quinta-feira, março 12, 2015

Três crónicas mais recentes, sempre em O RIBATEJO - www.oribatejo.pt

12 de Março de 2015



Portugal über alles

O (grande) actor Jeremy Irons afirmou recentemente numa entrevista que, após ter promovido e perdido duas guerras mundiais no século XX, a Alemanha voltou à carga – mas desta vez para vencer. É uma guerra sem trincheiras, sem tanques, sem aviões e sem capacetes à vista. Mas é uma guerra – a económico-financeira. Pode não ter sido por estas palavras, mas foi neste sentido. Infelizmente, só posso concordar com ele.
É por isso que o que se passa com a Grécia me faz bem. Duvido que tudo aquilo dê grande coisa. Mas se der alguma, nem que seja pequena, já não é nada mau. A autoridade do Estado e o poder dos cidadãos raras vezes são coincidentes. Aquela sobrepuja este quase sempre. Até que. O caso helénico pode ajudar os espoliados (os da Europa pelo menos) a bater o pé, e com estrondo, no chão continental.
Circunstâncias minhas têm-me levado a ser mais sensível (e mais vulnerável) às misérias que por aí grassam. Quando digo “por aí”, digo Portugal. É o sítio que me importa. Para mim, e por assim dizer, Portugal über alles.
Hordas de desvalidos inçam as artérias. A maioria é de pedintes que não pedem, mas um gajo topa logo que ali anda e vai a desesperança irremediável. Já não se trata da cómoda, livresca e afrancesada “angústia existencial” das filosofias de badana. Não. É angústia a sério. É estreiteza de tudo: de garganta, de bolso, de futuro. (E angústia e estreiteza são de íntima conexão etimológica – não há coincidências nestas coisas).
Pois é, tenho andado mais permeável à arrepiada e arrepiante dramaturgia social. Talvez por uma questão de espelho. Há dias poucos, sentei-me num muro que beira uma encruzilhada urbana. Ena, tantos eus! Houve aqui alguém que se enganou. E que foi enganado. As duas coisas complementam-se. E no fim ganham os Alemães, como na bola.
Deveríamos, acho eu, ver-nos gregos. Primeiro, correr com esta seita seguidista, acéfala e invertebrada que não conhece nem reconhece pessoas, só números. (Curioso: no preciso momento em que escrevo, o ministro da Saúde debita minudências vãs numa comissão parlamentar da especialidade. Mas há tempos, ali para o Baixo Vouga, uma velhota de 92 anos esteve três dias esticada numa maca, consciente sempre, à espera de uma urgência utópica.)
A nossa bancarrota começa por ser moral. Depois, é de batatas em casa. O trabalho é encarado pelos empregadores como um luxo odioso. Se não o trabalho, então o salário. Olhai o ataque que por aí vai à contratação colectiva. A banca é o que todos sabemos: um antro infecto de ladrões, pandora de ali-babás. E as ruas enegrecem como se fechadas ao céu.
A vida anda a doer-nos de mais. A mim, anda. Coisas minhas, é certo, algumas das quais, todavia, se irmanam às dos meus compatriotas. Dos meus compatriotas, chamemos-lhes assim, portugregos.
Que uma vez mais e ainda, no fim, percam os Alemães. E que aquela parte do Vouga só seja baixa de nome.

