14 de Julho de 2016 - www.oribatejo.pt
De milhões &
anos aos trinta de cada vez
1 Se, como desde
sempre planeei e planeio, conseguir viver aritmeticamente um ano mais do que os
77 totalizados pelo senhor meu Pai, em 2042 estico os pernis. E hei-de
esticá-los pela mesma ordem com que, vivo, os enfio nas calças: primeiro o
esquerdo, depois o outro, depois o outrinho. Se assim for & vier a ser,
isto significa que hei-de estar bem morto há já três anos quando se cumprir o
multimilionário tridecénio de investimentos agora publicitado pela empresa municipal
Águas de Santarém. Mas – ou muito me engano ou nada me deixo enganar: ainda por
cá hei-de andar de escorreitos costados sem que ninguém por então se lembre já
deste Excel muito giro de 30
milhões/30 anos.
Quê?
929 mil ainda este ano? Quê? Milhão e ½ em 2017? Quê? Um milhão vírgula quatro
em 2018? Pergunto eu: e haverá ainda Tejo para tanto milhão pingão? Hum. Estou
como as galinhas: adoptei esta postura. Hum. Parece-me que isto é mais dar com
os burros nas águas (de Santarém) de bacalhau. Hum. Isto parece-me pueril
irresponsabilidade dos miúdos camarários.
2 Entrementes, Passos
Coelho, ubíquo & exasperante como a micose, anda por aí angustiadamente
angustiado à trela das consequências indivíduo-sociais do peso dos impostos
& da tonelagem da austeridade obrigatória. Anda, anda. Hum. Cheira-me a
ressabiado. Digo(-to) eu, Pedro: é preciso ter(es) uma cara de pau emoldurando essa
boca de caruncho. Ou então um coração vácuo. Ou então um sótão craniano sem
inquilino encefálico. Ou então isso tu(do) segregando o nada de tu(do) isto.
3 Mas por ora, aí o
temos, qual a colossal livro – o Verão, cujos dias facilmente são páginas
brancas, que não em branco todavia, antes sim varadas de caracteres
iridescentes, antes sim ilumin(ur)adas de mísseis florestais despenhando-se
perpendicularmente no mar do céu. As praias fervilham de celulites apetitosas
como cascas de laranja espremidas a leite. Pelo entardenoitecer, numa
conjuração de violetas à la pintor
paisagista, as pracetas juncam-se de vestidos leves à pele de ginotortulhos
pesados mas gráceis, mas levitantes, mas torrados do iodo do dia solar &
platinados do luar perpétuo-enquanto-dura do comércio sazonal. O Império
Salazar-Colonial sobrevive no casamento da sardinha assada com a caipirinha
enregelada. Celebridades instantâneas como o AVC & como o Algarve publi’xibem
as pernas magriças à maneira de estacas palafíticas & enchumaçam as mamonas
moles injectadas em vão de silicone amolgado de tanto zezé-camarinha de
taxímetro fodilhão-local. Mas ora mirai: o autarcazito íncola de BTTcicleta
fazendo zig-gincana-zag pelas palmeiras de plástico que à pressa mandou plantar
à frente do aterro a céu-aberto. Oh sim! O Verão é bom! É bom como um sonho que
só há-de acabar quando nos esquecermos de que dormimos a vida.
4 Por falar em vida,
não sei se já Vos disse que conto tê-la, à vida, e ela a mim, por mais 26 anos
de hoje em diante. Dito assim, parece o que é: pouco. Mas ao menos não me há-de
custar um milhão por ano, como parece querer fazer-nos crer aquela miudagem
prestidigitadora do Excel (nunca Excelente) que me(n)tem águas &
milhões à frente de burros, bacalhaus, coelhos & demais patetas
arvoradamente bondosos – tudo malta a quem, malgré
tout & enfim, desejo Verões enxutos & sonhos molhados até ao feliz
ano 2045 de vez & para sempre sem mim, página que hei-de ser, limpa &
finalmente, em branco.
Republicação de O Caso da Moral da Porca - in Quinzenário TREVIM, edição de 21 de Julho de 2016
O CASO DA MORAL DA
PORCA
O
meu vizinho tem uma porca que escapou à morte por causa do cio. Foi ele, não
ela, quem mo disse. E eu acreditei e acredito. Acredito mas penso. Várias
coisas.
