Friday, March 14, 2014

Mais para o 25: de ontem já e já de hoje

FOTOGRAVURA INSTANTE

Leiria, quinta-feira, 13 de Março de 2014

Manhã.
Uma bambina chilreia na praça.
Entretida com o próprio infinito.
Passarito sideral.
Haja luz.
O Inverno foi de rigor longo.
Uma boa parte da colin’além é ainda verde.
Em campânula, um bom azul-redoma.
Cristalaria da nitidez.
É um referendo ganho.
Isto não morrer nem renascer.
Isto ser isto.
Isto ser isto assim.
Labuta dos elementos concordes.
Do ar, as povoações retalhando a terra.
Ontem, o olho-lua superintendendo.
A tundra gelando até o desejo-taiga mesmo.
Certame dos avindos.
Termos tido manhãs assim sem remédio.
Braço esquerdo, da moç’além, mãe da bambina.
& o bom verd’além em colina.



TOTTENHAM, 0 – BENFICA, 1 AOS 29 MINUTOS
– prosa dos restantes 61’

Leiria, quinta-feira, 13 de Março de 2014 (Noite)

A cidade arrefece a horas certas.
O polvo do movimento anestesia-se a si mesmo.
Não é desagradável sentir o deserto no corpo.
Coladas a cuspo de luz, janelas no cartão dos prédios escur’anoitecidos.
O arvoredo frúi a aragem que arrepia (f)rio.
A oriente de nada, a ocidente de nenhures.
Pasmo das rotundas: como olhos vazados.
Veludo refrigerado, solidão consuetudinária.
Isto do mundo é tabuleiro tudo.
Numa casa-de-pasto de largas altas vidraças, três, não, quatro indivíduos comendo sopa, cada um a sua mesa: peixes humanos em aquário, cada por si, gerindo cada um o orçamento próprio, sem mulher cada um dos quatro, única refeição quente do dia, vão levando o que trazem à vida, deixam-se anoitecer, deixam-se a noite ser.
Numa colina, o Castelo. Ermo.
Noutra colina, o Cemitério. Ermo também, mas de outra maneira.
Nos arrebóis, lumes domésticos, motorizadas encostadas à parede do telheiro, arames para a roupa crucificando camisas e fatos-macacos, no curral o porco repleto sonhando açougues, dia de reunião da Associação, resolver aquilo com o padre e com o patrão da pedreira para a Festa de Agosto.
Talvez.
À beira-rio, as solas percutindo cascalho, como se esmigalhando diamantes, prensando quartzos, incalculáveis tesouros do nascimento do planeta.
Sono das coisas, palidez dos vidros, rasto-rumor (luz-motor) de camiões na via-sacra-rápida muit’além.
Vontade de seguir num deles para qualquer lado.
À porta da pensão, boceja o padeiro, veio tomar café, regressa ao forno, artista nocturno.
Tabuleiro tudo, sim, é isso.
Paredes bem pintadas, a deste reduto.
Ele ainda há operariado com valor.
Gente insigne – mas antes o Castelo, mas depois o Cemitério.
Tem de se viver em obra.
Obra corrente como as águas da pensão, por cujo Lumiar há pouco o padeiro.
Falta pouco para Abril, ou Novembro, ou coisa assim.
De manhã, na papelaria, o homem de colete verde; o balde com rolos de papel-de-parede para quarto de crianças; o aprumo afiado da lapisaria; os cadernos sonhando a tinta do futuro.
Pela finimanhã, revoando pelo chão as folhas de uma revista estraçalhada.
Esquerda cardial, dextra cardial, zénite sideral, nadir do nada-nenhures.
O tempo é este, o vapor, a espuma, a escuma, é este o trabalho, esta a atenção.
Depois não vale já a pena, qualquer pena.
No osso da página tornada possível.
Como os restaurantes da beira-mar no Inverno agreste: aquários também, que do mar temem as águas em revolução.
Dizem que esta foi a mais pluvial invernia dos, digamos, últimos 35 anos.
Em Londres, últimos 32 minutos, o Benfica vai vencendo por 1-2.
Repousar um pouco junto ao candeeiro (cúbica e amarela, a peça luminotécnica).
Ar de enfermeira cansada, a da senhora que entra: encanecidamente entra, olhos aguad’azuleados, joelhos cambos de fadiga, sapatas brancas de couro sintético, sem adornos auriculares, sem anéis, sem verniz onicológico, blusa cinz’água fina, camiseta desmaiad’amarela, bolsa larga mas não atulhada, mãos laborais.
Se a eternidade for parecida com isto, há-de ser aborrecido morrer.
Quando a gente nasce, já os primeiros créditos do filme passaram há muito, passa-se o resto da fita a trabalhar para The End.
Belas palavras, belas frias palavras, minha querida.
Muitos de nós, sabe-se, chumbados à caliça da memória.
Dos idos em nós, persistência ou do nome ou do timbre palato-vocálico, ou da cercadura pisada dos olhos, ou do feitio dos dedos (pés & mãos), ou do ricto comissúrio-labial. Ou quase tudo em um.
Como aqueles, um por um, comedores de sopa. Três. Não, quatro. Só dois agora. Os outros pagaram & desandaram. Não ligam a futebóis. O primeiro a ir-se embora: pode ser Pietra. O segundo a partir: pode ser Arsénio. Os que ficam – Janeiro um; o outro, Crispim.
A sete minutos do término regulamentar, o capitão encarnado, Luisão, averba o terceiro tento da equipa, segundo da conta pessoal.
Se calhar, a reunião da Direcção vai ser só depois do jogo, sempre os homens casados têm desculpa para só regressar pelas meias-noites. Em solo britânico. Em areias de Portugal.
Isto é só uma quinta-feira. Não tarda, é Junho ou Fevereiro.
Infinitude possível: olhar o pano preto que azul foi: céu que dá noite, fabrica sem medida toda gás-vidro e deus nenhum, olha o diabo.
Dão três minutos de desconto, nem a toda a gente é concedida tanta largueza.



