quinta-feira, fevereiro 12, 2015

(SONETO EM) OFERENDA - Leiria, tarde de quinta-feira, 12 de Fevereiro de 2015




O sol português resiste ao frio februário.
A calma excede da pré-morte a ânsia.
O olhar singra pela luz em estuário.
Agora o longe não se faz distância.

Poucas pessoas, muita área, todo o ar.
Venéreo seria, e venal, não aproveitar
o instante em-vivo, instantâneo
ideário que bem usa o momentâneo.

Vamos indo. É devagar. Um pouco mais além,
flores que eu colheria & daria à minha Mãe.
Como quem daqui é & daqui não sai,

nuvens de branc’azul(ejo) propícias a meu Pai.
Calma. Tenhamos ao menos, por merenda,
tanta vã ideação, que não vã oferenda.

Rosário Breve n.º 394 - in O RIBATEJO de 12 de Fevereiro de 2015 - www.oribatejo.pt

A cera não é ruim, o defunto é que sim

Um país de pobres desgovernado por miseráveis – conheceis algum?
Eu, sim. E não queria.
Conheço um onde a vozearia é muito mais iracunda e a revolta muito mais veemente quando um qualquer padre é trocado por outro padre qualquer do que quando o posto de saúde, os correios, a escola, o tribunal e a própria junta são encerrados até (nunca) mais ver. País-carapau, que só assim faz escabeche.
Uma cidade capital de distrito (e de província) inçada de lixo e de contentores de recolecção estripados à maneira de fins de acampamento de rave – conheceis alguma?
Eu, sim. E não queria.
Conheço uma que Garrett imortalizou, por exemplo. E não sei se o mesmo hoje faria, ele, a tal morredouro de miasmas.
Tal país e tal cidade parecem andar e trazerem-se a si mesmos num virote esquisito. Varrer as respectivas testadas é coisa que nem esta nem aquele fazem. Nem à chicotada. (Da psicológica, claro, que da outra nunca a demos a sério, isto ainda não é a Arábia Saudita e as sanzalas ultramarinas há muito as extraviámos.)
Qualquer antístite, mesmo o mais reles, é gajo para abichar sem esforço mor os cimélios da parvónia – digo-o assim porque ando a ler o santareno Veríssimo Serrão tão saudoso de seu Marcello exilado, rebate lhe(s) dando o coração contrito.
Eu nem quero imaginar o que não faria uma Suíça, por exemplo, se lhe dessem nem que fosse uma só légua de litoral do nosso. Um Tejo destes adentrando as primícias do Atlântico por quanto é regadio, lezíria, sequeiro, céu até. E se esses acantonados e multilingues helvéticos relojoeiros/queijeiros/banqueiros pudessem dispor deste sol sem neve de quase todo o ano incidindo a pique sobre planuras tão mais úberes quão mais desertadas? Não quero imaginar. O que damos à Suíça é emigrantes de não-retorno e porrada no hóquei-em-patins (mais daqueles e menos desta, aliás).
Venho há uma vida gastando despicienda cera com o ruim defunto que, todavia, me é, no (des)concerto das nações, o único que alguma vez me interessou, interessa e interessar há-de – Portugal. Portugal e o Ribatejo dele, já agora. Continuarei tal gasto, bem no sei, desgastado e desgostado, mas exalçado sempre por (in)certa íntima obstinação a que só não chamo patriótica por poder ficar, hoje em dia, malvisto com o epíteto.
Não frequento doutos grémios. Nem subidos sinédrios. Nem vou, sabido, à TV parecer sabedor – gosto bem mais de iscas com elas e de ginjas idem.
Vou mais pelo escalpelizar da pública coisa atoardando indignações miudinhas de cigarra farta de ser formiga.
Terçando armas pela Língua – é ver o estropiado idioma com que a mais soez ignorância escreve, às costas e a pretexto do execrável AO 90, os rodapés dos telenoticiários e demais imundícies afins.
Objurgando o fedelho que fizeram, primeiro, cola-cartazes, depois assessor, depois (tumba!) edil e/ou, até, ministro da Relespública.
Exprobrando a demora inaceitável da adjudicação do Ministério da Saúde, no seu todo, à confederação nacional de agências funerárias: pois não é ele o mais ingente gato-pingado que por aí negreja o mais negregada, o mais mórbida e o mais mofinamente? É. É pois: legionella, urgências, hepatite C em infindo e cursivo etc.
Increpando a emanação morbífica da mui bela, mui antiga e mui mal empregada Scalabis, cuja multissecular vetustez merecia (e merece) outro futuro. Ou outro galo no campanário. Ou outro povo cá em baixo. Ou, pelo menos, menos lixarada por tudo quanto é canto, chiça.
O meu único receio é ainda vir a ficar reduzido, uma destas quintas-feiras, a um qualquer insensato atirador-não-furtivo de geriátricas verborreias, à imagem daquele pantafaçudo peregrino do 44.
Pode ser que não: ser pobre não é o mesmo que ser miserável.
Assim sendo, que nunca me/nos falte a cera.  





quinta-feira, fevereiro 05, 2015

Rosário Breve n.º 393 - in O RIBATEJO de 5 de Fevereiro de 2015

Quem Disse

O homem vestido de escuro surgiu como uma exclamação muda na chuva da tarde. Contornou a esquina, parou em frente ao contentor municipal, remexeu a camada superior do lixo. Não encontrou o que procurava. Virou costas ao lixo, deixou-se molhar minutos e mais minutos. Tinha um chapéu escuro. Tinha uma boca fina e horizontal de travessão de diálogo com ninguém. Era só um homem vestido de chuva na tarde escura.
Recupero hoje essa visão violenta. Senti, então, uma mesquinha misericórdia. Também, às vezes, sou cristão sem querer. Depois, critico-me com aspereza. Pena por quê, para quê, por alma de quem? Por nada, para nada, por ninguém. Havia o Café amarelo ali perto. Eu tinha já estes quase tantos anos. Acampei na mesa junto ao aparador (guardanapos dobrados, talher, cesto da fruta, palitos, tintos e brancos, galheteiros, pratos, sal & pimenta, extintor). Tirei a única certeza. O caderno. Então, o homem da chuva continuou.
Era um homem vestido de escuro na tarde de chuva. Ele procurava. Não estava no lixo o que procurava. Estaria alhures. A chuva desalmava até a respiração, a água babujava nas sarjetas entupidas, niquelava nos pátios abandonados o folhame dos plátanos senhoriais, fazia do ar uma grade sem limite nem sentido. Era o céu desabado, toda a tristeza do mundo. O homem saltou o muro da casa abandonada, dirigiu-se ao plátano maior e remexeu a terra. Não encontrou o que procurava. Ali o deixei por instantes.
No Café amarelo, atento às moscas refugiadas, cocei a mão esquerda com a direita, ouvi os impropérios do rapaz reformado aos 27 anos por pancada mental, dei-lhe um cigarro e agarrei-me ao caderno enquanto o desespero me colava à boca a fita de goma do costume. Não dei atenção ao desespero. Um homem é um homem.
Um homem vestido de plátano procurava uma coisa na chuva. Saltou o muro, abandonou o quintal abandonado, foi pela calçada foi pela calçada foi pela calçada até que chegou à parede onde luzia a santa do mesmo nome. Era um nicho ogival onde tinham embutido a santa. Duas velas ardiam dentro de água: os olhos do homem escurecido. O homem olhava a santa, que olhava o homem. Tremendo duelo de almas.
Nessa altura, eu procurava moedas nas calças. Estavam no casaco. Fizeram-me a conta, paguei e saí para a chuva que aluminiava o mundo como o mundo era essa tarde. Não foi assim há tanto tempo. Já era, suponho, o futuro.
O homem tinha deixado a santa entregue ao martírio afinal benigno da solidão. Ele era agora uma interrogação oblíqua parada em frente à montra da loja dos rádios. Olhava os aparelhos japoneses. Não era isso, nem a santa, o que ele procurava. Era outra coisa.
A mesma coisa me esperava à saída do Café amarelo. E era a vida. A vida era tarde, já então. Esquerda ou direita, igual. Subi a calçada de pedra subi a calçada de pedra subi a calçada de pedra até que cheguei ao bar de putas. Estava fechado. Quando um homem vai a um bar de putas e o bar de putas está fechado, alguma coisa se desacertou sem remédio na vida desse homem.
Esse homem já não era perante os rádios, tinha seguido pela tira de terra e cacos de tijolo que leva à via-férrea. Por aí eu fui.
O homem esperava o comboio. Tinha desistido de procurar o que procurava. Toquei-lhe com a mão direita, a que escreve, no ombro do mesmo lado. Ele virou-se:
– Finalmente. Andava à tua procura. 
Disse ele.
Disse eu.



