Friday, September 26, 2014

Leonor em tercina



Em tercina,
cresc. poco a poco
a Leonor,
a minha Menina.

Thursday, September 25, 2014

Rosário Breve n.º 375 - in O RIBATEJO de 25 de Setembro de 2014 - www.oribatejo.pt







MDI

Esta é a edição n.º 1501 do nosso Jornal. Muito bem. As minhas fuças estão pespegadas nesta página há apenas 375. Muito bem na mesma.
Há casamentos que não duram nem a décima-parte dos já quase trinta anos hebdomadários deste título. São matrimónios, por assim dizer, sem direcção, sem escrita, sem aparato gráfico, sem quem os assine – muito menos leia. Os casamentos efémeros, de tão vulgares, nem grande publicidade chegam a ter.
Por seu lado, ele há também e também por aí andam jornais que nem para forrar a gaveta-do-bacalhau servem. São pasquins devotados ao serviço pulha e infecto dos gigantes da indústria e dos anões do comércio. São coisinhas que lambem. Praticam o “jornalismo” papa-croquetes dos portos-de-honra, das tasquinhas com seu secretário de Estado portátil, das feirolas “medievais” pré-congeladas e pré-embaladas para pasmo dos asnos que confundem a História com as barracas de farturas.
Tais casamentos e tais publicações não duram – porque são existências moles, invertebradas, servis, viscosas, instantâneas, aguadilhas, vocacionadas para bufas de si mesmas.
Nos matrimónios céleres, enfim, não toco.
Já nos jornais sim, toco – mas faço-o de dedos em pinça repugnada: ena tanto especialista!, ena tantas sabedorias!, ena tanta cagança!, ena tanto sobrinho de banqueiro!, ena tanto autarca!, ena tanta namorada do CR7!
A excepção está à minha frente. Escritorzeco de pastelaria de província, habituei-me a este lugar de alumínio no extremo norte da galeria da Rita. A excepção é um casal já encanecido, desses que os anos em comum volvem idênticos como irmãos naturais.
Arreiam boa roupa lavada. Calçam óptimo couro.
Ela veio de fina blusa branca sobre saia de xadrez-da-Escócia. É de olhos azuis como duas janelas viradas para o mar na manhã clara.
Ele é cavalheiro de porte não pequeno, camisa cinzenta matizada de uma chuva de rápidos riscos verdes, calças de fazenda ponderosa, morna, daquela que faz bem à pele.
Evidentemente, invejo-os.
Às vezes, vem aqui o filho ter com eles. Tornam-se então uma espécie de namorados veteranos que se dão ao luxo de ter um amigo mais novo. É bonito de ver-se.
Venho a saber que se casaram em 1985 – há 1501 semanas, mais precisamente.
Desiludidos fiquem uns, satisfeitos por eles se quedem, como me quedo eu, os demais – pois que nem aqueles nem estes esperaram jamais que Ribatejanamente durassem tanto.

Thursday, September 18, 2014

Rosário Breve n.º 374 - in O RIBATEJO de 18 de Setembro de 2014 - www.oribatejo.pt

SMS: Siglas Maravilhosamente Simples

Permite-me, ó bom Leitor, a seguinte confissão: tenho uma pancada muito jeitosa naquilo das siglas. Sou doidinho por elas. Mas nota tu bem: não pelo seu real significado, mas pelas possibilidades maravilhosas de significação alternativa. Tenho milhões de exemplos.
FNAC é um exemplo bom. Não quero saber se, no plano real, é a megacadeia de livros, discos, filmes e afins coisas multimédias. Nem se era aquilo d’antigamente do ar-condicionado. Para mim, FNAC é: Fazer Nojo Aos Cães. Pronto.
NASA. Esta é outro mimo para mim: Nós Americanos Sabemos a Ânus.
Na volta para casa de algum arraial com amigalhaços de copázio & coparete, o meu ideal vir CTT: Com uma Tremenda Torcida.
A política, essa grande porquita, não cessa jamais de me ajardinar-de-delícias o coração doidivanas. Olha aqui, Leitor, como lês tu esta sequência: PS-PCP-PEV-PSD-CDS-BE? Hum? O quê? Partido tal, Partido tal, Partido tal? Mas qual quê?! Tu não vês nesta justaposiçãozinha a mão do Diabo cifrador de códigos? Eu vejo.
Concedo-te: lês nisto o nome de partidos por seres mentalmente são. O teu cérebro é um alperce fresco. Eu, são, não sou. Porque na enumeração PS-PCP-PEV-PSD-CDS-BE eu leio: Pobre Seguro – Por Culpa Própria – Por Engrolar Verborreias – Pode Suceder-lhe Doravante – Costa Depois de Sócrates – Bonito Encalacranço!
Vês, vês? Viste, viste? Estava ali tudo escarrapachadinho, mas tudo – e tu, preguiçoso, a ler banalidades onomásticas.
Lírico irremediável que sou, cultor de inúteis belezas que fui sempre e para sempre serei, sou também um irremediável leigo quanto a geringonças práticas. Mudar uma lâmpada atrapalha-me a vida por mais de quinze dias. Abrir uma torneira que não seja das dos pipos deixa-me boi ante o palácio da simplicidade. E por aí afora. A minha Senhora Esposa é que me ataca os sapatos. Nunca comi sozinho uma sardinha: tem de ser ela a desespinhar-me o peixito. Uma vez, tentei fazer a cama – ela dormiu no sofá, claro.
Tudo isto te confesso & explico por causa da sigla LNEC. O mero som dela (lnec, lnec…) não te parece aquele ruído salivar dos malcriados que mastigam de boca aberta? Ou ainda: o lnec-lnec é ou não exactamente aquele estalo do elástico da cueca na anca? Hum? É pois. Eu sei que tu sabes que LNEC significa, no mundo dos não-avariados-da-mona, Laboratório Nacional de Engenharia Civil. Seja. Mas para mim, népias disso. Para mim, é das interjeições contra-ofensivas mais lindas que pode haver. Se alguém te chatear, só tens de lhe zurzir cuspo assim: vai LNEC! Ou seja: vai Levar Nos Entrefolhos do Cagueiro!
E os ex-ministros? Ah, a meu ver e a meu ler, o que (não digo que todos, mas que quase todos) fazem – é GNR. Isto é: Guardam o Naco Roubado. E a verdade seguinte é que PSP: Poucos se Salvam da Pilhagem.
Por voltas, revoltas & reviravoltas do imparável processo histórico, a sigla URSS já não se usa. Ai não? Usa, USA! No caso da minha maluqueira, a URSS é eterna: por, sendo não raro do teor diarreico, portanto humaníssima, valer – Urgência Repentina de Soltar o Saco.
E USA? Fácil: Ungidos de Santidade Astral. No mínimo.
E ONU? Olha, Nelito, Unta-me.
E NATO? Nunca Andaste Tão Osga.
De todo o desarrazoado que supra te expus, ó meu fiel e bondoso leitor, concluirás que um bocadito de fluoxetina me não faria mal de todo, bem antes pelo contrário. Talvez. Tenho um médico amigo, o Adelino Correia. Dr. Adelino Correia. Ui: DR AC. Sigla. Já sei: Demónio dum Raio, Arranja-me Comprimidos. E ele então, com pena de mim e de eu de tão pobrezinho quase de algibeira numerária como de cabeça, paga-me bagaços até a língua e a Língua me ficarem encortiçadas de todo, e a boca e o Idioma me saberem a pomada de largo espectro de acção fungicida.
Estranharás talvez, Leitor meu caríssimo, que te não ceda a minha particularíssima e dementíssima descodificação de GRP (Governo da República Portuguesa) ou de CMS (Câmara Municipal de Santarém). Pois não. Nessas duas siglas não me meto. Não é por medo. Nicles de medo. É por uma bem mais simples razão. Esta aqui: porque tudo o que nos fazem, fizeram e vão continuar a fazer, é de FNAC, só quero que tanto uma como outro vão mas é LNEC.




