quinta-feira, julho 30, 2015

Rosário Breve n.º 418 - in O RIBATEJO de 30 de Julho de 2015




Missão Jorge



Uma das (poucas) missões sérias que tenho, sigo e persigo na vida é a de manter vivo o meu Irmão Jorge. Não é tarefa fácil: vai para trinta anos que morreu.
Como faço? – querereis, talvez, saber Vós.
Faço assim:

Onde a tua sombra refrescou o chão, acendo a vela do olhar.
Àquele e àquela a quem o teu nome lembra ainda um rosto vivo & bonito, saúdo pelo próprio nome no rosto mesmo.
Se uma das tuas canções favoritas me acode aos pavilhões auditivos, cantarolo-a com a tua voz.
Se algo é referido como Património Mundial da Humanidade, penso sempre que é do teu Corpo que falam.
Se vêm com aquilo do Objecto Voador Não Identificado, eu identifico-o logo como sendo a tua Mente.
Os cães vadios das ruas tresandam à tua bondade e à tua solidão, meu malogrado Irmão.
Na época das andorinhas, Maio não é o mês da tua morte – nem o do meu nascimento.
É um bocado chato da tua parte fazeres-te de nove-horas, agora que são as dez para sempre.
O Pai declinou a olhos nus com o teu passamento: era um pássaro quebrado como um galho. Não durou oito anos, esse pássaro nosso progenitor.
A Mãe deu mais luta. A Mãe deu sempre muita luta. Luta & luto. Durou quase um quarto-de-século sem ti. Ou contigo, lá bem à maneira só dela, essa campeã de filhos, essa vencedora nata.
Passo muitas vezes à porta do teu quarto-casa terminal: fecharam a janela ao n.º 210, receio que lá dentro as trevas te impeçam o gesto branco, a fala clara.
The Rolling Stones ainda andam por aí. (Percebo que isto te faz sorrir. A mim, não – deverias ter-lhes seguido o exemplo.)
Outras famílias como a nossa perderam também seus Jorges – a família Conceição do teu Tó, por exemplo. (Arrependo-me e penitencio-me: não deveria ter-te contado isto.)
O Botânico continua frondoso & formoso.
O Mondego continua de cobalto vivo: uma tira de Céu.
A tua Filha Daniela é uma mulher linda como uma manhã de sol acordando em vidro não-cortante um campo verde-ferrete.
Os Irmãos sobreviventes fazemos pela vida: endureceu-nos a todos, a manhã de 23 de Maio de 1986. Do teu gémeo Fernando, nem falo.
Repara: tu em Maio, o Pai em Abril, a Mãe em Março – o Tempo desce.
1986. 1994. 2011.
Sim, passei hoje pela tua rua Antero de Quental, alimentei o pombal à tua porta, a altaneira Torre da Universidade já não cabreja a estudantada como antigamente, mas também a verdade é que tudo me sabe a antigamente quando entristeço de arroz & pombas à tua porta, à tua janela fechada.
És difícil de manter vivo. Uma pessoa sobrevive por egoísmo. Tenho livros & discos que te dar e de que te falar, dá-me uma trabalheira dos mil-diabos andar com este sacão repleto de belezas escritas & cantadas, pareço a Liginha com o saco dos brinquedos a caminho da praia, pá.
A minha Filha Leonor formou-se em Composição Musical na quarta-feira, 22 de Julho de 2015. Ela não faz (mas faz) ideia de quem sejas.
Eu faço: És.
Não deve ser fácil para ti, isto de ser.
Mas És.
Tu seres é o meu trabalho.
A minha missão não impossível, Jorge Manuel Leite dos Santos Abrunheiro.




sexta-feira, julho 24, 2015

Rosário Breve n.º 417 - in O RIBATEJO de 23 de Julho de 2015




Tela Cénica ou então – Tudo Ou Nódoa


Nota Preambular – Porque sou doido por bom teatro (Arte-de-Talma para os eruditos e para os decifradores de palavras-cruzadas), a ponto de de mim poder dizer-se que tenho ‘pancada’ de Molière, e porque gosto muito de listas telefónicas pela razão de serem obras com muitas personagens e acção nenhuma, surgiu-me a composição do seguinte aparato dramatúrgico:

À esquerda-alta, o cavalheiro de azul remói o desgosto-mor da sua vida: a filha única desgosta dele – já a mãe dela e a mãe dele lhe fizeram o mesmo. É de joelhos pontudos e de coxas magras, calvas e muito brancas – vir de calções para esta crónica teatral não foi grande ideia sua. Nem ajuizado adereço. Fuma como se pensasse, baforando argolas perfeitas quais calamares de fumo.
Ao centro-alto, duas mulheres-pavoas. Bustos como bandejas. A mais velha cheira a cabeleireiro recente: fede a madeixas quentes, que lhe estriam o capacete de unhadas postiças; a mais nova é uma rosa branca como aquelas que se amontoaram em plenário miraculoso aquando do enterro da Alexandrina de Balasar (morte a 13, funeral a 15 de Outubro de 1955: “"Hoje no Porto não há rosas brancas, foram todas para Balasar."), a santinha daquela mui pia freguesia do concelho da Póvoa de Varzim. Só que a sobredita não é santa nem virgem, é só rosa branca. E está viva, também. E é vivaça como as rosas encarnadas.
À direita-alta, a mesa está desocupada, assim permanecendo até final desta peça quieta mas não isenta de seu drama (como no fim se verá). Por conseguinte, as quatro cadeiras conversam umas com as outras, mormente acerca dos traseiros volvidos que os tampos lhes enceraram do muito uso, tampos e tempos ora velhos mas outrora bons, anos de muita freguesia, de muito tostãozinho amealhado chávena a galão, carioca a cálice, prego-no-pão a meio-bife-no-prato-com-ovo-a-cavalo, bola-de-berlim a pirâmide de massa-de-chocolate, macinho de cigarros a (valha-nos Deus!) cigarrilhas-de-café-creme, ’inda o isqueiro carecia de licença de porte & uso, salazar-salazar-salazar. E cerveja preta à pressão como outra não havia nem voltou a haver.
À esquerda-baixa, uma criança-menina obtém da mãe o emolumento (“uma-vez-sem-exemplo”) de um ovo-kinder com néctar de manga-laranja avec palhinha de plástico. A mãe propriamente dita tem qualquer coisa de tremente zebra: ou de égua gentia, brusca, nervosa, fremente – do ser divorciada há pouco tempo, só pode.
Ao centro-baixo, um senhor que foi padre mas que agora prèga benefícios, protecções e condições excepcionais para uma companhia de seguros. Não desleixou, todavia, nem a castidade genital nem o latinório daqueles antigamentes de rendadas sobrepelizes & de mulheres ajoelhadas: vive só numa garagem com quarto-de-banho (só com retrete e lavatório, lavando-se estoicamente ele a balde & púcaro) que uma tia velha devota da Alexandrina cedeu por caridade ao desavindo e materialista, quiçá marxista, apóstata.
À direita-baixa, uma arara enjaulada apregoa a aguarela tropical de si mesma. Bisneta de enjauladas, não compreende nem enseja qualquer veleidade aeronáutica – é feliz com umas poucas sementes e bebedouro fresco como o povo português, além de nicotinómana passiva, pois que se pode fumar (e fuma-se, como já vimos) em palco.
O fosso-da-orquestra não tem músicos nem música a sério, mas sim um “DiJêi” de bairro-social que faz uma máquina bolçar kizombas & hip-hops intermináveis e iguais entre si como a universalidade da merda, pseudomúsica intolerável até ao mais rude pavilhão auditivo. (Cometemos o crime continuado do colonialismo bélico-cristiano-civilizador-ultramarino, não cometemos? Cometemos. Então agora há que aguentar e penar, em remorso mal-mordido, tal caca sonora.)
A plateia apresenta um punhado octogonal de melros que cuspimastigam pipocas em voz-alta e não puseram em silêncio os respectivos telemóveis. São deveras oito, ao todo: um que escreve coisas idiotas na contracapa de um jornal em acelerado e recrudescente descrédito (o jornal e ele); outro que é idiota também e mais nada; outro que é coisa também; o quarto é professor há 29 anos e concorreu para os Açores mas nem assim; o n.º 5 é o Chanel mais famoso; o meia-dúzia quis, em pequenino, ser astronauta mas não chegou a astronauta, ficou sempre pequenino e cá em baixo como os outros; o hepta é um hepático tipo Bílis-the-Kid cuja amarelidão de rosto reverbera e refulge no escuro como uma hóstia de pus, para além de croupier de vinte-e-um, banca-francesa & roletas vesgas numa manhosa tabanca clandestina; e o derradeir’oitavo é um dos meus irmãos, aquele que não fala comigo por causa de algo de que nem ele nem eu nos lembramos já o quê, o porquê e o para-quê.
O arrumador-lanterninha coxeia o reumatismo sem esperança de gorjeta. A da bilheteira cobiça tão-só na vida a sopa requentada e o gato sarnento que em casa a esperam ao cabo de representada a representação, desligada a ribalta e aferrolhado o pórtico-hall. Só que não é, a dela, uma casa-casa – é, isso sim, uma garagem anexa à do ex-padre-agora-mediador. E paga um balúrdio de renda pelo cubículo (mas com bidé para o inevitável chape-chape das mulheres), ao contrário do sobrinho da velha-alexandrinófila, que não paga nada mas há-de pagar nos infernos por haver renegado a Deus.
Nisto, mesmo à maneira daquelas coisecas para representar na TV (com a respectiva mulher a protagonista, claro) que o senhor Moita Flores escreve, não cai o pano – cai a nódoa.


quinta-feira, julho 23, 2015

Hei uma Menina




Hei uma Menina



Hei uma Menina
feita de água pura.
Seria loucura
não haver Menina.

Lento adejar
de pestanas brandas.
E de mãos tão brancas,
que sabem falar.

Compõe & dispõe
juvenil & grácil.
Amá-la é tão fácil,
que às vezes dói.

Rostito em que a Rosa
dedada & perfume
deixou rubro lume
à Maravilhosa.

Eu de ela sou
mais qu’ela de mim.
Fala com um jardim
quem já lhe falou.

Grato e quieto estou
ante o grácil amor:
pois que é Leonor,
flor-mor do que sou.




quinta-feira, julho 16, 2015

Rosário Breve n.º 416 - in O RIBATEJO de 16 de Julho de 2015 - www.oribatejo.pt



Em cartaz só mais esta semana

Demorei-me um pouco mais pelas ruas do que pela noite é meu costume.
O Estio não sufocava já. Antes pelo contrário: temperada, filantrópica, a aragem nocturna convidava à cirand’ambulação em serenidade acrítica. Acrítica e serenamente cirand’ambulei, pois. Fi-lo cismando pequenos-nadas, desses que mais me vale sonhar acordado do que quando presa indefesa do sono.
Descia eu em perfeita solidão a Avenida (aquela assombrada ainda, e cada vez mais, pelo Teatro extinto). A estudantada desertou-a por o motivo das férias sazonais, a Deus graças. Subindo-a (à Avenida, digo), com estes que a terra há-de enxugar vi o casal MM/AM: Marilyn Monroe & Arthur Miller.
Não me pareceram infelizes como nas fotos daquela época em que respiravam a par e a conjugal preceito. Suavizados pela bonomia da temperatura e do anonimato, pareceram-me tão-só gente tão só: como eu, àquela-hora-naquele-lugar.
Ela cometia o pecadilho indultado à nascença de não simular beijos morango-platinados para a câmara.
Ele não espelhava aquela sisudez de grande dramaturgo que de facto foi.
Duas soledades notáveis (a)notadas por uma terceira irrelevante solidão – isto apenas.
Passaram eles, eu passei – como é de força & é de lei que tudo passe e passem(os) todos. Não olhei para trás: já sou de sal q.b. e quanto sobre.
Lançado sem pressa nessa espécie de epifania-technicolor-a-preto-e-branco, não demorei muito a topar, uns meros metros-décadas a baixo, com outra parelha improvável: BC/VS – Beatriz Costa & Vasco Santana. Muito novos ambos, claro, ambos muito Canção-de-Lisboa, naturalmente.
Ela choraming(u)ava; ele fazia por consolá-la. Julgo ter percebido porquê: ela sabia que o Vasquinho dela iria morrer cedo, como de facto morreu; todavia, ele, maganão vero e fingido malandrim como sempre, ia-lhe cici’sussurr’ando que preferia tal destino àquele que sabia já vir a ser, como a ser deveras veio, o dela, o qual destino era, como foi, o de invern’amargar o outonecimento da vida no desamparo sem cura nem companhia de um quarto-casa de hotel antigo.
Não tive tempo de ter pena deles: retive, sim, não quaisquer fúteis lágrimas de basbaque cinémano, mas um sorriso grato – por ele esbracejar mui gordamente, de charuto à Groucho Marx na beiça, no intuito de fazê-la gargalhar em cristal puro como dela era timbre.
Fantasmas os quatro, caixeiros-viajantes prontos a morrer de novo, lá devem ter arranjado maneira de penetrar no fantasmático Teatro encerrado da Avenida. Não sei. Sei que eram horas do último autocarro. Apanhei-o.
Apanhei-o, mas só depois de baforar à pressa a ponta final do charuto à Groucho Marx que o Vasquinho me atirou do lado de lá da pantalha e em cujo fumo desapareço da minha plateia por mais uma semana em cartaz.

