quinta-feira, março 19, 2015

Rosário Breve n.º 399 - in O RIBATEJO de 19 de Março de 2015








Santo da casa

É inelutável: com a idade, vamos todos volvendo-nos cacos arqueológicos que já só sonham com cola. É da lei natural, tal ocaso cerâmico. Não me queixo delas: nem da lei, nem da idade. No geral, sinto-me até sofrivelmente feliz da e com a vida. Entre o 11 de Junho do ano que estiver em curso e o nono dia do mesmo mês do ano seguinte, vivo em razoável paz com a minha arqueologia portátil. O meu único desassossego é cada 10 de Junho. Cada ano, e por essa data exacta, temo (e tremo) à força toda que o Cavaco se lembre de medalhar-me entre fachos de espada à cinta e come(nda)dores de lautos bolos pagos pelo erário dos tolos. Ou que, caco escaqueirado que cada vez mais sou, o senhor de Boliqueime me etiquete a lapela com um daqueles camafeus (para lhes não chamar broches, não os da oral sucção erógena mas os penduricalhos heráldicos) geriátrico-museológicos de que ele mesmo é já figurativo paradigma de não despicienda evidência.
O 10 de Junho patrioteiro é o Natal dos pançudos que sentem um nojo invencível pelos cristos esqueléticos. É a Páscoa dos imoladores de cordeiros em nome dos deuses de si mesmos. É o Ramadão do jejum dos outros. É a Torah dos mosaicos caça-níqueis. É o Carnaval dos Infiéis ainda não Defuntos. E é uma tragifarsa que me sarapinta a alma de uma invencível pitiríase versicolor contra que não encontro em lugar algum qualquer unguento de largo espectro de acção fungicida.
Pretendo, todavia, perorar-vos agora a propósito de algo bem diferente. De algo, não - de alguém.
Mais de seis décadas a fio, foi, sem metáfora, cerâmico. Pintor cerâmico. Invencíveis eram a finura do seu traço e a fineza do seu trato. A filete de ouro, debruava em perfeito torno circular o rebordo pousa-lábios da chávena de fina faiança. Esponjava a seco a puríssima e alvíssima nuvem branca no céu azul(ejo). Agnóstico por lucidez, a chacota ou sobre vidrado gravurava painéis em que pontificavam os santos simples e humildes tão ao gosto dos crentes humildes e simples também: São Pedro com suas chaves, D. Fuas acossando o veado, Santo António reparador de bilhas e de hímenes, a Rainha Santa prestidigitadora de pão e rosas, o São José a fazer de padrasto manso, a Sãozinha da Abrigada, o mansarrão Padre Cruz, o Irmão Doutor Souza Martins dos milagres de cera e mármore cuja estátua ainda hoje pontifica no olissiponense Campo de Santana, hoje dos Mártires da Pátria.
Nenhum 10 de Junho, muito menos Cavaco algum, o poderia macular, a esse operário-artista, de falso preito o peito. Nunca.
Esse pintor era o senhor Daniel. Meu Pai. A morte dele escaqueirou-me, é verdade. Mas a memória dele é a minha cola de cada dia. Por quanto neste mundo é sítio, é por senhor Daniel que hoje a mim me tratam.
 Por isso lhe escrevi isto:

O senhor é o meu Pai.
Nada me faltará.

 