PLANO(S) QUIETO(S)

Leiria, sexta-feira, 14 de Março de 2014

I

Duas mulheres goelando ante chás-gelados-palhinhas, os telemóveis ao lado como pistolas de prevenção.
De manhã recordei-me da tarde abrasiva, foi no Verão de 2010, a Mãe no Lar assim para mim:
– E tu, quem és tu? –
e eu, escrevivente, fazendo, ainda & sempre, por ter o que responder-lhe.

II

A outra mesa, um rapaz esbranquicela de cabeleira à rasta. Vai enfardafarinhando-se de um mil-folhas crepitante. À frente do falso jamaicano, um rapazola parecido com o Marc Anthony cantor. Mosca-pêlo no sublábio. Bebem ambos coca-colas.

III

Além: a pomba de peito-madame-pompadour. Pombadour, portanto. Mais além: o estádio feio, o estádio absurdo. Entre estádio e pomba, o Lis, veia a tudo indiferente menos à ânsia pelo mar da Vieira.

IV

Quieto, aqui. Calmo. Um ligeiro toque de ansiedade, sim, mas perfeitamente dominável. Bolo de chocolate em casa, café feito de fresco. Pesadumbre palpebral. Não ceder à vocativa sesta. Alinhar linhas novas na máquina-info, arrancá-las ao manuscrito.
E então, isso feito, esperar por as que a noite queira dar.

Linhas para o Caderno 25/Leite dos Santos - todas de Leiria, quarta-feira, 12 de Março de 2014

Q’À MESMA (COMO A LESMA)

Não oro
Não coro
Não corro
Não choro
Nem imploro
Que à mesma
Um dia
Morro.



CUIDADO CO’ HOPPER

Não fundarás, sequer fundearás, esta noite, qualquer diferença entre teus pares. Olhada de perto (i. e., de dentro), a realidade pode ser o desert’esespero, tem cuidado. Este homem é só como o poste-lampião público: quão privada é a malga de sopa que ele ingere contra o futuro. Numa casa-de-pasto pelas mesmas moscas habit(u)adas há décadas. Cuidado: que Hopper te não vassale a cabeça-em-visão.



SONETO DO NOME DA MÃE

Já que nesta série de cadernos me dispus
a dispor (de) alguma coisa da minha vida,
dou-as, vida & série, à própria luz
que branqueia muita coisa anoitecida.

