quinta-feira, junho 30, 2016

Rosário Breve nº 463 - in O RIBATEJO de 30 de Junho de 2016 - www.oribatejo.pt

Da arte do chá

1 Parece que a última Convenção do Bloco (dito) de Esquerda ofereceu ribalta a uma farsola triste: a da assuada de que foi alvo a delegação, aliás convidada, do Syriza. Achei mal os apupos como o caraças. Para mim, ninguém lhano, ninguém gentil, ninguém cordato, ninguém bem educado – humilha, achincalha, indispõe &/ou enxovalha a quem, chamado por alguém, à casa de alguém acede. Os meus Pais sempre me inculcaram a evidência de ser o gesto a valer a mão, não o anel a valer o dedo. Catarina: o que aos gregos fizeram (pelo menos parte dos bloquistas com assento na plateia), justapõe duas em uma palavra só – má-criação. Não tem a ver com esquerda. Não tem a ver com direita. Não tem, sequer, a ver com política. Tem a ver com um pouquito mais de chá & com um bocadito menos de erva-fumada-para-rir na idade supostamente adulta. A dita assuada apupa-vaiante do BE ao Syriza fez-me, todavia, bem. Fez-me bem ao fazer-me, como me fez, voltar ao convívio do grande Poeta latino que Horácio foi, é & há-de ser. E a Horácio porquê?
2 Porque Horácio escreveu (cf. Epístolas, Livro II, 1.156): “Græcia capta ferum victorem cepit”. Em nosso Português: “A Grécia dominada superou o seu feroz vencedor”. Mas fará sentido ser, ante malcriados, citador do imorredouro legado horaciano? Fará. Porquê?
3 Porque citar um latino a propósito de gregos causa sempre certo frisson erudito. Impressiona sempre os coríntios. Engasga sempre os zebedeus. Faz sempre tossir à bruta os fumadores de palha magrebina. E faz sempre estacar em gelo os adoradores do fogo fácil: aquele fogo que queima sem saber que um dia tudo arde. Que um dia tudo arde para pedagogia finalmente adulta de certa parte da plateia do BE.
4 Entrementes, numa certa ilha não longínqua da Convenção catarinista, o Reino (des)Unido pôs-se na alheta/de frosques/vila-diogo do projecto pan-europeu nascido do pós-II Guerra Mundial. Sem pedir licença à miúda do Bloco, o mais vulgar cidadão cockney , nostálgico talvez de bifes de vaca não-louca, procedeu à edição de si mesmo em separata do breviário franco-alemão + ex-soberanias-cachopitas-satélites como por exemplo nós-Portugal. O que os Britânicos referendaram hoje será anteontem no dia a seguir a amanhã. Só isso. Ninguém sabe o que a seguir virá. Só eu sei. Só eu sei por que não fico em casa com o que sei. Saio de casa e venho a esta derradeira página do jornal berrar o que sei. Não é da realidade-Brexit-e-agora,-UE? que falo. É de Horácio. É de Horácio & é para aquela parte malcriada do BE. Trata-se do resto da citação do Poeta nascido a 8 de Dezembro quando faltavam 65 anos para o Cristo da manjedoura. Por causa disto: ao receber tão arruaceira & tão infelizmente em sua própria casa os convidados gregos, parte dos bloquistas neófitos da-coisa-depressa-mas-da-causa-devagar merece saber o latinório todo. O qual é: Græcia capta ferum victorem cepit et artes/Intuit agresti Latio”. Ou seja: “A Grécia dominada superou o seu feroz vencedor e introduziu as artes no agreste Lácio”. Ora, quem diz Lácio, Catarina, diz (des)União Europeia. Porquê, Catarina?
5 Porque, Catarina, a boa-criação é adereço comportamental da arte do chá, arte a que os Gregos, miúda, nem sempre chamavam cicuta

Rosário Breve nº 463 - in O RIBATEJO de 30 de Junho de 2016 - www.oribatejo.pt

Da arte do chá

1 Parece que a última Convenção do Bloco (dito) de Esquerda ofereceu ribalta a uma farsola triste: a da assuada de que foi alvo a delegação, aliás convidada, do Syriza. Achei mal os apupos como o caraças. Para mim, ninguém lhano, ninguém gentil, ninguém cordato, ninguém bem educado – humilha, achincalha, indispõe &/ou enxovalha a quem, chamado por alguém, à casa de alguém acede. Os meus Pais sempre me inculcaram a evidência de ser o gesto a valer a mão, não o anel a valer o dedo. Catarina: o que aos gregos fizeram (pelo menos parte dos bloquistas com assento na plateia), justapõe duas em uma palavra só – má-criação. Não tem a ver com esquerda. Não tem a ver com direita. Não tem, sequer, a ver com política. Tem a ver com um pouquito mais de chá & com um bocadito menos de erva-fumada-para-rir na idade supostamente adulta. A dita assuada apupa-vaiante do BE ao Syriza fez-me, todavia, bem. Fez-me bem ao fazer-me, como me fez, voltar ao convívio do grande Poeta latino que Horácio foi, é & há-de ser. E a Horácio porquê?
2 Porque Horácio escreveu (cf. Epístolas, Livro II, 1.156): “Græcia capta ferum victorem cepit”. Em nosso Português: “A Grécia dominada superou o seu feroz vencedor”. Mas fará sentido ser, ante malcriados, citador do imorredouro legado horaciano? Fará. Porquê?
3 Porque citar um latino a propósito de gregos causa sempre certo frisson erudito. Impressiona sempre os coríntios. Engasga sempre os zebedeus. Faz sempre tossir à bruta os fumadores de palha magrebina. E faz sempre estacar em gelo os adoradores do fogo fácil: aquele fogo que queima sem saber que um dia tudo arde. Que um dia tudo arde para pedagogia finalmente adulta de certa parte da plateia do BE.
4 Entrementes, numa certa ilha não longínqua da Convenção catarinista, o Reino (des)Unido pôs-se na alheta/de frosques/vila-diogo do projecto pan-europeu nascido do pós-II Guerra Mundial. Sem pedir licença à miúda do Bloco, o mais vulgar cidadão cockney , nostálgico talvez de bifes de vaca não-louca, procedeu à edição de si mesmo em separata do breviário franco-alemão + ex-soberanias-cachopitas-satélites como por exemplo nós-Portugal. O que os Britânicos referendaram hoje será anteontem no dia a seguir a amanhã. Só isso. Ninguém sabe o que a seguir virá. Só eu sei. Só eu sei por que não fico em casa com o que sei. Saio de casa e venho a esta derradeira página do jornal berrar o que sei. Não é da realidade-Brexit-e-agora,-UE? que falo. É de Horácio. É de Horácio & é para aquela parte malcriada do BE. Trata-se do resto da citação do Poeta nascido a 8 de Dezembro quando faltavam 65 anos para o Cristo da manjedoura. Por causa disto: ao receber tão arruaceira & tão infelizmente em sua própria casa os convidados gregos, parte dos bloquistas neófitos da-coisa-depressa-mas-da-causa-devagar merecem saber o latinório todo. O qual é: Græcia capta ferum victorem cepit et artes/Intuit agresti Latio”. Ou seja: “A Grécia dominada superou o seu feroz vencedor e introduziu as artes no agreste Lácio”. Ora, quem diz Lácio, Catarina, diz (des)União Europeia. Porquê, Catarina?
5 Porque, Catarina, a boa-criação é adereço comportamental da arte do chá, arte a que os Gregos, miúda, nem sempre chamavam cicuta