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 26 de Fevereiro de 2015



A vida é só hoje

O meu País já ontem era tarde. E amanhã não será cedo.
Outras formas haveria de dizer isto – mas não as quero. Quero dizê-las assim. E digo.
Nestes mais recentes dias, desavim-me comigo mesmo um pouco mais do que de costume. Pus-me por aí dias a fio sem meta nem retorno, a pé e com a mesma roupa. Calcorreei vastidões que só com muita generosidade podereis imaginar. Um trecho do desconsolado périplo foi rente à minha terra original. De novo me tomaram os olhos as mastodônticas estruturas industriais em ruínas. Abandonadas pela cobiça e pelo anti-humanismo de meia-dúzia de yuppies criminosos, são hoje carcaças grotescas que espelham sem ilusões o avesso do progresso. Sei de cor as famílias completas que nelas labutaram para comer. Hoje, sei de cor os desempregados sem idade para sonhar com mais nada, os reformados da uva-mijona, os novos que por aqui não ficam.
A TV, todavia, continua a ladrar mentiras felizes. Há carnavais por todo o lado e por todo o ano. A populaça gosta que lhe façam o serviço pelas costas, na condição de um bocadito de vaselina primeiro. A anemia dos sistemas de ensino, de saúde e de justiça terceiromundiza-nos a todos, mas nem todos ligamos muito à evidência. As autarquias promovem festarolas de sopas e de espinhaços de bacalhau com aquela presunção de fartura geral que é rasca e que é estúpida e que é mentirosa e que não vale uma buzinadela tripeira das mais sonoras. Aparecem senhoras lambuzadas de banhas lustrais a dizer coisas vãs e flatulentas como ouviram dizer nos programas pimbas da manhã e da tarde e da noite e amanhã o mesmo. Aparecem autarcazitas burros como testos a apregoar moralidades de papelão que eles são os primeiros a não seguir. Professorazitas que não lêem. Jornalistazitos que nem informam nem se informam. Condutores sem o mínimo lampejo de civismo ensanguentando as estradas na maior impunidade e na maior inconsequência. Casamentos e mancebias que, desfeitos, resultam como se por lógica simples em mortandades de faca e caçadeira. Os raios do Diabo, enfim, numa terriola de procissões raquíticas e de santos do caruncho.
Sinto que a crónica me está a sair azeda. Falemos de andorinhas. Ontem vi algumas. Apesar de tudo, apesar do País, das bestas da economia, dos avatares de tanta merdice, o céu deu-me andorinhas. Não eram muitas, mas para mim chegaram como mais do que suficientes. Contra o firmamento, que então era da cor da folha-de-flandres, traçavam elipses molhadas de tinta-da-china. Rápidas, diligentes, bailarinas, como se ébrias. Foram a minha recompensa e foram a minha alegria por alguns minutos. Sabia que acabaria por escrevê-las, como sei que um dia tudo se nos acaba, a começar pela tristeza e pelo se calhar mau hábito de andar por aí a estrangeirar o coração.
Mas ontem, por instantes, não.

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5 de Março de 2015

Périplo e reencontro

Num dos mais recentes périplos a que venho procedendo pelos inumeráveis nenhures da minha vida, passei por um desses bairros ironicamente designados de “sociais”. Sítio em planalto que o vento fustiga sem peias. O lixo voa mais do que os pássaros que por ali não há. Furgonetas enferrujam contrabandos mesquinhos. Crianças enrugadas como trapos precoces. Gordos cheios de fome. Um cheiro a degradação orgânica em cada caco. Até as pedras cheiram mal. A carcaça de um burro morto num baldio. Só a erva parecia, e era, viçosa. Passei depressa. O meu fito era a paragem do autocarro que acabei por não esperar. Além do viaduto, desce-se para um bairro de casas pagas pelos seus habitantes. Há pastelaria, churrasqueira, loja de peças-auto, correios, coisas normais. Ansiei por elas. Fui a pé.
Acabei por chegar. A morrinha aconteceu-me por essas cinco da tarde. Já a luz insinuava escuridões súbitas, bafos de noite, arrepios de nuca. Ali sim, havia aves. Uma delas acrescentava céu a um prédio. Fumei meio cigarro molhado, sem saber se pela direita se pela sinistra. Subi qualquer coisa, há um Café antigo ao cimo da escada que leva ao patamar. Felizmente pouca gente, felizmente o televisor desligado. Café e aguardente para torrar o nascimento. Um jornal partido pela espinha como algum amor antigo. Cascas de tremoços juncando a serradura do chão. Copos esbeiçados. Raspadinhas que não deram. A mulher ao balcão: refegos de geleia apertada em lã-de-vidro. Aquelas unhas roxas de coçar vinho. Eu ter telefone, tinha – mas não tocava. Desandei. Passei ao pé da casa daquele que era polícia, não sei que será desfeito dele, os anos passam, são desinsufláveis, os sacanas dos anos.
Uns oitocentos metros para oriente, encontrei a minha crónica da semana passada: também ela partida pela espinha, também ela voando por entre cacos, trapos e farrapos.
Também ela lixo, como quase tudo.












quinta-feira, fevereiro 12, 2015

(SONETO EM) OFERENDA - Leiria, tarde de quinta-feira, 12 de Fevereiro de 2015




O sol português resiste ao frio februário.
A calma excede da pré-morte a ânsia.
O olhar singra pela luz em estuário.
Agora o longe não se faz distância.

