Thursday, February 20, 2014

Rosário Breve n.º 346 in O RIBATEJO de 20 de Fevereiro de 2014 - www.oribatejo.pt



Equivalências adversativas em nome do Diabo

Chamar universidade à Lusófona é o mesmo que chamar doutor ao Relvas. Fé na Virgem e o Diabo a correr. É como o Vara, por uns meros robalos, apanhar-se doutorado em Piscicultura. A Educação estropiada em antros afins, da pré-primária ao superior. Colegiais contratos-de-associação com paralelismo-pedagógico. Milhões públicos ao desbarato privado. Licenciaturas falsas como Judas pago a lentilhas corrupto-milionárias. Euromilhões do bacoco de província capaz de erguer um gimnodesportivo de cartolina para o futsal do 12.º sem esforço. Diplomas de carne-picada à bolonhesa segundo o tratante Tratado de Bolonha: faço de ti doutor-engenheiro mais depressa do que a desAssunção inEsteves há-de perceber o que seja um prefixo de negação. Para um imbecil académicoa praxe é um direito fundamental; para um imbecil jota todos os direitos fundamentais são referendáveis. Imbecil por imbecil, a coisa compõe-se. Mas no dia em que a deficiência mental for por lei equiparada à deficiência motora, os palácios e os terreiros-do-passos vão ter uma data de rampas. Deixa-me ouvir o que diz o Marcelo que sabe disto. Especialista, ele também, do culto do instantâneo, da retórica frívola, da papagueação de encher-olho com a boca cheia de nada. Já tivemos Presidentes da República por bem menos. O Capucho corrido à pedrada pelos estalinistas cor-de-laranja. Mas o Rui Nunes, in Uma Viagem no Outono, a dizer que “O futuro onde estamos tem a iníqua alegria dos sacanas.” Pois estamos. Pois tem. Mas o Júlio Isidro, no Diário de Notícias de 17 de Fevereiro do corrente, a dizer que “Só as pessoas felizes é que são livres.” Pois são, elas sim, mas então aqui a gente vai toda presa, pois que a tristura nos algema olhos e mãos. O Stig Dagerman afiançando algures que “O jornalismo é a arte de chegar tarde o mais cedo possível.” Mas ser muito mais fácil o Cardozo marcar com êxito um penalty decisivo do que chamar jornalismo, por exemplo, ao Prós & Contras, programa em que tudo o que possa ser sério é arquivado para amnésia futura enquanto a sacerdotisa-de-serviço se arregala e saracoteia. A nossa dignidade derradeira estilhaçando-se em irrecicláveis despojos de granada-de-fragmentação. A República ser constitucionalmente laica mas ter e pagar na mesma uns milhares de euros ao, aliás reformado, próximo bispo-capelão das Forças Armadas. O País quase todo a barafustar contra o atraso do Porto naquele jogo da Taça da Liga – mas quase ninguém a vituperar o atraso de décadas do mesmo País de patuscos, i.e., Nós quase todos. O cómico-trágico desta pandilha litoral que tem por nome Portugal estar escarrapachado na implacável sucessão de encerramentos de tribunais, centros de saúde, escolas, oficinas – mas, só por nevar da pala de um campo-da-bola, ai-Jesus-que-falta-o-ar à carneirada. E tudo ilibado no caso dos submarinos: pelo que porta-aviões-da-Justiça ao fundo. Mais o paradoxo pulha de agilizar o despedimento com uma pata enquanto a outra (oh mas quão blandiciosamente!) drapeja a bandeirola do milagre económico. A Virgem correndo e o Diabo a rir-se. À privatização das águas, há-de seguir-se a do ar, a do sol, a da lua e a das mães deles, até agora públicas. As mães. Venda-se os Mirós todos mas não nos lixem a Joana Vasconcelos, essa nossa kitsch de últimos-socorros para basbaques parisienses. Explica-desenhar a cores aos drogados deste morredouro-de-seringas que o Caran d’Ache rima com haxe mas não é para fumar. A maldição de Circe, que foi a de transformar os homens em porcos, continuando viva e esperneante no Orwell dos porcos-ao-poder. A literatura de hipermercado acabando de esvaziar as mentes das professoritas do tal ensino particular sempre tão mortinhas por beijocar a boca-de-sapo do Sousa Tavares a ver se descobrem a que é que sabe a beiça de um príncipe-do-nada. A tal Lusófona a dar cobertura ao bisonho Bisonte-dux-badameco do Meco e ameaçando processar os pais dos afogados por calúnia e atentado ao bom-nome da instituição. A Virgem a querer saber – Mas qual bom-nome? – e o Diabo a dizer-lhe – O meu, querida, pois de quem querias tu que fosse?
E tudo isto nos causar uma estranha espécie de surdez diurética, que consiste no já nem os podermos ouvir mas nos mijarmos a rir de todos eles na mesma.

Thursday, February 13, 2014

Rosário Breve n.º 345 - in O RIBATEJO de 13 de Fevereiro de 2014 - www.oribatejo.pt