quinta-feira, junho 23, 2016

Rosário Breve nº 462 - in O RIBATEJO de 23 de Junho de 2016 - www.oribatejo.pt

Querendo, leiam só o ponto 6

1 “Recapitalização”. É novo eufemismo para “reiteração de roubalheira”. Aplica-se, agora, à Caixa Geral de Depósitos. A coisa pública. Até agora, parecia coisa exclusiva dos bancos privados. Aqueles que, havendo outrora lucros, gozavam privadamente deles. Aqueles que, havendo agora prejuízos, gozam publicamente da tal “recapitalização”. Um vento de insanidade devasta sem obstáculos a banca à portuguesa. E vai tudo dar ao mesmo. E vai tudo dar aos mesmos.
2 Uma mulher desconfia de andar a ser corneada pelo marido. Vai daí, afoga o próprio filho de ambos. Não consigo descortinar a relação causa-efeito. É como se, de repente, a realidade portuguesa se tenha posto toda a imitar o Correio da Manhã.
3 Recentemente, uma senhora apontou-me o dedo indicador: “O senhor só escreve coisas pessimistas.” Foi o que o dedo me disse. E eu, que tenho por norma não chamar “idiota” a uma senhora, acabei sofrendo a desconfiança de ter começado este mesmo ponto 3 chamando “senhora” a uma idiota.
4 Sem convite, uma recordação irrompe-me redacção adentro: a daquele dia em que a minha Senhora & eu fomos a Santarém visitar o meu cunhado Zé Carlos. Dei uma volta anónima pelo burgo. Fixou-se-me à retina o lixo, o mesmo que agora é bárbara moda incendiar nos contentores. Pelas ruas, as imundícies voavam baixinho como os crocodilos. Garrafas de plástico. Sacos da mesma matéria. Cascas de melão. Fotografias rasgadas. Livros do Rodrigues dos Santos e do Paulo Coelho. Alarmes internos da Caixa Geral de Depósitos. Classificados de massagistas do tal Correio da Manhã. Esse dia já lá vai e cá não volta. Recordo todavia o regresso: deu-se por terras mais limpas, mais lavadas, menos sujeitas à incúria insensata que propicia comportamentos de intolerável vandalismo anti-cívico.
5 Devagarinho e silencioso como um gato, o Verão acabou chegando. É como se o nosso vizinho Norte de África tivesse de repente escancarado o portal do forno. Toda a gente sabe que Outono & Primavera são coisas que já não existem. A Madre-Natura já só exerce o maniqueísmo: ou invernia agreste, ou estiagem canicular. A moderação temperada esticou o pernil. Sofro pena disso. À brutalidade centígrada, prefiro o que já não podemos ter: a sombra humanista da rendilhada latada de cachos, o suavíssimo favónio beira-fluvial de ir ali com a mulher às cerejas. Mas o real não é dado a versos. Nem para eles caminha.
6 Caminho eu para sábado próximo. Será 25 de Junho. Pelas quatro da tarde dessa jornada, procederei à apresentação pública de um livro chamado Júlio Dinis – As Pupilas do Senhor Escritor. A obra tem autoria do nosso Joaquim Jorge Carvalho, que no também nosso O RIBATEJO assina semanalmente, a páginas cinco, a coluna Zona dos Perecíveis. É a tese de doutoramento deste meu máximo Amigo pela Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. Acontecerá no esplendoroso Café Santa Cruz, paredes-meias com o vetusto templo do mesmo nome. Em boa hora, por bom motivo. E por à meia-dúzia ser mais barato, neste exacto ponto 6 dou provimento de fecho à crónica – quanto menos não fosse, para contrariar a senhoril idiota do ponto 3.




CONTRA OS CANHÕES n.º 5 - in Quinzenário TREVIM de 23 de Junho de 2016

Assunto com janela

Era um homem que tinha e mantinha um gato. O gato era velho, o homem também. Ambos respiravam, comiam e dormiam numa casa do extremo da aldeia. Pela chaminé descia a voz dos pássaros. O gato, enroscado na cama de jornais, abria um olho e recordava caçadas jovens. O homem tinha umas chinelas de pano onde guardava os pés magros. No fogão a lenha, cozia um pedaço de carne entre feijões e couve. Dividia o caldo e a carne com o gato, fazia café, que o gato não apreciava, ficava-se a ver as brasas com um cachimbo de ébano na boca. No mundo de fora, o vento levava a chuva e as folhas a passear pelas alturas.
Um dia, o homem ficou muito doente. O gato percebeu logo. Enroscou-se-lhe aos pés e esperou. O homem não melhorava. O tempo, sim. Cá fora, o sol fazia filmes com os pinheiros, a brisa embebedava as andorinhas, o cheiro da resina tomava conta da madeira perpétua das horas.
O gato levantou-se, saltou da cama e procurou uma saída. As portas e as janelas estavam fechadas. Todas elas. O gato falou, então. Emitiu aquela frase crescente que sobressalta o coração. Há um tigre em cada gato. O homem não reagiu porque estava todo ocupado a morrer. O gato cheirou a presença autoritária do fim do homem. Eram velhos, tinham tido tempo para compreender que se morre de tanto estar vivo.
Pulou para a cómoda e atirou-se pelo vidro. Na rua, entre cacos, o gato olhou a esquerda e a direita. Tinha de decidir-se por um lado.
Na cama, o homem sentiu o ar que entrava pela janela partida. Louvou intimamente a sabedoria do seu gato. Deixou-se estar, não lamentando nada, esperando apenas que a sua noite interior arranjasse maneira de fechar aquela janela, levando-o para longe de uma primavera que já não era para ele, uma primavera que, exclusivamente, era um assunto de tigres.


quinta-feira, junho 16, 2016

Rosário Breve nº 461 - in O RIBATEJO de 16 de Junho de 2016 - www.oribatejo.pt



Onze milhões de Emplastros

É que nem Salazar teria sido capaz de tão alto feito: desmiolar toda uma república mercê de um desporto dito rei.
Não recuo um milímetro nem tiro uma sílaba ao título que escolhi para a crónica desta semana. Desgosta-me profundamente toda a euforia de plástico que pelo meu País, por desgraça, grassa. Outra vez as bandeiretas compradas nos chineses, caraças! Outra vez os patriotas da boca-para-fora, chiça! Ainda e sempre a impossibilidade de ligar a TV, num canal produzido cá, sem que os rebanhos de totós (quantos deles desempregados?) não irrompam pela pantalha mui parv’alegres, micóticos como a sarna, amostardados como o sinapismo cataplasmante – e de uma moral tipo impingem que já não vale a pena coçar.
Eu gosto muito de bola, juro que gosto. Até corri atrás dela que nunca me fartei, na minha remo(r)ta mocidade que não volta. Mas isto é de mais: a alienação a granel de uma gente que não é senão culpada da própria mi(s)tificação a que de tão bom grado se sujeita – e tudo sem um ai, sem um vagido, sem um isto-é-tudo-muito-lindo-mas-então-e-os-contratos-a-prazo-a-dívida-externa-o-Estado-a-socorrer-os-banqueiros-o-petróleo-no-Algarve-o-nuclear-em-Espanha-às-portas-da-fronteira-via-Tejo?
Quem há-de rinchavelhar-se desbragadamente com tudo isto há-de ser o Pepe. Todo o tuga conhece este grande lusíada. Pepe 10 – Jorge de Sena 0.
Rui Patrício 5 – Miguel Bombarda 0. Renato Sanches 4 – Passos Manuel 0. Quaresma 8 – Aristides de Sousa Mendes 0. CR7 1000 – Bernardo Santareno 0. E, de repente, a realidade: Portugal 1 – Islândia 1.
Já tive mais pena que assim fosse, seja & continue a ser. Com os anos, o futebol foi & veio dando lugar, no meu caso como na minha casa, a outras predilecções lúdicas: a gotinha de soro nos olhos a horas certas, a pastilhinha de alopurinol para prevenção da artrite gotosa, o copinho de água fria em jejum para lavar as vielas arteriais seguido do copinho de leite morno para caiar a adega, o chegar cedo ao Café da Graciete tal que a mesa predilecta de fazer as crónicas não esteja ocupada por algum meliante que escreva para outro jornal.
Não, nem sílaba nem milímetro retiro ao título. Tanto patusco também cansa. Tanto carneiro também farta. Tanta micose também exaspera. E tanta idiotia também aleija. Ainda se…
Ainda se os gajos das quinas em campo fossem, sei cá, o Damas, o Jordão, o Vítor Baptista, o Arnaldo, o Lourenço, o Lemos, o Pavão, o Coluna, o Manuel António, o Travassos e o Matateu, isso ’tá bem, isso é que era uma esquadra de ataque à maneira. E o Eusébio no banco a descansar um bocadito sem ser para sempre como agora está.
E, claro, eu como treinador, que percebo muito mais de ser emplastro do que certos 11 milhões de outros que eu bem cá sei mas não digo quem são. 

quinta-feira, junho 09, 2016

PPPPortugal - republicação de crónica, agora in o quinzenário TREVIM (Lousã), edição de 9 de Junho de 2016