Saúdo por dentro os leais amores fiéis
que berço me acalentaram sem preço.
Meço por meu nome os outros Daniéis,
que assim nos ’inda tratam, por bom apreço,

na terra onde gente me fiz quando feito.
É a norte da Coimbra-Pátria, é na Pedrulha.
Conheço cada pedra, cada braço direito,

cada pomba que ladra, cada caderno que arrulha.
Sítio da nascitura Hermínia: Maria Luísa
era p’ra ter sido. Não foi. De nome já não precisa.



BUCO(O)LISMO

Continuam elipsemente bonitas
as andorinhas que aos céus de Portugal
pintam de tinta-dita-da-China, catitas
& gaiatas quais crianças sem igual.

Prestam-se bem à melancolia
do nosso País os regatos inter-rurais.
Cantam prata noite & dia,
são frescos tenores sem rivais.

As mulheres dos homens, essas
fazem-lhes casa, tornam-nos lar.
Sem que eles o cheguem a topar,
montam o puzzle, unem as peças
(as doenças, os domingos, quebra-cabeças
que a sós eles não sab’riam juntar).



SONETO DO PRÍNCIPE REAL’VENIDA

Eu tive um pátio-quintal em Portugal.
Eu era então outra idade.
O tempo por demasia veio, mudei de cidade
– como quem idem de camisa ou de mulher, qual

inocente idiota malabar de bar em bar.
Ainda nessa vida (des)ando idiot&nocente.
É a minha forma de, só, ser só gente.
Aquele, olha, é casado, está p’ra s’divorciar.

Isto tem só de ser música, não precisa
sequer de haver plateia, balcão ou frisa.
Havia (era em Coimbra) o Teatro Avenida,

do Príncipe Real nomeado à fundação.
Foi quintal, foi pátio, teatro foi. Já não.
A vida a ter atém-se, pois, à vida (t)ida.

Thursday, March 13, 2014

Rosário Breve n.º 349 - in O RIBATEJO de 13 de Março de 2014 - www.oribatejo.pt



Onde falam homens, calam-se estátuas

Eu agora era o Salgueiro Maia,
capitão não de mas por Portugal,
eu agora como sempre até agradeceria que nem me mudassem de sítio,
isto porque o sítio onde eu estiver há-de ser sempre apenas o sítio onde eu me quiser,
eu morto ou vivo,
ou eu mais vivo agora até do que nunca,
hoje até se calhar,
mais do que alguma vez,
preciso sou do que no sítio onde estou,
escusado é até que chamem Liberdade ao Jardim onde me puserem,
liberdade há-de ser sempre o sítio onde homens como eu estiverem,
nunca na puta-da-vida liguei a efemérides de busto-em-vida,
da minha vida a despedida terá sido fugaz mas nunca arrependida,
a chatice do cancro,
chove Deus ou o Diabo por ele a cancros,
a melancolia de deixar pesarosa a mulher que tive por privada rosa,
mudar-me de sítio para quê?,
mudem mas é de sítio a des-gente do meu País,
esta sub-canalha que nunca há-de ser feliz,
não de azimute-topografia,
não a mera rectangular geografia,
mudem-se-vos antes dessa estranha gente canalha
que mais despreza a terra contra quem mais a trabalha
e que faz de todos nós connosco mesmos mudos da surdez da voz,
um País de si mesmo Pátria indiferente,
uma estátua de sal para mim não é ser natural,
é nocivo,
é virtual,
alguém que pela tarde fria
da História-Pátria-Mitologia
viu na estátua de sal
um tal Salgueiro Maia tudo menos real,
alguém que olhou para trás e se arrependeu,
ora tal tipo de gajo ou capitão nunca fui eu,
tive pena até do Marcello do catano com dois éles,
coitado,
ratito  encafuado no Carmo
onde o cerca-sitiei,
por e de maneira que eu cá sei,
na manhã atónita vibrava o megafonialtifalante,
como quem vibrava o nítido futuro naquele mesmo instante,
do cravo o rendilhado rubroverdeava tanta coisa rouca,
que até ser livre,
começando-o só a ser,
parecia coisa tão pouca,
e a minha mulher tão preocupada em casa,
as mães-mulheres deste País desinfeliz,
tão preocupadas em casa,
rosa,
asa,
digo,
mulher em casa
sem saber se ir a pé a Fátima, se de chaimite ao futuro,
um homem é um homem,
uma rosa é um País,
é um homem com mulher,
lembro-me agora,
estátua,
de ter mudado de sítio por ter sido eu a querer fazê-lo,
bronze ou não,
sal ou sopas,
quero lá saber,
eu agora não era isso,
eu estátua é que nunca fui,
estátua é que eu nunca fui não,
saí de Santarém e vi Lisboa,
a madrugada era boa,
amanhã ainda sou Salgueiro & Maia & Capitão.


