quinta-feira, fevereiro 25, 2016

Rosário Breve n.º 445 - in O RIBATEJO de 25 de Fevereiro de 2016

Roma 0 – Cristo 1

Não se vê uma nuvem. Manhã perfeita. Sem uma gelha. Sem um ponto-persa. Revérberos coriscam no dorso do rio. É muito bom ter, da noite, renascido meridional, atenta a graça da jornada novel. Ao arrepio de antanhos recentes, a luz é de uma pureza riscável à unha. Bêbedas de viço, as aves matinais tripulam os veios azuis, as ramas verdes, o espaço branco, o ouro impagável da totalidade natural. Respirar é uma conspiração de açúcar. Não há por aqui sevandijas, sicários, bandoleiros &/ou corsários. Há gente (não muita) que se desestarrece ao sol franco, pintalgada de joalharias coloridas. Uma dama, que vinha a seu chá-meia-torrada, comete a ontem impensável extravagância da imperial-com-tremoços-mas-é. Um cavalheiro, tido por sisudo, mete-se a graçolar com cada bebé-de-colo que lhe passe ao alcance das unhas aparadas. Fiapo de eternidade, o instante vale um coalho de cal na colina-esmeralda. Não são vaidade, hoje, as lentes-fumadas de marca tornando de mochos cegos os rostos humanos. Não são (tão) frívolas, hoje, as poses do tipo perfil-egípcio com que os leitores do Expresso alardeiam aquela cultura-post-moderna-de-saco que nunca entenderam nem vão entender. Mesmo hoje. Mas adiante. O Sábado, coleante jibóia inócua, vive & deixa viver em uma paz inocente de barbáries. A duas mesas desta sobre que se amanha a crónica pró-Ribatejanos, um miudito faz rir o pai por-causa-de-quási-nada – nada, excepto o facto tremendo de um ao outro pertencerem para sempre. O preto e o branco não dão cinzento, hoje não. Das prévias jornadas februárias, os grandes ventos & as iradas chuvadas não campeiam nem enxurram nem descabelam nem geram gemer. É um bocadito como se o senhor Adão & sua/dele dona Eva não tivessem jamais sido compelidos à reforma mutilada. Com outro bocadito (de atenção, agora), é perfeitamente possível a ressuscitação das espécies extintas pelo plástico do Homem, pelos homens-de-plástico – ou pelo Demo que os não carregou a todos. Até o Tejo (mas, hélas!, só à distância apartada) parece um moço lavado em aparato de pé-de-alferes com a Lezíria que o bebe & deixa beber. Uma pessoa semicerra por instantes as persianas ópticas – & a música, à maneira de toda esfera arredondada pela claridade total, põe-se logo a violinar vivaldismos de passarada sem caçador derredor. A Dívida-Pública? Bah! Hoje (mas só hoje, sabemo-lo bem, que já há muito comemos broa rija), consiste tão-só no que, todos & cada um, devemos ao que é de todos: o perfume das maçãs portuguesas, o patriotismo rescendente do bacalhau, os bons-dias dados como pão novo, a saciedade cervejada daquela tremoceira dama, o patusco que aqueles bebés-de-(tira)colo acham o senhor-sisudo-de-outros-dias. Torpor pasmaceiro – a termonuclear prumo, o vertical meio-dia dardeja todo este santo lirismo sem caruncho, sem génio & sem progénie: este dia é filho-único, como Aquele que sabemos. Como na vida, todavia-toda-a-vida, em instantes se faz tarde. Os telemóveis tornaram a guinchar. O patrão da pastelaria ralha desabrida & altiaudivelmente com a empregadita mai’ nova – que com as duas mais antigas não se atreve ele. O momento é chegado de nos retirarmos à la française. O exemplar do Correio da Manhã foi parar às mãos do miudito causador de patergargalhadas, que a feltros iridescentes o vai exsanguinando.
E ainda: sem uma nuvem sobre que descansar a augusta cabeça nevada, o Senhor, lá tão de cima, é obrigado a vigiar, cá tão bem baixo, Francisco – achando, como eu acho também, que o Argentino não é católico, mas sim cristão só. E sem gelha per(ver)sa, o danado do Homem.


sábado, fevereiro 20, 2016

Rosário Breve n.º 444 - in O RIBATEJO de 18 de Fevereiro de 2016

Lontra-metragem (I & II)

I
Temos aqui na parvónia um amigo que, há anos não estreitos já, passa por uma fase nada boa da e na vida: é macho, está sozinho e quanto mais anseia por fêmea, mais fede ao peixe estragado da falta de predação. Eu & o resto da pandilha passámos a tratá-lo por Laçubra, que é mimoso acrónimo para Lontra do Açude de Abrantes. É cruelzito, sabemo-lo bem – e por isso mesmo nunca mais lhe chamaremos Zé-Tó.
Ele já teve mulher, de quem se deslontrou por causa de ela ter passado de foca a leão-marinho ao cabo de parir cinco crias muito feias, muito cegas e todas desdentadas que só queriam era mamar a-vida-toda-e-mais-um-dia como as parcerias público-privadas. O ele não arranjar rocha nova em que se ponha ao sol(o), deve-se também ao facto de ele se banhar em fossas que, de tão turvas & emporcalhadas, são mais cépticas do que sépticas. Cada transição Inverno-Primavera, a coisa piora: o cio fá-lo chorar onanismos de leite derramado em vão. Nessas alturas de mor pranto, nós-os-amigalhaços nunca lhe falhamos, mimando-o & ninando-o com esta lengalenga: O Laçubra não tem quem cubra! O Laçubra não tem quem cubra! E depois fazemos como na creche: Na-na-na-nãn-nãn-na!-Na-na-na-nãn-nãn-na! E no fim rimo-nos muito dele sem ser p’ra ele e vamos beber copos para nos rirmos ainda mais e prontes.
Na mocidade, o ainda-Zé-Tó era muito bom em natação. Em águas então limpas, era gajo para nadar 4-minutos-4 seguidinhos antes de vir à tona. Agora, à tona é coisa a que ele não vai, por mais que se esganice em excruciantes uivos à lua privada das lontras. Hoje em dia, o Laçubra amostra ao mundo aquele ar de afogado roído pelos crustáceos, em vez de ser ao contrário. Seria de meter dó, caso percebêssemos alguma coisa de música.

II
Com isto tudo do Laçubra, acabei perdendo espaço para o arremedo de crónica que aqui me trazia. Era artigalhada sobre as primatas, perdão, primárias para as presidenciais dUSAmericanos de Novembro próximo. Aquele circo que opõe burros a burros e elefantes a burros. E a lontras. Sim – e a lontras.
É que, em amaricano, Zé-Tó diz-se Donald. Mas a trump é a mesma. Entre gente que se dá ao luxo & ao lixo de imitar em cegueira as crias do Laçubra ao eleger figuras como o Nixon, o Reagan e os dois Bush, a hílare Clinton ainda é capaz de não ter de que se rir – como nós temos do Zé-Tó, cujo traseiro apimentado é nosso refresco. 

quinta-feira, fevereiro 11, 2016

Rosário Breve n.º 443 - in O RIBATEJO de 11 de Fevereiro de 2016 - www.oribatejo.pt

