quinta-feira, abril 02, 2015

Rosário Breve n.º 401 in O RIBATEJO de 2 de Abril de 2015 - www.oribatejo.pt



(NB: na edição em papel de O RIBATEJO, razoáveis razões de espaço gráfico levaram a uma versão abreviada da crónica, que todavia se publicará integralmente na edição electrónica daquele título. Cf. em www.oribatejo.pt ou no mural Jornal O Ribatejo no facebook. Ou então, e ainda, no meu próprio mural facebookiano.)





Marcello, se não vero, veríssimo

Concluí recentemente a leitura integral duma obra da autoria de um ribatejano. O livro intitula-se Marcello Caetano – Confidências no Exílio (Editorial Verbo, 8.ª ed., Março de 1985). O Autor é Joaquim Veríssimo Serrão (JVS), historiador e professor com sobejas provas dadas no âmbito da historiografia portuguesa de qualidade.
Amigo, confidente e confesso admirador de Marcello (MC), JVS procede neste livro àquilo que sente como necessária reparação do, para ele, bom-nome do visado. Não poupa no mais rasgado encómio da figura, roçando vastas e bastas vezes a louvaminhice do delfim de Salazar e deste último sucessor na Presidência do Conselho, após a célebre queda da cadeira do tirano de Santa Comba Dão e do resto do País todo.
Muitos temos presente o filme daquela malta toda vitoriando no Largo do Carmo a acção militar tão honrosa e tão corajosamente capitaneada por Salgueiro Maia, capitão que, aliás respeitosa mas firmemente, deu ordem de prisão ao deposto Chefe do Governo, tratando-o com uma dignidade que o próprio detido mais tarde reconheceu com sinceridade e sem ironia ou amargura, ao contrário de ditos e escritos seus a propósitos de figuras que, sendo-lhe próximas nos tempos de poleiro, o renegaram depois como Pedro terá triplamente feito ao mesmo Cristo.
Sabemos todos o que depois aconteceu: MC na chaimite, embarque primeiro para a Madeira, voo a seguir para o exílio no Brasil, país em que, sem jamais, por manifesta vontade própria, haver regressado a Portugal (nem para ser sepultado), acabou por morrer no Rio de Janeiro a 26 de Outubro de 1980.
Da referida obra que assunta esta crónica, digo coisas simples: é muito legível, muito interessante e muito propiciadora de muitos toma-lá-dá-cás contr’opinativos. Já tal é, a meu ver, de mérito q.b.
Todavia, o que me fez trazer tal título à colação da crónica foi uma série de referências a personagens da política (mortas algumas já, ainda vivas outras). Com a devida vénia ao Autor do livro e ao Emissor das passagens (ex)citantes em discurso directo (com excepção ao discurso indirecto de JVS a propósito de Veiga Simão), passo assim, em ipsis verbis apropriadamente itálico, à transcrição de tão sumarentos ditames marcellianos.