Thursday, September 11, 2014

Rosário Breve n.º 373 - in O RIBATEJO de 11 de Setembro de 2014 - www.ribatejo.pt

Ou estudo ou nada

Felizmente, o meu curriculum académico não compreende (no sentido duplo de conter e de entender) qualquer cadeira da “universidade” de Verão da JSD.
Digo felizmente com exactidão: por ser feliz que me sinto com a memória dos meus professores sérios e com a certeza de ter usufruído de uma pedagogia humanista só p’ra pessoas. A autognose que hoje posso mostrar ao espelho enquanto raspo o pelame dos queixais deriva de um lar sólido (ou”estruturado”, como agora é moda dizer), de uma escola perto e de uma vontade de aprender a que os anos não são capazes de vergar o espinhaço.
Se a infelicidade me tivesse feito cursar a tal “universidade” gaiato-citrina, eu seria hoje um palerma vácuo, um enforcado de gravata, um imbecil irresgatável, uma lesma sintáctica, um caracol morfológico, uma besta vesga, um assessor solícito, um acólito castrado, um invertebrado viscoso, um orador afónico, um esterco perfumado, um balão sem nó, um tumor com pernas, uma unha do polegar roída por prótese dentária, um nojo literário, um asco de cavalheiro, um cônjuge corno, uma anorexia idiomática, um assinante do (Amigo do) Povo Livre, um paulo-bento-contra-a-Alemanha, um dos responsáveis pelas barreiras de Santarém, um mata-peixes da Vala de Almeirim, um palerma televisivo, um infante sem infância, um programador do CITIUS, um ortógrafo indigente, um arrumador a 20 cêntimos no estacionamento subterrâneo do Jardim da Liberdade, um turista da Águas de Santarém, um colunista de O Mirante, um bilheteiro do teatro Sá da Bandeira, um actor-fantasma no Rosa Damasceno, um vizinho tê-zero daquele rapaz-escrivão da Golegã, um artolas patusco da luta contra a corrupção no Cartaxo, um padre sem fé mas deixai-vir-a-mim-as-criancinhas, um incendiário da Barquinha, um toureiro zoófilo – e, enfim, um jove’ social-democrata.
Vale-me que tal infelicidade seja, no meu caso, do mais alto grau de improbabilidade. A escola ensinou-me a pensar com os olhos. As pessoas não me são estranhas. O social não me aparece como alienígena. A pobreza material não é por mim encarada como sinónimo directo de miséria moral. Eu não vou ali ao Gambrinus canonizar um sucateiro. As escutas que me fizerem ao telefone não me ocultarão a verdadeira face. Nisto de faces, se me baterem numa eu não dou a outra, mas troco sim – e a dobrar.
Sempre que a JSD faz uma “universidade” de Verão, o Verão acaba. E a universidade também. Cada vez que a JSD diz a palavra “universidade”, as pessoas sérias pensam no Relvas. A “universidade” de Verão da JSD está para a universidade verdadeira como a Festa do Avante ser não na Quinta da Atalaia mas na Cova da Iria.
Ou numa das barreiras de Santarém.

Thursday, September 04, 2014

Rosário Breve n.º 372 - in O RIBATEJO de 4 de Setembro de 2014 - www.oribatejo.pt

Isto das cores

Na mesa em frente à minha, um homem doente. É quase ’inda rapaz: uns bons (ou maus) quinze anos deve ele perfazer a menos dos meus. O rosto dele é um clarão sanguíneo. A moção gestual dele é muito lenta – como se até o ar lhe doesse. De que sofrerá? De estar vivo naquele corpo, talvez. Tomou (mas tão lentamente!) um copo alto de café-com-leite. Ei-lo a respirar do esforço. O copo de água atira-lhe quatro comprimidos (um azul, um verde, um rosa e um prateado) para o labirinto gástrico (vermelho-negro). O olhar dele é feito de duas ilhotas pretas sobre nácar coagulado. A roupa é de lavada decência – alguém (a mãe?) trata dele ainda. Usa ao pescoço um fio religioso que lhe pesa na cerviz: Deus custa quilogramas na aflição. Tomou-o cedo de mais a terminação: o meu Leitor e eu, é a um moribundo que assistimos.
Repórter coscuvilheiro, junto da patroa do botequim indago dele. Diz-me ela que o rapaz é de família de bem & de bens. Mais me conta que, de quatro filhos, é ele o último. Último duas vezes: porque dos quatro o mais novo e porque único desde que, aos três outros, os finou aquela maleita irreciclável da turbina cardíaca.
Chega entretanto à esplanada a minha pomba das sete e dez. Veio com a alba no bico. É lustrosa fêmea: maciça, virente-plúmbea, duas graciosas dedadas de tinta-permanente na junção posterior das asas. Cabeça muito viva, mui latina, mui ladina. Mesmeriza-me sem pudor: quer do comer que sabe ela lhe trago eu no saco. Faço-a esperar um pouco: estou a escrever para o meu Leitor. Ela circunvagueia como um polícia aborrecido da vida. Pica do chão, por desfastio, uma migalha invisível. Sinto a indignação a crescer nela. Mas, por me faltarem dois parágrafos crónicos, haverá de esperar um pouco mais.
Quando dela aparto o olhar, descubro, para serena mágoa minha, que se foi já embora o moço do atávico coração. Ei-lo longe já além, além passando milimetricamente a passadeira. Causa ele uma fila nervosa de carros impacientes: ser automobilista é não cuidar do coração. Perdi-o. O meu Leitor perde-se dele. Não voltaremos, talvez, a escreve-lê-lo. Resta-nos a pomba. São sete e dezassete da manhã, sete minutos a demorámos já.
Vou ao saco. Tenho arroz para ela. Quatro singelos bagos tenho eu para ela: um azul, um verde, um rosa e um todo de prata – como só ela. 

