quinta-feira, maio 28, 2015

Rosário Breve n.º 409 - in O RIBATEJO de 28 de Maio de 2015 - www.oribatejo.pt





Memória doutro Inverno

Chamavam-lhe respeitosamente “Senhor Arquitecto”.
Todos os dias fazia de comboio Figueira-Coimbra-Figueira. Vestia-se de preto como uma andorinha anacrónica. A cabeça subia para um chapéu de judeu velho. A gravata parecia uma guita de embrulho de loja de ferragens. A camisa, outrora branca, mostrava o enxovalho têxtil dos homens que vivem sós. Inverno ou Verão, caminhava munido de um guarda-chuva maior do que a tristeza a que chamávamos “mata-cães”. O Senhor Arquitecto era um holograma do passado, Tinha o ar irrefutável de quem aparece do nada para ir a nenhures. Regressava de Coimbra com quatro livros novos. Todos os dias, quatro livros novos. Imperturbável, folheava-os num transe de alheamento que impunha o silêncio em torno dele, como sucede com certas árvores e certas dores.
Cheirava tremendamente a alho. Numa tarde do Inverno de 1988, chovia tanto, mas tanto, que o mundo visto do comboio aparecia mais desalmado do que um fim de amor. A carruagem vinha atulhada de gente. O Senhor Arquitecto sentou-se no único lugar disponível. O bafio a alho tomou imediatamente conta do lugar. Folheava ele os livros novos naquele dia hoje antigo quando uma mulher tirou do saco de compras uma embalagem de desodorizante do ar. Com dedo firme e quase morta de riso, espraiou na atmosfera exígua do compartimento uma nuvem de eucalipto químico. Os passageiros conseguiram sufocar o riso até que o velho homem, percebendo que aquilo do spray era com ele, abandonou sem uma palavra aquele recinto popular. Então, o maralhal desatou à gargalhada. Alguém abriu uma janela até que o alho e o eucalipto se dissolvessem no ar afiado de chuva.
Segui-o. Havia dois lugares noutra carruagem. Ele escolheu o de costas para o destino; homem sábio. Sentei-me de frente para ele. Então, ele olhou-me. Eram olhos de outro século, pérolas de fundo de poço, olhos que vêem para dentro.
Eu disse: Tanta chuva, Senhor Arquitecto.”
Ele disse: Sempre gostei do Inverno.”
Depois calámo-nos. Ele voltou aos livros. Eu pensava que àquela hora estava a chover no mar, tendo-me vindo à mente a frase de Mercè Rodoreda: “Como se o mar não tivesse já água suficiente.”
Nunca mais o vi. Os anos levaram-mo, supunha eu que para sempre. Até que hoje, tendo despertado sem remédio às seis da manhã, amanheci a pensar nele, não exactamente nele, mas no enorme guarda-chuva dele. Que será feito de tal objecto? Que sucede às coisas que substituem a memória dos mortos, que no-las fazem perder?
No meu quarto de ocasião, como que em resposta, uma ligeira fragrância de alho palpitou no escuro, Na rua, senti que começava chovendo. Também sempre gostei do Inverno.

(NB: Esta crónica é uma republicação, coisa repescada de um livro meu já antigo de uma década quase. Mas decidi-me por ela in memoriam viva do Dr. Luís Eugénio Ferreira, cumpridor da palavra e do óbolo por ele dada e dado ao “Barqueiro”. Se o meu Leitor quiser, pode trocar o título da presente crónica pelo de “Solilóquio IV”. Ele perceberia o recado, que é saudoso já.)