Diferimento


Figura de homem com gorro azul entre profusa instrumentália científica. Num quarto alto, dando a janela o rosto à foz do rio. O fotógrafo esteve com o cientista de cabeça azul da parte da tarde. À noite, o fotógrafo janta a sós numa casa-de-pasto cuja clientela regular é feita de seres irrecicláveis para esta vida. Depois, vai a um boteco mobilado de madeiras escuras cujo televisor trabalha com o som em off. O inglês Eccles e o inglês Green travam uma final muito bem servida de triplos-vinte. O fotógrafo gosta de ver dardos bem atirados. À quarta leg, Green leva vantagem: 3 a 1. Nem Green nem Eccles são já rapazes. O fotógrafo já não pensa no cientista cujo gorro azul indiciava rotina e serenidade. Solidão também, talvez. O homem oferecera-lhe uma bebida no Café do rés-de-chão do prédio. Aceitou. Tomaram-na na esplanada, que era pequena e soalheira, dando ela também para a grande foz que esteve, e está, na base da razão de os Antepassados ali terem erigido a capital. Têm entre ambos vinte anos de diferença, mas a vida parece tê-los consumado e consumido à mesma velocidade. O fotógrafo não pensa nisso. Talvez se nem lembre já do homem gentil e pouco expansivo que usa há tantos anos o mesmo gorro e o mesmo azul e o mesmo quarto de vidraça em rosto para o rio. A final Eccles/Green é muito agradável de seguir. O fotógrafo permite-se outro shot de Jameson antes de rodar a primeira cerveja do serão. Escassa clientela derredor. O patrão vem sentar-se à mesa do lado direito. Comentam a final, o fotógrafo aproveita uma ida do patrão ao balcão para lhe pedir a cerveja. O homem traz-lha mas não volta a sentar-se. Dois casais ainda moços entraram. Já trazem algum álcool no bucho, a atmosfera range como um móvel velho. Pedem ao patrão que mude o canal para outro de música. O patrão diz que não. Porquê? – querem os audaciosos saber. O patrão diz que há gente a ver as setas. Eles dizem que é só uma pessoa. O patrão diz que são duas – e aponta o polegar de gigante ao próprio peito. Uma das raparigas diz que não faz mal, que dá para conversarem enquanto bebem um copo, mas o namorado da outra, o do porquê?, diz que sendo assim não, que o dinheiro deles é mal empregado ali, espera uma reacção do gigante da casa mas não a tem porque o homem se foi sentar à mesa do fotógrafo com dois copos largos de Jameson puro e mais duas Corona geladas com rodela de limão embutida no gargalo. E depois sentem o silêncio nas costas. E em frente Green vence Eccles, os dois lançadores abraçam-se com desportivismo, depois há saltos de ski mas em diferido, como tudo, cedo ou tarde, acaba sendo.

Tuesday, February 04, 2014

Faz 70 anos a minha rica Irmã(e)


Xelinha x 70

Terça-feira, 4 de Fevereiro de 2014, onze horas menos alguns minutos da manhã – a minha única Irmã faz setenta anos. A prole dos meus Pais começou, portanto, a uma sexta-feira bissexta. Davam as onze horas.
Única menina e primeira de sete, viu-se depressa entregue à condição de Irmã(e) dos seis pimpolhos subsequentes. Eu, vinte anos depois para sempre, que o diga: porque sétimo, porque último e porque escusável.
Ela foi a rosa-perpétua do nosso Pai, senhor que se quedava apreensivo sempre que, mirando-a em prisma de pedra-filosofal, não percebia por que motivo, tendo ele em cadinho de crisol crismado a ouro o sol, fez dela ainda mais seis réplicas em latão. Misérias do desejo progenitor, enfim.
Foi ela também, em luz-íris a mais caleidoscópica, a sombra duplicada da nossa Mãe n.º 1, a cuja velhice terminal amparou mais em encanto de Irmã do que enquanto Filha.
Pós uma mocidade de chitas pobres, remendados sonhos, bailes fugazes e ingénuos platonismos de cine-magazine, a vida deu-lhe entretanto, través o concurso carnal de um quase assustado alto-beirão de olhos bonitos, dentes perfeitos e nome José Maria, uma menina e um menino. As fotografias da época que viu tais nascenças comprovam sem esforço e com glória o clarão capilar-tritíceo dos rebentos: dois cortazàrianos “relâmpagos de trigo”. Ficou doida por eles, doidice que, aliás, os anos não abrandam, antes extremam. Com o nascimento da neta, aqui há uns pouquíssimos anos-segundos, viu-se na posse de um tesouro incalculável, que indefessa e avaramente resguarda em vigilância de escopeta municiada a zagalote grosso, atenta em pura raiva aos bandoleiros de encruzilhada-de-alminhas sob o luar sinistro que o heterónimo-mor da Vida (o Diabo) gosta de entenebrecer riscando na pedra as cuneiformes pègadas da cabra do Assombro.
Em moça, cantava – e então, a filomela toda dela rouxinolava dramalhões de fado menor em redondilha maior, paixões lúgubres e fatais relativas àquela Carmencita em revoadas pícaras de ciganos e novelescas fugas a cavalo través montes com cartão cénico por fundo e de uma poética-de-cordel por insígnia.
Sempre tomou uma taça de espumante por ano – era pelo nosso Natal pagão, quando, à mesa, todos éramos vivos e morrer era uma coisa que só lá fora, coitados dos vizinhos.
Mestre nunca amável e jamais afável, o Tempo, por agravo, a todos nos amestra e resigna sem brandura nem apelo. Cada manhã se faz tarde, sendo a noite mais certa do que a tal improvável perpetuidade de umas tais rosas provadas. O que não posso, porém, é deixar de sorrir ao acaso de, às exactas onze horas deste Fevereiro-4, uma fresca frecha de sol vir pelo ar varar a cinzura februária e a empena da casa em frente, de pronto rutilando de jóias vivas os pardais ao beiral dela inscritos como sentinelas gráficas.
Sim, sorrio à imagem pensada da netita da minha Irmã(e), criança que nem sabe, mas há-de saber, a sorte que houve em ter começado a nascer não há meros três mas há precisamente setenta anos, ainda a Carmencita congeminava a fuga –  como tudo aliás acaba fugindo, menos o amor invencível que temos por aquela que a cantava.

Monday, February 03, 2014

Un poema en mal estado intoxica a 13 personas de melancolía

http://www.elmundotoday.com/2012/02/un-poema-en-mal-estado-intoxica-a-13-personas-de-melancolia/



SEIS DE LOS AFECTADOS SIGUEN INGRESADOS CON "PESADEZ DE CORAZÓN"
Publicado por Kike García el 5 de febrero, 2012


Al menos 13 personas han sufrido una intoxicación el pasado fin de semana después de asistir a la lectura pública de un poema en mal estado, según han señalado fuentes del Institut Català de la Salut (ICS). De las 13 personas afectadas de “pesadumbre vital, dolor del alma y un amor desbocado hacia una persona indeterminada, quizá un ideal”, entre otros síntomas, al menos 6 continuaban la tarde del domingo llorando en el Hospital de Sant Pau y “buscando respuestas en el ocaso”, en palabras de los médicos que las atendieron.
La rosa del desierto, el local barcelonés en el que tuvo lugar la lectura pública del poema en mal estado, ha sido clausurado esta mañana. “La poesía es un arma cargada de futuro, y si cae en malas manos pasa lo que pasa, coño. Por suerte, hay pocos aficionados a la poesía hoy en día y no tenemos que hablar de pandemia”, explica uno de los policías que ha cerrado el establecimiento. El poema, que no se puede reproducir por motivos evidentes, arrancaba con los versos “No alabes mi belleza maltrecha” y terminaba con la expresión “pozo sombrío”.
El departamento de intoxicaciones alimentarias del ICS ha abierto ya una investigación para determinar, mediante comentarios de texto, cuál de los versos es el que habría sumido en un profundo estado de pesadumbre a los que asistieron a la lectura. El poeta aficionado, autor del poema en cuestión, ya ha pasado a disposición judicial y se verá en la obligación de justificar todos los recursos estilísticos usados en el texto. Se comprobará así si los copió de algún sitio y si el poeta está capacitado para abrir su corazón en locales públicos o debería conformarse con guardar sus versos en un cajón y sentirse incomprendido y eternamente desamparado.