Thursday, August 28, 2014

Rosário Breve n.º 371 - in O RIBATEJO de 28 de Agosto de 2014 - www.oribatejo.pt

Queixa no País da Insónia

Não sei se é a má-sina a perseguir-me, se sou eu a persegui-la a ela. Talvez ambas as coisas. No caso presente, falo-vos do putedo que me não deixa dormir. Explico-me.
Na antepenúltima cidade em que vivi, a minha casa (mas só o descobri depois de arrendá-la) era precariamente vizinha de uma casa-de-alterne. As madrugadas eram o calendário mais hostil do dia. As gajas, mais os lenocidas que as parasitavam e mais os deserdados de pulseira de lata que as frequentavam – encenavam e protagonizavam altífonos histerismos de navalhada, protestos de amor a vintes e a cinquentas, forrobodós de cassete-pirata sem ballet nem rose. Um ultraje pegado. Pouco adiantava chamar as “ótoridades”. Quando vinham (se vinham), pareciam pedir ensonadas desculpas às senhoras meretrizes, invariavelmente espécimenes de brasileiredo do mais chunga, tisnadas do esterco daquela maquilhagem contrafeita de feira e armadas de garras envernizadas de amarelo-pus e escarlate-cirrose. Nunca havia detenções, nunca havia autuações. Nada. Só quando aquele circo ia dormir para algum remoto apartamento-galinheiro é que a civilização voltava à má-hora dos meus aposentos. E eu ficava com o bebé da insónia nos braços, roto para o resto do dia até ao vira-o-disco-toca-o-mesmo da madrugada seguinte.
Na cidade ulterior, vivi em paz: como no bairro também moravam senhores médicos e senhores juízes, o gado-de-aluguer não accionava por ali o taxímetro das virilhas. Dormi muitas santas noites nesse quartito sem mulher nem renda excessiva.
Há três anos e picos que vivo nestoutro burgo. Foi bom. Foi bom até este malfadado mês de Agosto. É que o putedo voltou. A prostituição-de-giro sitiou a minha rua e as circunvizinhas. Toda a noite é por aqui um carrossel ignóbil de carros tripulados por energúmenos das obras para quem o Brasil é uma espécie de quimera com direito a caipirinha falsa e a rodízio de varizes roxas como o manto do Senhor dos Passos. Isto agora onde não durmo é um bairro-da-tijuca. As alvoradas amanhecem juncadas de lixo. Há batidelas nas viaturas dos trabalhadores sem garagem que, como eu, tiveram a má-sina de ali se aquartelarem. O sotaque carioca gargalha obscenidades goianas até às cinco, seis horas da matina baiana. E já sabeis como é: pouco adianta rogar às “ótoridades” a esmolinha de por ali rondarem profilacticamente. Elas vêm mas é o carago. Devem ter medo daquelas unhas.
Posso parecer-vos xenófobo e misógino. Oxalá que sim. Conheço poucas coisas tão degradantes como a privação do sono. Talvez a fome. Talvez o desGoverno (este como o anterior, o anterior como o próximo). Podem parecer-vos ofensivas as minhas palavras. Oxalá que sim. Quero ofender. Quero vilipendiar. Quero dar troco. Quero dormir.
É claro que não tenho pensado noutra coisa senão na utopia de outra casa noutro bairro. Talvez de outra cidade, até. De outro país, não. Não posso. Este é meu. Só tenho este. Não vale nada mas só tenho este. E só quero este. Hei-de resistir nele a tais malfadados e sórdidos despojos de império colonial de pacotilha.
A não ser que ele, o meu/nosso País, vá de vez, como tem ido, com as putas. Se for o caso, o melhor mesmo é emborcar umas caipirinhas e, para as rapidinhas, desembolsar uns cinquentas, com sorte uns vintes. 

Wednesday, August 06, 2014

da série Leite dos Santos - entrada 54 do caderno 16 - BAILE SOZINHO ou O INVERNO DE QUELUZ

54

Leiria, manhã de 12 de Maio de 2013, sábado


Sei de uma mulher e de sua filha, o homem da casa
fugira delas para a venezuela-do-costume,
acabaram as duas, uma sem saber da outra,
por se relacionar com um rapaz de maneiras
& unhas polidas, quando finalmente se descobriram
ambas utentes do abraço dele, chamaram-no a casa

e esquartejaram-no o mais civilizadamente,
ele ocupou o estúdio das águas-furtadas,
deixaram-lhe o domingo de folga,
segundas-quartas-sextas para a mãe,
terças-quintas-sábados para a filha,
ele engordou um pouco, tornou-se algo paxá,

mas no geral a vida ia e corria bem, entretanto
o contrato dele nos Correios acabou,
de modo que elas ficaram felizes até,
tinham e mantinham uma loja de sementes,
despediram a empregada de quase toda a vida
e meteram-no lá a ele a ensacar amostras de girassol

para as feiras e para as entregas ao domicilio,
o problema foi numa destas ele se ter deparado
com Clotilde, uma viúva larga como a vida
de algumas pessoas como ela, ela-Clotilde chamou-o
à pedra da razão, pôs-lhe casa na mansarda do prédio
que todo lhe pertencia a ela, como ele passou a pertencer.

Thursday, July 24, 2014

Rosário Breve n.º 368 - in O RIBATEJO de 24 de Julho de 2014 - www.oribatejo.pt

Olha, Mimi

O Verão tem acontecido temperadamente. Trouxe de volta as cores, espargiu pelos relvados as poucas crianças que ainda por este País de tesos sem tusa são feitas. A chávena de leite fresco sabe bem na estreia de cada dia nato em nata. A meio da manhã, a malga de branco amorangado também. No estaleiro da obra, duas aparas de madeira esbraseiam a sardinha operária.
Dona Graciana veio bem-disposta da consulta: ainda não é desta que nos fecham o posto de saúde. Juvenal chega do rio com uma rede generosa de peixes quási vivos. Expele delicada fragrância erótica a turista de sandálias verdes e promessa de blusa vinculativa, de que mana (ou mama) a fofura do par de alperces lácteos. Parece rola dada aos ardis turvos da lingerie. É ela quem lhe dá na malga frígida de branco, indiferente aos miasmas oftálmicos que lhe açulam ao decote. De bicicleta furiosamente encarnada, vem pedalando vapores de toiro o Ruizito da Aurora – dizem que é muito esperto na matemática, mas oxalá que não estude para professor por causa do emprego, quanto mais da carreira. O Telmo da Florbela está precisamente agora a teimar com o Horácio Padeiro a propósito da exactidão onomástica da pintora francesa exposta em colecção na Casa-Museu Passos Canavarro: o Telmo assevera que é Mimi Fogt; o Horácio, que não, que pode lá ser, que Fogt é lá nome francês. O Raul da Farmácia tem uma amante casada em Alpiarça e quer que se saiba, mas baixinho. Às quatro da tarde, a cal da igreja está em brasa ao torresmo solar. O pachorrento Mariano da Estrelícia brande o jornal ao Benedito Borbulhas, chamando mentirosos aos jornalistas por causa daquilo das 100 maiores empresas do distrito de Santarém. Quando o Benedito quer saber porquê, redargue-lhe o Mariano que ao todo nem 40 empresas há-de por aí haver em laboração, quanto mais cem. Eu sorrio mui doutamente, rodando na pata esquerda o terceiro vermute abridor da ceia. O Joca Franciú, que esteve uns anitos poucos no Luxemburgo para vir de lá sifilítico de ainda mais pobre do que o aquando de para lá ir, tira à carrada industrial cera do orelhame com a unhaca do mínimo, fazendo estralejar a pulseira de lata gross’amarela. Carregada de flores como a Mrs Dalloway, passa a caminho do cemitério a patética Ricardina. – Estás-lh’a chamar pateta porquê?, quer saber o Joca. E eu digo-lhe que patética não quer dizer pateta, quer dizer comovente. E mais lhe digo que até parece que tu foste ao São Carlos desgostar a sinfonia do Cruges com aquelas mamarrachas da plateia. E ele remata que aqui não mora nenhuma Senhora Dá-lo-ei, que eu tenho mas é a mania. E tenho.
Nisto, a noite emaranha já gambiarras de silveira estelar. Da boca do rio, uma aragem branda traz o frescote. O rio mesmo parece prantear os filhos que lhe sequestrou o Juvenal. O Assunção vai de zundapp buscar a mulher à saída do hipermercado. O Mariano ainda está a zurzir naquilo das não-sei-quantas maiores empresas do distrito, pelo que, fartinho dele, o Borbulhas lhe diz tipo isto: – Ó pá, se tu subisses a um altar no 15 de Agosto ainda t’apar’cia o prezdente-da-cambra na procissão. E o Mariano: – Olha, Fogt.   