quarta-feira, maio 27, 2015

Rosário Breve nº 408 - in O RIBATEJO de 21 de Maio de 2015 - www.oribatejo.pt




A (C)idade não é um posto, é um pote

A idade não me tem dado, ou deitado, tudo a perder. O mesmo se passa, ao que leio, com Santarém, pessoa colectiva bem mais antiga do que a individual minha. Exemplos? Tenho potes deles. Nomeada e numeradamente, 11 (onze) potes, que é como quem diz paletes.
Pote 1 – “Luís Farinha perdeu os pelouros do lixo e dos espaços verdes” – SANTARÉM/2 – FARINHA/0.
Pote 2 – Cronista voluntário deste Jornal, não sou, nem oficial nem oficiosamente, fornecedor da Câmara scalabitana, pelo que nem uma linha, nem um parágrafo, nem uma coluna, nem um dia sequer perco à espera que me pague ela o que aliás me não deve – EU/IGUAL-AO-LITRO – CMS 423/68 DIAS DE PRAZO/PAGAMENTO.
Pote 3 – Bicampeão mundial consecutivo de Cálculo Mental, João Bento, estudante da abrantina ES Manuel Fernandes, é já, aos 13 anos de idade, um dos mais promissores lavadores das janelas-de-oportunidade emigratório-passoscoelhanas. Isto pelos meus cálculos, que mentalmente são de uma besta. “Cresce e desaparece” – JOÃO BENTO/15 EQUAÇÕES-33,66 SEGUNDOS – CUNICULTURA EMIGRATÓRIA/MAIS 1.
Pote 4 – A Estatística é uma coisa inventada pelos yuppies dos anos 80/XX, gentalha reciclada, uma vez chegada à idade adulta, a partir dos hippies cansados de brincar aos Woodstocks e aos Maios/68. Parece que, estatisticamente, Santarém/Distrito aumentou as suas/dela exportações em coisa de 80% entre 2003 e 2013. Mais 12%, portanto, do que Leiria, a “rival”. E muito acima dos 69,48% da média nacional para o mesmo período cronológico – SANTARÉM/DISTRITO 80% – NÃO-SE-NOTA-NADA-DE-ESPECIAL-NA-VIDA-DA-GENTE 0%.
Pote 5 – O Riachense é um clube-espelho do País. Crise. Portas que se fecham. Ninguém de jeito que a jeito se ponha e se atravesse. O actual presidente, confesso não-recandidato ao cargo, já é, se calhar injustamente, tido e dado como involuntário “coveiro” da popular colectividade de Riachos – LUÍS CARLOS DIAS 0 – CAVACO SILVA ABAIXO-DE-0.
Pote 6 – “O presidente da Câmara de Santarém chama a si os pelouros dos Espaços Verdes e da Higiene e Resíduos Sólidos.” Ora catano! “Farinha” do mesmo saco (roto, ninguém disse azul…) – TUDO-NA-MESMA 1 – RUAS-DA-CIDADE 0.
Pote 7 – Vale (valerá mesmo?) que a vereadora Inês Barroso, perdendo embora a “Criança”, sempre mantém o Canil e o Gatil municipais – ÃO/ÃO 1 – M(I)AU/MARIA 1.
Pote 8 – Desde 6 de Maio último, deixou de haver paparoca no refeitório do CAS/Centro de Apoio Social. Sem substituição dos trabalhadores afectos àquele serviço entretanto postos a (des)andar, a panela não ferve sozinha. Mesmo assim, ó Anjos Todos do Céu e ó Santos Todos dos Andores Todos de Todas as Procissões a Cujas Nenhuma Falta o Presidente!, o superior edil “reconheceu o excelente trabalho de apoio social que tem vindo a ser desenvolvido pelo CAS aos seus associados”. Mas, note-se bem, salvaguardada porém a “completa independência da entidade ao município” – EXCELÊNCIA 1 – INDEPENDÊNCIA/BACALHAU-COM-GRÃO-A-3-EUROS-E-MEIO 0.  
Pote 9 – Sexta-feira, 15 do corrente, realizou-se na ESGT/Escola Superior de Gestão e Tecnologia de Santarém um “seminário”. Não daqueles para futuros sacerdotes mas para “líderes de organizações de Economia Social”. Isto é: para mais yuppies-ex-hippies. Já cá tínhamos poucos. Não consta que nem o moribundo Riachense nem o CAS tenham sido convidados. A mim pelo menos não me constou. “Oraram” (aquilo, afinal sempre era “seminário”…) Maria do Céu Freire, Tânia Graça e João Serrano – PALEIO & TRETAS 3 – QUAL-ORGANIZAÇÃO-QUAL-ECONOMIA-QUAL-SOCIAL-QUAL-RIACHENSE-QUAL-CAS? 0.
Pote 10 – “Ouve bem, mas percebe mal?” é a “manchete” da página 9 (nove) da edição passada do nosso Jornal. Publicidade devidamente assinalada (como é de lei, aliás), deve ter recebido 100% de respostas “SIM”. A minha, pelo menos, foi essa – 100 a 0, portanto.
Pote 11 – “Posto de Turismo de Santarém ‘esconde’ os folhetos das feiras que se realizam na cidade”. Calculo eu (desculpa-me lá, ó grande bicampeão João Bento!) que haja gralha neste título. Se estão escondidos, não são “folhetos”. Serão mais “falhetos”. Parece que por ordem do vereador. E quem é ele? Claro: o tal Luís Farinha. Folhetos de interesse turístico para a cidade e para a região? Bota pró lixo! Certo. Bem pode Farinha perder o lixo. Nós é que o não perdemos a ele. Resultado à vista no contentor mais próximo de si. Ou debaixo do balcão do Posto de Turismo.
E pronto. Por esta semana, nem me estico nem marro mais com suas sumidades (antes sumiços fossem ou levassem…).
Sim, senhores da página 9: ouvi tudo muito bem mas percebi tudo muito mal.
É da idade. Ou da (C)idade.