Las personas intoxicadas solo pueden hablar usando un “lenguaje florido”

“Cuando salí del café ya empecé a notarme raro, pero al llegar a casa sentí una desazón que parecía que se me iba a partir el alma en dos”, confiesa uno de los afectados. Desde entonces, no ha sido capaz de superar la aflicción en la que se encuentra sumido ni de dejar de hablar “en lenguaje florido”. Al otro lado del teléfono, reconoce que ha sentido deseos de terminar con su vida. “Visto desde fuera parece horrible morir, pero puede que sea la única salida ante esta confusión total que es la vida, a la que podemos considerar el cálculo total de algo que en realidad no ha ocurrido”. Al colgar dijo: “No puedo dejar de anotar la belleza de este momento en mi cartera, olmo verdecido”.
No todos los afectados acudieron por iniciativa propia a los centros hospitalarios, muchos fueron aconsejados por sus familiares, que los encontraron extraños. “A mi marido se ve que le caló mucho un verso de Petrarca que leyeron en la lectura esa y se vistió en plan medieval y empezó a recitar ‘Marisa, siento por ti un fuego helado y tus dientes relucen como radiadores domésticos’ y otros recursos típicos del petrarquismo pero usados con muy mala fortuna. Me debatí entre pegarle dos hostias o llevarle al hospital y, para no ponerle más triste, le llevé al hospital”, explica. Otro de los afectados no deja de decir “Me siento completamente viernes”, lo que ha obligado a los médicos que le atienden a improvisar un pequeño foro literario para interpretar entre todos lo que “el poeta” está intentando decir y así poder diagnosticarle.
No es el primer caso de poesía en mal estado que ha saltado a los medios en los últimos meses. El pasado noviembre, la policía interceptó en el puerto de Barcelona un cargamento de poemas del “Machado chino” que estaban construidos a base de falsos sentimientos.

Sunday, February 02, 2014

Do caderno 27 (CÃO) da série LEITE DOS SANTOS

CINQUENTA: PERDURAÇÃO - II

Leiria, terça-feira, 28 de Janeiro de 2014

Nada perdura que humano seja
– assim Maio escrevi ano passado.
Ora, o arvoredo, despassarado,
semelha ao vento um frio vão de igreja.

É como se antigamente o Inverno.
É como se nada fosse – e não é.
É como se a vida mesma, aqui ao pé,
ázima invernasse o pão que vier no

restolho de outros dias perduráveis:
esses mais amáveis e mais amados,
esses idos já todos, já passados.

Do conto incontável dos dias-tempo,
não lâmpada sobra nem filamento.
Humanos são só os não perdurados.

Thursday, January 30, 2014

Rosário Breve n.º 343 - in O RIBATEJO de 30 de Janeiro de 2014 - in www.oribatejo.pt




Projecto esverdeado por uns olhos

Os sonhos são para se ter a dormir.
Os projectos são para se ter quando acordado.
Os meus sonhos são estapafúrdios (como o são, suponho, os de toda a gente), mas os meus projectos são simples. São simples e são poucos.
Um deles consiste tão-só nisto: ir, um destes dias menos agrestes, tomar café àquele Vale a que Santarém dá nome e que a Santarém franqueia o Sul. A Vale de Santarém chegado, muito prazer me viria de, permeando o portal da Sociedade Recreativa Operária local, encontrar quiçá a senhora Teresa Horta e/ou o senhor Alfredo Silva, habitantes que são daquela geoformosura apenas maculada pelos fedores residuais do (deficiente) tratamento de imundícies. Com ela e com ele à cavaqueira a mais amena, julgo o mais crível este cenário: o senhor Alfredo evocando o poeta local que de nome houve João d’Aldeia, autor assinante da quadra consagrada e honrada em azulejo a azul-nascente:
Lavadeiras que lavais
Na água doce e branquinha
Nos suspiros que vós dais
Está toda a esperança minha.
E de pronto, certo disso estou e fico, a senhora Teresa ajuntaria ao lume oratório a suave cavaca do espectro benigno e gentil da Joaninha dos Olhos Verdes, essa feminil e virginal musa de rouxinóis que o grande Almeida Garrett ali vincou e fincou para sempre, entre as águas que correm no Tempo que se não cansa, nas nunca por de mais celebradas Viagens na Minha Terra.
Há tempos já que tal projecto me incandescia o íntimo escrivão, mas a coisa agravou-se quando, a 8 de Dezembro passado, vi uma breve reportagem da Local Visão TV. Tomei notas logo, muito bem de antemão sabendo eu que de algumas me adviria o presente cronicar. Por e de tais imagens, foi-me possível, sem esforço algum e sem do sofá levantar o fofo cindido, voltar a subir ao diadema vivo das Portas do Sol, sentindo à esquerda essa jóia (i)memorial chamada Casa-Museu Passos Canavarro e, a toda a larga volta, o esplendor elástico que o régio Tejo, qual veia aberta, atira em poalha de cobalto à pureza inefável e diáfana do ar, esse ar que só no Ribatejo assim se pode respirar com os órgãos da vista. A luz, muito alta e muito irrígua, toma conta de um gajo sem lhe pedir, e muito menos lhe dar, explicações.
Deixei-me por ali estar quanto pude, saciando de saúde as sílabas e os pulmões, cuidando só de não sentir essa fome que, parece, um tal senhor chamado Tiago Leite, afinal mero nosso empregado porque funcionário público, abespinhadamente afiança que só passa quem quer, por mais pobre, no distrito a que Santarém dá nome também.
À noitinha, porém, a realidade, que não se compadece nem de sonhos nem de projectos, muito menos de sonhadores e de projectistas, contou-me os caracteres e mandou-me encerrar a crónica: foi quando a minha Senhora (que me esmolou comigo se casando), mui alquebrada de honesta fadiga, chegou a casa. Arguta como pardal e bífida como é da fêmea serpentina condição, deu logo por que sobre a mesinha-de-centro havia não uma mas duas chávenas de ex-café. A de excesso não podia ser minha – era, claro, a da clara Joaninha.
Ou a de toda a esperança minha


