Thursday, July 10, 2014

Rosário Breve n.º 366 - in O RIBATEJO de 10 de Julho de 2014 - www.oribatejo.pt



Zeferino Crusoe

Chamo-me Zeferino, tenho 47 anos e ganho a vida a fazer carocas, ou pelo menos antigamente ganhava, sempre tive um bocadito de jeito mais ou menos pa’ quase tudo na construção e na agricultura, o problema é que agora tou preso vai já para uns meses largos, mas atenção, preso sem ser na prisão, nunca cometi crime algum senão ser pobre, digo preso porque é como tou, eu conto.
Acontece que aqui há uns tempos me chamaram se eu queria vir ajudar a arrancar equipamentos e coisas assim aqui ao Café Central e eu disse que sim, três euros à hora hoje em dia não são pa’ desprezar, quanto mais aqui há meses que era quando o euro ainda valia, sei lá, tipo uns setenta paus dos antigos quando é pa’ receber e quatrocentos e tal dele quando toca a pagar, mas adiante, apresentei-me e fiz tudo o que ma mandaram, arranquei tudo o que ma mandaram arrancar, arcas frigoríficas, vitrinas dos bolos, máquina do café, os seis baixos-relevos do senhor Maximiliano acho que Alves, era isso, Alves, por acaso até muito bonitos, tive pena, claro, mas três euros são três aéreos e é vê-los àvoar, como eu dizia portanto arrancar arranquei, só que no fim, quando era p’arreceber, quem arrancou foi quem aqui me chamou, o pior inda nem foi isso, o pior foi que por causa da marosca me trancaram aqui dentro e por isso é que eu disse que tava preso e tou e é aqui no Café Central.
Tou aqui há tanto tempo que nem sei s’inda é o senhor Noras q’amanda cá na parvónia ou sindé aquele da televisão que diz mal do que se dizia que queria o lugar dele, se não é devia ser, dizem que ele é que não quis qu’isto fechasse, qu’era uma pena, talvez por causa dos coisos maximilianos, isso não sei nem sou chamado a saber, o que eu sei é arrancar, construir também sei se for preciso, mas pa’ isso chamam cada vez menos ou nada.
Ó princípio inda julguei que fosse descuido sem maldade, mas não era, sacanitas dum raio viesse qu’os partisse, dos primeiros quinze dias nem me posso queixar, havia uma data de latas de atum e coca-colas daquelas de litrimeio, um português safa-se sempre mesmo que seja sozinho, é como, com licença da palavra, o mijar, se mija um português mijam logo dois ou três, ao menos no mijar sempre somos unidos, isso ninguém nos tira, inda havia luz também e como descobri a televisão antiga mesmo a pretibranco sempre fui vendo o Goucha e a Maya de manhã e o Jorge Gabriel de manhã à noite, nem sei como é que ele aguenta tanto sem ir a casa, quer dizer, agora sei, que também já não vou à minha Póvoa da Isenta desde antes do Natal, às tantas a minha mulher ainda desconfia que eu fui ali ao Retiro da Francesinha e prontos, e eu nada disso, que sempre lhe fui sério, excepto daquela vez quando foi pela largada dos toiros em Almeirim mas isso nem conta se vocês não lhe contarem.
Mas agora cortaram a água e tou que nem posso, ainda experimentei mijar menos de cada vez para ver se mapareciam os tais dois ou três e viste-zios.
Modos que era para pedir ao senhor Noras ou ao coiso depois dele que até fez mesmo aqui a festa de candidato antes de sir embora quase logo a seguir, agora já malembro, se podia mandar abrir isto mais uma vez, que eu juro que desta vez é de borla, té digo mais, que desta vez sou eu que pago a reabertura, só tem é de me dar tempo para juntar os três euros.

Thursday, July 03, 2014

Rosário Breve n.º 365 - in O RIBATEJO de 3 de Julho de 2014 - www.oribatejo.pt

Ver também:
http://www.oribatejo.pt/2014/06/30/santarem-limpeza-na-junqueira-e-festa-na-fonte-das-figueiras/


Levando o cântaro à fonte

Eu gosto de quem gosta da Fonte das Figueiras. Gosto, gosto. É gente exemplar, no sentido em que, pela prática do exemplo, demonstra sem peias nem rebuços a evidência seguinte: o melhor que há a fazer à sujidade é limpá-la, não é carpi-la. O zelo castra o desmazelo. E ao desconcerto do mundo – o mais é concertá-lo, consertando-o.
Aquela gente é veramente comunitária – sabe que o Outro existe, querendo para ele o que deseja para si mesma: um mundo mais limpo, mais respirável, mais humanista. A ecologia dela é com sabão. E o sabão nunca cheirou mal.
Também me agrada sobremaneira que tal movimento seja apartidário. Mas atenção: tal não significa que o resultado do seu activismo seja apolítico. Nem menos. Porque política a sério não é profissão: é missão. E é a resolução prática de problemas concretos. Não é torcer o que está mal, é torná-lo dextro. Porque o mundo é no nosso quintal que começa.
Percebo que isto desassossegue os políticos profissionais. Enxadas e enxós sempre inquietaram os colarinhos-brancos. Baldes e esfregonas, idem. Espátulas e trinchas, aspas. Percebo que eles se alvorocem, que mandem batedores subassalariados por antecipação. Percebo, percebo – o que me faz gostar ainda mais da Fonte das Figueiras. E da Fonte da Junqueira. E das fontes todas que, manando da terra que é de todos, a todos se oferecem limpamente e de limpa mente como aquela gente.
O chato é a possibilidade de aquele Movimento, um destes dias, pegar de estaca, a ponto de o resto do País se julgar ribatejano & pró-activo. E se os zeladores da Fonte das Figueiras se lembram de ir limpar a dívida colossal da Câmara de Santarém, expurgando-a de pus e crosta? E se àquela malta lhe dá para vir de lixívia esfregar o contrato do Café Central, ou vir de escova de aço cardar a lã ao estacionamento tarifado, ou ensaboar os processos inquisitorial-disciplinares aos impugnadores de concursos manhosos, ou fazer uma barrela das antigas aos contratos orais com empreiteiros, ou impor uma faxinadela das valentes ao encerramento de maternidades e afins estruturas da saúde?
Imaginai ainda mais: que aquela gente afinal perigosa (porque gosta de música, de poesia e de partilhar a merenda, entre outras subversões) desata por aí a lavar os cestos da Selecção Nacional da Bola, a vindimar a direito na Assembleia da República e a arejar os bafientos salões dourados que, de Bruxelas a Estrasburgo com moratória central em Berlim, nos ensombram a soberania e nos atulham o presente e o futuro de lixos irrecicláveis como o desemprego vitalício, o desamparo na velhice, a choldra na justiça, a impertinência na educação, a selvajaria antropófoba do hipercapitalismo, a manipulação no jornalismo e a infelicidade obrigatória da pessoa singular?
Calma. Por enquanto ainda só estamos a levar o cântaro à fonte. Até o dia em que ele teime em lá deixar a asa. E isso pode acontecer.
A partir das Figueiras e da Junqueira, pode. Pode, pode. É limpinho.