quinta-feira, julho 09, 2015

Rosário Breve n.º 415 - in O RIBATEJO de 9 de Julho de 2015 - www.oribatejo.pt

Foto: Calhabé, Coimbra, 5 de Julho de 2015, 18h11m




Tatus, tatuas, borrões & falcatruas

Eram, antigamente eram, exclusivas de presidiários, de marinheiros e de soldados coloniais. Refiro-me às tatuagens.
Como parece ser (e é) tão próprio como fatal das coisas estúpidas, pegaram moda. O pessoal faz tatuar-se muito, hoje em dia. Não ocorre às pessoas que o resultado seja o de passarem a equivaler a espécimenes ambulantes de carcaças vivas carimbadas à maneira do gado de matadouro. Por dentro, mudo e quedo, designo-as por tatus & tatuas. Merecem o apodo.
Tatus & tatuas gostam particularmente do Verão. O calor (ou “a calma”, como lhe chamava o grande Sá de Miranda de “O sol é grande, caem co'a calma as aves(…)”) despe-os e traveste-as, permitindo-lhes a exibição dos borrões frouxos que lhes mancham o couro.
Não sei, sentem-se talvez símbolos de alguma coisa maior do que as viditas que têm & levam; apresentam-se talvez a si mesmos e a si próprias com algo de muito importante para dizer que ninguém quer nem precisa de saber; julgam-se talvez capazes de tudo, a começar por nada, aptos & prontas a mostrar, demonstrar, cabalizar, revolucionar, espantar. A mim, no entanto, parece-me tão-só gente que nunca mais se pode lavar na íntegra como deve ser.
Que os penitentes dos presídios se maculem de códigos e de pertenças gangue-gregárias – eu percebo: é apenas pueril, perigoso apenas, próprio de crianças ladronas e/ou assassinas.
Que os marinheiros na pele tragam do mar evidências de céu convexo – eu entendo: é apenas Poesia, própria de gente com uma mulher em cada porto e com um porto em cada filho.
Que os praças sentissem no Ultramar premências de deixar escrito no próprio corpo Amor-de-Mãe-Angola-1967 – eu compreendia: Mãe, há só uma, como com a Morte acontece.
Agora, estes tatus & estas tatuas que por aí me embaciam as dioptrias – não. Não gosto. Sujam-se por tudo e para nada. E não me diga ninguém que tomo a parte pelo todo: parte-me todo, tal dito.
Ainda há bocadito, no autocarro nocturno (último da carreira, metáfora rodada e a gasóleo do acabamento e da insensatez da viagem), vi uma tatua. Já tinha mais do que idade para não gastar o siso todo em dentes serôdios. Uma borboleta feia gangrenava-lhe a roxo o bíceps dextro. Em baixo, o artelho do mesmo lado acolhia uma tarântula cega. Na tábua do peito (mamariamente falando, a quarentona saía ao pai), floria-lhe um coração falador que exclamava “Raul” e “Love”. E eu sei que ela agora se amanceba com um que é Júlio, que o Raul a deixou pela Guida Florista, que na vida só há duas hipóteses: ou Raul Forever ou Love do tipo não-empurrem-que-há-lugar-p’a-todos.
O desastre estético da pobrezita culminava nas asas do nariz, agrafadas ambas com piercings evocadores do arganel no focinho dos porcos, e nas unhas de mãos & pés, as quais dez, esmaltadas a verde, me fizeram pensar se ela não viria de jogar à porrada, fazendo-o sangrar, com algum extraterrestre daqueles do Scharwznegger.
Coitadita. Eu não deveria ser assim tão malévolo para com ela e para com os asininos seus homólogos que se deslavam as dermes com anjos, estrelas, búzios, cornetas, morcegos, zodíacos e similares insígnias do género ó-p’ra-mim-a-meter-nojo-e-ainda-por-cima-paguei-um-balúrdio-pa’-isto.
Sou um reles bota-de-elástico, eu sei. Sou. Sei. Sim. Mas é que.
Mas é que a tal tatua me trocou as voltas ao projectado duplo mote da crónica. Amolou-me o ferrão. Embotou-me a verruma. Eu vinha para gozar um bocado à pala do enigmático zootecnocrata que passou a integrar a administração do Hospital (para humanos, em princípio) de Santarém (que já lá tinha poucos, aliás). Era para gozar com isso – e com a Carta Educativa que a Assembleia Municipal de Santarém ratificou à absoluta revelia das autarquias menores que lhe são relativas e em completo desprezo pelas necessidades reais, na vida real, das populações com suas crianças sem eira e suas escolas sem beira. Ora, atraindo-me as hastes (por assim dizer e não desfazendo das vossas) e as lentes, a tatua fez-me falcatrua. Mas não faz mal, afinal. Porque, enfim, sempre simbolizam, as manchas dela, alguma coisa: a nomeação das boy-boletas e a aranha do menosprezo e da repugnância pela Educação que é afim de todas as pesporrências e de todas as prepotências, a começar pelas mais analfabetas, como é o caso da nossa bronca Edilidade.
Mas, ó meu bom Sá de Miranda, calma! Tais aves também caem, ao contrário das tatuagens com que se mancham, a ponto de nunca mais, como deve ser, se possa delas dizer coisa limpa e lavada.

quarta-feira, julho 08, 2015

Muito Novo em Peniche, ao Vento (republicação revista e ligeirissimamente aumentada de original de 4/9/2007)

Muito Novo em Peniche, ao Vento


Caramulo, entardenoitecer de 4 de Setembro de 2007


Eu era muito novo e o vento também
vinha de lado como eu.

Ajudei a mudar móveis de casa para casa,
em Peniche, surpreendido pela
omnisciência ubíqua do mar
peninsular.

Eu era tão novo, que nem descobrira
que comer merda pode ser uma vocação.

Conheci no istmo ’ma mulher triste.
Chamava-se H.ª Lx., não sei s’inda existe,
não sei, não.

As minhas mãos no comboio que vai para o norte.

Isto é um verso escrito por ela.
Ela sobrevivia num quarto com livros
sem estantes.
Ela só tinha instantes – e livros –
e este verso maravilhoso.

Nunca mais a esqueci.
Não mais o vento a esqueceu.

Eu tinha um colega de Geografia
que depois se tornou mercador de gangas
de marca.

Eu tinha um colega de Matemática
que depois deixou de beber
e voltou para casa
no norte.

Eu tinha um colega de Pataias
que comprava heroa ao grama
e pronto.

Eu tinha um colega de Barcelos
que unhava o cavaquinho.

Eu tinha um colega palestiniano da Covilhã
que, pronto, era ele.

Eu tinha 22 anos.

Nunca percebi nada que não fosse a
Nau dos Corvos.