Thursday, January 23, 2014

Rosário Breve n.º 342 - in O RIBATEJO de 23 de Janeiro de 2014 - www.oribatejo.pt

A mesma história duas vezes

Por ocasião dos primeiros dias do ano corrente, apareceu vadiando pelas imediações do bairro onde assentei praça para a vida um gato. Bonito, masculino, sozinho, o todo dele parecia-se demasiado com o nada, mercê do golpe sem mercê do abandono. Pela esplanada da pastelaria, o animal roçava-se pelas pernas humanas dos sentados, mais mendigando afagos na cabeça do que comida. Conto-me entre as pessoas que se condoeram do bicho, decerto perdido de carinhos até então usufruídos. Não mostrava feridas para além da do olhar, que catrapiscava desamparo a milhas longas. Um dia, na passagem coberta entre prédios, apareceram duas taças plásticas, uma com água fresca e outra com ração seca própria para felídeos. Comecei a trazer a minha contribuição diária.
Pelos mesmos entretantos, ali-além, à beira de uma vala que delimita a oriente um terreiro de feira, fiz outra descoberta. Existe nesse azimute um cubículo pré-fabricado, desses que servem de guarita de billheteira para os certames pimbas tão ao gosto da populaça de alegada ascendência lusitana. Como o gato referido supra, também o cubículo amanh’anoitece todos os dias em abandono. Até começar o ano.
Aconteceu que, debruçando-me eu para içar do chão o guarda-chuva, que se me escapulira do antebraço do lado do relógio, me foi dado sentir que a minha pluvial e proverbial solidão não estava tão sozinha quão de costume. E não estava: reerguido, vi pela janela estilhaçada da ex-bilheteira um homem quase ainda rapaz lá dentro. Também sozinho, também masculino, talvez bonito quando criança com casa de pais ou mulher. Estava lá dentro deitado, por paradoxo, entre cartões de embalar frigoríficos para se aquecer, que o Janeiro tem andado de modos frígidos. A minha cabeça assustou-o. Como que devassado, mirou-me em cautelas defensivas. Tivera ele asas – e estou certo que teria despassarado dali num fósforo de tempo. Por respeito, por embaraço também, murmurei-lhe Desculpe e despassarei eu de chapéu, guarda-chuva e gabardina, que até parecia o Jacques Tati. Na crónica que de imediato senti não poder deixar de escrever, guardo o olhar dele: fulgia daquela brasa álgida tão própria dos que perderam tudo menos a certeza de a vida ser uma estéril meretriz quando lhe apetece.
Levei-me para outra geografia onde as chuvas não doessem tanto na almácega do coração. Tão cedo, não volto lá a passar. Não é que eu não tenha em casa comida de gente para partilhar com ele. O meu receio é que, levando-lhe algum pão, me distraia a ponto de, sem que ele mo peça ou de mim o espere, ainda acabar por lhe fazer algum afago na cabeça.


Monday, January 20, 2014

BAILE SOZINHO ou O INVERNO DE QUELUZ, 48, Leiria, manhã de 11 de Maio de 2013, sábado

48

Leiria, manhã de 11 de Maio de 2013, sábado


Para onde vai o mundo, digo, onde se metem
as pessoas que ao meio-dia desertam a feira?
Por que imperioso desígnio fica tudo tão vazio?
Ao cabo de tantos anos de trabalho, adentram-me
a escrita esta preocupação e outras afins, não sou
um narrador de viagens heróicas, nunca fui

tal coisa. Tenho pelo menos essa decência, já não é
mau de todo. Pela tarde, hei-de desertar, eu mesmo,
que feira? Já o Rio me chama, faz sol o ar,
há, ou dá-se, uma brisa decente & refrigerante,
uma pessoa pode flectir pelas bandas do realmente,
a écloga é possível e até provável no sábado.

Numa tenda beira-fluvial cozinham peixe em água-de-tomate,
a álea de freixos fica perfumada como uma sacristia,
muito eu gosto de sentir a felicidade simples das merendas,
que são lentas e lautas e pobres e tão dignas e tão históricas,
é uma bela coisa o anonimato do Povo, nem tudo
pode ser triste, devo insistir que não para sobreviver.

Ponho-me então a grafar sem a fúria já dos primeiros anos.
Daqui a pouco vou para casa algo valetudinariamente.
Sou tão português de aldeia, que chego a adoecer só
de pensar seja no que for, alguma coisa se me avariou
talvez para sempre, mas nem assim o pus do medo
me infecta a constância, o pão das pombas & o Diabo-por-ele.

Thursday, January 16, 2014

Rosário Breve n.º 341 - in O RIBATEJO de 16 de Janeiro de 2014 - www.oribatejo.pt