Wednesday, July 23, 2014

A Secreta Vitória


A Secreta Vitória


Fazem as pequenas pedras os grandes edifícios. E pequenos, por igual ideia, parecem os homens que organizam as ditas pedras de modo a que a História encontre marcos no tempo que passa. Que passa para as pessoas, não para os monumentos.
A Batalha, toda ela, vila e mosteiro de Santa Maria da Vitória, evoca essa comparação. Não é possível, perante a beleza descomunal daquela pedra, evitar a íntima inquietude de sermos, nós pessoas, ínfima areia. E que só ela, junta e trabalhada pedra, é eterna.
Ainda assim, retenhamos de uma visita à Batalha (que é, como em tantos outros casos de amor, uma revisita) a noção de que a alma colectiva existe. E que olhando nós o que invisíveis e dissipadas mãos ergueram, também mãos damos ao que eles quiseram olhar por dentro e de frente: a alma da História, a nave do Tempo, as abcissas da Memória.
Visitada, revisitada, nunca esquecida, a Batalha exalta deste modo uma vitória mais secreta que a de Portugueses sobre Castelhanos: o triunfo da arquitectura sobre o esquecimento. Ou a morte da Morte, por assim dizer.

Saturday, July 19, 2014

Rosário Breve n.º 367 - in O RIBATEJO de 17 de Julho de 2014 - www.oribatejo.pt

Menos um morto ali para a mesa do Moita

Não é só o professor Marcelo que faz homilias dominicais. Moita Flores também as faz. É na página 2 do Correio da Manhã. Não há véspera de segunda-feira que lhe escape. Na mais recente, perorando um chorrilho de banalidades vácuas sobre os incêndios que cada Verão nos causticam a Pátria, sai-se ele com esta assim: “Oxalá morram menos pessoas, mas que ninguém duvide que o fogo nos vai abrasar outra vez.”
Pode ser que eu seja picuinhas. Pode, até, que eu solenemente me dê ao desperdício de embirrar com o homem. Pode. Mas, a esta, não lha deixo passar em claro, que nem na lerpa sou de ir ao escuro. Basta olhar para a (des)conta-corrente da Câmara de Santarém para ver sem precisão de óculos e/ou de binóculos que este senhor Moita é de más contas. De modo que o interpelo aqui assim: Menos pessoas mortas? Quantas menos? Um bombeiro? Dois? Três civis? Meia dúzia? Frase infeliz, irreflectida, vã, de copy-paste moralóide: “Oxalá morram menos pessoas (…)” A frase correcta, até humanamente, até curialmente, até como toda a gente, teria (e tem) de ser: “Oxalá ninguém morra.”
Ao contrário do senhor Flores, a minha mulher é pertinente. Para além do ofício de ganha-pão, é bombeira voluntária há uma carrada de anos. Terei eu de pedir ao senhor Flores que a integre na sua oração-de-oxalá? Que seja ela, este Verão, uma das “menos” que não ardam? Uma das que, sacrificando-se na ara e em aura de solidariedade social-colectiva, não deixem de si apenas cinzas, pó que somos todos?
Atenção, por favor: nada me move contra o ex-edil de Santarém, esse fugitivo do e ao escrutínio público. Também nada dele me comove. É criatura bidimensional apenas. É apenas outro professor Marcelo. É apenas outro Seara. Outro Sousa Tavares filho apenas. E outro Romeiro do Frei Luís de Sousa: “Ninguém!”.
Mas, figura pública que tanto e tão incansavelmente se autopublica e que tanto e tão incansavelmente se autopromove, tem responsabilidades. A citação motriz desta crónica sobrepassa o banal. É lixo à nascença. É uma treta até crápula. É uma coiseca vadia. Alguém ainda me há-de explicar como é que o (esse sim, grande) Luís Filipe Costa se deu ao luxo triste e ao desperdício de co-assinar com ele aquela frívola coisa dos “Polícias” para essa ampla manjedoura de inúteis e de cravas chamada RTP. Ou como é que há editora que de Moita carrascamente publique os dramalhões pseudo-históricos relativos ao elenco episódico da nossa vil capoeira pátria: das Ferreirinhas aos Ballet-Rose, dos Alves-dos-Reis a toda a trapalhada com a própria mulher em protagonista do telelixo do marido.
Digo eu e tenho razão: uma pessoa séria não deseja, nem muito menos escreve, menos morte. Deseja nenhuma. Escreve nenhuma. Num desastre de avião, uma pessoa decente não diz que “ainda bem que só morreram 273, sempre se safou a hospedeira”. Um escriba a sério nunca rosna que “no próximo bombardeamento de Gaza, oxalá que os israelitas matem menos quatro crianças”.
Há coisa de duas décadas, Gilles Lipovetsky escreveu uma obra chamada “A Era do Vazio”. É a nossa. É a porra da síndrome do balão: muita cor por fora mas só ar quente por dentro. Hélio de ninguém. Nada-resto-zero.
Já quanto à dívida da Câmara de Santarém, oxalá que este ano seja de menos milhões. Um milhão por cada morto a menos na fogueira do senhor Moita, a quem só não mando ir pôr-se num porco por não saber, eu, se ele domina a arte do contorcionismo. 

Monday, July 14, 2014

49 do 31 (Leiria, entardenoitecer de segunda-feira, 14 de Julho de 2014)

49

Com os anos, é possível aprender a ser-se amado.
Passou há muito, felizmente, o tempo das experiências.
A receita eficaz está agora na adoração pachorrenta:
as pantufas irmanadas, o gato plácido,
as andorinhas-de-barro na empena do alpendre.

Os grossos cordames dos navios não logram isto:
são só cordames de navio – e está muito bem.
Em vários istmos portuários eu vi tais cordames.
Daí que, sim-talvez-ou-não me ames,
o que retiro é ter sido o que olhava navios.

Não posso, bem no tente eu embora, deixar-me todo em papel.
Há coisas que são só p’ra dizer aos domingos
– e hoje é segunda-feira na minha vida e
amanhã também.
Penso ter-te posto isto em pratos os mais limpos.

Gosto, como tanta gente gosta, de crianças ao vento.
Sinto-nos cadernos-de-colorir – e elas, as cores.
Mas depois derivo, dou voltas na chuva mesmo fazendo sol.
Nos espelhos das barbearias, ao longo dos meus já tantos dias,
tenho visto mais do que a mera multidão restrita

do barbeiro & eu.
Uma vez, num inverno poderoso como um guante de ferro,
tremi sezões que não provinham de moléstia no sangue.
Fiz por esquecer isso em trovas fingidoras & bem escritas.
Também fiz filhas, nem tudo foram falhas.