Pinheiro de Azevedo - “um tonto” (pág.ª 256, op. cit.);
Alçada Baptista - “com o seu ar de filósofo iluminado, (…) gosta de parecer original e frondeur e agora aspira a ser embaixador em Brasília.” (pág.ª259);
M.ª de Lurdes Pintasilgo - “a primeira freira (embora sem hábito) a dirigir a política de um país. Foi grande amiga minha. É ambiciosa, inteligente e voluntariosa (introduzirá virilidade na política portuguesa...) Esteve para ser deputada pela U.N. em 1969 (só o não foi porque se tinha esquecido de recensear-se) e não foi ministra do meu Governo porque a não convidei. Agora aparece ligada à esquerda, como a sua congregação do Graal já há tempos anda. Que fará uma mulher-homem, ainda por cima com nome de pássaro?” (págs. 259/260);
Spínola - “o parvo” (pág.ª 257);
Costa Gomes - “Por mim não sei que outra coisa se lhe possa chamar: um verdadeiro nojo para a consciência de um homem.” (pág.ª 266);
Vasco da Gama Fernandes - “Veja como o enfatuado Gama Fernandes, que nem os próprios correligionários tomam a sério, conseguiu em 1974 a administração de um Banco estatal e apenas em quatro ou cinco anos logrou uma reforma choruda. ” (pág.ª 266);
PPM - “os monárquicos não passam de uma anedota” (pág.ª 290);
PCP - “Apesar do repúdio da grande maioria do povo português, apesar do combate aberto em que se empenhou a Igreja, apesar da dispersão resultante de grupúsculos à sua esquerda, o Partido avançou, coeso, disciplinado, doutrinado, e conseguiu um milhão e cem mil eleitores com uma representação de quase cinquenta deputados. É inquietante.” (pág.ª 290);
Soares Carneiro - “O homem é excelente, mas a manobra do Sá Carneiro sempre me pareceu mal conduzida e temo que a A.D. se espalhe nas eleições presidenciais.”” (pág.ª 307);
AD - “apesar de tudo, torço pela A.D. …” (pág.ª 307);
Sá Carneiro - “Vejo que o Sá Carneiro é nessas coisas mais autocrata do que o próprio Doutor Salazar.” (pág.ª 307);
Francisco Balsemão - “Aqui tive notícias do Francisquinho Balsemão, mas só pelos jornais. Bem pobre é a matéria-prima em Portugal, para se recorrer a tão medíocre mensageiro.” (pág.ª 315);
Marx (e marxistas) - “É curioso que o Marx tratou com o maior respeito e inteligência a Idade Média, e cada vez que leio O Capital, mais consideração tenho por ele e menos pelos marxistas.” ” (pág.ª 317);
Veiga Simão (palavras de JVS indirectamente citando MC) - “Entre as razões apontadas [para não regressar a Portugal – nota do cronista] dizia não querer encontrar antigos colaboradores, como o Prof. Veiga Simão, por quem sentia o maior desprezo.” (pág.ª 343);
João Soares- “O João Soares, pai do Mário, foi realmente padre (e capelão militar) e nessa condição teve o primeiro filho, ao qual pôs um nome de que só um padre se lembraria: Tertuliano. Este foi meu amigo, era um excelente clínico e nunca embarcou nas ideias do mais novo. ” (pág.ª 347);
Mário Soares - ”sinistro” (pág.ª 361);  (…) “foi um aluno mediano, mas cumpridor. Já então usava do discurso fácil, só que o estudo do Direito exige estudo atento e adequada disciplina mental. Continua hoje a prometer o que sabe não poder cumprir, deliciado com os riscos da manobra política. (…) O Soares pode com o ardor tribunício convencer um parlamento, mas nunca será um homem de Estado. Não tem dimensão nem estrutura para esse papel que julga estar ao seu alcance. (…) Bem vê, não basta apertar a mão ao Mitterrand ou almoçar com o Brandt para se possuir estofo para governar Portugal. (…) nunca precisou de trabalhar, porque o pai se incumbia de o fazer no colégio que tinha em Lisboa. Foi sempre o que pode chamar-se um menino rico. (págs. 332/333);
Álvaro Cunhal - ”Goste-se ou não dele, é um homem de inteligência superior e que tem uma visão messiânica da vida. O Cunhal está convencido de que pode recriar o mundo, mas esquece-se de que milhares de gerações passaram e outras hão-de passar e o mundo há-de continuar com os defeitos que são inerentes à natureza humana.” (pág.ª 332);
Finalmente, ao “menino rico” Soares e ao Cunhal “filho de um advogado com dinheiro”, MC contrapõe-se a si mesmo na companhia de Salazar: “Quem devia então sentir complexos de classe? Eles ou o Doutor Salazar e eu, que viemos da humildade da terra e somos, na realidade, filhos do povo?”
Leia tal livro o meu Leitor. Ou tão-só esta crónica. E por si pense no que leu. E que depois responda como muito bem quiser e entender, sem porém esquecer-se de que foi pelo megafone de um tal Salgueiro Maia que até Marcello Caetano arranjou maneira de exprimir-se livremente.
  



quinta-feira, março 26, 2015

Na morte de Herberto Helder, o Rosário Breve n.º 400 - in O RIBATEJO de 26 de Março de 2015 - www.oribatejo.pt






Morreu Helder, viva Herberto
(1930-2015)




1
Nas fêmeas envelhecidas revejo a minha extinta Mãe.
Como Francisco de Assis, amantes todas de animais – do animal da Morte sobretudo.

2
Consta que o mais veloz ser do mundo é o falcão-peregrino. Em voo-picado, já 400 km/h lhe cronometraram. Pobre equívoco de ornitólogos e velocistas: nem maior velocidade nem mais brusco voo há que o da humana vida.

3
Leitor, és ledor: vedor de águas subterrâneas. Ou de freáticos sentidos ocultos. De bífido ramúsculo de oliveira nas mãos, busca o aquático veio da tua vida. Não está nos livros. Ou estará?

4
Em menino, breve rapaz.
Homem feito, grave rapace.

5
1930-2015: duas datas podem sumir, podem consumar, podem consumir – mas resumir, não podem.

6
Morre o homem, a Poesia dele fica: retumbante vitória fora de casa. Isto é e seja: fora do corpo. Finalmente. Final mente.