O Henrique, o David e eu com dentes novos

Pode ser uma chatice, isto de acordar às seis da manhã já vestido e na pastelaria já. À saída do transe, a vida põe-se toda a saber a bolos de ontem e a aguadilha de café refervido. Na nublação, as caras não chegam a rostos: parecem, antes, moedas gastas, trocos indiferentes de nota nenhuma cujo único câmbio áureo é o amarelo do alerta-idem que há semanas invernosamente varre o litoral continental de Norte a Sul.
A coisa agrava-se se, como segunda-feira passada foi o meu caso, for manhã de ir ao dentista. Lá estive, de bocarra escancarada como betoneira mole, exposto ao doutor que implacavelmente me garimpava poços novos naquela parte do corpo que uso para urdir sílabas, cuspos e ontens cariados. Mas estou melhor, obrigadinho, isto passa – como tudo passa.
“Toda a gente quer endireitar o mundo; ninguém quer ajudar o vizinho.”
Assim fala um homem chamado Henrique Moleiro. Por apreciar o que dele ouço, presto-lhe uma atenção mais por escrito. Não faz mal que tenham dado já as nove e ¼ e que por isso seja eu o único freguês da confeitaria, tirante a empregada, que é Deolinda e também sofre dos dentes. Não faz mal que Henrique seja de facto Henry e Miller em vez de Moleiro, que o que lhe ouço dizer esteja afinal escrito em Max e os Fagócitos Brancos, prosa que escancarei no tampo da mesa, à maneira da própria boca no trono reclinado do odontologista, para melhor suporte meu da realidade dos outros.
Faz-se entretanto horas-de-não-sei-quê. No entrementes, chega o David Jornaleiro com os jornais do dia para leitura gratuita dos fregueses. A Deolinda dá-lhe a esmola discreta do galão-pão-com-margarina, esta afinal sempre ajuda o vizinho ao contrário do que o Miller diz, o David é vizinho de toda a gente por ser sem-abrigo, isto de entregar os jornais pelos Cafés e de andar aos recados é um favor que lhe deixam fazer a troco do pão-margarina de cada dia. O mundo que se endireite por conta própria, afinal o David sempre faz pela vida, que a esperança pode ser a última a morrer mas cada um de nós é o penúltimo a fazer o mesmo.
O jornal traz a doutrina do costume: ex-maridos que, possessos de furioso ciúme venatório, caçadeiram as ex-mulheres, multibancos estoirados à botija, velhotes que, como pescadores em terra, amanhecem afogados dentro de poços a céu-aberto (como a minha bocarra no dentista segunda-feira passada, já não me lembro se Vos falei disso já), baixas mortais da guerra civil em que o trânsito rodoviário se tornou, Cavaco escrevendo Direita por linhas mortas. E São Cristiano Ronaldo, espécie de anjo feliz com lágrimas que, na esteira multigloriosa de Santo Eusébio, nos reitera o rotativismo monárquico-geracional do “rei morto, rei posto”.
Vale-nos, de França, que uma certa errante fragrância parisiense de sedosas saias e de anáguas emanuellianas, com furtivos motociclos abandonando de madrugada o ninho-de-amor à mistura, nos chega das peripécias com uma actriz até jeitosinha frequentada a nu pelo senhor presidente gaulês, monsieur que, por se chamar Hollande, sempre dá outro prospecto erótico a moinhos rouges e a tulipas abaixo do nível do mar em plenos Champs Elysées. Nos arredores tristonhos desse divertimento com Tour Eiffel ao fundo, aqui a maltosa cá vai aprendendo inglês pelo lado mais dark da moon, que é como por mania os Bifes chamam a uma coisa que se vê logo ser a Lua. Exemplos desse poliglotismo: bullying escolar (suicídio do miúdo de 15 anos no concelho de Braga), carjacking (com fartura e por todo o lado), rating (agências ratonas de Wall Street em desprezo total pelas Constituições ex-livres e ex-democráticas das nações), spread (manigâncias tipo usura-à-BPN), swaps (tipo papagaio-louro-de-bico-amarelo-põe-as-pensões-pobres-dentro-dum-chinelo): e tudo isto com sotaque à Lauro António, tipo léte-se-lu-két’da-trêila.
Indiferentes a tais apuros apenas humanos, porém, a Grande Roda do Tempo marcha em ímpia surdez rumo ao próximo Natal via Época-de-Incêndios-Caça-ao-Bombeiro-do-Verão. Que até lá, enfim, nos não doa fisicamente a cabeça. Ou os dentes. A mim de certeza que não, digo os dentes, que por essa altura já não hei-de ter nenhum dos naturais, por tê-los estragado com bolos tão de ontem como a vida, mas sim daqueles que fazem do sorriso um pequeno milagre feito de resina acrílica, cuspinhenta e silábica, ó Deolinda.


Wednesday, January 15, 2014

Palavra "encómio" no Priberam refere-nos (a O Ribatejo e a um seu cronista): fixe, porreiríssimo da silva (por falar em Silva, obrigada pela chamada de atenção, FêJota)

http://www.priberam.pt/dlpo/enc%C3%B3mio

Esta palavra em notícias

Ver mais
...incomparável sports(gentle)man afroportuguêsmuito encómio foi em boa-fé tecido,...
 Em O Ribatejo

"encómio", in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013, http://www.priberam.pt/dlpo/enc%C3%B3mio [consultado em 15-01-2014].

Friday, January 10, 2014

Primeira crónica de 2014 - Rosário Breve n.º 340 - in O RIBATEJO de 9 de Janeiro de 2014 - www.oribatejo.pt

Meninos-da-trapeira também nós somos, enfim

A dobradiça que rangeu o pórtico da passagem do ano 13 para o ano 14 do corrente milénio nosso fez, como é do crepuscular costume dos ocasos, os seus óbitos ilustres e as suas terminações anónimas.
Gente comum houve que deixou de haver por o mar físico a ter levado. E gente outra foi levada pelo mar do Tempo, que ainda assim não logrou, dados dela o gigantismo colossal e dela o nome claro, roubar-no-la de todo. Falo de Nelson Mandela e de Eusébio da Silva Ferreira.
Tanto ao tribuno e estadista sul-africano como ao incomparável sports(gentle)man afroportuguês, muito encómio foi em boa-fé tecido, em uma impressionante universalidade que só pode resultar do mais elementar consenso em matrimónio com o mais curial bom-senso. Do passamento deste último, resultou-nos um baque no coração que nos trouxe à boca o amargor frustre do golo sofrido na própria baliza, que é como quem diz, sem nacional-sentimentalismos tolos, Pátria.
Muito a quente do acontecimento obituário deste homem que tinha pelo menos tanto de pantera negra quanto de gaivota branca, desta figura que como tão poucos humanos irmanou Beleza e Graça em sinonímia pura, escrevi, como se sobre os martirizados joelhos mesmos dele, umas breves horas depois da alvorada triste que determinou o furto, ao colar do Mundo, de tal pérola. Estas foram tais linhas:

Órfãos do menino-da-trapeira desde a madrugad’agora

Leiria, manhã de domingo, 5 de Janeiro de 2014

Órfãos do menino-da-trapeira desde a madrugad’agora:
às 3h30m, morreu Eusébio, o grande senhor Eusébio
da Silva Ferreira, que deixa viúva Flora e viúvo
Portugal.
Nascera em Moçambique a 25 de Janeiro de 1942.
Chamaram-lhe depois Pantera. Negra, naturalmente.
Vi-o três vezes nas nossas vidas:
uma, em Coimbra (perdeu por 2-0 com a Académica);
outra, em Coimbra também (os encarnados deram 0-4 ao meu União);
e outra, em Lisboa, no Cemitério do Alto de São João, tinha ele lá ido fazer as honras a alguém do dirigismo futeboleiro, enquanto, quanto a mim, passeava por ali lendo lápides, visitando o derradeiro sítio de Ramalho Ortigão, sentindo coisas para escreviver.
Sinto o mesmo, com exactidão o mesmo, que senti
quando, no ocaso do ano 1999, nos morreu a divina Amália:
dois colossos pátrios, duas pessoas melhores, dois artistas
de uma época que a eles deve, em boa ho(n)ra, ser imorredoura
chamada.
(E trapeira é bola de trapo, na terra batida da antiga
Lourenço Marques.)

Parece-me não ter andado em grande desacerto isto escrevendo. Lamento tão-só, a reboque de certa justíssima observação do meu Amigo Júlio Murraças no Facebook no próprio dia das grandes exéquias e das altas honras, não poder fazê-lo também a propósito de todos e de cada um que este País diariamente aniquila sem ao menos lhes volver meã a haste da Bandeira:
o idoso que comete o improvável crime geriátrico do envelhecimento e a quem uma reforma obscenamente miserável proíbe o medicamento paliativo e a higiene da dignidade;
o moço que incorre na insensatez de estudar e a quem a voracidade da besta hiante do troikapitalismo interdita o futuro agora-já;
o jornaleiro agrícola que, loucamente contumaz no intuito de fazer das próprias mãos duas estrelas férteis, vê impotente que e como lhe (trans)tornam as searas em campos de golfe, para exclusivo e regalado usufruto de inúteis plutocratas que devem pensar que o pão cresce das árvores e o azeite pinga dos intervalos da chuva;
o funcionário público “promovido” de repente a avatar de todos os males sistémicos deste mundo e do outro, mas cuja verdadeira origem, a dos males, reside sem discussão na chulice da corja parasitária que tão bem sabemos quem seja mas que também não deixamos, pontuais, de reeleger ad infinitum, à maneira de fedelhos estúpidos que se deitam com o papão nosso de cada dia;
e toda a demais honesta gente a quem Portugal, tirante o bom Eusébio, gosta de fazer mal porque o Bem é um luxo demasiado requintado para desperdiçar com pelintras.
Nelson Eusébio Mandela da Silva Ferreira nunca nos deixaram, porém, de mostrar que o contrário não só é possível como obrigatório.

Bem-hajam por isso, lá na éter-eternidade que os não deixa morrer, como a nós deixa.

Sunday, January 05, 2014

Órfãos do menino-da-trapeira desde a madrugad’agora - Leiria, manhã de domingo, 5 de Janeiro de 2014




Órfãos do menino-da-trapeira desde a madrugad’agora:
às 3h30m, morreu Eusébio, o grande senhor Eusébio
da Silva Ferreira, que deixa viúva Flora e viúvo
Portugal.
Nascera em Moçambique a 25 de Janeiro de 1942.
Chamaram-lhe depois Pantera. Negra, naturalmente.
Vi-o três vezes nas nossas vidas:
uma, em Coimbra (perdeu por 2-0 com a Académica);
outra, em Coimbra também (os encarnados deram 0-4 ao meu União);
e outra, em Lisboa, no Cemitério do Alto de São João, tinha ele lá ido fazer as honras a alguém do dirigismo futeboleiro, enquanto, quanto a mim, passeava por ali lendo lápides, visitando o derradeiro sítio de Ramalho Ortigão, sentindo coisas para escreviver.
Sinto o mesmo, com exactidão o mesmo, que senti
quando, no ocaso do ano 1999, nos morreu a divina Amália:
dois colossos pátrios, duas pessoas melhores, dois artistas
de uma época que a eles deve, em boa ho(n)ra, ser imorredoura
chamada.
(E trapeira é bola de trapo, na terra batida da antiga
Lourenço Marques.)

Sunday, December 29, 2013

Última crónica de 2013 para O RIBATEJO - Rosário Breve n.º 339 - in www.oribatejo.pt