quinta-feira, maio 14, 2015

Rosário Breve n.º 407 - in O RIBATEJO de 14 de Maio de 2015 - www.oribatejo.pt





25 menos 25 igual a 28


Sentado em perfeita solidão no banco da paragem, espero o autocarro da carreira 27, o das 19h45m. Calor. Inconstante como a vida, o meu Maio natalício esteve de radiador ligado o dia todo. E que me oferece a espera, primeiro, e a viagem, depois? Oferece-me números:

1. A derradeira dança do pombal pelo entardenoitecer. Umas duas dezenas e meia delas voando em formação ordenada, elíptica, comandada por um qualquer instinto gregário e aerotopográfico que não sei azimutar, muito menos explicar. Constituem uma forç’aérea muito bela e muito poderosa no azul-ferrete terminal do firmamento. Um pouco mais alto do que elas, todavia, mas delas ameaçadoramente não muito longe, sobrevoa-as um milhafre. De rapace solidão é a figura dele. Lento, pensativo, calculista, armado até aos dentes que aliás nem tem, merece-me uma alcunha má: Carlucci.

2. Derredor, o arvoredo incólume do planalto (cedros, mormente) matiza uma álea de sombra em refresco. Estão, ainda, vinte & muitos graus centígrados. A esquadrilha columbina desapareceu (para) já. O milhafre, não. Dele, a linha escura tem qualquer coisa de traço cuneiforme, de caligrama chinês, de cabide sumério. Não o odeio nem o venero – vigio-o, tão-só.

3. A quatro minutos do horário, passa-me defronte um quarentão de chapéu amarelo fitado de azul, pele tisnada daquele inequívoco açafrão típico do pica-heroa, rabo-de-cavalo a precisar muito de água-sabão. Vai labiando, como se charutasse um habano, um mata-ratos enrolado à mão que rastilha pelo ar uma espiral pró-hílare de oleaginosa essência de Marraquexe. No preciso entrementes mesmo, cruza a via (mas oh quão majestosamente!) um luzifelídeo, vulgo gato, de pêlo tipo carvão refractário, qual tocha negra de todo alheia e imune a tudo isto a que, se calhar por inconsciente auto-sarcasmo, chamamos “civilização”.

4. Tudo isto é pela hora a que os Antigos chamavam “noitinha”, mimoseador diminutivo da tenebrosa incógnita que a Noite é, foi sempre & sempre será. Eu chamo-lhe “entardenoitecer”. Eu chamo-lhe “luzcofuspúsculo”. Espécie de, digo eu, “eterni’tarde”. 0u de “peren’oite”. Acaso, ocaso tudo, qual seja o nome.