quinta-feira, janeiro 29, 2015

Rosário Breve n.º 392 - in O RIBATEJO de 29 de Janeiro de 2015




Dica da semana

Todos os dias os vejo: aos homens de já descriada idade atulhando de publicidade não endereçada as bocas de correio dos prédios. Não puderam e/ou não quiseram salvaguardar-se da penúria. No outono da idade, dão de si & por si propagando prospectos de “mestres” africanos, de “massagistas” brasileiras e de afins subprodutos, ou escombros, ou despojos, ou escórias, do alegado “Império Português”. Os ociosos de esplanada como eu são por eles mirados à sorrelfa, ciosos dos cigarros fáceis que fumamos e dos cafés perfumados de aguardente com que ilusoriamente adoçamos o desbaratar da (nossa, do lado de cá) vida.
Aos domingos, no entanto, em vez de a eles, assisto às parelhas de mulheres de já descriada idade que, munidas elas também de prospecta literatura que ninguém pediu nem quer, teimam em jeovandar caducos evangelismos sem ortografia nem esperança por essas campainhas insones.
Os prédios são os mesmos. O resultado, também.
Em verdade V. digo que me sinto companheiro, tão destas como daqueles, em má fortuna & pior ventura. Há anos que também eu ando neste negócio (aliás crónico) das mèzinhas contra o particular mau-olhado, o pé-chato da inveja, a psoríase da alma, a amarração infiel & a despolítica geral. Sim, também eu violo, no caso dos assinantes do Jornal, as frinchas virginais das caixas postais.
No gasto da tinta, esvai-se-me a mocidade física, que revérbero foi já noutros lustros e em lustres outros. Na usura do papel, descriou-se-me, a mim também, a sacanita da idade, sedimentando-se-me no palato o salitre equívoco de tanta oportunidade perdida.
Ao espelho, todavia, isso Vo-lo garanto também e com alguma soberba até, ainda faço, de quando em vez, as pazes mansas comigo, mercê da seguinte síntese zoológico-geométrica: besta-quadrada que ao menos de si mesma ri, com gosto quase até. E só não me dou de fuças como pedaço-de-asno por deveras ser o asno completo.
Não me inscrevi – prescrevi.
Não tirei cartão – nem o passei a ninguém.
Não creio em Deus – nem Ele em mim,
Não fui a tempo – mas o Tempo veio-me.
Está certo assim. A pessoa é, de si, o preço que por si mesma paga, ainda que o não valha.
A sequência é a consequência.
O remédio, porventura, estaria em nascermos todos com a idade daqueles homens e daquelas mulheres que, uns, nos dias úteis entopem as caixas de correio, e que, outras, ensurdecem as campainhas doménico-matinais. Nascermos já madurotes e, desse ponto aí então, rejuvenescermos à força toda de cada dia anversamente revertido, decrescendo em altura atlética e em sombra cismática.
Até que mais nos não pudessem pedir do que fôssemos, apenas, brincar – coisa que, aliás, não parecemos ter senão feito a vida toda, a julgar pela caixa do correio. 

quinta-feira, janeiro 22, 2015

Rosário Breve n.º 391 - in O RIBATEJO de 22 de Janeiro de 2015 - www.oribatejo.pt

Terá parentes idosos sem saúde o senhor ministro da Saúde?

Até aos nossos tristes dias, os idosos pobrezinhos de Portugal não tinham onde cair mortos. Agora já têm: é nas urgências hospitalares, esses brancos matadouros da contemporaneidade. Esperam e recebem a morte ao abandono das macas dos bombeiros, vá lá que agasadalhadinhos e venha cá que com direito a chá mijão e a bolachas de cianeto.
Cá fora, os órfãos desses velhos despojados de toda a esperança e de toda a dignidade sempre têm direito, pouco depois de cada passamento, a quinze segundos de fama nos telenoticiários, à maneira dos “talentos” instantâneos que a hílare Teresa Guilherme garimpa a preceito rasca aos monturos.
Logo de seguida, a prestidigitação dos cultores da Estatística (essa arte da mentira matemática) enleva-os (aos mortos e aos órfãos) de cerúlea (que é o azul do Céu) misericórdia, lustra-os logo do áureo esmalte da fatalidade, banha-os de pio sebo cristão, unta-os da mais chilra água-benta à beira da fervura das lágrimas crocodílicas, logo os ungindo, enfim, de um seráfico esplendor que lhes fica, precisamente, a matar.
Eu já não consigo ter muita pena dos pobrezinhos de Portugal que, à asneira de aqui terem nascido, somaram o disparate de se terem deixado envelhecer cá. E não consigo ter muita pena deles porquê?
Porque a) sou ímpio; e b) foram eles a votar c) nestes que lá estão; d) naqueles que lá estiveram e e) nos homólogos de c) e d) que lá hão-de estar.
Nos entrementes, dez metros a estibordo da minha caligrafia, uma bonitíssima velhota marca presença e dá sinal de vida. Está no passeio frontal da pastelaria à espera do marido, que foi ali num instantinho à Caixa transferir uns patacos-SOS aos filhos divorciados e sem emprego nem uso que tem ó-tio-ó-tio em Lisboa. A senhora apresenta-se enroupada de abafos nacarados como o dentro das conchas. Sopra os dedos enregelados das mãos. Sei que lhe apetece o chá-das-cinco. Voto na esperança de que o marido (que roça já, como ela também, as oito décadas de nascido) se não sinta mal de repente enquanto espera vez para o caixa. Porque esta terra tem urgências hospitalares: esses brancos matadouros etc.
Nota: o senhor ministro da Saúde está, à hora a que V. escrevo, de visita ao morredouro hospitalar local. “Reunião de trabalho com a administração”, parece. Ao que sei, o senhor ministro da Saúde é um patusco bem assalariado. Tem motorista, isso também sei. E alcavalas de mordomias inerentes ao cargo, claro. Não sei é se tem parentes idosos. Ou se, tendo-os, estarão ou não eles bem de saúde. Oxalá que sim. Devem estar. O mais certo é que, em caso de indisposição súbita, não tenham de penar odisseias de infindável espera multi-horária nos calabouços esfregados a lixívia, a creolina e a ácido fénico das unidades médicas. Um parente-ministro sempre é um ministro-parente, caraças.
Escrevo isto sem me rir. Nem me importa que o senhor ministro da Saúde venha ou não venha a ler este desarrazoado chorincas meu. Eu escrevo para toda a gente, mas não é com toda a gente que falo. Com o senhor ministro da Saúde, muito menos. Também tenho os meus pudores. Também sou vulnerável à ira e à indignação. Também me canso. Também me couraço. Também me blindo. Para mais, os meus Pais já morreram. Estão safos do corrente genocídio português.
O problema é que caminho para velho. Uso o meio-capote que o meu Pai me legou, como naquela história que V. sabeis. A vida sabe-me na boca a noite fria mais vezes do que o recomendam a posologia medicamentosa e a sensatez existencial. E sim, confesso ter receio de que o senhor ministro da Saúde me queira mecanografado nas estatísticas dele. Que é como quem diz: no seu obituário economicista anti-pessoas e anti-direito à vida.
E que, portanto, eu ainda acabe por demitir-me de tudo primeiro do que ele do dourado lugar que ocupa, ele o senhor ministro da Saúde, a quem tal mortandade geriátrica deve incomodar tanto quanto a mim a boazona da Irina ainda namorar ou já não com o tão jovem e tão saudável e tão bonzão Melhor-do-Mundo.


