Thursday, October 30, 2014

Rosário Breve n.º 380 - in O RIBATEJO de 30 de Outubro de 2014 - www.oribatejo.pt

Pouca-terra

Sou maquinista da CP.
O meu Avô paterno foi da primeira geração de condutores de carros-eléctricos de Coimbra, vão lá já quase cem anos.
Eu fiz subir a fasquia dos anais familiares: os eléctricos, afinal, estão para os comboios como os legos da criançada estão para os tijolos a sério.
O meu Avô teria fartas, largas & sobradas razões para orgulhar-se deste neto. Só não se orgulha de facto por ser difícil o trabalho do orgulho ao cabo de 86 anos de morto.
A minha profissão reitera a vocação viária dos destinos: de apeadeiro em apeadeiro até à estação terminal.
Conheço as luzes na noite. Conheço a luz diferente que a noite é. Conheço o país dessa luz, esse país nem sempre lunar. Conheço os suicidas: o olhar aberto deles ante o touro da máquina.
Sei como verdade que é a máquina a locomotivar-se a si mesma, não passando eu de espécie, por assim dizer, de alfaiate eléctrico: o mais que faço, é estar atento aos botões.
Como de estrelas molhado o firmamento nocturno, de tíbias gambiarras as populações no veludo da ferrovia anoitecida: enfrento isso, guiador da férrea lombriga.
Já fiz muito regional, muito intercidades. Certa histórica vez, cheguei a fazer Espanha-quase-quase-França. Era no tempo das malas-de-cartão: hoje como bidonvillemente então, portanto.
Acordei vezes talvez de mais em dormitórios transitários da Companhia: mas o que é que na vida não é dormitar?, mas o que é que na vida não é transitar?
Os casamentos que contraí entretanto, à maneira de gripes periódicas, foram-se-me na pouca-terra-muita-areia do costume: marido ausente a horas certas só pode dar ou turnos ou cornos.
Coisas gastronómicas que por causa do meu ofício sei bem mais do que o gastrófilo senhor Armando Fernandes: o frango guisado com massa no Alfa de Alfarelos; as favas com presunto de Mangualde; o toucinho à Senhor Cristo do Barroca de Taveiro; a francesinha verdadeira de Campanhã; o panrico-com-margarina-de-sabor-a-manteiga-dos-ricos de Vila Franca das Naves; e a regueifa coimbrã que a minha ti’ Maria da Estação (Velha) de voz finíssima apregoava na mesma e exacta Coimbra-B do filme Capas Negras protagonizado pela divina Amália e pelo estentóreo Alberto Ribeiro.
Coisas oficiais, estas: entre mentiras crónicas (minhas) e alheios veros interstícios ferrobiográficos.
Sou maquinista da CP – é mentira.
O meu senhor Avô foi eléctricomotriz – é verdade.
E a linha CP de Santarém vai ser interrompida pelo motim histriónico que num momento de nervos o senhor Ricardo Che Gonçalves Guevara anunciou à Cidade & ao Mundo por causa das encostas-barreiras da capital do Ribatejo – é mentira. (Olha, Ricardito, vai-lá-vai, que os meus botões não contemplam travões.)
Os autarcas de hoje (não todos, mas tantos, lego de brincar por tijolo a sério) fazem muita palhaçada desengraçada, coitados. Corro-lhes os quintais e devasso-lhes os pátios. Nunca me esqueço de agradecer-lhes o tanto rir que me fazem. Gosto deles assim pequenitos, tipo aqueles ranchos de marquesmendes & antóniosvitorinos que de bibe, patrulhados à proa por uma educadorazita anoréxica e à popa por uma contínua de joanetes inflacionados como repolhos, nos ensinam por essas ruas que a vida sempre creche e aparece.
De Santarém, o senhor herdeiro caçula do Moita de fraca memória determina excitações pueris do género fala-fala-queu-touta-ouvir.
Nasceu, coitado, apenas em 1975.
De modo que se lhe perguntarmos, à maneira do BB do laçarote, onde estava ele no 25 de Abril, a resposta só pode ser equivalente ao sítio onde está hoje: que é lado nenhum.
E para Santarém, esse lado nenhum é terra-pouca a mais.


Thursday, October 23, 2014

Rosário Breve n.º 379 - in a O RIBATEJO de 23 de Outubro de 2014 - www.oribatejo.pt

Alô, alô, aqui Vale da Pinta

“Se todo o Estado fosse como o Poder local, não teríamos défice.”
Quem isto publicamente cuspiu aos ventos não foi o maluco cá da aldeia. Foi um adjunto governamental. Para tal risível figura, a evolução financeira dos municípios é exemplo dos mais laváveis, perdão, louváveis. E o maluco sou eu, aqui no Vale da Pinta, Cartaxo.
Já não sei, francamente não sei, o que fazer de tanto palerma.
Ele é o coiso que, perorando sobre ética e deontologia da e na docência, plagia à força toda. Ele é uma tal Associação Nacional de “Professores” (tem de ser entre aspas, se não vomito) a dizer mal dos jornais por trazerem o granchar copy-paste de cueca à mostra.
Ele é os ministérios da “Educação” e da “Justiça” (aspas, claro) serem, obviamente, citius muito mal frequentados – mormente nos respectivos topos.
Um é caric(r)ato. Ninguém lhe exija que faça o que nós, como ex-Povo, há quarenta anos andamos a fazer: demitir-se. Pois se até o Primeiro veio agora a terreiro dizer que ele foi a sua “melhor escolha para o lugar”
Quanto ao caos (sim: caos, balbúrdia, feira-da-ladra, escarcéu, trapalhada, monturo, zaragata, torvelinho, carrossel, berbicacho, forrobodó, trinta-por-uma-linha) da “Justiça”, tudo está muito bem também, graçasadeus. Os juízes recebem setecentos e tais só para subsídio de alojamento mais miles pela “especialização”. Os funcionários judiciais fazem o favor de levar o coice nos fundilhos, agradecer a suas senhorias e aloquetar o bico, que a António Maria Cardoso ainda é no mesmo sítio.
Se todo estes rol & ror de deformidades desgovernantes não são emanações espectrais do atraso cognitivo, não sei que raio chamar-lhe alternativamente. Uma pessoa liga em casa o televisor e/ou o rádio – e é imediatamente sitiada por idiotas mal intencionados de alfinete-portugalinho na lapela. Na Grécia e na Alemanha, há facínoras presos por causa daquilo dos submarinos. Aqui, há medalhinhas do Dez de Junho e do Padre Cruz para os facínoras. O Sporting foi à Alemanha ser roubado à descarada: poupasse a viagem, que para ser roubado por alemães não é preciso ir além da taprobana de Caminha.
Eu sei, eu sei: mais com fel escrevo do que com tinta. Que quereis? Ando com um edema na glândula da amargura. Olho derredor e não me sossega o que vejo. Acho os cães de rua mais magros. Acho a mocidade mais burra, mais praxística, mais vã, mais feia. Até os bêbados meus colegas bebem menos, porra. Pelos jardins deste Verão anacrónico, os velhinhos tossem a desesperança com uma espécie de fé virada do avesso. Uma espécie de febre fúnebre amplifica em redondo o Zero nacional. Um caraças de autismo multitudinário resigna-nos e persigna-nos com férrea inexorabilidade. A indiferença imbeciliza-nos. Mas o Poder local, diz o tal gnomo de rala barba, é um espelho lavado a que o Estado deveria barbear-se, comovido e grato por tal e tão subido exemplo.
Enfim, pior há-de ser falecer.
Ou não.