Isto se eu fingisse lembrar-me, disfarçasse saber do que falo

1. Das minhas felizes surtidas cometidas às terras de arriba-Tejo, uma assaz recorrente gravura que em retenção memorial se me impõe – é essa de o céu ser mais alto do que em outras (p)aragens do meu País inicial & terminal – vulgo Portugal. É mais alto, esse céu das lezírias subido. Ou mais chã, de diversos chãos, a perspectiva. Outro lance: o da lezíria de húmus-água-verde formosamente perlada a negro pelo touro ainda não chacinado em nome da barbárie chamada “tradição” tão característica de marialvas-monárquicos sem um livro na vida. Outra: as colunas de silêncio vertical subindo o imo da Igreja de Santa Clara, ali à santarena Avenida-de-Gago-Coutinho-e-Sacadura-Cabral, em tri-nave clarissa-gótico-mendicante. Sim: a memória dá-se-me a arquivoltas & a colunelos de rosácea. O esquecimento não usa pintura, nem usa azulejaria, nem sabe o que talha seja – por isso mesmo que a Morte, que nos não esquece, só ao Diabo lembra. Uma retenção mais, com V.ª licença: a de auferir, ao menos, metade da máxima doméstico-epigráfico-heráldica do senhor José Relvas (1858-1929), que “Glória e Vinhos” era. Fico-me pela segunda parte, incapaz da primeira. Assim seja, que assim é. Incontornável lembrança de subido cénico aparato é, ainda, a do Castelo de Almourol (Almorolan em 1129). Dele, as nove torres arredondam outros tantos aparatos de lançamento rumo-espacial – e tantos séculos antes do Cabo Canaveral dUSAmericanos.
(Intervalo agora para nótula romântica: Foi na nabantina Ilhota onde roda a madeira hidráulica do Mouchão que de amor se mutuamente irrigaram & irroraram o senhor Arménio Tomé & sua doravante gentil senhora Lucrécia Vasques. Foi em 1950. Ela era de boa-família, não sendo má a dele. Casaram-se de electrodoméstica vontade, pós o inócuo ósculo semiamorangado de beiços virginalíssimos, na Igreja de Santa Maria dos Olivais que, nos Mil-Centos-&-Tais, Gualdim Pais de propósito reconstruiu para eles-Lucrécia-&-Arménio. O preto-e-branco das fotos esponsais perpetua a mocidade do amor emoldurado pelo pétreo veludo do púlpito de Quinhentos, pelo sorriso transparente de Nossa Senhora da Anunciação & pela sacristia manuelinamente ajanelada. E foram felizes para sempre – durante o sempre até 1981, ano da morte dele, e 1982, marca terminal dela, que sem ele podia mas não queria nem quis.)
2. De Abrantes (a recordação não é minha, é tomada de empréstimo a um pater-avoengo meu, vivo no Ano n.º 130 a.C., que era de gaio nome Caio como o poeta Valério Catulo e que integrou a horda milícia de Décimo Júnio, geralcentudecurião Bruto a valer), isto: o castro lusitano que então Roma tomou à força valia o chão do Castelo abrantino subsequente. A tais politeístas de excelente Língua & Direito forte sucedeu o monofásico Cristianismo, dedicando a Cidade à égide de Vicente & João, santos, as igrejas maiores do rincão.
3. No retorno a Norte (a que sou obrigado por falta de carcanhóis que me permitam aquisição de choupana palafita nas avieiras Caneiras), passo pela Batalha. Já Ribatejo não é, eu sei. Mas é: se arriba, tágide há-de ’inda ser a musa escrita. Ou assim: assim a morte de Mestre Afonso Domingues causa, por obra suplente do catalão Huguet, a derivação de mendicante para flamejante do soberbo estilo gótico, ora já sem Clarissas como no Louriçal. Mas é que já escrevi(vi) sobre essa epifania. Fi-lo assim:
4. - A Secreta Vitória
Fazem as pequenas pedras os grandes edifícios. E pequenos, por igual ideia, parecem os homens que organizam as ditas pedras de modo a que a História encontre marcos no tempo que passa. Que passa para as pessoas, não para os monumentos.
A Batalha, toda ela, vila e mosteiro de Santa Maria da Vitória, evoca essa comparação. Não é possível, perante a beleza descomunal daquela pedra, evitar a íntima inquietude de sermos, nós pessoas, ínfima areia. E que só ela, junta e trabalhada pedra, é eterna.
Ainda assim, retenhamos de uma visita à Batalha (que é, como em tantos outros casos de amor, uma revisita) a noção de que a alma colectiva existe. E que olhando nós o que invisíveis e dissipadas mãos ergueram, também mãos damos ao que eles quiseram olhar por dentro e de frente: a alma da História, a nave do Tempo, as abcissas da Memória.
Visitada, revisitada, nunca esquecida, a Batalha exalta deste modo uma vitória mais secreta que a de Portugueses sobre Castelhanos: o triunfo da arquitectura sobre o esquecimento. Ou a morte da Morte, por assim dizer.


quinta-feira, fevereiro 04, 2016

Rosário Breve n.º 442 - in O RIBATEJO de 4 de Fevereiro de 2016 - www.oribatejo.pt





O siluro não tem futuro
(sermão aos peixes sem Santo António ao barulho)



1. Tenho para mim & por certo que não é cabal a designação de siluro-europeu para a nova praga que assola o imundiciado Tejo da nossa vida tágico-trágica. Não é que esteja errada. É que está incompleta. Falta-lhe especificidade. Siluro-alemão. Assim é que está bem: siluro com alemão a seguir. É peixe tipo gato que come carne? É alemão. Come os espécimenes mais pequenos? É alemão. Nem às avezinhas beira-fluviais permite sossego? É alemão. Até o seu cocó é tóxico quando em aglomerado cardume? É alemão. Tenho provas de que é alemão. Uma metàforazinha me serve de inegável & indesmentível evidência. Esta aqui: O Tejo é Portugal.
2. Portugal é o Tejo. Tal como o Rio sofre de poluentes (olá, Vila Velha de Ródão!; olá, Mação – sim ou não?; olá, Abrantes!; olá, Constância!); tal como o Rio se abaixa de caudal; tal como o Rio é entravado & bloqueado artificialmente por enrediços exploradores desalmados; tal como tudo isto – assim Portugal sofre de ofensas cumulativas ao seu ecossistema financeiro; assim Portugal se abaixa de cócoras para enfermar de atentados incessantes à sua biodiversidade económica; assim à ocidental praia lusitana acode a maré-negra em formato de orca-de-água-não-doce made in Berlim & desovada em Bruxelas com o beneplácito viático de Estrasburgo & de Wall Street.
3. Os Portugueses fazem de sável, de savelha, de saboga, de barbo – mesmo os cuniculófilos. O eixo Berlim-Bruxelas faz de silurus-glanis, que é o nome latino usado para disfarçar aquilo que vos disse: que o siluro é mas é alemão. Mas, ó pessoal piscícola meu compátrio, nota bem que o siluro só é siluro por enquanto. Para nossa haliêutica desgraça, e caso nos obstinemos em democraticamente seguir pela Esquerda, a voraz avantesma há-de passar ao formato do bem pior & famigerado lúcio-perca. Perca a gente a determinação, que assim desgraçadamente será como a gente se perderá.
4. Há muito que a máscara do espantalho teutónico caiu já. Aquela bocarra grande é mesmo para nos comer, à maneira do pedófilo lobo do capuchinho (precisamente, precisamente) vermelho. Ao arrepio da nossa Constituição & ao atropelo da nossa Soberania, o siluro-alemão quer (mais ainda) atirar dentuça omnívora via “alteração estrutural a nível (ou aníbal…) do rigor orçamental”, que é como se diz em economês “mais roubalheira com fartura, que a gente é que sabe, pode e manda”. O lúcio-alemão quer mesmo irrevogáveis (sem ser à PP) as medidas que nos foram coelhamente mentidas como temporárias. O bicho não descansa enquanto nos não infestar a Função Pública e nos não superhipermegagigataxar o IRS. A furtiva besta de fundão fluvial há-de dejectar quanto puder quando em cardume. Há-de continuamente alinhavar equipas técnicas (olá, Octávio Machado!) infamemente capazes de menosprezar quanto vale, sem ser em dinheiro, um centro de saúde, uma escola, um tribunal, uma ponte, um investigador, um enfermeiro, um operário da Rical, um reformado, uma criança.
5. Dispomos todavia de uma esperança sensata. Até leva, ou traz em si, o nome da nossa Capital. Refiro-me à maneirinha boga-de-boca-arqueada-de-Lisboa. É criatura lusitana, tem bebido uns copos e feito umas piscinas ali pelas Ribeiras de Muge e de Almoster, parecendo que no Rio Trancão também. Ora, é minha firme crença e minha férrea disposição que a boga não tem de ter medo do siluro. O siluro é tosco, é gordo, é pesado, é aleijado, é grotesco, é contranatura. O siluro-alemão rima com aberração. A boguinha nossa, não. É miudinha mas é nossa. É quase irrelevante mas é (d)a gente. A semelhança morfológica dela para com afins espécies ciprinídeas é a nossa própria semelhança para connosco mesmos. A boga deve pôr-se em voga. A única modificação que se lhe/nos pede, é esta aqui: que em vez de mandar(mos) bocas arqueadas, mande(mos) mas é o vozeirão a direito. A boga não pode esquecer-se de que duas vezes no século XX o siluro-alemão se armou em super-espécie invasora – e que duas foram as vezes em que foi arpoado à maneira na corneta. A boga deve acreditar que às três só é de vez quando o peixe se deixa morrer pela boca. Ou quando não passa de carapau-de-corrida.
Ora, a maneira que temos de interditar o futuro ao siluro é fazer-lhe ver, e de vez, que, para quem somos, bacalhau já não basta.

