quinta-feira, junho 25, 2015

Rosário Breve n.º 413 - in O RIBATEJO de 25 de Junho de 2015 - www.oribatejo.pt



912 578 9setenta à mais dura porta arrebenta


1. Tejo Alporão

Temo que ao Tejo acabe acontecendo o mesmo que há demasiado tempo acontece à EN 114 e aos monumentos santarenos: o encerramento sine die. Se o grande Almeida Garrett quisesse hoje viajar pela nossa terra, que dele era e que ele tão bem fixou em páginas logo clássicas à nascença da tinta sobre o papel, teria de ligar para o 912578970. Parece que é o número mágico-municipal que abre portas que abertas deveriam estar a horas fixas e certas. De monumentos, por exemplo, que as pessoas, essas chatas que mais nada hão que fazer, têm a mania de visitar. Se o atendesse alguma “voz técnica”, o mais certo seria o Visconde escutar em castelhano a revelação de que o Tejo já não é Rio mas sim heterónimo hidrológico do Museu de São João do Alporão, hombre! Entrementes, já sei que o Mouchão de Pernes não faz parte do multitudinário bailarico-de-todo-o-Verão“In.Str.” nomeado. Pois é – hidrologia e barreiras não são “cultura”: são chatices que não dão folguedo aos bisonhos bisontes votantes, chico!

2. Calvinismo ataca sessão municipal

Italo Calvino, o magnífico escritor italiano, foi referido em uma sessão municipal scalabitana do corrente Junho. Estranha coisa. Acabou quase toda a gente por ficar na mesma. Devem ter pensado que é o gajo que vem para adjunto do Jesus no Sporting. Mas pronto, Julho que vem, apurei-o eu já de fonte-suja, é o mês de Thomas Mann magicar montanhosamente em Abrantes; em Agosto, Curzio Malaparte conspira no Cartaxo; em Setembro, Erich Maria Remarque vai obeliscar a negro Almeirim; em Outubro, Malcolm Lowry bebe uns copos valentes debaixo do vulcão que Tomar é; em Novembro, Graham Greene faz de terceiro homem na assembleia de Vila Franca de Xira; em Dezembro, o Autor da Bíblia (que, como toda a gente sabe, é o tenebroso Edgar Allan Poe) vai assombrar todos a todo o lado; e em 2016, não sei nem quero saber – o mais certo é 2016 durar um ano, à maneira daquele famigerado abatimento de estrada junto a um curso de água ali para as bandas das Ómnias.

3. Gaivotas sem terra

Viegas é uma aldeia da freguesia de Alcanede, concelho de Santarém. Duas pessoas de breve idade, na brevidade de três meses, ali se suicidaram. “Não há gaivotas em terra quando”… quê?

4. Vandalixos 0 – Bonitão 1

Ao muito lixo aparentemente perpétuo da capital distrital ribatejana, juntou-se a vandalização aleatória de equipamentos urbanos destinados à higiene pública (deficiente já de si/deles) e de sinais rodoviários. Qualquer coisa como 250 contentores que a Câmara teve de comprar para repor os ardidos. Portas veio à Feira, seu histriónico ambiente socionatural, jantar à pala com mais umas centenas de sombrias figuras-sombra da laia yes-men. A culpa disto tudo só pode ser, claro, da Grécia: tanto da pala, como do vandalismo. Só pode. “Os vazios nunca perduram indefinidamente” – escreveu-o Dinis de Abreu no semanário Sol de 29 de Maio último. Um dia antes, a 28, o grande Chico Buarque, que é tudo menos vazio e que definida e definitivamente perdura, era graciosamente citado pela revista Sábado: “Há gostos para tudo. Há quem me considere um cantor medíocre. Há quem não goste da minha música e sim dos meus romances. Eu prefiro ser bonitão.”

5. Consolidai, filhos, consolidai

Parece que o “passivo consolidado” do município de Santarém em 2014 é de 144 milhões de “aéreos”. E que a “dívida consolidada” do idem é de 103 milhões, apontam Idália Serrão (a tal do coiso Calvino) e Madeira Lopes. Pita Soares contrapõe “resultados líquidos positivos de 1,9 milhões nas contas consolidadas”. Vale-nos António Melão, que não é de Almeirim mas parece do Entroncamento, por fenomenal. Nunca leu Italo Calvino, confessou. Até podia ser o adjunto do Jesus no Sporting, confesso eu por ele. Mas Melão é homem de contas. Certas ou tortas – é outra história. Contas, são com ele. Diz ele. “Resultados operacionais do Município foram positivos em 3,9 milhões de euros.” Diz ele. Vá lá, que não disse “consolidados”. Mas, vá lá, Melão ainda concede “que se façam leituras diferentes”. Mas das contas, diz ele, afinal inferiores em 5 (cinco!) milhões ao ano transacto. Leituras, sim, desde que não sejam do tal Calvino, claro, que se calhar era mas era grego.

6. Contas agora minhas, chiça

250 (contentores) vezes 250 (euros/cada) = 62.500 “paus”. Porra! Poupai tanto guito e deixai arder o lixo, já que o não recolheis a tempo, ó pàzinhos! Se não, como raio havereis de consolidar tanta liquidez?