Poucas pessoas, muita área, todo o ar.
Venéreo seria, e venal, não aproveitar
o instante em-vivo, instantâneo
ideário que bem usa o momentâneo.

Vamos indo. É devagar. Um pouco mais além,
flores que eu colheria & daria à minha Mãe.
Como quem daqui é & daqui não sai,

nuvens de branc’azul(ejo) propícias a meu Pai.
Calma. Tenhamos ao menos, por merenda,
tanta vã ideação, que não vã oferenda.

Rosário Breve n.º 394 - in O RIBATEJO de 12 de Fevereiro de 2015 - www.oribatejo.pt

A cera não é ruim, o defunto é que sim

Um país de pobres desgovernado por miseráveis – conheceis algum?
Eu, sim. E não queria.
Conheço um onde a vozearia é muito mais iracunda e a revolta muito mais veemente quando um qualquer padre é trocado por outro padre qualquer do que quando o posto de saúde, os correios, a escola, o tribunal e a própria junta são encerrados até (nunca) mais ver. País-carapau, que só assim faz escabeche.
Uma cidade capital de distrito (e de província) inçada de lixo e de contentores de recolecção estripados à maneira de fins de acampamento de rave – conheceis alguma?
Eu, sim. E não queria.
Conheço uma que Garrett imortalizou, por exemplo. E não sei se o mesmo hoje faria, ele, a tal morredouro de miasmas.
Tal país e tal cidade parecem andar e trazerem-se a si mesmos num virote esquisito. Varrer as respectivas testadas é coisa que nem esta nem aquele fazem. Nem à chicotada. (Da psicológica, claro, que da outra nunca a demos a sério, isto ainda não é a Arábia Saudita e as sanzalas ultramarinas há muito as extraviámos.)
Qualquer antístite, mesmo o mais reles, é gajo para abichar sem esforço mor os cimélios da parvónia – digo-o assim porque ando a ler o santareno Veríssimo Serrão tão saudoso de seu Marcello exilado, rebate lhe(s) dando o coração contrito.
Eu nem quero imaginar o que não faria uma Suíça, por exemplo, se lhe dessem nem que fosse uma só légua de litoral do nosso. Um Tejo destes adentrando as primícias do Atlântico por quanto é regadio, lezíria, sequeiro, céu até. E se esses acantonados e multilingues helvéticos relojoeiros/queijeiros/banqueiros pudessem dispor deste sol sem neve de quase todo o ano incidindo a pique sobre planuras tão mais úberes quão mais desertadas? Não quero imaginar. O que damos à Suíça é emigrantes de não-retorno e porrada no hóquei-em-patins (mais daqueles e menos desta, aliás).
Venho há uma vida gastando despicienda cera com o ruim defunto que, todavia, me é, no (des)concerto das nações, o único que alguma vez me interessou, interessa e interessar há-de – Portugal. Portugal e o Ribatejo dele, já agora. Continuarei tal gasto, bem no sei, desgastado e desgostado, mas exalçado sempre por (in)certa íntima obstinação a que só não chamo patriótica por poder ficar, hoje em dia, malvisto com o epíteto.
Não frequento doutos grémios. Nem subidos sinédrios. Nem vou, sabido, à TV parecer sabedor – gosto bem mais de iscas com elas e de ginjas idem.
Vou mais pelo escalpelizar da pública coisa atoardando indignações miudinhas de cigarra farta de ser formiga.
Terçando armas pela Língua – é ver o estropiado idioma com que a mais soez ignorância escreve, às costas e a pretexto do execrável AO 90, os rodapés dos telenoticiários e demais imundícies afins.
Objurgando o fedelho que fizeram, primeiro, cola-cartazes, depois assessor, depois (tumba!) edil e/ou, até, ministro da Relespública.
Exprobrando a demora inaceitável da adjudicação do Ministério da Saúde, no seu todo, à confederação nacional de agências funerárias: pois não é ele o mais ingente gato-pingado que por aí negreja o mais negregada, o mais mórbida e o mais mofinamente? É. É pois: legionella, urgências, hepatite C em infindo e cursivo etc.
Increpando a emanação morbífica da mui bela, mui antiga e mui mal empregada Scalabis, cuja multissecular vetustez merecia (e merece) outro futuro. Ou outro galo no campanário. Ou outro povo cá em baixo. Ou, pelo menos, menos lixarada por tudo quanto é canto, chiça.
O meu único receio é ainda vir a ficar reduzido, uma destas quintas-feiras, a um qualquer insensato atirador-não-furtivo de geriátricas verborreias, à imagem daquele pantafaçudo peregrino do 44.
Pode ser que não: ser pobre não é o mesmo que ser miserável.
Assim sendo, que nunca me/nos falte a cera.  