PPPPortugal

Passam por Portugal políticos possuídos pela profunda predestinação peregrina prescrita pelos próprios poderes. Poucos praticaram, porém, planos políticos plenamente populares. Preferem passear pelas populações prègando promessas, pedindo palmas, pagando púcaros, pisando pó por perímetros populares, pulando “pasodobles” pimbas, pregando petas pouco polidas.
Presentemente, Portugal passa por pacóvio período. Peço paciência para poder provocar pensamento: poderá Portugal precaver-se perante poderosas panelinhas pantafaçudas? Pândegas, patuscadas, panfletos, pandeiros, passeios: por perfeita portugalidade, Portugal prefere parecer pequenino, perfeitinho, pimpolhinho. Poderia projectar (por plenário popular) palavras potentes, precisas, poéticas. Prefere, porém, pedestais. Pode parecer pouco, pois pode.
Penso poder precisar perfeitamente, ponto por ponto, patentes promulgações. Portugal precisa parar para pensar, para perceber, para proliferar prometedoramente. Posteriormente, procuraria pedalada para, presciente, poder presenciar prezáveis porvires.
Pedi-vos paciência para portugalizar, por palavras portuguesíssimas (perdão pelos “pasodobles”…), pesados pensamentos pensados por puro prazer provocatório. Pedir perdão passa, porém, por perdidas portas. Pela presente, passarei por profano. Pessoalmente, prefiro passar por próprio pé. Porquê? Porque passarei pouco possuído, pouco profundo, pouco predestinado, pouco político.

Rosário Breve nº 460 - in O RIBATEJO de 9 de Junho de 2016 - www.oribatejo.pt

Do estrangeiro quase pobre




1. Pobrezas

A gente é pobre, mas pobre não é gente. Pobre só é gente no Natal, quando faz de pobrezinho. Pobre vota, mas não conta. Pobre desconta.
Pode ser-se pobre estando rico. Mas ser pobre não enriquece. Rico pobre é o que se remedeia. Remediar-se empobrece muito mais no tal Natal.
Uma coisa é a gente ser pobre. Ser remediado é a mesma coisa. Mas estar rico não é o mesmo que ser rico. Ser rico pode ser estar pobre. Remediado é que não.
Remedeio não é remédio. Remédio é cara da coroa da doença. Doença é quando se pensa. Pensar empobrece, não remedeia nem enriquece.
Pobre vale mais quando não tem remédio. Menos quando tem remedeio. Quando tem remedeio, pobre é rico pobre.
Pobre rico é outra coisa. Vive remediado e morre pobre. Enriquecer a vida é empobrecer a morte. Mas remediá-la é matá-la porque é empobrecê-la. Como pensá-la é tudo menos remediá-la.
Pobre vota, mas não bota. Pobre perdigota. Pobre perde e gosta. Não gasta. Gosta. Remediado também gosta, mas bota. Bota rico porque vota pobre.
Que remédio.

2. Um estrangeiro quase feliz

Moro em Portugal desde que nasci, o que, naturalmente, não abona muito a meu favor. Sou mais um estrangeiro, portanto. Sim, é estrangeiro que me sinto. Manhã muito cedo, por exemplo, vou ao café do meu vizinho tomar a primeira chávena do dia. Como trabalho por conta própria, deixo-me estar. Ainda por cima, é permitido fumar. Porreiro. Então, ligam o televisor. É fatal: TVI. É fatal: o Goucha. Sou corrido por aquela portugalidade que me resulta inaceitável, intolerável, insustentável, incontornável. Cá fora, chove. Escolho outro sítio para escrever. Descobri um que, coisa rara, não tem televisão.
É o cemitério. Entro, escolho um jazigo com degraus, sossego o coração, trabalho. Ninguém me chateia. Estou ali na paz do Senhor. O vento dá nas árvores, as aves pontuam reticências pelo papel do céu, deixou de chover, uma farpa de sol fura o cartão das nuvens. Quando preciso de algum nome para uma personagem, dou uma volta pelo labirinto simples das sepulturas. O primeiro nome deste senhor aqui, o segundo daquele e os dois últimos desta tão saudosa e estremecida senhora. Como vou morar em Portugal até morrer, já ando, por assim dizer, entre eternas saudades. Pelo fim da tarde, concedo-me uma hora de faz-nenhum e descanso em paz. Dou pão aos pombos e aos pardais da praça, ouço o canto branco da fonte luminosa, vejo passar as mulheres dos outros, vou ao parque sentir os anjos que se fazem pedra quando são descobertos, desando pelas vielas húmidas, atravesso uma praça de chão de gravilha, leio os nomes das ruas, cheiro as bancadas de fruta que alegram as ruas de uma felicidade vegetal, cheiro o frango voador das churrasqueiras, aprecio o rosto cheio de dignidade dos cães, resisto à tentação de nunca mais parar, paro, tomo um doce num tasco geriátrico cujas paredes contam calendários de santos e posters do Sporting – e sou quase feliz, apesar de estrangeiro no, afinal, meu País.

quinta-feira, junho 02, 2016

Rosário Breve nº 459 - in O RIBATEJO de 2 de Junho de 2016 - www.oribatejo.pt





Lisboa vai ela



Vem tu daí comigo, meu justo & meu fiel Leitor, ao quintal das traseiras da minha lembrança. Concede-me esse obséquio que, impagável embora, tentarei remunerar-te mercê de uma Língua limpa e, como tu, fiel e justa.
Tenho trinta anos. O senhor meu Pai morre há bocadito. Eu bato com a porta. Tenho trinta anos e estou há anos de mais na Escola. Desemprego-me do giz & da ardósia. Vou para Lisboa.
Ânimo que a Lisboa me leva: viver, se não do que escrevo, para o que puder escrever. Escolhi bem o exílio: Lisboa é a brancura perpétua, escândalo de cal que, qual mulher fácil, se oferece sem preço à veia aberta do Tejo.
Adapto-me logo: a pé, venho dos Prazeres à Alameda para (re)conhecer tudo. Franqueio as Águas-Livres, espreito de longe a podridão exposta do Casal Ventoso, tenho cuidado com a carteira quando roço os manhosos de Alcântara, da de São Paulo ao Arsenal colho a sombra já mediterrânica que encharca as casas velhas, pesponto, pedestremente sempre, a Áurea e a Augusta, descambo afinal no mesmo Rossio onde os senhores pais do Eça tiveram um quarto-andar.
É bonita, a Velha Olisipo. Às Portas de Santo Antão, que Rua de Eugénio dos Santos foi mas ingratamente deixou de ser, apetece-me pipis de frango imiscuídos em pimenta e caril. Vou-me a eles.
Enquanto tasquinho as entranhas aviárias e impregno as papilas gustativas de indianas especiarias, sei muito bem que estou existindo sem doença nem remédio na Cidade da multidão chamada Fernando Pessoa, que chamou nomes a Deus, e do douto doutor tomarense chamado José-Augusto França, que felizmente Deus ainda não chamou.
De ali, saio a ver o Passeio Público, a que têm a mania de chamar Avenida da Liberdade. Subo, subo, balão de todo. Escancara-se-me o Marquês, o tremendo anti-jesuíta da Reconstrução pós-1755. Saturo-me sem saciedade possível de todo o articulado geométrico, amplo, respiratório. A luz é tanta, mas tanta, que chega a doer nos ossos da cara. Compasso o passo ao ritmo capital da Cidade. Finjo que sou feliz, que sou liberto, que nunca deixarei de ter trinta anos nem de ser órfão, ou órgão, de Pai.
Tenho um quarto no Bairro dos Artistas, a poucas passadas do Areeiro. Vinte-seis continhos por mês e por baixo da mesa: não há papéis nem Finanças para ninguém. Trabalho ali aos Mártires da Pátria, Jardim do Torel, tão perto do Irmão Doutor José Thomaz de Souza Martins, esse tão bom médico, esse tão bom homem. Recebo sessenta e duas milenas: é curto, mas tem de dar. E dá. Foi dando.
Repara agora, meu Justo & meu Fiel: há quarta-feira europeia, os energúmenos dos cachecóis infestam o metro, há que evitá-los pelo lado certo da noite. Vou ao bar do peep-show sito ao sopé da Calçada de Santo António da Glória. O balconista chama-se Fernando e é sportinguista. A cerveja é a trezentos paus. Ainda não aconteceu a roubalheira da conversão do escudo em euro. Fernando teve qualquer coisa a ver com o Parque Mayer, ali tão perto: não sei se uma nostalgia teatral, se uma mulher. Não inquiro. Saio.
É Lisboa outra vez: se eu quiser, dou à doida pela Fontes Pereira de Melo, devasso os Campos, chego a Campolide. Mas não quero. Quero antes isto: submeto-me à paranóia descomunal da fugacidade do Tempo, tenho mas é 52 anos e dou-me de cara(s) a ti, meu Fiel, meu Justo, num jornal que é, afinal, de Santarém, primeiro e último apeadeiro até à Coimbra de que nunca deixarei de ser, por mais boa que ela vá.