quinta-feira, janeiro 28, 2016

Rosário Breve n.º 441 - in O RIBATEJO de 28 de Janeiro de 2016 - www.oribatejo.pt

De volta


1. Há anos que o meu nascimento deixou de ser a notícia mais importante da vida que me coube. Envelhecer é devir subtitular, adjudicando aos Elementos o protagonismo capitular de que eles não abdicam – o vento nos canaviais, o rio construtor do mar pela terra, o céu ao alcance da mão que precisamente nos falta, a majestade do arvoredo fixador de dunas.
Uma das evidências mais bastamente contribuintes para esta minha afinal serenidade aconteceu-me há uns poucos anos, talvez vinte e uns trocos. Nascera-me havia pouco a minha Primeira. Fui visitado pelo seguinte axioma: “A minha morte já começou – lá onde estive e aonde não voltarei.” Como um ósculo do Demo, o sal dessa verdade fulminante mordeu-me o ápice da língua. E da Língua também.
Conservei tal sal, que é da terra como são do campo os lírios. E assim foi que cheguei a este Café. É noite já, a terça-feira instalou na província a sua barraca fugidia como os panoramas de janela de comboio.
2. De ampla, larga, longa camisa roxa (roxa, longa, larga & ampla como a túnica do Senhor dos Passos), um cavalheiro de cerca de meio-século-+-IVA tasquinha tremoços ao escanteiro do balcão-inox. É de pança rotunda como uma jibóia de geleia. Apresenta aquele ar de córnea abulia próprio de quem votou no coiso que se segue. Usa cachucho-pechisbeque a sul da unhaca mínima esquerda. Estrangulando-lhe o cachaço rubicundo, uma medalhinha fosforesce de catolicismo folclórico para inglês (protestante) ver. Os sapatos lamentáveis desmentem dele a abastança feirante: de napa mordida a ourelo falso, conhecem mais lama pecuária do que passadeiras vermelhas. E o porta-chaves cifrado a gritante BMW só dá ignição a um Opel Corsa de 1987 de estribos mais derreados do que asas de anjo desempregado. Nisto tudo, todavia, sei que é bom homem – que é muito bom homem, aliás. Veio da França, onde estava tão bem, ao mote de acudir a um irmão manhoso que, havendo sido bufo da PIDE-DGS, não chegou aos dez-de-junho do coiso que está de saída. O irmão sofria de remela capciosa, que é a cegueira em forma de resina-de-figo. Chegado de França, este senhor-dos-passos pagou tudo por ele: o desquite, o abate do cão, a lepra das dívidas da lerpa, a remoção do chocolate intestinal a que as cuecas dão sudário terminal. O tal irmão depois morreu-lhe – mas este não voltou à Gália. Deixou-se ficar para ser personagem de crónica.
3. Perto dele, mas também sozinha como uma lembrança viúva, mora uma faneca bípede que se calhar votou Belém sem Maria. Empunha um frasquito de anis cintado a filete azul e fuma palitos níveos que tresandam a mentol de casa-de-alterne. De repente, boceja: e é então que me é dada a epifania de suas estalactites aguçadas por aquele azul-cárie que resulta da amargura do açúcar-amarelo soluto em bagaço matinal. Ao fundo do cavername bucal, a úvula estremece-lhe como um pendurichocalho sineiro de capela pobre – e a boca do estômago fervilha de ácidos furiosos próprios só de quem não comeu hoje um freguês sequer. Obliqua-lhe o tiracolo uma faixa azul-celeste à maneira cerimonial da Sãozinha-de-Alenquer. A saia é travada a fundo como os Austin-Morris de fins de bebedeira. E o olhar é-lhe glauco como a borboleta ao quinto dia de nascida. Vale que não incomoda seja quem for. Está ali como um vaso. E aqui fica (d)escrita para V.ª ilustração.
4. Verdade: deixei de nascer desde que a minha Segunda, há década & meia mais uns pós, logrou romper da estapafúrdia corrida de girinos cabeçudos rumo ao sol-óvulo do seu destino. Entretenho-me por estas cercanias de nenhures numa espécie de êxtase grato à galeria infinita do mundo local. Às terças, recolho-me a um nicho cafeíno do pequeno-comércio e escrev(iv)o o que vejo e o que nem preciso de olhar. E dois dias depois a realidade torna-se jornal, o que nunca deixa de me parecer milagre: por ser, ao contrário do meu nascimento, sítio onde estive e aonde sempre voltarei.

domingo, janeiro 24, 2016

Para o senhor Augusto Mota, na Manhã de Domingo, 24 de Janeiro de 2016



(E esses – lacónicos, lancinantes –
instantes em que, de manhã mesmo embora,
a vida se faz tarde?
Qualquer coisa ardeu & já não arde:
é a Hora.)

***

Somos o que envelhecemos.
Hemos só o que em velhos somos.

quinta-feira, janeiro 21, 2016

Rosário Breve n.º 440 - in O RIBATEJO de 21 de Janeiro de 2016 - www.oribatejo.pt

É engraçado mas falo a sério

Voltarei, nesta Presidenciais, a votar em Manuel de Arriaga.
É-me despiciendo o facto de o ilustre Terceirense (açoreano da Horta, n. 1840) estar fisicamente defunto desde 1917 – é no mesmo que voto na mesma.
Quero-me representado por uma figura de natural humanismo, de cívicas bondade & benevolência, de regrado carácter, de exemplar sentido de causa & serviço públicos, de alto empenho na justiça social – e, já agora, panteísta, que era como chamavam aos ecólogo-ambientalistas quando ainda era preciso meter deuses ao barulho de rerum natura.
Interessa-me, e muito, que o mais alto magistrado da Nação não seja um ganancioso predador-distribuidor de honras, ribaltas, milhões, clientelas & milhões. O Dr. Manuel de Arriaga não é, seguramente o não foi nem o será, desses. Quando eleito, foi o primeiro a ocupar o Palácio de Belém – mas (note-se isto muito bem) por sua conta. O arrendamento de 100 escudos ao mês era satisfeito pelo bolso dele. Assim como a viatura automóvel que oficializou no cargo: comprou-a ele, acabando de pagá-la a prestações quando já resignara à Presidência. Sim, um homem assim interessa-me. Voltarei (sempre) a votar nele. Não tenho feito outra coisa, aliás. Quando foi do Soares, votei Manuel de Arriaga. Quando foi do (outro) Sampaio, votei Manuel de Arriaga. Quando foi disto, votei Manuel de Arriaga. E tenho ganhado sempre, ao contrário do País.
Sabendo-o adversário tenaz do analfabetismo (o do tempo que foi dele, à volta dos 80%; e o do nosso, que andará à volta do mesmo, evidenciando-se tal conclusão de uma rápida mirada às redes ditas sociais), tenho-o por aposta certa & vencedora nestes nossos tão desdentados dias. Agrada-me, além de tudo o mais, que a sua/dele Lucrécia não seja de Bórgia mas de Brito – e não do Vaticano mas da Ilha do Pico.
Sim, a minha cruzinha plebiscitará sem pestanejo o portador do primeiro Bilhete de Identidade alguma vez emitido pelo novel Registo Civil deste País.
E a quem eventualmente me acuse de eleger um morto, um fantasma, uma assombração, um espectro, uma múmia – ouvirá de mim a defesa acusadora de o mesmo terem feito, em recentes anos, os meus contemporâneos – e por dois mandatos consecutivos.


sexta-feira, janeiro 15, 2016

Linhas de há pouco, esta tarde

Tarde de sexta-feira, 15 de Janeiro de 2016



***

Como em bruma as casas, ao lado delas
as árvores que merecem, cuidando-as cuidadas.
Criadas, as crianças, como em bruma,
partem.
E mais não voltam.