O País é que se calhar não.

Wednesday, March 12, 2014

TROCO ESTAS DEZ ESTÂNCIAS POR OUTRAS TANTAS ANDORINHAS DE BARRO P’À PAREDE DA MINHA VARANDA (Leiria, quarta-feira, 12 de Março de 2014 - para o caderno 25 da série Leite dos Santos)



Talvez um cais fluvial, suave ave
arejando a doçura do entardenoitecer,
o corpo veicular fazendo-se nave
a singrar / a sangrar às contas co’ ser.

Barcarola do improviso à bolin’arreata,
depois do café-com-leite & do pastel-de-nata,
confortado, requentado, frequentado,
corpo-eu-meu dando o dia por rimado.

Além, no adentr’olhar, as coisas atlânticas.
Acima, o pesponto respigado sideral.
Não ser isto nada Paris, mas algures-Portugal,
terra de patrícias mel-mil-maravilhas semânticas.

Macerados laranjais de ouro-sangue a poente
incendeiam da visão escrita a bonomia.
Fez calor até & esteve de sol o todo-dia,
em lânguida euforia transou a comum gente.

Agora uma mulher pintada-capilar neva perto:
parece seu quê de cegonha, qq. coisa de M.ª Alberto.
Fufa talvez. E talvez não. E vai daí,
aquilo serve para o que é amailo pró chichi.

Pintalga a retina o cosculhar cromático
dos diamant’esmigalhados na aquasfera.
Na paragem do autocarro, ’ma mulher espera
o dit’omnibus, cujo atraso é luso e matemático.

Vacum galinhedo brasileiro já manobra
em mariposante aproximação do bar-alterne.
O putedo é profess’oss’ofício perene
– e mais tomos tem do que eu obra.

Casal tisnado, sessentão, abastado
acampa de mesa à dextra minha.
A ela seu chá frio alimonado.
E ele, olh’ó proleta!, c’a bela cervejinha.

Rêgo mole de nata-banha, as mamas dela.
Canetas-canelas agudas, o passarão.
Ele ’tá bem reformado, arrecebe um dinheirão.
Ela nunca fez nada, tirante uma q’outra mijadela.

Estou aqui deposto em sossego. Barbarizo.
Apanhei jeito escrevente, mas não juízo.
Do mais que não conto, por ser já tarde,
conto contar amanhã. A malta q’aguarde.

Três de hoje para o caderno 25 da série LEITE DOS SANTOS

ORATÓRIA DO NOME

Leiria, quarta-feira, 12 de Março de 2014

O nome dele levo e trago no meu corpo.
Pertenço todo a esse nome como dele todo fui.
Agora é entre outros papéis que me deixo.
Moro longe do mar mas é barcos que vejo.
Cerrar os olhos me basta a ser náutico.
Dele o Irmão Alberto hoje faz cem anos.
Faz sem fazer, morto profissional desde 1980.
Mas digo eu que faz, cerrados os olhos, serrado o olhar.
O nome dele leve enquanto trago.
Enquanto o amargo vinho trago fora dele.

Quididade me basta e sobra: de Coimbra camponês.
Hoje enfim mais dado ao operariado a lápis.
Distribuidor de pão-de-pombas.
Pardais às vezes, quando a mansa brisa amansa.
Nada de muito importante, um deix’andar.
Açucaro o vasto deserto ilegível.
Chamam-me pelo nome dele.
Viro-me, é afinal só comigo a sós, que é dele.
Sem fazer ondas, sem senão aflorar o precipício.
Ainda não é a cegueira, ainda não é já renascer.



POR AQUI NÃO HÁ INGLESES NEM INGLESAS MAS

Id., id., id.

