sexta-feira, maio 27, 2016

Rosário Breve nº 458 - in O RIBATEJO de 26 de Maio de 2016 - www.oribatejo.pt

A sangue-frio e sem anestesia

1 A edição passada do noss’ O RIBATEJO deu justo destaque, de capa e tudo, ao intolerável arrastamento do problema relativo ao bloco operatório do Hospital de Santarém. Escuso de sumariar aqui a matéria exposta pelo Jornal: a peça de João Baptista é plenamente clara e demonstrativa. Se volto porém à carga do assunto, é por um pormenor que, como popularmente se diz, me fez espécie.
Trata-se de uma declaração do senhor presidente do Conselho de Administração do Hospital Distrital de Santarém, José Josué. Disse ele: “As dificuldades na actividade cirúrgica prendem-se fundamentalmente com a falta de anestesistas. É o que mais desconforto tem provocado. Podemos ter muitas salas, mas, se não tivermos anestesistas, as cirurgias não se fazem.
Quero dizer isto: há falta de anestesistas porque os médicos não se vêem a si mesmos como servidores públicos. O sistema permite-lhes a concentração faustosa em Coimbra, Lisboa e Porto – e a Província que se lixe. Se fossem professores, teriam de concorrer aonde vagas houvesse – mesmo que a centenas de quilómetros da própria residência. Se fossem futebolistas, treinariam onde o clube contratante tivesse o recinto para tal. Se fossem canalizadores, canalizariam onde fosse a obra. Mas não, eles não: é-lhes difícil suportar o anátema do João Semana. Digo isto assim por ser exactamente assim que vejo, penso e caustico a realidade. Não serão todos assim – pode ser-me objectado. Claro que não. As generalizações são perigosas: mas eu sei do que falo. E os médicos também.
Coimbra, Lisboa e Porto não esgotam o País. Servem muita gente – mas não servem toda a gente. As populações do maltratado Interior merecem ser servidas com o mesmo grau qualitativo de serviço público que as do Litoral e as das grandes aglomerações urbanas. E insisto: os médicos são servidores públicos. Caso o não queiram ser, que se dediquem em exclusivo ao privado, deixando em paz a teta da vaca estatal. Tenho dito.
2 Passo agora a mais doce assunto. Vinha na edição passada também: “Abrantes tem dois campeões de cálculo mental”. João Bento, Rita Mascate, Matilde Santos Lourenço e Miguel Diogo Ruivo foram magníficos nas provas prestadas no âmbito do cálculo matemático. Campeões do mundo, nem menos. Estes meninos e estas meninas são mais do que o orgulho das respectivas famílias. São-no também das escolas que representaram – e nosso orgulho ainda. Na balbúrdia quotidiana de crimes escabrosos, de escândalos roubalheira-financeiros, de desertificação de lugares & ideias, o João, a Rita, a Matilde e o Miguel florescem como excepções de contracorrente. Daqui os saúdo. Quanto mais não fosse, pelo sorriso grato que se me colou à expressão no acto de leitura dos seus elevados feitos. Concluo assim: se algum destes quatro vier a formar-se em Medicina, primeiro, especializando-se em Anestesia depois, que se lembre, sei lá, de que o Hospital de Abrantes pode precisar dele/dela.
Já nem digo o de Santarém – Abrantes também é gente.

quinta-feira, maio 19, 2016

ROSÁRIO BREVE n.º 457 - in O RIBATEJO de 19 de Maio de 2016 - www.oribatejo.pt


Duas Suíças ou menos




1Tenta viver como se fosse manhã.”
Isto é Nietzsche lido por Bloom (H.). Parece-me boa injunção. Não é fácil: a noite figurada parece invencível as mais vezes. Não é fácil – mas é possível. E se é possível, está ao alcance.
Em caleidoscópio, as imagens do mundo concorrem-nos sem cessação. A atenção dispersa-se ao sabor (quantas vezes amargo) dos estímulos. A honestidade existe, mas não campeia. O banditismo parece integrar a essência humana. Os valores tidos por essenciais (direito à vida, ao trabalho, à saúde, à honra, à paz) podem ser e são escamoteados a pretexto de fantasmas obstinados: a superstição, a ganância, a ignorância, o preconceito, a dominação.
A veracidade evidente destas constantes é avessa à tal manhã existencial. Mas é possível combatê-la – antes que se faça tarde.
2 Na exígua paróquia do Universo chamada Portugal, os últimos tempos voltaram a ser fustigados pela euforia bêbeda da bola. Pelas redes sociais, umas (poucas) almas ainda verberaram tanta barulheira gráfica. Tipo assim: “Ah Portugueses dum caraças, se o desemprego, a saúde, a justiça e a austeridade forçada vos fizessem cerrar sempre fileiras combativas assim, seríamos para aí duas Suíças”. Mais ou menos isto. O espírito era este, se não o texto. Mas – quê? Rui Jorge Vitória Jesus, Jonas Fisgas Slimani Pistolas etc. etc. etc. etc.
3 Nos entrementes, há quem queira (e o queira muito) intoxicar a opinião pública com a antinomia Escola Pública – Colégios Particulares/Cooperativos. É natural que sim: estão em jogo os milhões de todos a saque de uns poucos. A necessidade pretérita dos ora famigerados contratos de associação tem sido em muitos casos, mercê do crescimento da oferta pública de rede escolar, debelada. Assim sendo, proponho três equações simples: Dinheiro Público – Escola Pública; Dinheiro Privado – Escola Privada; Caixa de Esmolas – Ensino Religioso. Pim, pam, pum. Posto de outra maneira: onde o contrato de associação se justifique (e há casos em que sim, note-se bem), cumpra-se; onde não, rasgue-se. E siga(mos) para bingo.
4 Se duas causas há que não apenas me não merecem simpatia como bem antes pelo contrário, elas são: 
- a dos taxistas de Lisboa; 
- a dos suinicultores nacionais.
Há tempos, na TV, um taxista queixava-se de que “por causa da Uber, só fazemos serviços para a chungaria”, acrescentando que “a polícia anda sempre em cima de nós e se levamos um euro a mais é o diabo”. Isto nem carece de comentário.
Quanto à suinicultura nacional, relembro tão-só que a ganância impura e simples, anos/décadas a fio, tem levado os produtores íncolas a desprezar as mais básicas condições ecológico-ambientais suas envolventes. ETAR? Os municípios que as paguem. Sei, infelizmente sei, muito bem do que falo: habitante há anos de uma região enxameada de pecuárias afins, não desconheço os recorrentes (e não punidos) atentados contra, por exemplo, os aquíferos e os flúvios. Como se também os suinicultores estendessem à chungaria consumidora a pouca higiene do seu/deles porquinho.
5 Onde isto já vai: comecei citando Nietzsche e já ronco… Não é grave, porém: a realidade ficará exactamente no mesmo sítio, pesada, inamovível, indiferente a estas minhas filosofices impotentes. Salva-me todavia o facto vero & mesmo de ser manhã. Objectivamente manhã. Horariamente manhã. Tenho o dia todo (tê-lo-ei?) por minha conta. Na cama que dele fizer, a noite passarei.
E nela sonharei, naturalmente que sim, com o meu tetra na próxima época.
Assim seja.