***

Pano luminar é a jornada-hoje.
A refracção das cores arco-irisa o olhá-las.
O Tempo é fugaz, mas esta luz não foge.
A um & a outra saibamos merecevivê-las.

***

Íntima química, esta Lux-Portuguesa.
Vale afinal tanta pena,
haver aqui,
dEla,
para-Ela,
nascido.

***

Quatro mulheres portuguesas
àquela mesa da esplanada:
jogadoras sem cartas, cuja presa
é a-vida-das-outras. Mai’ nada.

***

Pela poesia,
o cidadão-pomba
julga-se rôla.
Sobretudo sendo,
a poesia,
tôla.

***

Parda
parada
casa
casada
ao vento
co’squecimento.


quinta-feira, janeiro 14, 2016

Rosário Breve n.º 439 - in O RIBATEJO de 14 de Janeiro de 2016 - www.oribatejo.pt

Expedição

O pico da montanha reverbera no vidro nítido do ar-longe. De cá, mulas & homens, provisões & desejos. Mantimentos longamente acumulados na ideia. Planos que entretiveram vários invernos. Homens & animais em transe de libertação.
Na estalagem toda de madeira, esperam. Toda de madeira excepto a estrutura lareira-chaminé. A mesa longa & larga pode albergar dezasseis comedores, mas os animais comem lá fora.
A Primavera demora o tempo de que precisa. Eles, homens, também; elas, mulas, também. Há um cão: chama-se Rafael e não é moço já.
Os estalajadeiros são o casal Gottlieb: Hermann Gottlieb tem 67 anos e é gordo; Marlene Gottlieb (née Zweig) tem 62 anos e é magra. Dão-se bem, comungam o silêncio retórico de muitos anos de matrimónio construtivo.
Os homens são oito.
Gunther Schwarz é sueco, 28 anos, foi mecânico (de bicicletas).
Telemann Kaltz é alemão, 42, foi aviador (de copos, não de aviões).
Claudio Baresi é suíço do cantão italiano, tem 50 anos, foi pediatra.
Arménio Jordão, português de Sintra, 39, foi rico.
Jelavert Zubizarreta, basco e de 19 anos, estudou enfermagem.
Thomas Osgood é inglês de Yorkshire, 64, foi bibliotecário.
Oleg Mikhaylichenko é russo, 74, foi professor-primário.
E o sénior é Astor Nicopolidis, grego, 85, que não se recorda (ou pretende não recordar-se) do que fez & foi na vida activa.
(Nota do redactor: o tempo verbal que antecede todas & cada uma das oito profissões é o pretérito-perfeito. Não é mera coincidência nem estilístico descuido. É de propósito. E é de propósito porque a ser não voltam aquilo que foram. Estão, os oito, em modo & condição pré-terminal da doença-do-caranguejo. Dispõem de umas muito poucas semanas para que o cancro de vez os desembarace do fardo do nascimento. E é por isso que, supra, foi escrito: “em transe de libertação”.)
E os animais – também? Sim. Também. Chegando os dezasseis seres à montanha, as oito mulas tornar-se-ão libertas. Os homens acamparão para continuar à espera. Quando lá no sopé da majestosa elevação, não terão forças já para qualquer veleidade andina, alpínica ou himalaica. Mas também não há-de ser isso a desconfortá-los, ou a frustrá-los, ou a (di)feri-los. Já só hão-de esperar a espera mesma. Estas coisas são de nenhuma volta a dar-lhes. Estes oito só diferem por ter decidido esperar andando.
Reuniram-se em Istambul, perto do sítio onde ainda agora há poucos dias o sacana dum islamita-radical-suicida deflagrou uma dezena de turistas. Demoraram-se dois dias & duas noites na antiga capital imperial que foi Constantinopla depois de haver sido Bizâncio. Depois, vieram para esta página, perdão, para esta estalagem tão sossegadamente gerida pelos Gottlieb.
Esta noite, jantaram carne prensada, ervilhas, sopa de tomate & marzipã. Ei-los derredor-lume, uns tomando café (Gunther, Claudio, Thomas), outros havendo chá (Oleg, Jelavert) , outros xarope-de-groselha (Telemann, Astor) – e Arménio, vinho tinto aquecido. Antes de subirem para dormir, Claudio sugere que cada um escreva ao seu-alguém (se algum) uma última carta. As oito missivas terão Marlene & Hermann como fidelíssimos-depositários-da-puridade. Uns dizem que sim (Thomas, Telemann, Arménio, Gunther), um diz que não (Jelavert), Oleg & Astor respondem que vão pensar nisso.
Sabe-se agora (sete da manhã mais catorze minutos) que não será já bi-octogonal a expedição terminal-humana. Não pelas mulas, que estão robustas. É que já só sete dos homens respiram – posto que Jelavert, sofrendo de uma marrada mortífera do desespero, se cortou os pulsos antes de afogá-los no balde que faz a vez de autoclismo (é modesta, a albergaria gottliébica).
Nem por isso cancelam a expedição. Ao ar-longe-vidro, a montanha chama-os, um-a-um, pelo nome próprio, à parecença do que nesta mesma redacção acima se fez aquando das enumerações relativas. E como à consciência acontece com a rápida ingestão de ar gelado pelas esponjas pulmonares, o eco amplia os homens: (…) arzzarzzarzz, altztzztzz, ésiésiési, dãoãoão, zgudgudgud, xencoencoenco, ólidislidislidis (…)
Pacientes como budas, as mulas aproveitam para escarvar enquanto esperam, ao passo que o Rafael as azucrina fingindo que lhes morde as assaz delicadas canelas, cena que, apesar de tão divertida & tão preciosa, não constará da carta que por alguma razão Jelavert decidiu não escrever, de si, como se (ou)viu, nem eco deixando. 

sexta-feira, janeiro 01, 2016

Rosário Breve n.º 438 - in O RIBATEJO de 7 de Janeiro de 2016

Cesário Laranja

Vou esta manhã à minha terra. É pelo funeral de uma senhora-mãe de gente da minha criação. Mais uma, menos uma. A prova-dos-nove é consabida.
Ainda lá não cheguei. Preparo em casa a expedição. Preciso de coisas mínimas, que passo a enumerar: lápis, afiadeira, caderno pequeno, Cesário Verde em edição-de-bolso; sapatos pretos, casaco melhorzito dos dois que tenho, gorro tapa-orelhas, suspensórios cor-de-ceroula; pacote de bolachas-baunilha, laranja, rebuçados de anis, garrafinha de sovaco sem ser com água; moedas para dois cafés, óculos de perder ao perto & ao longe, número de telefone da minha Senhora escrito em vários papéis espalhados pelos bolsos, medalhinha-de-São-Cristóvão para afugentar os azares de andar um dia inteiro fora de casa; cartão de sócio dos Bombeiros, fotografia de um cão que tive & a que ainda pertenço, lembrança do nome das ruas primevas, fixação do meu próprio nome para quando, no cemitério, as mulheres mais velhas me perguntarem qual dos sete da D.ª Hermínia é que eu sou afinal.
Estou agora a sair de casa. Frescote das sete da manhã. Gasto a penúltima moeda no primeiro café. Atiro-me pela beira-rio, faço a azinhaga dos plátanos, saúdo os patos, desemboco na praça da antiga moagem. Adquiro-me o bilhete, aproveito o jornal velho que dormia aos pés de um sem-abrigo caído em combate no banco-de-espera da gare, folheio a perpétua inactualidade do real, como a primeira baunilha. Embarco. Viagem espacial: vórtice-continuum feito de estrelas apeadas, berma-árvores velocíssimas, pastagens salpicadas de ovelhas como poalha de diamantes, colinas-constelações, oficinas-auto com os nomes dos donos em manchete. Pouca gente na minha nave: um rapazola de phones autistas, um cavalheiro de hepática amarelidão, um casal sem alegria de o ser e o motorista, cujos tufos de pêlo peitoral lutam para estoirar os botões da camisa. Pela énemilésima vez, o meu Cesário ajuda a regateira de verduras a içar a giga do chão.
Estou chegando: eis o Mondego do Joaquim Jorge. A Cidade, num clarão de postal, faz-me bem de imediato. Conheço isto tudo. Cada canto me é episódico. Disponho de alguém conhecido por cada rua onde me vi sozinho. As pombas são as mesmas de há cinquenta anos. Já não há fábrica de artefactos de borracha, mas a paragem do autocarro é na mesma em frente a ela. Ali é a fábrica dos bilhetes-de-identidade. Além é onde se matou o filho do fotógrafo. Mais aquém, a parede da loja de ferragens continua manchada da sombra que lhe imprimiu a passagem de uma rapariga muito branca, muito vestida de azul, em 1977. Mas eis que eis o autocarro. Agora sim, muita gente. Rostos meus: o Serafim da Preciosa, que está reformado dos serviços municipalizados; a viúva do carteiro Arnaldo, que anda amigada, dizem as melhores-línguas, com o Antunes da serração; as netitas gémeas de um que foi polícia e depois preso e depois não se sabe que seja feito dele; e o motorista ser mulher chapa-me de repente o que isto mudou.
Apeio-me na minha Rua. Estou pronto.
Fiz bem em deixar a laranja como paga do jornal ao homem. 