quinta-feira, março 12, 2015

Três crónicas mais recentes, sempre em O RIBATEJO - www.oribatejo.pt

12 de Março de 2015



Portugal über alles

O (grande) actor Jeremy Irons afirmou recentemente numa entrevista que, após ter promovido e perdido duas guerras mundiais no século XX, a Alemanha voltou à carga – mas desta vez para vencer. É uma guerra sem trincheiras, sem tanques, sem aviões e sem capacetes à vista. Mas é uma guerra – a económico-financeira. Pode não ter sido por estas palavras, mas foi neste sentido. Infelizmente, só posso concordar com ele.
É por isso que o que se passa com a Grécia me faz bem. Duvido que tudo aquilo dê grande coisa. Mas se der alguma, nem que seja pequena, já não é nada mau. A autoridade do Estado e o poder dos cidadãos raras vezes são coincidentes. Aquela sobrepuja este quase sempre. Até que. O caso helénico pode ajudar os espoliados (os da Europa pelo menos) a bater o pé, e com estrondo, no chão continental.
Circunstâncias minhas têm-me levado a ser mais sensível (e mais vulnerável) às misérias que por aí grassam. Quando digo “por aí”, digo Portugal. É o sítio que me importa. Para mim, e por assim dizer, Portugal über alles.
Hordas de desvalidos inçam as artérias. A maioria é de pedintes que não pedem, mas um gajo topa logo que ali anda e vai a desesperança irremediável. Já não se trata da cómoda, livresca e afrancesada “angústia existencial” das filosofias de badana. Não. É angústia a sério. É estreiteza de tudo: de garganta, de bolso, de futuro. (E angústia e estreiteza são de íntima conexão etimológica – não há coincidências nestas coisas).
Pois é, tenho andado mais permeável à arrepiada e arrepiante dramaturgia social. Talvez por uma questão de espelho. Há dias poucos, sentei-me num muro que beira uma encruzilhada urbana. Ena, tantos eus! Houve aqui alguém que se enganou. E que foi enganado. As duas coisas complementam-se. E no fim ganham os Alemães, como na bola.
Deveríamos, acho eu, ver-nos gregos. Primeiro, correr com esta seita seguidista, acéfala e invertebrada que não conhece nem reconhece pessoas, só números. (Curioso: no preciso momento em que escrevo, o ministro da Saúde debita minudências vãs numa comissão parlamentar da especialidade. Mas há tempos, ali para o Baixo Vouga, uma velhota de 92 anos esteve três dias esticada numa maca, consciente sempre, à espera de uma urgência utópica.)
A nossa bancarrota começa por ser moral. Depois, é de batatas em casa. O trabalho é encarado pelos empregadores como um luxo odioso. Se não o trabalho, então o salário. Olhai o ataque que por aí vai à contratação colectiva. A banca é o que todos sabemos: um antro infecto de ladrões, pandora de ali-babás. E as ruas enegrecem como se fechadas ao céu.
A vida anda a doer-nos de mais. A mim, anda. Coisas minhas, é certo, algumas das quais, todavia, se irmanam às dos meus compatriotas. Dos meus compatriotas, chamemos-lhes assim, portugregos.
Que uma vez mais e ainda, no fim, percam os Alemães. E que aquela parte do Vouga só seja baixa de nome.

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 26 de Fevereiro de 2015



A vida é só hoje

O meu País já ontem era tarde. E amanhã não será cedo.
Outras formas haveria de dizer isto – mas não as quero. Quero dizê-las assim. E digo.
Nestes mais recentes dias, desavim-me comigo mesmo um pouco mais do que de costume. Pus-me por aí dias a fio sem meta nem retorno, a pé e com a mesma roupa. Calcorreei vastidões que só com muita generosidade podereis imaginar. Um trecho do desconsolado périplo foi rente à minha terra original. De novo me tomaram os olhos as mastodônticas estruturas industriais em ruínas. Abandonadas pela cobiça e pelo anti-humanismo de meia-dúzia de yuppies criminosos, são hoje carcaças grotescas que espelham sem ilusões o avesso do progresso. Sei de cor as famílias completas que nelas labutaram para comer. Hoje, sei de cor os desempregados sem idade para sonhar com mais nada, os reformados da uva-mijona, os novos que por aqui não ficam.
A TV, todavia, continua a ladrar mentiras felizes. Há carnavais por todo o lado e por todo o ano. A populaça gosta que lhe façam o serviço pelas costas, na condição de um bocadito de vaselina primeiro. A anemia dos sistemas de ensino, de saúde e de justiça terceiromundiza-nos a todos, mas nem todos ligamos muito à evidência. As autarquias promovem festarolas de sopas e de espinhaços de bacalhau com aquela presunção de fartura geral que é rasca e que é estúpida e que é mentirosa e que não vale uma buzinadela tripeira das mais sonoras. Aparecem senhoras lambuzadas de banhas lustrais a dizer coisas vãs e flatulentas como ouviram dizer nos programas pimbas da manhã e da tarde e da noite e amanhã o mesmo. Aparecem autarcazitas burros como testos a apregoar moralidades de papelão que eles são os primeiros a não seguir. Professorazitas que não lêem. Jornalistazitos que nem informam nem se informam. Condutores sem o mínimo lampejo de civismo ensanguentando as estradas na maior impunidade e na maior inconsequência. Casamentos e mancebias que, desfeitos, resultam como se por lógica simples em mortandades de faca e caçadeira. Os raios do Diabo, enfim, numa terriola de procissões raquíticas e de santos do caruncho.
Sinto que a crónica me está a sair azeda. Falemos de andorinhas. Ontem vi algumas. Apesar de tudo, apesar do País, das bestas da economia, dos avatares de tanta merdice, o céu deu-me andorinhas. Não eram muitas, mas para mim chegaram como mais do que suficientes. Contra o firmamento, que então era da cor da folha-de-flandres, traçavam elipses molhadas de tinta-da-china. Rápidas, diligentes, bailarinas, como se ébrias. Foram a minha recompensa e foram a minha alegria por alguns minutos. Sabia que acabaria por escrevê-las, como sei que um dia tudo se nos acaba, a começar pela tristeza e pelo se calhar mau hábito de andar por aí a estrangeirar o coração.
Mas ontem, por instantes, não.