quinta-feira, maio 12, 2016

ROSÁRIO BREVE n.º 456 - in O RIBATEJO de 12 de Maio de 2016 - www.oribatejo.pt

Com a senhora de violeta

Sonhei há tempos com a minha morte.
Não foi um sonho mórbido. Teve, pelo contrário, qualquer coisa de apaziguamento. Deu-me mais placidez do que acidez. Posso contar-Vos, claro.
Parece que a minha morte é uma senhora. Tem a minha idade: nasceu no meu nascimento. Apareceu-me sem fogos-fátuos-de-artifício. Os sonhos são filmes-mudos e a preto-cinza-e-branco, pelo que preciso de escrever aqui “violeta” para Vos dar a ver o vestido dela; e de oculta aparelhagem áudio surdia um fio que tanto podia ser de Bach como de Tony de Matos.
Era num relvado violeta também, posto que o escrevo. Arvoredo disperso exclamava a prosa do ar. Eu tinha uma caixa pequena de queijadas idênticas àquelas de que um homem se esquece em Sintra e uma botelha plena de um vinhito branco muito enxuto, muito decente, muito capaz de embaciar o palato e a espera por melhores dias.
Apesar da amplidão por assim dizer cinemascópica do cenário aberto, não havia passarada, facto que me angustiava um bocadito. Um trecho de rio fulgurava de mercúrio vivo ao canto exacto da tela. Medas de palha enxuta torravam ao sol frio. A senhora & eu, era descalços que estávamos.
Uma espécie de curiosidade serena quis que eu lhe desvelasse o rosto. Consegui, mas não foi fácil. Bastava não olhá-la directamente. Bastava fechar os olhos para descortinar na perfeição a sua efígie: era a minha cara mas em rapariga. Aquilo fez-me sorrir: a minha morte usava mamitas e tinha de urinar sentada.
Não falámos um com a outra por a absoluta desnecessidade de poluirmos com sílabas oxidadas a qualidade limpa-metal da quietude. Entendemo-nos como nem nos melhores casamentos.
Ela mordiscou um doce, serviu-se a si mesma de um cristal de branco, suspirava de quando em vez como se fosse ela a sonhar. Eu ainda quis recorrer à telepatia para lhe falar da importância devastadora que a poesia de Carlos de Oliveira, tão precocemente desaparecido, teve – e continua a ter – na minha vida, mas a senhora telegrafou-me isto sem abrir a boca: “Essa morte não era eu.”
Condenado como toda a gente a reatar os liames do re-nascimento por força do despertar, despertei. Dei por mim sozinho na cama como um feixe de ossos numa cova sem leões, Daniel sendo embora. A boca sabia-me a branco agora morno e a pedacitos de Sintra. Não me sabia a amargura, como tão de costume.
Até hoje, não voltei a vislumbrá-la. Tenho ido à senhora minha médica, a contagem dos glóbulos-brancos não indicia leucemias, o tabaco tem sido muito mas queima-se bem tipo ashes to ashes, o apetite varia com a exposição maior ou menor às malevolências da política e o meu Benfica, enfim, parece querer saudar de novo a memória do senhor meu Pai.
Estou agora numa expectativa quase trémula: morro de curiosidade. Morro de curiosidade por acabar, ou seja, morro de curiosidade por acabar sabendo quem me voltará primeiro – se ela, se os pássaros.

CONTRA OS CANHÕES n.º 2 - in Quinzenário TREVIM de 12 de Maio de 2016

O cão do Café Pagelou

Passou-se esta há quase trinta anos. Era no Café Pagelou, ali ao centro da vetusta & formosa Lousã da minha vida moça. Para além do atendimento de qualidade, mais ainda do que pela sua excelente localização, o estabelecimento atraía-me os favores cafeínos por causa do cão da casa. Sim, por causa do cão da casa.
O número dele fazia sorrir toda a gente. O meu sentimento, porém, era dúbio, era equívoco, era contraditório, era paradoxal. Também eu sorria, é verdade, mas ao mesmo tempo aquilo entristecia-me. Porquê?
Porque o cachorro era viciado em açúcar. O pessoal mandava vir a bica, sacudia a saqueta – e zumba!: lá o tinha à perna, de esbugalhados olhos vítreos, mesmerizados pela doce droga, sacudindo o rabiosque a 180 km/hora. Se lhe davam o resto da saqueta, ele era virtuosíssimo no segurá-la com ambas as mãozitas dianteiras, estraçalhando-a sem apelo & com agravo. E então, lambia-lhe os dentros como um possesso. Sim, aquilo gerava sorrisos certos no derredor da freguesia. Mas, já vo-lo disse, também tinha o condão de entristurar-me. É que os cães não metabolizam o açúcar. São capazes de muitas coisas de alto mérito – mas da metabolização do açúcar,  não são. Eu sabia-o, portanto, condenado a um destino atroz: o da cegueira diabética. As três décadas volveram-se cinza.
Deixei há muito de habitar na Lousã de boa memória que revisito com gosto sempre que posso e/ou me lá chamam. O cãozito do Pagelou há muito terá ascendido ao céu dos quadrúpedes. Oxalá que, nesse merecido Paraíso, nem a pulga lhe resida atrás da orelha, nem o açúcar o cegue. Pode até ser que alguém, esta crónica lendo, se recorde do animal. Ou que, maravilha!, se lembre de como lhe chamavam. Por mim, sou tão-só capaz de vos garantir, em boa-fé & de boa-mente, a veracidade do exposto.
O titular cachorrito há-de perdoar-me, quero crer, que a lembrança dele seja por mim revisitada a pretexto alegórico. Este aqui: que outrora coisa relativa à Lousã se me insurja. E ela é esta – onde o cão é viciado em açúcar, e por causa disso cego, é a gente lousanense (e não só) viciada em amargura: pois só um cego não vê o que (des)fizeram à linha ferroviária que da Lousã tem nome, embora até Serpins chegasse.
Perdoado estás e ficas, cãozito, à face da voluntária cegueira tua não voluntária.
Não me perdoo porém eu a mim, ou a Vós por mim, por, cada vez que de novo arribo à honesta, formosa, vetusta e perpétua Lousã, ouvir ladrar tão pouco à falta do roubo de tanto açúcar. 

sexta-feira, abril 29, 2016

Ganhar o dia

Aconteceu-me há minutos.
O dia está bonito, claro, de temperatura amena.
Mesmo assim, de retorno a casa, eu vinha meio sorumbático, um quarto melancólico e tristonho a outra quarta parte.
Foi então que o vi: na paragem do autocarro, um rapaz muito novo, mal chegado a adulto. Cego. Completamente cego.
E a mim, que uso óculos, passou-me logo a melancolia.
E foi assim que ganhei o dia.


Leiria, quinta-feira, tarde de 28 de Abril de 2016

quinta-feira, abril 28, 2016

Rosário Breve n.º 454 - in O RIBATEJO de 28 de Abril de 2016 - www.oribatejo.pt



Eurico

Não.
Mas sim.
José Niza.
Luís Eugénio Ferreira.
Eurico Heitor Consciência, agora.
Mas sim é que não: não negarei ao doutor Consciência um obituário ao mesmo tempo triste & feliz.
Triste – pelo lado do sacolejão brusco, da violência estapafúrdia, do escândalo insensato que todo o falecimento de alguém tão merecedor de honra, estima, consideração & elogio nunca deixa de causar. Mas feliz também, senhor.
Feliz – pelo lado de absoluta bonomia que a sua desempoeirada figura, a sua figura alta, egrégia sem favor, ínclita até, esparrinhou por todos (nós) quantos, ou conhecendo-o em pessoa, ou dele beneficiando a profissão, ou a ele-cronista lendo em duas colunas de página-cinco, tiveram a muito (tanta!) boa-sorte de contemporanizar.
Respirámos no mesmo metro-quadrado uma vez única. Foi por uma gala do nosso comum O Ribatejo. Saudei-o como quem sobe. Ele recumprimentou-me como se não descesse. Trocámos mimos. Não trocámos números telefónicos. Isso passou – como tudo passa.
Posso finalmente escrevedizê-lo em voz-alta, agora que ele me não pode ouvi(le)r: foi sempre pela coluna de Eurico, O Não-Presbítero, que comecei a leitura do meu/Vosso Jornal. Mais: fi-lo sempre porque as palavras dele nunca me faziam rir – sorrir sim, sempre, ah isso sim! Ainda esta semana já para sempre pretérita: a mordedura irónica do seu incisivo de propósito mal escondido, sabes tu, Leitor? Aquele sarcasmo nunca humilhante, aquele escárnio nunca gozão, aquele maldizer tão bem dito sempre: e aquela elegância completamente cavalheiresca, de homem antigo que não sabe ser velho, ai!, aquela compostura toda democrática que ele português, num Português forrado de quanto Latim, jurídico ou não, fosse preciso ou não fosse, lembra-te tu, pá, Leitor dele merecido que meu quero merecer – e tudo sempre, mas sempre, para Todos, todos quanto fossem, quantos viessem todos.
Meti-me uma vez com ele. Fi-lo sorrir. Eu sabia que sim, que ele sorriria. Sorriu. Que um advogado com Consciência era abrantino fenómeno só aos fenómenos do Entroncamento cotejável. Ele encaixou sem esgar nem esforço a minha boutade, que simpatia sinalética era. Respondeu-me na crónica seguinte com Abrunhos etc. e tal. Foi das maiores honras da minha vida. Eu era lido. Por ele. Ele respondia ao que eu fingira perguntar.
O doutor Eurico Heitor Consciência viveu acordado a vida toda, 79 anos dela. Espero hoje e aqui, tão-só, que a morte no-lo tenha roubado dormindo.
Dormindo e sorrindo, que é o que precisamente estou a fazer para não desatar a chorar, José Niza. Perdão, para não desatar a chorar, Luís Eugénio. O senhor sabe, doutor Eurico. Não finja que não sabe (fazer) sorrir.
Até para a semana.



quinta-feira, abril 21, 2016

Rosário Breve n.º 453 - in O RIBATEJO de 21 de Abril de 2016 - www.oribatejo.pt

Então e de resto?