7. Resposta à pergunta de há pouco

“Não há gaivotas em terra quando”… quê?
“Quando um homem se põe a pensar”… na aldeia de Viegas, freguesia de Alcanede, concelho de Santarém – Portugal.

Não, não estamos “em festa, pá”, ó Bonitão. Estamos mas é na merda, para falar curto, grosso e direito.

quinta-feira, junho 18, 2015

Rosário Breve n.º 412 - in O RIBATEJO de 18 de Junho de 2015 - www.oribatejo.pt


Edward Steichen
Woods Interior
1898
© Estate of Edward Steichen



Coisas que me dão n’alembradura tipo aforismos ou pior


Vou pelo lema estóico tão do agrado do polígrafo (mas Poeta sobre tudo o mais, acho eu) Manuel António Pina e de outros plumitivos de alta e cavalar nomeada tais como Walt Whitman (que Álvaro Fernando de Campos Pessoa leu) e Ezra Pound (que valorizou a tempo e horas um tal James Joyce): Nec spe nec metu Nem esperança nem medo.
Em relação a tudo – ou a quase tudo.
Em relação a todos – ou a quase todos.
Até porque, antigamente, a Ignorância se envergonhava de si mesma. Hoje, forma (des)Governo.
Seria preferível morrer ignorado a viver na ignorância, se viver não fosse, como de facto e deveras é, preferível a morrer.
A 18 de Agosto de 2007, andava eu, não sei já por ou para quê, pela Figueira da Foz. Num repente (mal tive tempo de tomar nota), ocorreu-me esta evidência:
“Um dia, a minha vida será uma sombra numa frase alheia.” Estranhamente talvez, essa certeza serenou-me. Lá estava aquilo do nem-esperança-nem-medo: é que, depois, nem sombra nem sobra.
Já muito antes (por volta de 1994, talvez, teria meses apenas a minha Leonor), me ocorrera algo deste tipo:
“A minha morte já começou, lá nos sítios onde estive e a que não voltarei.”
E é que já.
Outra do género (mas de que não recordo com precisão a data):
“Só a ubiquidade me/nos volveria eternos/s.”
Pois é: só estando em todo o lado ao mesmo tempo nos tornaria indeléveis, quando deléveis é o que somos – basta que morra o último que se lembre de nos botar o nome numa frase para que de todo nos apaguemos. O grande António Osório já, claro e claramente, o sabia, quando se referiu, algures, à “eternidade sem luz do esquecimento.”
Finalmente, pelos estertores da primeira década dos correntes século e milénio, estremunhei certa madrugada com isto já escrito (ou já inscrito, que não é bem a mesma coisa) na mente:
“O amor é cego.
A memória é o cão do cego.”
Memória. Esquecimento. Esperança. Medo.
“Words, words, words”, enfim – o velho Lelo Shakespeare sempre faz e dá sempre jeito.
Por instantes, revivo a tarde de 12 de Setembro de 2007. Dessa vez, a carcaça andava-me pelo Caramulo. Palavreado na cabeça às voltas.
A palavra ente.
A palavra utente.
Para a primeira, isto:
“Nada disto tem a ver com a vida.
Uma coisa é um gajo estar vivo.
Outra coisa é um gajo sê-lo.”
Para a segunda, isto:
“Nada disto usa a vida.
Uma coisa é um gajo estar vivo.
Outra coisa é um gajo usá-la.”
Tudo coisas que me dão n’alembradura tipo aforismos. Ou pior. Poderia dar-me para andar no gamanço ou na droga. Não ando. Ando nisto. (Des)governo-me com estas, e afins destas, verbosas inutilidades. Mas para andar a sério (mesmo a sério e à séria) no gamanço, formaria eu (des)Governo.
Não formo. Não formarei. Falta-me ignorância para isso.
E medo. Falta-me medo para isso.
E esperança (essa usança da espera), coisa de que não sou ente nem utente. Falta-me esperança para isso.
Vou sendo o cão do cego, mas com a devida pulga atrás da atenta orelha.
Pronto. Já está. Crónica feita. Para o ano que vem, outra vez Feira do Ribatejo, vulgo Nacional da Agricultura – mas não há-de ser (iupi!) o Cavaco a inaugurá-la.
Sempre há qualquer coisita de que ter, afinal e sem medo, esperança.

quinta-feira, junho 11, 2015

Rosário Breve n.º 411 - in O RIBATEJO de 11 de Junho de 2015 - www.oribatejo.pt



A Escolha
(acta de consulta)