Três homens, um de cada vez.
Nenhum deles é Drake.
Nenhum deles, Clarke.
Nenhum, Greene.
Portugueses, estes.
Um é bancário.
Outro também mas de outro balcão.
O derradeiro é senhorio, vive do ar dos outros:
respirar torna-o rico.
Homens como casas: tarjados a azul por baixo.
Tenho comigo uma libra para gastar em vinho & biscoitos.
Sendo menos amargo no nome: roxeando a boca.
Posso passar-ser o resto da vida a fazer isto.
Isto: a diluir o deserto que vai.
O deserto que vai da palavra
cara
à palavra
rosto.
Uma malga de sopa à
face
da lareira, numa tarde fria comida a sós.
Agora que a Primavera se conjura/conjuga.
Copo de água açucarada pela garganta.
Até ao fosso do estômago, águ’açúcar.

Estas três mulheres agora na tarde.
Nenhuma é Maureen.
Nenhuma é Cora.
Nenhuma, Rosie Ann.
Portuguesas como telhas vermelhas, todas.
Duas prostituem-se tipo deLuxe.
Éguas caras de montar, a avaliar pelos adereços.
A outra gosta de ler porcarias: Danielle Steel, MST.
Antes de as receber neste caderno, fui-me a casa.
A essa hora ninguém nela, só os retratos.
Tenho algum tempo agora.
Na praça calçada à portuguesa.
Na praça, um restolho de cadeiras-mesas azuis.
Humanos entorpecidos derredor.
Lagartam-se ao bom sol de Março.
Jibóiam as falas.
Uma das de aluguer diz a palavra
parábola.
Esta deu aquela em étimãelogia.
Rapazes de gravata mal-acabados de criar.
Cheiram ainda a cueiro púbere.
Professoritas envelhecidas com água mineral.
Uma careca reverberante como um farol.
Pertence àquele cavalheiro de casac’antílope.
Ao longe (mas perto de mais) o alarme de um carro.
Passa uma rapariga silfidesca.
Cabelo-caril, túnica roxa à Senhor-dos-Passos.
Sandálias douradas, em que dois pés sem peso.
Escrevive-se aqui em razoável qualidade de vida.
Posso (&passo) o resto da vida em anotação.
Quase nem crio: o mundo dá de si.

Cerro os olhos, cedo à epifania voluntária.
Epifania voluntária: vento penteando trigais.
Ouro maduro. Chapéus lenç’atados ao pescoço.
Ar-vidro-ardente reverber’ondulando fornalha.
Talvez tome outro café, veio morno o primeiro.
Cálidas maravilhas para trazer à boca.
Agora um homem de cachaço vermelho.
Afogueado seu bafo, seu baço: gostador de bagaço.
Como eu, menos a parte do cachaço, a cachaça.
O Inverno de 81 foi fronteiriço na minha vida.
O Outono de 86 também.
Em Janeiro de 85 um dente ia dando-me cabo.
Em 89 abri uma janela ao vasto nada.
Foi uma década interessante.
Ainda bem que está morta.
O Maradona senhoreava então o mundo.
Não sei para nem por que falo nisso.
Tudo irrisório, risível tudo.
Uma friúra de convento nos ossos, às vezes.
Progressão na carreira – digo: no bolor.
Namoradas profissionais.
Aquelas duas, digo.
Digamo-las: Maureen Drake & Cora Clarke.
Mais do que as duas esperta, a Rosie Ann Greene:
senhoria, a magana.



CÉLERE SÍLFIDE

Id., id., id.

Donairinha rapariguinha
levezinha avezinha
passa paira pára espairece
decide-se pela esquerda
& desaparece.

Tuesday, March 11, 2014

OUTRO SONETO COM A LUZ MESMA - Leiria, terça-feira, 11 de Março de 2014






Onde aqueles dois que sabeis a luz primeira
primamente viram, cada um por si
– é Coimbra chamada, pátria soalheira
onde, nascendo, a prima luz também vi.

Por ela passa o Mondego rio, que fica.
Nela se incrusta a ouro o fresco sol.
Bordado de choupos, o manso arrebol
menos ao estudante guarda que ao futrica.

Ao pó dos livros como ao pó dos caminhos,
vai o leitor-caminhante se sacudindo.
Manhãs lhe foram já. Já a noite, vindo,

o instrúi na resignação por pura antecipação.
Nascemos a sós, finamo-nos sozinhos.
Mas a luz. Mas Coimbra. Mas o coração.  