quinta-feira, dezembro 24, 2015

Rosário Breve n.º 437 - in O RIBATEJO de 28 de Dezembro de 2015

Queres assim ou queres que embrulhe, Rical-do?

0. Do velho mas não esquecido nem extinto Aristóteles (in Política): “(…) existe por natureza a cidade antes da casa e de cada um de nós, pois o todo é necessariamente anterior à parte.”
1. O sumo da citação é bebível com proveito por tudo quanto for sítio gregário de humana habitação colectiva – e Santarém não tem por que ser excepção. O caso da ruína (mais uma) de um telhado em plena Rua 1.º de Dezembro, seguida, meras sete horas depois, pelo enfim-deferimento do licenciamento de obra de recuperação do mesmo edifício (que há um ano era pe[r]dido & [des]achado nas catacumbas insondáveis para onde esta Câmara ostraciza os documentos de mor interesse público), esse caso seria, enfim, de gozão gáudio motivo, se não fosse, como enfim & de facto é, tão desbragadamente demonstrador da militante & impenitente incúria por parte desta Vereação e do todo deste Executivo. Até porque cada 1.º de Dezembro se comemora (ou comemorava), precisamente, a… restauração. (Assim em caixa-baixa e em itálico para o trocadilho funcionar à maneirex, que é como quem diz na-mouche-au-point.)
Esta Câmara(-lenta) acumula medalhas-de-cortiça que só a cobririam de opróbrio na eventualidade improvável e nunca provada de, ela-Câmara, ter duas coisas: cara e vergonha para agarrar à dita. Não tem. É ver outro gritante caso: o da cratera da/na estrada das Manteigas, que há um lustre está por reparar. Cinco anos para tapar um buraco? Já nem é descuido – é dolosa (e dolorosa) incompetência. Será preciso ir laurear-a-pevide à Coreia do Sul com a pandilha dos cônjuges a pretexto de ir buscar um bocado de brita e uns baldes de alcatrão? É obtusidade a mais, para falar com a franqueza mais escancarada. Aquele buraco é, afinal, espelho da maltosa (eu não disse maldosa, mas…) mandante na Cidade e no Concelho, para mal de concelho e de cidade.
À cratera-das-Manteigas só logro equivalência & cotejo no encerramento da Escola do Salvador, ré culpada da própria qualidade pedagógica e presa condenada do economicismo cego extensivo, pelo desditado País nosso afora, a centros de saúde, tribunais e coisas tipo Rical à la Pires de Lima. Os números devem servir as pessoas, não fazê-las penar. O parentesco geopedagógico da Educação (a educação a sério) para com a Pessoa-Educanda também passa, nos seus decisivos & cruciais anos primeiros, pela proximidade da Escola em relação à porta de casa. E só se é de todo de algures quando algures em parte nos pertence. Desta maneira, todavia, a parte pelo todo é que me parte todo.
Aristóteles não discordaria, quero crer.
2. Por estes mesmos tristes dias-da-ira do descalabro do sistema bancário em que o ínvio & madeirense BANIF emula o famigerado BES continental, o também madeirense AJ Jardim é medalhado em Belém pelo ramsésico Cavaco – mais cortiça, portanto. As coincidências são as migalhas do pão que o Diabo amassa à conta da farinha de Deus.
Aristóteles decerto lhe preferiria broa.
3. No porvir próximo, temos as Presidenciais. Votarei, claro está – quanto mais não seja, para honrar a memória dos muitos que combateram (e derrotaram!) a ditadura monstro-salazarenga; quanto menos não fosse, para a eles render grato preito pelo poder de que me investiram no sentido de, mercê de uma simples cruzinha na quadrícula que achar mais parecida comigo mesmo, dizer o que quero, o que não quero, de onde venho & para onde (não) vou. Mas sempre V. digo o mesmo em mais terrena dicção: no mico-de-circo, não voto; na do terror-das-cabeleireiras, também não; no Eusébio, já não posso; no Ricardo Salgado, só se ele vestir o uniforme-45.
Aristóteles? O Aristóteles que vote no Sócrates, se o Platão não vier atrapalhar.
4. A célebre tirada de Porfirio Díaz (que mais anos presidiu à república do seu país até do que o truculento Alberto João à das bananas adjacentes), pode, afinal, não ser dele. Há quem diga que foi criação de um jornalista chamado Nemesio García Naranjo, director de La Tribuna. Não sei. Sei a tirada: “Pobre de Mexico – tan lejos de Dios y tan cerca de Estados Unidos.”
Grande frase, seja ela de quem for. Apetece-me nacionalizá-la. Ou antes: escalabitanizá-la. Facílimo. Fica assim: “Pobre Santarém – tão longe de Aristóteles e tão perto da Rical-do Gonçalves.”
Ora toma lá desta e embrulha-a tu.




quinta-feira, dezembro 17, 2015

Rosário Breve n.º 436 - in O RIBATEJO de 17 de Dezembro de 2015






R. & A. mas é 


Às 08h43m de quarta-feira, 16 de Dezembro de 2015, Cavaco ainda não tinha aparecido a garantir aos Portugueses que o BANIF merece toda a confiança pela óbvia razão de porque-sim. E todos sabemos que o senhor Silva e a Madeira se entendem bem, sempre se entenderam bem, que são panela & testo, Roque & Amiga, etc. & etc. E quão ele é infalível guru em imbróglios económico-financeiros. E quão nada duvidosos são os seus enganos, aliás nenhuns, jamais-em-tempo-algum. E quão a Academia sueca já há q’anos o deveria ter nobelizado – se não com a Economia, ao menos com a Paz. Ou com a Literatura, que o Churchill também dela foi agraciado – e mais era gordo e bebia e fumava.  
Às 08h56m da mesma matina, o facialmente barbado mas politicamente imberbe edil de Santarém ainda não tinha percebido a relação causa-efeito entre estudo de mobilidade e estado de imobilidade. Nem que o pandemónio evitável da Estrada da Estação é um atestado a céu-aberto de que a puerícia e a política autárquica não são panela & testo, Roque & Amiga, etc. & etc.
Às 09h03m, a entrevista de Sócrates à antiga têvê da Igreja ainda não tinha atingido as duas centenas e meia de repetições, o que é estranho. Muito estranho, aliás – posto estarmos na quadra em que estamos, acreditar no Pai Natal sempre nos faz mais bem do que mal.
Às 09h11m, a rábula triste do 2.º aniversário da morte dos praxados do Meco já não comovia nem revoltava senão os pais dos afogados – pela economia da comiseração, talvez. Ou pela saturação colectiva de um “jornalismo” baseado em ora-a-desgraça-seguinte-ó-fáxavôr. Ou porque as licenciaturas à la Lusófona não obstam a uma carreira no Ministério Público, muito pelo contrário talvez até.
Às 09h23m, um pardal pousou na grade do meu terraço. Cessei imediatamente de mexer-me. Nem um caracter crónico inscrevi no papel virtual enquanto aquele atirador de voos livres sentinelava a realidade a partir do meu promontório de terceiro-andar. Foi só quando partiu que voltei a contar minutos, esses grãos de areia que ao rio da vida assoreiam.
Às 09h29m, os agricultores de horta-para-a-panela (sem testo) ainda não eram licenciados todos em Fito-Farmácia, nem mestrados em Nitrato-do-Chile, muito menos doutorados em Couves-Esquizofrénicas-de-Bruxelas, havendo inclusivamente a suspeita de nem todos terem, sequer, o 12.º novo-oportunista das vacas-mais-gordas daquele senhor que está sempre a passar na TVI.
Às 09h32m, enrolei um mata-ratos e fui cuspinhar fumo & pedacitos de tabaco para o terraço onde há pouco o pardal. Era amena a temperatura, temperada a luz, luminosa a realidade. Mas atenção: é da realidade das 09h23m que falo. Levei trinca-de-arroz para o varandim. Pode ser que a ave volte.
Se voltar, faz de minha Amiga.
E eu faço de Roque só para ela.
O resto, que se banife mas é.