Tuesday, October 21, 2014

Entrada n.º 55 (da manhã de domingo, 12 de Maio de 2013) do caderno 16 da série Leite dos Santos

55

Ib.


É raro agora pedestrar-me por Coimbra em podografia,
a vida é ora para mim sinonímia de Leiria e
e, como em toda a parte me aconteceu, o domingo é tristonho,
espécie de solução de descontinuidade entre a morte e o sonho
até as pombas pela Cidade parecem macilentas &
mais lentas, é como se pensassem sentindo que não

gostam do que sentem pensando-se pessoas.
De fêveras fracas é a flausina que veio
aquaminerar-se sem grandes maneiras educadas,
a primeira coisa que fez, ainda nem se sentado tinha,
foi ir à mesa dos três carecas cravar um cigarro,
foi esperta, evitou-me num soslaio por ter percebido logo

que eu estava com cara de pomba ao domingo pensando-se
poeta ou, o que é pior, pessoa normal.
Deu-se já ao deus-das-coisas-para-nada o meio-dia,
hoje o sol já ferra, seria bom ver o mar sem precisar 
dele, como quase tantas vezes nos acontece a quase todos,
ao contrário quantas vezes da vida, de que a gente precisa 

sem a ver.
Pensei há pouco em Coimbra só porque sim,
se fosse como nos meses em que esperei a morte da Mãe,
hoje seria dia de levar ao Café S. Paulo o bornal,
e ao senhor Manuel & don’Adelaide o mesmo,
e sentir a lâmina do Mondego entrando, azul-pomba, no peito.

Tuesday, October 14, 2014

Livro novo, antiga viagem



A minha Senhora & eu fomos ontem, 11-X-14, a uma festa muito bonita: a do 50.º aniversário matrimonial de Gina & Armindo (Lopes Carolino).
A surpresa oferecida pelos veteranos Noivos aos (muitos) convidados foi a a biografia do antigo presidente da Câmara Municipal de Pombal.
Tive a honra de escrevê-la para eles e para a minha Editora, a Imagens&Letras
Viva a Gina. Viva o Armindo.

Thursday, October 09, 2014

Rosário Breve n.º 377 - in O RIBATEJO de 9 de Outubro de 2014 - www.oribatejo.pt

Quer tacho

Tenho um primo de sangue directo que é médico no Cartaxo há coisa de trinta & picos anos. É rapaz bonito e afável como uma manhã dos Junhos de antigamente. Foram-lhe ásperas as primícias da vida. Até fome passou. Tudo venceu, todavia. Até a morte de um filho pequenino. Já o não vejo há tempo de mais. Não é meu costume andar pelo Cartaxo. Não é meu costume andar pelo Cartaxo por causa de Vila Chã de Ourique.
Tenho medo de Vila Chã de Ourique por causa do “terrorismo” institucional-autárquico que por aquela sede de freguesia praticam. Espero bem que o doutor meu primo também por lá não ande muito. Não quero que eventualmente o acusem de andar violando o n.º 2 da Lei 75/2013, de 12 de Setembro.
A Ção & a oposiÇão são mulheres para o encalacrar com isso se ele lá for, mesmo que só para praticar a sua, dele, bondade clínica. Quando o Relvas andou mundo fora a esterilizar freguesias e a enxugar poços, esqueceu-se de apagar de vez a Vila Chã de Ourique, que tanta falta faz ao mundo como a fome em África & Arredores. Malvado Miguel, doutor de pechisbeques & quinquilharias.
Já o meu primo médico poderia passar e passear sem medo pelo concelho todo. E eu. E eu com ele. Dos meus projectos de vida mais benignos, um é ir com o meu rico primo assistir a um treino dos rapazes Caixeiros de Santarém ao recinto desportivo de Vila Chã de Ourique. Iríamos até talvez com o marido da Ção presidente, esse que foi tesoureiro de um executivo que já não há nem me/nos parece que venha a haver. Nessa minha insensata quimera, os apaniguados do senhor Paulo Varandas não dinamitam nada. As mulheres deles não usam burcas. Nem os rapazes do PSD local rezam cinco vezes por dia em posição genuflectida de catar pulgas ao chão.
Acontece que tenho uma solução milagrosa para a embrulhada de Vila Chã de Ourique. Faríamos assim: dava-se à Ção presidente e ao marido a Junta Boa; aos outros da oposiÇão, a Junta Assim-Assim, para lhe não chamarmos . (Esta minha proposta não é meramente boazinha: é cinco-estrelas.)
Com a Junta Boa, a Ção & o marido poderiam ir almoçar fora aos domingos, amando-se com ternura entre garfadas de cozido e terrinas de canja rica. Com a Junta Assim-Assim, o PSD local, o comunista residente e os paulovarandasistas fariam uma suecada valente, rodando os três pares que seis cabeças perfazem. E eu e o meu primo sorriríamos a todos, untados ambos de gozo o mais feliz e o mais sacro. Agora, assim como está é que não dá.
Em minha casa, a senhora a que pertenço também preside – mas (atenção!) acumula a tesouraria. Não é como em V. C. de O. Eu só respiro. Sou vogal consoante, por assim dizer em alfabético paradoxo. O meu primo doutor, não sei como faz. Como é médico encartado há tanto ano, ele lá saberá. Aqui a sós comigo mesmo, penso um dia destes visitá-lo. Não conheço ainda a senhora com quem ele contraiu segundas-núpcias. Espero, tão-só, que ela se não chame Conceição. Porquê?
Porque, nesse caso malfadado, eu teria de reformular a presente crónica toda, começando-a, para meu & Vosso mal, assim:
Tenho um primo de sangue directo que é tesoureiro no Cartaxo há coisa de trinta & picos anos etc..