Monday, March 10, 2014

SONETO DO DIA POR GRATIDÃO À LUZ DO MESMO - Leiria, segunda-feira, 10 de Março de 2014



Esta é de cetim, não de trapo ordinário.
Digo: do dia, a luz não serapilheira.
Redour&brilha quanto a vista ’cança inteira,
uma nudez de vidro dando, una, ao vário.

Delicadeza operatória rondando o passeio das coisas.
Disposição que enfeit’adorna o que adora.
Instante do instante, século da hora:
eternitarde do éter da idade, pois as

vidas corpos feitas o sol em todas tudo abrange.
Ressoam, cavos, o címbalo & o bronze.
Adeja, purpurina, a gaze-gaivota.

Fazer sonetos tem seu quê de gloríola idiota,
mas merece-o bem a santa luz pura
da segunda-feira passante & a da futura.

Nossa Pátria minha


A 21 de Maio de 2008, publiquei no Jornal da Bairrada esta crónica. Mantém-se actual, infelizmente. Menos, infelizmente, no que respeita à minha Mãe, então viva.




Nossa Pátria minha


Sou um rapaz da área norte de Coimbra. Cresci na zona industrial da Pedrulha (do Campo, não confundir com a Pedrulha do Monte, na Mealhada). A minha Pedrulha é agora apenas zona, dada a devastação empresarial sofrida pela economia coimbrã. Caso atrás de caso, tudo abre falência (verdadeira ou manhosa), tudo fecha as portas. Operários às centenas (muitos com mais de 30 anos de casa) vêem-se atirados sem rede ao frio horror do desemprego.
Quando lá vou ver a minha Mãe, choca-me sempre a galeria dos edifícios fabris em ruínas. Sei perfeitamente que por trás de tudo está a ganância empreiteira das imobiliárias, que, em conluio com a “democracia” autárquica, nunca gostaram de pessoas, só de fregueses tê-zero que lhes comprem as gaiolas de betão nas estéreis e dormitórias urbanizações da modernidade. Logo que posso, venho-me embora dali, para desgosto da minha Mãe, que preferia que eu tivesse 12 e não 44 anos, de modo a viver com ela na casa de operário que o meu saudoso Pai sustentou, febril e fabrilmente, com mais de meio século de trabalho na pintura cerâmica. 
Se vos pareço amargo, não duvideis da parecença: ando amargo com isto a que, à falta de melhor palavra, chamamos Pátria. Suponho que a vossa Pátria é a mesma que a minha, mas não posso garanti-lo. Porquê? Porque a minha Pátria é a da selvajaria “liberal” do preço dos combustíveis, a do desemprego multitudinário, a da cavalar ignorância linguística, a da parasitária cáfila de assessores, a da arrogância ministerial, a das multimilionárias negociatas com submarinos que nos levem ao fundo e com comboios que em alta velocidade nos levem a nenhures, a de empresários desonestos que vêem na honradez o oitavo pecado mortal da alma.
Lamento, mas a minha Pátria não é a que o Scolari nos mandou pendurar das janelas e das varandas. A minha Pátria, de facto e deveras, é a dos meus 12 anos, quando as fábricas trabalhavam com gente dentro.
Garanto-vos que é triste, ter uma Pátria do século passado.