Penso
que, afinal, o sexo não é a porcaria que dizem. Pelo menos a partir de sábado
passado, dia de matança que não foi de matança.
Reparei
há muito no facto português de as quatro letras da palavra “amor” serem as
quatro primeiras, também, de “a morte”. Mas isso é ortografia nacional. Este
caso da porca ciosa (que se chama Ruça mas é branca e rósea como uma solteirona
involuntária) levou-me para outros aléns pensativos. Mesmo. Muito.
Perguntei
ao meu vizinho como é que ele sabia. Que ela, enfim, estava “saída”. Ele
respondeu: “Anda distraída. E despreza o comer.” Fiquei maravilhado. O povo é
deveras o maior sábio. Porque eu quis ver a Ruça. E vi: estava distraída. No
olhar, aquela ausência mística de actriz de telenovela. No grunhir, aquela
surdina que nasce das trompas do sul do corpo. No mexer, aquela preguiça
enérgica de quem iria mas não vai porque só ia se fosse. Na hora, aquele
instante de quem, estando ali, estava acolá, perfumando de alma uma essência de
corpo, tendo “corpo”, por outra ordem, as mesmas letras de “porco”.
A
Ruça não foi abatida no sábado passado. E não o será enquanto estiver como
está. O que é bom para os porcos, penso ainda, também há-de ser bom para as
pessoas. Sobretudo a moral. Que é esta: se sentirmos a morte por perto, o
melhor é comer pouco. Comer pouco e distrairmo-nos muito. O mais possível.
quinta-feira, julho 14, 2016
Rosário Breve nº 465 - in O RIBATEJO de 14 de Julho de 2016 - www.oribatejo.pt
Crónica chocalhante
Raramente
vou a hipersuperfícies comerciais. Aliás, nunca vou – levam-me. Não é por
religião, não é por intelectualite – é só porque não & apenas porque sim.
Quando quero ver rebanhos, vou à serra ou ao campo. A frívola transumância humana
não me atrai. Na terça-feira, todavia, lá fui a uma hipercoisa dessas. Fui, não
– levou-me a senhora minha mulher.
Era
o que tinha de ser: um antro plástico cromado, espécie de nave colossal cujas
entranhas estão fechadas ao sol. Roupa com palavras inglesas. Crianças clonadas
a partir de matrizes tv-formatadas. Casais-carrinhos, todos com evidências de
terceiras ou quartas-núpcias. Velhas pintadas como galos-de-Barcelos. Avôzinhos
que vêm trocar dois meses de reforma por um par de sapatilhas xispêtêó para o
netinho-nike. Máquinas rápidas. Salários-mínimos basbacando ante montras de
inutilidades faustosas. Cuecas de marca mais caras do que o meu fato de
casamento. Balões sem infância. Nenhuma igualdade, mas tudo igual. Tudo
idêntico, mas sem identidade. Aborreci-me.
O
paliativo foi ir para a zona dos fumadores, que é na rua. Os imortais, vulgo
não-fumadores, ficaram todos lá dentro, enferrujando nos curros inoxidáveis. Cá
fora, em torno & no subúrbio dos dois cinzeiros verticais de boca larga,
éramos sete.
Éramos
os sete: este Vosso servidor, a cavalo de um Camel; mais uma ruiva de mentira-coiffeur que chupava uma palhinha
branca de filtro asséptico; mais um gordo de ar triste que levava a
cigarrilha-creme à boca como se martelasse uma cavilha nos queixos; mais um
magriço com ar de médico arrependido de não ter estudado poesia trovadoresca
fumando Português Suave; mais um que
trabalha como acordeonista numa escola de cegos & fumador de Kentucky; mais uma mulata esplendorosa
(esplendor de rosa) de olhos verdes & de para aí uns sete metros de altura
mais uns dois de peito fumando Dunhill;
e ainda um rapazito inquieto que esperava acabássemos de fumar sem ser até à
beata para poder fumegar, ele também, qualquer coisita.
Era
a Modernidade. A Europa. A Social-Democracia-Cristã. O Futuro. O Bocejo. Valeu-me
a volta da mulher minha senhora.
Era
já o entardenoitecer. A brisa refrescava a visão de salgueiros beira-fluviais.