quinta-feira, janeiro 15, 2015

Bruno Oliveira lê a 390

O meu duas-vezes-parceiro Bruno Oliveira (duas vezes porque: 1- é do Jornal O RIBATEJO como eu sou; e 2- porque é de apelido arbóreo como eu) tem-se dado à carinhosa (para comigo) trabalheira (dele) de produzir leitura e som das minhas crónicas. Voltou ao ataque esta semana. Partilho, a ele muito grato por ter dito e a vós por ouvirdes.
http://www.oribatejo.pt/2015/01/15/a-toujours-comme-tous-les-jours-com-audio/


http://www.oribatejo.pt/2015/01/15/a-toujours-comme-tous-les-jours-com-audio/

Rosário Breve n.º 390 - in O RIBATEJO de 15 de Janeiro de 2015 - www.oribatejo.pt

À toujours comme tous les jours

Bruma e geada cingem a respiração em andamento. Uma pessoa vem por beira-rio, está frio, é tempo dele, as botas escrevem no chão o dois-por-quatro do caminho, sabe bem devolver em vapor ao ar o que dele veio em gelo. Com alguma sorte, é-se tão natural como cada signo do dia novo: os próprios braços como os das árvores, a água na boca como a do rio persistindo ambas em chegar um dia ao mar, a fervura do cartoon do pensamento como o desenho-animado do vento nas coisas volúveis, volantes coisas, venais é que não. A hora não é de relógio, a manhã não é de calendário: outra coisa serão, outro sentido terão, ser nelas é quanto basta. Para já.
Chega a pessoa ao balcão da Ermelinda, já ela lida trapos e vidros, da máquina-cafeteira silva o nevoeiro cálido, pelo chão a serradura fresca espera a cuspidela dos de mais brutos modos, desligada da ficha a arca dos gelados espera o Estio e a criançada colorida dele, sabe bem apear o bornal, sabe bem hastear os bons-dias aos congéneres de Língua e Pátria que vêm ao mesmo, a Ermelinda servindo a cada um o necessário sem perguntar o quê a quem, longos anos num gesto resumidos que é serviço e (re)conhecimento do Outro.
Lá fora, a música do mundo afina seus naipes: as ovelhas-chocalhos, os pardais-apogiaturas, o sacristão-badalão, a prata barroca do fontanário perpétuo, a trompa de ter nascido e mesmo assim o sol vir assim mesmo. Ninguém faz por pôr o seu deus, se algum, à frente dos outros na bicha do Paraíso, se algum, muito menos alguém se lembra de matar o próximo em nome do longínquo, a Ermelinda é que sempre diz que o negócio de cada um não é a venda de todos.
Casados no palato o figo e a aguardente, agora sim, agora é hora-número, o dia é já qualquer-coisa-feira, o trabalho não azeda, vai o mestre da escola para a escola, o da oficina para a oficina, o da muita terra para a leira, o do pouca-terra para a estação, o das cartas para o correio. Ranchos de mulheres algaraviam o perpétuo interesse da vida a caminho da fiação. Guincha o postigo meio-corpo do sapateiro. Trissa altíssimo o manicómio feliz da passarada no plátano grande do rossio. Fico a sós com a Ermelinda, que confia na honestidade da minha solidão para ir ali num instante ao peixe e aos jornais, olho a repetição de cada mesa à espera da novidade do fantasma, vou abrindo o bornal, tirando dele o lápis, a caderneta para que copio as coisas importantes, dessa “suprema importância que passa no dia seguinte” anotada por um tal Pessoa, pessoa que também gostava de aguardente, de figos não sei, de figos gostaria Caeiro, se algum.
Boa coisa: à volta da Ermelinda, quase sem quê e de todo sem para-quê, tenho a crónica feita. Ajunto caderneta e lápis de retorno às entranhas de pano do saquitel, engulo uma para o caminho (bebe muito a pretexto de si mesmo, o sacana do caminho) e é já quando devasso no pórtico as fitas verticais contra o mosquedo que, ao meu Até-logo-Ermelinda, dela ouço esta bonita coisa:
– Até sempre, Charlie.


quinta-feira, janeiro 08, 2015

Rosário Breve n.º 389 - in O RIBATEJO de 8 de Janeiro de 2015 - www.oribatejo.pt

Abrunheiro enTVIstado (também)

Nota prévia: integro em segredo (até dizer isto) uma pandilha em rede e-mâilica que se dedica ao duplo tráfico de fotos de gajas boazonas todas nuas & de bocas anti-Sócrates. Tanto estas como aquelas nos fazem ficar, a mim como aos meus associados, a modos que aquilo dos calções da estátua do CR7. Calculai, pois, o espanto dessa minha secreta maltosa quando isto (a seguinte enTVIsta) sair a lume público. Vamos a ela:

Foi confrontado com provas pelo juiz Carlos Alexandre?
Vejo que não leu a “nota prévia” ali em cima. O juiz Carlos Alexandre é homem. É homem e não se chama Sócrates. Ora, eu é mais gajas.
Que tipo de gajas?
Tipo todas. Estou numa idade de mais caroço do que polpa. Tenho uma próstata que ainda não brinca em serviço. Por isso, é mesmo tipo todas que estejam à mão-d’inseminar, se bem me compreende.
Como encara o que está a acontecer e o que tem sido publicado?
Faço de conta que não é nada comigo. E é que não é mesmo. O que tem sido publicado é mais João Baptista & Bruno Oliveira. O Joaquim Duarte é mais o Editorial e ver se ficou alguma luz acesa às quartas no fecho do fecho. Não, nenhum destes três é da tal minha pandilha na net.
E os outros colunistas?
Ainda bem que me pergunta isso. Esses é que deveriam estar todos na preventiva. O Beja Santos por ler mais livros (mas ler mesmo) do que o prof. Marcelo. O Eurico Heitor por andar sempre a pôr Tomar nos píncaros e Abrantes na mó de baixo. Os Fernandes Pai & Filho por andarem a desassossegar (outra vez) o general Eanes. O Luís Eugénio porque sim. O Maia dos cartoons porque também. E o Arnaldo Vasques idem aspas para não se ficar a rir dos colegas.
O Carlos Cruz não?
Esse não porque eu gosto muito de ir a patuscadas com ele. E por ser ele a trazer-me, à Perna, umas malas bestiais lá dos Brasis e das Áfricas onde anda sempre metido a fazer e(t)nologia.
A tal sua pandilha e-mâilica inclúi alguns dos senhores acima nomeados?
Não, nenhum. O Maia ainda quis pertencer, mas eu disse-lhe que não porque gajas desenhadas não fazem saltar o rebite ao pilar. A gente é mais fotos com elas descalças até ao pescoço.
Então, se o acervo é fotográfico, o Zé Freitas e o Tó Vieira se calhar são…
A menina não se ponha com reticências maliciosas. Nenhum deles pertence àquilo. São os dois fotos sim senhor, mas o Freitas é mais pássaros, não o feminino deste plural; e o Vieira quer é surf: as pranchadas dele são mais de Peniche à Nazaré.
Você é comunista?
Olha-m’esta… Não senhora, desde que morreu o Eusébio, fez agora um ano, que nunca mais fui.
Eu disse “comunista”, não desse tipo de encarnado.
A menina desculpe, mas é que voltei a abusar um bocado dos copos desde que o Salazar morreu.
Morreu mesmo?
Quem, o Pantera Negra ou o Botas? O Rei infelizmente sim. O outro, isto nunca se sabe. É ver o prof. Adriano Moreira, que anda ali como se não fosse, ou não tivesse sido, nada com ele.
Um apartamento em Paris é um dos seus sonhos?
Já foi mais. Eu agora é mais sonhos com gajas, não sei se já lho tinha dito. Assim tipo a menina.
Esteja qu’eto co’ rabo e diga-me: não considera blasfémia tanta graçola relativa à ‘geminação’ de Évora com a Cova da Iria?
Acho. Mas olhe: o pau carunchoso é pau na mesma, seja para fazer colheres, seja para fazer santos. É como o papel na rotativa: tanto dá para fazer um jornal a sério como para fazer O Mirante. A blasfémia é sempre coisa muito relativa.
Muit’òbrigadinha. Penso que está tudo. Já agora, sabe de algum tasco por aqui onde se coma bem e barato?
Isso é mais com o doutor Fernandes sénior. Mas o melhor é ir perguntar-lhe já ao aeroporto antes que o bifem preso. Eu nisso do comer, sabe, eu nisso do comer é mais gajas. O beber pode ser sozinho. E não, eu nunca disse que o doutor juiz Carlos Alexandre era da minha pandilha. Dizer, não disse. A menina aceitaria que o Zé Freitas ou o Tó Vieira lhe tirassem umas pelingrafias em dia de calor?