Thursday, October 02, 2014

Rosário Breve n.º 376 - in O RIBATEJO de 2 de Outubro de 2014 - www.oribatejo.pt





Bye-bye, Tó-Zé, bye-bye e não voltes

Nem todos os cristãos são católicos, nem todos os católicos são cristãos.
O mesmo se aplica aos socialistas de Portugal: nem todos os que o são, estão no PS; nem todos os que no PS estão, socialistas são.
Por outras palavras e no sentido idêntico: nem das galinhas cresce lã, nem as ovelhas dão ovos.
O que reluz e o que é ouro – raro coincidem.
Dou por mim a dar nestas lapalisseadas pelo alvor da manhã derradeira de Setembro. Uma cantoneira da Câmara vai penteando a corta-relvas o separador central da Avenida. Pela galeria da Rita, choutando a mansinho passo, uma senhorita-caniche dá trela a si mesma em gracioso par. O copofonista madrugador das sete e onze acaba de emborcar o terceiro porto mercê de uma tecnicamente perfeita cabeçada-marcha-atrás.
Dão as sete e doze quando me ocorre que o senhor papa Francisco sempre há-de, cá p’ra mim, ser tão mais cristão quão menos católico pareça. Já quanto ao novel campeão de pesos-mosca, António Costa, aliás simpático e bonacheirão portugoês do Príncipe Real, o mínimo é agradecer-lhe, para já & se calhar muito, a deserção do inSeguro da televisiva pantalha. Receio, tão-só, que os coelhos ainda venham a dar ovos, fora da pagã Páscoa do calendário comercial.
Través tudo isto, faço como os índios da Nort’aAmérica: tenho as minhas reservas. Tudo faço para não confundir a canábis com os canibais. De crónicas ferreiro, que espeto de pau me não seja o argumento. Não pretendo ser indelicado, não é melindrar que pretendo. Os “simpatizantes” do PS podem perfeitamente integrar procissões santuárias, tal como ele houve decerto muito padre que a seu tempo votou Sócrates. Não é com isso que me vou armar em cabeçudo – desses cabeçudos tão cabeçudos, mas tão, que nem se penteiam, antes estabelecem perímetro. O PS e a Igreja não me fazem mal. Também me não enchem de sopa o prato. Cá p’ra mim, a filial portuguesa de Roma e o partido rosicler são como aqueles primos remotos que todos temos algures: usam-nos o apelido mas não são nós.
Enquanto tudo isto, uma matrona conserta ao decote um fio de ouro de que se dependura a medalhinha da Senhora da Conceição. Mas, por pecaminosamente ter madeixado de trigo químico a cor natural da cabeleira, é como se a Imaculada habite o sopé de uma silveira outonal. É como a vocação dos sapateiros para serem coxos. O da minha Rua era: cambava o próprio andar.
Por este andar, dizia eu pois, o PS ainda se arrisca a deixar de vez cair a máscara. Que é como quem diz: a maquilhagem. Aquele “S” sempre significou tudo menos “Socialista”. Foi “S” de Soares, de Santos (Almeida), de Sampaio, de Sócrates, de Seguro. Só lhe faltou ser de Santana, pelo histórico descambar.
Ainda me hei-de rir um dia destes. Digo: de o PS tornar-se PC.
“C” de Costa, não de “Comunista”. Ou de “Católico”.
Agora de “Cristão” é que não, isso de certezinha absoluta.

Friday, September 26, 2014

Leonor em tercina



Em tercina,
cresc. poco a poco
a Leonor,
a minha Menina.

Thursday, September 25, 2014

Rosário Breve n.º 375 - in O RIBATEJO de 25 de Setembro de 2014 - www.oribatejo.pt







MDI

Esta é a edição n.º 1501 do nosso Jornal. Muito bem. As minhas fuças estão pespegadas nesta página há apenas 375. Muito bem na mesma.
Há casamentos que não duram nem a décima-parte dos já quase trinta anos hebdomadários deste título. São matrimónios, por assim dizer, sem direcção, sem escrita, sem aparato gráfico, sem quem os assine – muito menos leia. Os casamentos efémeros, de tão vulgares, nem grande publicidade chegam a ter.
Por seu lado, ele há também e também por aí andam jornais que nem para forrar a gaveta-do-bacalhau servem. São pasquins devotados ao serviço pulha e infecto dos gigantes da indústria e dos anões do comércio. São coisinhas que lambem. Praticam o “jornalismo” papa-croquetes dos portos-de-honra, das tasquinhas com seu secretário de Estado portátil, das feirolas “medievais” pré-congeladas e pré-embaladas para pasmo dos asnos que confundem a História com as barracas de farturas.
Tais casamentos e tais publicações não duram – porque são existências moles, invertebradas, servis, viscosas, instantâneas, aguadilhas, vocacionadas para bufas de si mesmas.
Nos matrimónios céleres, enfim, não toco.
Já nos jornais sim, toco – mas faço-o de dedos em pinça repugnada: ena tanto especialista!, ena tantas sabedorias!, ena tanta cagança!, ena tanto sobrinho de banqueiro!, ena tanto autarca!, ena tanta namorada do CR7!
A excepção está à minha frente. Escritorzeco de pastelaria de província, habituei-me a este lugar de alumínio no extremo norte da galeria da Rita. A excepção é um casal já encanecido, desses que os anos em comum volvem idênticos como irmãos naturais.
Arreiam boa roupa lavada. Calçam óptimo couro.
Ela veio de fina blusa branca sobre saia de xadrez-da-Escócia. É de olhos azuis como duas janelas viradas para o mar na manhã clara.
Ele é cavalheiro de porte não pequeno, camisa cinzenta matizada de uma chuva de rápidos riscos verdes, calças de fazenda ponderosa, morna, daquela que faz bem à pele.
Evidentemente, invejo-os.
Às vezes, vem aqui o filho ter com eles. Tornam-se então uma espécie de namorados veteranos que se dão ao luxo de ter um amigo mais novo. É bonito de ver-se.
Venho a saber que se casaram em 1985 – há 1501 semanas, mais precisamente.
Desiludidos fiquem uns, satisfeitos por eles se quedem, como me quedo eu, os demais – pois que nem aqueles nem estes esperaram jamais que Ribatejanamente durassem tanto.

Thursday, September 18, 2014

Rosário Breve n.º 374 - in O RIBATEJO de 18 de Setembro de 2014 - www.oribatejo.pt