De seu/dela lado da mesa, a Senhora pergunta-me:
– Qual é a sua Primeira Recordação da/na vida?
É uma pergunta profissional. Clínica, não cínica. A mesa é de consultório.
Respondo:
– No Pátio da Casa dos Pais, 1967, tenho três anos, algo debaixo de um papel ou cartão, acho algo que me enche de alegria, alguma quinquilharia-tesouro, não consigo saber o quê, talvez uma carica de garrafa de laranjada para fazer um ciclista, talvez um cromo ainda bom de jogador da bola para a caderneta, só recordo o ter achado, não o achado em si, ou em mim, só o ter feito um descobrimento, a emoção intensa (chamam-lhe “adrenalina”, hoje em dia), o sapato direito garimpando aquela fortuna incalculável,  que, de facto, ficou por calcular.
A Senhora então assim para mim:
– É mesmo essa a sua Primeira?
Ardil. Tento esconder o gato sem mostrar o rabo. Em vão: ela sabe do ofício.
Eu assim para ela:
– Até que ponto, Doutora, são as recordações deveras factuais? Quanta ficção maquilhada pelo desejo as não emboneca? Quanto real é/há nelas? Quão sincero (nos) é o Passado (ou nós sinceros para com ele)? Quanto tem ele de fabricação?
Ela sossega-me:
– As recordações têm sempre algo de verdadeiro, de histórico, na origem. A essa verdade antiga costuma associar-se, inconscientemente embora, o contexto, a época, o ouvido, o falado, o que os mais Velhos disseram, o que a Criança apre(e)nde(u).
E insiste:
– É mesmo essa a sua Primeira Recordação?
Decido abrir o jogo:
– É. Mas há uma Segunda que é Primeira também. Ex-æquo, diria eu. E digo.
E ela:
– Conte-ma, por favor.
E eu:
– Tem de ser 1967 ou 1968, no máximo. Não pode ser mais perto no Tempo. Nem mais longe – eu sou dos de ’64. Ainda não ando na Escola. É na terra do meu Pai, não naquela onde moramos, que é a da minha Mãe. Levavam então as crianças a essas coisas fúnebres. Acho que ainda levam. De repente (é uma espécie de clarão na mente), num adro (árduo), vejo o Caixão. Já saiu da Igreja, ainda não chegou ao Cemitério. Terra seca. Está completamente só, o Morto. Como deve ser, s(up)onho eu agora. O Rosto é um lenço sobre o rosto. Brisa nenhuma. O Rosto-rosto não se mexe. Os homens pousaram-no ali. Talvez para descansarem um pouco. Os homens desapareceram. O séquito desapareceu. O Sol a pino. A pique. Absolutamente Só. Absolutamente Sol. Absolutamente ninguém em torno do esquife. Não me vejo a mim mesmo – sou Aquele-que-Olha.
A Doutora:
– De quem era o funeral?
Eu:
– Era de um homem já grande quando o meu Pai ainda era menino.
A Senhora:
– Muito calor?
Eu:
– Insuportável. Aquela luz irrespirável à García Márquez, sabe a Senhora? O negro acérrimo do ataúde. Ninguém à volta daquela Caixa-Preta. A força do calor açulada pela força do Ninguém-à-Volta, pela força do Nada-por-Todo-o-Lado. Nem o meu Pai à vista. Até hoje.
A Senhora:
– Há estudos que apontam no sentido de um maior pendor para a sobrevivência no caso das pessoas cujas primeiras recordações estão associadas à alegria, ao prazer, a sentimentos bons como a gratidão, a surpresa agradável etc. O senhor tem duas Primeiras.
Qual delas escolhe?
E eu:
– Mas eu posso escolher?
Então a Senhora assim:
– Pode. Pode sempre escolher. Fixe isso: pode escolher sempre. Creia nisso. Mas é bom que tenha sido franco com o acréscimo da “Segunda-também-Primeira”.
E eu:
– Então escolho a primeira-Primeira. A do Achado.
Então a Senhora assim:
– Como, ou o quê, são hoje para si os dias de muito calor?
Eu:
– Acho que compreendo a pergunta. São mortíferos e mortais e sozinhos. Olhe a Senhora que eu gosto de praia no Verão. Mas prefiro-a de Inverno. Ao Estio, prefiro de longe o Outono temperado. Até a Invernosa mais álgida lhe prefiro.
A Senhora:
– Compreender é bom. Ajuda a escolher. Não muda o Passado. Mas muda qualquer coisa (para) hoje.
Eu:
– Mas nunca saberei o que estava sob o papel/cartão, o que achei, o que me alegrou tanto.
A Senhora:
– Escolha o tesouro que quiser. Mesmo que esteja calor a mais.

Consulta acabada, sozinho na paragem de autocarros. Sol forte, implacável, daquele de enegrecer rosas. Mas, perto, há uma orla de sombra viva: como uma gaze fresca atirada pela Mãe. Acolho-me a ela. O autocarro vem a horas. E, uma vez na vida ao menos, eu também.
Obrigado, minha Senhora.
Obrigado, acho eu.
Ou escolho.