0. Se não toda, muita gente saberá que eu, enquanto cronista, só tenho dois assuntos: Ricardo Gonçalves & o Resto. Vou escrever-vos algo desse resto. E esse resto poderia ser maravilhoso, se a vida o fôra também. Não é.
1. Rio Maior, terça-feira, 19 de Abril de 2016, fábrica salsicheira da Nobre. Exaltação dos suinicultores nacionais. Um deles assim: “Enquanto houver um porco em Portugal, não podemos baixar os braços!” Cheira-me que esta malta vai passar o resto da vida de braços no ar como os sinaleiros cabeças-de-giz do antigamente nas peanhas rodoviárias do salazarentismo – pois que porcos, de toucinho ou de metáfora, são coisa que nunca nos faltou.
2. No Brasil também não – vistes Vós aquela degradante circo-instância da votação anti-“presidenta”? Aquele país supostamente irmão do nosso pode ser grande – mas não é grande coisa: como nós não somos. Digo mais: quanto maior o pano, maior a nódoa. Aquilo é uma Angola falando um Português pior. E é mais: a corrupção verd’amarela não é de Esquerda nem de Direita – é ambidextra. E não há (ou não tem) Gabriela que a des-jagunce. Por cá, nós ainda não (nos) imaginamos um José Sócrates presidindo à Mesa da Assembleia da República a “impeachmentar” o Marcel(l)o só por causa de ele alegadamente ler mais livros numa noite do que o dito Sócrates nos tempos felizes da filosofia de Paris à custa do dinheiro do amigo. Valha-nos isso. Mas, se calhar, já disso estivemos mais longe. Já, já.
3. Dr. Jekyll & Mr. Hyde: Bloco de Esquerda versus Bloco de Esguelha. O primeiro é decente, é capaz, tem coisas na cabeça e pernas para andar. Anda por ali humanismo. Anda por acolá decência. O segundo é todavia de uma puerilidade tão risível quão irrisória. Veio agora, o Hyde, com a cenaça/carraça do sexismo gramatical. No intervalo das ganzas, os rapazes do rabo-de-cavalo & as “bêibes” de t-shirt-Che-tàzaver -Guevara entretêm-se no MacDonald’s local a destruir o imperialismo & a escarninhar da heterossexualidade mercê da urgência do antigo BI passar a não sei quê anti-macho. Duas coisas, ó pessoal: a) Eu não quero nem aceito que o meu Cartão de Cidadão passe a ser de Cidadania porque cidadania é substantivo no feminino – e portanto isso é sexismo castrador; b) Sou totalmente a favor da total liberdade de orientação sexual – pelo que rejeito a homossexualidade obrigatória que parecem querer impingir-me-nos só porque é moda. Até por causa disto: com um cartão de cidadania nas unhas, um gajo passa a ter quantos pais? Mais até do que Cristo Ele-mesmo?
4. Já, se não todos, muito(s) nos rimos um bocadito. Chega de risota. O mundo não está para galhofas facetas. O mundo é triste. (A 13 do corrente, fui sepultar um primo-direito. Um primo-direito é um meio-irmão. Dia 13 pretérito, portanto, fui cerimoniar meia-morte minha. Mas adiante:)
5. Eu só quero que um cidadão possa ser mulher à homem sem ter de berrá-lo. Pretendo tão-só que a sexualidade não seja para usar a tiracolo. Ou então assim: que, como no Brasil, lula possa ser no masculino, por mais choco que ande com as berlaitadas sem vergonha do sinistro Cunha local. A corrupção é uma guitarra que só toca quem tem (c)unhas, é ou não é? É.
6. Esse tudo que há nas pequenas-coisas, esse nada tão frequente nas grandes – daí a portuguesíssima & exclama/deprecia/tiva expressão: “Grande coisa!” Olhai: ando pela berma fluvial escrevinhando-vos. Paro. Sou escolhido por um banco de ripas exaustas & falidas sobre que, há uns dias poucos, vi (e, confesso, fotografei) dormindo uma pessoa despojada. Era uma mulher (desculpa-me mas era, ó Hyde-de-Esguelha). Pela comissura ricto-labial dela, azulava ao ar um incisivo podre. No chão, perpendicular à gota de cera da mão pingona, boquiabria-se a caixa-de-sapatos das moedas esmoleres. Foi nesse banco mesmo que me sentei para retocar as últimas linhas, Vossas sempre, desta semana. Senti-me (ou sentei-me) como que em casa. Portugal acontecia de novo após o aguaceiro da média tarde. Esperei pelo fim da crónica. A minha esperança era que a terminação dela viesse feita de um lirismo forte, tinto de azul-azulejo de baixo-forno, de uma mor(t)al gentia, de uma espécie de solidariedade fora de TV-horários ditos nobres como as fábricas salsicheiras. Mas nada. A folha teimava em branco no trecho destinado (ou, no meu caso, destilado) ao derradeiro parágrafo numérico. Eis porém senão quando:
0 outra vez. Eis porém senão quando: algo espavorido, aparece-me crónic’adentro o Ricardo Gonçalves. E então ele assim para mim: “Mas que raio estou eu aqui a fazer?” E então eu assim para ele: “Pois isso é pergunta a que, até hoje, ninguém sabe dar resposta.”


quinta-feira, abril 14, 2016

Rosário Breve n.º 452 - in O RIBATEJO de 14 de Abril de 2016 - www.oribatejo.pt

Tudo e menos alguma coisa

1 Não é por ter descoberto ou inventado a gravidade que Newton não possa jamais ter-se rido de algo ou de alguém. Sensível a maçãs na tola e propenso a sestas à sombra vegetal de macieiras, aquele homem arguto tornou-se definitivamente num verbete incontornável da voragem enciclopédica do Tempo e do Conhecimento.
2 Cervantes, o Miguel espanhol, é outro. Inventou (sem itálico) a figura-gigante do D. Quixote de La Mancha, o inesquecível magriço do elmo de barbeiro que via nos moinhos os papões do vento – coisa que de facto & deveras eles eram & são. A par do seu camarada portuga Luiz Vaz, Miguel, como o Isaac ali de cima e como o Toyota de antigamente, veio para ficar, rastreando na lembrança, a lápis-lazúli, certo trilho imorredouro que acrisola em púrpura essa dimensão esquisita chamada eternidade-até-mais-ver.
3 Cristo, o Emanuel libertário, involuntário rabi voluntariamente não onzeneiro, consta dos pergaminhos e dos mares mortos como utópico salvador de quem, afinal, salvação carece de merecer – a humana espécie fabriqueira de tanto mal, esse erro descomunal do Pai dEle.
4 Bernardo Santareno, de óculos de massa grossa & escura, sobreviveu ao & do labor clínico-dispensário do Dr. António Martinho do Rosário (não breve). Povoou palcos multitudinários a partir da sua solidão escriba & atroz, própria dos Newtons-Cervantes-Camõezes-&-Jesuses. O precoce desaparecimento físico livrou-o, afinal & enfim, do desamparo: há lá maior companhia do que a oferecida pela multidão incontável dos mortos? Não há, nesta vida.
5 Ana de Castro Osório, a digníssima & proficientíssima senhora de quem Camilo Pessanha era, mas não foi, cativo – que grande pessoa, Ana. Chá & mesa-de-camilha. Biscoitos filológicos. Instrução literária & moral das crianças que nascem velhas. E vice-versa. Paladina de metade-do-mundo + outro-tanto: mulheres & homens. Sábia. Ledora. Escriba. E na linhagem ancestral do mais nítido, do mais formoso Poeta Português vivo: António Osório, Autor de Luz Fraterna e de Aldeia de Irmãos, além de, por azar e/ou por acaso, antigo Bastonário da Ordem dos Advogados. Ana, Camilo (o de Macau, não agora o de Castelo Branco), António – três bandeiras que o meu/nosso Portugal não sabe desfrad’hastear, coitado.
6 Eusébio da Silva Ferreira & Cristiano Ronaldo dos Santos Aveiro: dois miúdos que, nascidos embora em aparato de pobreza, vingaram (inatamente, primeiro; trabalhosamente, depois) na ludopédica arte da bola a enredar. Alpinistas-sísifos, mergulhadores-tântalos, são dois bravos de calções que espalham alegria como nenhuma feira-popular há-de alguma vez ser capaz de. Eles & a senhora minha Mãe. E o senhor vosso Pai. E o senhor meu Pai. E a senhora vossa Mãe.
7 Carlos Paredes. José Afonso. Carlos Seixas. Aristides de Sousa Mendes. O Infante D. Henrique. Carlos Lopes. João Roiz de Castelo Branco. Ouro. Ouro. Ouro. Ouro. Ouro. Ouro. Ouro.
8 Tido em rol o exposto onomástico de 1 a 7, que direi dos corruptos pró-droga da (ou na) PJ recentemente indiciados? E dos catatuas-chefes das Finanças trazidos à força de azeite policial ao lume da água jurídica? Que deles todos direi? Direi o mesmo que o peixe faz & o mesmo que eles são: nada. 

quinta-feira, março 31, 2016

Rosário Breve n.º 450 - in O RIBATEJO de 31 de Março de 2016 - www.oribatejo.pt

De arte bela (ou Duarte Belo)