Nunca vi nada em Peniche que não fosse a
maravilhosa oferta a dez escudos
de tantos livros do
Vilhena.
(Comprei lá também um
Carlos Fuentes, O Velho Gringo,
no dia 28 de Abril de 1987.)

Eu era um anjo suspenso: meses de nada,
um pouco antes, tinha-se-me ido
o Jorge.

Eu era aprendiz de professor,
(mas nunca aprendi),
tinha 22 anos, não tinha
nada a dizer ao futuro.

Vale que havia o vento.
O vento de Peniche é o vento mais humano do mundo.

Também havia o senhor Alfredo
e havia o senhor Manuel
e havia o Cesaltino
do Nau,
um Café que era ao pé da muralha,
já não é.
Havia, à janela do Nau, o ex-embarcado
da Marinha Mercante que lia
livros espíritas, vestido de branco
contra a pele solária acima
do escaracolar dérmico dos pés
nas sandálias mariconças.
Tinha uma pancada muito jeitosa, esse senhor.
Acho que já morreu.

Fui à Praia da Consolação, mas
não encontrei Ruy Belo,
devo ter-me atrasado,
oito sete, sete oito.

Perto da muralha, uma cabine telefónica avariada
deixava telefonar de borla. Telefonei muito.

Um dia, de repente, choveu tanto,
que entre os Correios e a Caixa Geral de Depósitos
não se podia passar sem
carta de Cristo ambulatório
à tona d’água.
Telefonei todo contente do Banco para a Escola:

Olhem, vou chegar atrasado por causa distassimassim.

E atrasado cheguei.

Ainda hoje assim chego.

Vale que hoje,
mesmo longe,
está vento.

Estou é menos novo.
Isso e sem nada que dizer
ao futuro.

quinta-feira, junho 25, 2015

Rosário Breve n.º 413 - in O RIBATEJO de 25 de Junho de 2015 - www.oribatejo.pt



912 578 9setenta à mais dura porta arrebenta


1. Tejo Alporão

Temo que ao Tejo acabe acontecendo o mesmo que há demasiado tempo acontece à EN 114 e aos monumentos santarenos: o encerramento sine die. Se o grande Almeida Garrett quisesse hoje viajar pela nossa terra, que dele era e que ele tão bem fixou em páginas logo clássicas à nascença da tinta sobre o papel, teria de ligar para o 912578970. Parece que é o número mágico-municipal que abre portas que abertas deveriam estar a horas fixas e certas. De monumentos, por exemplo, que as pessoas, essas chatas que mais nada hão que fazer, têm a mania de visitar. Se o atendesse alguma “voz técnica”, o mais certo seria o Visconde escutar em castelhano a revelação de que o Tejo já não é Rio mas sim heterónimo hidrológico do Museu de São João do Alporão, hombre! Entrementes, já sei que o Mouchão de Pernes não faz parte do multitudinário bailarico-de-todo-o-Verão“In.Str.” nomeado. Pois é – hidrologia e barreiras não são “cultura”: são chatices que não dão folguedo aos bisonhos bisontes votantes, chico!

2. Calvinismo ataca sessão municipal

Italo Calvino, o magnífico escritor italiano, foi referido em uma sessão municipal scalabitana do corrente Junho. Estranha coisa. Acabou quase toda a gente por ficar na mesma. Devem ter pensado que é o gajo que vem para adjunto do Jesus no Sporting. Mas pronto, Julho que vem, apurei-o eu já de fonte-suja, é o mês de Thomas Mann magicar montanhosamente em Abrantes; em Agosto, Curzio Malaparte conspira no Cartaxo; em Setembro, Erich Maria Remarque vai obeliscar a negro Almeirim; em Outubro, Malcolm Lowry bebe uns copos valentes debaixo do vulcão que Tomar é; em Novembro, Graham Greene faz de terceiro homem na assembleia de Vila Franca de Xira; em Dezembro, o Autor da Bíblia (que, como toda a gente sabe, é o tenebroso Edgar Allan Poe) vai assombrar todos a todo o lado; e em 2016, não sei nem quero saber – o mais certo é 2016 durar um ano, à maneira daquele famigerado abatimento de estrada junto a um curso de água ali para as bandas das Ómnias.

3. Gaivotas sem terra

Viegas é uma aldeia da freguesia de Alcanede, concelho de Santarém. Duas pessoas de breve idade, na brevidade de três meses, ali se suicidaram. “Não há gaivotas em terra quando”… quê?

4. Vandalixos 0 – Bonitão 1

Ao muito lixo aparentemente perpétuo da capital distrital ribatejana, juntou-se a vandalização aleatória de equipamentos urbanos destinados à higiene pública (deficiente já de si/deles) e de sinais rodoviários. Qualquer coisa como 250 contentores que a Câmara teve de comprar para repor os ardidos. Portas veio à Feira, seu histriónico ambiente socionatural, jantar à pala com mais umas centenas de sombrias figuras-sombra da laia yes-men. A culpa disto tudo só pode ser, claro, da Grécia: tanto da pala, como do vandalismo. Só pode. “Os vazios nunca perduram indefinidamente” – escreveu-o Dinis de Abreu no semanário Sol de 29 de Maio último. Um dia antes, a 28, o grande Chico Buarque, que é tudo menos vazio e que definida e definitivamente perdura, era graciosamente citado pela revista Sábado: “Há gostos para tudo. Há quem me considere um cantor medíocre. Há quem não goste da minha música e sim dos meus romances. Eu prefiro ser bonitão.”

5. Consolidai, filhos, consolidai

Parece que o “passivo consolidado” do município de Santarém em 2014 é de 144 milhões de “aéreos”. E que a “dívida consolidada” do idem é de 103 milhões, apontam Idália Serrão (a tal do coiso Calvino) e Madeira Lopes. Pita Soares contrapõe “resultados líquidos positivos de 1,9 milhões nas contas consolidadas”. Vale-nos António Melão, que não é de Almeirim mas parece do Entroncamento, por fenomenal. Nunca leu Italo Calvino, confessou. Até podia ser o adjunto do Jesus no Sporting, confesso eu por ele. Mas Melão é homem de contas. Certas ou tortas – é outra história. Contas, são com ele. Diz ele. “Resultados operacionais do Município foram positivos em 3,9 milhões de euros.” Diz ele. Vá lá, que não disse “consolidados”. Mas, vá lá, Melão ainda concede “que se façam leituras diferentes”. Mas das contas, diz ele, afinal inferiores em 5 (cinco!) milhões ao ano transacto. Leituras, sim, desde que não sejam do tal Calvino, claro, que se calhar era mas era grego.

6. Contas agora minhas, chiça

250 (contentores) vezes 250 (euros/cada) = 62.500 “paus”. Porra! Poupai tanto guito e deixai arder o lixo, já que o não recolheis a tempo, ó pàzinhos! Se não, como raio havereis de consolidar tanta liquidez?