SMS: Siglas Maravilhosamente Simples

Permite-me, ó bom Leitor, a seguinte confissão: tenho uma pancada muito jeitosa naquilo das siglas. Sou doidinho por elas. Mas nota tu bem: não pelo seu real significado, mas pelas possibilidades maravilhosas de significação alternativa. Tenho milhões de exemplos.
FNAC é um exemplo bom. Não quero saber se, no plano real, é a megacadeia de livros, discos, filmes e afins coisas multimédias. Nem se era aquilo d’antigamente do ar-condicionado. Para mim, FNAC é: Fazer Nojo Aos Cães. Pronto.
NASA. Esta é outro mimo para mim: Nós Americanos Sabemos a Ânus.
Na volta para casa de algum arraial com amigalhaços de copázio & coparete, o meu ideal vir CTT: Com uma Tremenda Torcida.
A política, essa grande porquita, não cessa jamais de me ajardinar-de-delícias o coração doidivanas. Olha aqui, Leitor, como lês tu esta sequência: PS-PCP-PEV-PSD-CDS-BE? Hum? O quê? Partido tal, Partido tal, Partido tal? Mas qual quê?! Tu não vês nesta justaposiçãozinha a mão do Diabo cifrador de códigos? Eu vejo.
Concedo-te: lês nisto o nome de partidos por seres mentalmente são. O teu cérebro é um alperce fresco. Eu, são, não sou. Porque na enumeração PS-PCP-PEV-PSD-CDS-BE eu leio: Pobre Seguro – Por Culpa Própria – Por Engrolar Verborreias – Pode Suceder-lhe Doravante – Costa Depois de Sócrates – Bonito Encalacranço!
Vês, vês? Viste, viste? Estava ali tudo escarrapachadinho, mas tudo – e tu, preguiçoso, a ler banalidades onomásticas.
Lírico irremediável que sou, cultor de inúteis belezas que fui sempre e para sempre serei, sou também um irremediável leigo quanto a geringonças práticas. Mudar uma lâmpada atrapalha-me a vida por mais de quinze dias. Abrir uma torneira que não seja das dos pipos deixa-me boi ante o palácio da simplicidade. E por aí afora. A minha Senhora Esposa é que me ataca os sapatos. Nunca comi sozinho uma sardinha: tem de ser ela a desespinhar-me o peixito. Uma vez, tentei fazer a cama – ela dormiu no sofá, claro.
Tudo isto te confesso & explico por causa da sigla LNEC. O mero som dela (lnec, lnec…) não te parece aquele ruído salivar dos malcriados que mastigam de boca aberta? Ou ainda: o lnec-lnec é ou não exactamente aquele estalo do elástico da cueca na anca? Hum? É pois. Eu sei que tu sabes que LNEC significa, no mundo dos não-avariados-da-mona, Laboratório Nacional de Engenharia Civil. Seja. Mas para mim, népias disso. Para mim, é das interjeições contra-ofensivas mais lindas que pode haver. Se alguém te chatear, só tens de lhe zurzir cuspo assim: vai LNEC! Ou seja: vai Levar Nos Entrefolhos do Cagueiro!
E os ex-ministros? Ah, a meu ver e a meu ler, o que (não digo que todos, mas que quase todos) fazem – é GNR. Isto é: Guardam o Naco Roubado. E a verdade seguinte é que PSP: Poucos se Salvam da Pilhagem.
Por voltas, revoltas & reviravoltas do imparável processo histórico, a sigla URSS já não se usa. Ai não? Usa, USA! No caso da minha maluqueira, a URSS é eterna: por, sendo não raro do teor diarreico, portanto humaníssima, valer – Urgência Repentina de Soltar o Saco.
E USA? Fácil: Ungidos de Santidade Astral. No mínimo.
E ONU? Olha, Nelito, Unta-me.
E NATO? Nunca Andaste Tão Osga.
De todo o desarrazoado que supra te expus, ó meu fiel e bondoso leitor, concluirás que um bocadito de fluoxetina me não faria mal de todo, bem antes pelo contrário. Talvez. Tenho um médico amigo, o Adelino Correia. Dr. Adelino Correia. Ui: DR AC. Sigla. Já sei: Demónio dum Raio, Arranja-me Comprimidos. E ele então, com pena de mim e de eu de tão pobrezinho quase de algibeira numerária como de cabeça, paga-me bagaços até a língua e a Língua me ficarem encortiçadas de todo, e a boca e o Idioma me saberem a pomada de largo espectro de acção fungicida.
Estranharás talvez, Leitor meu caríssimo, que te não ceda a minha particularíssima e dementíssima descodificação de GRP (Governo da República Portuguesa) ou de CMS (Câmara Municipal de Santarém). Pois não. Nessas duas siglas não me meto. Não é por medo. Nicles de medo. É por uma bem mais simples razão. Esta aqui: porque tudo o que nos fazem, fizeram e vão continuar a fazer, é de FNAC, só quero que tanto uma como outro vão mas é LNEC.




Thursday, September 11, 2014

Rosário Breve n.º 373 - in O RIBATEJO de 11 de Setembro de 2014 - www.ribatejo.pt

Ou estudo ou nada

Felizmente, o meu curriculum académico não compreende (no sentido duplo de conter e de entender) qualquer cadeira da “universidade” de Verão da JSD.
Digo felizmente com exactidão: por ser feliz que me sinto com a memória dos meus professores sérios e com a certeza de ter usufruído de uma pedagogia humanista só p’ra pessoas. A autognose que hoje posso mostrar ao espelho enquanto raspo o pelame dos queixais deriva de um lar sólido (ou”estruturado”, como agora é moda dizer), de uma escola perto e de uma vontade de aprender a que os anos não são capazes de vergar o espinhaço.
Se a infelicidade me tivesse feito cursar a tal “universidade” gaiato-citrina, eu seria hoje um palerma vácuo, um enforcado de gravata, um imbecil irresgatável, uma lesma sintáctica, um caracol morfológico, uma besta vesga, um assessor solícito, um acólito castrado, um invertebrado viscoso, um orador afónico, um esterco perfumado, um balão sem nó, um tumor com pernas, uma unha do polegar roída por prótese dentária, um nojo literário, um asco de cavalheiro, um cônjuge corno, uma anorexia idiomática, um assinante do (Amigo do) Povo Livre, um paulo-bento-contra-a-Alemanha, um dos responsáveis pelas barreiras de Santarém, um mata-peixes da Vala de Almeirim, um palerma televisivo, um infante sem infância, um programador do CITIUS, um ortógrafo indigente, um arrumador a 20 cêntimos no estacionamento subterrâneo do Jardim da Liberdade, um turista da Águas de Santarém, um colunista de O Mirante, um bilheteiro do teatro Sá da Bandeira, um actor-fantasma no Rosa Damasceno, um vizinho tê-zero daquele rapaz-escrivão da Golegã, um artolas patusco da luta contra a corrupção no Cartaxo, um padre sem fé mas deixai-vir-a-mim-as-criancinhas, um incendiário da Barquinha, um toureiro zoófilo – e, enfim, um jove’ social-democrata.
Vale-me que tal infelicidade seja, no meu caso, do mais alto grau de improbabilidade. A escola ensinou-me a pensar com os olhos. As pessoas não me são estranhas. O social não me aparece como alienígena. A pobreza material não é por mim encarada como sinónimo directo de miséria moral. Eu não vou ali ao Gambrinus canonizar um sucateiro. As escutas que me fizerem ao telefone não me ocultarão a verdadeira face. Nisto de faces, se me baterem numa eu não dou a outra, mas troco sim – e a dobrar.
Sempre que a JSD faz uma “universidade” de Verão, o Verão acaba. E a universidade também. Cada vez que a JSD diz a palavra “universidade”, as pessoas sérias pensam no Relvas. A “universidade” de Verão da JSD está para a universidade verdadeira como a Festa do Avante ser não na Quinta da Atalaia mas na Cova da Iria.
Ou numa das barreiras de Santarém.

Thursday, September 04, 2014

Rosário Breve n.º 372 - in O RIBATEJO de 4 de Setembro de 2014 - www.oribatejo.pt

Isto das cores

Na mesa em frente à minha, um homem doente. É quase ’inda rapaz: uns bons (ou maus) quinze anos deve ele perfazer a menos dos meus. O rosto dele é um clarão sanguíneo. A moção gestual dele é muito lenta – como se até o ar lhe doesse. De que sofrerá? De estar vivo naquele corpo, talvez. Tomou (mas tão lentamente!) um copo alto de café-com-leite. Ei-lo a respirar do esforço. O copo de água atira-lhe quatro comprimidos (um azul, um verde, um rosa e um prateado) para o labirinto gástrico (vermelho-negro). O olhar dele é feito de duas ilhotas pretas sobre nácar coagulado. A roupa é de lavada decência – alguém (a mãe?) trata dele ainda. Usa ao pescoço um fio religioso que lhe pesa na cerviz: Deus custa quilogramas na aflição. Tomou-o cedo de mais a terminação: o meu Leitor e eu, é a um moribundo que assistimos.
Repórter coscuvilheiro, junto da patroa do botequim indago dele. Diz-me ela que o rapaz é de família de bem & de bens. Mais me conta que, de quatro filhos, é ele o último. Último duas vezes: porque dos quatro o mais novo e porque único desde que, aos três outros, os finou aquela maleita irreciclável da turbina cardíaca.
Chega entretanto à esplanada a minha pomba das sete e dez. Veio com a alba no bico. É lustrosa fêmea: maciça, virente-plúmbea, duas graciosas dedadas de tinta-permanente na junção posterior das asas. Cabeça muito viva, mui latina, mui ladina. Mesmeriza-me sem pudor: quer do comer que sabe ela lhe trago eu no saco. Faço-a esperar um pouco: estou a escrever para o meu Leitor. Ela circunvagueia como um polícia aborrecido da vida. Pica do chão, por desfastio, uma migalha invisível. Sinto a indignação a crescer nela. Mas, por me faltarem dois parágrafos crónicos, haverá de esperar um pouco mais.
Quando dela aparto o olhar, descubro, para serena mágoa minha, que se foi já embora o moço do atávico coração. Ei-lo longe já além, além passando milimetricamente a passadeira. Causa ele uma fila nervosa de carros impacientes: ser automobilista é não cuidar do coração. Perdi-o. O meu Leitor perde-se dele. Não voltaremos, talvez, a escreve-lê-lo. Resta-nos a pomba. São sete e dezassete da manhã, sete minutos a demorámos já.
Vou ao saco. Tenho arroz para ela. Quatro singelos bagos tenho eu para ela: um azul, um verde, um rosa e um todo de prata – como só ela. 