Quando lhe apetece, a vida terrena (que outra não há, haverá?) ainda é o melhor sítio onde se pode estar. Às 15h17m da terça-feira, tal evidência abraça-me como um soldado de regresso à metrópole sem ferimentos coloniais.
Fisicamente longe embora eu, um livro ilustrado ribatejana-me o instante solar. (Dir-vos-ei futuramente, com mais fôlego e mais demora, outras graças virtuosas de tal obra, que se chama Portugal / O Sabor da Terra – Um Retrato Histórico e Geográfico por Regiões e é de tríplice autoria: do historiador José Mattoso, da geógrafa Suzanne Daveau – viúva do grande geógrafo português Orlando Ribeiro – e do fotógrafo/arquitecto Duarte Belo.)
Assim é pois que desfilam, ante o meu nariz fumador & metediço & mui dado a mostardas, formosíssimos postais completamente portugueses de Arriba-Tejo que o olhar do tal Duarte Belo gerou: as construções paliçadas do Patacão (Alpiarça); Vale de Cavalos (Chamusca) com sua cheia de 12 de Janeiro de 1996; a majestade filosófica do Palácio dos duques do Cadaval (em Muge, Salvaterra de Magos); a solidão talvez feliz de Nossa Senhora de Alcamé, na lezíria de Vila Franca de Xira; a torrejana antiguidade romana da Villa Cardílio; o sal geométrico da riomaiorense Fonte da Bica; São Ruy Belo da Ribeira, perdão!, São João da dita, na perpétua & castreja infância do Poeta que demasiado cedo se despediu da terra da alegria, Rio Maior também; do grande Alexandre Herculano, Vale de Lobos (Azóia de Baixo); a renda cimalha eternamente feminina & petreamente perfeita do tomarense Convento de Cristo; e, para já como para sempre, esse Poema mineral sem par no mundo chamado Castelo de Almourol, que Gualdim Pais, edificador militar da memória, por assim dizer escreveu.
Como a tarde que a ela preside, esta crónica (de)corre bem. A pele é grata à luz morna, esta luz fixada ao chão pela estacaria do arvoredo. Levíssima brisa despenteia & repenteia a flora chã: chã como a vida terrena, terrena como a vida chã. (Eu sei que onde escrevo não é Ribatejo – mas é, de tão doce, como se fosse.)
Um momento, por favor: telefonam-me. Atendo.
– Daniel?
– Viva! Com quem falo?
– Falas sozinho como o doidinho…
Desligo.
Não concordo: há 450 semanas, contando com esta, que não é solilóquio o que nesta página hebdomadária me acontece. É muita semana. Quási-quase nove anos. Há vinte, no remo(r)to Outono de 1996, estive em trabalho de repórter na Vossa (mas minha também) Scalabis de tão bom arejo. Entrevistei na ocasião um primo do gigante Bernardo Santareno. (Nota curiosa só para Vós todos/as: a minha coluna chama-se Rosário Breve porque Bernardo era António & porque Santareno era Martinho do… Rosário.) Isso passou, como tudo passa, a começar e a acabar pela vida mesma.
O que não passa – é este inesperado amor meu à Casa & à Causa ribatejanas. Não as do folclore marialva, atenção! Não as da suposta festa dita brava, atenção! Sim as das pessoas civicamente oxigenadas com que me tem sido dado o subido privilégio de t(r)ocar dois dedos de testa & quatro de conversa. Sim as daquele dia em que fui com o por estes dias aniversariante Zé Freitas, esse grande (em todos os aspectos, até no calçado) fotógrafo de aves (raras) & febril activista da jihad Sportinguista, a comer o fino sável frigido & enxuto, a serpentina enguia, a nobre posta de carnação vermelha.
Dão ora as dezasseis horas mais dois minutos. (Quem dará a hora? Quem no-la tirará? Não sei. Não sei. Sei tão-só que a recebo. Que ribaterrenajanamente a recebo – e a agradeço.)
O telefone, outra vez. Antes de atender, pergunto-me em voz alta (sois Vós os ouvidos) se será Gualdim Santareno ou Bernardo, o do Rosário, Pais.
Ou se, com alguma boa-sorte, é Duarte, segundo-filho de São João da Ribeira, perdão!, de São Ruy Belo da dita.



quinta-feira, março 24, 2016

Rosário Breve n.º 449 - in O RIBATEJO de 24 de Março de 2016

Via melros, rumo à Graciete & a Bruxelas



As palavras iniciais da minha crónica desta semana eram (e continuam a ser) estas aqui: “Há melros pela linha berma-fluvial que todas as manhãs palmilho em aparato discreto de gajo pastor de palavras, à falta de melhor destino”. A hora de Bruxelas, todavia, fustigou-me irremediavelmente tal bucolismo afinal tão lingrinhas quão flúvio-ornitológico.
O terrorismo é a Noite-sem-(a)Manhã. Duas não-pessoas, convictas de que o seu/delas deus é mais maiúsculo do que os blasfemos deuses (ou não-deuses) dos outros, decidiram matar às cegas os cidadãos não-fundamentalistas que se preparavam para o pecado de ir trabalhar. À hora a que escrevo (11h41m da Terça-Feira-22-III-16), dezenam-se já os mortos & os feridos, em mais um episódio (não será o último) de uma guerra córnea & intolerável que é, em si, antítese a mais crua de Humanidade.
Os meus melros cedo-matinais, aturdidos pelo espavento genocida da noite-sem-manhã belga, desertaram-me a página, proscénio de papel em que me vejo ora sozinho à maneira de uma dessas folhas que, caduco-tombadas à terra, querem ser árvore na mesma como a mãe de ramos. Ao cabo do trilho ribeirinho, porém, vela ainda, valha-me isso ao menos, a Graciete Florista. O cesto a seus/dela pés irrora o ar de sílabas cromáticas que são as violetas a dez tostões, olhos que são os gerânios a doze, sínteses de neve que são as gardénias (carotas…) a vinte-cinco, humildades vegetais feitas dálias a dezoito - & papoilas que tingem o ar de vivíssimos beijitos escarlates pelo que o freguês quiser dar.
(Isto deveria ser sempre assim, Graciete: sem bélgic’arabismos percutores de pólvora.)
Valho-me, pois, da literatura possível para afugentar da manhã portuguesa a minha indignação rábica. Ou (a)rábica. A Graciete vende também xaropes de refresco aquoso: groselha, capilé, café, lima, canela abaunilhada. Enverga, a Florista, uma blusa de chita com aquele florão de estampado que antigamente se designava por “de fantasia”. O home’ dela, que é tão Vicente quão fraca gente, sei-o burgesso, calcanhar-rachado, canastrão, cabotino, impertinente, grosso, acavalgadurado, jogador & ecuménico-bagaceiro. Mas ela gosta dele e a outro não quer, quem sou eu, ninguém, Romeiro.
Eu vinha-vos esta matina pelos melros, juro. São tão bonitos, os caraças dos melros! Carvões vivos, ónixes alados, atiram-me aquelas bocas-de-ouro como crisóstomos retóricos, finos de uma esperteza nunca manhosa, sabedores de serem, eles-mesmos-consigo-de-si-em-si, mestres de pontuação no texto que é o chão. Melros & Graciete: precisa cá um escritorzeco de beira-rio de mais algum tesouro? Não precisa. Eu não precisozeco.
No Outono de 2002, estive em Bruxelas, lá onde se deu o terror de hoje. Exerci o meu francês escolar para com os meus Belgas: a livreira que me vendeu um belo Saint-Exupéry em seu vol-de-nuit, o porteiro melancólico do hotel pago pelo grupo parlamentar convidante deste Vosso criado, o cervejeiro-gato-pingado do célebre & mortuário bar “Le Cercueil” (“O Caixão”) da Rue des Harengs (10-12) & a hospedeira de hálito mentolado e mamitas perfeitas no avião do feliz regresso ao pátrio-mátrio Portugal meu & vosso, que era, a hospedeira, redondilha, perdão!, redondinha como um heptassílabo açucarado.
NB: Já V. disse, em outra crónic’ocasião, que a nossa morte já começou – lá onde estivemos & aonde não voltaremos. Sei que a minha vida não voltará a Bruxelas, nessa Bélgica dividida & estranha onde de quando em vez nascem gigantes tipo Brel & Cortázar. A minha morte irrelevante não se conta, porém, entre as dezenas de hoje, no aeroporto como no metro. A das vítimas de hoje carece de remédio hoje.
De remédio & de vindicta inexorável. O endurecimento repressivo é inevitável. Não é à totó-Trump que falo. Mas é que a pena-de-morte foi restabelecida: por eles-monstros, não por nós. Não nos basta ser civilizados: temos de ser civilizantes. Mas atenção: não iremos lá com espúrios esquerdismos de capitulação: o cancro só extirpação merece. O terrorismo não é remediável com reformatórios paliativos tipo bonzinho-guterres-de-calcutá – é com olho da mesma boca & com dente do mesmo olhar.
Recentemente, perdi a amizade de alguém que, sentindo-me reticências quanto à beatificação automática de tanto refugiado só-porque-sim, me vilipendiou de estúpido para baixo. O lobo com pele-de-ovelha não deixa de cheirar a mijo-de-lobo. E o lobo não é o melhor amigo do homem-caniche. Perder esse ex-amigo (terrível justaposição, mas justa) nada me é. Perder estas pessoas da manhã belga – isso despassara-me de todo os carretos ornitolófilos.
Vou pelos meus melros. Fez-se entretanto toda de cristal, a manhã deles & minha. Interflúvios eu & eles, vamos ter com quem? Com a Graciete. Gerânios. Violetas não viole(n)tas. E uma papoila tingida de groselha viva – viva como o sítio onde estamos & a que voltaremos.