5. A bordo já do 27, colecciono os terminais lampejos solares que faíscam nas cúpulas dos prédios de mais altos cristais: frechas de ouro oblíquo, dardos de platina torrada. Mas também se me dá a recepção de certa pré-lunaridade na progressiva quietação: dirigindo-me eu a certa reunião (às 21h00m em ponto) de deserdados & desencaminhados do viver meus afins, recebo os sinais do vulgo humilde – a evidente fadiga dos trabalhadores em fim de jornada, a volatilização em éter dos desempregados cansados de enxamear sem préstimo o mundo-colmeia das abelhas-ainda-assalariadas, o cego de caixa-fenda-esmoler ao peito reenrolando os naperons das cautelas que ficaram por vender à pequena-sorte, o par de namorados partilhando a botelha plástica de água morna mercê de mole câmbio ósculo-beijoqueiro, a autoridade da incerteza pesando os quilogramas do Destino.

6. E ainda se me oferece saber, via O RIBATEJO da semana passada, que o “pacu”, peixe parece que familiar da sinistra e dentívora piranha, prolifera no fluvial-tomarense Nabão.E tanto prolifera ele, ouço dizer, que já lhe dá para migrar do rio para a seca Assembleia Municipal de Santarém, pardieiro-capoeiro onde andam urdindo a troca festivo-fogueteira do 25 de Abril pelo 25 de Novembro. O de 1974 pelo de 1975, portanto. O pacu anda armado em milhafre, por modos. Mas é mentira. O pac(arl)u(cci) não é nada o 25/XI/75 que quer festejar. É o 28. De Maio. De 1926. É, é. Repete a desgraça da História quem não engraça com a lição da memória.
Digo-vos eu tão-só isto: cuidado, garnizés, que as pombas ainda um dia se cansam de tanta mansidão. A ponto de um dia destes ainda fazerem pombal-quartel-general na maltratada EPC, de cujo pátio e de cujos portões, por mais degradados pela incúria e pela amnésia obrigatória dos politicamente imberbes cachopos de momento galarós no poleiro local, sairão voando baixinho.
De chaimite.
E de megafónicas asas abertas à Salgueiro Maia.
Cuidado com elas. Isto é: connosco.

quinta-feira, maio 07, 2015

Em tributo a Luís Eugénio Ferreira - Rosário Breve n.º 406 - in O RIBATEJO de 7 de Maio de 2015 - www.oribatejo.pt




Que mal sejas servido, Luís Eugénio


(Nota prévia: em pessoa, não me atreveria a tutear-te, Luís Eugénio Ferreira. Nesta folha, onde companheiros escribas somos – por e para minha honra mais do que para e por tua –, atrevo-me. Assim seja, posto que assim vai ser.)
Permite-me que te justifique o gravoso título da corrente crónica. É sincero, para já. Li, na mais recente edição do noss’O RIBATEJO, o teu Solilóquio 2. Nele afirmas já teres obolado o sinistro Caronte. Como quem diz que pagaste já a fatal travessia que a todos nos está reservada. Se adiantado pagaste, que mal servido sejas, Luís. E que muitos anos demores, a vau, a cruzar tal almegue, a que não sei se chame Letes ou Hades. Vou mais pelo Letes – o Hades lembra-me um tal Jorge Mota Coelho Engil a falar…
Mente-me ainda o noss’O RIBATEJO que estás “à beira de completar os 90 anos”… Aldrabões! Pode lá pois tal ser! Cinquenta e um faço eu na sexta-feira, 8 do corrente Maio, e também é mentira!
Bem, mais a sério: bem mereces os muitos abraços que decerto vais receber no sábado, 9, pelas 17 horas, no Centro Cultural Scalabitano. Magnífica (mais uma, aliás) iniciativa do Movimento de Cidadania “No Coração da Cidade”. Parece que Santarém te retribui em amor, que não em géneros, o amor que (desde) sempre lhe devotaste.
És, Luís Eugénio, o tipo de homem que eu quero ser quando for homem. De intocável hombridade, de indelével civismo, de profunda filantropia, de não cotejável urbanidade – és um cavalheiro como já tão poucos há.
Quanto à tal festa de sábado, espero tão-só (vade retro!) que um tal espécimen de Boliqueime se não lembre de por aí aparecer. Que antiga e moça gente toda tua seja e esteja à tua roda, essa e isso sim.
Tem juízo: e dá seca ao tal Caronte por muitos anos mais. Fazes-nos falta como o ar, crê-me. Honra não é palavra vã – e tu honraste a Vida e a Cidade cada dia, cada década, cada página que (escre)viveste. Honra te seja pois, não feita, mas reconhecida.
Sou-te grato como leitor. Sou só mais um dentre os muitos afortunados que tiveram o privilégio de ser teus contemporâneos – e ainda, o que é mais e melhor, teus coetâneos.
Saúde, Luís Eugénio! Sobre que escreverás na próxima semana? Seja o que e sobre o que for, não lhe chames solilóquio. Nunca foi sozinho que falaste. Nunca foi sozinhos que ficámos depois de ler-te.
Mando-te uma rosa. Farás o favor de ser cravo para ela.