Thursday, August 28, 2014

Rosário Breve n.º 371 - in O RIBATEJO de 28 de Agosto de 2014 - www.oribatejo.pt

Queixa no País da Insónia

Não sei se é a má-sina a perseguir-me, se sou eu a persegui-la a ela. Talvez ambas as coisas. No caso presente, falo-vos do putedo que me não deixa dormir. Explico-me.
Na antepenúltima cidade em que vivi, a minha casa (mas só o descobri depois de arrendá-la) era precariamente vizinha de uma casa-de-alterne. As madrugadas eram o calendário mais hostil do dia. As gajas, mais os lenocidas que as parasitavam e mais os deserdados de pulseira de lata que as frequentavam – encenavam e protagonizavam altífonos histerismos de navalhada, protestos de amor a vintes e a cinquentas, forrobodós de cassete-pirata sem ballet nem rose. Um ultraje pegado. Pouco adiantava chamar as “ótoridades”. Quando vinham (se vinham), pareciam pedir ensonadas desculpas às senhoras meretrizes, invariavelmente espécimenes de brasileiredo do mais chunga, tisnadas do esterco daquela maquilhagem contrafeita de feira e armadas de garras envernizadas de amarelo-pus e escarlate-cirrose. Nunca havia detenções, nunca havia autuações. Nada. Só quando aquele circo ia dormir para algum remoto apartamento-galinheiro é que a civilização voltava à má-hora dos meus aposentos. E eu ficava com o bebé da insónia nos braços, roto para o resto do dia até ao vira-o-disco-toca-o-mesmo da madrugada seguinte.
Na cidade ulterior, vivi em paz: como no bairro também moravam senhores médicos e senhores juízes, o gado-de-aluguer não accionava por ali o taxímetro das virilhas. Dormi muitas santas noites nesse quartito sem mulher nem renda excessiva.
Há três anos e picos que vivo nestoutro burgo. Foi bom. Foi bom até este malfadado mês de Agosto. É que o putedo voltou. A prostituição-de-giro sitiou a minha rua e as circunvizinhas. Toda a noite é por aqui um carrossel ignóbil de carros tripulados por energúmenos das obras para quem o Brasil é uma espécie de quimera com direito a caipirinha falsa e a rodízio de varizes roxas como o manto do Senhor dos Passos. Isto agora onde não durmo é um bairro-da-tijuca. As alvoradas amanhecem juncadas de lixo. Há batidelas nas viaturas dos trabalhadores sem garagem que, como eu, tiveram a má-sina de ali se aquartelarem. O sotaque carioca gargalha obscenidades goianas até às cinco, seis horas da matina baiana. E já sabeis como é: pouco adianta rogar às “ótoridades” a esmolinha de por ali rondarem profilacticamente. Elas vêm mas é o carago. Devem ter medo daquelas unhas.
Posso parecer-vos xenófobo e misógino. Oxalá que sim. Conheço poucas coisas tão degradantes como a privação do sono. Talvez a fome. Talvez o desGoverno (este como o anterior, o anterior como o próximo). Podem parecer-vos ofensivas as minhas palavras. Oxalá que sim. Quero ofender. Quero vilipendiar. Quero dar troco. Quero dormir.
É claro que não tenho pensado noutra coisa senão na utopia de outra casa noutro bairro. Talvez de outra cidade, até. De outro país, não. Não posso. Este é meu. Só tenho este. Não vale nada mas só tenho este. E só quero este. Hei-de resistir nele a tais malfadados e sórdidos despojos de império colonial de pacotilha.
A não ser que ele, o meu/nosso País, vá de vez, como tem ido, com as putas. Se for o caso, o melhor mesmo é emborcar umas caipirinhas e, para as rapidinhas, desembolsar uns cinquentas, com sorte uns vintes. 

Wednesday, August 06, 2014

da série Leite dos Santos - entrada 54 do caderno 16 - BAILE SOZINHO ou O INVERNO DE QUELUZ

54

Leiria, manhã de 12 de Maio de 2013, sábado


Sei de uma mulher e de sua filha, o homem da casa
fugira delas para a venezuela-do-costume,
acabaram as duas, uma sem saber da outra,
por se relacionar com um rapaz de maneiras
& unhas polidas, quando finalmente se descobriram
ambas utentes do abraço dele, chamaram-no a casa

e esquartejaram-no o mais civilizadamente,
ele ocupou o estúdio das águas-furtadas,
deixaram-lhe o domingo de folga,
segundas-quartas-sextas para a mãe,
terças-quintas-sábados para a filha,
ele engordou um pouco, tornou-se algo paxá,

mas no geral a vida ia e corria bem, entretanto
o contrato dele nos Correios acabou,
de modo que elas ficaram felizes até,
tinham e mantinham uma loja de sementes,
despediram a empregada de quase toda a vida
e meteram-no lá a ele a ensacar amostras de girassol

para as feiras e para as entregas ao domicilio,
o problema foi numa destas ele se ter deparado
com Clotilde, uma viúva larga como a vida
de algumas pessoas como ela, ela-Clotilde chamou-o
à pedra da razão, pôs-lhe casa na mansarda do prédio
que todo lhe pertencia a ela, como ele passou a pertencer.