quinta-feira, março 17, 2016

Rosário Breve n.º 448 - in O RIBATEJO de 17 de Março de 2016

Vale mais dizer isto do que andar no gamanço ou na droga




O mundo é depressivo porque o planeta é bipolar.
Depressivo e deprimente. É, é. Foi o que me ocorreu de imediato, esta tarde, ao içar da leitura de um livro maravilhoso o olhar para a circunstância real-terrena. (Cronicar-vos-ei em breve essa leitura e esse livro: foi escrito por um gigante meu Amigo.) Ímpio e míope, o olhar devolveu-me a existência desfocada do derredor: dois velhotes grasnando que “o Tondela facilitou aquilo tudo aos gajos, olha quem é o Petit”; uma solteirona mais encarquilhada do que uma laranja com celulite tripulando à arreata um caniche feio como o susto e incapaz de perder um pneu para mictório; dois toxiarrumadores filhodaputando-se mutuamente a pretexto, et pour cause, do território a explo’esportu’lar; e, ainda, a minha mesma (má-)consciência de algumas obras & algumas pessoas só serem imortais enquanto eu próprio não esticar o pernil.
Voltei logo que pude à leitura – mas o interlúdio pisara-me as vísceras da desesperança. Pedi outro café, incendiei outro fumante e resignei-me a reiterar o desconcerto sem conserto do triste mundo além-óculos.
Olhai comigo aquele autarcazito: se a honestidade pesasse quilos, este gajito seria um ás da levitação à faquir. E ali, vêde-me bem o mal que parece: um energúmeno elegante (e jovem), que não sou eu, a tiracolo de uma moçoila de peito oblíquo-a-subir que não me conhece nem do jornal, a ignorante da boazona.
Entristeci qual círio em derradeiro soluço de cera. Mirrei como outonal parra de vide pós-colheita. Agravamento: começou a chover do quebrado cântaro de Deus que a dava. Mas não era morrinha melancólica, não era poalha-spray: era diluviosa, a precipitação apressada. Considerei taciturnamente que quando a chuva se excede, é pluviolação que se chama. Mandei vir brandy. Dando de beber a mim mesmo, cometi autogolo. Longo, beijoqueiro, macieiro, tipo mil-nove-e-vinte. Já não perdi tudo. A bebida tisnou-me o sobrecenho, porém. Fui ver, a neve não caía: quedava, isso sim, a evidência de as minhas alegrias maiores serem todas do século passado. Ai que caraças. As maiores tristezas também. Por exemplo: tenho mais vinte anos do que o meu Irmão nascido uma década antes de mim. E eu que sempre, só, a sós, só quis que a minha vida fosse oficina com horta ajardinada à porta. E o periquito da Dona Aurora/repenica a fauna/debica a flora.
A minha vida? Enfim: tenho muita pena mas não tenho pena nenhuma. Se não tenho cartão partidário é porque nenhum partido me passa cartão. E gajas? E gajas? Não frequento talhos-de-alterne. E o resto do mulherio é muito mas não é burro. Olhai-me o casaco. Estão-me a ver o casaco? Não me fica mal de todo, verdade? Pois sabei que me custou 130 euros. Custou-me 130 euros mas deram-me 118 de troco. Foi naqueles da etnia egipsya, não se pode dizer sem eufemismo senão é racismo, numa daquelas contrafeiras de marcas com o crocodilo e assim. Olhai agora, agor’olhai: eu deveria ter tirado o brevet de piloto – aquilo que ali vai não é uma mulher, é um avião. Chiça-penico, ó filho pobre do meu pai nunca rico. Enfim: ante o mar, não procuro a torneira. Deus quer, o homem sonha, a mulher pira-se.
A Maçonaria? Nunca experimentei. É para usar avental? Ora, isso faço eu há quarentas & tais anos sem recurso nem ao Grande Arquitecto nem ao Tomás Taveira, que não é, nunca foi, será nunca, nem arquitecto nem grande coisa.
A Ornitologia? Sim, gosto muito de passarada. Até sei um truque verídico que V. transmito com todo o gosto: sabe-se que o periquito não é periquita pela cor que debrua os orifícios respiratórios a norte do bico. Se for azul, é macho. Se não for, é periquita como aquela pinga maravilhosa de que só ouvi beber os outros.
À visão e aos quatro outros sentidos, vi-me compelido a acrescentar o sexto da memória & o sétimo do esquecimento: aquele para remediar a insuficiência do real, este para perdoar a mim mesmo a ilusão de tão irremediável remédio.
Bem, adeus. Quem gosta muito do Islão são os porcos – entenda-se isto como se quiser. Já os alambiqueiros de bagaço não gostam nada dele. Mundo difícil.
Deprimente. Depressivo. Bipolar. No Pólo Norte, geme o esquimó. No Pólo Sul, é eufórico o pinguim.
E no meio dos dois, vossemecês & mim.  

sexta-feira, março 11, 2016

Rosário Breve n.º 447 - in O RIBATEJO de 10 de Março de 2016

Às primeiras



1 Sétimo de sete, quando nasci o meu Pai era já tão velho, que às segundas-feiras estava fechado como os museus. E como os sapateiros. Esse meu involuntário bioanacronismo azedou-me, de pronto, o soro-doce do mamilo maternal, que amorangadamente virginal me seria, não fôra ele aleivosamente pré-chupado pelos prévios seis bacorinhos de minha irmandade. Mal-estremunhado, mais resinoso de remela do que a lagarta-do-pinheiro, dei por mim desta insensata maneira: quanto futuro o meu Pai pôde para mim ontem, hoje um de nós dois estou errado amanhã.
2 A crónica desta semana esteve para chamar-se “As Mulheres de Sócrates & As Minhas”. Acabei por decidir outra titulação. As minhas mulheres não são de abertura-fácil como a compal-de-pêssego. A senhora Mãe do senhor meu Pai foi Joaquina, Esquina em família. Morreu à beira-tempo do meu nascimento. Recordo-a em projecção: por via & de viés da fala do quinto filho dela, primeiro dos meus homens, sétimo & último que dele fui. A tuberculose levou demasiado cedo o marido dela, que foi José. Ela aguentou o barco. Morria-se muito, naquele quartel primeiro do século transacto, de pulmões que o bacilo-de-Koch obrigava a expectorar rosetas de sangue. Ela levou o barco dos sobreviventes à foz das vidas adultas. Gerou, criou, não esperou agradecimentos. A senhora Mãe da senhora minha Mãe foi Cândida – e não só de nome. Sofreu as do diabo amassador. Levou muita porrada, então legal, e natural até, do marido – a quem ainda hoje não chamo Avô. Nenhuma dessas Senhoras pediu milhares de tostões a ninguém. Daí que a crónica haja de sofrer outro título.
3 A realidade é triste por Paris já não ser o que nunca foi: o Montmartre dos pintores trocado manhosamente pela filosofia de um rapaz incapaz de candidatar-se a filho de meu Pai. Sou do tempo do bacalhau-a-pataco. Sou do tempo das conversas-em-família do Marcello com dois ll, aliás padrinho deste de agora só com um. Também sou do tempo em que a dignidade natural parecia o pêssego que não vem da estufa: por ser tão própria à carne como a pele à mesma.
4 Democraticamente falando, sinto-me saturado da pornografia mediática que impregna o Dossier-Sócrates. Sei que a presunção de inocência etc.. Também sei ir com o pai natal e o coelho ao circo. Também sei nascer outra vez. Vou tentar:
5 Quando nasci, a minha Mãe era tão nova, que o amanhã não tinha ainda sido baptizado ontem. As notícias apareciam emolduradas a lápis-lazúli: era a Censura Salazar-Cristã que, ao menos, morigerava as ignorâncias por assim dizer socráticas da ganância mais lerda. Não eram anos mais felizes. Eram dias de aprender a ler-escrever-contar. E as pessoas eram sérias da mesma maneira que as árvores acontecem pardais. A diferença radical entre o filho que vim ser e o Pai que merecer tive, é só esta: as mulheres dele são as minhas. E nunca vão para museus nem falam com sapateiros, ao contrário de coisas tão mal formadas como nem sei se vos falei já delas. Às segundas.