Thursday, June 26, 2014

Rosário Breve n.º 364 - in O RIBATEJO de 26 de Junho de 2014 - www.oribatejo.pt

Do Zé, agora Beatriz só

Nunca vivi abaixo das minhas impossibilidades.
Um homem é um homem, não se quer outro.
Relanceando sem dor nem euforia o baralho de pretéritos com que destrunfo a bisca do presente, o mais é serenidade.
Alinho com Ángel Crespo quando ele diz que “entre a mentira e a verdade se encontra o certo”.
Não minto, por exemplo, quando, às seis e meia da manhã, no Café da minha rua que abre mais cedo, dou e digo os bons-dias a quem madruga como eu. Escrevendo, cuido não errar, sempre que prefiro a claridade à clareza: todos nos pautamos por cifrado pentagrama próprio, codificada a experiência, apurado o gasto, expurgada a bílis da desesperança.
Canhoto de mim mesmo, ao espelho só. Ainda ontem, egresso do muito que chovia em virtude do ambular por galeria coberta, colhi mil-e-uma coisas que ao olhar volvem dextro e contente: o cavalheiro de chapéu alto & lentes fumadas a azul-de-teatro que rescendia a século XIX; a mulher (também alta e também azul) cujo balcão peitoral me semelhou um tabuleiro de nata pontificada por dois sumos morangos pontudos; duas grávidas trocando risadas à beira de uma carrinha funerária vazia; uma velhota portando uma rede de laranjas, estas e aquela consumando dois ciclos da terra; e uma revoada de pombas em esquadrilha bem mais ordenada do que estas linhas.
E tudo isto, entre verdade e mentira, para vos esconder que fui ao funeral do Zé Martins na segunda-feira mais recente das nossas vidas. Não queria, todavia posso contar-vo-lo.
Era por uma jornada de Verão pelo calendário – mas de Inverno nós adentro. Chovia que se não fartava. De manhã, os céus haviam desabado num fragor de fúria eléctrica, insana, poderosa, inútil. A tristura de canário do cenário reiterava a impensável morte do nosso Zé Martins, o de olhos claros herdados da filha Beatriz, o Zé a quem queríamos como a um irmão se quer. Entre nós-amigos-dele, ante o descalabro da má-nova, dera-se a fritura de telefonemas alquebrados, partidos pela medula, em uma partilha de vãs indignações contra o despropósito do Destino que no-lo roubara – ou do Diabo, ou da falta de Deus, por ele.
À saída do campo-santo de Chelo, e porque aquele último dormir dele é em serra não baixa, o Luís, o Zé Alberto, a Ana Cristina e eu fomos confrontados pela massa de vapor que obnubilava a aguda geometria de ângulos do panorama: uma nuvem rasa que tão depressa apagou a gravura como, de si mesma extinta, tudo de novo deixou clarear. Vimos aquilo, viemos nisto. Deixámo-lo lá, ao bom Zé, a sós consigo e por desconta própria.
Agora que isto escrevivo, é, para mais, de tarde – e agora é tarde de mais.
É verdade que sempre temos a Beatriz.
E não é mentira que por coisas assim prefiro a claridade à clareza, dentre as minhas impossibilidades.






Thursday, June 19, 2014

Rosário Breve n.º 363 - in O RIBATEJO de 19 de Junho de 2014 - www.oribatejo.pt




Allein zu Haus

Duplo azar de Fábio Coentrão: lesionado nos brasis da bola, aconteceu-lhe, no mesmo dia em que regressou a Portugal, acabar descobrindo que não estávamos cá – tínhamos “regressado aos mercados”. O brioso ala-esquerda do Real Madrid (que está para a carta de condução como o Relvas está para a licenciatura académica) deu por si sozinho na aerogare da Portela. Nem taxistas havia cá fora. Nem sombra de bilhetes do Tesouro para desbaratar nos chineses. Apreensivo, rumou a Espanha. A pé, não fosse por aí restar alguma GNR-BT.
Entretanto, no íntimo público daquele Partido a que por piada chamam “Socialista”, o respectivo Directório analisa cada milímetro táctico-estratégico de Paulo Bento. É isto que eles querem apurar: se (também) o seleccionador nacional percebe de descalabros com os Alemães, não irá ele precaver-se com o inócuo Hélder Seguro Postiga em vez de arriscar com o já-se-viu-que-se-aleija-logo Hugo Costa Almeida?
E agora aquilo do Pepe. O Pepe: esse grande lusitanista. O Pepe: esse nosso continente-e-ilhas-do-minho-até-timor. O Pepe: esse perfeito marinho-e-pinto de calções e chuteiras fluorescentes tão perito em usar a cabeça menos para pensar. O Pepe, enfim, somos todos nós – menos dez milhões.
Agora a sério para gente séria, só me ocorre dizer que tanta euforia falsa só podia resultar em tristonhice macambúzia de cachecol rubro-virente ao cachaço. Nem no tempo do Morcego Eunuco de Santa Comba Dão o futebóleo oleava tanta alienação de massas. Tanto desempregado comovido de patriotismo até à raiz cardíaca das lágrimas. Tanto reforma(fornica)do a interromper o Alzheimer para se lembrar do Varela ao lado do Éder, em vez da teimosia no Postiga ao lado do ninguém de si mesmo. Tanto barão do PS a dizer que então ao menos o Neto no lugar do Pepe, o Ricardo não porque também é Costa.
Como as areias mais finas pelos interstícios menos calafetáveis, o circo popularucho do “jornalismo” tudo invade. A RTP não dispensa o desdentado da rulote de bifanas, que pensa ele do coiso, o Meireles. A SIC rapta a velhinha que ia ali ao centro de saúde que já não há para apurar se, sim ou não, não terem levado o Quaresma fez mal à Páscoa. A TVI grunhe aleivosias caralheiras contra o árbitro que tão ruipatriciamente nos calhou. A CMTV, idem. A BolaTV, aspas.
Será ingenuidade minha, mas acho mesmo que, a seguir a cada jogo da Selecção (dita) Nacional, as televisões, as rádios e os jornais deveriam correr as esplanadas e fazer perguntas tipo:
– Acha que foi justa a derrota dos direitos laborais?
– Contava com esta goleada no IVA?