quinta-feira, abril 30, 2015

Em tributo a Manuel António Pina no Rosário Breve n.º 405 - in O RIBATEJO de 30 de Abril de 2015





Crónica (ra)Pina(da)
A crónica desta semana nasceu daquele tipo de coisas que só vividas e acontecidas pessoalmente. Explico-me: regular, conscienciosa e serenamente revisito/revivo/releio Autores e Livros que são importantes na minha vida não importante.
Por estes dias mais recentes, apeteceu-me o saudoso Manuel António Pina (1943-2012). Gosto muito da escrita dele. Fui à estante e recuperei dois títulos do saudoso senhor: Nenhuma Palavra e Nenhuma Lembrança (Assírio & Alvim, Lisboa, Setembro de 1999) e Ainda Não É O Princípio Nem O Fim Do Mundo Calma É Apenas Um Pouco Tarde (1.ª ed., 1974; o meu exemplar é da 2.ª ed., A Erva Daninha, 1982). Foi uma ideia feliz. Pela finimanhã de 25 de Abril do corrente, em Coimbra, reli de um fôlego este último, ao mesmo ritmo e com a mesma delícia da primeira vez, que me aconteceu (tenho tudo apontado) a 18 de Abril de 1989, na Figueira da Foz. Já o Nenhuma Palavra e Nenhuma Lembrança, que povoou a minha madrugada de 28 de Dezembro de 1999, foi a minha companhia de 27 de Abril do corrente ano do Senhor. Eis senão quando.
Eis senão quando, esta manhã (terça-feira, 28 de Abril de 2015), depois de ter ido ali ao Posto de Saúde (sim, ainda temos um aberto) levar uma pica vitamínica na nalga dextra, coxeando dou de caras, na montra de uma livraria especializada em livros em fim de edição (isto é, em fim de vida), com um título atraentíssimo: Dito em Voz Alta – Entrevistas sobre Literatura, Isto É, sobre Tudo, dum tal… Manuel António Pina (edição de Abril de 2007 da entretanto extinta editora conimbricense Pé de Página, com organização de Sousa Dias, apresentação de Inês Fonseca Santos e vários entrevistadores). Porreiro, porreiríssimo: por 1 (um!) euro, ganhei o dia. (Há lá mais uma data deles: se quiserdes, mandai-me um mail a pedir um, que vo-lo enviarei pelo mesmo euro mais portes de correio, azul ou não. Quem é amigo, quem é? Sou eu.)
Mas voltemos atrás um pouco. A páginas 47 do meu exemplar de Ainda Não É O Princípio Nem O Fim Do Mundo Calma É Apenas Um Pouco Tarde, Pina faz uma coisa genial. Num poema de quatro quadras intitulado 4 de Julho de 1965, que faz ele? Recorta dos jornais desse dia frases soltas e entre si desconectadas, criando um hilariante efeito poético-crítico-estético-político-social. E o diabo a quatro. Eu queria ter tido aquela ideia. Mas não iria, eu, nunca, isso é que nunca, plagiar o meu querido, estimado e venerado Pina. Até que, outra vez, eis senão quando: a páginas 19 do tal Dito em Voz Alta, “ouço-o” dizer assim: “A literatura – já uma vez o escrevi – é uma arte de ladrões que roubam a ladrões. Se a constatação se aplica facilmente à colagem enquanto processo literário, aplica-se também, no entanto, à generalidade dos outros processos e à própria literatura enquanto tal.” E conclui ele assim: “Diz Eliot que os poetas fracos copiam e os poetas fortes roubam.”
Modos que eu, ai ele é isso?, esfregando de contente as cronicantes patitas, me decidi logo, armado em forte, a roubar a ideia. Se bem o pensei, pior o fiz. O que ides ler, pois, não é meu senão no copy-paste. Recortei da edição de O RIBATEJO de 23 de Abril deste (nem há outro) 2015 tudo o que lá (no “poema” meu, digo) vem. Daí o itálico. A culpa não é minha. É do saudoso Pina. Em boa memória dele e em a ele tributo o faço, esperando que da leitura deste divertimento, que outra coisa afinal não é, algum vosso prazer resulte.