quinta-feira, dezembro 10, 2015

Rosário Breve n.º 435 - in O RIBATEJO de 10 de Dezembro de 2015

Fala o da voz que não chega ao céu



Uma senhora da minha terra colecciona presépios. Consta que já juntou coisa de um quarto-de-milhar deles. Serão, pois, cerca de 250 vaquinhas. É muito corninho de barro. O mais curioso, no entanto, não é tanta vaquinha junta – isso em qualquer casa-de-alterne se caça por trinta aéreos ou nos pinhais por quinze. O mais curioso é ser só um burrinho. Um só. 250 Meninos-Jesus. 250 Sãos-Josés. 250 Nossas-Senhoras. 750 Reis-Magos. Mas só um orelhas-de-feltro.
Como em tempos andei disfarçado de repórter, deu-me para breve retorno a essa prática inquiridora que é o fel-de-boca dos autarcas mais fraquitos & o desassossego dos menos. Fui-me (por assim dizer) à senhora e zingas!, inquiri-a. Para amnésia futura, aqui fica a acta oratória da dita entrevis(i)ta(ção):

– Olá, ti’ Maria!
– Olá, ti’ Coiso!
– Atão só um burrinho a modos que proquê?
– Proq’ foi o único suficientemente pa’ mim.
– Suficientemente pa’ si o quê?
– Suficientemente burro, menino.
– Menino?
– Jesus…
– Ah.
– Os maiores m’stérios às vezes num custam nada.
– Tou a ber.
– Num sei se tá.
– Faz-m’um bocado ’spé’ce ser só um.
– É quanto me chega. Quanto mais burro, mais zurro.
– Atão e com’é q’a senhora faz quand’a chamam pa’xposições & assim?
– Bou.
– Num é isso. Não a chagam por ser só um burro?
– Não, nadinha. Dão-me mazé munta binho-do-Porto & trouxas-d’obos como à Josefa d’Óbidos dita pelo Mário Viegas.
– E as vaquinhas?
– Tamãe bêm muntas.
– Num é essas, é as de barro.
– Essas num tugem nem mugem.
– Proqu’é q’ não?
– Por respeito ao senhor.
– A mim?
– Não: ao senhor burrinho.
– Tou a ber.
– Num sei se tá. Ao Senhor, burrinho.
– Acha a s’nhora que s’eu puser isto no jornal as pessoas ficam a pontos que’sclarecidas?
– Num m’aq’enta nem m’arrefenta.
– Mazé q’eu preciso d’escrabêr coisa assim tipo sentimentos-de-natal, ó ti’ Maria…
– Acontece munto, ó ti’ Coiso.
– O q’é q’acontece munto?
– O Natal. E os burrinhos q’ind’acreditam nele.
– Diga-m’agora cá, faxabôr: o q’é q’a s’nhora a modos que colecciona nos outros onze meses do ano?
– Barizes.
– Tou a ber.
– Não tá mazeu amostro-l’e.
– Sou casado, ó ti’ Maria.
– Burrinho…

E pronto, era isto. Para a semana, conto entrevistar outra Maria – a de Belém-népias. Esta já tá.
– Num sei se tá.


quinta-feira, dezembro 03, 2015

Rosário Breve n.º 434 - in O RIBATEJO de 3 de Dezembro de 2015

R-existir sempre, d-existir nunca

Dezembro.
Antigamente, era dourado, rescendia a musgo fresco – e ninguém nosso havia morrido. As manhãs alvoreciam como tratados hialúrgicos. O fascismo era mais em Lisboa. A minha Aldeia, que o crescimento industrial volvera bairro operário, trabalhava o existir com a naturalidade do rio – o rio que é & passa & descobre o mar. Os animais eram livres como o vento, andavam soltos pelas ruas sem chips que nem havia.
Crescer para sempre era coisa que não passava pela cabeça a ninguém. Os adultos já tinham nascido grandes, as avós eram velhas desde meninas – e nós, enfim, não tínhamos fim.
Com a alva iluminada por um tal Salgueiro Maia, pôs-se-nos a todos, assim de repente, um problema – e o problema chamava-se Liberdade. Era coisa que nunca nos tinha faltado. Ficámos apreensivos. Era então preciso empunhar armas a sério para que todos tivessem paz? E que como os cães da rua fôssemos livres a sério & à desfilada? Era.
Noutro repente, trocaram-nos os calções de pano por um fato estranho – a História. A televisão parecia a cores. Um soldado fardado a preceito não era já pretexto para foguetes de euforia regressada da remo(r)ta guerra – mas sim natural como o choupo de sentinela à ponte velha do Campo.
Houve milagres profanos: por exemplo, o senhor meu Pai rejuvenesceu como um pêssego de volta ao pessegueiro; por exemplo, a senhora minha Mãe parecia capaz de ter mais sete filhos pelas mãos.
As paredes passaram a amanhecer pintadas de palavras que eram vozes altas. Não era Dezembro – era Abril para sempre. Era. Era para ser. Era para ter sido.
Dou por mim a receber Dezembro de esquisito modo: que faz aqui a lembrança de um Abril que, rio, foi, passou & se perdeu num mar estrangeiro? Julgo que é consequência de me pôr a escreviver às sete da manhã num terceiro-andar-gaiola sem vista para o Campo da minha terra.
Todavia, é novo o dia. Dezembro começou ontem – e hoje, hoje vou de viagem às bandas do meu Natal pessoal. Tenho lá que fazer. Anotarei o que por lá houver de casas novas & de descalabros antigos. Não conto ir de braços caídos nem de cabeça murcha. Por assim dizer, faço que sou como o Almonda que o cidadão Mário Costa tanto e tão bem guarda: r-existo.
Pensar que sim acabou fazendo-me bem. Apetece-me mais café feito de fresco, já a mulher pela casa ciranda de primeiros afazeres.
Se ela & eu voltarmos a ter casa térrea com quintal, a primeira coisa é fazermos um rafeiro. Se sair cão, chamamos-lhe Dezembro.
Se vier cadela, há-de ser Abril. 