quinta-feira, junho 04, 2015

Rosário Breve n.º 410 - in O RIBATEJO de 4 de Junho de 2015 - www.oribatejo.pt



Duas por uma resto zero

1. O Regresso do Emigrante

À saída do comboio, sentiu que o tempo tinha mudado de espessura. A ausência tinha oxidado os pombos e as palmeiras. O jardim era do esmalte que consubstancia o futuro anterior. No coreto, fantasmas filarmónicos tocavam Roberto Carlos.
Comeu um quarto de frango numa churrasqueira enegrecida. O recepcionista da pensão aceitou-lhe as malas com um gemido artrítico.
De volta ao largo, conferiu a eternidade das mercearias, os jogadores de cartas aposentadas, a sesta dos táxis e a fragrância mortífera da desesperança.
Trinta anos em França. Doze na Alemanha. As mãos dormentes de tanto trabalho. E, agora, o regresso, essa missão impossível. As crianças tinham-se casado. As aldeias eram iguais entre si como requeijões. As pastelarias repetiam-se umas às outras como sonhos feios. Os arquitectos pariam cubos de cimento como galinhas geométricas. Os farmacêuticos aviavam pastilhas contra o problema de ter nascido. E os futebolistas da equipa local eram brasileiros que entristeciam de frio na noite dos cafés cibernéticos.
Ao jantar, na mesma churrasqueira, ainda considerou a possibilidade de voltar para trás: França, Alemanha. Mas decidiu que não, que ficaria.
Que, no próprio dia seguinte, trataria de comprar um táxi ou um baralho de cartas, de modo a poder usufruir, em pleno esmalte, da glória de Roberto Carlos tocado até nunca mais pelos benignos fantasmas da filarmónica de quando isto era vila e ele não tinha partido para sempre.

2. Ao Alcance das Mãos

Contar e ouvir histórias não são actividades exclusivas da infância. Pertencem igualmente ao mundo do envelhecimento. Porquê? Porque as histórias, próprias e alheias, narradas e ouvidas, servem para melhorar a realidade. A realidade, sim. Porque a realidade nunca é bastante. Porque raramente é bonita, construtiva, adequada. E porque a realidade sai distorcida do velho conflito entre as mãos, que representam a prática, e o coração, que é a despensa sangrenta de tudo o que realmente vale a pena. Por tudo isto, trago hoje outra história.
Era uma vez uma pessoa que tudo deixava cair das mãos. Bebé, compreendia-se que tal lhe acontecesse. Veio a puberdade e, com ela, o ostracismo. “Ostracismo” quer dizer (mais ou menos) que tudo e todos ficam longe de nós, porque todos e tudo assim o querem. Todas as coisas vinham parar ao chão, segundos depois de tentar segurá-las nas mãos. Estas eram, ao menos na aparência, normais: dez dedos e dez unhas, mais as oito linhas que marcam o delta do destino. Garfos, jornais, jarras com suas flores, anéis até: tudo acabava no chão.
Já adulto, não segurava nem empregos nem amores. Das mãos lhe caiu a vida do pai e a de um irmão. E também a do cachorro amarelo, único dos seres que tinha podido conservar, pois, como é sabido, são os animais que nos possuem e seguram.

A história acaba assim: deixou de tentar agarrar com as mãos coisas e pessoas. Descobriu que a única forma de ter está no olhar. E que, vistas as coisas assim, a realidade não é tão má como parece. Sim, mesmo aquela que temos ao alcance das mãos.

quinta-feira, maio 28, 2015

Rosário Breve n.º 409 - in O RIBATEJO de 28 de Maio de 2015 - www.oribatejo.pt





Memória doutro Inverno

Chamavam-lhe respeitosamente “Senhor Arquitecto”.
Todos os dias fazia de comboio Figueira-Coimbra-Figueira. Vestia-se de preto como uma andorinha anacrónica. A cabeça subia para um chapéu de judeu velho. A gravata parecia uma guita de embrulho de loja de ferragens. A camisa, outrora branca, mostrava o enxovalho têxtil dos homens que vivem sós. Inverno ou Verão, caminhava munido de um guarda-chuva maior do que a tristeza a que chamávamos “mata-cães”. O Senhor Arquitecto era um holograma do passado, Tinha o ar irrefutável de quem aparece do nada para ir a nenhures. Regressava de Coimbra com quatro livros novos. Todos os dias, quatro livros novos. Imperturbável, folheava-os num transe de alheamento que impunha o silêncio em torno dele, como sucede com certas árvores e certas dores.
Cheirava tremendamente a alho. Numa tarde do Inverno de 1988, chovia tanto, mas tanto, que o mundo visto do comboio aparecia mais desalmado do que um fim de amor. A carruagem vinha atulhada de gente. O Senhor Arquitecto sentou-se no único lugar disponível. O bafio a alho tomou imediatamente conta do lugar. Folheava ele os livros novos naquele dia hoje antigo quando uma mulher tirou do saco de compras uma embalagem de desodorizante do ar. Com dedo firme e quase morta de riso, espraiou na atmosfera exígua do compartimento uma nuvem de eucalipto químico. Os passageiros conseguiram sufocar o riso até que o velho homem, percebendo que aquilo do spray era com ele, abandonou sem uma palavra aquele recinto popular. Então, o maralhal desatou à gargalhada. Alguém abriu uma janela até que o alho e o eucalipto se dissolvessem no ar afiado de chuva.
Segui-o. Havia dois lugares noutra carruagem. Ele escolheu o de costas para o destino; homem sábio. Sentei-me de frente para ele. Então, ele olhou-me. Eram olhos de outro século, pérolas de fundo de poço, olhos que vêem para dentro.
Eu disse: Tanta chuva, Senhor Arquitecto.”
Ele disse: Sempre gostei do Inverno.”
Depois calámo-nos. Ele voltou aos livros. Eu pensava que àquela hora estava a chover no mar, tendo-me vindo à mente a frase de Mercè Rodoreda: “Como se o mar não tivesse já água suficiente.”
Nunca mais o vi. Os anos levaram-mo, supunha eu que para sempre. Até que hoje, tendo despertado sem remédio às seis da manhã, amanheci a pensar nele, não exactamente nele, mas no enorme guarda-chuva dele. Que será feito de tal objecto? Que sucede às coisas que substituem a memória dos mortos, que no-las fazem perder?
No meu quarto de ocasião, como que em resposta, uma ligeira fragrância de alho palpitou no escuro, Na rua, senti que começava chovendo. Também sempre gostei do Inverno.