– Concorda que com o Eduardo ou o Beto o IRS ainda estaria pior?
– Acha que, por já ter 29 anos, o CR7 deveria ficar sem metade do rendimento?
– Vossemecê não acha triste que andemos todos por conta do “empresário” Jorge Mendes?
– Está à espera que o “regresso aos mercados” nos faça voltar em grande contra os Estados Unidos?
– Não era para si evidente que no Alemanha-Portugal a Merkel só lá foi para ver como se portavam os ’taditos dos coelhos?
Eu sabia que ia ser assim. Toda a gente sabia. Mas tanta “reportagem”, tanto “popular”, tanta merda sobre a bola – enjoa. Um jogo tem 90 minutos, 120 às vezes. O antes e o depois disso – são palha para burros. Espero que a Selecção volte depressa para casa. Quero a crise de volta. Quero a indignação de volta. Que é como quem diz: quero que Portugal volte a Portugal.
Os Alemães que joguem com os “mercados”. Sozinhos, como o Coentrão lá na Portela.


Thursday, June 12, 2014

Rosário Breve n.º 362 - in O RIBATEJO de 12 de Junho de 2014 - www.oribatejo.pt

Rua 1.º de Maio, Pedrulha, Coimbra. Foto de Luís Borges

Uma vez só

Na Rua onde a consciência da minha vida se deu em pertença ao mundo, existiam o senhor Elói e a senhora Celeste.
Ele era sapateiro em casa.
Ela dava injecções por fora.
O vinho dele era manso. Nunca fazia as cenas tristes dos bebedores sem conserto.
Ela era ladina e legítima. Parecia uma rosa frágil, mas era forte e rosa na mesma.
Geraram entre si vários rapazes: correctos todos, educados todos, todos e cada um homens já desde meninos.
A senhora Celeste foi dos dois a primeira a morrer.
(Na morte, é-se sempre o primeiro, alguém disse. No nascer, sempre o último, antetizo eu.)
Talvez por achar que o mundo e os sapatos que há no mundo deixaram, como o vinho de tantos outros homens, de ter conserto, foi em desconcerto que o novo viúvo se achou.
Deixou apodrecer a barraquita onde tantos anos remendara, cosera e assolara os calcantes pobres dos pobres seus vizinhos. Passou a beber (de) mais. O vinho da viuvez amargava-lhe a opinião.
No exílio do desamparo, sem filhos em casa, mal comia um bago de arroz. Julgo que o senhor Elói vivia de ovos cozidos e de figos esmagados em farinha para bebés. Gostava de nozes, mas também os dentes o tinham desertado. Como o vinho não tem ossos e não há por isso que roê-los, sustentava-se de uva-mijona ao preço-da-chuva em copo-de-três.
Nunca mais lhe bateram à porta – nem para colar um tacão, nem para pedir à mulher uma inoculação de soro milagreiro contra a humidade dos ossos, a secura do coração ou o ramerrão de tanto ontem à janela do amanhã.
Ele habituou-se ao lusco-fusco do vinagre de continuar vivo.
O rosto dele adquiriu aquela esponjura roxoviolácea cuja purpurina não engana ninguém.
Ele era porém, como até ao fim haveria de ser e foi, igual ao que fumava: um português suave definitivamente provisório riscado pela pederneira do silêncio no escuro da caixa-de-fósforos do quarto antigamente conjugal.
Gracejavam com ele a propósito das vacas-magras que o seu Sporting há demasiadas épocas apascentava. Ele sorria, contente de o terem presente. Mas de verdade não tinham – era só um viúvo só, um remendão que bebia e já nem remendava nem se emendava, um que lavava e cosia as próprias meias. Se ele fosse de destempero vindicativo, vingar-se-ia com o uso e no porte dos sapatos mais bem recauchutados da Rua e arredores. A graxa que ele caminhava, impecável e lustralmente acamada no couro velho das botinas antigas, era de outra coruscância.
As grandes e vitalícias chuvas de Março reiteravam o novembro-perpétuo da casa do sapateiro, nela percutindo a vidro a melopeia do não-mora-aí-ninguém-aí-não-mora-ninguém.
Era uma casita de fileira operária, ao alto do charco que dragaram para construção da mercearia do Licínio.
O sol claro do claro Junho, a lua próspera do sardinheiro Agosto e a nostalgia sideral da irredenção de Janeiro eram os recipientes naturais deste homem confirmado e conformado em solidão, daquela solidão mais sozinha que range móveis até nas saletas vazias.
Nunca o vi com um livro – talvez porque o instinto o fizesse saber que faria parte de um, este.
Sei que nunca permitiu que se oxidasse o estojo metálico em que a senhora Celeste descansava a seringa esterilizada. O que nele se oxidou foi outra coisa: talvez a consciência, talvez a vida, talvez a pertença, talvez o mundo.
Ou tudo junto nas apenas três letras de Rua.
Essa mesma a que tornarei também um dia.
E não há-de ser para viver, porque nem este verbo se difere nem se repete – e porque em e de alguma coisa hei-de, finalmente, ser o primeiro. 