7. Resposta à pergunta de há pouco

“Não há gaivotas em terra quando”… quê?
“Quando um homem se põe a pensar”… na aldeia de Viegas, freguesia de Alcanede, concelho de Santarém – Portugal.

Não, não estamos “em festa, pá”, ó Bonitão. Estamos mas é na merda, para falar curto, grosso e direito.

quinta-feira, junho 18, 2015

Rosário Breve n.º 412 - in O RIBATEJO de 18 de Junho de 2015 - www.oribatejo.pt


Edward Steichen
Woods Interior
1898
© Estate of Edward Steichen



Coisas que me dão n’alembradura tipo aforismos ou pior


Vou pelo lema estóico tão do agrado do polígrafo (mas Poeta sobre tudo o mais, acho eu) Manuel António Pina e de outros plumitivos de alta e cavalar nomeada tais como Walt Whitman (que Álvaro Fernando de Campos Pessoa leu) e Ezra Pound (que valorizou a tempo e horas um tal James Joyce): Nec spe nec metu Nem esperança nem medo.
Em relação a tudo – ou a quase tudo.
Em relação a todos – ou a quase todos.
Até porque, antigamente, a Ignorância se envergonhava de si mesma. Hoje, forma (des)Governo.
Seria preferível morrer ignorado a viver na ignorância, se viver não fosse, como de facto e deveras é, preferível a morrer.
A 18 de Agosto de 2007, andava eu, não sei já por ou para quê, pela Figueira da Foz. Num repente (mal tive tempo de tomar nota), ocorreu-me esta evidência:
“Um dia, a minha vida será uma sombra numa frase alheia.” Estranhamente talvez, essa certeza serenou-me. Lá estava aquilo do nem-esperança-nem-medo: é que, depois, nem sombra nem sobra.
Já muito antes (por volta de 1994, talvez, teria meses apenas a minha Leonor), me ocorrera algo deste tipo:
“A minha morte já começou, lá nos sítios onde estive e a que não voltarei.”
E é que já.
Outra do género (mas de que não recordo com precisão a data):
“Só a ubiquidade me/nos volveria eternos/s.”
Pois é: só estando em todo o lado ao mesmo tempo nos tornaria indeléveis, quando deléveis é o que somos – basta que morra o último que se lembre de nos botar o nome numa frase para que de todo nos apaguemos. O grande António Osório já, claro e claramente, o sabia, quando se referiu, algures, à “eternidade sem luz do esquecimento.”
Finalmente, pelos estertores da primeira década dos correntes século e milénio, estremunhei certa madrugada com isto já escrito (ou já inscrito, que não é bem a mesma coisa) na mente:
“O amor é cego.
A memória é o cão do cego.”
Memória. Esquecimento. Esperança. Medo.
“Words, words, words”, enfim – o velho Lelo Shakespeare sempre faz e dá sempre jeito.
Por instantes, revivo a tarde de 12 de Setembro de 2007. Dessa vez, a carcaça andava-me pelo Caramulo. Palavreado na cabeça às voltas.
A palavra ente.
A palavra utente.
Para a primeira, isto:
“Nada disto tem a ver com a vida.
Uma coisa é um gajo estar vivo.
Outra coisa é um gajo sê-lo.”
Para a segunda, isto:
“Nada disto usa a vida.
Uma coisa é um gajo estar vivo.
Outra coisa é um gajo usá-la.”
Tudo coisas que me dão n’alembradura tipo aforismos. Ou pior. Poderia dar-me para andar no gamanço ou na droga. Não ando. Ando nisto. (Des)governo-me com estas, e afins destas, verbosas inutilidades. Mas para andar a sério (mesmo a sério e à séria) no gamanço, formaria eu (des)Governo.
Não formo. Não formarei. Falta-me ignorância para isso.
E medo. Falta-me medo para isso.
E esperança (essa usança da espera), coisa de que não sou ente nem utente. Falta-me esperança para isso.
Vou sendo o cão do cego, mas com a devida pulga atrás da atenta orelha.
Pronto. Já está. Crónica feita. Para o ano que vem, outra vez Feira do Ribatejo, vulgo Nacional da Agricultura – mas não há-de ser (iupi!) o Cavaco a inaugurá-la.
Sempre há qualquer coisita de que ter, afinal e sem medo, esperança.

quinta-feira, junho 11, 2015

Rosário Breve n.º 411 - in O RIBATEJO de 11 de Junho de 2015 - www.oribatejo.pt



A Escolha
(acta de consulta)



De seu/dela lado da mesa, a Senhora pergunta-me:
– Qual é a sua Primeira Recordação da/na vida?
É uma pergunta profissional. Clínica, não cínica. A mesa é de consultório.
Respondo:
– No Pátio da Casa dos Pais, 1967, tenho três anos, algo debaixo de um papel ou cartão, acho algo que me enche de alegria, alguma quinquilharia-tesouro, não consigo saber o quê, talvez uma carica de garrafa de laranjada para fazer um ciclista, talvez um cromo ainda bom de jogador da bola para a caderneta, só recordo o ter achado, não o achado em si, ou em mim, só o ter feito um descobrimento, a emoção intensa (chamam-lhe “adrenalina”, hoje em dia), o sapato direito garimpando aquela fortuna incalculável,  que, de facto, ficou por calcular.
A Senhora então assim para mim:
– É mesmo essa a sua Primeira?
Ardil. Tento esconder o gato sem mostrar o rabo. Em vão: ela sabe do ofício.
Eu assim para ela:
– Até que ponto, Doutora, são as recordações deveras factuais? Quanta ficção maquilhada pelo desejo as não emboneca? Quanto real é/há nelas? Quão sincero (nos) é o Passado (ou nós sinceros para com ele)? Quanto tem ele de fabricação?
Ela sossega-me:
– As recordações têm sempre algo de verdadeiro, de histórico, na origem. A essa verdade antiga costuma associar-se, inconscientemente embora, o contexto, a época, o ouvido, o falado, o que os mais Velhos disseram, o que a Criança apre(e)nde(u).
E insiste:
– É mesmo essa a sua Primeira Recordação?
Decido abrir o jogo:
– É. Mas há uma Segunda que é Primeira também. Ex-æquo, diria eu. E digo.
E ela:
– Conte-ma, por favor.
E eu:
– Tem de ser 1967 ou 1968, no máximo. Não pode ser mais perto no Tempo. Nem mais longe – eu sou dos de ’64. Ainda não ando na Escola. É na terra do meu Pai, não naquela onde moramos, que é a da minha Mãe. Levavam então as crianças a essas coisas fúnebres. Acho que ainda levam. De repente (é uma espécie de clarão na mente), num adro (árduo), vejo o Caixão. Já saiu da Igreja, ainda não chegou ao Cemitério. Terra seca. Está completamente só, o Morto. Como deve ser, s(up)onho eu agora. O Rosto é um lenço sobre o rosto. Brisa nenhuma. O Rosto-rosto não se mexe. Os homens pousaram-no ali. Talvez para descansarem um pouco. Os homens desapareceram. O séquito desapareceu. O Sol a pino. A pique. Absolutamente Só. Absolutamente Sol. Absolutamente ninguém em torno do esquife. Não me vejo a mim mesmo – sou Aquele-que-Olha.
A Doutora:
– De quem era o funeral?
Eu:
– Era de um homem já grande quando o meu Pai ainda era menino.
A Senhora:
– Muito calor?
Eu:
– Insuportável. Aquela luz irrespirável à García Márquez, sabe a Senhora? O negro acérrimo do ataúde. Ninguém à volta daquela Caixa-Preta. A força do calor açulada pela força do Ninguém-à-Volta, pela força do Nada-por-Todo-o-Lado. Nem o meu Pai à vista. Até hoje.
A Senhora:
– Há estudos que apontam no sentido de um maior pendor para a sobrevivência no caso das pessoas cujas primeiras recordações estão associadas à alegria, ao prazer, a sentimentos bons como a gratidão, a surpresa agradável etc. O senhor tem duas Primeiras.
Qual delas escolhe?
E eu:
– Mas eu posso escolher?
Então a Senhora assim:
– Pode. Pode sempre escolher. Fixe isso: pode escolher sempre. Creia nisso. Mas é bom que tenha sido franco com o acréscimo da “Segunda-também-Primeira”.
E eu:
– Então escolho a primeira-Primeira. A do Achado.
Então a Senhora assim:
– Como, ou o quê, são hoje para si os dias de muito calor?
Eu:
– Acho que compreendo a pergunta. São mortíferos e mortais e sozinhos. Olhe a Senhora que eu gosto de praia no Verão. Mas prefiro-a de Inverno. Ao Estio, prefiro de longe o Outono temperado. Até a Invernosa mais álgida lhe prefiro.
A Senhora:
– Compreender é bom. Ajuda a escolher. Não muda o Passado. Mas muda qualquer coisa (para) hoje.
Eu:
– Mas nunca saberei o que estava sob o papel/cartão, o que achei, o que me alegrou tanto.
A Senhora:
– Escolha o tesouro que quiser. Mesmo que esteja calor a mais.