Aritmética de rebanho

Digo-o de cor mas não à pressa: a 8 de Março próximo, é de celebrar o primeiro século decorrido desde a magia de maravilha daquele   momento/limiar em que, acercando-se de uma cómoda alta em perfeito transe de criação, um tal Fernando Alberto Pessoa Caeiro deu à luz, e de um jacto, os poemas de O Guardador de Rebanhos.
Esse mesmo ano quatordécimo do XX foi o do rebentamento da famigerada Grande Guerra, também chamada Primeira Mundial (como se toda e qualquer guerra, por invariavelmente configurar o crime da desumanidade contra a humanidade, não fosse sempre mundial).
E foi também, já agora, o do nascimento de Alberto dos Santos Abrunheiro, meu Tio paterno e o mais perfeito exemplar da mais exemplar solidão pessoal que já me foi acontecido conhecer. Amputado aos dezanove anos de uma das pernas no mesmo ano de gangrena da ascensão de Hitler à chancelaria do Reich e da, por cá, infame Constituição salazarenta que pros(ins)tituiu a ratazanaria do Estado Novo, esse meu também Alberto atravessou a vau o almegue desolado da própria existência, a qual se lhe finou, sozinho ele como à chuva um cão sem coleira, a 14 de Agosto de 1980. Outro catorze para outro Alberto, portanto: aritmética de rebanho.
Destas águas passadas, confesso, se movem os meus moinhos, quiçá se não de mais. São, por assim dizer, a minha cinemateca portátil, pois que, surda e gestual à maneira de cinema-mudo comigo sozinho na plateia, sempre me deixa re(vi)ver o-que-lá-vai no cumprimento da ameaça de nunca mais voltar.
Entre o ano que aí vem e o que ora se nos acaba, parece-me bem (mal) que o Diabo já veio e já escolheu: mais do mesmo e p’ra pior. O contumaz e relapso desGoverno da Nação, em inquebrantável imunidade ao mais simples civismo como o daltónico ao arco-íris, tudo (des)fará em proveito do piorio.
Passos continuará sempre inapto e inepto, incapaz sempre de entender o Barão de Itaraté: “Não é triste mudar de ideias, triste é não ter ideias para mudar.”
Já o inefável Portas não há-de ter, dentre as dezenas de milhar de fotocópias que à escancarada sorrelfa esmifrou ao xerox do Ministério da Defesa, uma mera folheca A4 que lhe recorde o que Virginia Woolf recordou, que foi aquilo que fez a Lady Winchelsea escarnecer do autor de Trivia, um tal John (curiosamente) Gay: “Mais lhe competiria andar à frente da carruagem do que andar nela.”
Resta-nos, dos vigentes, o mineral Cavaco, cuja rigidez malar trai dele a propensão facínora para a lagrimeta de esguicho provinda da flor de plástico à lapela de mau cómico. Porque, de entre tantas mais coisas, a “preocupação” dele para com os reformados se resume a dois utentes: ele próprio e a própria mulher dele próprio.
Em 2013 como em 2014, tudo isto me parece ser de sem-tirar-nem-pôr, tão-só ressalvando, da geral canalhada, a rapaziada de toga-tunga do Tribunal Constitucional, benza Deus a tais santinhos deste mais estábulo do que Estado.
À guisa, enfim, de conclusão, isto está pró péssimo e não vai p’ra menos ruim. Optimismos tolos, sirva-se deles o acéfalo de serviço à porta da sopa-dos-pobres em arroubo de caridadezinha sazonal. A verdade é sermos, um a um(a), dez milhões de pategos sempr’agradecidos a Vossa Senhoria, o bonèzito estendido como língua de pano, o joelhozito dobrado em ângulo tipo-Cova-da-Iria ante a azinheira do Poder. Como é verdade também subirmos todos já a encosta nascente da Serra do Caramulo, em cujo cume pontifica o quarto sozinho e crepuscular do sanatório que os dois Albertos, o que era meu Tio e o que guardava rebanhos de tinta por veigas de papel, escolheram para, respectivamente, morrer e nascer – dois actos existenciais que o próximo ano não promete propriamente vir a saber distinguir.

Thursday, December 26, 2013

Entrada n.º 40 de BAILE SOZINHO ou O INVERNO DE QUELUZ - noite de 10 de Maio de 2013, sexta-feira

40


                                                                                                                                               
                                                         
Aquele homem é lento por causa de uma doença
chamada idade,  acontece muito nesta Cidade.
Queimo a boca de roxo com um cigarro branco.
Apetece-me falar com um amigo, mas não tenho
saldo no telemóvel, é quase tudo 96,
na mocidade era diferente, telefonava-lhes

para casa dos pais, tudo era fixo,
talvez por isso envelhecer seja tão móvel
e tão quieto ao mesmo tempo,
a gente sabe que vai morrer,
afia um lápis mas sabe que vai morrer,
abre-se em livro e depois morre.

Sou muito atento aos ócios preocupados.
As pessoas filosofam nos Cafés a propósito
de coisas como o arroz-doce e o trigo-roxo
e a subserviência e a carreira e os impostos
mas depois na internet borram-se todas,
vê-se-lê-se logo que não sabem escrever.

Eu aqui em Leiria passo muito à porta
da casa onde viveu o Eça-Padre-Amaro,
sinto logo muita pena de mim por causa do naturalismo,
fiz na quarta-feira 49 anos,
coisa que nem o Pessoa nem o Ruy Belo fizeram
mas o Eça sim, o Eça fez tudo em apenas 55, parece mentira.

Monday, December 23, 2013

Um dos momentos de ouro da Língua Portuguesa é protagonizado pela pena de João Roiz de Castelo Branco.
(E "ditos" pela divina Amália com pauta de Alan Oulman, então...)


Cantiga sua partindo-se

Senhora, partem tam tristes
meus olhos por vós, meu bem,
que nunca tam tristes vistes
outros nenhuns por ninguém.

Tam tristes, tam saudosos,
tam doentes da partida,
tam cansados, tam chorosos
da morte mais desejosos
cem mil vezes que da vida.

Partem tam tristes os tristes,
tam fora d'esperar bem,
que nunca tam tristes vistes
outros nenhuns por ninguém.

Gosto ·  · Promover · 

Thursday, December 19, 2013

Rosário Breve n-º 338 (penúltima do ano) - in O RIBATEJO de 19 de Dezembro de 2013 - www.oribatejo.pt