quinta-feira, fevereiro 05, 2015

Rosário Breve n.º 393 - in O RIBATEJO de 5 de Fevereiro de 2015

Quem Disse

O homem vestido de escuro surgiu como uma exclamação muda na chuva da tarde. Contornou a esquina, parou em frente ao contentor municipal, remexeu a camada superior do lixo. Não encontrou o que procurava. Virou costas ao lixo, deixou-se molhar minutos e mais minutos. Tinha um chapéu escuro. Tinha uma boca fina e horizontal de travessão de diálogo com ninguém. Era só um homem vestido de chuva na tarde escura.
Recupero hoje essa visão violenta. Senti, então, uma mesquinha misericórdia. Também, às vezes, sou cristão sem querer. Depois, critico-me com aspereza. Pena por quê, para quê, por alma de quem? Por nada, para nada, por ninguém. Havia o Café amarelo ali perto. Eu tinha já estes quase tantos anos. Acampei na mesa junto ao aparador (guardanapos dobrados, talher, cesto da fruta, palitos, tintos e brancos, galheteiros, pratos, sal & pimenta, extintor). Tirei a única certeza. O caderno. Então, o homem da chuva continuou.
Era um homem vestido de escuro na tarde de chuva. Ele procurava. Não estava no lixo o que procurava. Estaria alhures. A chuva desalmava até a respiração, a água babujava nas sarjetas entupidas, niquelava nos pátios abandonados o folhame dos plátanos senhoriais, fazia do ar uma grade sem limite nem sentido. Era o céu desabado, toda a tristeza do mundo. O homem saltou o muro da casa abandonada, dirigiu-se ao plátano maior e remexeu a terra. Não encontrou o que procurava. Ali o deixei por instantes.
No Café amarelo, atento às moscas refugiadas, cocei a mão esquerda com a direita, ouvi os impropérios do rapaz reformado aos 27 anos por pancada mental, dei-lhe um cigarro e agarrei-me ao caderno enquanto o desespero me colava à boca a fita de goma do costume. Não dei atenção ao desespero. Um homem é um homem.
Um homem vestido de plátano procurava uma coisa na chuva. Saltou o muro, abandonou o quintal abandonado, foi pela calçada foi pela calçada foi pela calçada até que chegou à parede onde luzia a santa do mesmo nome. Era um nicho ogival onde tinham embutido a santa. Duas velas ardiam dentro de água: os olhos do homem escurecido. O homem olhava a santa, que olhava o homem. Tremendo duelo de almas.
Nessa altura, eu procurava moedas nas calças. Estavam no casaco. Fizeram-me a conta, paguei e saí para a chuva que aluminiava o mundo como o mundo era essa tarde. Não foi assim há tanto tempo. Já era, suponho, o futuro.
O homem tinha deixado a santa entregue ao martírio afinal benigno da solidão. Ele era agora uma interrogação oblíqua parada em frente à montra da loja dos rádios. Olhava os aparelhos japoneses. Não era isso, nem a santa, o que ele procurava. Era outra coisa.
A mesma coisa me esperava à saída do Café amarelo. E era a vida. A vida era tarde, já então. Esquerda ou direita, igual. Subi a calçada de pedra subi a calçada de pedra subi a calçada de pedra até que cheguei ao bar de putas. Estava fechado. Quando um homem vai a um bar de putas e o bar de putas está fechado, alguma coisa se desacertou sem remédio na vida desse homem.
Esse homem já não era perante os rádios, tinha seguido pela tira de terra e cacos de tijolo que leva à via-férrea. Por aí eu fui.
O homem esperava o comboio. Tinha desistido de procurar o que procurava. Toquei-lhe com a mão direita, a que escreve, no ombro do mesmo lado. Ele virou-se:
– Finalmente. Andava à tua procura. 
Disse ele.
Disse eu.