quarta-feira, dezembro 31, 2014

A crónica 388 dita pelo Bruno Oliveira

Esta semana, tive a grata surpresa de ouvir a minha própria crónica (última do ano) em versão áudio produzida e gravada pelo Bruno Oliveira, companheiro e amigo meu e do Jornal O RIBATEJO. Quem a quiser ouvir ao mesmo tempo que lê (ou não) - aqui está.
Um abraço daqueles valentes, grande Bruno. Muito grato te fico.
http://www.oribatejo.pt/2014/12/29/rosario-breve-stock/

sexta-feira, dezembro 26, 2014

Rosário Breve n.º 388 - in O RIBATEJO de 25 de Dezembro de 2014 - www.oribatejo.pt

Stock

Não digo que seja total a ruptura de stock. Tanto, não digo – mas que seja indesmentível a vigente escassez de anjos, lá isso é e digo.
Há meses-anos na minha vida que não topo um. Perambulo muito à cata deles. Por vãos & por reentrâncias de prédios devolutos & de teatros sem actores, toco com a ponta da bota os hirtos corpos encartonados: volumes pessoais reduzidos a uma marca de frigorífico japonês. Gente, enfim: hirtos seres autodeserdados, tropa a que a vida, assobiando para o lado, estropiou sem solfejo nem grande remorso.
Antigamente, eu sitiava-os, aos meus anjos, sem acuidade nem esforço. Eles aconteciam-me. Talvez fosse da idade. Da idade deles, digo. Ou, digo, da minha, que nem idade quase tinha. Recordo aqui, e aqui o assento, aquele anjo do Novembro de 1981. Foi à saída do Teatro do Príncipe Real. Era um espécimen apardalado de figura. Magro, quase alto – e entre o cinza e o castanho: assimétrica envergadura – e molhado de pés como um veneziano sem barca. Cumprimentei-o sem recorrer a sílabas. Paguei-lhe um ponche quente no bufete do Teatro frio. Separámo-nos, depois, no vão das escadas da Previdência, ali-onde-ainda-agora aquele homem registava sociedades de totobola manuscritas a bic-cristal-cor-de-pombo e aquecia a frio o café-com-leite da solidão vitalícia em púcaro de folha sobre língua azul de gás-estearina. Esse anjo ainda me deu para alguns meses de consumo sem remédio: como o tudo o que se consome sem poder remediar-se.
Tive outros anjos entretanto-tão-pouco, valha a verdade. Por exemplo, aquele de coisa alguns anos depois de coisa afinal nenhuma, esse de um ano algures & alhures entre os nascimentos da minha Primeira e da minha Segunda filhas. Esse, sim: foi por um Outubro.
Apareceu-me ele no espelho do barbeiro – e era do meu mesmo cabelo que ele se perdia à lancetada bífida. Trazia ele consigo meio papo-seco de mortadela quase transparente, dessa que dão aos pobres às portas de Santa Apolónia, a Ferroviária, em desobrigas de catolicismo esmoler por calendário à hora-TV. E sim, o olhar dele tinia. Tinia coruscâncias à maneira das tesouradas recebidas em espelho: olhos que dava para escutar.
Eu cá por mim, ter tempo – tenho. Espaço para V. contar de muito(s) mais anjos é que não. Leitor meu: isto é só, e tão-só, uma página de jornal: só não é a minha vida. (A páginas tantas, é melhor do que a minha vida. Seja. Não discuto isso. Estou aqui mais por causa dos anjos que já não há. Ou que não hei. Ele há-de haver ainda alguns, que não sei eu?)
Alguma coisa sei. Vi a cabeleireira sair foríssima de horas sem ser por véspera de casamento. Ainda agora foi: uma reles terça-feira, reles antevéspera do Nascimento do Deus-Menino-da-Coca-Cola-Paz-na-Terra-Prometida-aos-Judeus-de-Boa-Vontade. Nove da noite. Dez euros por umas madeixas que até ficam mal à freguesa. Dizem até que o gajo dela (da freguesa) lhe bate. Mas o anjo de hoje: esse?
Parece-me tê-lo vislumbrado na fila do desemprego. Não o confundi. Os outros todos eram só gente. Desandei. Ele há menos gente do que anjos, se calhar.
Isto não anda fácil entre Novembro e Outubro.

quinta-feira, dezembro 18, 2014

Rosário Breve n.º 387 - in O RIBATEJO de 18 de Dezembro de 2014 - www.oribatejo.pt

Sou a favor de o Natal ser de graça

O Natal, dizes tu?
Entre os meus 18 anos e anteontem, sempre foi uma quadra porreira para borracheiras de porto em manhãs que acabam tarde às portas da noite, entre rapazes a quem também já morreu alguém e a balcões que ao contrário da nossa vida eram & são inoxidáveis.
Eu faço que gosto muito do Natal por ser a época em que ser bonzinho não parece mal. E por ser quando, à entrada do hipermercado, nos dão de borla um saco vazio da (ou como a) Jonet para à saída enchermos com ele os bolsos ao Belmiro.
Também faço que gosto muito dos peditórios ubíquos como a má-sorte & do chinfrim electr’altifalante por todas as ruas e por todas as praças sem excepção & das velhas evangelizadoras que manquejam os joanetes à caça do dízimo em nome do jeová brasileiro alternativo.
O Natal é perfeito para encontrarmos finalmente o sem-abrigo à justa medida do casaco de malha que a nossa ex-sogra nos deu há trinta anos ao mesmo tempo que dava um de camurça ao nosso ex-cunhado, soslai’olhando-nos trocista e sibilina como ridente víbora, a megera. (Também agora fica lá com a filha por remendar, anda.)
Ai o Natal, o Natal! É quando mais neozelandês me sinto, isto para V. ser o mais franco – rodeado de carneiros que votam como ovelhas e cheirando a lã cagada como eles & elas.
Tenho fingimento de pena, claro que sim que finjo que tenho, das divorciadas de perl’ágrimas marejadas por este ser o ano de o menino ir com o pai, maldita a hora em que me deitei debaixo dele, por sinal foi noutro natal, como passa o tempo, isto é ela a rosnar.
A quadra entristece-me um bocadito, confesso, porque o Governo nunca tem dinheiro que chegue para comprar neve suficiente a todo o País tal que todo o País se sentisse tipo postal lapão do Minho a Timor, digo: a Silves, gastam tudo sempre e só na Serra da Estrela, ao menos poderiam variar de níveo sítio cada ano, este ano por exemplo em Portalegre, para o ano em Abrantes para o doutor Consciência não se sentir tão só no solitário alpinismo que a assertiva lucidez crítica afinal é, no Funchal é que não porque eles estoiram tudo nos foguetes do fim-d’ano e em marinas de que o mar dá cabo há uma data de milhões de euros nossos. Isso e o ringue de patinagem do Terreiro do Paço ser de plástico como este ano se lembraram de fazer, deve ter cá uma piada tipo Malucos do Riso filmados na Síria à hora-de-ponta.
Confesso ainda: cada Natal, performo a minha imitação preferida. A minha imitação preferida tem imensa graça (não tem, Graça?) e é a Imitação do Meio-Peru. Resulta sempre, faz sempre rir muito, é muito barata e é a coisa mais simples de se fazer. Consiste nisto: não deixo que me matem mas deixo que me encham de aguardente na mesma. O dano colateral é começar logo, por causa de tanto porto prévio, a ver o tremeluzir das luzinhas antes de acenderem a gambiarra ao pinheiro.
O Natal, dizias. É aquilo dos jantares contrariados com a besta do chefe da repartição, com o imbecil do autarca amigado com a educadora, com o revulsivo sinapismo do actual companheiro da cataplasma de mostarda que a nossa ex-mulher é e sempre foi e sempre há-de ser, bem te lixas que este ano o Menino (percebeste a maiúscula?) é comigo.
Ou então, não.
Ou então, nada disto.
Digo: tudo isto na mesma, mas outra coisa ainda – remanescente, vera e de vidro daquele que não corta. Esta coisa assim:
Eu ter dezoito anos sem anteontens, ninguém me/nos ter morrido e não ser preciso nem porto nenhum nem aguardente alguma. Aí sim, o Natal seria e teria, Maria, outra coisa. Outra graça.
Não teria, Graça Maria?