sexta-feira, maio 27, 2016

Rosário Breve nº 458 - in O RIBATEJO de 26 de Maio de 2016 - www.oribatejo.pt

A sangue-frio e sem anestesia

1 A edição passada do noss’ O RIBATEJO deu justo destaque, de capa e tudo, ao intolerável arrastamento do problema relativo ao bloco operatório do Hospital de Santarém. Escuso de sumariar aqui a matéria exposta pelo Jornal: a peça de João Baptista é plenamente clara e demonstrativa. Se volto porém à carga do assunto, é por um pormenor que, como popularmente se diz, me fez espécie.
Trata-se de uma declaração do senhor presidente do Conselho de Administração do Hospital Distrital de Santarém, José Josué. Disse ele: “As dificuldades na actividade cirúrgica prendem-se fundamentalmente com a falta de anestesistas. É o que mais desconforto tem provocado. Podemos ter muitas salas, mas, se não tivermos anestesistas, as cirurgias não se fazem.
Quero dizer isto: há falta de anestesistas porque os médicos não se vêem a si mesmos como servidores públicos. O sistema permite-lhes a concentração faustosa em Coimbra, Lisboa e Porto – e a Província que se lixe. Se fossem professores, teriam de concorrer aonde vagas houvesse – mesmo que a centenas de quilómetros da própria residência. Se fossem futebolistas, treinariam onde o clube contratante tivesse o recinto para tal. Se fossem canalizadores, canalizariam onde fosse a obra. Mas não, eles não: é-lhes difícil suportar o anátema do João Semana. Digo isto assim por ser exactamente assim que vejo, penso e caustico a realidade. Não serão todos assim – pode ser-me objectado. Claro que não. As generalizações são perigosas: mas eu sei do que falo. E os médicos também.
Coimbra, Lisboa e Porto não esgotam o País. Servem muita gente – mas não servem toda a gente. As populações do maltratado Interior merecem ser servidas com o mesmo grau qualitativo de serviço público que as do Litoral e as das grandes aglomerações urbanas. E insisto: os médicos são servidores públicos. Caso o não queiram ser, que se dediquem em exclusivo ao privado, deixando em paz a teta da vaca estatal. Tenho dito.
2 Passo agora a mais doce assunto. Vinha na edição passada também: “Abrantes tem dois campeões de cálculo mental”. João Bento, Rita Mascate, Matilde Santos Lourenço e Miguel Diogo Ruivo foram magníficos nas provas prestadas no âmbito do cálculo matemático. Campeões do mundo, nem menos. Estes meninos e estas meninas são mais do que o orgulho das respectivas famílias. São-no também das escolas que representaram – e nosso orgulho ainda. Na balbúrdia quotidiana de crimes escabrosos, de escândalos roubalheira-financeiros, de desertificação de lugares & ideias, o João, a Rita, a Matilde e o Miguel florescem como excepções de contracorrente. Daqui os saúdo. Quanto mais não fosse, pelo sorriso grato que se me colou à expressão no acto de leitura dos seus elevados feitos. Concluo assim: se algum destes quatro vier a formar-se em Medicina, primeiro, especializando-se em Anestesia depois, que se lembre, sei lá, de que o Hospital de Abrantes pode precisar dele/dela.
Já nem digo o de Santarém – Abrantes também é gente.

quinta-feira, maio 19, 2016

ROSÁRIO BREVE n.º 457 - in O RIBATEJO de 19 de Maio de 2016 - www.oribatejo.pt


Duas Suíças ou menos




1Tenta viver como se fosse manhã.”
Isto é Nietzsche lido por Bloom (H.). Parece-me boa injunção. Não é fácil: a noite figurada parece invencível as mais vezes. Não é fácil – mas é possível. E se é possível, está ao alcance.
Em caleidoscópio, as imagens do mundo concorrem-nos sem cessação. A atenção dispersa-se ao sabor (quantas vezes amargo) dos estímulos. A honestidade existe, mas não campeia. O banditismo parece integrar a essência humana. Os valores tidos por essenciais (direito à vida, ao trabalho, à saúde, à honra, à paz) podem ser e são escamoteados a pretexto de fantasmas obstinados: a superstição, a ganância, a ignorância, o preconceito, a dominação.
A veracidade evidente destas constantes é avessa à tal manhã existencial. Mas é possível combatê-la – antes que se faça tarde.
2 Na exígua paróquia do Universo chamada Portugal, os últimos tempos voltaram a ser fustigados pela euforia bêbeda da bola. Pelas redes sociais, umas (poucas) almas ainda verberaram tanta barulheira gráfica. Tipo assim: “Ah Portugueses dum caraças, se o desemprego, a saúde, a justiça e a austeridade forçada vos fizessem cerrar sempre fileiras combativas assim, seríamos para aí duas Suíças”. Mais ou menos isto. O espírito era este, se não o texto. Mas – quê? Rui Jorge Vitória Jesus, Jonas Fisgas Slimani Pistolas etc. etc. etc. etc.
3 Nos entrementes, há quem queira (e o queira muito) intoxicar a opinião pública com a antinomia Escola Pública – Colégios Particulares/Cooperativos. É natural que sim: estão em jogo os milhões de todos a saque de uns poucos. A necessidade pretérita dos ora famigerados contratos de associação tem sido em muitos casos, mercê do crescimento da oferta pública de rede escolar, debelada. Assim sendo, proponho três equações simples: Dinheiro Público – Escola Pública; Dinheiro Privado – Escola Privada; Caixa de Esmolas – Ensino Religioso. Pim, pam, pum. Posto de outra maneira: onde o contrato de associação se justifique (e há casos em que sim, note-se bem), cumpra-se; onde não, rasgue-se. E siga(mos) para bingo.
4 Se duas causas há que não apenas me não merecem simpatia como bem antes pelo contrário, elas são: 
- a dos taxistas de Lisboa; 
- a dos suinicultores nacionais.
Há tempos, na TV, um taxista queixava-se de que “por causa da Uber, só fazemos serviços para a chungaria”, acrescentando que “a polícia anda sempre em cima de nós e se levamos um euro a mais é o diabo”. Isto nem carece de comentário.
Quanto à suinicultura nacional, relembro tão-só que a ganância impura e simples, anos/décadas a fio, tem levado os produtores íncolas a desprezar as mais básicas condições ecológico-ambientais suas envolventes. ETAR? Os municípios que as paguem. Sei, infelizmente sei, muito bem do que falo: habitante há anos de uma região enxameada de pecuárias afins, não desconheço os recorrentes (e não punidos) atentados contra, por exemplo, os aquíferos e os flúvios. Como se também os suinicultores estendessem à chungaria consumidora a pouca higiene do seu/deles porquinho.
5 Onde isto já vai: comecei citando Nietzsche e já ronco… Não é grave, porém: a realidade ficará exactamente no mesmo sítio, pesada, inamovível, indiferente a estas minhas filosofices impotentes. Salva-me todavia o facto vero & mesmo de ser manhã. Objectivamente manhã. Horariamente manhã. Tenho o dia todo (tê-lo-ei?) por minha conta. Na cama que dele fizer, a noite passarei.
E nela sonharei, naturalmente que sim, com o meu tetra na próxima época.
Assim seja.