Friday, June 06, 2014

Rosário Breve n.º 361 - in O RIBATEJO de 6 de Junho de 2014 - www.oribatejo.pt

Sei onde está a Maddie e digo como chegar a ela

1. Julgo ser acertado afirmar que: ou passamos a vida a contrariar a Infância, se ela nos foi feliz, ou a reiterá-la, no caso de triste. A Maddie ter-se-á safado de ambas as hipóteses. Ou não. Se calhar, não foi ela quem desapareceu. Se calhar, fomos nós.
2. Esmaltados a azul-cerúleo eram os púcaros de folha por que bebiam café de cafeteira caseira as mulheres da Praça. Derredor do núcleo de bancas com coisas de comer, respiravam cor e cheiros sãos as tendas com bonés de caqui, quicos de palha, leques de fantasia à espanhola, ferramentas de brincar, bolas de borracha, corta-ventos de lona. Bancas de mármore alinhavam a perfumaria de prata dos peixes. Do ar amplo sob a abóbada diáfana, chegava a fragrância do frango rodando no espeto como o ponteiro dos segundos. Aquilo era toda uma profusão de bolos crestados a açúcar fino e a amarelo-ovo em moldura de linho grosso: chegava a ser preciso enxotar deles as pombas do futuro, estas que ora mesmo espero no Jardim como estátua ázima trazendo de alhures o pão que ninguém quis. Ninguém, isto é: nós, os desaparecidos.
3. Os pais da minha geração nunca nos deixariam, nem nos deixaram jamais, a nós tão pequeninos, em casa sozinhos para ir beber copos fora. Os dentre nós portadores de infâncias felizes não sofreram, por assim dizer, de mccannização parental. Por isso me custa tanto compreender por que raio não foram os dois pequenitos extra-Maddie entregues à criação de e por famílias responsáveis. Nem por que espécie não foram, logo ali e no acto, presos os McCann. Que eu saiba, os pais do Rui Pedro não fizeram da desgraça profissão.
4. É o que V. digo: não foi a Maddie a desaparecer. Quem desaparece, são os jovens enfermeiros portugueses. São os investigadores da ciência. São os nossos assentadores de tijolo. É o que e é como V. repito: não foi nada a Maddie. Condenados ao avesso da Infância, resta-nos o orfanato da distância.
5. Vale, ainda assim, que desta pátria badameca nem todas as crianças desaparecem. Um senhor chamado Barra da Costa elencou alguns casos felizes. O rol ciranda pelas redes (ditas) sociais da net. Indica ele que, só no Ministério da Economia, há oito petizes muito mas mesmo muito felizes. Nenhum deles chegou aos trinta. Anos. O Joãozito Miguelito Folgado Verol Marques, por exemplo. Tem 24-anos-24. Aufere, o brutinho, o vencimento mensal bruto de 5.069,34 €. Chamam-lhe “especialista/assessor”. (Como se alguém pudesse, sem se chamar Leonardo, aquele de Vinci, aos 24 anos, ser “especialista” seja do que for…) Na secretária ao lado da do Joãozito, batem palminhas-no-ar os outros sete patinhos-que-sabem-bem-nadar. Entre eles, a Anita, que é da Conceição Gracias Duarte. Também ela, aos 25-anos-25, é “especialista”. E vence a mesma brutidade que o Joãozito leva para casa. Abençoada. Abençoada infância. Abençoadas velhas juventudes partidárias.
Já no Ministério da Agricultura, a Joaninha Mariazinha Enes da Silva Malheiro Novo está muito chateada. Recebe menos um cêntimo do que limpam por mês os supra-referidos seus comparsas da Economia. E já tem 25-anos-25, essa por igual veterana “especialista”. Ingrata! Bem mais amarga razão de queixa há-de ter (e tem) o Ricardito Morgado do Ministério da Educação e Ciência, cuja apressável mas inapreçável “carreira”, aos 24-anos-24, não lhe rende mais do que os miseráveis patacos perfazedores de 4.505,46 €. Como fará ele para gelados e downloads do Justin Bieber é que eu não sei.
5. De modo que, enquanto eu, de pão d’ontem no saco, acumulo o bolor de infante velho à espera de pombas que não prometeram vir e na antemão de um futuro que hoje não há-de chegar amanhã, acabo por deslindar (e à borla, sem querer e sem scotlandyards-de-inglês-ver-e-português-pasmar) o paradeiro da Maddie: estará, viva e gordamente remunerada à nossa custa, nalgum desses ministérios coelheiros. O rostinho loiro de abandonada deu lugar a uma photoshop de cartão-de-jota (S ou SD, que o parasitismo juvenil não distingue letras). Pois: desaparecer, desapareceu – mas pouco.
Já quanto à verdadeira Infância (pelos menos a minha), é o que dela V. garanti antes e acima: foi-se no éter, como eu próprio agora vou, enxotado qual pomba que não chegou a vir ao pão da crónica.

Thursday, May 29, 2014

Rosário Breve n.º 360 - in O RIBATEJO de 29 de Maio de 2014 - www.oribatejo.pt



Vai uma chanfanada?

1. Não me lembro se já V. contei ou não a anedota mais intelectual que conheço. Passa-se com duas cabras.
Estando ambas muito omnívoras numa lixeira, acontece que uma delas encontra num monturo a bobina do filme E Tudo o Vento Levou. Curiosa, a outra pergunta-lhe:
– Então  ’tás a gostar?
Ao que a protagonista responde:
– Hum, gostei mais do livro.
Não sei bem porquê (mas sim, sei bem porquê), emergiu-me à memória & à mão esta graciosa fábula quando, e logo que, me foi dado saber que, na sequência e em consequência da pírrica “vitória” do PS nas recentes Eleições-dizem-que-Europeias, Costa se prepara para confrontar e apear, de frente e de vez, o inseguro Seguro. A recorrência da cena das cornúpetas mastigadoras justifica-se, penso eu: é que, à bobina do actual líder cor-de-rosa, muita gente prefere a versão paginada do edil de Lisboa. Não sei se estais a ver o filme…
2. O eventual sorriso que, mercê da história das vorazes cabrinhas, possa ter-Vos ajudado a aflorar à labial comissura encontra paralelo, julgo, noutra boa notícia para a lixeira que somos: corremos para Bruxelas com o Marinho da ANOP, vulgo Doutor e Pinto. Canastrão dos costados, truculento de feições como de interjeições, cabotino não raro, o referido e súbito arauto do ecologismo humanista do MPT pode, espero eu mui bem que sim, autodesprotagonizar-se, por assim dizer, das pantalhas telerradioactivas, onde tem sido tão ou quase tão assíduo quão o tisnado e cabisbaixo Moita Flores e o efabulador José Hermano Saraiva que Deus tem se tiver. Desse filme, gosto eu – armado em portador de fendido casco.
3. Por esta altura da crónica, já consabido e avisado está o meu Leitor de que a semana me deu para o anedotário. Sou dado a ridentes vilezas, confesso. Mas nem sempre. As mais vezes, tendo mais para o sorumbático, para o bilioso, para o linfático & para o triste gozo. É até mais difícil apanharem-me a rir do que ao edil Ricardo Gonçalves em alguma procissão, esse jogging das alminhas veneradoras & obrigadas. São manhas minhas: para não chorar, rio-me. Como suponho que o mesmo Costa a esta hora mesma faz, ao avesso do que se desfaz, por este instante, o desmesmo Seguro.
4. Por aí cabritando alegorias, resta-nos o cada vez menos Bloco e cada vez mais de Esguelha. Aquilo da bicefalia comandatária não é coisa, digamo-lo assim, nem muito sã nem muito louçã. A miúda não convence. E o pachorrento Semedo também não. O esvaziamento salta às vistas. Suponho que a marijuana não fica legal tão depressa quão o casamento gay. E é pena: porque é analgésica, porque faz rir e porque é erva. Ora, toda a gente sabe quanto, havendo-lhe acesso, as cabras preferem o herbáceo natural ao incidental lixo. Mas, é claro, tudo depende do bicho.
Ou da cabra que se apanhe, seja na biblioteca de casa, seja num cinema perto de si, aqui na Lix’Europa do nosso desconsolo.