quinta-feira, dezembro 11, 2014

Rosário Breve n.º 386 - in O RIBATEJO de 11 de Dezembro de 2014 - www.oribatejo.pt

Verdades simples 

Não é com peditórios à caridadezinha que se resolve a pobreza infantil. É dando trabalho aos pais.
Esta é uma verdade simples, dessas evidências que não precisam, para que a elas se chegue e a partir delas a algum lado se vá, das prévias descoberta do fogo ou invenção da roda. A realidade tudo faz, porém, não apenas por contrariá-la, como por repeli-la. Uma espécie de bebedeira ubíqua, oblíqua e iníqua entorpece os mandadores da finança, esse um-por-cento inquilino de palacetes prostibulares a partir dos quais se congemina e põe em prática a miséria multitudinária dos restantes noventa-e-nove.  
As fortunas colossais podem, titularmente, mudar de nome. A miséria é sempre Zé que se chama. Todos temos sofrido e sassaricado o triste carnaval radiotelevisivo expositor de miseráveis delinquentes atulhados de ouro de repente apanhados de botija entalada nas beiças borradas de caviar. Percebo que seja humilhados que se sintam. Percebo. É por causa de outra verdade simples, daquelas antigas que a sabença popular crismou: “Vergonha não é roubar – é ser apanhado a roubar.” Bem asseverou o grande Balzac que toda a grande fortuna está fundamentada num crime. Ou em muitos. Angola que o diga. Qualquer paraíso-off-shore-of-course que o confirme. Nós que cavaquistãomente o reiteremos.
Os bombeiros põem por nós as mãos no fogo. Pois põem. Daí, que fazem os canalhas? Compram submarinos.
A água é de todos e não se nega a ninguém. Pois é e pois não. Daí, que fazem os pulhas? Privatizam-na.
As empresas de serviço, interesse e património públicos são de incontornável condição estruturante da sociedade. Pois são. Daí, que fazem os caniches? Põem-lhes olhos-de-bico e mandam-nas passar a falar em mandarim.
A Língua-Pátria é o mais seguro capital simbólico e identitário do Povo. Ah pois é. Daí, que fazem os académicos falsamente diplomados? Aplicam-lhe o simplex ortográfico e fazem dela uma babélica vozearia de casa-de-alterne fundada em Goiás com sucursais em tudo o que for foral lusitano.
Além de tudo isto, há os eufemismos aldrabões com que os burrocratas da má-fé maquilham a realidade. Por exemplo: chamar “requalificação” àquilo que é nu e cru despedimento. Ainda na semana passada ouvi isto de um requalificado, perdão, reconduzido no cargo.
Como Sócrates (por exemplo ele) foi primeiro-ministro entre 2005 e 2011, o mais curial é explicar-lhe estas e outras coisas como se ele tivesse seis anos. É outra verdade simples, aritmética no caso: 2011 menos 2005 igual a seis.
Verdades simples. Não quero chamar-lhes solenes. (Mas são-no.) Solenes, só as missas e os embirranços. Como não frequento as primeiras, é solenemente que pratico os últimos. É talvez por a minha criação datar da época em que a ignorância se envergonhava de si mesma. Hoje, não. Hoje, a ignorância é curricularmente obrigatória. É arrogante. É afoita. É atrevida. É insolente. É governante. Superiormente lúcido, o grande Pessoa referia-se à “sinceridade” como “prática anti-social”. Para crescer sem ser a pulso na carreira, sim. De gentinha a gentalha, o passo não é muito largo. Falo desse tipo de gente que tem quatro pés e nenhuma mão – se não na anatomia, decerto na mente. (Que mente, mente sempre.) Subitânea, por súbita e instantânea; soturna, por solipsista e nocturna – a récua de bestas que nos espezinha e estruma a vida não tem de ser encarada e zurzida senão a chicote judicial legal e legitimamente brandido. No fundo como à flor, trata-se, quando e quanto não mais, da derradeira maneira de nos devolvermos, a nós mesmos, uma cara de gente, em vez de barbearmos ao espelho uma espasmódica carranca de chafariz mais própria de sofredor das tripas do que de portador de humano semblante.
Entretanto, Dezembro faz pela vida. Faz, não – vai à vida. Como à vida vão as 32 famílias dos recém-requalificados do Centro Distrital de Santarém da Segurança Social. Eu disse “Segurança Social”? Disse mal. Insegurança Associal é a verdade simples alternativa.
À caridadezinha, o menino-jesus medeia o burrinho e a vaquinha. Já o pagão pai-natal, de quem se não conhece nem mulher nem filhos, nos deve fazer concluir que o mais sensato ainda é irmos chamar Pai a outro.
Ou, como diria a botóxica Manuela Moura Guedes, anda uma pessoa a criar cães para isto.


quinta-feira, dezembro 04, 2014

Rosário Breve n.º 385 - in O RIBATEJO de 4 de Dezembro de 2014 - www.oribatejo.pt