Thursday, July 24, 2014

Rosário Breve n.º 368 - in O RIBATEJO de 24 de Julho de 2014 - www.oribatejo.pt

Olha, Mimi

O Verão tem acontecido temperadamente. Trouxe de volta as cores, espargiu pelos relvados as poucas crianças que ainda por este País de tesos sem tusa são feitas. A chávena de leite fresco sabe bem na estreia de cada dia nato em nata. A meio da manhã, a malga de branco amorangado também. No estaleiro da obra, duas aparas de madeira esbraseiam a sardinha operária.
Dona Graciana veio bem-disposta da consulta: ainda não é desta que nos fecham o posto de saúde. Juvenal chega do rio com uma rede generosa de peixes quási vivos. Expele delicada fragrância erótica a turista de sandálias verdes e promessa de blusa vinculativa, de que mana (ou mama) a fofura do par de alperces lácteos. Parece rola dada aos ardis turvos da lingerie. É ela quem lhe dá na malga frígida de branco, indiferente aos miasmas oftálmicos que lhe açulam ao decote. De bicicleta furiosamente encarnada, vem pedalando vapores de toiro o Ruizito da Aurora – dizem que é muito esperto na matemática, mas oxalá que não estude para professor por causa do emprego, quanto mais da carreira. O Telmo da Florbela está precisamente agora a teimar com o Horácio Padeiro a propósito da exactidão onomástica da pintora francesa exposta em colecção na Casa-Museu Passos Canavarro: o Telmo assevera que é Mimi Fogt; o Horácio, que não, que pode lá ser, que Fogt é lá nome francês. O Raul da Farmácia tem uma amante casada em Alpiarça e quer que se saiba, mas baixinho. Às quatro da tarde, a cal da igreja está em brasa ao torresmo solar. O pachorrento Mariano da Estrelícia brande o jornal ao Benedito Borbulhas, chamando mentirosos aos jornalistas por causa daquilo das 100 maiores empresas do distrito de Santarém. Quando o Benedito quer saber porquê, redargue-lhe o Mariano que ao todo nem 40 empresas há-de por aí haver em laboração, quanto mais cem. Eu sorrio mui doutamente, rodando na pata esquerda o terceiro vermute abridor da ceia. O Joca Franciú, que esteve uns anitos poucos no Luxemburgo para vir de lá sifilítico de ainda mais pobre do que o aquando de para lá ir, tira à carrada industrial cera do orelhame com a unhaca do mínimo, fazendo estralejar a pulseira de lata gross’amarela. Carregada de flores como a Mrs Dalloway, passa a caminho do cemitério a patética Ricardina. – Estás-lh’a chamar pateta porquê?, quer saber o Joca. E eu digo-lhe que patética não quer dizer pateta, quer dizer comovente. E mais lhe digo que até parece que tu foste ao São Carlos desgostar a sinfonia do Cruges com aquelas mamarrachas da plateia. E ele remata que aqui não mora nenhuma Senhora Dá-lo-ei, que eu tenho mas é a mania. E tenho.
Nisto, a noite emaranha já gambiarras de silveira estelar. Da boca do rio, uma aragem branda traz o frescote. O rio mesmo parece prantear os filhos que lhe sequestrou o Juvenal. O Assunção vai de zundapp buscar a mulher à saída do hipermercado. O Mariano ainda está a zurzir naquilo das não-sei-quantas maiores empresas do distrito, pelo que, fartinho dele, o Borbulhas lhe diz tipo isto: – Ó pá, se tu subisses a um altar no 15 de Agosto ainda t’apar’cia o prezdente-da-cambra na procissão. E o Mariano: – Olha, Fogt.   

Wednesday, July 23, 2014

A Secreta Vitória


A Secreta Vitória


Fazem as pequenas pedras os grandes edifícios. E pequenos, por igual ideia, parecem os homens que organizam as ditas pedras de modo a que a História encontre marcos no tempo que passa. Que passa para as pessoas, não para os monumentos.
A Batalha, toda ela, vila e mosteiro de Santa Maria da Vitória, evoca essa comparação. Não é possível, perante a beleza descomunal daquela pedra, evitar a íntima inquietude de sermos, nós pessoas, ínfima areia. E que só ela, junta e trabalhada pedra, é eterna.
Ainda assim, retenhamos de uma visita à Batalha (que é, como em tantos outros casos de amor, uma revisita) a noção de que a alma colectiva existe. E que olhando nós o que invisíveis e dissipadas mãos ergueram, também mãos damos ao que eles quiseram olhar por dentro e de frente: a alma da História, a nave do Tempo, as abcissas da Memória.
Visitada, revisitada, nunca esquecida, a Batalha exalta deste modo uma vitória mais secreta que a de Portugueses sobre Castelhanos: o triunfo da arquitectura sobre o esquecimento. Ou a morte da Morte, por assim dizer.

Saturday, July 19, 2014

Rosário Breve n.º 367 - in O RIBATEJO de 17 de Julho de 2014 - www.oribatejo.pt

Menos um morto ali para a mesa do Moita

Não é só o professor Marcelo que faz homilias dominicais. Moita Flores também as faz. É na página 2 do Correio da Manhã. Não há véspera de segunda-feira que lhe escape. Na mais recente, perorando um chorrilho de banalidades vácuas sobre os incêndios que cada Verão nos causticam a Pátria, sai-se ele com esta assim: “Oxalá morram menos pessoas, mas que ninguém duvide que o fogo nos vai abrasar outra vez.”
Pode ser que eu seja picuinhas. Pode, até, que eu solenemente me dê ao desperdício de embirrar com o homem. Pode. Mas, a esta, não lha deixo passar em claro, que nem na lerpa sou de ir ao escuro. Basta olhar para a (des)conta-corrente da Câmara de Santarém para ver sem precisão de óculos e/ou de binóculos que este senhor Moita é de más contas. De modo que o interpelo aqui assim: Menos pessoas mortas? Quantas menos? Um bombeiro? Dois? Três civis? Meia dúzia? Frase infeliz, irreflectida, vã, de copy-paste moralóide: “Oxalá morram menos pessoas (…)” A frase correcta, até humanamente, até curialmente, até como toda a gente, teria (e tem) de ser: “Oxalá ninguém morra.”
Ao contrário do senhor Flores, a minha mulher é pertinente. Para além do ofício de ganha-pão, é bombeira voluntária há uma carrada de anos. Terei eu de pedir ao senhor Flores que a integre na sua oração-de-oxalá? Que seja ela, este Verão, uma das “menos” que não ardam? Uma das que, sacrificando-se na ara e em aura de solidariedade social-colectiva, não deixem de si apenas cinzas, pó que somos todos?
Atenção, por favor: nada me move contra o ex-edil de Santarém, esse fugitivo do e ao escrutínio público. Também nada dele me comove. É criatura bidimensional apenas. É apenas outro professor Marcelo. É apenas outro Seara. Outro Sousa Tavares filho apenas. E outro Romeiro do Frei Luís de Sousa: “Ninguém!”.
Mas, figura pública que tanto e tão incansavelmente se autopublica e que tanto e tão incansavelmente se autopromove, tem responsabilidades. A citação motriz desta crónica sobrepassa o banal. É lixo à nascença. É uma treta até crápula. É uma coiseca vadia. Alguém ainda me há-de explicar como é que o (esse sim, grande) Luís Filipe Costa se deu ao luxo triste e ao desperdício de co-assinar com ele aquela frívola coisa dos “Polícias” para essa ampla manjedoura de inúteis e de cravas chamada RTP. Ou como é que há editora que de Moita carrascamente publique os dramalhões pseudo-históricos relativos ao elenco episódico da nossa vil capoeira pátria: das Ferreirinhas aos Ballet-Rose, dos Alves-dos-Reis a toda a trapalhada com a própria mulher em protagonista do telelixo do marido.
Digo eu e tenho razão: uma pessoa séria não deseja, nem muito menos escreve, menos morte. Deseja nenhuma. Escreve nenhuma. Num desastre de avião, uma pessoa decente não diz que “ainda bem que só morreram 273, sempre se safou a hospedeira”. Um escriba a sério nunca rosna que “no próximo bombardeamento de Gaza, oxalá que os israelitas matem menos quatro crianças”.
Há coisa de duas décadas, Gilles Lipovetsky escreveu uma obra chamada “A Era do Vazio”. É a nossa. É a porra da síndrome do balão: muita cor por fora mas só ar quente por dentro. Hélio de ninguém. Nada-resto-zero.
Já quanto à dívida da Câmara de Santarém, oxalá que este ano seja de menos milhões. Um milhão por cada morto a menos na fogueira do senhor Moita, a quem só não mando ir pôr-se num porco por não saber, eu, se ele domina a arte do contorcionismo. 