Hoje, que é julho por minutos, já recebi sinais,
telepáticos talvez, da nunciatura feliz e descamisada
sempre tão afim dos poetas-de-esplanada.
Isto, à flor como no fundo, vale-me tudo,
por valer nada, ó só minh'(a)prendid'amada.

Sunday, July 13, 2014

Mais quatro entradas do caderno 31 da série Leite dos Santos - Leiria, tarde de domingo, 13 de Julho de 2014


36

A senhora Gioconda nos olhos nos olha
– e sorri de nós, não a nós.
Sorrirá da pobreza de cada um,
de cada um da escassez a que assiste.

Figura de colo manso, de suave tintura as mãos,
é senhora para isso, disso e de/para muito mais.
Habituámo-nos todos à sua voraz ubiquidade,
estatisticamente símil à do Cristo e à do Che.

Nimbada de ordinário mistério,
parece sacerdotisa de penhoristas,
pois que para sempre de prego pendurada,
a pobre.

Ninguém a requer em casamento,
ninguém aparece que um vermute lhe pague
em algum aprazível balcão do entardenoitecer.
Onanismos, não merece. Erecções, muito menos.

Pode que por ser tão Mona.

37

O corpo sente-se branco na luz completa.
Estas árvores, porém – que sentirão?
À luz toda, subindo água, cada delas, aberta,
abre-se em altura por & à condição.

Panos limpos domesticam a cozinha
que em manhã livre ela lavou.
A sala cheira a qualquer coisa azevinha
que, avezinha, ela (po)voou.

Eu vim à rua. Em casa, ela, de si descuidosa,
cuida das plantas, que dela são prolongamento.
Nunca se queixa, nem se lhe escuta lamento

do que-foi-que-não-foi. Habilidosa,
bricàbraca coisas, abre, fecha, veda, estanca.
Nisto, dá-lhe a luz: ei-la, tão branca.

38

Que espécie de pureza em leite poderia eu
não prometer-te em vida por mais um dia?
Ouvi falar crianças, foi num outro Inverno. Sucedeu
que aquilo me deu, não sei, uma ’spécie d’alegria.

Em torno de nenhum centro me fiz periferia.
Ah sim, tenho habitado abrigos só mentais.
Contas bem feitas, usei já não sei quantos portugais.
Deles, nenhum a algum outro preferiria.

É mesmo assim como te digo, podes crer.
Vou usando com proveito a ciência da não-espera.
Telefonam-me muito, mas é p’ra me dizer

que este & aquele Amigo não chegam à Primavera.
Porra, chiça, merda, catano!
Já (des)contei cinco, só este ano.

39

Com deliciosa, insuportável quase, lentidão
a do segundo-andar acende dela o cigarro.
De vez em quando pela rua passa um carro
e mais nada se passa, há felizmente quietação.

A mulher disse-me que trouxesse versos & algum pão.
Esqueci-me em casa do isqueiro, peço fósforos à Sónia,
robusta empregada, que seria amazona se fosse da Amazónia.
A luz azula a esplanada. É pouca a frequentação.

No bornal, trago o Ángel Crespo & o Antoine de Saint-Exupéry.
Já me icei duas vezes daqui: uma p’ra fósforos, outra p’ra chichi.
Vai bonita a tarde: luz & brisa são dupla consolação.

Bocejo o meu bocadito, apesar dos três cafés que bebi.
Se calhar fecho ora o caderno, vale pouco o qu’escrevi.
Valha, enfim, o que valer   desde que me não esqueça o pão.

Três entradas do caderno 31 da série Leite dos Santos

Leiria, manhã de domingo, 13 de Julho de 2014

33

Humana frota tripula a manhã dominical
ao remanso fresco que a hor’ainda dá.
É uma matina portuguesa, ilesa, meridional:
melhor do que ela é que não há.

Às nove, na Igreja de Santa Cruz de Coimbra-a-Minha,
rezaram missa por alma e em intenção
do meu ido Amigo José António da Conceição.
Neste sítio mundial, que Leiria é, a luz pergaminha

o fluvial arvoredo, que é de rama umbrosa.
A vida, assim quieta & (c)alma assim, é decorosa,
é rosa de que se não augura o fim.

Mas tem-no. Detém-no. Para tal, não há remédio.
Suficiente & pertinente é, por ora, capar o tédio,
sabendo de ti alguma coisa – e tu, alguma de mim.

34

Desse azul mais escuro
que é veludo noctâmbulo
& da manhã preâmbulo,
reverso dela o mais puro

– desse oferta te fiz & faço.
Lento, cada verso, tipo melaço,
para ti escorre, quer ser, entregar-se.
O melhor do receber ’ind’ é o dar-se.

35

A mulher hoje de azul na esplanada clara
é dessas belezas verticais que ao céu mesmo sublimam.
Duas belas orelhas de viva louça a encimam.
E o rosto é desses rostos a que se não chama cara.

A bacia dá ao torso a sugestão da ânfora.
O pé, a ouro de tiras sandaliado,
tem qualquer coisa de âmbar, digo, de cânfora.
Todo o resto é muito bem ataviado.

Tem marido, claro, que à trela usa ela.
É rapaz de têmporas grisalhadas & de perfil discreto.
Usa camisa castanha com gola amarela

e umas sapatilhas lavadas, sérias, de tom correcto.
Ambos contribuintes, eleitores ambos democratas.
Ele é Rui. Ela é Maria do Amparo Gomes Pratas.