Thursday, March 06, 2014

Rosário Breve n.º 348 - in O RIBATEJO de 6 de Março de 2014



Olhai que depois o Tino não casa connosco

O Tino de Rans do PSD é o professor Marcelo. Quase sem tirar e com mais pôr – são a mesma coisa. Foi vê-lo, ao professor, na última feira(rrobodó), vulgo congresso, orangina. Ao genuflectido conclave, só faltou aquele intérprete gestual doidinho do funeral do Mandela. A aura de non-sense era a mesma. O esbracejar era o mesmo. A risota descabida, a mesma. De olhos tipo lémure hiperactivo, querendo muito fazer rir, querendo muito fazer pensar que pensa, querendo muito passar uma esponja sobre a nódoa do apodo de “cata-vento” que tão cruel mas tão justamente lhe pespegou o homem chamado Coelho, o Tino do PPD-que-Deus-tem coaxou presença nas Rans de tal sinédrio tragifarsante para que ninguém, muito menos aquela gente, se esqueça de que ele é que sim, de que ele é que só, de que ele é que TVI. E para que seja a ele e só a ele e a mais ninguém do que ele, não a durões transgenizados em couves-de-Bruxelas ou a santan’adolescentes obsoletos das discotecas da 24 de Julho, que levem pelo bracinho mendigão a atravessar a passadeira-de-cegos que leva aos salões dourados de Belém. Foi por isso e foi para isso, não foi por nem para outra coisa. Abençoado convénio aquele, que, sob um só tecto tão pejado de balões vácuos como aquelas cabeças mais dadas ao gel do que ao raciocínio, juntou a mais fina-flor do nosso mais requintado entulho. Nem o abjeccionismo do saudoso Luiz Pacheco lograria compendiar, numa só separata-de-cordel a cinco paus de edição-de-autor, tão inerme e tão enorme catálogo de nulidades apátridas. O que o mar nos anda a (des)fazer ao litoral, anda esta pandilha a contrafazer ao que nos resta, a começar pelo pão-de-cada-dia e a acabar no último assomo de auto-estima. É um partido que faz ao País o que a Abispark anda a fazer ao estacionamento pago de Santarém, à revelia das regras mais estritas da sanidade legal mais lata. A lata é a mesma, de facto.
Olhai: a mim, não me repugna nada o holocausto das “ideologias” manequísta-dicotómicas com que nos formataram no sentido do (des)entendimento do mundo. Os ismos são pepinos mal torcidos que resultam em destinos de reviralho. A meu ver, a Utopia ou é terrena (e portanto humana; e portanto da mesma estatura que nos vai, a nós-gente, das solas ao risco do cabelo) – ou então vê-se assolada por uma espécie malsã de suão soprando-nos nas fuças a estupidez malévola que faz vergar de joelhos os pastorinhos carreiristas ao nível das patorras da azinheira do Poder, essa sarça ardente de néon como as barracas-de-farturas. O que deveras me repugna, é – em detrimento da válida gente séria que este País ainda tem em todos os sectores da vida produtiva – a promoção aos lugares de (ir)responsabilidade do idiota-da-turma, do cunhado sabujo, da amante oxigenada como uma tocha de milho, do sucateiro ignóbil, do licenciado da mula-ruça, do jot’idiota, do pato-bravo anelado de ametista falsa a cavalo num Mercedes de manilhas e de, enfim,  todo o espantalho verminoso capaz de, muito mais depressa do que o comum espectador-eleitor, perceber que esta é uma terra em que só a merdina faz carreira.
Mais do que meu receio, é já minha a certeza de que, como nos filmes porno, acabemos todos por ser a gaja que, depois de tanto e de por tantos facturada e mal paga, nem a consolação do casamento redima. Para que isso não nos aconteça (ainda mais), hemos de ter tino. Tino, salvo seja. 

Tuesday, March 04, 2014

CEM-CATORZE: TERMINAÇÃO (último texto do caderno 27 da série Leite dos Santos)


CEM-CATORZE: TERMINAÇÃO

Leiria, terça-feira, 4 de Março de 2014

Ontem, três anos que a Mãe nos terminou.
Em paz na terra, então como agora.
Olha: é um lírio do campo.
Sal da terra. Mulher de boa vontade.
Presente nas palavras do presente.
Pretérita amanhã, todavia.
Mais branca na morte: noiva outra vez.
Nós por aqui: orfã’ndando descalços no terreiro do circo,
do terreiro do circo cortando-nos nos despojos afiados.
Orfeus órfãos, partilhamos uma língua universal,
por particularmente obscura, com os órfãos outros todos.
Empalhámos a gaivota.
Engessámos a santa.
Perdemo-nos da mulher.
Já não vamos a correr para casa.
Já o fizemos – para contar-lhe a rua.
Dédalo mais simples agora, esta Ítaca de nenhum retorno.
Ainda perfumadas dela, as mercearias que resistem à passagem:
café, sabão, bacalhau, naftalina, à passagem.
Tudo agora afora cânfora, água de flores pisadas.
Persis-resis-exis-tência dela na lavagem da roupa.
Muda de calças, filho.
Aproveita e muda de vida também, filho.
Não fumes.
Não andes por aí só por andar.
Não abandones as minhas datas, filho.
Os chinelos-de-quarto dela levitando-a.
As fraldas de velha que deixou por usar: bebé rebelde, terminal.
Ao cabo e ao fim, uma Mãe dessas que só em, ou de, Portugal.