quinta-feira, maio 12, 2016

ROSÁRIO BREVE n.º 456 - in O RIBATEJO de 12 de Maio de 2016 - www.oribatejo.pt

Com a senhora de violeta

Sonhei há tempos com a minha morte.
Não foi um sonho mórbido. Teve, pelo contrário, qualquer coisa de apaziguamento. Deu-me mais placidez do que acidez. Posso contar-Vos, claro.
Parece que a minha morte é uma senhora. Tem a minha idade: nasceu no meu nascimento. Apareceu-me sem fogos-fátuos-de-artifício. Os sonhos são filmes-mudos e a preto-cinza-e-branco, pelo que preciso de escrever aqui “violeta” para Vos dar a ver o vestido dela; e de oculta aparelhagem áudio surdia um fio que tanto podia ser de Bach como de Tony de Matos.
Era num relvado violeta também, posto que o escrevo. Arvoredo disperso exclamava a prosa do ar. Eu tinha uma caixa pequena de queijadas idênticas àquelas de que um homem se esquece em Sintra e uma botelha plena de um vinhito branco muito enxuto, muito decente, muito capaz de embaciar o palato e a espera por melhores dias.
Apesar da amplidão por assim dizer cinemascópica do cenário aberto, não havia passarada, facto que me angustiava um bocadito. Um trecho de rio fulgurava de mercúrio vivo ao canto exacto da tela. Medas de palha enxuta torravam ao sol frio. A senhora & eu, era descalços que estávamos.
Uma espécie de curiosidade serena quis que eu lhe desvelasse o rosto. Consegui, mas não foi fácil. Bastava não olhá-la directamente. Bastava fechar os olhos para descortinar na perfeição a sua efígie: era a minha cara mas em rapariga. Aquilo fez-me sorrir: a minha morte usava mamitas e tinha de urinar sentada.
Não falámos um com a outra por a absoluta desnecessidade de poluirmos com sílabas oxidadas a qualidade limpa-metal da quietude. Entendemo-nos como nem nos melhores casamentos.
Ela mordiscou um doce, serviu-se a si mesma de um cristal de branco, suspirava de quando em vez como se fosse ela a sonhar. Eu ainda quis recorrer à telepatia para lhe falar da importância devastadora que a poesia de Carlos de Oliveira, tão precocemente desaparecido, teve – e continua a ter – na minha vida, mas a senhora telegrafou-me isto sem abrir a boca: “Essa morte não era eu.”
Condenado como toda a gente a reatar os liames do re-nascimento por força do despertar, despertei. Dei por mim sozinho na cama como um feixe de ossos numa cova sem leões, Daniel sendo embora. A boca sabia-me a branco agora morno e a pedacitos de Sintra. Não me sabia a amargura, como tão de costume.
Até hoje, não voltei a vislumbrá-la. Tenho ido à senhora minha médica, a contagem dos glóbulos-brancos não indicia leucemias, o tabaco tem sido muito mas queima-se bem tipo ashes to ashes, o apetite varia com a exposição maior ou menor às malevolências da política e o meu Benfica, enfim, parece querer saudar de novo a memória do senhor meu Pai.
Estou agora numa expectativa quase trémula: morro de curiosidade. Morro de curiosidade por acabar, ou seja, morro de curiosidade por acabar sabendo quem me voltará primeiro – se ela, se os pássaros.

CONTRA OS CANHÕES n.º 2 - in Quinzenário TREVIM de 12 de Maio de 2016

O cão do Café Pagelou

Passou-se esta há quase trinta anos. Era no Café Pagelou, ali ao centro da vetusta & formosa Lousã da minha vida moça. Para além do atendimento de qualidade, mais ainda do que pela sua excelente localização, o estabelecimento atraía-me os favores cafeínos por causa do cão da casa. Sim, por causa do cão da casa.
O número dele fazia sorrir toda a gente. O meu sentimento, porém, era dúbio, era equívoco, era contraditório, era paradoxal. Também eu sorria, é verdade, mas ao mesmo tempo aquilo entristecia-me. Porquê?
Porque o cachorro era viciado em açúcar. O pessoal mandava vir a bica, sacudia a saqueta – e zumba!: lá o tinha à perna, de esbugalhados olhos vítreos, mesmerizados pela doce droga, sacudindo o rabiosque a 180 km/hora. Se lhe davam o resto da saqueta, ele era virtuosíssimo no segurá-la com ambas as mãozitas dianteiras, estraçalhando-a sem apelo & com agravo. E então, lambia-lhe os dentros como um possesso. Sim, aquilo gerava sorrisos certos no derredor da freguesia. Mas, já vo-lo disse, também tinha o condão de entristurar-me. É que os cães não metabolizam o açúcar. São capazes de muitas coisas de alto mérito – mas da metabolização do açúcar,  não são. Eu sabia-o, portanto, condenado a um destino atroz: o da cegueira diabética. As três décadas volveram-se cinza.
Deixei há muito de habitar na Lousã de boa memória que revisito com gosto sempre que posso e/ou me lá chamam. O cãozito do Pagelou há muito terá ascendido ao céu dos quadrúpedes. Oxalá que, nesse merecido Paraíso, nem a pulga lhe resida atrás da orelha, nem o açúcar o cegue. Pode até ser que alguém, esta crónica lendo, se recorde do animal. Ou que, maravilha!, se lembre de como lhe chamavam. Por mim, sou tão-só capaz de vos garantir, em boa-fé & de boa-mente, a veracidade do exposto.
O titular cachorrito há-de perdoar-me, quero crer, que a lembrança dele seja por mim revisitada a pretexto alegórico. Este aqui: que outrora coisa relativa à Lousã se me insurja. E ela é esta – onde o cão é viciado em açúcar, e por causa disso cego, é a gente lousanense (e não só) viciada em amargura: pois só um cego não vê o que (des)fizeram à linha ferroviária que da Lousã tem nome, embora até Serpins chegasse.
Perdoado estás e ficas, cãozito, à face da voluntária cegueira tua não voluntária.
Não me perdoo porém eu a mim, ou a Vós por mim, por, cada vez que de novo arribo à honesta, formosa, vetusta e perpétua Lousã, ouvir ladrar tão pouco à falta do roubo de tanto açúcar. 

sexta-feira, abril 29, 2016

Ganhar o dia

Aconteceu-me há minutos.
O dia está bonito, claro, de temperatura amena.
Mesmo assim, de retorno a casa, eu vinha meio sorumbático, um quarto melancólico e tristonho a outra quarta parte.
Foi então que o vi: na paragem do autocarro, um rapaz muito novo, mal chegado a adulto. Cego. Completamente cego.
E a mim, que uso óculos, passou-me logo a melancolia.
E foi assim que ganhei o dia.


Leiria, quinta-feira, tarde de 28 de Abril de 2016

quinta-feira, abril 28, 2016

Rosário Breve n.º 454 - in O RIBATEJO de 28 de Abril de 2016 - www.oribatejo.pt



Eurico

Não.
Mas sim.
José Niza.
Luís Eugénio Ferreira.
Eurico Heitor Consciência, agora.
Mas sim é que não: não negarei ao doutor Consciência um obituário ao mesmo tempo triste & feliz.
Triste – pelo lado do sacolejão brusco, da violência estapafúrdia, do escândalo insensato que todo o falecimento de alguém tão merecedor de honra, estima, consideração & elogio nunca deixa de causar. Mas feliz também, senhor.
Feliz – pelo lado de absoluta bonomia que a sua desempoeirada figura, a sua figura alta, egrégia sem favor, ínclita até, esparrinhou por todos (nós) quantos, ou conhecendo-o em pessoa, ou dele beneficiando a profissão, ou a ele-cronista lendo em duas colunas de página-cinco, tiveram a muito (tanta!) boa-sorte de contemporanizar.
Respirámos no mesmo metro-quadrado uma vez única. Foi por uma gala do nosso comum O Ribatejo. Saudei-o como quem sobe. Ele recumprimentou-me como se não descesse. Trocámos mimos. Não trocámos números telefónicos. Isso passou – como tudo passa.
Posso finalmente escrevedizê-lo em voz-alta, agora que ele me não pode ouvi(le)r: foi sempre pela coluna de Eurico, O Não-Presbítero, que comecei a leitura do meu/Vosso Jornal. Mais: fi-lo sempre porque as palavras dele nunca me faziam rir – sorrir sim, sempre, ah isso sim! Ainda esta semana já para sempre pretérita: a mordedura irónica do seu incisivo de propósito mal escondido, sabes tu, Leitor? Aquele sarcasmo nunca humilhante, aquele escárnio nunca gozão, aquele maldizer tão bem dito sempre: e aquela elegância completamente cavalheiresca, de homem antigo que não sabe ser velho, ai!, aquela compostura toda democrática que ele português, num Português forrado de quanto Latim, jurídico ou não, fosse preciso ou não fosse, lembra-te tu, pá, Leitor dele merecido que meu quero merecer – e tudo sempre, mas sempre, para Todos, todos quanto fossem, quantos viessem todos.
Meti-me uma vez com ele. Fi-lo sorrir. Eu sabia que sim, que ele sorriria. Sorriu. Que um advogado com Consciência era abrantino fenómeno só aos fenómenos do Entroncamento cotejável. Ele encaixou sem esgar nem esforço a minha boutade, que simpatia sinalética era. Respondeu-me na crónica seguinte com Abrunhos etc. e tal. Foi das maiores honras da minha vida. Eu era lido. Por ele. Ele respondia ao que eu fingira perguntar.
O doutor Eurico Heitor Consciência viveu acordado a vida toda, 79 anos dela. Espero hoje e aqui, tão-só, que a morte no-lo tenha roubado dormindo.
Dormindo e sorrindo, que é o que precisamente estou a fazer para não desatar a chorar, José Niza. Perdão, para não desatar a chorar, Luís Eugénio. O senhor sabe, doutor Eurico. Não finja que não sabe (fazer) sorrir.
Até para a semana.



quinta-feira, abril 21, 2016

Rosário Breve n.º 453 - in O RIBATEJO de 21 de Abril de 2016 - www.oribatejo.pt

Então e de resto?