quinta-feira, janeiro 29, 2015

Rosário Breve n.º 392 - in O RIBATEJO de 29 de Janeiro de 2015




Dica da semana

Todos os dias os vejo: aos homens de já descriada idade atulhando de publicidade não endereçada as bocas de correio dos prédios. Não puderam e/ou não quiseram salvaguardar-se da penúria. No outono da idade, dão de si & por si propagando prospectos de “mestres” africanos, de “massagistas” brasileiras e de afins subprodutos, ou escombros, ou despojos, ou escórias, do alegado “Império Português”. Os ociosos de esplanada como eu são por eles mirados à sorrelfa, ciosos dos cigarros fáceis que fumamos e dos cafés perfumados de aguardente com que ilusoriamente adoçamos o desbaratar da (nossa, do lado de cá) vida.
Aos domingos, no entanto, em vez de a eles, assisto às parelhas de mulheres de já descriada idade que, munidas elas também de prospecta literatura que ninguém pediu nem quer, teimam em jeovandar caducos evangelismos sem ortografia nem esperança por essas campainhas insones.
Os prédios são os mesmos. O resultado, também.
Em verdade V. digo que me sinto companheiro, tão destas como daqueles, em má fortuna & pior ventura. Há anos que também eu ando neste negócio (aliás crónico) das mèzinhas contra o particular mau-olhado, o pé-chato da inveja, a psoríase da alma, a amarração infiel & a despolítica geral. Sim, também eu violo, no caso dos assinantes do Jornal, as frinchas virginais das caixas postais.
No gasto da tinta, esvai-se-me a mocidade física, que revérbero foi já noutros lustros e em lustres outros. Na usura do papel, descriou-se-me, a mim também, a sacanita da idade, sedimentando-se-me no palato o salitre equívoco de tanta oportunidade perdida.
Ao espelho, todavia, isso Vo-lo garanto também e com alguma soberba até, ainda faço, de quando em vez, as pazes mansas comigo, mercê da seguinte síntese zoológico-geométrica: besta-quadrada que ao menos de si mesma ri, com gosto quase até. E só não me dou de fuças como pedaço-de-asno por deveras ser o asno completo.
Não me inscrevi – prescrevi.
Não tirei cartão – nem o passei a ninguém.
Não creio em Deus – nem Ele em mim,
Não fui a tempo – mas o Tempo veio-me.
Está certo assim. A pessoa é, de si, o preço que por si mesma paga, ainda que o não valha.
A sequência é a consequência.
O remédio, porventura, estaria em nascermos todos com a idade daqueles homens e daquelas mulheres que, uns, nos dias úteis entopem as caixas de correio, e que, outras, ensurdecem as campainhas doménico-matinais. Nascermos já madurotes e, desse ponto aí então, rejuvenescermos à força toda de cada dia anversamente revertido, decrescendo em altura atlética e em sombra cismática.
Até que mais nos não pudessem pedir do que fôssemos, apenas, brincar – coisa que, aliás, não parecemos ter senão feito a vida toda, a julgar pela caixa do correio. 

quinta-feira, janeiro 22, 2015

Rosário Breve n.º 391 - in O RIBATEJO de 22 de Janeiro de 2015 - www.oribatejo.pt

Terá parentes idosos sem saúde o senhor ministro da Saúde?