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5 de Março de 2015

Périplo e reencontro

Num dos mais recentes périplos a que venho procedendo pelos inumeráveis nenhures da minha vida, passei por um desses bairros ironicamente designados de “sociais”. Sítio em planalto que o vento fustiga sem peias. O lixo voa mais do que os pássaros que por ali não há. Furgonetas enferrujam contrabandos mesquinhos. Crianças enrugadas como trapos precoces. Gordos cheios de fome. Um cheiro a degradação orgânica em cada caco. Até as pedras cheiram mal. A carcaça de um burro morto num baldio. Só a erva parecia, e era, viçosa. Passei depressa. O meu fito era a paragem do autocarro que acabei por não esperar. Além do viaduto, desce-se para um bairro de casas pagas pelos seus habitantes. Há pastelaria, churrasqueira, loja de peças-auto, correios, coisas normais. Ansiei por elas. Fui a pé.
Acabei por chegar. A morrinha aconteceu-me por essas cinco da tarde. Já a luz insinuava escuridões súbitas, bafos de noite, arrepios de nuca. Ali sim, havia aves. Uma delas acrescentava céu a um prédio. Fumei meio cigarro molhado, sem saber se pela direita se pela sinistra. Subi qualquer coisa, há um Café antigo ao cimo da escada que leva ao patamar. Felizmente pouca gente, felizmente o televisor desligado. Café e aguardente para torrar o nascimento. Um jornal partido pela espinha como algum amor antigo. Cascas de tremoços juncando a serradura do chão. Copos esbeiçados. Raspadinhas que não deram. A mulher ao balcão: refegos de geleia apertada em lã-de-vidro. Aquelas unhas roxas de coçar vinho. Eu ter telefone, tinha – mas não tocava. Desandei. Passei ao pé da casa daquele que era polícia, não sei que será desfeito dele, os anos passam, são desinsufláveis, os sacanas dos anos.
Uns oitocentos metros para oriente, encontrei a minha crónica da semana passada: também ela partida pela espinha, também ela voando por entre cacos, trapos e farrapos.
Também ela lixo, como quase tudo.












quinta-feira, fevereiro 12, 2015

(SONETO EM) OFERENDA - Leiria, tarde de quinta-feira, 12 de Fevereiro de 2015




O sol português resiste ao frio februário.
A calma excede da pré-morte a ânsia.
O olhar singra pela luz em estuário.
Agora o longe não se faz distância.

Poucas pessoas, muita área, todo o ar.
Venéreo seria, e venal, não aproveitar
o instante em-vivo, instantâneo
ideário que bem usa o momentâneo.