Monday, July 14, 2014

49 do 31 (Leiria, entardenoitecer de segunda-feira, 14 de Julho de 2014)

49

Com os anos, é possível aprender a ser-se amado.
Passou há muito, felizmente, o tempo das experiências.
A receita eficaz está agora na adoração pachorrenta:
as pantufas irmanadas, o gato plácido,
as andorinhas-de-barro na empena do alpendre.

Os grossos cordames dos navios não logram isto:
são só cordames de navio – e está muito bem.
Em vários istmos portuários eu vi tais cordames.
Daí que, sim-talvez-ou-não me ames,
o que retiro é ter sido o que olhava navios.

Não posso, bem no tente eu embora, deixar-me todo em papel.
Há coisas que são só p’ra dizer aos domingos
– e hoje é segunda-feira na minha vida e
amanhã também.
Penso ter-te posto isto em pratos os mais limpos.

Gosto, como tanta gente gosta, de crianças ao vento.
Sinto-nos cadernos-de-colorir – e elas, as cores.
Mas depois derivo, dou voltas na chuva mesmo fazendo sol.
Nos espelhos das barbearias, ao longo dos meus já tantos dias,
tenho visto mais do que a mera multidão restrita

do barbeiro & eu.
Uma vez, num inverno poderoso como um guante de ferro,
tremi sezões que não provinham de moléstia no sangue.
Fiz por esquecer isso em trovas fingidoras & bem escritas.
Também fiz filhas, nem tudo foram falhas.

Hoje, que é julho por minutos, já recebi sinais,
telepáticos talvez, da nunciatura feliz e descamisada
sempre tão afim dos poetas-de-esplanada.
Isto, à flor como no fundo, vale-me tudo,
por valer nada, ó só minh'(a)prendid'amada.

Sunday, July 13, 2014

Mais quatro entradas do caderno 31 da série Leite dos Santos - Leiria, tarde de domingo, 13 de Julho de 2014


36

A senhora Gioconda nos olhos nos olha
– e sorri de nós, não a nós.
Sorrirá da pobreza de cada um,
de cada um da escassez a que assiste.

Figura de colo manso, de suave tintura as mãos,
é senhora para isso, disso e de/para muito mais.
Habituámo-nos todos à sua voraz ubiquidade,
estatisticamente símil à do Cristo e à do Che.

Nimbada de ordinário mistério,
parece sacerdotisa de penhoristas,
pois que para sempre de prego pendurada,
a pobre.

Ninguém a requer em casamento,
ninguém aparece que um vermute lhe pague
em algum aprazível balcão do entardenoitecer.
Onanismos, não merece. Erecções, muito menos.

Pode que por ser tão Mona.

37

O corpo sente-se branco na luz completa.
Estas árvores, porém – que sentirão?
À luz toda, subindo água, cada delas, aberta,
abre-se em altura por & à condição.

Panos limpos domesticam a cozinha
que em manhã livre ela lavou.
A sala cheira a qualquer coisa azevinha
que, avezinha, ela (po)voou.

Eu vim à rua. Em casa, ela, de si descuidosa,
cuida das plantas, que dela são prolongamento.
Nunca se queixa, nem se lhe escuta lamento

do que-foi-que-não-foi. Habilidosa,
bricàbraca coisas, abre, fecha, veda, estanca.
Nisto, dá-lhe a luz: ei-la, tão branca.

38

Que espécie de pureza em leite poderia eu
não prometer-te em vida por mais um dia?
Ouvi falar crianças, foi num outro Inverno. Sucedeu
que aquilo me deu, não sei, uma ’spécie d’alegria.

Em torno de nenhum centro me fiz periferia.
Ah sim, tenho habitado abrigos só mentais.
Contas bem feitas, usei já não sei quantos portugais.
Deles, nenhum a algum outro preferiria.

É mesmo assim como te digo, podes crer.
Vou usando com proveito a ciência da não-espera.
Telefonam-me muito, mas é p’ra me dizer

que este & aquele Amigo não chegam à Primavera.
Porra, chiça, merda, catano!
Já (des)contei cinco, só este ano.

39

Com deliciosa, insuportável quase, lentidão
a do segundo-andar acende dela o cigarro.
De vez em quando pela rua passa um carro
e mais nada se passa, há felizmente quietação.

A mulher disse-me que trouxesse versos & algum pão.
Esqueci-me em casa do isqueiro, peço fósforos à Sónia,
robusta empregada, que seria amazona se fosse da Amazónia.
A luz azula a esplanada. É pouca a frequentação.

No bornal, trago o Ángel Crespo & o Antoine de Saint-Exupéry.
Já me icei duas vezes daqui: uma p’ra fósforos, outra p’ra chichi.
Vai bonita a tarde: luz & brisa são dupla consolação.

Bocejo o meu bocadito, apesar dos três cafés que bebi.
Se calhar fecho ora o caderno, vale pouco o qu’escrevi.
Valha, enfim, o que valer   desde que me não esqueça o pão.

Três entradas do caderno 31 da série Leite dos Santos

Leiria, manhã de domingo, 13 de Julho de 2014

33

Humana frota tripula a manhã dominical
ao remanso fresco que a hor’ainda dá.
É uma matina portuguesa, ilesa, meridional:
melhor do que ela é que não há.

Às nove, na Igreja de Santa Cruz de Coimbra-a-Minha,
rezaram missa por alma e em intenção
do meu ido Amigo José António da Conceição.
Neste sítio mundial, que Leiria é, a luz pergaminha

o fluvial arvoredo, que é de rama umbrosa.
A vida, assim quieta & (c)alma assim, é decorosa,
é rosa de que se não augura o fim.

Mas tem-no. Detém-no. Para tal, não há remédio.
Suficiente & pertinente é, por ora, capar o tédio,
sabendo de ti alguma coisa – e tu, alguma de mim.

34

Desse azul mais escuro
que é veludo noctâmbulo
& da manhã preâmbulo,
reverso dela o mais puro

– desse oferta te fiz & faço.
Lento, cada verso, tipo melaço,
para ti escorre, quer ser, entregar-se.
O melhor do receber ’ind’ é o dar-se.

35

A mulher hoje de azul na esplanada clara
é dessas belezas verticais que ao céu mesmo sublimam.
Duas belas orelhas de viva louça a encimam.
E o rosto é desses rostos a que se não chama cara.

A bacia dá ao torso a sugestão da ânfora.
O pé, a ouro de tiras sandaliado,
tem qualquer coisa de âmbar, digo, de cânfora.
Todo o resto é muito bem ataviado.

Tem marido, claro, que à trela usa ela.
É rapaz de têmporas grisalhadas & de perfil discreto.
Usa camisa castanha com gola amarela

e umas sapatilhas lavadas, sérias, de tom correcto.
Ambos contribuintes, eleitores ambos democratas.
Ele é Rui. Ela é Maria do Amparo Gomes Pratas.