Decidimos não ir logo para casa. Por um destes caprichos que de motivo não
precisam & razão não usam, cirandámos a brando gasóleo pelas cercanias
pós-municipais. Almejámos um tasco rural onde costumam acender carvão debaixo
de peixe fresco. O vinho branco da casa, apalhetado de riscas oblíquas que
ouriçam o palato, espuma de capitosa epilepsia pela boca bojuda do jarro de
louça. Acampámos cá fora, entre grades vazias e operários cheios de fadiga sã.
Nisto,
deu-se música natural. Espreitámos: balindo chocalhos, um rebanho tornava às
cortes ao cabo de um dia de prado. Cão & pastor saudaram à passagem – o pastor
levando indicador e médio à boina, o cão mijando na roda da carrinha do
padeiro.
Pois.
É mesmo verdade. Raramente me deixo hipercoisificar. E não é por religião, nem
por intelectualite – é só porque nem mé nem meio mé.
quinta-feira, julho 07, 2016
Rosário Breve nº 464 - in O RIBATEJO de 7 de Julho de 2016 - www.oribatejo.pt
Ver para querer
Revisito
com regularidade o século passado. Faço-o menos por nostalgia do que por
necessidade de uma arqueologia crítica do presente. É uma demanda – mas não uma
demanda temerária ou templária. Chamemos-lhe curiosidade.
Num
clarão, eis-me em pleno Terreiro do Paço. Mataram ainda agora o Rei. A
barafunda silva de espadeiradas aleatórias da guarda, de desmaios de senhoras,
do tropel caótico dos basbaques. A Rainha esbraceja o ramalhete de flores
furiosas. A cena sossega depressa – como tudo neste País.
Noutro
flash, ardem ao sol cru os
latifúndios cerealíferos a Sul. O território refracta a luz intensíssima: é uma
insolação de miragem, uma hipnose eléctrica, um estupor de sobrevivência.
Freima de cigarras. Pouquíssima gente – e uma árvore solitária aqui, outra
quase em Espanha já.
Amordaçadas
as carbonárias e as maçonarias, resultou em pleno o contragolpe católico
daquilo de Fátima. Ao frenesi esquizo da I República, sucede a paz podre do
cinzentismo totalitário. Embarca-se muito para outros morredouros: áfricas,
brasis, cus-de-judas sem retorno.
Mas:
Que será isto tão cedo na madrugada? Carros pesados saindo de Santarém. Aonde
será a romaria? Lisboa. Cercar os mouros. Contemporaneidade de cravos &
pides. Não matam o Rei, desta vez. Brandura. Ligeiro desassossego
dUSAmericanos, que o Carlucci e o Soares consertam depressa. Europa nos
Jerónimos. Primeiras hipersuperfícies. Jornais em sacas plásticas.
Inteligências idem.
Ano
2000. Afinal não acaba o mundo. Nem a superstição. Acabam só o século & o
milénio. Mais máquinas para comunicar, menos comunicação pessoal.
Ensimesmamento da tecnojuventude, autismo dos explorados. Um por cento a lixar
os restantes noventa e nove. Ná – melhor voltar ao ponto de partida.
Terreiro
do Paço. Levaram já para o Arsenal o Rei, o Príncipe Herdeiro e os dois
Matadores. Dão sais ressuscitadores às senhoras. Canadas de aguardente fervem
nas tabernas. No Tejo, as barcaças amarradas quási não ondulam. Sabe-se
difusamente que alguma coisa mudou para sempre. E essa coisa é o fim da
inocência que nunca houve.
Vem
a Grande Guerra. Mal preparada, mal equipada, lá vai a expedicionária
carne-para-canhão. La Lys. Heroísmos de pandeireta. Anonimato dos mortos aos
milheiros. Vem a nova Guerra Grande. Desta vez, a populaça abriga-se na frígida
sacristia em que o País se tornou. No campanário, o Mocho-Mor treme: que
(des)farão do meu fascismozito de missal? Nada. O penico ibérico das duas
ditaduras pode continuar a receber a mijoca da indiferença mundial.
Mas:
Que será isto tão cedo na madrugada?
Carros pesados saindo de Santarém. Aonde será a romaria?
Sim.
É com regularidade que revisito as catacumbas. O histórico não é morto. Nem é
palavra vã. É preciso saber como foi, como deveria não ter sido. E como pode
ainda ser.
Estabelecido
isso, é esfregar a vulgata da consciência nas fuças dos Alemães. A começar,
pelos Alemães. E a continuar por onde quisermos.
Se
quisermos.
Quando
quisermos.
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