quinta-feira, novembro 26, 2015

Rosário Breve n.º 433 - in O RIBATEJO de 26 de Novembro de 2015

Crónica ourives

I.
Não há razão para euforia. Há razão para contentamento.
A euforia é bebedeira dos nervos. O contentamento é uma vindicta mansa, lúcida, avisada.
Posto isto, há que apurar se:
1) a Esquerda existe (mesmo);
2) a Esquerda presta;
3) a Direita, cumprindo o verbo em 1), não logra tão-depressa o verbo em 2).
Trocadilhando a preceito, a Esquerda tem de ser destra, por isso mesmo que a Direita é sinistra. E ainda: quanto mais a Esquerda se adestra, menos a Direita nos amestra.
Pronto – esta parte já cá está & já lá mora. É como no testemunho do próprio: o gigante olímpico (e muito nosso) Carlos Lopes, ao atingir a meta de ouro da maratona de Los Angeles/1984, exultou consigo mesmo través este pensamento definitivo: “Esta, já ninguém ma tira!”.
Escrevo pouquíssimas horas depois do ocaso dos pífios PàFistas. Alerto: não me/nos basta que o primeiro-ministério mude de mãos – o crucial é que mude de rumo.
Que, paulatinamente embora, nos devolva a todos algum manuseamento de moedas, algum acesso a víveres, algum retorno ao trabalho que compense cada final de dia.
Que cesse de des-Educação. Que deixe de propiciar a in-Justiça. Que não mais privatize ao desbarato o pan-Património. Que comece por não acabar com a Saúde. E que, entre muitas outras urgências, deixe de encarar o Trabalho como uma mania dos mal-remediados e como um estorvo dos colossos empresariais, passando a tê-lo em conta & medida como direito (até moral, até social, até cívico, até solidário) dos que não nasceram naquele tipo de berço feito daquele tipo de ouro que só pode vir das roubalheiras hereditárias.
Do caruncho de que é feito o pau do ainda supremo magistrado, temos dito & por consabido todos.
Assim seja.
II.
Chamamos “frio” ao arrefecimento que, naturalmente pois que natural, vem sucedendo ao bondoso & cálido Verão-de São-Martinho. Não sabemos o que dizemos –  frio, isto? Só os proscritos que portam pouca & fraca roupa, só os despejados de casa, só os que fantasmaticamente povoam a frigidez das ruas e o relento das noites sem porvir – só eles podem carpir a penitência baixo-centígrada da quadra. Nós outros, abonados de sobretudo, inquilinos de furtadas águas em fogos de tijolo, não. A sociedade de consumo iludiu-nos, mentiu-nos, despojou-nos. Certo estoicismo que foi das gerações nossas antanhas faz-nos falta. Não falo de, salazarentamente, louvaminhar a escassez, honrar a pobreza, adorar a miséria, venerar a tesúria – falo de, querendo, fazer mais com o pouco que nos é presente. É neste fio de pensamento que chego ao miúdo do iPad a quem roubaram o livro. Às pessoinhas frivolizadas por revistecas sinónimas de trampa multicolorida e por televisões estúpidas como a morte. Aos pobretes-mas-alegretes de espírito que repetem as argoladas autofágicas & suicidas do Passado porque o não conhecem: nem de ouvir falar, nem de querer ouvir falar dele. E ao meu Benfica, Farol da Humanidade Desportiva, não menos do que Zeus do Olimpo do Coice na Bola, que, perdendo três-em-três na mesma época ante o seu (aliás único) Rival, me tem acidulado as entranhas mentais e as pregas intestinas. A mim e a mais 6+6+6 milhões – e toda a gente sabe que 666 é o número místico da Besta. Porque, enfim, perder com o Sporting é o diabo. E o Diabo é que é frio mesmo.
III.
I, II, III, pim, pam, pum – chegado é o momento do remate/roda/pé. Este: duas vezes grafei supra o substantivo ouro.
Da primeira vez, foi ardil estilístico: em “meta de ouro”, queira ler-se a medalha daquele metal precioso com que Carlos Lopes tão altamente subiu todo um Povo – mais precisa e mais historicamente, a 12 de Agosto de 1984. Tínhamos nós todos, então, coisa de 20 anos.
Da segunda vez, foi estilizado truque também – mas a responsabilidade oratória é da proverbial sabença popular relativa aos bem-nascidos, materialmente falando. (Mais vernaculamente, “Quem não rouba ou não herda, não vale uma merda”.) No meu caso, “berço feito daquele tipo de ouro” é vilipêndio oriundo, talvez, da minha inveja de bêbados e de borrachos que nascem com Deus por os baixos. Mas não importa.
Importa é que saibamos distinguir o ouro que vem do muito trabalho sério, honroso & honrado (cf. toda a carreira de Carlos Lopes) e o que é mera usurpação, em e para proveito próprio, do trabalho dos outros (estás a ouvir, PS?).
De resto, calo-me em voz alta: é que, a 12/8/84, Lopes era Portugal. Mas nos outros dias, peito-de-leão de leão ao peito, era Sporting. Era, era.
E só isso é que me arrefece a euforia.

quinta-feira, novembro 19, 2015

Comemorando os 30 anos de O RIBATEJO - Rosário Breve n.º 432 - 19 de Novembro de 2015





(…) dum’ assentada/que eu pago já

Nos alvores do ano 1985 d.C., fui recipiente do desastroso e dolorosíssimo apodrecimento de um incisivo. A violenta e virulenta catástrofe dentária abcess’intumesceu-me a metade esquerda da boca de tal maneira, que até o olho do mesmo hemilado da cara se me semicerrou em presidência pitosga da abóbora-pouco-menina que o espelho me retornava e reflectia em ros’amarelo-pus. A fio, dias moles duramente penei. Inabilitado de rua civil (quanto menos não fosse, por razão de estética mínima), repugnei de suores-frios o pijama de solteiro, envelheci de chinelos os tacos do quarto singelo, canjengalinhei fastios famélicos sem retorno, adoeci as cortinas de tule da janela glauca e desesperei sem ilusões & com borato morno a degradação irreversível da minha cremalheira maxilamandibular.
Até então & desde então, houvera & houve Janeiros melhores. Desse mau januário 85/XX, não me esqueço. Todavia & naturalmente, o resto do ano foi também de coisas boas & de coisas nem-por-isso. Antes delas, porém, permiti-me V. que repesque pérolas de outros Oitenta&Cincos. (Faço-o via a História de Portugal em Datas, Círculo de Leitores, 1994.)
No 85/XII, nascia Évora enquanto diocese cristã (a consagrar 19 anos depois) e morria o cristão D. Afonso Henriques, rex primus de Portugal, sucedendo-lhe no ceptro o seu primogénito Sancho.
Em 1285, houve Cortes em Lisboa. Danada e furibunda, a nobreza de então ladrava em acirrado desfavor das Inquirições, que lhes tolhiam as imunidades senhoriais. Deve ter sido feio: Filho (infante D. Afonso) contra Pai (D. Dinis). Veio a Rainha Santa com pão & rosas – e pronto: tudo pobre e tudo amigo na mesma.
No 85 da centúria XIV, muita acção também – as Cortes são em Coimbra. O jurista João das Regras diz, a coisa faz-se: em detrimento de outros (a menina Beatriz e os rapazes de D. Pedro I, João e Dinis), é aclamado regiamente o Mestre de Avis, também João e também Dom e também Primeiro. E ainda: damos porrada aos Castelhanos em Aljubarrota, em Trancoso e em Valverde.
Em 1485, Diogo Cão retorna à costa africana, logrando atingir a Serra Parda. Os sabões da caboverdeana Ilha de Santiago são concedidos ao senhor daquele arquipélago, um tal Rodrigo Afonso. E o por assim dizer nosso D. João II trata de aliar-se ao oitavo dos Carlos de França.
Os dígitos 85 do século seguinte são já espanhóis por cá. Manda há cinco anos Filipe II de lá, I aqui. Nota artística-imperial: é proibido o comércio com a inimiga & arquirrival Holanda. Os anos de Seiscentos são os do grande e glorioso plumitivo & sermonista padre António Vieira. O ano 85/XVII propriamente dito é o de vinda a lume de uma obra importante: a Arte de Criar Bem os Filhos na Idade da Puerícia, de Alexandre de Gusmão.
Cem anos & muita solidão depois, há casórios realengos entre as Casas Ibéricas: os infantes tugas João e Mariana Vitória enlaçam-se, respectivamente, com os castelões Carlota Joaquina e Gabriel de Bourbon. É também o ano da morte da célebre amante de D. João V, a pouco casta Madre Paula.
Antefinalmente, chegados somos ao século do gigante Eça. Há 40 anos é ele nascido (em 1845, na Póvoa de Varzim, de amor não matrimoniado ainda entre um senhor juiz e uma senhora ajuizada) quando um tal Bernardino Machado, futuro Presidente da futura República, cria na Faculdade de Filosofia da Universidade de Coimbra as cadeiras de Antropologia, Paleontologia Humana e Arqueologia Pré-Histórica. Noutro plano, um Acto Adicional à Carta Constitucional visava a progressiva democratização do sistema político: menos Rei e nenhuma hereditariedade no pariato camarário. Já o Partido Progressista (de figuras como Oliveira Martins, António Cândido e Lobo de Ávila, entusiastas no encómio ao cesarista modelo alemão à la Bismarck) preconizava, por seu lado, o projecto Vida Nova: mais Rei e mais Executivo.
No triste século XX do nosso nascimento físico, o ano 85 é de aluviões contraditórios: em Janeiro, aquilo mau do meu dente; em Fevereiro (8), morte do Poeta José Gomes Ferreira; em Março (29), inauguração da Mesquita de Lisboa para os (talvez) 15 mil seguidores locais de Mafoma; a 10 de Abril, debate na AR sobre a adesão sim-ou-não à CEE; a 19 de Maio, dá-se, na Figueira da Foz, a Cavacada da revisão do carro; a 15 de Junho, Tomar acolhe a 1.ª Convenção Nacional do novel PRD de inspiração & tutela eanistas; a 12 de Julho, Eanes dissolve presidencialmente a AR e fixa as Legislativas para 6 de Outubro seguinte; a 11 de Agosto, chegada das supostas relíquias de D. Nuno Álvares Pereira ao lisbonense Convento do Carmo, no âmbito comemorativo do hexacentenário da Batalha de Aljubarrota; a 5 de Setembro, enquanto o PS atribui ao PSD a paternidade da crise política, os meus Irmãos Fernando & Jorge geminam entre si o 31.º aniversário natalício (último do Jorge, mas não o sabíamos então); a 16 de Outubro, as ossadas de uma multidão chamada Fernando Pessoa são trasladadas para os Jerónimos; a 6 de Novembro, Cavaco é indigitado por Eanes para formar Governo; e dois dias depois chega às bancas o número primeiro do jornal O Ribatejo. Um tridecénio depois, o dito semanário é o meu avesso: nunca lhe doeram os dentes, nem jamais trincou a língua.
Venham mais trinta (…)