(NB: Esta crónica é uma republicação, coisa repescada de um livro meu já antigo de uma década quase. Mas decidi-me por ela in memoriam viva do Dr. Luís Eugénio Ferreira, cumpridor da palavra e do óbolo por ele dada e dado ao “Barqueiro”. Se o meu Leitor quiser, pode trocar o título da presente crónica pelo de “Solilóquio IV”. Ele perceberia o recado, que é saudoso já.)


quarta-feira, maio 27, 2015

Rosário Breve nº 408 - in O RIBATEJO de 21 de Maio de 2015 - www.oribatejo.pt




A (C)idade não é um posto, é um pote

A idade não me tem dado, ou deitado, tudo a perder. O mesmo se passa, ao que leio, com Santarém, pessoa colectiva bem mais antiga do que a individual minha. Exemplos? Tenho potes deles. Nomeada e numeradamente, 11 (onze) potes, que é como quem diz paletes.
Pote 1 – “Luís Farinha perdeu os pelouros do lixo e dos espaços verdes” – SANTARÉM/2 – FARINHA/0.
Pote 2 – Cronista voluntário deste Jornal, não sou, nem oficial nem oficiosamente, fornecedor da Câmara scalabitana, pelo que nem uma linha, nem um parágrafo, nem uma coluna, nem um dia sequer perco à espera que me pague ela o que aliás me não deve – EU/IGUAL-AO-LITRO – CMS 423/68 DIAS DE PRAZO/PAGAMENTO.
Pote 3 – Bicampeão mundial consecutivo de Cálculo Mental, João Bento, estudante da abrantina ES Manuel Fernandes, é já, aos 13 anos de idade, um dos mais promissores lavadores das janelas-de-oportunidade emigratório-passoscoelhanas. Isto pelos meus cálculos, que mentalmente são de uma besta. “Cresce e desaparece” – JOÃO BENTO/15 EQUAÇÕES-33,66 SEGUNDOS – CUNICULTURA EMIGRATÓRIA/MAIS 1.
Pote 4 – A Estatística é uma coisa inventada pelos yuppies dos anos 80/XX, gentalha reciclada, uma vez chegada à idade adulta, a partir dos hippies cansados de brincar aos Woodstocks e aos Maios/68. Parece que, estatisticamente, Santarém/Distrito aumentou as suas/dela exportações em coisa de 80% entre 2003 e 2013. Mais 12%, portanto, do que Leiria, a “rival”. E muito acima dos 69,48% da média nacional para o mesmo período cronológico – SANTARÉM/DISTRITO 80% – NÃO-SE-NOTA-NADA-DE-ESPECIAL-NA-VIDA-DA-GENTE 0%.
Pote 5 – O Riachense é um clube-espelho do País. Crise. Portas que se fecham. Ninguém de jeito que a jeito se ponha e se atravesse. O actual presidente, confesso não-recandidato ao cargo, já é, se calhar injustamente, tido e dado como involuntário “coveiro” da popular colectividade de Riachos – LUÍS CARLOS DIAS 0 – CAVACO SILVA ABAIXO-DE-0.
Pote 6 – “O presidente da Câmara de Santarém chama a si os pelouros dos Espaços Verdes e da Higiene e Resíduos Sólidos.” Ora catano! “Farinha” do mesmo saco (roto, ninguém disse azul…) – TUDO-NA-MESMA 1 – RUAS-DA-CIDADE 0.
Pote 7 – Vale (valerá mesmo?) que a vereadora Inês Barroso, perdendo embora a “Criança”, sempre mantém o Canil e o Gatil municipais – ÃO/ÃO 1 – M(I)AU/MARIA 1.
Pote 8 – Desde 6 de Maio último, deixou de haver paparoca no refeitório do CAS/Centro de Apoio Social. Sem substituição dos trabalhadores afectos àquele serviço entretanto postos a (des)andar, a panela não ferve sozinha. Mesmo assim, ó Anjos Todos do Céu e ó Santos Todos dos Andores Todos de Todas as Procissões a Cujas Nenhuma Falta o Presidente!, o superior edil “reconheceu o excelente trabalho de apoio social que tem vindo a ser desenvolvido pelo CAS aos seus associados”. Mas, note-se bem, salvaguardada porém a “completa independência da entidade ao município” – EXCELÊNCIA 1 – INDEPENDÊNCIA/BACALHAU-COM-GRÃO-A-3-EUROS-E-MEIO 0.  
Pote 9 – Sexta-feira, 15 do corrente, realizou-se na ESGT/Escola Superior de Gestão e Tecnologia de Santarém um “seminário”. Não daqueles para futuros sacerdotes mas para “líderes de organizações de Economia Social”. Isto é: para mais yuppies-ex-hippies. Já cá tínhamos poucos. Não consta que nem o moribundo Riachense nem o CAS tenham sido convidados. A mim pelo menos não me constou. “Oraram” (aquilo, afinal sempre era “seminário”…) Maria do Céu Freire, Tânia Graça e João Serrano – PALEIO & TRETAS 3 – QUAL-ORGANIZAÇÃO-QUAL-ECONOMIA-QUAL-SOCIAL-QUAL-RIACHENSE-QUAL-CAS? 0.
Pote 10 – “Ouve bem, mas percebe mal?” é a “manchete” da página 9 (nove) da edição passada do nosso Jornal. Publicidade devidamente assinalada (como é de lei, aliás), deve ter recebido 100% de respostas “SIM”. A minha, pelo menos, foi essa – 100 a 0, portanto.
Pote 11 – “Posto de Turismo de Santarém ‘esconde’ os folhetos das feiras que se realizam na cidade”. Calculo eu (desculpa-me lá, ó grande bicampeão João Bento!) que haja gralha neste título. Se estão escondidos, não são “folhetos”. Serão mais “falhetos”. Parece que por ordem do vereador. E quem é ele? Claro: o tal Luís Farinha. Folhetos de interesse turístico para a cidade e para a região? Bota pró lixo! Certo. Bem pode Farinha perder o lixo. Nós é que o não perdemos a ele. Resultado à vista no contentor mais próximo de si. Ou debaixo do balcão do Posto de Turismo.
E pronto. Por esta semana, nem me estico nem marro mais com suas sumidades (antes sumiços fossem ou levassem…).
Sim, senhores da página 9: ouvi tudo muito bem mas percebi tudo muito mal.
É da idade. Ou da (C)idade.