0. Se não toda, muita gente saberá que eu, enquanto cronista, só tenho dois assuntos: Ricardo Gonçalves & o Resto. Vou escrever-vos algo desse resto. E esse resto poderia ser maravilhoso, se a vida o fôra também. Não é.
1. Rio Maior, terça-feira, 19 de Abril de 2016, fábrica salsicheira da Nobre. Exaltação dos suinicultores nacionais. Um deles assim: “Enquanto houver um porco em Portugal, não podemos baixar os braços!” Cheira-me que esta malta vai passar o resto da vida de braços no ar como os sinaleiros cabeças-de-giz do antigamente nas peanhas rodoviárias do salazarentismo – pois que porcos, de toucinho ou de metáfora, são coisa que nunca nos faltou.
2. No Brasil também não – vistes Vós aquela degradante circo-instância da votação anti-“presidenta”? Aquele país supostamente irmão do nosso pode ser grande – mas não é grande coisa: como nós não somos. Digo mais: quanto maior o pano, maior a nódoa. Aquilo é uma Angola falando um Português pior. E é mais: a corrupção verd’amarela não é de Esquerda nem de Direita – é ambidextra. E não há (ou não tem) Gabriela que a des-jagunce. Por cá, nós ainda não (nos) imaginamos um José Sócrates presidindo à Mesa da Assembleia da República a “impeachmentar” o Marcel(l)o só por causa de ele alegadamente ler mais livros numa noite do que o dito Sócrates nos tempos felizes da filosofia de Paris à custa do dinheiro do amigo. Valha-nos isso. Mas, se calhar, já disso estivemos mais longe. Já, já.
3. Dr. Jekyll & Mr. Hyde: Bloco de Esquerda versus Bloco de Esguelha. O primeiro é decente, é capaz, tem coisas na cabeça e pernas para andar. Anda por ali humanismo. Anda por acolá decência. O segundo é todavia de uma puerilidade tão risível quão irrisória. Veio agora, o Hyde, com a cenaça/carraça do sexismo gramatical. No intervalo das ganzas, os rapazes do rabo-de-cavalo & as “bêibes” de t-shirt-Che-tàzaver -Guevara entretêm-se no MacDonald’s local a destruir o imperialismo & a escarninhar da heterossexualidade mercê da urgência do antigo BI passar a não sei quê anti-macho. Duas coisas, ó pessoal: a) Eu não quero nem aceito que o meu Cartão de Cidadão passe a ser de Cidadania porque cidadania é substantivo no feminino – e portanto isso é sexismo castrador; b) Sou totalmente a favor da total liberdade de orientação sexual – pelo que rejeito a homossexualidade obrigatória que parecem querer impingir-me-nos só porque é moda. Até por causa disto: com um cartão de cidadania nas unhas, um gajo passa a ter quantos pais? Mais até do que Cristo Ele-mesmo?
4. Já, se não todos, muito(s) nos rimos um bocadito. Chega de risota. O mundo não está para galhofas facetas. O mundo é triste. (A 13 do corrente, fui sepultar um primo-direito. Um primo-direito é um meio-irmão. Dia 13 pretérito, portanto, fui cerimoniar meia-morte minha. Mas adiante:)
5. Eu só quero que um cidadão possa ser mulher à homem sem ter de berrá-lo. Pretendo tão-só que a sexualidade não seja para usar a tiracolo. Ou então assim: que, como no Brasil, lula possa ser no masculino, por mais choco que ande com as berlaitadas sem vergonha do sinistro Cunha local. A corrupção é uma guitarra que só toca quem tem (c)unhas, é ou não é? É.
6. Esse tudo que há nas pequenas-coisas, esse nada tão frequente nas grandes – daí a portuguesíssima & exclama/deprecia/tiva expressão: “Grande coisa!” Olhai: ando pela berma fluvial escrevinhando-vos. Paro. Sou escolhido por um banco de ripas exaustas & falidas sobre que, há uns dias poucos, vi (e, confesso, fotografei) dormindo uma pessoa despojada. Era uma mulher (desculpa-me mas era, ó Hyde-de-Esguelha). Pela comissura ricto-labial dela, azulava ao ar um incisivo podre. No chão, perpendicular à gota de cera da mão pingona, boquiabria-se a caixa-de-sapatos das moedas esmoleres. Foi nesse banco mesmo que me sentei para retocar as últimas linhas, Vossas sempre, desta semana. Senti-me (ou sentei-me) como que em casa. Portugal acontecia de novo após o aguaceiro da média tarde. Esperei pelo fim da crónica. A minha esperança era que a terminação dela viesse feita de um lirismo forte, tinto de azul-azulejo de baixo-forno, de uma mor(t)al gentia, de uma espécie de solidariedade fora de TV-horários ditos nobres como as fábricas salsicheiras. Mas nada. A folha teimava em branco no trecho destinado (ou, no meu caso, destilado) ao derradeiro parágrafo numérico. Eis porém senão quando:
0 outra vez. Eis porém senão quando: algo espavorido, aparece-me crónic’adentro o Ricardo Gonçalves. E então ele assim para mim: “Mas que raio estou eu aqui a fazer?” E então eu assim para ele: “Pois isso é pergunta a que, até hoje, ninguém sabe dar resposta.”