Aviso

Para epígrafe de um caderno que há-de ser livro e que ando compondo desde o dia 13 do mês passado, elegi este trecho de Georges Duby (in As Damas do Século XII – 1, Editorial Teorema, Lx., 1996):
“Aviso desde já: o que pretendo mostrar não é o vivido real. Inacessível. São reflexos, o que os testemunhos escritos reflectem. Confio no que dizem.”
Mais a esta liça ajunto que: toda a vida fiz da atenção uma espécie de estúdio de fotógrafo verbal, desses de boneco-cavalinho pelas pagãs feiras santuárias da populaça, resultando na prática, a minha vida mesma, em um ror de mentiras – se não honestas e/ou piedosas, ao menos bem intencionadas, como é próprio dos infernos privados.
Ao atulhado logradouro de lembranças vou buscar ficções verídicas e inverosímeis no intuito da mistificação alegórica e pró-moral. Exemplo maior: morta a Mãe, finado é tudo o que for princípio.
Ao estaleiro da memória recorro a toda a hora, mormente quando anoitece logo pela manhã. Exemplo não menor: o meu Pai manquejando, como se o liso chão estivesse emboscado de invisíveis móveis irrequietos tropeçadiços degraus. Assim escrevo. Assim escrevivo.
A viúva que acaba de passar? – Manilha-de-paus com atavios de dama-de-copas, dessas que não raro desovam filharada póstuma bem para além das 36 semanas de regimental respeito ao falecido.
O ajudante de armazém importador de bananas com tanto quisto sebáceo na região demarcada do sovaco? – Estandarte vivo da Escrófula com que Deus Vosso Senhor intumesce os culpados relapsos de onanismo, esses punhetas ateus.
Aviso: não é que estas pessoas tenham, deveras, acabado de passar pela antecâmara do meu lápis fot’oftálmico – mas existem. À minha maneira, existem – como aliás também os anjos: só quem, pelo entardenoitecer do Outono, não foi dar aos patos fluviais uma última demão de pão velho os não sentiu. (Os não sentiu no olhar, que não pelos olhos, digo.)
De que trata, pois, o caderno-livro de que V. falo? De impreteríveis sedas & sedes, de espúrias espumas, do arco-da-velha-das-coisas, de cenas de uma violência extrema como por exemplo a epifania que toda a criança, mesmo alheia, é, de lances de censurável exposição sexual como ainda agora aquela nuvem missionariamente por cima daqueloutra (mas nenhuma nuvem, não importa, está-dito-está-feito-está-lido-está-vivido). Trata do antagonismo entre a luta e o luto. Fotografo estas povoações sem remédio mas com farmácia por que disperso a minha vida compendiável para além daquelas duas datas que sabemos.
No fundo como à flor, vivo de & para ninharias. Seja. Na dimensão daquilo a que à falta de melhor palavra chamamos Realidade, o que importa mesmo são os dois dedos manuais que um trabalhador perdeu de si em acidente laboral ocorrido no passado dia primeiro do corrente em uma empresa metalúrgica sediada em Celeirós, Braga. Isso sim. Isso é que é literatura. Eu sei. Nem sinto confusão, nem faço confusões – a mão doravante mutilada desse trabalhador conta mais do que quanta página eu seja capaz. Pois, nenhuma confusão. Exemplo: não confundo o Duarte Lama com o Dalai Lima. São carecas não mutuamente reagentes.
Fiquemos hoje por aqui. Está em curso a semana. São 7 e 19 da matina, tenho de apanhar o expresso das 8 e 20 para a minha terra, vou lá tratar de papeladas inadiáveis relativas a não sei quê (mas a quem, sei). Está frio. Levo o casaco mais pesado. Vou de botas.
Confio no frio. É uma espécie de pele de vidro. Tenho os dedos todos.

quinta-feira, novembro 27, 2014

Rosário Breve n.º 384 - in O RIBATEJO de 27 de Novembro de 2014 - www.oribatejo.pt

(ilustração gamada ao diário PÚBLICO)



Aquilo da gralha no livro da Eduarda Maio

A derradeira terça-feira do corrente Novembro amanheceu mais respirável. É talvez da barrela da chuva recente – ou será das notícias, que nem sempre são más ou reles?
O senhor Custódio parece mais ligeiro, dançarinos quási seus passos rumo à alfaiataria que de seu bisavô vem já. Nem o bisavô Custódio alguma vez facturou um milímetro de fazenda a mais, nem jamais o Custódio bisneto branqueou lã da Covilhã sem ser a giz macio.
A ti’ Pureza (que arrenda quartos mas o declara às Finanças) também apresenta hoje certa renovada seda-rosa na carita miúda e portuguesa. O sonho dela sempre foi estabelecer-se como porteira de prédio de luxo em Paris – mas Paris é chão de que roubaram as uvas.
O Raul Faquir Arrumador, que mama malvasias de manhãzinha como um campeão do santo-cálice (dizem uns que por desgosto de amor, outros que não, que nada disso, que é por amor & gosto à malvasia ponto-final), madrugou hoje de meia-de-leite & torrada-margarina nos queixos.
Os pintores por conta do Rafael das Obras desunham-se pró-terminação hoje-ainda-o-mais-tardar-ontem da empena principal da Junta de Freguesia, que há meses andam naquilo sem retoques finais à vista. E o Rafael desconta como deve ser para a Caixa deles e ajuda-os no IRS de cada temporada.
O tudólogo do bairro, por apodo certeiro Chico Corno, que mais fala quão menos sabe, à semelhança das comadres comentadeiras da trubisão, garante a quem o quer ouvir que “aquilo em Évora ainda é do melhorzinho p’ra preventivas cinco-estrelas, muita sorte teve ’inda o gajo de não ir para ao pé dos pedófilos e dos romenos”.
Por ser terça-feira de liga-dos-campeões, o Esteves Barbeiro só quer mas é que o seu/dele Sporting não acabe empatado como o Bloco de Esguelha. Corte por corte, à política e à ladroagem não liga pêva.
A Clotilde Viúva, que leva as cartas do tarot para o ioga na inquebrantável fé do monitor de reiki, é que está danada consigo mesma por não ter sido capaz de adivinhar o descalabro da preventiva do Coiso, ela que tanto se fiava nas procuradorias-gerais do laissez-faire-laissez-passer tão ao gosto dos apologistas do se-não-fosse-este-era-outro-qualquer-como-o-que-vem-a-seguir.
E eu, que gosto mais de biografias alheias do que da minha própria vida, eu unto-me de gozo por ter dito desde o primeiro dia que aquilo no título da Eduarda Maio era gralha grossa, que o correcto seria, e é, O Menino do Ouro, não de.
Entrementes, à flor viva do Rio, os patos gargalham mais alto – parece-me cá a mim que sim. A esquadrilha pombal, que sempre preferiu a migalha certa de cada dia ao improvável mi(ga)lhão da candonga peculata, ronda-me as botas à cata do honesto arroz-trincado e do honroso milho-partido com que há tantos anos celebro das aves a filosofia do sustento-de-cada-dia.
O único senão para todos nós aqui do Bairro 10 de Junho é não se ter ainda ouvido falar, pelo menos até ao meio-dia não, de submarinos. Ó felicidade passageira – és uma doca-seca.
Sentencioso, teixeiradepascoaesmente, o nosso decano, ti’ Abílio Cuco, a meio da taça de cevada é desta concisão lapidar:
Ninguém que trabalhe tem tempo para juntar 25 milhões. Que trabalhe. Honestamente. Ninguém.
Évora, pois. Para já e por enquanto. Ou por encanto, Eduarda.


segunda-feira, novembro 24, 2014

Rosário Breve n.º 383 - in O RIBATEJO de 20 de Novembro de 2014 - www.oribatejo.pt