Thursday, July 10, 2014

Rosário Breve n.º 366 - in O RIBATEJO de 10 de Julho de 2014 - www.oribatejo.pt



Zeferino Crusoe

Chamo-me Zeferino, tenho 47 anos e ganho a vida a fazer carocas, ou pelo menos antigamente ganhava, sempre tive um bocadito de jeito mais ou menos pa’ quase tudo na construção e na agricultura, o problema é que agora tou preso vai já para uns meses largos, mas atenção, preso sem ser na prisão, nunca cometi crime algum senão ser pobre, digo preso porque é como tou, eu conto.
Acontece que aqui há uns tempos me chamaram se eu queria vir ajudar a arrancar equipamentos e coisas assim aqui ao Café Central e eu disse que sim, três euros à hora hoje em dia não são pa’ desprezar, quanto mais aqui há meses que era quando o euro ainda valia, sei lá, tipo uns setenta paus dos antigos quando é pa’ receber e quatrocentos e tal dele quando toca a pagar, mas adiante, apresentei-me e fiz tudo o que ma mandaram, arranquei tudo o que ma mandaram arrancar, arcas frigoríficas, vitrinas dos bolos, máquina do café, os seis baixos-relevos do senhor Maximiliano acho que Alves, era isso, Alves, por acaso até muito bonitos, tive pena, claro, mas três euros são três aéreos e é vê-los àvoar, como eu dizia portanto arrancar arranquei, só que no fim, quando era p’arreceber, quem arrancou foi quem aqui me chamou, o pior inda nem foi isso, o pior foi que por causa da marosca me trancaram aqui dentro e por isso é que eu disse que tava preso e tou e é aqui no Café Central.
Tou aqui há tanto tempo que nem sei s’inda é o senhor Noras q’amanda cá na parvónia ou sindé aquele da televisão que diz mal do que se dizia que queria o lugar dele, se não é devia ser, dizem que ele é que não quis qu’isto fechasse, qu’era uma pena, talvez por causa dos coisos maximilianos, isso não sei nem sou chamado a saber, o que eu sei é arrancar, construir também sei se for preciso, mas pa’ isso chamam cada vez menos ou nada.
Ó princípio inda julguei que fosse descuido sem maldade, mas não era, sacanitas dum raio viesse qu’os partisse, dos primeiros quinze dias nem me posso queixar, havia uma data de latas de atum e coca-colas daquelas de litrimeio, um português safa-se sempre mesmo que seja sozinho, é como, com licença da palavra, o mijar, se mija um português mijam logo dois ou três, ao menos no mijar sempre somos unidos, isso ninguém nos tira, inda havia luz também e como descobri a televisão antiga mesmo a pretibranco sempre fui vendo o Goucha e a Maya de manhã e o Jorge Gabriel de manhã à noite, nem sei como é que ele aguenta tanto sem ir a casa, quer dizer, agora sei, que também já não vou à minha Póvoa da Isenta desde antes do Natal, às tantas a minha mulher ainda desconfia que eu fui ali ao Retiro da Francesinha e prontos, e eu nada disso, que sempre lhe fui sério, excepto daquela vez quando foi pela largada dos toiros em Almeirim mas isso nem conta se vocês não lhe contarem.
Mas agora cortaram a água e tou que nem posso, ainda experimentei mijar menos de cada vez para ver se mapareciam os tais dois ou três e viste-zios.
Modos que era para pedir ao senhor Noras ou ao coiso depois dele que até fez mesmo aqui a festa de candidato antes de sir embora quase logo a seguir, agora já malembro, se podia mandar abrir isto mais uma vez, que eu juro que desta vez é de borla, té digo mais, que desta vez sou eu que pago a reabertura, só tem é de me dar tempo para juntar os três euros.

Thursday, July 03, 2014

Rosário Breve n.º 365 - in O RIBATEJO de 3 de Julho de 2014 - www.oribatejo.pt

Ver também:
http://www.oribatejo.pt/2014/06/30/santarem-limpeza-na-junqueira-e-festa-na-fonte-das-figueiras/


Levando o cântaro à fonte

Eu gosto de quem gosta da Fonte das Figueiras. Gosto, gosto. É gente exemplar, no sentido em que, pela prática do exemplo, demonstra sem peias nem rebuços a evidência seguinte: o melhor que há a fazer à sujidade é limpá-la, não é carpi-la. O zelo castra o desmazelo. E ao desconcerto do mundo – o mais é concertá-lo, consertando-o.
Aquela gente é veramente comunitária – sabe que o Outro existe, querendo para ele o que deseja para si mesma: um mundo mais limpo, mais respirável, mais humanista. A ecologia dela é com sabão. E o sabão nunca cheirou mal.
Também me agrada sobremaneira que tal movimento seja apartidário. Mas atenção: tal não significa que o resultado do seu activismo seja apolítico. Nem menos. Porque política a sério não é profissão: é missão. E é a resolução prática de problemas concretos. Não é torcer o que está mal, é torná-lo dextro. Porque o mundo é no nosso quintal que começa.
Percebo que isto desassossegue os políticos profissionais. Enxadas e enxós sempre inquietaram os colarinhos-brancos. Baldes e esfregonas, idem. Espátulas e trinchas, aspas. Percebo que eles se alvorocem, que mandem batedores subassalariados por antecipação. Percebo, percebo – o que me faz gostar ainda mais da Fonte das Figueiras. E da Fonte da Junqueira. E das fontes todas que, manando da terra que é de todos, a todos se oferecem limpamente e de limpa mente como aquela gente.
O chato é a possibilidade de aquele Movimento, um destes dias, pegar de estaca, a ponto de o resto do País se julgar ribatejano & pró-activo. E se os zeladores da Fonte das Figueiras se lembram de ir limpar a dívida colossal da Câmara de Santarém, expurgando-a de pus e crosta? E se àquela malta lhe dá para vir de lixívia esfregar o contrato do Café Central, ou vir de escova de aço cardar a lã ao estacionamento tarifado, ou ensaboar os processos inquisitorial-disciplinares aos impugnadores de concursos manhosos, ou fazer uma barrela das antigas aos contratos orais com empreiteiros, ou impor uma faxinadela das valentes ao encerramento de maternidades e afins estruturas da saúde?
Imaginai ainda mais: que aquela gente afinal perigosa (porque gosta de música, de poesia e de partilhar a merenda, entre outras subversões) desata por aí a lavar os cestos da Selecção Nacional da Bola, a vindimar a direito na Assembleia da República e a arejar os bafientos salões dourados que, de Bruxelas a Estrasburgo com moratória central em Berlim, nos ensombram a soberania e nos atulham o presente e o futuro de lixos irrecicláveis como o desemprego vitalício, o desamparo na velhice, a choldra na justiça, a impertinência na educação, a selvajaria antropófoba do hipercapitalismo, a manipulação no jornalismo e a infelicidade obrigatória da pessoa singular?
Calma. Por enquanto ainda só estamos a levar o cântaro à fonte. Até o dia em que ele teime em lá deixar a asa. E isso pode acontecer.
A partir das Figueiras e da Junqueira, pode. Pode, pode. É limpinho.