quinta-feira, abril 14, 2016

Rosário Breve n.º 452 - in O RIBATEJO de 14 de Abril de 2016 - www.oribatejo.pt

Tudo e menos alguma coisa

1 Não é por ter descoberto ou inventado a gravidade que Newton não possa jamais ter-se rido de algo ou de alguém. Sensível a maçãs na tola e propenso a sestas à sombra vegetal de macieiras, aquele homem arguto tornou-se definitivamente num verbete incontornável da voragem enciclopédica do Tempo e do Conhecimento.
2 Cervantes, o Miguel espanhol, é outro. Inventou (sem itálico) a figura-gigante do D. Quixote de La Mancha, o inesquecível magriço do elmo de barbeiro que via nos moinhos os papões do vento – coisa que de facto & deveras eles eram & são. A par do seu camarada portuga Luiz Vaz, Miguel, como o Isaac ali de cima e como o Toyota de antigamente, veio para ficar, rastreando na lembrança, a lápis-lazúli, certo trilho imorredouro que acrisola em púrpura essa dimensão esquisita chamada eternidade-até-mais-ver.
3 Cristo, o Emanuel libertário, involuntário rabi voluntariamente não onzeneiro, consta dos pergaminhos e dos mares mortos como utópico salvador de quem, afinal, salvação carece de merecer – a humana espécie fabriqueira de tanto mal, esse erro descomunal do Pai dEle.
4 Bernardo Santareno, de óculos de massa grossa & escura, sobreviveu ao & do labor clínico-dispensário do Dr. António Martinho do Rosário (não breve). Povoou palcos multitudinários a partir da sua solidão escriba & atroz, própria dos Newtons-Cervantes-Camõezes-&-Jesuses. O precoce desaparecimento físico livrou-o, afinal & enfim, do desamparo: há lá maior companhia do que a oferecida pela multidão incontável dos mortos? Não há, nesta vida.
5 Ana de Castro Osório, a digníssima & proficientíssima senhora de quem Camilo Pessanha era, mas não foi, cativo – que grande pessoa, Ana. Chá & mesa-de-camilha. Biscoitos filológicos. Instrução literária & moral das crianças que nascem velhas. E vice-versa. Paladina de metade-do-mundo + outro-tanto: mulheres & homens. Sábia. Ledora. Escriba. E na linhagem ancestral do mais nítido, do mais formoso Poeta Português vivo: António Osório, Autor de Luz Fraterna e de Aldeia de Irmãos, além de, por azar e/ou por acaso, antigo Bastonário da Ordem dos Advogados. Ana, Camilo (o de Macau, não agora o de Castelo Branco), António – três bandeiras que o meu/nosso Portugal não sabe desfrad’hastear, coitado.
6 Eusébio da Silva Ferreira & Cristiano Ronaldo dos Santos Aveiro: dois miúdos que, nascidos embora em aparato de pobreza, vingaram (inatamente, primeiro; trabalhosamente, depois) na ludopédica arte da bola a enredar. Alpinistas-sísifos, mergulhadores-tântalos, são dois bravos de calções que espalham alegria como nenhuma feira-popular há-de alguma vez ser capaz de. Eles & a senhora minha Mãe. E o senhor vosso Pai. E o senhor meu Pai. E a senhora vossa Mãe.
7 Carlos Paredes. José Afonso. Carlos Seixas. Aristides de Sousa Mendes. O Infante D. Henrique. Carlos Lopes. João Roiz de Castelo Branco. Ouro. Ouro. Ouro. Ouro. Ouro. Ouro. Ouro.
8 Tido em rol o exposto onomástico de 1 a 7, que direi dos corruptos pró-droga da (ou na) PJ recentemente indiciados? E dos catatuas-chefes das Finanças trazidos à força de azeite policial ao lume da água jurídica? Que deles todos direi? Direi o mesmo que o peixe faz & o mesmo que eles são: nada. 

quinta-feira, março 31, 2016

Rosário Breve n.º 450 - in O RIBATEJO de 31 de Março de 2016 - www.oribatejo.pt

De arte bela (ou Duarte Belo)

Quando lhe apetece, a vida terrena (que outra não há, haverá?) ainda é o melhor sítio onde se pode estar. Às 15h17m da terça-feira, tal evidência abraça-me como um soldado de regresso à metrópole sem ferimentos coloniais.
Fisicamente longe embora eu, um livro ilustrado ribatejana-me o instante solar. (Dir-vos-ei futuramente, com mais fôlego e mais demora, outras graças virtuosas de tal obra, que se chama Portugal / O Sabor da Terra – Um Retrato Histórico e Geográfico por Regiões e é de tríplice autoria: do historiador José Mattoso, da geógrafa Suzanne Daveau – viúva do grande geógrafo português Orlando Ribeiro – e do fotógrafo/arquitecto Duarte Belo.)
Assim é pois que desfilam, ante o meu nariz fumador & metediço & mui dado a mostardas, formosíssimos postais completamente portugueses de Arriba-Tejo que o olhar do tal Duarte Belo gerou: as construções paliçadas do Patacão (Alpiarça); Vale de Cavalos (Chamusca) com sua cheia de 12 de Janeiro de 1996; a majestade filosófica do Palácio dos duques do Cadaval (em Muge, Salvaterra de Magos); a solidão talvez feliz de Nossa Senhora de Alcamé, na lezíria de Vila Franca de Xira; a torrejana antiguidade romana da Villa Cardílio; o sal geométrico da riomaiorense Fonte da Bica; São Ruy Belo da Ribeira, perdão!, São João da dita, na perpétua & castreja infância do Poeta que demasiado cedo se despediu da terra da alegria, Rio Maior também; do grande Alexandre Herculano, Vale de Lobos (Azóia de Baixo); a renda cimalha eternamente feminina & petreamente perfeita do tomarense Convento de Cristo; e, para já como para sempre, esse Poema mineral sem par no mundo chamado Castelo de Almourol, que Gualdim Pais, edificador militar da memória, por assim dizer escreveu.
Como a tarde que a ela preside, esta crónica (de)corre bem. A pele é grata à luz morna, esta luz fixada ao chão pela estacaria do arvoredo. Levíssima brisa despenteia & repenteia a flora chã: chã como a vida terrena, terrena como a vida chã. (Eu sei que onde escrevo não é Ribatejo – mas é, de tão doce, como se fosse.)
Um momento, por favor: telefonam-me. Atendo.
– Daniel?
– Viva! Com quem falo?
– Falas sozinho como o doidinho…
Desligo.
Não concordo: há 450 semanas, contando com esta, que não é solilóquio o que nesta página hebdomadária me acontece. É muita semana. Quási-quase nove anos. Há vinte, no remo(r)to Outono de 1996, estive em trabalho de repórter na Vossa (mas minha também) Scalabis de tão bom arejo. Entrevistei na ocasião um primo do gigante Bernardo Santareno. (Nota curiosa só para Vós todos/as: a minha coluna chama-se Rosário Breve porque Bernardo era António & porque Santareno era Martinho do… Rosário.) Isso passou, como tudo passa, a começar e a acabar pela vida mesma.
O que não passa – é este inesperado amor meu à Casa & à Causa ribatejanas. Não as do folclore marialva, atenção! Não as da suposta festa dita brava, atenção! Sim as das pessoas civicamente oxigenadas com que me tem sido dado o subido privilégio de t(r)ocar dois dedos de testa & quatro de conversa. Sim as daquele dia em que fui com o por estes dias aniversariante Zé Freitas, esse grande (em todos os aspectos, até no calçado) fotógrafo de aves (raras) & febril activista da jihad Sportinguista, a comer o fino sável frigido & enxuto, a serpentina enguia, a nobre posta de carnação vermelha.
Dão ora as dezasseis horas mais dois minutos. (Quem dará a hora? Quem no-la tirará? Não sei. Não sei. Sei tão-só que a recebo. Que ribaterrenajanamente a recebo – e a agradeço.)
O telefone, outra vez. Antes de atender, pergunto-me em voz alta (sois Vós os ouvidos) se será Gualdim Santareno ou Bernardo, o do Rosário, Pais.
Ou se, com alguma boa-sorte, é Duarte, segundo-filho de São João da Ribeira, perdão!, de São Ruy Belo da dita.