Da iníqua alegria e coiso

No cubículo envidraçado a plástico que a gelataria berma-fluvial reserva aos fumadores, a uma luz-néon toda tela de Hopper, o rapaz cego lambe o seu cone de baunilha com uma bola de chocolate e outra de limão. A seus pés, o cão labrador que o guia, animal de negro cabelo lustral e muito limpo, carvão brilhante na cegueira de tanto néon. Mestre cicerone de seu amo, espera aos pés dele sem um monossílabo sequer, dando a ideia de poder fazê-lo para o resto da vida, isso de esperar por ele, sempre por ele e só por ele, mesmo que o cone de gelado venha a revelar-se, como a cegueira, infinito.
Eu sou o outro tripulante de tal nave. É pelo entardenoitecer. Já soprei o férvido abatanado, já queimei na boca um par de cigarros dos de enrolar, já me apeteceu ir de vez para a Noruega – mas fico mais um bocado. O que entretanto faço, é lapijar cifras para a crónica da semana. Coisas assim:
Antigamente, ao cabo do curso davam-nos o diploma, hoje dão-nos o passaporte;
Isto é um país de patetas que se julga de poetas;
Para que o raso aprisco suba a zimbório, há que ter locanda trepadora;
Dar um salto alto não é o mesmo que andar de salto-alto;
ABC – Angolanos-Brasileiros-Chineses: o Colonialismo Contra-Ataca;
Quem te visa, teu goldinimigo é;
Anábase da legionella político-financeira: ébola do regime;
Esquizofrenia geral dos colarinhos-brancos: o espírito santo a dar cabo do pai e do filho;
Em alemão, ‘Coelho’ diz-se e escreve-se ‘Kaninchen’: está tudo explicado;
Podridão: o meu País é Podregal;
Potamónimos da minha vida: Mondego, Ceira, Tejo, Vouga, Pavia, Lis, Vala do Norte;
Educação, Saúde, Justiça: três tiros no porta-aviões;
Impressionante, o que por aí vai de mortes agrícolas por causa da tractorose;
Demissão do ministro: mais vale sair uma tarde do que ficar o Macedo;
Esquisito, aquilo em Santarém: portuguesíssimos cidadãos e cidadãs normais que, correndo à noite por saúde, divertimento e convívio, se tornam ingleses de repente: midnight runners ou coiso;
Rapaz cego com cone de baunilha, labrador bonito a seus pés.
Nisto estou – e a crónica por fazer. No mesmo caderno, reencontro-me com uma citação tão mais perturbadora quão mais acertada: “"O futuro onde estamos tem a iníqua alegria dos sacanas.” (Rui Nunes o dixit, in Uma Viagem no Outono). Pois tem, senhor Rui. E a inócua tristeza dos acéfalos também. O autismo eufórico deles sacanas é mortífero. A gente vive por aqui um genocídio daqueles tipo devagarinho, género tristeza-pegada.
Lapijo ainda, ainda assim, um exórdio de diálogo cénico tipo ’tás-doidinho-ou-quê:
– Olá, sou o Virgílio das Éclogas & Bucólicas.
– Ora viva, sou o Fonseca dos Midnight Runners & Coiso.
Estou feito ao bife com sabor a petinga. Custam-me muito, os dias que não são terça-feira – porque é às terças que componho a crónica das quintas, por a terça ser o dia em que a minha vida faz algum sentido, uma vez por semana ao/ou menos. A jornada herdeira da segunda-feira torna-me benevolente e perdoável a ilusão de ser útil. Os outros dias encorpam o diabo do ócio involuntário, isso a que os sensatos chamam desemprego e a que o Passos Kaninchen chama oportunidade. É como se o horror vácuo dos domingos durasse seis dias de enfiada. Hei-de eu ainda, nesta vida que não há outra, lograr escrever como o meu Pai pintava e como a minha Mãe povoava a Casa? Não sei.
Sei tão-só que a metáfora de remate me esperava, fácil e justa, desde início: que por este morredouro de poe(pate)tas o mais é cegueira, o mais é ainda gelarmos de tanta espera, Mister Hopper.






quinta-feira, novembro 13, 2014

Rosário Breve n.º 382 - in O RIBATEJO - www.oribatejo.pt



Parabéns, pá

O nascimento público de O Ribatejo deu-se à luz no dia 8 de Novembro de 1985. Temos festiva data redonda no ano que vem, portanto.
Para a História relativa do jornal, este 29.º aniversário é de uma contemporaneidade triste: são estes os dias da famigerada legionella, praga que sem graça grassa por freguesias e populações de Vila Franca de Xira, nomeadamente Vialonga, Forte da Casa e Póvoa de Santa Iria. À hora a que escrevo (noite já de 11 do corrente, 96.º aniversário do Armistício de Compiègne, que, já agora, finalizou a I Guerra Mundial de péssima memória), são cinco os mortos e quase três as centenas de pessoas infectadas pela doença-dos-legionários. Suspeita-se que o maná desse mal provirá de uma torre industrial sita em Alverca. Vaporizada, aquófila e eólicotransportada, a bactéria não dá sinais de ficar por aqui, que é como quem diz por ali. O restante Ribatejo e o demais País esperam tão-só que a mortandade não cresça e que os internados convalesçam total e plenamente. Assim seja.
Quanto ao tal ano de nascimento do nosso Jornal, rezam as efemérides coisas notáveis. Nem efemérides seriam, aliás, sem notabilidade factual. Tenho carteira de exemplos.
No próprio dia 8/XI/85, o exército colombiano tomava à força o Palácio da Justiça, que os guerrilheiros haviam ocupado. Saldo: cem mortos. Seis dias depois, na mesma fatídica pátria do grande Gabriel García Márquez, dá-se a erupção de uma cratera (a Arenas) do vulcão Nevado del Ruiz. A consequente avalanche de lava, lama e rocha com 104 metros de espessura inumou a cidade de Arnero. Saldo: 23 mil mortos.
Esse Novembro/85 é também, e ainda, o mês da cimeira Reagan/Gorbatchev, na alegadamente neutral Genebra. (Fonte: Cronologia do Século XX, N. Williams, P. Waller e J. Rowett, Círculo de Leitores, Julho de 1999.)
Por cá-Portugal, o ano de 1985 é o da demissão de Mota
Pinto, a 9 de Fevereiro, da presidência do PSD, sucedendo-lhe no lugar aquele que é hoje (dizem) ministro dos Negócios Estrangeiros: Rui Machete. Duas exactas semanas depois, a 23 do mesmo mês, nasce o partido de inspiração eanista – o efémero PRD de neutra e/ou insulsa memória. A 19 de Maio, a rodagem do carro vale a Cavaco Silva o poder laranja, na Figueira da Foz. O Tratado de Adesão à CEE é assinado a 12 de Junho. A 25 deste mesmo mês, Soares dissolve-se de primeiro-ministro, fazendo o mesmo a Assembleia da República. Um exacto mês antes do primeiro número de O Ribatejo, a 8 de Outubro portanto, o PSD de Cavaco vence as legislativas com maioria simples, sendo posteriormente empossado um Governo minoritário. O ano contempla, ainda, a inauguração do muito comentado (e gozado) Centro Comercial das Amoreiras, em Lisboa, cidade em que se regista uma patusca série de incidentes relacionados com a exibição do filme Eu Vos Saúdo, Maria, de Jean-Luc Godard. (Fonte: Portugal Século XX – Crónica em Imagens, coord. Joaquim Vieira, Círculo de Leitores, Dezembro de 2000.)
Assentemos isto: O Ribatejo não nasceu sozinho em um nem para um mundo deserto. É texto com contexto, este menino paginado. A seu propósito, é curial a seguinte notação: 29 anos depois da primeira luz, a publicação teima na independência e no livre pensamento que a fizeram nascer. É um não-alinhado por natureza, por vocação e por destino. Tem (r)existido sempre, ventos vindo e marés subindo, outra arma não usando que a da liberdade responsável. A ética deste semanário, de mãos limpas sendo como é, nem usa luvas nem recorre a pinças. Talvez por isso pontualmente incomode certos sectores cujos factores (ou fautores) não gostam de espelhos, muito menos dos lavados.
Falando por mim só (que é aliás o que sempre faço, nesta página como em todas as outras da minha vida), eu cá acho mesmo a sério que O Ribatejo foi (Eanes que mo perdoe) o melhor nascimento do ano 1985 d.C. E o melhor renascimento de cada ano a cada aniversário, também.
Tudo o que sobredito deixo, vai e fica, por sincero e limpo, assinado com o nome que, por minha boa fortuna, herdei de meu Pai. 

segunda-feira, novembro 10, 2014

Entrada 56 do caderno 16 da série Leite dos Santos

56


Leiria, tarde de 11 de Maio de 2013, sábado




Um restolho carbónico de estorninhos ferve nata de sombra
em panorama de pinhal-barragem, certo dia além do Tempo
em que estou de pé no esquecimento como um crucifixo
ou um cão dos que aos donos ardeu a casa toda.
Quais duas jóias de vidro preto, as moscas zaranzam
no ar parado, o proboscídeo ar do Verão estancado.