Friday, May 23, 2014

Há precisamente 28 anos que adormeceu de vez o meu Irmão Jorge


Jorge Manuel Leite dos Santos Abrunheiro
5 de Setembro de 1954
23 de Maio de 1986

Thursday, May 22, 2014

Rosário Breve n.º 359 - in O RIBATEJO - www.oribatejo.pt




Palavras cruzadas

“Uma vida em segunda-mão não tenta ninguém.”
Di-lo Katharina von Bülow em A Alemanha entre Pais e Filhos, tradução que as Edições Cotovia publicaram em 1988 entre e para nós.
Na banca ao lado daquela miniFeira do Livro, por os idos do Março passado, encontrei também o José Cardoso Pires de Dispersos 1 – Literatura, que a Dom Quixote nos propôs em Maio de 2005. A páginas 255 desse caderno póstumo, recolho um ditado bretão que o Autor de O Delfim achou por bem nele incluir: “Até aos vinte anos, o homem tem a cara que Deus lhe deu, daí em diante aquela que merece.”
Diz então Katharina:
Zé, olha que ‘uma vida com sentido não é a sobrevivência pura e simples. Acomodar-se às coisas é renunciar.’
E ele assim para ela:
A quem o dizes, Katy, a quem o dizes!  ‘O repouso do guerreiro mata o guerreiro, é essa a sua ingenuidade.’ Mas olha que ‘a felicidade individual requer planificações políticas amplas e ambiciosas. O burocrata, o carreirista da governação ou o legislador provinciano têm pavor aos projectos vastos’.
E ela assim para ele:
Verdade, meu amigo. ‘O país só tem sentido se lá possuirmos uma casa. E uma casa só tem sentido se abrigar uma família.’
Zé:
Katy, a propósito destas coisas inteligentes que aqui cruzamos para gáudio de um cronistazito de comarca, ouviste dizer que pertinho de aqui onde estamos, ali para riba do Tejo, lixaram o Melão?
Katy:
Não me digas! O Tó? Fizeram-lhe isso?
Zé:
Fizeram.
Katy:
Trinta e um, então.
Zé:
31? Isso é nome de fadinho, cá pelas minhas bandas. Mas q’ais 31?
Katy:
O Tó mais os 30 que a ViverSantarém vai despedir.
Zé:
Essa ’tá boazinha, sim senhora. A menina ajeita-se a fazer descontas, já vi.
Katy:
Que fará ele agora?
Zé:
Com aquele nome, sempre é gajo para arranjar emprego em Almeirim.
Katy:
Não sejas mauzinho. Estávamos a conversar tão bem lá em cima, com datas de edição e páginas e tudo.
Zé:
Pronto, a graçola sempre nos serve de escape ao facto de a política ser a ‘manobra do dia-a-dia, solução a reboque dos acontecimentos, que é, em termos de administração, o caminho tradicional dos providencialistas e dos caciques domésticos’.
Katy:
‘Ontem pertencíamos a uma nação, hoje somos caça.’ Acho mesmo isto, Zé: ‘Nós somos caça, acasos, heranças absurdas.’
Zé:
Isso está bem posto, rapariga. ‘O homem contemporâneo que se julga integrado numa idade de progresso (…), pobre dele, vive paredes-meias com a contradição elementar e o anacronismo.’ É como tu mesma disseste, menina: ‘De eleitores cobardes, democratas dóceis’…
Katy:
Sabes tu? Tenho por vezes ‘a impressão de andar ao lado dos meus passos’…
Zé:
Também me acontecia muito, mas agora menos, que estou morto.
Katy:
Não de todo, Zé, de todo não: alguém nos faz ’inda falar. Nos faz ainda ser, portanto.
Zé:
Valha-nos isso. Somos o que merecemos – como os bretões. E já não temos vinte anos.
Katy:
Tudo bem, desde que vivamos em primeira-mão.
Zé:
Não digas isso assim, que rima com Melão.


Dia feriado do Município de Leiria. Ideal para maluqueiras em verso (caderno 30 da série LEITE DOS SANTOS)

19

AQUI NO CAMPO É DIA FERIADO

Leiria, manhã de quinta-feira, 22 de Maio de 2014

Em pleno feriado, esta calma de campo desertado.
Mais livres me parecem as aves ao fresco.
Mais livros me parecem os campos da ave fresca.
Os toxiarrumadores não têm hoje que fazer.
Aborrecem-se devagarinho sem pão nem ópio.
Friúra de azulejo por gravura.
Estou aqui mui assentadamente contente.
Gosto do campo.

*
**

Durante muito tempo acreditei na dádiva de si
com que cada um(a) finge entregar-se.
Como este homem de carão vermelho-sanguíneo-rubi.
Como a minh’antiga gata nas canelas a esfregar-se.

Sei hoje que não é preciso um(a) acreditar-se.
Todos antes por nenhum(a), cada um(a) por si.
O de rosto encarnado veio, creio, empanturrar-se.
(& eu interrompo o soneto par’ir fazer chichi.)

Estou de volta. Envelheci. Sofro de catarse,
de gota, de meia rota, de maleitas que nunca vi
sofrer o inimigo, o antipático – nem agora nem aqui.

Componho a braguilha, discreto, por disfarce.
O zíper enferrujou, desdentou-se, vai encravar-se.
Tá-tá-tara-tá, pi-piri-pipi-pi-pi.

*
**

(Conversámos muitas vezes no escuro.
Foi quando melhor nos resultou a conversa.
Em solidão, fui talvez mais puro
– mas de forma inversa.)

*
**

(E de também inversa forma é o soneto que se segue:)

É o que V. dizia: isto aos feriados é campo.
No relvado municipal, beira-Lis, um melro, um santo
melro a invisíveis larvas picotando.

É de retinto carvão, é lustral, é tão bonito.
Refulge de puro oiro o ouro do seu bico.
Em verbo fotograf’olho o nigromante saltarico.

Lá vai ele a seu nenhures ominoso.
Não, espera, poisou adiante, só mudou de sítio.
Por não ser bipolar, não é dado ao lítio.
À minhoca sim, lípido maravilhoso.

Quem bem rimou O Melro foi o Guerra Junqueiro.
Faço o mesmo por menos, que sou só Abrunheiro.
Mas, em a casa chegando, vou ler isto à mulher
- & de crisóstomo bico, como ela prefere.

*
**

A maresia física chegava à cidade portuária
pelo ar das coisas que ao Tempo mesmo suspendiam.
Entre nós-ninguéns, as imagens a gelo ardiam
- & a vida era vária & una & una & vária.

Já então à morte não havíamos por adversária.
Os acontecimentos eram lentos mas aconteciam.
Da barra marítima velejava a ânsia corsária
por ignotos remo(r)tos portos que nunca amanheciam.

Compactas décadas fecharam a noite precária.
O mesmo corpo noutro rosto se fez alimária.
Os que foram, não voltam. Não vêm os que iam

lacrar nestes versos os que se lhes seguiriam.
Calma. A cidade lá mora. Demora, aniversária.
& a morte será vária & una & una & vária.