quinta-feira, março 24, 2016

Rosário Breve n.º 449 - in O RIBATEJO de 24 de Março de 2016

Via melros, rumo à Graciete & a Bruxelas



As palavras iniciais da minha crónica desta semana eram (e continuam a ser) estas aqui: “Há melros pela linha berma-fluvial que todas as manhãs palmilho em aparato discreto de gajo pastor de palavras, à falta de melhor destino”. A hora de Bruxelas, todavia, fustigou-me irremediavelmente tal bucolismo afinal tão lingrinhas quão flúvio-ornitológico.
O terrorismo é a Noite-sem-(a)Manhã. Duas não-pessoas, convictas de que o seu/delas deus é mais maiúsculo do que os blasfemos deuses (ou não-deuses) dos outros, decidiram matar às cegas os cidadãos não-fundamentalistas que se preparavam para o pecado de ir trabalhar. À hora a que escrevo (11h41m da Terça-Feira-22-III-16), dezenam-se já os mortos & os feridos, em mais um episódio (não será o último) de uma guerra córnea & intolerável que é, em si, antítese a mais crua de Humanidade.
Os meus melros cedo-matinais, aturdidos pelo espavento genocida da noite-sem-manhã belga, desertaram-me a página, proscénio de papel em que me vejo ora sozinho à maneira de uma dessas folhas que, caduco-tombadas à terra, querem ser árvore na mesma como a mãe de ramos. Ao cabo do trilho ribeirinho, porém, vela ainda, valha-me isso ao menos, a Graciete Florista. O cesto a seus/dela pés irrora o ar de sílabas cromáticas que são as violetas a dez tostões, olhos que são os gerânios a doze, sínteses de neve que são as gardénias (carotas…) a vinte-cinco, humildades vegetais feitas dálias a dezoito - & papoilas que tingem o ar de vivíssimos beijitos escarlates pelo que o freguês quiser dar.
(Isto deveria ser sempre assim, Graciete: sem bélgic’arabismos percutores de pólvora.)
Valho-me, pois, da literatura possível para afugentar da manhã portuguesa a minha indignação rábica. Ou (a)rábica. A Graciete vende também xaropes de refresco aquoso: groselha, capilé, café, lima, canela abaunilhada. Enverga, a Florista, uma blusa de chita com aquele florão de estampado que antigamente se designava por “de fantasia”. O home’ dela, que é tão Vicente quão fraca gente, sei-o burgesso, calcanhar-rachado, canastrão, cabotino, impertinente, grosso, acavalgadurado, jogador & ecuménico-bagaceiro. Mas ela gosta dele e a outro não quer, quem sou eu, ninguém, Romeiro.
Eu vinha-vos esta matina pelos melros, juro. São tão bonitos, os caraças dos melros! Carvões vivos, ónixes alados, atiram-me aquelas bocas-de-ouro como crisóstomos retóricos, finos de uma esperteza nunca manhosa, sabedores de serem, eles-mesmos-consigo-de-si-em-si, mestres de pontuação no texto que é o chão. Melros & Graciete: precisa cá um escritorzeco de beira-rio de mais algum tesouro? Não precisa. Eu não precisozeco.
No Outono de 2002, estive em Bruxelas, lá onde se deu o terror de hoje. Exerci o meu francês escolar para com os meus Belgas: a livreira que me vendeu um belo Saint-Exupéry em seu vol-de-nuit, o porteiro melancólico do hotel pago pelo grupo parlamentar convidante deste Vosso criado, o cervejeiro-gato-pingado do célebre & mortuário bar “Le Cercueil” (“O Caixão”) da Rue des Harengs (10-12) & a hospedeira de hálito mentolado e mamitas perfeitas no avião do feliz regresso ao pátrio-mátrio Portugal meu & vosso, que era, a hospedeira, redondilha, perdão!, redondinha como um heptassílabo açucarado.
NB: Já V. disse, em outra crónic’ocasião, que a nossa morte já começou – lá onde estivemos & aonde não voltaremos. Sei que a minha vida não voltará a Bruxelas, nessa Bélgica dividida & estranha onde de quando em vez nascem gigantes tipo Brel & Cortázar. A minha morte irrelevante não se conta, porém, entre as dezenas de hoje, no aeroporto como no metro. A das vítimas de hoje carece de remédio hoje.
De remédio & de vindicta inexorável. O endurecimento repressivo é inevitável. Não é à totó-Trump que falo. Mas é que a pena-de-morte foi restabelecida: por eles-monstros, não por nós. Não nos basta ser civilizados: temos de ser civilizantes. Mas atenção: não iremos lá com espúrios esquerdismos de capitulação: o cancro só extirpação merece. O terrorismo não é remediável com reformatórios paliativos tipo bonzinho-guterres-de-calcutá – é com olho da mesma boca & com dente do mesmo olhar.
Recentemente, perdi a amizade de alguém que, sentindo-me reticências quanto à beatificação automática de tanto refugiado só-porque-sim, me vilipendiou de estúpido para baixo. O lobo com pele-de-ovelha não deixa de cheirar a mijo-de-lobo. E o lobo não é o melhor amigo do homem-caniche. Perder esse ex-amigo (terrível justaposição, mas justa) nada me é. Perder estas pessoas da manhã belga – isso despassara-me de todo os carretos ornitolófilos.
Vou pelos meus melros. Fez-se entretanto toda de cristal, a manhã deles & minha. Interflúvios eu & eles, vamos ter com quem? Com a Graciete. Gerânios. Violetas não viole(n)tas. E uma papoila tingida de groselha viva – viva como o sítio onde estamos & a que voltaremos.




quinta-feira, março 17, 2016

Rosário Breve n.º 448 - in O RIBATEJO de 17 de Março de 2016

Vale mais dizer isto do que andar no gamanço ou na droga




O mundo é depressivo porque o planeta é bipolar.
Depressivo e deprimente. É, é. Foi o que me ocorreu de imediato, esta tarde, ao içar da leitura de um livro maravilhoso o olhar para a circunstância real-terrena. (Cronicar-vos-ei em breve essa leitura e esse livro: foi escrito por um gigante meu Amigo.) Ímpio e míope, o olhar devolveu-me a existência desfocada do derredor: dois velhotes grasnando que “o Tondela facilitou aquilo tudo aos gajos, olha quem é o Petit”; uma solteirona mais encarquilhada do que uma laranja com celulite tripulando à arreata um caniche feio como o susto e incapaz de perder um pneu para mictório; dois toxiarrumadores filhodaputando-se mutuamente a pretexto, et pour cause, do território a explo’esportu’lar; e, ainda, a minha mesma (má-)consciência de algumas obras & algumas pessoas só serem imortais enquanto eu próprio não esticar o pernil.
Voltei logo que pude à leitura – mas o interlúdio pisara-me as vísceras da desesperança. Pedi outro café, incendiei outro fumante e resignei-me a reiterar o desconcerto sem conserto do triste mundo além-óculos.
Olhai comigo aquele autarcazito: se a honestidade pesasse quilos, este gajito seria um ás da levitação à faquir. E ali, vêde-me bem o mal que parece: um energúmeno elegante (e jovem), que não sou eu, a tiracolo de uma moçoila de peito oblíquo-a-subir que não me conhece nem do jornal, a ignorante da boazona.
Entristeci qual círio em derradeiro soluço de cera. Mirrei como outonal parra de vide pós-colheita. Agravamento: começou a chover do quebrado cântaro de Deus que a dava. Mas não era morrinha melancólica, não era poalha-spray: era diluviosa, a precipitação apressada. Considerei taciturnamente que quando a chuva se excede, é pluviolação que se chama. Mandei vir brandy. Dando de beber a mim mesmo, cometi autogolo. Longo, beijoqueiro, macieiro, tipo mil-nove-e-vinte. Já não perdi tudo. A bebida tisnou-me o sobrecenho, porém. Fui ver, a neve não caía: quedava, isso sim, a evidência de as minhas alegrias maiores serem todas do século passado. Ai que caraças. As maiores tristezas também. Por exemplo: tenho mais vinte anos do que o meu Irmão nascido uma década antes de mim. E eu que sempre, só, a sós, só quis que a minha vida fosse oficina com horta ajardinada à porta. E o periquito da Dona Aurora/repenica a fauna/debica a flora.
A minha vida? Enfim: tenho muita pena mas não tenho pena nenhuma. Se não tenho cartão partidário é porque nenhum partido me passa cartão. E gajas? E gajas? Não frequento talhos-de-alterne. E o resto do mulherio é muito mas não é burro. Olhai-me o casaco. Estão-me a ver o casaco? Não me fica mal de todo, verdade? Pois sabei que me custou 130 euros. Custou-me 130 euros mas deram-me 118 de troco. Foi naqueles da etnia egipsya, não se pode dizer sem eufemismo senão é racismo, numa daquelas contrafeiras de marcas com o crocodilo e assim. Olhai agora, agor’olhai: eu deveria ter tirado o brevet de piloto – aquilo que ali vai não é uma mulher, é um avião. Chiça-penico, ó filho pobre do meu pai nunca rico. Enfim: ante o mar, não procuro a torneira. Deus quer, o homem sonha, a mulher pira-se.
A Maçonaria? Nunca experimentei. É para usar avental? Ora, isso faço eu há quarentas & tais anos sem recurso nem ao Grande Arquitecto nem ao Tomás Taveira, que não é, nunca foi, será nunca, nem arquitecto nem grande coisa.
A Ornitologia? Sim, gosto muito de passarada. Até sei um truque verídico que V. transmito com todo o gosto: sabe-se que o periquito não é periquita pela cor que debrua os orifícios respiratórios a norte do bico. Se for azul, é macho. Se não for, é periquita como aquela pinga maravilhosa de que só ouvi beber os outros.
À visão e aos quatro outros sentidos, vi-me compelido a acrescentar o sexto da memória & o sétimo do esquecimento: aquele para remediar a insuficiência do real, este para perdoar a mim mesmo a ilusão de tão irremediável remédio.
Bem, adeus. Quem gosta muito do Islão são os porcos – entenda-se isto como se quiser. Já os alambiqueiros de bagaço não gostam nada dele. Mundo difícil.
Deprimente. Depressivo. Bipolar. No Pólo Norte, geme o esquimó. No Pólo Sul, é eufórico o pinguim.
E no meio dos dois, vossemecês & mim.