quinta-feira, março 03, 2016

Rosário Breve n.º 446 - in O RIBATEJO de 3 de Março de 2016

O Buraco de Abrantes não é só de Abrantes



1 O mundo local não carece de universalidade. A nossa parte mundial é urbe que vale orbe. A horta do meu vizinho Fernando é toda a Agricultura. A garagem onde o Né faz rolhas? É a Indústria toda. O Café da Rita? É todo o Comércio. O Desporto? É a sueca-lambida da Associação Recreativa, Desportiva e Cultural. A Educação é a catequese-aos-sábados e as explicações da Menina Patrocínio. A Política tão depressa é na Assembleia da Junta de Freguesia como no Teatro-Circo (fundado ainda D. Carlos I e Último respirava.) E cada vez que me escanhoo, confiro ao espelho a decrepitude da Humanidade toda que há. Posto isto, falemos agora do buraco da/na Avenida de D. João também I, em Abrantes.
2 Há coisa de um ano que o irrequieto munícipe abrantino José Baptista anda a moer a paciência à sô-dona Maria do Céu Albuquerque com a resistência daquela chatice no chão. A edil, népias. Ora, o buraco local não carece de universalidade. Ah pois não. Daí que eu creia com razoável quilate de firmeza que não apenas a onomasticamente celeste Maria Primeira daquela formosa & antiga cidade se deva inculpar no cartório. Ah pois não apenas. Porquê? Simplicíssimo: porque, de cada vez que uma câmara faz népias, a dita edilidade abre buracos na democracia mesma que lhe dá origem. É desassombradamente, pois, que o buraco de Abrantes também boceja desleixadamente & desconsoladamente se arreganha em/por toda a Estremadura e por (quási) todo o Ribatejo. (Já lá vamos ao “quási”.) Ah pois é: o buraco de Abrantes também aparece na Nazaré, em Alcobaça, nas Caldas da Rainha, em Óbidos, em Peniche, no Bombarral, na Lourinhã, no Cadaval, em Torres Vedras, no Sobral de Monte Agraço, em Arruda dos Vinhos, em Alenquer, em Rio Maior, no Cartaxo, na Azambuja, em Benavente, em Coruche, em Salvaterra de Magos, em Almeirim, em Alpiarça, na Chamusca, na Golegã, em Alcanena, no Entroncamento, em Torres Novas, na Vila Nova da Barquinha, em Ourém, em Tomar, em Ferreira do Zêzere, em Constância, no Sardoal e em Mação – tudo participa do buraco-buraquinho-buracão. É do tal factor-népias. Por respectiva ordem, são pois inculpáveis os senhores & as senhoras homólogos/as de Maria do Céu: Walter Manuel Cavaleiro Chicharro, Paulo Jorge Marques Inácio, Fernando Manuel Tinta Ferreira, Humberto da Silva Marques, António José Ferreira Sousa Correia Santos, José Manuel Gonçalves Vieira, João Duarte Anastácio de Carvalho, José Bernardo Nunes, Pedro Paulo Ramos Ferreira, José Alberto Quintino da Silva, André Filipe dos Santos Matos Rijo, Pedro Miguel Ferreira Folgado, Isaura Maria Elias Bernardino Morais, Pedro Magalhães Ribeiro, Luís Manuel Abreu de Sousa, Carlos António Pinto Coutinho, Francisco Silvestre Oliveira, Hélder Manuel Ramalho de Sousa Esménio, Pedro Miguel César Ribeiro, Mário Fernando Atracado Pereira, Paulo Queimado, Rui Manuel Lince Singeis Medinas Duarte, Fernanda Maria Pereira Asseiceira, Jorge Manuel Alves de Faria, Pedro Paulo Ramos Ferreira, Fernando Manuel dos Santos Freire, Paulo Fonseca, Anabela Gaspar de Freitas, Jacinto Manuel Lopes Cristas Flores, Júlia Gonçalves Lopes de Amorim, António Miguel Borges e Vasco António Mendonça Sequeira Estrela.
3 Arguto & atenta, o meu Senhor-Leitor & a Senhora-Leitora minha terão notado de imediato que do rol de crateras supra-desfiado não consta o angelical, o seráfico, o querubínico, o duas vezes Gonçalves e uma vez Ribeiro santareno autarca Ricardo. Ah pois não. Nem ele, nem Santarém. A excepção é regrante: em Santarém, os Josés-Baptistas não são inocentes como os anjinhos de papelão das procissões tão do agrado ó-p’ra-mim do herdeiro de Moita Flores.  São, bem pelo contrário, perigosos agitadores esquerdelhos a soldo da Rússia (ainda) comunista & da China (ainda) maotrotskysta. Ah pois são. Os buracos que possa haver pela terra do grande Bernardo Santareno – são eles & são elas que os escavam de noite para poderem andar aos berros de dia. E se não é assim como digo, há-de ser pior pelo que não sei. Saber, todavia, sei isto: que em Santarém o Buraco não é de calçada. É de poder.
4 Ah pois é.




quinta-feira, fevereiro 25, 2016

Rosário Breve n.º 445 - in O RIBATEJO de 25 de Fevereiro de 2016

Roma 0 – Cristo 1

Não se vê uma nuvem. Manhã perfeita. Sem uma gelha. Sem um ponto-persa. Revérberos coriscam no dorso do rio. É muito bom ter, da noite, renascido meridional, atenta a graça da jornada novel. Ao arrepio de antanhos recentes, a luz é de uma pureza riscável à unha. Bêbedas de viço, as aves matinais tripulam os veios azuis, as ramas verdes, o espaço branco, o ouro impagável da totalidade natural. Respirar é uma conspiração de açúcar. Não há por aqui sevandijas, sicários, bandoleiros &/ou corsários. Há gente (não muita) que se desestarrece ao sol franco, pintalgada de joalharias coloridas. Uma dama, que vinha a seu chá-meia-torrada, comete a ontem impensável extravagância da imperial-com-tremoços-mas-é. Um cavalheiro, tido por sisudo, mete-se a graçolar com cada bebé-de-colo que lhe passe ao alcance das unhas aparadas. Fiapo de eternidade, o instante vale um coalho de cal na colina-esmeralda. Não são vaidade, hoje, as lentes-fumadas de marca tornando de mochos cegos os rostos humanos. Não são (tão) frívolas, hoje, as poses do tipo perfil-egípcio com que os leitores do Expresso alardeiam aquela cultura-post-moderna-de-saco que nunca entenderam nem vão entender. Mesmo hoje. Mas adiante. O Sábado, coleante jibóia inócua, vive & deixa viver em uma paz inocente de barbáries. A duas mesas desta sobre que se amanha a crónica pró-Ribatejanos, um miudito faz rir o pai por-causa-de-quási-nada – nada, excepto o facto tremendo de um ao outro pertencerem para sempre. O preto e o branco não dão cinzento, hoje não. Das prévias jornadas februárias, os grandes ventos & as iradas chuvadas não campeiam nem enxurram nem descabelam nem geram gemer. É um bocadito como se o senhor Adão & sua/dele dona Eva não tivessem jamais sido compelidos à reforma mutilada. Com outro bocadito (de atenção, agora), é perfeitamente possível a ressuscitação das espécies extintas pelo plástico do Homem, pelos homens-de-plástico – ou pelo Demo que os não carregou a todos. Até o Tejo (mas, hélas!, só à distância apartada) parece um moço lavado em aparato de pé-de-alferes com a Lezíria que o bebe & deixa beber. Uma pessoa semicerra por instantes as persianas ópticas – & a música, à maneira de toda esfera arredondada pela claridade total, põe-se logo a violinar vivaldismos de passarada sem caçador derredor. A Dívida-Pública? Bah! Hoje (mas só hoje, sabemo-lo bem, que já há muito comemos broa rija), consiste tão-só no que, todos & cada um, devemos ao que é de todos: o perfume das maçãs portuguesas, o patriotismo rescendente do bacalhau, os bons-dias dados como pão novo, a saciedade cervejada daquela tremoceira dama, o patusco que aqueles bebés-de-(tira)colo acham o senhor-sisudo-de-outros-dias. Torpor pasmaceiro – a termonuclear prumo, o vertical meio-dia dardeja todo este santo lirismo sem caruncho, sem génio & sem progénie: este dia é filho-único, como Aquele que sabemos. Como na vida, todavia-toda-a-vida, em instantes se faz tarde. Os telemóveis tornaram a guinchar. O patrão da pastelaria ralha desabrida & altiaudivelmente com a empregadita mai’ nova – que com as duas mais antigas não se atreve ele. O momento é chegado de nos retirarmos à la française. O exemplar do Correio da Manhã foi parar às mãos do miudito causador de patergargalhadas, que a feltros iridescentes o vai exsanguinando.
E ainda: sem uma nuvem sobre que descansar a augusta cabeça nevada, o Senhor, lá tão de cima, é obrigado a vigiar, cá tão bem baixo, Francisco – achando, como eu acho também, que o Argentino não é católico, mas sim cristão só. E sem gelha per(ver)sa, o danado do Homem.