Consulta acabada, sozinho na paragem de autocarros. Sol forte, implacável, daquele de enegrecer rosas. Mas, perto, há uma orla de sombra viva: como uma gaze fresca atirada pela Mãe. Acolho-me a ela. O autocarro vem a horas. E, uma vez na vida ao menos, eu também.
Obrigado, minha Senhora.
Obrigado, acho eu.
Ou escolho.




quinta-feira, junho 04, 2015

Rosário Breve n.º 410 - in O RIBATEJO de 4 de Junho de 2015 - www.oribatejo.pt



Duas por uma resto zero

1. O Regresso do Emigrante

À saída do comboio, sentiu que o tempo tinha mudado de espessura. A ausência tinha oxidado os pombos e as palmeiras. O jardim era do esmalte que consubstancia o futuro anterior. No coreto, fantasmas filarmónicos tocavam Roberto Carlos.
Comeu um quarto de frango numa churrasqueira enegrecida. O recepcionista da pensão aceitou-lhe as malas com um gemido artrítico.
De volta ao largo, conferiu a eternidade das mercearias, os jogadores de cartas aposentadas, a sesta dos táxis e a fragrância mortífera da desesperança.
Trinta anos em França. Doze na Alemanha. As mãos dormentes de tanto trabalho. E, agora, o regresso, essa missão impossível. As crianças tinham-se casado. As aldeias eram iguais entre si como requeijões. As pastelarias repetiam-se umas às outras como sonhos feios. Os arquitectos pariam cubos de cimento como galinhas geométricas. Os farmacêuticos aviavam pastilhas contra o problema de ter nascido. E os futebolistas da equipa local eram brasileiros que entristeciam de frio na noite dos cafés cibernéticos.
Ao jantar, na mesma churrasqueira, ainda considerou a possibilidade de voltar para trás: França, Alemanha. Mas decidiu que não, que ficaria.
Que, no próprio dia seguinte, trataria de comprar um táxi ou um baralho de cartas, de modo a poder usufruir, em pleno esmalte, da glória de Roberto Carlos tocado até nunca mais pelos benignos fantasmas da filarmónica de quando isto era vila e ele não tinha partido para sempre.

2. Ao Alcance das Mãos

Contar e ouvir histórias não são actividades exclusivas da infância. Pertencem igualmente ao mundo do envelhecimento. Porquê? Porque as histórias, próprias e alheias, narradas e ouvidas, servem para melhorar a realidade. A realidade, sim. Porque a realidade nunca é bastante. Porque raramente é bonita, construtiva, adequada. E porque a realidade sai distorcida do velho conflito entre as mãos, que representam a prática, e o coração, que é a despensa sangrenta de tudo o que realmente vale a pena. Por tudo isto, trago hoje outra história.
Era uma vez uma pessoa que tudo deixava cair das mãos. Bebé, compreendia-se que tal lhe acontecesse. Veio a puberdade e, com ela, o ostracismo. “Ostracismo” quer dizer (mais ou menos) que tudo e todos ficam longe de nós, porque todos e tudo assim o querem. Todas as coisas vinham parar ao chão, segundos depois de tentar segurá-las nas mãos. Estas eram, ao menos na aparência, normais: dez dedos e dez unhas, mais as oito linhas que marcam o delta do destino. Garfos, jornais, jarras com suas flores, anéis até: tudo acabava no chão.
Já adulto, não segurava nem empregos nem amores. Das mãos lhe caiu a vida do pai e a de um irmão. E também a do cachorro amarelo, único dos seres que tinha podido conservar, pois, como é sabido, são os animais que nos possuem e seguram.