Vamos indo. É devagar. Um pouco mais além,
flores que eu colheria & daria à minha Mãe.
Como quem daqui é & daqui não sai,

nuvens de branc’azul(ejo) propícias a meu Pai.
Calma. Tenhamos ao menos, por merenda,
tanta vã ideação, que não vã oferenda.

Rosário Breve n.º 394 - in O RIBATEJO de 12 de Fevereiro de 2015 - www.oribatejo.pt

A cera não é ruim, o defunto é que sim

Um país de pobres desgovernado por miseráveis – conheceis algum?
Eu, sim. E não queria.
Conheço um onde a vozearia é muito mais iracunda e a revolta muito mais veemente quando um qualquer padre é trocado por outro padre qualquer do que quando o posto de saúde, os correios, a escola, o tribunal e a própria junta são encerrados até (nunca) mais ver. País-carapau, que só assim faz escabeche.
Uma cidade capital de distrito (e de província) inçada de lixo e de contentores de recolecção estripados à maneira de fins de acampamento de rave – conheceis alguma?
Eu, sim. E não queria.
Conheço uma que Garrett imortalizou, por exemplo. E não sei se o mesmo hoje faria, ele, a tal morredouro de miasmas.
Tal país e tal cidade parecem andar e trazerem-se a si mesmos num virote esquisito. Varrer as respectivas testadas é coisa que nem esta nem aquele fazem. Nem à chicotada. (Da psicológica, claro, que da outra nunca a demos a sério, isto ainda não é a Arábia Saudita e as sanzalas ultramarinas há muito as extraviámos.)
Qualquer antístite, mesmo o mais reles, é gajo para abichar sem esforço mor os cimélios da parvónia – digo-o assim porque ando a ler o santareno Veríssimo Serrão tão saudoso de seu Marcello exilado, rebate lhe(s) dando o coração contrito.
Eu nem quero imaginar o que não faria uma Suíça, por exemplo, se lhe dessem nem que fosse uma só légua de litoral do nosso. Um Tejo destes adentrando as primícias do Atlântico por quanto é regadio, lezíria, sequeiro, céu até. E se esses acantonados e multilingues helvéticos relojoeiros/queijeiros/banqueiros pudessem dispor deste sol sem neve de quase todo o ano incidindo a pique sobre planuras tão mais úberes quão mais desertadas? Não quero imaginar. O que damos à Suíça é emigrantes de não-retorno e porrada no hóquei-em-patins (mais daqueles e menos desta, aliás).
Venho há uma vida gastando despicienda cera com o ruim defunto que, todavia, me é, no (des)concerto das nações, o único que alguma vez me interessou, interessa e interessar há-de – Portugal. Portugal e o Ribatejo dele, já agora. Continuarei tal gasto, bem no sei, desgastado e desgostado, mas exalçado sempre por (in)certa íntima obstinação a que só não chamo patriótica por poder ficar, hoje em dia, malvisto com o epíteto.
Não frequento doutos grémios. Nem subidos sinédrios. Nem vou, sabido, à TV parecer sabedor – gosto bem mais de iscas com elas e de ginjas idem.
Vou mais pelo escalpelizar da pública coisa atoardando indignações miudinhas de cigarra farta de ser formiga.
Terçando armas pela Língua – é ver o estropiado idioma com que a mais soez ignorância escreve, às costas e a pretexto do execrável AO 90, os rodapés dos telenoticiários e demais imundícies afins.
Objurgando o fedelho que fizeram, primeiro, cola-cartazes, depois assessor, depois (tumba!) edil e/ou, até, ministro da Relespública.
Exprobrando a demora inaceitável da adjudicação do Ministério da Saúde, no seu todo, à confederação nacional de agências funerárias: pois não é ele o mais ingente gato-pingado que por aí negreja o mais negregada, o mais mórbida e o mais mofinamente? É. É pois: legionella, urgências, hepatite C em infindo e cursivo etc.
Increpando a emanação morbífica da mui bela, mui antiga e mui mal empregada Scalabis, cuja multissecular vetustez merecia (e merece) outro futuro. Ou outro galo no campanário. Ou outro povo cá em baixo. Ou, pelo menos, menos lixarada por tudo quanto é canto, chiça.
O meu único receio é ainda vir a ficar reduzido, uma destas quintas-feiras, a um qualquer insensato atirador-não-furtivo de geriátricas verborreias, à imagem daquele pantafaçudo peregrino do 44.
Pode ser que não: ser pobre não é o mesmo que ser miserável.
Assim sendo, que nunca me/nos falte a cera.  