23 de Abril de 2015

Falsa ameaça de bomba
câmara pede investigação
levou à evacuação
da Finlândia com amor
que pode ser lida nesta edição
e bons vinhos da região.

Pode fechar em Abrantes
para a tornar melhor
prudência com as utopias
geral@restaurante
sem acesso à conta por
apelo da união das freguesias.

Esteve na semana passada
com tinta ecológica de base vegetal
camião carregado de palha
pela assembleia municipal.
Já não fico cansada.
Aplaudido de pé no final.

Em muitas das afirmações
temem  que a decisão traga viatura
à polícia prestar declarações
por queixas de moradores da agricultura
de forma 100% segura
por muitas e boas razões.

Fábrica de leite fecha e deixa
nas suas vidas o bem-estar
centro de excelência agro-alimentar
para além da bondade das medidas
diz não ter alternativas
mas desde sempre a apoiar.

Sessenta no desemprego são estrelas
da capital da pele industrial
e descobrem-se no teatro
a 25 de Abril no mesmo local
a empacotar pevides por exemplo
do presidente da câmara municipal.

Prova disso são os comentários
com conceitos tão antinatura.
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quinta-feira, abril 23, 2015

Rosário Breve n.º 404 - in O RIBATEJO de 23 de Abril de 2015 - www.oribatejo.pt

Campo do Tarrafal

A Colónia Penal do Tarrafal, situada no lugar de Chão Bom do concelho do Tarrafal, na ilha de Santiago, foi criada pelo Governo português do Estado Novo ao abrigo do Decreto-Lei n.º 26 539, de 23 de Abril de 1936. Wikipédia