quinta-feira, novembro 12, 2015

Rosário Breve n.º 431 - in O RIBATEJO de 12 de Novembro de 2015

Quarenta anos menos quinze dias depois

A Terça-Feira/10 de Novembro de 2015 foi uma jornada irrevogável.
O Sol do Verão de São Martinho dourou graciosamente a nossa parte do mundo. A luz alta, dando esmalte alto nos verdes perpendiculares, todo o santo dia nos animou o simples facto de estarmos vivos pela mercê de brilhos à mesma vez minuciosos e amplos, como óptima e opticamente acontece na senda de ouro em perspectiva que vai mar afora da praia ao horizonte. Nem parecia haver nervosismo dos mercados internacionais.
A Natália devassou a Praça de chapèuzinho fofo cintado a tira azul-bebé de velcro no feltro da copa, a Natália muito branca por dentro do vestido de gaze cor-de-violeta-macerada, a Natalinha todo certi’aprumadi’nha nos sapatinhos rasos de freira-noiva. Nem nos lembrou que acabava de morrer, felizmente longe, o ex-chanceler amigo e alemão do Soares, um tal Helmut Schmidt de 96 anos que a Natália obliterou de vez & sem remorso logo que nasceu, há dezoito.
Obliquando os ígneos cabelos ruivos que são de sua natura e nossa loucura, a Filomena, que é muito dada de dar, dava água fresca de beber às crianças peregrinas de romagem à Senhora da Infância, cujo santuário é ubíquo e alveja, tal um beijo de cal, nos filhos com que fomos capazes de refazer-nos a nós mesmos à imagem e semelhança de nossos pais. Filomen’apaziaguada aquela sede pueril, a ninguém ocorreu angustiar-se com a perfídia do PSI20 que entretanto baldeava para baixo a Bolsa.
Molhados de sombra enxuta sob os eólicos plátanos farfalhantes do Largo, os jogadores-de-cartas, à maneira de monarcas exilados na própria pátria, biscavam & trunfavam em total alheamento dos ministros de economias & finanças àquela hora aquadrilhados em Bruxelas para mais um sinédrio de roubalheiras & comezainas de igreja & gamela.
Por faltarem então dois dias para a saída do Jornal, foi sem provisão de leitura que levei o ácido úrico a passear pelos arrabaldes-de-nenhures que são a paisagem ambulatória do povoamento fixo da minha vida. Talvez por isso não puderam, eles, juntar-me a Paulo Lalanda de Castro, ex-patrão de Sócrates na Octapharma, no rol de arguidos dos processos Marquês + Visa Gold: sem O Ribatejo, faltava-me a capa-falsa.
Quando, pela tardinha já, já o ouro-velho fulgia faíscas nas derradeiras vidraças inteiras da fábrica ao abandono, abandonei-me sem estrebuchos à miragem verídica da passagem da Dolores pela azinhaga do fontanário, a Dolores Maria macia & maciça como azulejo de chacota-viva, a Doloreira solteira & feliz como a perdiz de petisqueira. É do ser singela que a ela-Dolores não dolorosamente imputam qualquer quebra de lealdade, como a que se diz teve Jesus (o Jorge, não o INRI) para com o Éssélbê.  
A noite amansou de vez as ilusões de perpetuidade a todos nós cães, búfalos, hienas, gatos, hidrómetras, hidrófobos, abstémios, abstencionistas, pensadores, pensionistas, apostadores, apóstatas, ratos, iconoclastas, ginastas & moscas. Em Lisboa, parece que apearam o desGoverno.
De modo que, no dia seguinte, onde estiveram e por onde passaram a Dolores, a Filomena & a Natália, há-de passar também, que é bem senhora para isso, a Esperança.


segunda-feira, novembro 09, 2015

Mariana Canta Paredes

http://www.rtp.pt/antena1/os-dias-da-radio/mariana-abrunheiro-cantar-paredes_9027

quinta-feira, novembro 05, 2015

Rosário Breve n.º 430 - in O RIBATEJO de 5 de Outubro de 2015

São Luís, orago de pontes de fantasia
ou
O coronel tem quem lhe escreva

Preciso muito de que o meu Leitor tenha presente a edição passada deste Jornal para que esta crónica (a começar pelo título) faça, ou tenha, algum sentido.
Falo das páginas 12 e 13 de 29 de Outubro último.
Página 12 integral. Canto superior direito da ímpar seguinte. Por favor.
Na 12, mais ou (pouco) menos isto: tropa alemã atira ponte entre o Arripiado da Chamusca e os castrenses Tancos da Barquinha. Coisa provisória, ilusão de barcaças. É que a de Constância (a da vida real, a dos civis) continua impraticável. Brincadeira de militares: coisas da OTAN que fingem que os puros (ou arianos) Alemães se deixam comandar pelos híbridos (ou anglo-franco mestiços) Canadianos do senhor coronel St.-Louis, supremo manda-chuva da paródia.
Magotes populares correm e concorrem a pasmar:  “A ponte é uma passagem / Para a outra margem” – lição dos nortenhos Jàfumega de melhores do que este ano(s). Os calhambeques militares passaram todos. Os homens soltos, também. Muitas toneladas caras. Nada a ver com os irrelevantes civis que precisam de trabalhar na banda d’além fora destes carnavais pseudobélicos.
Entretanto, a páginas 13, o meu/nosso/vosso Jornal assinala que demandar e atravessar a abrantina Ponte do Rossio pode custar 45 minutos de vida, no mínimo, aos deserdados e malfadados auto-utentes da dita travessia. A coisa é para, mole, durar. O Tejo fora de Lisboa conta muito pouco. Os Ribataganos, idem zero. A manutenção daquela estrutura rodoviária ora à mui portuguesa Santa Engrácia, não ao germanizado canadiano São, ou Saint, Luís, ou Louis.
Digo eu agora, uma vez fechadas sobre si mesmas as pretéritas páginas: tragifarsa, tudo isto. País (o nosso) de micos de circo que, ante o foguetório barulhento das luzes, privilegiam o irreal de dois mil maçaricos de pólvora-seca cruzando num ápice, por meia meia-dúzia de semanas, as mesmas águas que o pessoal trabalhador de cá não atravessa sem ser por esmola.
Porquê?
Porque a gente quer. Ou deixa. Porque a gente deixa.
Extinta a palhaçada, sobram os inexoráveis cursos de água e as imperdoáveis travessias adiadas.
Cristo não volta e o senhor coronel St. Louis vai-se embora.
“Like a bridge over troubled water” – não é Jàfumega, é Simon & Garfunkel.
Pode bem ser que ainda, uns e/ou os outros, passem nos receptores de rádio dos veículos parados ante as pontes quietas do nosso afinal sossego, a avaliar pelo mais recente plebiscito pró-legislativo.
Valha, enfim, a moral triste: a povo manso, rio bravo.
E Alemães adentro.