A história acaba assim: deixou de tentar agarrar com as mãos coisas e pessoas. Descobriu que a única forma de ter está no olhar. E que, vistas as coisas assim, a realidade não é tão má como parece. Sim, mesmo aquela que temos ao alcance das mãos.

quinta-feira, maio 28, 2015

Rosário Breve n.º 409 - in O RIBATEJO de 28 de Maio de 2015 - www.oribatejo.pt





Memória doutro Inverno

Chamavam-lhe respeitosamente “Senhor Arquitecto”.
Todos os dias fazia de comboio Figueira-Coimbra-Figueira. Vestia-se de preto como uma andorinha anacrónica. A cabeça subia para um chapéu de judeu velho. A gravata parecia uma guita de embrulho de loja de ferragens. A camisa, outrora branca, mostrava o enxovalho têxtil dos homens que vivem sós. Inverno ou Verão, caminhava munido de um guarda-chuva maior do que a tristeza a que chamávamos “mata-cães”. O Senhor Arquitecto era um holograma do passado, Tinha o ar irrefutável de quem aparece do nada para ir a nenhures. Regressava de Coimbra com quatro livros novos. Todos os dias, quatro livros novos. Imperturbável, folheava-os num transe de alheamento que impunha o silêncio em torno dele, como sucede com certas árvores e certas dores.
Cheirava tremendamente a alho. Numa tarde do Inverno de 1988, chovia tanto, mas tanto, que o mundo visto do comboio aparecia mais desalmado do que um fim de amor. A carruagem vinha atulhada de gente. O Senhor Arquitecto sentou-se no único lugar disponível. O bafio a alho tomou imediatamente conta do lugar. Folheava ele os livros novos naquele dia hoje antigo quando uma mulher tirou do saco de compras uma embalagem de desodorizante do ar. Com dedo firme e quase morta de riso, espraiou na atmosfera exígua do compartimento uma nuvem de eucalipto químico. Os passageiros conseguiram sufocar o riso até que o velho homem, percebendo que aquilo do spray era com ele, abandonou sem uma palavra aquele recinto popular. Então, o maralhal desatou à gargalhada. Alguém abriu uma janela até que o alho e o eucalipto se dissolvessem no ar afiado de chuva.
Segui-o. Havia dois lugares noutra carruagem. Ele escolheu o de costas para o destino; homem sábio. Sentei-me de frente para ele. Então, ele olhou-me. Eram olhos de outro século, pérolas de fundo de poço, olhos que vêem para dentro.
Eu disse: Tanta chuva, Senhor Arquitecto.”
Ele disse: Sempre gostei do Inverno.”
Depois calámo-nos. Ele voltou aos livros. Eu pensava que àquela hora estava a chover no mar, tendo-me vindo à mente a frase de Mercè Rodoreda: “Como se o mar não tivesse já água suficiente.”
Nunca mais o vi. Os anos levaram-mo, supunha eu que para sempre. Até que hoje, tendo despertado sem remédio às seis da manhã, amanheci a pensar nele, não exactamente nele, mas no enorme guarda-chuva dele. Que será feito de tal objecto? Que sucede às coisas que substituem a memória dos mortos, que no-las fazem perder?
No meu quarto de ocasião, como que em resposta, uma ligeira fragrância de alho palpitou no escuro, Na rua, senti que começava chovendo. Também sempre gostei do Inverno.

(NB: Esta crónica é uma republicação, coisa repescada de um livro meu já antigo de uma década quase. Mas decidi-me por ela in memoriam viva do Dr. Luís Eugénio Ferreira, cumpridor da palavra e do óbolo por ele dada e dado ao “Barqueiro”. Se o meu Leitor quiser, pode trocar o título da presente crónica pelo de “Solilóquio IV”. Ele perceberia o recado, que é saudoso já.)


quarta-feira, maio 27, 2015

Rosário Breve nº 408 - in O RIBATEJO de 21 de Maio de 2015 - www.oribatejo.pt




A (C)idade não é um posto, é um pote

A idade não me tem dado, ou deitado, tudo a perder. O mesmo se passa, ao que leio, com Santarém, pessoa colectiva bem mais antiga do que a individual minha. Exemplos? Tenho potes deles. Nomeada e numeradamente, 11 (onze) potes, que é como quem diz paletes.
Pote 1 – “Luís Farinha perdeu os pelouros do lixo e dos espaços verdes” – SANTARÉM/2 – FARINHA/0.
Pote 2 – Cronista voluntário deste Jornal, não sou, nem oficial nem oficiosamente, fornecedor da Câmara scalabitana, pelo que nem uma linha, nem um parágrafo, nem uma coluna, nem um dia sequer perco à espera que me pague ela o que aliás me não deve – EU/IGUAL-AO-LITRO – CMS 423/68 DIAS DE PRAZO/PAGAMENTO.
Pote 3 – Bicampeão mundial consecutivo de Cálculo Mental, João Bento, estudante da abrantina ES Manuel Fernandes, é já, aos 13 anos de idade, um dos mais promissores lavadores das janelas-de-oportunidade emigratório-passoscoelhanas. Isto pelos meus cálculos, que mentalmente são de uma besta. “Cresce e desaparece” – JOÃO BENTO/15 EQUAÇÕES-33,66 SEGUNDOS – CUNICULTURA EMIGRATÓRIA/MAIS 1.
Pote 4 – A Estatística é uma coisa inventada pelos yuppies dos anos 80/XX, gentalha reciclada, uma vez chegada à idade adulta, a partir dos hippies cansados de brincar aos Woodstocks e aos Maios/68. Parece que, estatisticamente, Santarém/Distrito aumentou as suas/dela exportações em coisa de 80% entre 2003 e 2013. Mais 12%, portanto, do que Leiria, a “rival”. E muito acima dos 69,48% da média nacional para o mesmo período cronológico – SANTARÉM/DISTRITO 80% – NÃO-SE-NOTA-NADA-DE-ESPECIAL-NA-VIDA-DA-GENTE 0%.
Pote 5 – O Riachense é um clube-espelho do País. Crise. Portas que se fecham. Ninguém de jeito que a jeito se ponha e se atravesse. O actual presidente, confesso não-recandidato ao cargo, já é, se calhar injustamente, tido e dado como involuntário “coveiro” da popular colectividade de Riachos – LUÍS CARLOS DIAS 0 – CAVACO SILVA ABAIXO-DE-0.
Pote 6 – “O presidente da Câmara de Santarém chama a si os pelouros dos Espaços Verdes e da Higiene e Resíduos Sólidos.” Ora catano! “Farinha” do mesmo saco (roto, ninguém disse azul…) – TUDO-NA-MESMA 1 – RUAS-DA-CIDADE 0.
Pote 7 – Vale (valerá mesmo?) que a vereadora Inês Barroso, perdendo embora a “Criança”, sempre mantém o Canil e o Gatil municipais – ÃO/ÃO 1 – M(I)AU/MARIA 1.
Pote 8 – Desde 6 de Maio último, deixou de haver paparoca no refeitório do CAS/Centro de Apoio Social. Sem substituição dos trabalhadores afectos àquele serviço entretanto postos a (des)andar, a panela não ferve sozinha. Mesmo assim, ó Anjos Todos do Céu e ó Santos Todos dos Andores Todos de Todas as Procissões a Cujas Nenhuma Falta o Presidente!, o superior edil “reconheceu o excelente trabalho de apoio social que tem vindo a ser desenvolvido pelo CAS aos seus associados”. Mas, note-se bem, salvaguardada porém a “completa independência da entidade ao município” – EXCELÊNCIA 1 – INDEPENDÊNCIA/BACALHAU-COM-GRÃO-A-3-EUROS-E-MEIO 0.  
Pote 9 – Sexta-feira, 15 do corrente, realizou-se na ESGT/Escola Superior de Gestão e Tecnologia de Santarém um “seminário”. Não daqueles para futuros sacerdotes mas para “líderes de organizações de Economia Social”. Isto é: para mais yuppies-ex-hippies. Já cá tínhamos poucos. Não consta que nem o moribundo Riachense nem o CAS tenham sido convidados. A mim pelo menos não me constou. “Oraram” (aquilo, afinal sempre era “seminário”…) Maria do Céu Freire, Tânia Graça e João Serrano – PALEIO & TRETAS 3 – QUAL-ORGANIZAÇÃO-QUAL-ECONOMIA-QUAL-SOCIAL-QUAL-RIACHENSE-QUAL-CAS? 0.
Pote 10 – “Ouve bem, mas percebe mal?” é a “manchete” da página 9 (nove) da edição passada do nosso Jornal. Publicidade devidamente assinalada (como é de lei, aliás), deve ter recebido 100% de respostas “SIM”. A minha, pelo menos, foi essa – 100 a 0, portanto.
Pote 11 – “Posto de Turismo de Santarém ‘esconde’ os folhetos das feiras que se realizam na cidade”. Calculo eu (desculpa-me lá, ó grande bicampeão João Bento!) que haja gralha neste título. Se estão escondidos, não são “folhetos”. Serão mais “falhetos”. Parece que por ordem do vereador. E quem é ele? Claro: o tal Luís Farinha. Folhetos de interesse turístico para a cidade e para a região? Bota pró lixo! Certo. Bem pode Farinha perder o lixo. Nós é que o não perdemos a ele. Resultado à vista no contentor mais próximo de si. Ou debaixo do balcão do Posto de Turismo.
E pronto. Por esta semana, nem me estico nem marro mais com suas sumidades (antes sumiços fossem ou levassem…).
Sim, senhores da página 9: ouvi tudo muito bem mas percebi tudo muito mal.
É da idade. Ou da (C)idade.