Thursday, June 26, 2014

Rosário Breve n.º 364 - in O RIBATEJO de 26 de Junho de 2014 - www.oribatejo.pt

Do Zé, agora Beatriz só

Nunca vivi abaixo das minhas impossibilidades.
Um homem é um homem, não se quer outro.
Relanceando sem dor nem euforia o baralho de pretéritos com que destrunfo a bisca do presente, o mais é serenidade.
Alinho com Ángel Crespo quando ele diz que “entre a mentira e a verdade se encontra o certo”.
Não minto, por exemplo, quando, às seis e meia da manhã, no Café da minha rua que abre mais cedo, dou e digo os bons-dias a quem madruga como eu. Escrevendo, cuido não errar, sempre que prefiro a claridade à clareza: todos nos pautamos por cifrado pentagrama próprio, codificada a experiência, apurado o gasto, expurgada a bílis da desesperança.
Canhoto de mim mesmo, ao espelho só. Ainda ontem, egresso do muito que chovia em virtude do ambular por galeria coberta, colhi mil-e-uma coisas que ao olhar volvem dextro e contente: o cavalheiro de chapéu alto & lentes fumadas a azul-de-teatro que rescendia a século XIX; a mulher (também alta e também azul) cujo balcão peitoral me semelhou um tabuleiro de nata pontificada por dois sumos morangos pontudos; duas grávidas trocando risadas à beira de uma carrinha funerária vazia; uma velhota portando uma rede de laranjas, estas e aquela consumando dois ciclos da terra; e uma revoada de pombas em esquadrilha bem mais ordenada do que estas linhas.
E tudo isto, entre verdade e mentira, para vos esconder que fui ao funeral do Zé Martins na segunda-feira mais recente das nossas vidas. Não queria, todavia posso contar-vo-lo.
Era por uma jornada de Verão pelo calendário – mas de Inverno nós adentro. Chovia que se não fartava. De manhã, os céus haviam desabado num fragor de fúria eléctrica, insana, poderosa, inútil. A tristura de canário do cenário reiterava a impensável morte do nosso Zé Martins, o de olhos claros herdados da filha Beatriz, o Zé a quem queríamos como a um irmão se quer. Entre nós-amigos-dele, ante o descalabro da má-nova, dera-se a fritura de telefonemas alquebrados, partidos pela medula, em uma partilha de vãs indignações contra o despropósito do Destino que no-lo roubara – ou do Diabo, ou da falta de Deus, por ele.
À saída do campo-santo de Chelo, e porque aquele último dormir dele é em serra não baixa, o Luís, o Zé Alberto, a Ana Cristina e eu fomos confrontados pela massa de vapor que obnubilava a aguda geometria de ângulos do panorama: uma nuvem rasa que tão depressa apagou a gravura como, de si mesma extinta, tudo de novo deixou clarear. Vimos aquilo, viemos nisto. Deixámo-lo lá, ao bom Zé, a sós consigo e por desconta própria.
Agora que isto escrevivo, é, para mais, de tarde – e agora é tarde de mais.
É verdade que sempre temos a Beatriz.
E não é mentira que por coisas assim prefiro a claridade à clareza, dentre as minhas impossibilidades.






Thursday, June 19, 2014

Rosário Breve n.º 363 - in O RIBATEJO de 19 de Junho de 2014 - www.oribatejo.pt




Allein zu Haus

Duplo azar de Fábio Coentrão: lesionado nos brasis da bola, aconteceu-lhe, no mesmo dia em que regressou a Portugal, acabar descobrindo que não estávamos cá – tínhamos “regressado aos mercados”. O brioso ala-esquerda do Real Madrid (que está para a carta de condução como o Relvas está para a licenciatura académica) deu por si sozinho na aerogare da Portela. Nem taxistas havia cá fora. Nem sombra de bilhetes do Tesouro para desbaratar nos chineses. Apreensivo, rumou a Espanha. A pé, não fosse por aí restar alguma GNR-BT.
Entretanto, no íntimo público daquele Partido a que por piada chamam “Socialista”, o respectivo Directório analisa cada milímetro táctico-estratégico de Paulo Bento. É isto que eles querem apurar: se (também) o seleccionador nacional percebe de descalabros com os Alemães, não irá ele precaver-se com o inócuo Hélder Seguro Postiga em vez de arriscar com o já-se-viu-que-se-aleija-logo Hugo Costa Almeida?
E agora aquilo do Pepe. O Pepe: esse grande lusitanista. O Pepe: esse nosso continente-e-ilhas-do-minho-até-timor. O Pepe: esse perfeito marinho-e-pinto de calções e chuteiras fluorescentes tão perito em usar a cabeça menos para pensar. O Pepe, enfim, somos todos nós – menos dez milhões.
Agora a sério para gente séria, só me ocorre dizer que tanta euforia falsa só podia resultar em tristonhice macambúzia de cachecol rubro-virente ao cachaço. Nem no tempo do Morcego Eunuco de Santa Comba Dão o futebóleo oleava tanta alienação de massas. Tanto desempregado comovido de patriotismo até à raiz cardíaca das lágrimas. Tanto reforma(fornica)do a interromper o Alzheimer para se lembrar do Varela ao lado do Éder, em vez da teimosia no Postiga ao lado do ninguém de si mesmo. Tanto barão do PS a dizer que então ao menos o Neto no lugar do Pepe, o Ricardo não porque também é Costa.
Como as areias mais finas pelos interstícios menos calafetáveis, o circo popularucho do “jornalismo” tudo invade. A RTP não dispensa o desdentado da rulote de bifanas, que pensa ele do coiso, o Meireles. A SIC rapta a velhinha que ia ali ao centro de saúde que já não há para apurar se, sim ou não, não terem levado o Quaresma fez mal à Páscoa. A TVI grunhe aleivosias caralheiras contra o árbitro que tão ruipatriciamente nos calhou. A CMTV, idem. A BolaTV, aspas.
Será ingenuidade minha, mas acho mesmo que, a seguir a cada jogo da Selecção (dita) Nacional, as televisões, as rádios e os jornais deveriam correr as esplanadas e fazer perguntas tipo:
– Acha que foi justa a derrota dos direitos laborais?
– Contava com esta goleada no IVA?

– Concorda que com o Eduardo ou o Beto o IRS ainda estaria pior?
– Acha que, por já ter 29 anos, o CR7 deveria ficar sem metade do rendimento?
– Vossemecê não acha triste que andemos todos por conta do “empresário” Jorge Mendes?
– Está à espera que o “regresso aos mercados” nos faça voltar em grande contra os Estados Unidos?
– Não era para si evidente que no Alemanha-Portugal a Merkel só lá foi para ver como se portavam os ’taditos dos coelhos?
Eu sabia que ia ser assim. Toda a gente sabia. Mas tanta “reportagem”, tanto “popular”, tanta merda sobre a bola – enjoa. Um jogo tem 90 minutos, 120 às vezes. O antes e o depois disso – são palha para burros. Espero que a Selecção volte depressa para casa. Quero a crise de volta. Quero a indignação de volta. Que é como quem diz: quero que Portugal volte a Portugal.
Os Alemães que joguem com os “mercados”. Sozinhos, como o Coentrão lá na Portela.