quinta-feira, maio 14, 2015

Rosário Breve n.º 407 - in O RIBATEJO de 14 de Maio de 2015 - www.oribatejo.pt





25 menos 25 igual a 28


Sentado em perfeita solidão no banco da paragem, espero o autocarro da carreira 27, o das 19h45m. Calor. Inconstante como a vida, o meu Maio natalício esteve de radiador ligado o dia todo. E que me oferece a espera, primeiro, e a viagem, depois? Oferece-me números:

1. A derradeira dança do pombal pelo entardenoitecer. Umas duas dezenas e meia delas voando em formação ordenada, elíptica, comandada por um qualquer instinto gregário e aerotopográfico que não sei azimutar, muito menos explicar. Constituem uma forç’aérea muito bela e muito poderosa no azul-ferrete terminal do firmamento. Um pouco mais alto do que elas, todavia, mas delas ameaçadoramente não muito longe, sobrevoa-as um milhafre. De rapace solidão é a figura dele. Lento, pensativo, calculista, armado até aos dentes que aliás nem tem, merece-me uma alcunha má: Carlucci.

2. Derredor, o arvoredo incólume do planalto (cedros, mormente) matiza uma álea de sombra em refresco. Estão, ainda, vinte & muitos graus centígrados. A esquadrilha columbina desapareceu (para) já. O milhafre, não. Dele, a linha escura tem qualquer coisa de traço cuneiforme, de caligrama chinês, de cabide sumério. Não o odeio nem o venero – vigio-o, tão-só.

3. A quatro minutos do horário, passa-me defronte um quarentão de chapéu amarelo fitado de azul, pele tisnada daquele inequívoco açafrão típico do pica-heroa, rabo-de-cavalo a precisar muito de água-sabão. Vai labiando, como se charutasse um habano, um mata-ratos enrolado à mão que rastilha pelo ar uma espiral pró-hílare de oleaginosa essência de Marraquexe. No preciso entrementes mesmo, cruza a via (mas oh quão majestosamente!) um luzifelídeo, vulgo gato, de pêlo tipo carvão refractário, qual tocha negra de todo alheia e imune a tudo isto a que, se calhar por inconsciente auto-sarcasmo, chamamos “civilização”.

4. Tudo isto é pela hora a que os Antigos chamavam “noitinha”, mimoseador diminutivo da tenebrosa incógnita que a Noite é, foi sempre & sempre será. Eu chamo-lhe “entardenoitecer”. Eu chamo-lhe “luzcofuspúsculo”. Espécie de, digo eu, “eterni’tarde”. 0u de “peren’oite”. Acaso, ocaso tudo, qual seja o nome.