Thursday, May 15, 2014

Rosário Breve n.º 358 - in O RIBATEJO de 15 de Maio de 2014 www.oribatejo.pt


Fala o escriba

Desde princípios de Abril passado que ando a manuscrever duas biografias. Nenhum dos trabalhos tem como alvo alguma celebridade. Foi uma Editora amiga (minha amiga) a encomendar-mas. Respondi logo que sim, que as fazia, claro, que o vento é muito e o provento é pouco.
Em ambos os casos, os meus biografados (homens ambos) são aquilo a que vulgarmente se chama gente comum. Única, portanto. Não é paradoxo: para mim, é no ordinário que o extraordinário vinga. Para mim, são os anónimos que substanciam as eras, as civilizações, o que por algum tempo fica. Alguém arrastou, içou e assentou aqueles calhaus que ainda hoje articulam as Grandes Pirâmides – e não estou em crer que tenha sido o Faraó.
Cada um por si, estes dois senhores abordaram a tal Editora. Que queriam, o mais dignamente aliás, deixar de si alguma coisa em letra impressa. Um rasto. Um resto. Um rosto. Uma vida que se lesse tal como eles quereriam saber escrevê-la. O Editor e eles numeraram e enumeraram os custos e os emolumentos da coisa. Chegaram a acordo. Daí, tocou o meu telefone. E há mês e meio que ando na coisa.
Cá ando. Visito-lhes as infâncias, devasso-lhes as casas, miro-lhes as fotografias amareladas pelo soro das décadas, falo-lhes com as esposas, os filhos, os amigos, os vizinhos, os profissionais relativos. Com as amantes, não: dizem que as não têm, que nunca as tiveram – isto do que fica escrito é de muito respeitinho, de muita prudênciazinha. Tenho alguma pena: sempre outra pimenta me perfumaria o sal da bionarrativa, sempre outro talozinho de coentro viria ao mordiscar do dente. Paciência: pode ser que ainda me apareça alguma marquesa decrépita que queira, em baskerville old face tamanho 12, e aos olhos do mundo, desempoeirar a alcova dos seus muitos anos.
Em Out of Africa (África Minha, na tradução portuguesa), há páginas maravilhosas sobre isso de a vida ser definitivamente real e realmente maravilhosa quando passada a escrito. A também maravilhosa Karen Blixen, que as escreveu, arruma assim o episódio consagrador da maravilha do indígena que, havendo merecido da mulher branca dona da fazenda uma carta de identidade & favor, logrou a eternidade em vida:
“A cada leitura o seu rosto assumia a mesma expressão de profundo triunfo religioso e após a leitura alisava cuidadosamente o papel, dobrava-o e metia-o no saco. A importância do relato não diminuiu, antes aumentou com o tempo, como se para Jogona a maior maravilha a seu respeito fosse o facto de não mudar. O passado, que fora tão difícil de trazer à memória e que provavelmente parecia modificar-se cada vez que ele pensava nele, havia sido captado, conquistado e imobilizado ali, perante os seus olhos. Tinha-se transformado em História, com o que perdera todo o perigo de variação e de sujeição às sombras da mudança.”
Ao cabo do corrente Maio, devo ter completado a primeira; lá para Setembro, a outra. Mas o que eu não enjeitaria mesmo, juro, seria, de uma assentada mas sem perder o cunho individualíssimo de cada caso e de cada casa, escrever as trinta biografias dos trabalhadores que a Viver Santarém se prepara para pôr na rua. Essas trinta e – no reverso de cada uma, ao gosto da antítese – as não-biografias dos nascimentos que a “reorganização dos hospitais” do distrito de Santarém vem proibir.
Não me parece, no entanto, que eu venha, nem a escrever tais linhas, nem a ficar célebre por elas.
É o que faz ser escriba por conta do Faraó. 

Thursday, May 08, 2014

Rosário Breve n.º 357 - in O RIBATEJO de 8 de Maio de 2014 - www.oribatejo.pt

Do que me dizem de José

O meu sogro chamou-se José em vida.
Falam-me às vezes dele. Dizem-me dele coisas limpas e boas de saber.
Um destes dias tornam-me sogro também. Espero que a esses dois aleatórios rapazes também ocorra dizer de mim alguma coisa que não seja sombria, equívoca, reticente, mesquinha, tipo eu-nem-te-conto.
Do que de José me dizem, gosto. Amigo leal. Generoso de mais, consta. Construtor de tudo a que deitou mãos: casas, filhos, trilhos.
Sei que já aqui V. falei de meu Pai. Não quero pessoalizar esta coluna por excesso, mas é que também ele, meu sogro, José, cumpre neste ano terminado em 4 o vigésimo aniversário do seu contranascimento. Por mérito próprio, ele integra a minha galeria de efemérides não propriamente festivas. A suma que dele me fazem, é esta:
– Foi um homem bom.
Dele, não me dizem que foi meramente bom homem. O adjectivo antecipado nem sempre sobe e/ou sabe a arroubo lírico-encomiástico. No caso da hombridade, a sucessão do bom ao homem vale muito mais. Vale tudo. Ele valeu esse tudo, dizem-me.
A minha Senhora & eu passamos por casas que ele fez. Ela aponta-mas com esse dedo índex que há no olhar dos filhos:
– Aquela foi o meu Pai.
Que coisa mais bonita se poderia dizer de uma casa?
Eu, usurpador, sei, olhando-a de encolhido dedo, que também ela, a minha Senhora, é dele, José, obra. Fez-me portanto a Casa, o senhor de nome José.
Estas coisas, assim escritas, podem parecer bonitas só & só tristes. Pareçam-no, enfim. Justas – são.
O meu sogro era do Sporting. (Ninguém chega a perfeito, eu sei.) Dizem-me que tinha um Peugeot 404. Comprou-o azul na chapa e no livrete. Mandou pintá-lo de branco para ir a Alvalade com os estandartes verdes atarraxados atrás por artes serralheiras lá muito dele. Coisas pueris, se à peremptória morte cotejadas. Mas é que.
Mas é que, à exacta, precisa & concisa data de vinda à luz e a lume desta edição do nosso Jornal, 8 de Maio, perfaço 50-anos-50 de nascido. Começo a ter idade de sogro. É como quem diz – de avô-não-tarda-muito. Ainda não aconteceu: nem uma coisa, nem outra.
Mas se & quando, sendo-o finalmente, um dos genros me chamar José, não há-de, espero eu, errar muito – que sempre terei sido capaz de ter construído para ele uma casa, digo, uma Senhora.