Quando paro para reler a primeira estrofe do 56,
sorrio à evidência demonstrável de como
anda um homem a criar uma folha
ou uma falha
para isto.
Sendo isto

o trabalho dos armadores de ferro nas casas que começam,
algumas arderão de fogo vivo, outras do mero mortal Tempo,
príncipes que bordam o fundamento da cofragem,
um mês entre a Fontela e Vila Verde trabalhei com eles,
um deles ofereceu-me sopa da dele,
retribuí-lhe com um pedaço de queijo-ovelha-cabra,

conversámos na paragem de almoço,
pertíssimo o Mondego morria em pura glória,
pura glória é quando qualquer coisa em ti
se torna atlântica para sempre, qualquer coisa que,
como todos os do ferro, que não de ferro, sabemos,
dura pouco. 

quinta-feira, novembro 06, 2014

Rosário Breve n.º 381 - in O RIBATEJO de 6 de Novembro de 2014 - www.oribatejo.pt

Só meia boca esta semana

As chuvas regressam no dia em que dois dos meus últimos dentes naturais se avariam – parece-me que sem outro remédio que o de expor-lhes ao sol as raízes. Metade da boca fecha-se-me em si mesma, concentrada toda no intuito de não assanhar mais ainda aqueles dois focos de dor latente. A outra metade faz pela vida: por ela ingiro, por ela profiro, por ela não tanto me firo.
Enquanto isto, a bátega pluvial faz-se harpa no mundo visto desde o terceiro-andar do convalescente. O vento ajuda à festa do alumínio, vergando a cerviz dos choupos, tremulando a labareda dos cedros e descascando a sarna aos plátanos. Os carros patinham nos lagos instantâneos das rotundas. Como dedadas, as folhas mortas digitam os terreiros, juncam os pátios, acolchoam os bancos desertados pelos velhos. Os gradeamentos rangem aquele reumatismo tão próprio do metal exposto ao público. É tudo de uma beleza soturna: e menos soturna e mais bela seria, caso eu pudesse acudir-lhe com a boca toda.
Procedo portanto por estes dias ao mesmo a que procede o meu País: de traseiro sentad’oxidado, espero melhores dias. O televisor arde de manhã à noite como uma lareira fria. Por ele perpassam as mentiras eufóricas de Wall Street, as (ameri)canalhices do costume: os derivados, os lixos tóxicos, a Crise – e as suas marionetas do lado de cá do mar: a platinada Lagarde do FMI, o peixe-balão menos durão do que barrosão, o escol de bruxas & bruxelas que, sob a mentira nada pia da Democracia, fossam a ditadura de facto da miséria obrigatória, a começar pela moral e a acabar na dos vãos de lojas fechadas sob cartões frigoríficos.
Aproveito uma nesga de sol para me fazer à rua. Deixo amornar a bica, sorvo-a por meia beiça. Fumo pelo lado da boca como os pescadores dos postais ilustrados. Leio metade do jornal, presto metade da atenção à eterna repetição do mundo em diferido perpétuo. E é em unto de esperança de que não seja preciso arrancá-los que torno a casa a horas do antivinhótico e das papas-de-leite com poalha de canela.
Por há anos não ter em casa cão ou gato, fazem-me companhia o Jorge Jesus e o Crato. Por só a mulher ganhar para pão & tabaco, faz-me muita pena a pobreza do Cavaco.
Derivo pela habitação, por assim dizer, em éter: espero quem e o que não prometeram vir. Foi-se a nesga de sol. Enchumaçado a chumbo, o céu de noroeste indefere o esmalte das coisas – e o pombal de dias bons, hoje transido e famélico, recolhe aos nichos secretos onde a força aérea da passarada resiste à bélica invernia natural. Cerro os estores da sala, anicho-me na colcha pulguenta de há tantos anos ex-dentários e dormito como um idoso preso pelos arames das horas ao torno das décadas, sonhando-me nada menos do que Albarran-Homem-da-Embalagem-Prateada.
(Mas na verdade sonho mas é com nada.)




quinta-feira, outubro 30, 2014

Rosário Breve n.º 380 - in O RIBATEJO de 30 de Outubro de 2014 - www.oribatejo.pt

Pouca-terra

Sou maquinista da CP.
O meu Avô paterno foi da primeira geração de condutores de carros-eléctricos de Coimbra, vão lá já quase cem anos.
Eu fiz subir a fasquia dos anais familiares: os eléctricos, afinal, estão para os comboios como os legos da criançada estão para os tijolos a sério.
O meu Avô teria fartas, largas & sobradas razões para orgulhar-se deste neto. Só não se orgulha de facto por ser difícil o trabalho do orgulho ao cabo de 86 anos de morto.
A minha profissão reitera a vocação viária dos destinos: de apeadeiro em apeadeiro até à estação terminal.
Conheço as luzes na noite. Conheço a luz diferente que a noite é. Conheço o país dessa luz, esse país nem sempre lunar. Conheço os suicidas: o olhar aberto deles ante o touro da máquina.
Sei como verdade que é a máquina a locomotivar-se a si mesma, não passando eu de espécie, por assim dizer, de alfaiate eléctrico: o mais que faço, é estar atento aos botões.
Como de estrelas molhado o firmamento nocturno, de tíbias gambiarras as populações no veludo da ferrovia anoitecida: enfrento isso, guiador da férrea lombriga.
Já fiz muito regional, muito intercidades. Certa histórica vez, cheguei a fazer Espanha-quase-quase-França. Era no tempo das malas-de-cartão: hoje como bidonvillemente então, portanto.
Acordei vezes talvez de mais em dormitórios transitários da Companhia: mas o que é que na vida não é dormitar?, mas o que é que na vida não é transitar?
Os casamentos que contraí entretanto, à maneira de gripes periódicas, foram-se-me na pouca-terra-muita-areia do costume: marido ausente a horas certas só pode dar ou turnos ou cornos.
Coisas gastronómicas que por causa do meu ofício sei bem mais do que o gastrófilo senhor Armando Fernandes: o frango guisado com massa no Alfa de Alfarelos; as favas com presunto de Mangualde; o toucinho à Senhor Cristo do Barroca de Taveiro; a francesinha verdadeira de Campanhã; o panrico-com-margarina-de-sabor-a-manteiga-dos-ricos de Vila Franca das Naves; e a regueifa coimbrã que a minha ti’ Maria da Estação (Velha) de voz finíssima apregoava na mesma e exacta Coimbra-B do filme Capas Negras protagonizado pela divina Amália e pelo estentóreo Alberto Ribeiro.
Coisas oficiais, estas: entre mentiras crónicas (minhas) e alheios veros interstícios ferrobiográficos.
Sou maquinista da CP – é mentira.
O meu senhor Avô foi eléctricomotriz – é verdade.
E a linha CP de Santarém vai ser interrompida pelo motim histriónico que num momento de nervos o senhor Ricardo Che Gonçalves Guevara anunciou à Cidade & ao Mundo por causa das encostas-barreiras da capital do Ribatejo – é mentira. (Olha, Ricardito, vai-lá-vai, que os meus botões não contemplam travões.)
Os autarcas de hoje (não todos, mas tantos, lego de brincar por tijolo a sério) fazem muita palhaçada desengraçada, coitados. Corro-lhes os quintais e devasso-lhes os pátios. Nunca me esqueço de agradecer-lhes o tanto rir que me fazem. Gosto deles assim pequenitos, tipo aqueles ranchos de marquesmendes & antóniosvitorinos que de bibe, patrulhados à proa por uma educadorazita anoréxica e à popa por uma contínua de joanetes inflacionados como repolhos, nos ensinam por essas ruas que a vida sempre creche e aparece.
De Santarém, o senhor herdeiro caçula do Moita de fraca memória determina excitações pueris do género fala-fala-queu-touta-ouvir.
Nasceu, coitado, apenas em 1975.
De modo que se lhe perguntarmos, à maneira do BB do laçarote, onde estava ele no 25 de Abril, a resposta só pode ser equivalente ao sítio onde está hoje: que é lado nenhum.
E para Santarém, esse lado nenhum é terra-pouca a mais.