Até aos nossos tristes dias, os idosos pobrezinhos de Portugal não tinham onde cair mortos. Agora já têm: é nas urgências hospitalares, esses brancos matadouros da contemporaneidade. Esperam e recebem a morte ao abandono das macas dos bombeiros, vá lá que agasadalhadinhos e venha cá que com direito a chá mijão e a bolachas de cianeto.
Cá fora, os órfãos desses velhos despojados de toda a esperança e de toda a dignidade sempre têm direito, pouco depois de cada passamento, a quinze segundos de fama nos telenoticiários, à maneira dos “talentos” instantâneos que a hílare Teresa Guilherme garimpa a preceito rasca aos monturos.
Logo de seguida, a prestidigitação dos cultores da Estatística (essa arte da mentira matemática) enleva-os (aos mortos e aos órfãos) de cerúlea (que é o azul do Céu) misericórdia, lustra-os logo do áureo esmalte da fatalidade, banha-os de pio sebo cristão, unta-os da mais chilra água-benta à beira da fervura das lágrimas crocodílicas, logo os ungindo, enfim, de um seráfico esplendor que lhes fica, precisamente, a matar.
Eu já não consigo ter muita pena dos pobrezinhos de Portugal que, à asneira de aqui terem nascido, somaram o disparate de se terem deixado envelhecer cá. E não consigo ter muita pena deles porquê?
Porque a) sou ímpio; e b) foram eles a votar c) nestes que lá estão; d) naqueles que lá estiveram e e) nos homólogos de c) e d) que lá hão-de estar.
Nos entrementes, dez metros a estibordo da minha caligrafia, uma bonitíssima velhota marca presença e dá sinal de vida. Está no passeio frontal da pastelaria à espera do marido, que foi ali num instantinho à Caixa transferir uns patacos-SOS aos filhos divorciados e sem emprego nem uso que tem ó-tio-ó-tio em Lisboa. A senhora apresenta-se enroupada de abafos nacarados como o dentro das conchas. Sopra os dedos enregelados das mãos. Sei que lhe apetece o chá-das-cinco. Voto na esperança de que o marido (que roça já, como ela também, as oito décadas de nascido) se não sinta mal de repente enquanto espera vez para o caixa. Porque esta terra tem urgências hospitalares: esses brancos matadouros etc.
Nota: o senhor ministro da Saúde está, à hora a que V. escrevo, de visita ao morredouro hospitalar local. “Reunião de trabalho com a administração”, parece. Ao que sei, o senhor ministro da Saúde é um patusco bem assalariado. Tem motorista, isso também sei. E alcavalas de mordomias inerentes ao cargo, claro. Não sei é se tem parentes idosos. Ou se, tendo-os, estarão ou não eles bem de saúde. Oxalá que sim. Devem estar. O mais certo é que, em caso de indisposição súbita, não tenham de penar odisseias de infindável espera multi-horária nos calabouços esfregados a lixívia, a creolina e a ácido fénico das unidades médicas. Um parente-ministro sempre é um ministro-parente, caraças.
Escrevo isto sem me rir. Nem me importa que o senhor ministro da Saúde venha ou não venha a ler este desarrazoado chorincas meu. Eu escrevo para toda a gente, mas não é com toda a gente que falo. Com o senhor ministro da Saúde, muito menos. Também tenho os meus pudores. Também sou vulnerável à ira e à indignação. Também me canso. Também me couraço. Também me blindo. Para mais, os meus Pais já morreram. Estão safos do corrente genocídio português.
O problema é que caminho para velho. Uso o meio-capote que o meu Pai me legou, como naquela história que V. sabeis. A vida sabe-me na boca a noite fria mais vezes do que o recomendam a posologia medicamentosa e a sensatez existencial. E sim, confesso ter receio de que o senhor ministro da Saúde me queira mecanografado nas estatísticas dele. Que é como quem diz: no seu obituário economicista anti-pessoas e anti-direito à vida.
E que, portanto, eu ainda acabe por demitir-me de tudo primeiro do que ele do dourado lugar que ocupa, ele o senhor ministro da Saúde, a quem tal mortandade geriátrica deve incomodar tanto quanto a mim a boazona da Irina ainda namorar ou já não com o tão jovem e tão saudável e tão bonzão Melhor-do-Mundo.


quinta-feira, janeiro 15, 2015

Bruno Oliveira lê a 390

O meu duas-vezes-parceiro Bruno Oliveira (duas vezes porque: 1- é do Jornal O RIBATEJO como eu sou; e 2- porque é de apelido arbóreo como eu) tem-se dado à carinhosa (para comigo) trabalheira (dele) de produzir leitura e som das minhas crónicas. Voltou ao ataque esta semana. Partilho, a ele muito grato por ter dito e a vós por ouvirdes.
http://www.oribatejo.pt/2015/01/15/a-toujours-comme-tous-les-jours-com-audio/


http://www.oribatejo.pt/2015/01/15/a-toujours-comme-tous-les-jours-com-audio/

Rosário Breve n.º 390 - in O RIBATEJO de 15 de Janeiro de 2015 - www.oribatejo.pt