A Questão

Gosto de datas. As efemérides proporcionam-me a ilusão de o Tempo poder ser detido, como Aldous Huxley queria, Marcel Proust conseguiu e Ricardo Salgado ainda não foi.
Esta edição do nosso/Vosso Jornal sai a um 23 de Abril. Mas não – não é sobre certa Revolução com Cravos (que depressa passou para o domínio de cravas) que aproveito a boleia da data. Afinal, O RIBATEJO é semanário, pelo que a 25 de Abril próximo é de fresca legibilidade ainda. Mas não. É mesmo de 23 de Abril que quero falar-vos alguma coisita esta semana. Na verdade, de dois 23 de Abril.
O primeiro deles, despacho-o num instantinho: o dito dia de 1616 é tido como o da mais provável data de falecimento de um colosso da Literatura mundial: William Shakespeare, na sua terra natal de Stratford-on-Avon, Inglaterra, onde nascera em 1564. Para muitos, outro gigante literário morreu precisamente no mesmo dia e no mesmo ano: Miguel de Cervantes, o genial criador do Quijote. Mas a datação é polémica. A Wikipédia (que nem sempre é fonte segura deste tipo de águas), refere isto:
“É bem notória a coincidência das datas de morte de dois dos grandes escritores da humanidade, Cervantes e William Shakespeare, ambos com data de falecimento em 23 de Abril de 1616. Porém, é importante notar que o Calendário gregoriano já era utilizado em Castela desde o século XVI, enquanto que na Inglaterra a sua adopção somente ocorreu em 1751. Daí que, na realidade, William Shakespeare faleceu dez dias depois de Miguel de Cervantes.
Deixemo-nos todavia destas afinal ninharias de cronómanos como eu. É do outro 23 de Abril que quero conversar: o de 1936. Porquê? Por isto: é a data oficial da criação, pelo Estado (dito) Novo, na Ilha de Santiago, em Cabo Verde, do Campo de Concentração do Tarrafal. O Morcego Eunuco, vulgo Oliveira Salazar, antecipou-se no horror ao próprio Hitler.
Já lá estive. Digo: fisicamente, no Tarrafal. Foi em Julho de 1997.Era eu então formador do CENJOR / Centro Protocolar de Formação Profissional para Jornalistas, com sede em Lisboa. Um protocolo entre o nosso Governo de então e o seu homólogo de Cabo Verde lá me levou. Missão: seleccionar uma vintena de candidatos íncolas a jornalistas profissionais e leccionar o módulo de Língua Portuguesa no âmbito da Escrita Jornalística. O trabalho era doce, o pagamento à hora era dulcíssimo, as pessoas de lá também. Foram (e são) três semanas da minha vida para guardar no baú bom da parte melhor do sótão mental. Menos aquele domingo.
Certo domingo, gente ministerial que me assessorava a função e a logística dela, levou-me a fazer um périplo pela ilha em que se situa a capital de Cabo Verde: a Cidade da Praia. Quiseram saber se eu desejava visitar o famigerado Campo-Prisão. Respondi que sim. Corri-o todo. Em 1997, estava praticamente intacto: a solidão entenebrecia-o ainda, ainda o exílio apodrecia até a luz total do sol cabo-verdiano, ainda os fantasmas dos prisioneiros espectravam os visitantes. Entrei em todas as celas de progressiva escuridão. Maldisse-me ser português por portugueses terem sido os mandadores daquele imoral e amoral mural de lento extermínio. E como portugueses nele e dele foram vítimas. Li as palavras, os nomes, li o que não deveria nunca ter tido papel onde tal horror fosse escrito.  
Saí de lá de garganta cega em nó. Os meus guias aperceberam-se do meu quebranto e respeitaram a inelutabilidade do meu luto.
Não era tanto a ira anacrónica pelos torcionários que me sufocava a respiração cardíaca. Era mais a vergonha da minha portugalidade.
Foi há 79 anos, à data da saída deste Jornal. Para muita gente dotada de memória (que por alguma razão rima com História), foi ontem. E pode ser amanhã. Não sei, aliás, se o não é já.
Os muros são outros, é certo. São transparentes: este tijolo é o desemprego, esta cela é o tribunal fechado, este refeitório é a sopa-dos-pobres, este pátio é o da escola encerrada, este portão é por onde se entrava para o extinto posto de saúde. Mas os sicários estão vivos. E nunca as vítimas de que se alimentam lhes escasseiam. Se a “coisa” lá não vai pela tortura do sono ou pelo arrancar das unhas, vai pela corrupção bancária, vai pela descredibilização total do regime alegadamente democrático-constitucional, vai pela plenipotência dos super-escritórios de super-advogados onde são urdidas as manigâncias que absolvem o corruptor e metem na prisão o ladrão de uma lata de atum nas hipermercearias dos belmiros. Vai pelo “rating”, que é como em anglo-economês se designa a actividade dos ratos.
Não. O Tarrafal não está fechado. Chama-se Presente e é Europeu.
As celas de sucessivas trevas estão aí: chamam-se um-dia-de-cada-vez-amanhã-não-sei.
23 de Abril e coiso e Shakespeare, dizia-vos eu, não era?  Mas o “Otelo” do genial dramaturgo inglês era de outra qualidade. Por falar nisso, ser ou não ser(mos)  é que é a questão. Agora – quem queremos ser? É essa a questão. A única questão.
Já agora, depois de amanhã continua a ser Abril. Calha a 25. A data lembra-me qualquer coisa, hei-de ver se ainda me lembro de quê antes de acabar a crónica.

quinta-feira, abril 16, 2015

Rosário Breve n.º 403 - in O RIBATEJO de 16 de Abril de 2015 - www.oribatejo.pt




© René Magritte






Animais ou menos

Segunda-feira, 13 de Abril de 2015. O octogenário e prestigioso periódico Diário de Coimbra publica, a páginas 10, uma carta dirigida ao Director daquele jornal. Assina-a uma senhora chamada Maria João L. G. de Oliveira. A missiva tem título: “Especismo”. Começa assim:

“Senhor Director,
Em pleno século XXI, os pombos de algumas cidades continuam a ser vítimas de toda a espécie de maus tratos.”