Thursday, May 01, 2014

Rosário Breve n.º 356 - in O RIBATEJO de 1 de Maio de 2014 - www.oribatejo.pt

Caderneta da fome

Diz que há por aí famílias com fome.
Excelente janela-de-oportunidade para exercício do catolicismo esmoler. Nada beatifica mais do que uma sopinha-dos-pobres. Unto de gozo purinho, sermos todos Madres, todos Teresas, de Calcutá todos. Andarmos todos por aí a distribuir sacos plásticos para a canonização em vida da Jonet. Isso – e no intervalo das esmolinhas coleccionarmos presépios piíssimos como a Maria do Coiso.
Temos quase tantos anos de “democracia” quantos suportámos de fascismo legionário: oito anos são um sopro de fósforo. E no entanto. Mas todavia porém.
Que a Direita babe homilias coitadinhistas de templária grã-cruzada, nada me surpreende: é subgente apenas, apenas antónima da humanidade chã dos dias reais. Mas certa Esguelha que por aí anda, histriónica, calendária, instalada, acomodada, papagueadora de grândolas por calendário e casseteficadora de boas-intenções que povoam o inferno – essa gente nem me diz coisa boa, nem este Jornal assina sequer, não vá saber o Edil que ainda somos uns mil.
Ponho-me na pele do professor Manuel Sousa, protagonista involuntário, ou talvez não, do Editorial que abriu a edição passada deste mesmo semanário. Por via da caderneta, sinalizou o docente à mãe que o filho era desinteressado, alheado, cabeceador de estranho sono. Vai-se a ver e a saber, era a fome. Era da fome, afinal.
Uma pessoa lê isto – e fica com um calhau onde era suposta a garganta. No país que hesita entre a “saída limpa” e o “programa cautelar”. No país do indizível Portas, esse indefectível devoto dos virginais pastorinhos e das epifanias a néon em azinheiras anti-republicanas. No país da Albuquerque, essa Barbie cuja brincadeira favorita é destruir casinhas. No país do pavor aos que “comem criancinhas ao pequeno-almoço” e do louvor aos que “comem o pequeno-almoço às criancinhas”. No país do valha-te-deus-que-o-diabo-não-se-distrai. No país onde parece terem-se tornado obrigatórias a estupidificação massiva dos estudantes e o genocídio imbecil das praxes.
Aqui perto de onde redijo estas linhas amargas, morreu atropelada uma velhota que, de burro e carroça, andava às couves. O animal também morreu na colisão. Mais perto da minha mesa, um jovem titila o seu tablet modernaço. Coexistências do caraças: o I de XXI aparecer a meio dos XX. Entretanto, bufarinheiros de Mercedes pato-braveiam jogatanas municipais, manilhas, tout-venants, esquemas-negociatas-almoçaradas de favor, empenho, cunha & falcatrua. O Benfica joga em Turim a sua Europa de alienação de massas. A Jonet quer saber o número de telemóvel do professor Manuel Sousa, em cuja caderneta inscrevo esta crónica por procuração da amargura.
E no espeto da tumba santacombadense, o Salazar, esse santo estéril, esse pesadelo de que se não acorda, roda voltas de gozo o mais apostólico, o mais sacro, o mais pró-famélico, o mais eu-bem-vos-avisei-não-foi?
Foi.

Wednesday, April 30, 2014

One (good) reason

“Great poverty exists in Chile. One reason assigned is the great number of poets in that country – people who would rather write poor verses than saw wood.”

In the Jeanette Daily Dispatch, 1 Fev 1893

http://news.google.com/newspapers?nid=voxG-9qLvA4C&dat=18930201&printsec=frontpage&hl=pt-PT

Thursday, April 24, 2014

Rosário Breve n.º 355 - in O RIBATEJO de 24 de Abril de 2014 - www.oribatejo.pt



Em nome do Pai

No dia 24 de Abril de 1994, o meu Pai morreu.
Sepultámo-lo no dia seguinte, faziam vinte anos os Cravos salgueiromaios.
É duro escrever sobre esses dois amados cadáveres: o de um Pai que não volta e o de uma Revolução que não chegou a vir.
Tantos (demasiados) anos depois, ainda hoje me volto para trás quando aos balcões me dizem Senhor Daniel: microesperança de ser a ele que falam, não a mim. Cumpre-me ser, ao menos em nome, a sombra do que ele foi: em nome dele, com o nome dele.
À limpa e clara figura paterna minha, aponho, sem filial desvio, a clara e limpa figura de Salgueiro Maia, esse navegador da madrugada que branqueou uma noite velha de quase meio século com a autoridade terratenente exclusiva daquele tipo de homem que todos os homens querem ser quando forem homens.
Que Vos dizer do senhor meu Pai? Não muita coisa. Que foi um primoroso pintor cerâmico anónimo. Que se salvou mercê do casamento vitalício com a mulher perpétua da vida dele. Que com ela engendrou sete filhos, dentre os que um se lembrou de acabar aos 31 anos, estilhaçando-lhe irreversivelmente o coração em cada dia dos oito invernos que conseguiu sobreviver-lhe.
E que dizer do senhor capitão Salgueiro Maia que os senhores Carlos Beato e Armando Fernandes Vos mais e tão bem não tenham já dito, na pretérita edição de O Ribatejo e em páginas notáveis que são de guardar no bolso da camisa do lado do coração? Como, sem pretensões tolas, acrescentar seja o que for aos ditos & feitos dos rapazes Beato e Fernandes? Nada, pois que nada sou à beira deles.
À beira de meu Pai, todavia, alguma coisa fui.
Alguém a quem o meu Velhote quis dar o 25 de Abril como quem dá o pão e a mão.
Alguém a quem a Liberdade (pelo menos essa que uso aos balcões do beb’esquecimento) tratasse por Senhor Daniel sem me fazer precisar de voltar-me para trás.
Para a frente, sim – que é onde e quando os Cravos devem, nascendo de vez mas agora a sério, fazer (mais) anos.