À toujours comme tous les jours

Bruma e geada cingem a respiração em andamento. Uma pessoa vem por beira-rio, está frio, é tempo dele, as botas escrevem no chão o dois-por-quatro do caminho, sabe bem devolver em vapor ao ar o que dele veio em gelo. Com alguma sorte, é-se tão natural como cada signo do dia novo: os próprios braços como os das árvores, a água na boca como a do rio persistindo ambas em chegar um dia ao mar, a fervura do cartoon do pensamento como o desenho-animado do vento nas coisas volúveis, volantes coisas, venais é que não. A hora não é de relógio, a manhã não é de calendário: outra coisa serão, outro sentido terão, ser nelas é quanto basta. Para já.
Chega a pessoa ao balcão da Ermelinda, já ela lida trapos e vidros, da máquina-cafeteira silva o nevoeiro cálido, pelo chão a serradura fresca espera a cuspidela dos de mais brutos modos, desligada da ficha a arca dos gelados espera o Estio e a criançada colorida dele, sabe bem apear o bornal, sabe bem hastear os bons-dias aos congéneres de Língua e Pátria que vêm ao mesmo, a Ermelinda servindo a cada um o necessário sem perguntar o quê a quem, longos anos num gesto resumidos que é serviço e (re)conhecimento do Outro.
Lá fora, a música do mundo afina seus naipes: as ovelhas-chocalhos, os pardais-apogiaturas, o sacristão-badalão, a prata barroca do fontanário perpétuo, a trompa de ter nascido e mesmo assim o sol vir assim mesmo. Ninguém faz por pôr o seu deus, se algum, à frente dos outros na bicha do Paraíso, se algum, muito menos alguém se lembra de matar o próximo em nome do longínquo, a Ermelinda é que sempre diz que o negócio de cada um não é a venda de todos.
Casados no palato o figo e a aguardente, agora sim, agora é hora-número, o dia é já qualquer-coisa-feira, o trabalho não azeda, vai o mestre da escola para a escola, o da oficina para a oficina, o da muita terra para a leira, o do pouca-terra para a estação, o das cartas para o correio. Ranchos de mulheres algaraviam o perpétuo interesse da vida a caminho da fiação. Guincha o postigo meio-corpo do sapateiro. Trissa altíssimo o manicómio feliz da passarada no plátano grande do rossio. Fico a sós com a Ermelinda, que confia na honestidade da minha solidão para ir ali num instante ao peixe e aos jornais, olho a repetição de cada mesa à espera da novidade do fantasma, vou abrindo o bornal, tirando dele o lápis, a caderneta para que copio as coisas importantes, dessa “suprema importância que passa no dia seguinte” anotada por um tal Pessoa, pessoa que também gostava de aguardente, de figos não sei, de figos gostaria Caeiro, se algum.
Boa coisa: à volta da Ermelinda, quase sem quê e de todo sem para-quê, tenho a crónica feita. Ajunto caderneta e lápis de retorno às entranhas de pano do saquitel, engulo uma para o caminho (bebe muito a pretexto de si mesmo, o sacana do caminho) e é já quando devasso no pórtico as fitas verticais contra o mosquedo que, ao meu Até-logo-Ermelinda, dela ouço esta bonita coisa:
– Até sempre, Charlie.


quinta-feira, janeiro 08, 2015

Rosário Breve n.º 389 - in O RIBATEJO de 8 de Janeiro de 2015 - www.oribatejo.pt

Abrunheiro enTVIstado (também)

Nota prévia: integro em segredo (até dizer isto) uma pandilha em rede e-mâilica que se dedica ao duplo tráfico de fotos de gajas boazonas todas nuas & de bocas anti-Sócrates. Tanto estas como aquelas nos fazem ficar, a mim como aos meus associados, a modos que aquilo dos calções da estátua do CR7. Calculai, pois, o espanto dessa minha secreta maltosa quando isto (a seguinte enTVIsta) sair a lume público. Vamos a ela:

Foi confrontado com provas pelo juiz Carlos Alexandre?
Vejo que não leu a “nota prévia” ali em cima. O juiz Carlos Alexandre é homem. É homem e não se chama Sócrates. Ora, eu é mais gajas.
Que tipo de gajas?
Tipo todas. Estou numa idade de mais caroço do que polpa. Tenho uma próstata que ainda não brinca em serviço. Por isso, é mesmo tipo todas que estejam à mão-d’inseminar, se bem me compreende.
Como encara o que está a acontecer e o que tem sido publicado?
Faço de conta que não é nada comigo. E é que não é mesmo. O que tem sido publicado é mais João Baptista & Bruno Oliveira. O Joaquim Duarte é mais o Editorial e ver se ficou alguma luz acesa às quartas no fecho do fecho. Não, nenhum destes três é da tal minha pandilha na net.
E os outros colunistas?
Ainda bem que me pergunta isso. Esses é que deveriam estar todos na preventiva. O Beja Santos por ler mais livros (mas ler mesmo) do que o prof. Marcelo. O Eurico Heitor por andar sempre a pôr Tomar nos píncaros e Abrantes na mó de baixo. Os Fernandes Pai & Filho por andarem a desassossegar (outra vez) o general Eanes. O Luís Eugénio porque sim. O Maia dos cartoons porque também. E o Arnaldo Vasques idem aspas para não se ficar a rir dos colegas.
O Carlos Cruz não?
Esse não porque eu gosto muito de ir a patuscadas com ele. E por ser ele a trazer-me, à Perna, umas malas bestiais lá dos Brasis e das Áfricas onde anda sempre metido a fazer e(t)nologia.
A tal sua pandilha e-mâilica inclúi alguns dos senhores acima nomeados?
Não, nenhum. O Maia ainda quis pertencer, mas eu disse-lhe que não porque gajas desenhadas não fazem saltar o rebite ao pilar. A gente é mais fotos com elas descalças até ao pescoço.
Então, se o acervo é fotográfico, o Zé Freitas e o Tó Vieira se calhar são…
A menina não se ponha com reticências maliciosas. Nenhum deles pertence àquilo. São os dois fotos sim senhor, mas o Freitas é mais pássaros, não o feminino deste plural; e o Vieira quer é surf: as pranchadas dele são mais de Peniche à Nazaré.
Você é comunista?
Olha-m’esta… Não senhora, desde que morreu o Eusébio, fez agora um ano, que nunca mais fui.
Eu disse “comunista”, não desse tipo de encarnado.
A menina desculpe, mas é que voltei a abusar um bocado dos copos desde que o Salazar morreu.
Morreu mesmo?
Quem, o Pantera Negra ou o Botas? O Rei infelizmente sim. O outro, isto nunca se sabe. É ver o prof. Adriano Moreira, que anda ali como se não fosse, ou não tivesse sido, nada com ele.
Um apartamento em Paris é um dos seus sonhos?
Já foi mais. Eu agora é mais sonhos com gajas, não sei se já lho tinha dito. Assim tipo a menina.
Esteja qu’eto co’ rabo e diga-me: não considera blasfémia tanta graçola relativa à ‘geminação’ de Évora com a Cova da Iria?
Acho. Mas olhe: o pau carunchoso é pau na mesma, seja para fazer colheres, seja para fazer santos. É como o papel na rotativa: tanto dá para fazer um jornal a sério como para fazer O Mirante. A blasfémia é sempre coisa muito relativa.
Muit’òbrigadinha. Penso que está tudo. Já agora, sabe de algum tasco por aqui onde se coma bem e barato?
Isso é mais com o doutor Fernandes sénior. Mas o melhor é ir perguntar-lhe já ao aeroporto antes que o bifem preso. Eu nisso do comer, sabe, eu nisso do comer é mais gajas. O beber pode ser sozinho. E não, eu nunca disse que o doutor juiz Carlos Alexandre era da minha pandilha. Dizer, não disse. A menina aceitaria que o Zé Freitas ou o Tó Vieira lhe tirassem umas pelingrafias em dia de calor?