7
Não mais passos em volta. Não mais a cabeça entre as mãos. Nem depois da morte, como lho relembrou Ruy Belo. O futuro ganhou o direito a ser todo antes.

8
Bares anoitecidos como cerveja preta, marinheiros em terra esclarecendo a cálices de genebra a manhã enregelante. Placentas sem uso e preservativos por usar atirados ao lixo do amor-de-aluguer. O peixe vermelho-amarelo-preto. Nenhum Pã e nenhuma flauta. Camões a morrer de fome, Pessoa de sede, Herberto por estar na hora. Toda a gente com o seu empregozinho a ir-vir-ar-e-tornar de uma Cacilhas sem Ameríndias à gávea. Mas a Poesia na mesma. Mas a inelutabilidade dela.

9
Morreu o corpo-Helder: cinza reiterada. Persi’xiste o escriba-Herberto: glorioso maluco, sigilosa máquina voadora (falcão-peregrino, mãe de si mesmo). Não concedia entrevistas. Vistas, sim: todas. Interiores todas.

10
Todos seremos, um dia, uma sombra numa frase de alguém a nosso respeito. Ele, HH, não. Ele, uma luz sim. Vêde vós essas assisfranciscanas senhoras tão envelhecidamente amáveis para com os animais. Cabeça entre mães.
E Herberto em volta.
Ouvi-lhe os passos.


quinta-feira, março 19, 2015

Rosário Breve n.º 399 - in O RIBATEJO de 19 de Março de 2015








Santo da casa

É inelutável: com a idade, vamos todos volvendo-nos cacos arqueológicos que já só sonham com cola. É da lei natural, tal ocaso cerâmico. Não me queixo delas: nem da lei, nem da idade. No geral, sinto-me até sofrivelmente feliz da e com a vida. Entre o 11 de Junho do ano que estiver em curso e o nono dia do mesmo mês do ano seguinte, vivo em razoável paz com a minha arqueologia portátil. O meu único desassossego é cada 10 de Junho. Cada ano, e por essa data exacta, temo (e tremo) à força toda que o Cavaco se lembre de medalhar-me entre fachos de espada à cinta e come(nda)dores de lautos bolos pagos pelo erário dos tolos. Ou que, caco escaqueirado que cada vez mais sou, o senhor de Boliqueime me etiquete a lapela com um daqueles camafeus (para lhes não chamar broches, não os da oral sucção erógena mas os penduricalhos heráldicos) geriátrico-museológicos de que ele mesmo é já figurativo paradigma de não despicienda evidência.
O 10 de Junho patrioteiro é o Natal dos pançudos que sentem um nojo invencível pelos cristos esqueléticos. É a Páscoa dos imoladores de cordeiros em nome dos deuses de si mesmos. É o Ramadão do jejum dos outros. É a Torah dos mosaicos caça-níqueis. É o Carnaval dos Infiéis ainda não Defuntos. E é uma tragifarsa que me sarapinta a alma de uma invencível pitiríase versicolor contra que não encontro em lugar algum qualquer unguento de largo espectro de acção fungicida.
Pretendo, todavia, perorar-vos agora a propósito de algo bem diferente. De algo, não - de alguém.
Mais de seis décadas a fio, foi, sem metáfora, cerâmico. Pintor cerâmico. Invencíveis eram a finura do seu traço e a fineza do seu trato. A filete de ouro, debruava em perfeito torno circular o rebordo pousa-lábios da chávena de fina faiança. Esponjava a seco a puríssima e alvíssima nuvem branca no céu azul(ejo). Agnóstico por lucidez, a chacota ou sobre vidrado gravurava painéis em que pontificavam os santos simples e humildes tão ao gosto dos crentes humildes e simples também: São Pedro com suas chaves, D. Fuas acossando o veado, Santo António reparador de bilhas e de hímenes, a Rainha Santa prestidigitadora de pão e rosas, o São José a fazer de padrasto manso, a Sãozinha da Abrigada, o mansarrão Padre Cruz, o Irmão Doutor Souza Martins dos milagres de cera e mármore cuja estátua ainda hoje pontifica no olissiponense Campo de Santana, hoje dos Mártires da Pátria.
Nenhum 10 de Junho, muito menos Cavaco algum, o poderia macular, a esse operário-artista, de falso preito o peito. Nunca.
Esse pintor era o senhor Daniel. Meu Pai. A morte dele escaqueirou-me, é verdade. Mas a memória dele é a minha cola de cada dia. Por quanto neste mundo é sítio, é por senhor Daniel que hoje a mim me tratam.
 Por isso lhe escrevi isto:

O senhor é o meu Pai.
Nada me faltará.