Friday, April 11, 2014

Rosário Breve n.º 353 - in O RIBATEJO de 10 de Abril de 2014 - www.oribatejo.pt

Agora neste lugar solitário a vaidade já não se apaga

O facebook de antigamente era o lado de dentro da porta das cagadeiras públicas.
A minha geração foi agraciada, até, com esse opus magnum da retretologia que é O Guardador de Retretes, feliz ideia e prática felicíssima de um tal Pedro Barbosa, cuja condição de utente de sentinas nacionais & estrangeiras o levou a tornar-se atento & fiel escriba-mor das pré-facebookianas e pós-vicentinas cagas merdeiras deste mundo e dos outros.
A lápis, a esferográfica ou até, em caso de mais peremptória assertividade, a canivete, essa literatura de trono-de-louça reverberava de humanidade a mais pungente em lacónica, lapidar e exemplar concisão epigramática. Em apocalípticas elocuções tão apropriadas ao acto que ali os sitiava, os anónimos Autores sentados eram capazes, sem outro esforço que o do alívio tripeiro, do gracioso dichote político, da clandestina demanda homoerótica, da clássica quadra caralheira e do geni(t)al impressionismo meteorológico sobre se a Isaura da Camisaria chovia ou fazia sol e com quem.
É com merencória nostalgia que rememoro essas pautas maravilhosas, essas WCentenárias inscrições de equívoca & esquisita premência confessional afinal afim daquela que hoje, a grafismo azul-bebé, o facebook prolonga em quantidade mas não, hélas!, em qualidade – porque, hoje em dia, os facebookães mais peritos são no ladrar online do que no morder em manif.
Por deficiência (minha) de carácter (meu), também eu me inscrevo no rol triste das tristes selfievaidades que vociferam indignações de photoshop e partilham comoções em pps de florinha-passarinho-criancinha-fominha-áfricazinha, dos que sabem tudo sobre cada cerimónia dos Oscars mas não fazem puto-ideia de quem tenha sido o Paulo Rocha de Os Verdes Anos, dos que confundem o legado de Mandela com a chacha verbodiarreica do hip-hop, dos que acham aquilo de O Beijo do Klimt dever ser coisa do instagram & dos que atribuem a Fernando Pessoa as merdices alquímicas e as pestilentas banalidades filoteoantropológicas do Paulo Santiago Coelho de Compostela Carioca.
Antes, muito antes do apenas-isto de agora-hoje, o outro facebook, o das calças pelo canhão das meias, é que era. A própria profusão oblíqua de linhas & traços à altura do olhar (por ser muito mais capitosa a escrita durante o acto de evacuação do que depois da descarga feita e do terceiro-olho papel-higienizado) nos garantia o fulgurante caos ordenado da Poesia Surrealista, em aval da vitória (pelo menos íntima, ínfima embora) da liberdade criativo-expressiva sobre a miséria fecal da realidade.
Todos já reparámos que os dentros das portas desses filosóficos cubículos já não são nem estão escritos. Atribuo isso a duas coisas: uma, a ninguém já trazer consigo material de escrita, sequer canivete; outra, ao facto de as portas continuarem a ser de contraplacado, baquelite ou chapa e não (ainda não, pelo menos) em plasma, detalhe que obsta à escrita a partir do telemóvel ou do tablet por bluetooth.

Para ser franco, a única coisa que permanece, e de uma permanência invencível e autoritária como a morte, é a natureza da necessidade. Digo: a fisiológica, não a poética. Mas há razões para a esperança: a de, pelo menos, sempre podermos continuar com merdas.

Thursday, April 03, 2014

Rosário Breve n.º 352 - in O RIBATEJO de 3 de Abril de 2014


 
Em modo leitor antes que a reforma nos falhe

E de diverso modo não cuidara eu jamais, que pronto & aprontado sou & estou & sinto, antes vingo & vinco dos humanos circo-instantes os detalhes alguns de seus corpos ao meu idênticos mas deveras outros, de fábrica outra e para outros préstimos.
Pouca me dura cada cigarro, que na sinistra esqueço cinzardendo mentre a dextra labora & lavora linhas que ao Diabo não lembraram & a Deus não aprouveram, o contrário de ambas coisas sim, ou talvez, nisto de certezas nem o remédio tem mal nem o mal é não ter remédio.
Sobre pano de relvado defrontante, nódoa limpa de pomba sozinha, que o chão está lendo de boca decifradora de rimas afinal migalhas, fulgura fresca & voluminosa, bem alimentada anda tal ave municipal, pois que de todos autarquia & de ninguém posse, no concreto como no abstraído, longa delonga me mereceria a explicação, que não merece nem haver vai, gravura sim & dada está.
No entrementes, cuidadosa carícia falsa iço à asa narigosa a barlavento da cara, por ali me migar miúdirritante prurido um danado retorcido pêlo do ranho seco emerso, descambando a carícia, por falsa, em traidor sacão puxante, que lágrima pronta & fervente me faz estrelar em névoa ao olho do mesmo lado do vento facial mas em glória de pêlo caçado interpolegaríndex.
Derredor-me, esplanadociosos sem utilidade nem utilização como eu, como eu se espraiam estios de imaginação, dado o que chove & é muito, cumprindo-se do neomês aprilíneo a prestação prima a que novecentas & noventa & nove outras se cumularão, pluvial conta que a Abril torna toante de mil.
Casal antigo a dois cães não novos atrelado vem oxidoxigenando-se em paulatino ambular por berma-rio, do hemisfério cardiosquerdo assustados por via das recrudescentes arritmintermitências e do direito meio pelo que aí vem, já veio & mais há-de vir de cortes brutais em as respectivas aposentações já de si, deles & delas, fracas.
Em montra de bazar electrodomesticante, ardem a frio aparelhos de recep(ta)ção televidente, em cujos luz & brilho rutila a alvar euforia dos pogroms da manhã para holocáustico gáudio dos pupilos do doutor Alzheimer, esquecidos até do que lhes roubaram, roubam e mais hão-de roubar à reforma, como ao casal de cães passeante, em impenitente procissão matinodiária à laica nossa-senhora-da-acefalia.
Alvíssara não de somenos, todavia, ei-la que se me plasma ao par de lentes, bifocal & trifatal, uma alta amazona de botas altas também, visão substanciosa de torre fêmea toda empedrada a leite & a torresmos de nata viva, rescendente humananimal a cabedal feito de humana seda animal também mas seda, mas voluptuosa seda a alheio tacto destinada, ó mal de mim, fulgindo dela a adaga de cada mão e a safira de cada olho, perdoando-Vos eu de mais & maior minúcia no temor respeitoso de Vossa mulher conVosco estar isto lendo também.
Como quem a coisa não quer, mas quero, conto as linhas por mano escritas já, isto no cuidado de, por eventual demasia verbochilreante, acabar embaraçando o bom Vítor Arsénio, do departamento gráfico oficiante mandador nesta Casa tão ao Outono símile porque de folhas feitas também e sacerdote o mais sumo no que a caracteres, palavras, colunas, esquadrias e mais macintoshices respeito diz, que sem tal prestidigitador nem por ilusão O Ribatejo, fechado enfim, ao almoço de quarta-feira haveria de chegar, quanto mais ao lume e à luz das quintas a que teimosamente vem saindo há trint’anos quase.

Posto que um derradeiro parágrafo possível me surge restante, ele o voto devota & incensamente à insígnia nunca insignificante do meu Leitor, que, se a meu par aqui chegou, também não haveria de ser agora que comigo se não achegasse a nenhures, que é onde, há quase sete anos já e em página última sempre, fiel & lealmente nos encontramos, cinza que somos, à guisa destoutro cigarro que entretanto também esqueci mas a ele, Leitor, não, nunca & jamais, em de verso modo.