quinta-feira, maio 14, 2015

Rosário Breve n.º 407 - in O RIBATEJO de 14 de Maio de 2015 - www.oribatejo.pt





25 menos 25 igual a 28


Sentado em perfeita solidão no banco da paragem, espero o autocarro da carreira 27, o das 19h45m. Calor. Inconstante como a vida, o meu Maio natalício esteve de radiador ligado o dia todo. E que me oferece a espera, primeiro, e a viagem, depois? Oferece-me números:

1. A derradeira dança do pombal pelo entardenoitecer. Umas duas dezenas e meia delas voando em formação ordenada, elíptica, comandada por um qualquer instinto gregário e aerotopográfico que não sei azimutar, muito menos explicar. Constituem uma forç’aérea muito bela e muito poderosa no azul-ferrete terminal do firmamento. Um pouco mais alto do que elas, todavia, mas delas ameaçadoramente não muito longe, sobrevoa-as um milhafre. De rapace solidão é a figura dele. Lento, pensativo, calculista, armado até aos dentes que aliás nem tem, merece-me uma alcunha má: Carlucci.

2. Derredor, o arvoredo incólume do planalto (cedros, mormente) matiza uma álea de sombra em refresco. Estão, ainda, vinte & muitos graus centígrados. A esquadrilha columbina desapareceu (para) já. O milhafre, não. Dele, a linha escura tem qualquer coisa de traço cuneiforme, de caligrama chinês, de cabide sumério. Não o odeio nem o venero – vigio-o, tão-só.

3. A quatro minutos do horário, passa-me defronte um quarentão de chapéu amarelo fitado de azul, pele tisnada daquele inequívoco açafrão típico do pica-heroa, rabo-de-cavalo a precisar muito de água-sabão. Vai labiando, como se charutasse um habano, um mata-ratos enrolado à mão que rastilha pelo ar uma espiral pró-hílare de oleaginosa essência de Marraquexe. No preciso entrementes mesmo, cruza a via (mas oh quão majestosamente!) um luzifelídeo, vulgo gato, de pêlo tipo carvão refractário, qual tocha negra de todo alheia e imune a tudo isto a que, se calhar por inconsciente auto-sarcasmo, chamamos “civilização”.

4. Tudo isto é pela hora a que os Antigos chamavam “noitinha”, mimoseador diminutivo da tenebrosa incógnita que a Noite é, foi sempre & sempre será. Eu chamo-lhe “entardenoitecer”. Eu chamo-lhe “luzcofuspúsculo”. Espécie de, digo eu, “eterni’tarde”. 0u de “peren’oite”. Acaso, ocaso tudo, qual seja o nome.

5. A bordo já do 27, colecciono os terminais lampejos solares que faíscam nas cúpulas dos prédios de mais altos cristais: frechas de ouro oblíquo, dardos de platina torrada. Mas também se me dá a recepção de certa pré-lunaridade na progressiva quietação: dirigindo-me eu a certa reunião (às 21h00m em ponto) de deserdados & desencaminhados do viver meus afins, recebo os sinais do vulgo humilde – a evidente fadiga dos trabalhadores em fim de jornada, a volatilização em éter dos desempregados cansados de enxamear sem préstimo o mundo-colmeia das abelhas-ainda-assalariadas, o cego de caixa-fenda-esmoler ao peito reenrolando os naperons das cautelas que ficaram por vender à pequena-sorte, o par de namorados partilhando a botelha plástica de água morna mercê de mole câmbio ósculo-beijoqueiro, a autoridade da incerteza pesando os quilogramas do Destino.

6. E ainda se me oferece saber, via O RIBATEJO da semana passada, que o “pacu”, peixe parece que familiar da sinistra e dentívora piranha, prolifera no fluvial-tomarense Nabão.E tanto prolifera ele, ouço dizer, que já lhe dá para migrar do rio para a seca Assembleia Municipal de Santarém, pardieiro-capoeiro onde andam urdindo a troca festivo-fogueteira do 25 de Abril pelo 25 de Novembro. O de 1974 pelo de 1975, portanto. O pacu anda armado em milhafre, por modos. Mas é mentira. O pac(arl)u(cci) não é nada o 25/XI/75 que quer festejar. É o 28. De Maio. De 1926. É, é. Repete a desgraça da História quem não engraça com a lição da memória.
Digo-vos eu tão-só isto: cuidado, garnizés, que as pombas ainda um dia se cansam de tanta mansidão. A ponto de um dia destes ainda fazerem pombal-quartel-general na maltratada EPC, de cujo pátio e de cujos portões, por mais degradados pela incúria e pela amnésia obrigatória dos politicamente imberbes cachopos de momento galarós no poleiro local, sairão voando baixinho.
De chaimite.
E de megafónicas asas abertas à Salgueiro Maia.
Cuidado com elas. Isto é: connosco.