quinta-feira, fevereiro 05, 2015

Rosário Breve n.º 393 - in O RIBATEJO de 5 de Fevereiro de 2015

Quem Disse

O homem vestido de escuro surgiu como uma exclamação muda na chuva da tarde. Contornou a esquina, parou em frente ao contentor municipal, remexeu a camada superior do lixo. Não encontrou o que procurava. Virou costas ao lixo, deixou-se molhar minutos e mais minutos. Tinha um chapéu escuro. Tinha uma boca fina e horizontal de travessão de diálogo com ninguém. Era só um homem vestido de chuva na tarde escura.
Recupero hoje essa visão violenta. Senti, então, uma mesquinha misericórdia. Também, às vezes, sou cristão sem querer. Depois, critico-me com aspereza. Pena por quê, para quê, por alma de quem? Por nada, para nada, por ninguém. Havia o Café amarelo ali perto. Eu tinha já estes quase tantos anos. Acampei na mesa junto ao aparador (guardanapos dobrados, talher, cesto da fruta, palitos, tintos e brancos, galheteiros, pratos, sal & pimenta, extintor). Tirei a única certeza. O caderno. Então, o homem da chuva continuou.
Era um homem vestido de escuro na tarde de chuva. Ele procurava. Não estava no lixo o que procurava. Estaria alhures. A chuva desalmava até a respiração, a água babujava nas sarjetas entupidas, niquelava nos pátios abandonados o folhame dos plátanos senhoriais, fazia do ar uma grade sem limite nem sentido. Era o céu desabado, toda a tristeza do mundo. O homem saltou o muro da casa abandonada, dirigiu-se ao plátano maior e remexeu a terra. Não encontrou o que procurava. Ali o deixei por instantes.
No Café amarelo, atento às moscas refugiadas, cocei a mão esquerda com a direita, ouvi os impropérios do rapaz reformado aos 27 anos por pancada mental, dei-lhe um cigarro e agarrei-me ao caderno enquanto o desespero me colava à boca a fita de goma do costume. Não dei atenção ao desespero. Um homem é um homem.
Um homem vestido de plátano procurava uma coisa na chuva. Saltou o muro, abandonou o quintal abandonado, foi pela calçada foi pela calçada foi pela calçada até que chegou à parede onde luzia a santa do mesmo nome. Era um nicho ogival onde tinham embutido a santa. Duas velas ardiam dentro de água: os olhos do homem escurecido. O homem olhava a santa, que olhava o homem. Tremendo duelo de almas.
Nessa altura, eu procurava moedas nas calças. Estavam no casaco. Fizeram-me a conta, paguei e saí para a chuva que aluminiava o mundo como o mundo era essa tarde. Não foi assim há tanto tempo. Já era, suponho, o futuro.
O homem tinha deixado a santa entregue ao martírio afinal benigno da solidão. Ele era agora uma interrogação oblíqua parada em frente à montra da loja dos rádios. Olhava os aparelhos japoneses. Não era isso, nem a santa, o que ele procurava. Era outra coisa.
A mesma coisa me esperava à saída do Café amarelo. E era a vida. A vida era tarde, já então. Esquerda ou direita, igual. Subi a calçada de pedra subi a calçada de pedra subi a calçada de pedra até que cheguei ao bar de putas. Estava fechado. Quando um homem vai a um bar de putas e o bar de putas está fechado, alguma coisa se desacertou sem remédio na vida desse homem.
Esse homem já não era perante os rádios, tinha seguido pela tira de terra e cacos de tijolo que leva à via-férrea. Por aí eu fui.
O homem esperava o comboio. Tinha desistido de procurar o que procurava. Toquei-lhe com a mão direita, a que escreve, no ombro do mesmo lado. Ele virou-se:
– Finalmente. Andava à tua procura. 
Disse ele.
Disse eu.