5. A bordo já do 27, colecciono os terminais lampejos solares que faíscam nas cúpulas dos prédios de mais altos cristais: frechas de ouro oblíquo, dardos de platina torrada. Mas também se me dá a recepção de certa pré-lunaridade na progressiva quietação: dirigindo-me eu a certa reunião (às 21h00m em ponto) de deserdados & desencaminhados do viver meus afins, recebo os sinais do vulgo humilde – a evidente fadiga dos trabalhadores em fim de jornada, a volatilização em éter dos desempregados cansados de enxamear sem préstimo o mundo-colmeia das abelhas-ainda-assalariadas, o cego de caixa-fenda-esmoler ao peito reenrolando os naperons das cautelas que ficaram por vender à pequena-sorte, o par de namorados partilhando a botelha plástica de água morna mercê de mole câmbio ósculo-beijoqueiro, a autoridade da incerteza pesando os quilogramas do Destino.

6. E ainda se me oferece saber, via O RIBATEJO da semana passada, que o “pacu”, peixe parece que familiar da sinistra e dentívora piranha, prolifera no fluvial-tomarense Nabão.E tanto prolifera ele, ouço dizer, que já lhe dá para migrar do rio para a seca Assembleia Municipal de Santarém, pardieiro-capoeiro onde andam urdindo a troca festivo-fogueteira do 25 de Abril pelo 25 de Novembro. O de 1974 pelo de 1975, portanto. O pacu anda armado em milhafre, por modos. Mas é mentira. O pac(arl)u(cci) não é nada o 25/XI/75 que quer festejar. É o 28. De Maio. De 1926. É, é. Repete a desgraça da História quem não engraça com a lição da memória.
Digo-vos eu tão-só isto: cuidado, garnizés, que as pombas ainda um dia se cansam de tanta mansidão. A ponto de um dia destes ainda fazerem pombal-quartel-general na maltratada EPC, de cujo pátio e de cujos portões, por mais degradados pela incúria e pela amnésia obrigatória dos politicamente imberbes cachopos de momento galarós no poleiro local, sairão voando baixinho.
De chaimite.
E de megafónicas asas abertas à Salgueiro Maia.
Cuidado com elas. Isto é: connosco.

quinta-feira, maio 07, 2015

Em tributo a Luís Eugénio Ferreira - Rosário Breve n.º 406 - in O RIBATEJO de 7 de Maio de 2015 - www.oribatejo.pt




Que mal sejas servido, Luís Eugénio


(Nota prévia: em pessoa, não me atreveria a tutear-te, Luís Eugénio Ferreira. Nesta folha, onde companheiros escribas somos – por e para minha honra mais do que para e por tua –, atrevo-me. Assim seja, posto que assim vai ser.)
Permite-me que te justifique o gravoso título da corrente crónica. É sincero, para já. Li, na mais recente edição do noss’O RIBATEJO, o teu Solilóquio 2. Nele afirmas já teres obolado o sinistro Caronte. Como quem diz que pagaste já a fatal travessia que a todos nos está reservada. Se adiantado pagaste, que mal servido sejas, Luís. E que muitos anos demores, a vau, a cruzar tal almegue, a que não sei se chame Letes ou Hades. Vou mais pelo Letes – o Hades lembra-me um tal Jorge Mota Coelho Engil a falar…
Mente-me ainda o noss’O RIBATEJO que estás “à beira de completar os 90 anos”… Aldrabões! Pode lá pois tal ser! Cinquenta e um faço eu na sexta-feira, 8 do corrente Maio, e também é mentira!
Bem, mais a sério: bem mereces os muitos abraços que decerto vais receber no sábado, 9, pelas 17 horas, no Centro Cultural Scalabitano. Magnífica (mais uma, aliás) iniciativa do Movimento de Cidadania “No Coração da Cidade”. Parece que Santarém te retribui em amor, que não em géneros, o amor que (desde) sempre lhe devotaste.
És, Luís Eugénio, o tipo de homem que eu quero ser quando for homem. De intocável hombridade, de indelével civismo, de profunda filantropia, de não cotejável urbanidade – és um cavalheiro como já tão poucos há.
Quanto à tal festa de sábado, espero tão-só (vade retro!) que um tal espécimen de Boliqueime se não lembre de por aí aparecer. Que antiga e moça gente toda tua seja e esteja à tua roda, essa e isso sim.
Tem juízo: e dá seca ao tal Caronte por muitos anos mais. Fazes-nos falta como o ar, crê-me. Honra não é palavra vã – e tu honraste a Vida e a Cidade cada dia, cada década, cada página que (escre)viveste. Honra te seja pois, não feita, mas reconhecida.
Sou-te grato como leitor. Sou só mais um dentre os muitos afortunados que tiveram o privilégio de ser teus contemporâneos – e ainda, o que é mais e melhor, teus coetâneos.
Saúde, Luís Eugénio! Sobre que escreverás na próxima semana? Seja o que e sobre o que for, não lhe chames solilóquio. Nunca foi sozinho que falaste. Nunca foi sozinhos que ficámos depois de ler-te.
Mando-te uma rosa. Farás o favor de ser cravo para ela.



quinta-feira, abril 30, 2015

Em tributo a Manuel António Pina no Rosário Breve n.º 405 - in O RIBATEJO de 30 de Abril de 2015