sábado, fevereiro 20, 2016

Rosário Breve n.º 444 - in O RIBATEJO de 18 de Fevereiro de 2016

Lontra-metragem (I & II)

I
Temos aqui na parvónia um amigo que, há anos não estreitos já, passa por uma fase nada boa da e na vida: é macho, está sozinho e quanto mais anseia por fêmea, mais fede ao peixe estragado da falta de predação. Eu & o resto da pandilha passámos a tratá-lo por Laçubra, que é mimoso acrónimo para Lontra do Açude de Abrantes. É cruelzito, sabemo-lo bem – e por isso mesmo nunca mais lhe chamaremos Zé-Tó.
Ele já teve mulher, de quem se deslontrou por causa de ela ter passado de foca a leão-marinho ao cabo de parir cinco crias muito feias, muito cegas e todas desdentadas que só queriam era mamar a-vida-toda-e-mais-um-dia como as parcerias público-privadas. O ele não arranjar rocha nova em que se ponha ao sol(o), deve-se também ao facto de ele se banhar em fossas que, de tão turvas & emporcalhadas, são mais cépticas do que sépticas. Cada transição Inverno-Primavera, a coisa piora: o cio fá-lo chorar onanismos de leite derramado em vão. Nessas alturas de mor pranto, nós-os-amigalhaços nunca lhe falhamos, mimando-o & ninando-o com esta lengalenga: O Laçubra não tem quem cubra! O Laçubra não tem quem cubra! E depois fazemos como na creche: Na-na-na-nãn-nãn-na!-Na-na-na-nãn-nãn-na! E no fim rimo-nos muito dele sem ser p’ra ele e vamos beber copos para nos rirmos ainda mais e prontes.
Na mocidade, o ainda-Zé-Tó era muito bom em natação. Em águas então limpas, era gajo para nadar 4-minutos-4 seguidinhos antes de vir à tona. Agora, à tona é coisa a que ele não vai, por mais que se esganice em excruciantes uivos à lua privada das lontras. Hoje em dia, o Laçubra amostra ao mundo aquele ar de afogado roído pelos crustáceos, em vez de ser ao contrário. Seria de meter dó, caso percebêssemos alguma coisa de música.

II
Com isto tudo do Laçubra, acabei perdendo espaço para o arremedo de crónica que aqui me trazia. Era artigalhada sobre as primatas, perdão, primárias para as presidenciais dUSAmericanos de Novembro próximo. Aquele circo que opõe burros a burros e elefantes a burros. E a lontras. Sim – e a lontras.
É que, em amaricano, Zé-Tó diz-se Donald. Mas a trump é a mesma. Entre gente que se dá ao luxo & ao lixo de imitar em cegueira as crias do Laçubra ao eleger figuras como o Nixon, o Reagan e os dois Bush, a hílare Clinton ainda é capaz de não ter de que se rir – como nós temos do Zé-Tó, cujo traseiro apimentado é nosso refresco. 

quinta-feira, fevereiro 11, 2016

Rosário Breve n.º 443 - in O RIBATEJO de 11 de Fevereiro de 2016 - www.oribatejo.pt

Isto se eu fingisse lembrar-me, disfarçasse saber do que falo

1. Das minhas felizes surtidas cometidas às terras de arriba-Tejo, uma assaz recorrente gravura que em retenção memorial se me impõe – é essa de o céu ser mais alto do que em outras (p)aragens do meu País inicial & terminal – vulgo Portugal. É mais alto, esse céu das lezírias subido. Ou mais chã, de diversos chãos, a perspectiva. Outro lance: o da lezíria de húmus-água-verde formosamente perlada a negro pelo touro ainda não chacinado em nome da barbárie chamada “tradição” tão característica de marialvas-monárquicos sem um livro na vida. Outra: as colunas de silêncio vertical subindo o imo da Igreja de Santa Clara, ali à santarena Avenida-de-Gago-Coutinho-e-Sacadura-Cabral, em tri-nave clarissa-gótico-mendicante. Sim: a memória dá-se-me a arquivoltas & a colunelos de rosácea. O esquecimento não usa pintura, nem usa azulejaria, nem sabe o que talha seja – por isso mesmo que a Morte, que nos não esquece, só ao Diabo lembra. Uma retenção mais, com V.ª licença: a de auferir, ao menos, metade da máxima doméstico-epigráfico-heráldica do senhor José Relvas (1858-1929), que “Glória e Vinhos” era. Fico-me pela segunda parte, incapaz da primeira. Assim seja, que assim é. Incontornável lembrança de subido cénico aparato é, ainda, a do Castelo de Almourol (Almorolan em 1129). Dele, as nove torres arredondam outros tantos aparatos de lançamento rumo-espacial – e tantos séculos antes do Cabo Canaveral dUSAmericanos.
(Intervalo agora para nótula romântica: Foi na nabantina Ilhota onde roda a madeira hidráulica do Mouchão que de amor se mutuamente irrigaram & irroraram o senhor Arménio Tomé & sua doravante gentil senhora Lucrécia Vasques. Foi em 1950. Ela era de boa-família, não sendo má a dele. Casaram-se de electrodoméstica vontade, pós o inócuo ósculo semiamorangado de beiços virginalíssimos, na Igreja de Santa Maria dos Olivais que, nos Mil-Centos-&-Tais, Gualdim Pais de propósito reconstruiu para eles-Lucrécia-&-Arménio. O preto-e-branco das fotos esponsais perpetua a mocidade do amor emoldurado pelo pétreo veludo do púlpito de Quinhentos, pelo sorriso transparente de Nossa Senhora da Anunciação & pela sacristia manuelinamente ajanelada. E foram felizes para sempre – durante o sempre até 1981, ano da morte dele, e 1982, marca terminal dela, que sem ele podia mas não queria nem quis.)
2. De Abrantes (a recordação não é minha, é tomada de empréstimo a um pater-avoengo meu, vivo no Ano n.º 130 a.C., que era de gaio nome Caio como o poeta Valério Catulo e que integrou a horda milícia de Décimo Júnio, geralcentudecurião Bruto a valer), isto: o castro lusitano que então Roma tomou à força valia o chão do Castelo abrantino subsequente. A tais politeístas de excelente Língua & Direito forte sucedeu o monofásico Cristianismo, dedicando a Cidade à égide de Vicente & João, santos, as igrejas maiores do rincão.
3. No retorno a Norte (a que sou obrigado por falta de carcanhóis que me permitam aquisição de choupana palafita nas avieiras Caneiras), passo pela Batalha. Já Ribatejo não é, eu sei. Mas é: se arriba, tágide há-de ’inda ser a musa escrita. Ou assim: assim a morte de Mestre Afonso Domingues causa, por obra suplente do catalão Huguet, a derivação de mendicante para flamejante do soberbo estilo gótico, ora já sem Clarissas como no Louriçal. Mas é que já escrevi(vi) sobre essa epifania. Fi-lo assim:
4. - A Secreta Vitória
Fazem as pequenas pedras os grandes edifícios. E pequenos, por igual ideia, parecem os homens que organizam as ditas pedras de modo a que a História encontre marcos no tempo que passa. Que passa para as pessoas, não para os monumentos.
A Batalha, toda ela, vila e mosteiro de Santa Maria da Vitória, evoca essa comparação. Não é possível, perante a beleza descomunal daquela pedra, evitar a íntima inquietude de sermos, nós pessoas, ínfima areia. E que só ela, junta e trabalhada pedra, é eterna.
Ainda assim, retenhamos de uma visita à Batalha (que é, como em tantos outros casos de amor, uma revisita) a noção de que a alma colectiva existe. E que olhando nós o que invisíveis e dissipadas mãos ergueram, também mãos damos ao que eles quiseram olhar por dentro e de frente: a alma da História, a nave do Tempo, as abcissas da Memória.
Visitada, revisitada, nunca esquecida, a Batalha exalta deste modo uma vitória mais secreta que a de Portugueses sobre Castelhanos: o triunfo da arquitectura sobre o esquecimento. Ou a morte da Morte, por assim dizer.


quinta-feira, fevereiro 04, 2016

Rosário Breve n.º 442 - in O RIBATEJO de 4 de Fevereiro de 2016 - www.oribatejo.pt





O siluro não tem futuro
(sermão aos peixes sem Santo António ao barulho)