E mais adiante:

“(…) é possível controlar a reprodução destas aves, recorrendo a métodos humanos. Quem ama os animais, quem é capaz de interiorizar o seu sofrimento, quem não é especialista, sabe como fazê-lo.”

Aqui há anos, uma massiva sobrepopulação de aves marinhas nas Berlengas levou, de facto, a medidas de controle daqueles vorazes seres voadores. Ao que sei, a intervenção foi científica e tecnicamente muito bem feita. Intervieram na nidificação e coisa e tal. Não houve genocídio. Houve racionalidade. Voltemos todavia à carta da senhora conimbrincense:

“Infelizmente, não é o caso da Câmara Municipal de Santarém, que está a provocar um assassinato destas aves, como se não fosse possível resolver, humanamente, o problema da superpopulação dos pombos. Além disso, a matança de animais é crime. Gandhi tinha razão quando disse que o nível de civilização de um povo se pode avaliar pela maneira como os seus animais são tratados.”

Os geniais pintores Picasso e Magritte gostavam de pombas. Terá sido do bico de uma delas que Noé recebeu o ramúsculo de árvore anunciador do fim do Dilúvio. O poeta português João Miguel Fernandes Jorge (JMFJ) disse tudo naquele poema maravilhoso com que finaliza o seu livro, de 1982, “O Regresso dos Remadores”:

“Poemas”: “Aspectos perdidos
pequenas sombras ao redor de poderosa imagem

Aquilo que distingue a palavra ave da palavra pássaro.”

Onde já vamos, ó Leitor/a meu & minha: da ‘solução’ (holo)cáustica à la Câmara de Santarém até pintores e poetas. Pois continuemos em tal senda, que má não é e mal não faz. Um ano antes do supracitado livro de JMFJ, um crítico literário chamado José António Llardent publicava no Suplemento n.º 1 da revista Número (Madrid, 1981) algumas linhas sobre o (por mim) mais venerado Poeta português (felizmente) vivo: António Osório, que foi bastonário da Ordem dos Advogados uns anos largos depois de haver nascido em Setúbal a 1 de Agosto de 1933. Traduzo:

“A vida, para Osório, é substancialmente indivisível no que respeita à dor e à morte. Dentro do seu sistema (afectivo), radicalmente unitário, os animais ‘são umas criaturas surgidas no terceiro dia, mais velhas portanto do que o homem e talvez por isso mais sábias ou menos iníquas’. O poeta sente-as inseparáveis da condição humana, ainda que tal condição seja perturbada por leis biológicas que pretendem justificar, em nome da própria vida, a dialéctica da destruição."

No meu bornal, há muitos anos (muitos mesmo) que, ao lado de ninharias como livralhadas e croniquetas, transporto frascos cheios de trinca-de-arroz e sacos plenos de migas de pão. É para dar aos pássaros. Mas é comofernandesjorgeanas aves que as vejo comer. Osoriamente. Não camaramunicipaldesantaremmente. Não barbaramente. Não holocausticamente. Julgamo-nos, nós humanos, superiores a tudo e a todos quantos vivem neste planeta. Fingimos desconhecer que somos a única espécie em voluntária auto-extinção. Estamos (quase) todos abaixo de cão. As nossas malfeitorias para com toda a fauna não sapiens sapiens sub-bestializam-nos. Mas basta. Concluamos com a senhora Leitora do Diário de Coimbra:

“(…) cabe também aos pais e à escola (e eu sei que algumas o fazem…) desenvolver, nos mais novos, a sensibilidade ao sofrimento dos animais, o amor e o respeito por seres que são, a todo o momento, vítimas do especismo, preconceito que lhes nega o direito, que também têm, de não sofrer, ou seja, a igualdade que deve existir entre as diferentes espécies.”
Ámen – digo eu, em terra tão tauromáquica quão columbocida.