Crónica (ra)Pina(da)
A crónica desta semana nasceu daquele tipo de coisas que só vividas e acontecidas pessoalmente. Explico-me: regular, conscienciosa e serenamente revisito/revivo/releio Autores e Livros que são importantes na minha vida não importante.
Por estes dias mais recentes, apeteceu-me o saudoso Manuel António Pina (1943-2012). Gosto muito da escrita dele. Fui à estante e recuperei dois títulos do saudoso senhor: Nenhuma Palavra e Nenhuma Lembrança (Assírio & Alvim, Lisboa, Setembro de 1999) e Ainda Não É O Princípio Nem O Fim Do Mundo Calma É Apenas Um Pouco Tarde (1.ª ed., 1974; o meu exemplar é da 2.ª ed., A Erva Daninha, 1982). Foi uma ideia feliz. Pela finimanhã de 25 de Abril do corrente, em Coimbra, reli de um fôlego este último, ao mesmo ritmo e com a mesma delícia da primeira vez, que me aconteceu (tenho tudo apontado) a 18 de Abril de 1989, na Figueira da Foz. Já o Nenhuma Palavra e Nenhuma Lembrança, que povoou a minha madrugada de 28 de Dezembro de 1999, foi a minha companhia de 27 de Abril do corrente ano do Senhor. Eis senão quando.
Eis senão quando, esta manhã (terça-feira, 28 de Abril de 2015), depois de ter ido ali ao Posto de Saúde (sim, ainda temos um aberto) levar uma pica vitamínica na nalga dextra, coxeando dou de caras, na montra de uma livraria especializada em livros em fim de edição (isto é, em fim de vida), com um título atraentíssimo: Dito em Voz Alta – Entrevistas sobre Literatura, Isto É, sobre Tudo, dum tal… Manuel António Pina (edição de Abril de 2007 da entretanto extinta editora conimbricense Pé de Página, com organização de Sousa Dias, apresentação de Inês Fonseca Santos e vários entrevistadores). Porreiro, porreiríssimo: por 1 (um!) euro, ganhei o dia. (Há lá mais uma data deles: se quiserdes, mandai-me um mail a pedir um, que vo-lo enviarei pelo mesmo euro mais portes de correio, azul ou não. Quem é amigo, quem é? Sou eu.)
Mas voltemos atrás um pouco. A páginas 47 do meu exemplar de Ainda Não É O Princípio Nem O Fim Do Mundo Calma É Apenas Um Pouco Tarde, Pina faz uma coisa genial. Num poema de quatro quadras intitulado 4 de Julho de 1965, que faz ele? Recorta dos jornais desse dia frases soltas e entre si desconectadas, criando um hilariante efeito poético-crítico-estético-político-social. E o diabo a quatro. Eu queria ter tido aquela ideia. Mas não iria, eu, nunca, isso é que nunca, plagiar o meu querido, estimado e venerado Pina. Até que, outra vez, eis senão quando: a páginas 19 do tal Dito em Voz Alta, “ouço-o” dizer assim: “A literatura – já uma vez o escrevi – é uma arte de ladrões que roubam a ladrões. Se a constatação se aplica facilmente à colagem enquanto processo literário, aplica-se também, no entanto, à generalidade dos outros processos e à própria literatura enquanto tal.” E conclui ele assim: “Diz Eliot que os poetas fracos copiam e os poetas fortes roubam.”
Modos que eu, ai ele é isso?, esfregando de contente as cronicantes patitas, me decidi logo, armado em forte, a roubar a ideia. Se bem o pensei, pior o fiz. O que ides ler, pois, não é meu senão no copy-paste. Recortei da edição de O RIBATEJO de 23 de Abril deste (nem há outro) 2015 tudo o que lá (no “poema” meu, digo) vem. Daí o itálico. A culpa não é minha. É do saudoso Pina. Em boa memória dele e em a ele tributo o faço, esperando que da leitura deste divertimento, que outra coisa afinal não é, algum vosso prazer resulte.


23 de Abril de 2015

Falsa ameaça de bomba
câmara pede investigação
levou à evacuação
da Finlândia com amor
que pode ser lida nesta edição
e bons vinhos da região.

Pode fechar em Abrantes
para a tornar melhor
prudência com as utopias
geral@restaurante
sem acesso à conta por
apelo da união das freguesias.

Esteve na semana passada
com tinta ecológica de base vegetal
camião carregado de palha
pela assembleia municipal.
Já não fico cansada.
Aplaudido de pé no final.

Em muitas das afirmações
temem  que a decisão traga viatura
à polícia prestar declarações
por queixas de moradores da agricultura
de forma 100% segura
por muitas e boas razões.

Fábrica de leite fecha e deixa
nas suas vidas o bem-estar
centro de excelência agro-alimentar
para além da bondade das medidas
diz não ter alternativas
mas desde sempre a apoiar.

Sessenta no desemprego são estrelas
da capital da pele industrial
e descobrem-se no teatro
a 25 de Abril no mesmo local
a empacotar pevides por exemplo
do presidente da câmara municipal.

Prova disso são os comentários
com conceitos tão antinatura.
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