Thursday, June 12, 2014

Rosário Breve n.º 362 - in O RIBATEJO de 12 de Junho de 2014 - www.oribatejo.pt

Rua 1.º de Maio, Pedrulha, Coimbra. Foto de Luís Borges

Uma vez só

Na Rua onde a consciência da minha vida se deu em pertença ao mundo, existiam o senhor Elói e a senhora Celeste.
Ele era sapateiro em casa.
Ela dava injecções por fora.
O vinho dele era manso. Nunca fazia as cenas tristes dos bebedores sem conserto.
Ela era ladina e legítima. Parecia uma rosa frágil, mas era forte e rosa na mesma.
Geraram entre si vários rapazes: correctos todos, educados todos, todos e cada um homens já desde meninos.
A senhora Celeste foi dos dois a primeira a morrer.
(Na morte, é-se sempre o primeiro, alguém disse. No nascer, sempre o último, antetizo eu.)
Talvez por achar que o mundo e os sapatos que há no mundo deixaram, como o vinho de tantos outros homens, de ter conserto, foi em desconcerto que o novo viúvo se achou.
Deixou apodrecer a barraquita onde tantos anos remendara, cosera e assolara os calcantes pobres dos pobres seus vizinhos. Passou a beber (de) mais. O vinho da viuvez amargava-lhe a opinião.
No exílio do desamparo, sem filhos em casa, mal comia um bago de arroz. Julgo que o senhor Elói vivia de ovos cozidos e de figos esmagados em farinha para bebés. Gostava de nozes, mas também os dentes o tinham desertado. Como o vinho não tem ossos e não há por isso que roê-los, sustentava-se de uva-mijona ao preço-da-chuva em copo-de-três.
Nunca mais lhe bateram à porta – nem para colar um tacão, nem para pedir à mulher uma inoculação de soro milagreiro contra a humidade dos ossos, a secura do coração ou o ramerrão de tanto ontem à janela do amanhã.
Ele habituou-se ao lusco-fusco do vinagre de continuar vivo.
O rosto dele adquiriu aquela esponjura roxoviolácea cuja purpurina não engana ninguém.
Ele era porém, como até ao fim haveria de ser e foi, igual ao que fumava: um português suave definitivamente provisório riscado pela pederneira do silêncio no escuro da caixa-de-fósforos do quarto antigamente conjugal.
Gracejavam com ele a propósito das vacas-magras que o seu Sporting há demasiadas épocas apascentava. Ele sorria, contente de o terem presente. Mas de verdade não tinham – era só um viúvo só, um remendão que bebia e já nem remendava nem se emendava, um que lavava e cosia as próprias meias. Se ele fosse de destempero vindicativo, vingar-se-ia com o uso e no porte dos sapatos mais bem recauchutados da Rua e arredores. A graxa que ele caminhava, impecável e lustralmente acamada no couro velho das botinas antigas, era de outra coruscância.
As grandes e vitalícias chuvas de Março reiteravam o novembro-perpétuo da casa do sapateiro, nela percutindo a vidro a melopeia do não-mora-aí-ninguém-aí-não-mora-ninguém.
Era uma casita de fileira operária, ao alto do charco que dragaram para construção da mercearia do Licínio.
O sol claro do claro Junho, a lua próspera do sardinheiro Agosto e a nostalgia sideral da irredenção de Janeiro eram os recipientes naturais deste homem confirmado e conformado em solidão, daquela solidão mais sozinha que range móveis até nas saletas vazias.
Nunca o vi com um livro – talvez porque o instinto o fizesse saber que faria parte de um, este.
Sei que nunca permitiu que se oxidasse o estojo metálico em que a senhora Celeste descansava a seringa esterilizada. O que nele se oxidou foi outra coisa: talvez a consciência, talvez a vida, talvez a pertença, talvez o mundo.
Ou tudo junto nas apenas três letras de Rua.
Essa mesma a que tornarei também um dia.
E não há-de ser para viver, porque nem este verbo se difere nem se repete – e porque em e de alguma coisa hei-de, finalmente, ser o primeiro. 

Friday, June 06, 2014

Rosário Breve n.º 361 - in O RIBATEJO de 6 de Junho de 2014 - www.oribatejo.pt

Sei onde está a Maddie e digo como chegar a ela

1. Julgo ser acertado afirmar que: ou passamos a vida a contrariar a Infância, se ela nos foi feliz, ou a reiterá-la, no caso de triste. A Maddie ter-se-á safado de ambas as hipóteses. Ou não. Se calhar, não foi ela quem desapareceu. Se calhar, fomos nós.
2. Esmaltados a azul-cerúleo eram os púcaros de folha por que bebiam café de cafeteira caseira as mulheres da Praça. Derredor do núcleo de bancas com coisas de comer, respiravam cor e cheiros sãos as tendas com bonés de caqui, quicos de palha, leques de fantasia à espanhola, ferramentas de brincar, bolas de borracha, corta-ventos de lona. Bancas de mármore alinhavam a perfumaria de prata dos peixes. Do ar amplo sob a abóbada diáfana, chegava a fragrância do frango rodando no espeto como o ponteiro dos segundos. Aquilo era toda uma profusão de bolos crestados a açúcar fino e a amarelo-ovo em moldura de linho grosso: chegava a ser preciso enxotar deles as pombas do futuro, estas que ora mesmo espero no Jardim como estátua ázima trazendo de alhures o pão que ninguém quis. Ninguém, isto é: nós, os desaparecidos.
3. Os pais da minha geração nunca nos deixariam, nem nos deixaram jamais, a nós tão pequeninos, em casa sozinhos para ir beber copos fora. Os dentre nós portadores de infâncias felizes não sofreram, por assim dizer, de mccannização parental. Por isso me custa tanto compreender por que raio não foram os dois pequenitos extra-Maddie entregues à criação de e por famílias responsáveis. Nem por que espécie não foram, logo ali e no acto, presos os McCann. Que eu saiba, os pais do Rui Pedro não fizeram da desgraça profissão.
4. É o que V. digo: não foi a Maddie a desaparecer. Quem desaparece, são os jovens enfermeiros portugueses. São os investigadores da ciência. São os nossos assentadores de tijolo. É o que e é como V. repito: não foi nada a Maddie. Condenados ao avesso da Infância, resta-nos o orfanato da distância.
5. Vale, ainda assim, que desta pátria badameca nem todas as crianças desaparecem. Um senhor chamado Barra da Costa elencou alguns casos felizes. O rol ciranda pelas redes (ditas) sociais da net. Indica ele que, só no Ministério da Economia, há oito petizes muito mas mesmo muito felizes. Nenhum deles chegou aos trinta. Anos. O Joãozito Miguelito Folgado Verol Marques, por exemplo. Tem 24-anos-24. Aufere, o brutinho, o vencimento mensal bruto de 5.069,34 €. Chamam-lhe “especialista/assessor”. (Como se alguém pudesse, sem se chamar Leonardo, aquele de Vinci, aos 24 anos, ser “especialista” seja do que for…) Na secretária ao lado da do Joãozito, batem palminhas-no-ar os outros sete patinhos-que-sabem-bem-nadar. Entre eles, a Anita, que é da Conceição Gracias Duarte. Também ela, aos 25-anos-25, é “especialista”. E vence a mesma brutidade que o Joãozito leva para casa. Abençoada. Abençoada infância. Abençoadas velhas juventudes partidárias.
Já no Ministério da Agricultura, a Joaninha Mariazinha Enes da Silva Malheiro Novo está muito chateada. Recebe menos um cêntimo do que limpam por mês os supra-referidos seus comparsas da Economia. E já tem 25-anos-25, essa por igual veterana “especialista”. Ingrata! Bem mais amarga razão de queixa há-de ter (e tem) o Ricardito Morgado do Ministério da Educação e Ciência, cuja apressável mas inapreçável “carreira”, aos 24-anos-24, não lhe rende mais do que os miseráveis patacos perfazedores de 4.505,46 €. Como fará ele para gelados e downloads do Justin Bieber é que eu não sei.
5. De modo que, enquanto eu, de pão d’ontem no saco, acumulo o bolor de infante velho à espera de pombas que não prometeram vir e na antemão de um futuro que hoje não há-de chegar amanhã, acabo por deslindar (e à borla, sem querer e sem scotlandyards-de-inglês-ver-e-português-pasmar) o paradeiro da Maddie: estará, viva e gordamente remunerada à nossa custa, nalgum desses ministérios coelheiros. O rostinho loiro de abandonada deu lugar a uma photoshop de cartão-de-jota (S ou SD, que o parasitismo juvenil não distingue letras). Pois: desaparecer, desapareceu – mas pouco.
Já quanto à verdadeira Infância (pelos menos a minha), é o que dela V. garanti antes e acima: foi-se no éter, como eu próprio agora vou, enxotado qual pomba que não chegou a vir ao pão da crónica.