Thursday, July 10, 2014

Rosário Breve n.º 366 - in O RIBATEJO de 10 de Julho de 2014 - www.oribatejo.pt



Zeferino Crusoe

Chamo-me Zeferino, tenho 47 anos e ganho a vida a fazer carocas, ou pelo menos antigamente ganhava, sempre tive um bocadito de jeito mais ou menos pa’ quase tudo na construção e na agricultura, o problema é que agora tou preso vai já para uns meses largos, mas atenção, preso sem ser na prisão, nunca cometi crime algum senão ser pobre, digo preso porque é como tou, eu conto.
Acontece que aqui há uns tempos me chamaram se eu queria vir ajudar a arrancar equipamentos e coisas assim aqui ao Café Central e eu disse que sim, três euros à hora hoje em dia não são pa’ desprezar, quanto mais aqui há meses que era quando o euro ainda valia, sei lá, tipo uns setenta paus dos antigos quando é pa’ receber e quatrocentos e tal dele quando toca a pagar, mas adiante, apresentei-me e fiz tudo o que ma mandaram, arranquei tudo o que ma mandaram arrancar, arcas frigoríficas, vitrinas dos bolos, máquina do café, os seis baixos-relevos do senhor Maximiliano acho que Alves, era isso, Alves, por acaso até muito bonitos, tive pena, claro, mas três euros são três aéreos e é vê-los àvoar, como eu dizia portanto arrancar arranquei, só que no fim, quando era p’arreceber, quem arrancou foi quem aqui me chamou, o pior inda nem foi isso, o pior foi que por causa da marosca me trancaram aqui dentro e por isso é que eu disse que tava preso e tou e é aqui no Café Central.
Tou aqui há tanto tempo que nem sei s’inda é o senhor Noras q’amanda cá na parvónia ou sindé aquele da televisão que diz mal do que se dizia que queria o lugar dele, se não é devia ser, dizem que ele é que não quis qu’isto fechasse, qu’era uma pena, talvez por causa dos coisos maximilianos, isso não sei nem sou chamado a saber, o que eu sei é arrancar, construir também sei se for preciso, mas pa’ isso chamam cada vez menos ou nada.
Ó princípio inda julguei que fosse descuido sem maldade, mas não era, sacanitas dum raio viesse qu’os partisse, dos primeiros quinze dias nem me posso queixar, havia uma data de latas de atum e coca-colas daquelas de litrimeio, um português safa-se sempre mesmo que seja sozinho, é como, com licença da palavra, o mijar, se mija um português mijam logo dois ou três, ao menos no mijar sempre somos unidos, isso ninguém nos tira, inda havia luz também e como descobri a televisão antiga mesmo a pretibranco sempre fui vendo o Goucha e a Maya de manhã e o Jorge Gabriel de manhã à noite, nem sei como é que ele aguenta tanto sem ir a casa, quer dizer, agora sei, que também já não vou à minha Póvoa da Isenta desde antes do Natal, às tantas a minha mulher ainda desconfia que eu fui ali ao Retiro da Francesinha e prontos, e eu nada disso, que sempre lhe fui sério, excepto daquela vez quando foi pela largada dos toiros em Almeirim mas isso nem conta se vocês não lhe contarem.
Mas agora cortaram a água e tou que nem posso, ainda experimentei mijar menos de cada vez para ver se mapareciam os tais dois ou três e viste-zios.
Modos que era para pedir ao senhor Noras ou ao coiso depois dele que até fez mesmo aqui a festa de candidato antes de sir embora quase logo a seguir, agora já malembro, se podia mandar abrir isto mais uma vez, que eu juro que desta vez é de borla, té digo mais, que desta vez sou eu que pago a reabertura, só tem é de me dar tempo para juntar os três euros.

Thursday, July 03, 2014

Rosário Breve n.º 365 - in O RIBATEJO de 3 de Julho de 2014 - www.oribatejo.pt

Ver também:
http://www.oribatejo.pt/2014/06/30/santarem-limpeza-na-junqueira-e-festa-na-fonte-das-figueiras/


Levando o cântaro à fonte

Eu gosto de quem gosta da Fonte das Figueiras. Gosto, gosto. É gente exemplar, no sentido em que, pela prática do exemplo, demonstra sem peias nem rebuços a evidência seguinte: o melhor que há a fazer à sujidade é limpá-la, não é carpi-la. O zelo castra o desmazelo. E ao desconcerto do mundo – o mais é concertá-lo, consertando-o.
Aquela gente é veramente comunitária – sabe que o Outro existe, querendo para ele o que deseja para si mesma: um mundo mais limpo, mais respirável, mais humanista. A ecologia dela é com sabão. E o sabão nunca cheirou mal.
Também me agrada sobremaneira que tal movimento seja apartidário. Mas atenção: tal não significa que o resultado do seu activismo seja apolítico. Nem menos. Porque política a sério não é profissão: é missão. E é a resolução prática de problemas concretos. Não é torcer o que está mal, é torná-lo dextro. Porque o mundo é no nosso quintal que começa.
Percebo que isto desassossegue os políticos profissionais. Enxadas e enxós sempre inquietaram os colarinhos-brancos. Baldes e esfregonas, idem. Espátulas e trinchas, aspas. Percebo que eles se alvorocem, que mandem batedores subassalariados por antecipação. Percebo, percebo – o que me faz gostar ainda mais da Fonte das Figueiras. E da Fonte da Junqueira. E das fontes todas que, manando da terra que é de todos, a todos se oferecem limpamente e de limpa mente como aquela gente.
O chato é a possibilidade de aquele Movimento, um destes dias, pegar de estaca, a ponto de o resto do País se julgar ribatejano & pró-activo. E se os zeladores da Fonte das Figueiras se lembram de ir limpar a dívida colossal da Câmara de Santarém, expurgando-a de pus e crosta? E se àquela malta lhe dá para vir de lixívia esfregar o contrato do Café Central, ou vir de escova de aço cardar a lã ao estacionamento tarifado, ou ensaboar os processos inquisitorial-disciplinares aos impugnadores de concursos manhosos, ou fazer uma barrela das antigas aos contratos orais com empreiteiros, ou impor uma faxinadela das valentes ao encerramento de maternidades e afins estruturas da saúde?
Imaginai ainda mais: que aquela gente afinal perigosa (porque gosta de música, de poesia e de partilhar a merenda, entre outras subversões) desata por aí a lavar os cestos da Selecção Nacional da Bola, a vindimar a direito na Assembleia da República e a arejar os bafientos salões dourados que, de Bruxelas a Estrasburgo com moratória central em Berlim, nos ensombram a soberania e nos atulham o presente e o futuro de lixos irrecicláveis como o desemprego vitalício, o desamparo na velhice, a choldra na justiça, a impertinência na educação, a selvajaria antropófoba do hipercapitalismo, a manipulação no jornalismo e a infelicidade obrigatória da pessoa singular?
Calma. Por enquanto ainda só estamos a levar o cântaro à fonte. Até o dia em que ele teime em lá deixar a asa. E isso pode acontecer.
A partir das Figueiras e da Junqueira, pode. Pode, pode. É limpinho.