1. Tenho para mim & por certo que não é cabal a designação de siluro-europeu para a nova praga que assola o imundiciado Tejo da nossa vida tágico-trágica. Não é que esteja errada. É que está incompleta. Falta-lhe especificidade. Siluro-alemão. Assim é que está bem: siluro com alemão a seguir. É peixe tipo gato que come carne? É alemão. Come os espécimenes mais pequenos? É alemão. Nem às avezinhas beira-fluviais permite sossego? É alemão. Até o seu cocó é tóxico quando em aglomerado cardume? É alemão. Tenho provas de que é alemão. Uma metàforazinha me serve de inegável & indesmentível evidência. Esta aqui: O Tejo é Portugal.
2. Portugal é o Tejo. Tal como o Rio sofre de poluentes (olá, Vila Velha de Ródão!; olá, Mação – sim ou não?; olá, Abrantes!; olá, Constância!); tal como o Rio se abaixa de caudal; tal como o Rio é entravado & bloqueado artificialmente por enrediços exploradores desalmados; tal como tudo isto – assim Portugal sofre de ofensas cumulativas ao seu ecossistema financeiro; assim Portugal se abaixa de cócoras para enfermar de atentados incessantes à sua biodiversidade económica; assim à ocidental praia lusitana acode a maré-negra em formato de orca-de-água-não-doce made in Berlim & desovada em Bruxelas com o beneplácito viático de Estrasburgo & de Wall Street.
3. Os Portugueses fazem de sável, de savelha, de saboga, de barbo – mesmo os cuniculófilos. O eixo Berlim-Bruxelas faz de silurus-glanis, que é o nome latino usado para disfarçar aquilo que vos disse: que o siluro é mas é alemão. Mas, ó pessoal piscícola meu compátrio, nota bem que o siluro só é siluro por enquanto. Para nossa haliêutica desgraça, e caso nos obstinemos em democraticamente seguir pela Esquerda, a voraz avantesma há-de passar ao formato do bem pior & famigerado lúcio-perca. Perca a gente a determinação, que assim desgraçadamente será como a gente se perderá.
4. Há muito que a máscara do espantalho teutónico caiu já. Aquela bocarra grande é mesmo para nos comer, à maneira do pedófilo lobo do capuchinho (precisamente, precisamente) vermelho. Ao arrepio da nossa Constituição & ao atropelo da nossa Soberania, o siluro-alemão quer (mais ainda) atirar dentuça omnívora via “alteração estrutural a nível (ou aníbal…) do rigor orçamental”, que é como se diz em economês “mais roubalheira com fartura, que a gente é que sabe, pode e manda”. O lúcio-alemão quer mesmo irrevogáveis (sem ser à PP) as medidas que nos foram coelhamente mentidas como temporárias. O bicho não descansa enquanto nos não infestar a Função Pública e nos não superhipermegagigataxar o IRS. A furtiva besta de fundão fluvial há-de dejectar quanto puder quando em cardume. Há-de continuamente alinhavar equipas técnicas (olá, Octávio Machado!) infamemente capazes de menosprezar quanto vale, sem ser em dinheiro, um centro de saúde, uma escola, um tribunal, uma ponte, um investigador, um enfermeiro, um operário da Rical, um reformado, uma criança.
5. Dispomos todavia de uma esperança sensata. Até leva, ou traz em si, o nome da nossa Capital. Refiro-me à maneirinha boga-de-boca-arqueada-de-Lisboa. É criatura lusitana, tem bebido uns copos e feito umas piscinas ali pelas Ribeiras de Muge e de Almoster, parecendo que no Rio Trancão também. Ora, é minha firme crença e minha férrea disposição que a boga não tem de ter medo do siluro. O siluro é tosco, é gordo, é pesado, é aleijado, é grotesco, é contranatura. O siluro-alemão rima com aberração. A boguinha nossa, não. É miudinha mas é nossa. É quase irrelevante mas é (d)a gente. A semelhança morfológica dela para com afins espécies ciprinídeas é a nossa própria semelhança para connosco mesmos. A boga deve pôr-se em voga. A única modificação que se lhe/nos pede, é esta aqui: que em vez de mandar(mos) bocas arqueadas, mande(mos) mas é o vozeirão a direito. A boga não pode esquecer-se de que duas vezes no século XX o siluro-alemão se armou em super-espécie invasora – e que duas foram as vezes em que foi arpoado à maneira na corneta. A boga deve acreditar que às três só é de vez quando o peixe se deixa morrer pela boca. Ou quando não passa de carapau-de-corrida.
Ora, a maneira que temos de interditar o futuro ao siluro é fazer-lhe ver, e de vez, que, para quem somos, bacalhau já não basta.

quinta-feira, janeiro 28, 2016

Rosário Breve n.º 441 - in O RIBATEJO de 28 de Janeiro de 2016 - www.oribatejo.pt

De volta


1. Há anos que o meu nascimento deixou de ser a notícia mais importante da vida que me coube. Envelhecer é devir subtitular, adjudicando aos Elementos o protagonismo capitular de que eles não abdicam – o vento nos canaviais, o rio construtor do mar pela terra, o céu ao alcance da mão que precisamente nos falta, a majestade do arvoredo fixador de dunas.
Uma das evidências mais bastamente contribuintes para esta minha afinal serenidade aconteceu-me há uns poucos anos, talvez vinte e uns trocos. Nascera-me havia pouco a minha Primeira. Fui visitado pelo seguinte axioma: “A minha morte já começou – lá onde estive e aonde não voltarei.” Como um ósculo do Demo, o sal dessa verdade fulminante mordeu-me o ápice da língua. E da Língua também.
Conservei tal sal, que é da terra como são do campo os lírios. E assim foi que cheguei a este Café. É noite já, a terça-feira instalou na província a sua barraca fugidia como os panoramas de janela de comboio.
2. De ampla, larga, longa camisa roxa (roxa, longa, larga & ampla como a túnica do Senhor dos Passos), um cavalheiro de cerca de meio-século-+-IVA tasquinha tremoços ao escanteiro do balcão-inox. É de pança rotunda como uma jibóia de geleia. Apresenta aquele ar de córnea abulia próprio de quem votou no coiso que se segue. Usa cachucho-pechisbeque a sul da unhaca mínima esquerda. Estrangulando-lhe o cachaço rubicundo, uma medalhinha fosforesce de catolicismo folclórico para inglês (protestante) ver. Os sapatos lamentáveis desmentem dele a abastança feirante: de napa mordida a ourelo falso, conhecem mais lama pecuária do que passadeiras vermelhas. E o porta-chaves cifrado a gritante BMW só dá ignição a um Opel Corsa de 1987 de estribos mais derreados do que asas de anjo desempregado. Nisto tudo, todavia, sei que é bom homem – que é muito bom homem, aliás. Veio da França, onde estava tão bem, ao mote de acudir a um irmão manhoso que, havendo sido bufo da PIDE-DGS, não chegou aos dez-de-junho do coiso que está de saída. O irmão sofria de remela capciosa, que é a cegueira em forma de resina-de-figo. Chegado de França, este senhor-dos-passos pagou tudo por ele: o desquite, o abate do cão, a lepra das dívidas da lerpa, a remoção do chocolate intestinal a que as cuecas dão sudário terminal. O tal irmão depois morreu-lhe – mas este não voltou à Gália. Deixou-se ficar para ser personagem de crónica.
3. Perto dele, mas também sozinha como uma lembrança viúva, mora uma faneca bípede que se calhar votou Belém sem Maria. Empunha um frasquito de anis cintado a filete azul e fuma palitos níveos que tresandam a mentol de casa-de-alterne. De repente, boceja: e é então que me é dada a epifania de suas estalactites aguçadas por aquele azul-cárie que resulta da amargura do açúcar-amarelo soluto em bagaço matinal. Ao fundo do cavername bucal, a úvula estremece-lhe como um pendurichocalho sineiro de capela pobre – e a boca do estômago fervilha de ácidos furiosos próprios só de quem não comeu hoje um freguês sequer. Obliqua-lhe o tiracolo uma faixa azul-celeste à maneira cerimonial da Sãozinha-de-Alenquer. A saia é travada a fundo como os Austin-Morris de fins de bebedeira. E o olhar é-lhe glauco como a borboleta ao quinto dia de nascida. Vale que não incomoda seja quem for. Está ali como um vaso. E aqui fica (d)escrita para V.ª ilustração.
4. Verdade: deixei de nascer desde que a minha Segunda, há década & meia mais uns pós, logrou romper da estapafúrdia corrida de girinos cabeçudos rumo ao sol-óvulo do seu destino. Entretenho-me por estas cercanias de nenhures numa espécie de êxtase grato à galeria infinita do mundo local. Às terças, recolho-me a um nicho cafeíno do pequeno-comércio e escrev(iv)o o que vejo e o que nem preciso de olhar. E dois dias depois a realidade torna-se jornal, o que nunca deixa de me parecer milagre: por ser, ao contrário do meu nascimento, sítio onde estive e aonde sempre voltarei.

domingo, janeiro 24, 2016

Para o senhor Augusto Mota, na Manhã de Domingo, 24 de Janeiro de 2016



(E esses – lacónicos, lancinantes –
instantes em que, de manhã mesmo embora,
a vida se faz tarde?
Qualquer coisa ardeu & já não arde:
é a Hora.)

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Somos o que envelhecemos.
Hemos só o que em velhos somos.