Young Acrobat on a Ball, 1905 by Pablo Picasso


Nem o palhaço se lembrou desta da avó e da bezerra

Perto de minha casa, num vasto terreiro ermo que só os ventos de marítima origem usam franquear, acampou agora, por e para um mês, um circo. A tristeza do costume: espécie em lona de acampamento funâmbulo-cigano, é presídio de animais tristes e condenados à prisão perpétua sem qualquer culpa formada, tugúrio de artistas tisnados dourando a cárie da gargalhada postiça sem riso dentro e castiçal de bandeirolas virente-rubras tipo Euro-2004 com o mesmo resultado (da) final.
Aderindo aos maus tempos d’agora, todo o santo dia aquele pagode de pano encardido e desbotado ladra stum-stuns de bárbara cacofonia de discoteca equivalentes a descomunais arritmias cardíacas que sobressaltam a passarada num raio de dez milhas terrestres e me inviabilizam, pelo menos até 6 de Janeiro próximo, o passeio beira-fluvial do dia (que para mim é às seis da manhã, Inverno ou Verão, que começa).
Não se trata, todo este ror de repugnâncias minhas, de ter alguma coisa contra a esfarrapada nação circense. Trata-se tão-só de nada ter a favor dela, por mais que tente. Poucas coisas nesta vida me são tão instantaneamente deprimentes quão os circos. De menino que assaz me fazem mal à pituitária lírica. Na cidade marítima onde veraneávamos (sim, tempos houve já em que as famílias operárias também veraneavam – e nem era muito longe dos ricos frequentadores do casino, do ténis-clube, do hipódromo de contraplacado, do chá-dançante e das casadas com os oficiais da capitania), dizia-Vos eu então que, na cidade marítima onde veraneávamos, o circo era fatal como a morte da avó (ou da bezerra, no caso dá o mesmo).
Reparai: tenho cinco anos e recordo, como se agora fosse, as jaulas inçadas de ímpias moscas atormentando os leões mais magros, mais famélicos e mais tristes do mundo; o patriarcal elefante padecendo a insuportável humilhação do exílio e com ar de quem sonha ainda poder um dia deixar correr, ou morrer, o marfim ao mesmo campo-santo de seus livres antepassados indiano-africanos; o ar de barbeiro pelado dos chimpanzés, tão parecidos sempre com os nossos primos da Beira Alta; a lustral gordura alvinitente da gentil senhorita assistente do atirador de facas; o palhaço sem pingo de graça mas muita pinga de bagaço e de cachaça; a mulher-às-vezes-aranha-às-vezes-das-barbas lavando e pondo a estiolar ao vento marinho suas ceroulas museológicas e suas cartas de um amor antigo que se recusa a secar; o fadista internacional que nunca passou nem a norte da Mealhada, nem a sul de Portel, nem a disco gravado, a Oeste como a Leste; a arrogância toleirona do Director de Arena, esse patusco dos bigodes retorcidos em parêntesis para sussurro da frase em linha dos lábios e sempre com aquela casaca de granadeiro napoleónico que não tirava nem para tomar o banho que nunca tomou; e o lixo que cada fim de época balnear aquela malta abandonava ao dissabor eólico da praia cercana.
Por não ter eu salvaguardado ainda, ou já, o dinheiro q.b. para ir habitar o deserto, levo com o circo à porta. Isso me fez, antes de enviá-la em definitivo ao jornal, telefonar esta crónica a um Amigo a quem também os circos deprimem sem remédio. Ele fez muito que sim logo às primeiras instâncias respiratórias do primeiro parágrafo. Também ele redesceu logo a menino, logo de novo assistindo, como se agora fosse, àquilo a que pelas aldeias chamavam “comédias”: famílias andrajosas que, queimadas do frio e do mau hábito da fome, pandeiretavam e símio-realejavam por as eiras e os fontanários das paróquias as últimas maravilhas de uma ilusão que há muito deixara, já então, de ser a primeira.
E agora isto: acontecer-me que a escrita desta crónica acabasse por me cabisbaixar o brio – como se tivesse ido ao circo. Ou como se, havendo finalmente logrado adormecer, adormecido sonhasse com o leão liberto, liberto de homens e de moscas e de verões não africanos que nunca voltam a ser o de 1969, esse outra vez livre e forte rei fazendo rugir a altífona goela à aparição da gentil senhorita, também ela farta, e liberta finalmente ela também, do sacanita que lhe atirava facas.

Friday, December 13, 2013

Thursday, December 05, 2013

Rosário Breve n.º 336 - in O RIBATEJO de 5 de Dezembro de 2013 - www.oribatejo.pt

Do fundão do mar

Em recente madrugada álgida e petrificada de cristal, como é da época e de lei, derivando eu não acompanhado pela avenida deserta das seis da manhã, aconteceu um fragmento de folha de jornal vir, à maneira de famélico cão perdido, aninhar-se-me aos pés. Toda a vida tenho tropeçado em lixo (do humano inclusive), pelo que não liguei e segui em frente, rumo ao Café onde diariamente procedo ao desjejum de cafeína, nicotina & versos.
– Olhe o senhor Daniel que traz aí qualquer coisa agarrada às canelas – avisou-me, maternal como sempre, a D.ª Lena, como sempre reiterada pelo olhar da senhora Ermelinda, que quando olha para os homens nem é para as canelas que olha.
Toda a vida tenho olhado para baixo (mas não quando é gente que olho), pelo que accionei a grua do pescoço no ângulo descendente: era o pedaço de jornal. Rezava assim:
“(…) revelaram tratar-se de uma pessoa com ‘superficialidade afectiva, ausência de remorsos, manipuladora e com elevado grau de reincidência’”. Mais nada.
Reli o trecho não sei quantas enésimas vezes: “revelaram tratar-se de uma pessoa” enquanto tilintava a colherinha no rebordo da chávena; “com superficialidade afectiva” enquanto abafava na faringe o delic(i)ado arrotinho a açúcar torrado; “ausência de remorsos” enquanto buscava e rebuscava o nómada do isqueiro em todos os bolsos menos no certo; “manipuladora” enquanto fumegava a melhor passa do Camel de enrolar, por ser a primeira do dia; “e com elevado grau de reincidência” como este mesm’O Ribatejo, periódico que, à imagem dos melhores casamentos de longo curso e média duração, ainda se dá uma (vez) por semana.
Por padecer da incontornável e irredimível mania de me ver como espécie de escritor, fiquei perplexo de propósito ante tal papelucho. Qui-lo ominoso. Qui-lo código de qualquer coisa mística, como a besta do Dan Brown, o inenarrável Paulo Coelho e essa fotocópia sem toner de ambos chamada Zé Rodrigues dos Santos. Fiz até de conta que às canelas se me tinha vindo prostrar o pedacículo que faltava aos Manuscritos do Mar Morto. Ou que era, mais grave e mais especiosamente ainda, a única genuína evidência documental da entrada “Miguel Sousa Tavares” no Dicionário da Não-Literatura Portuguesa dos Tristes Editoriais Dias da Contemporaneidade. Ou, ainda, que se tratava de alguém a dizer mal de alguém só para ter alguém de quem dizer mal a ponto de ser também considerado alguém, coisa que sempre me repugnou, como é disso cavalar prova cabal esta crónica mesma. Decidi indagar.
Paguei a bica a prestações, esmaguei a segunda metade do cigarro e, sempre de papeleta nas unhas roídas por causa dos nervos, rumei ao quiosque jornaleiro do meu distinto e anónimo Amigo, que se chama Gervásio e não se distingue. Herdou do pai a banca e, como o pai, lê todos os dias, à frente de toda a gente, aquela porra toda, menos as revistas com gajas de mamas expostas ao sol e à chuva porque a Sé é ali mesmo ao lado da traquitana dele – e já se sabe que isto de sexo & religião é como álcool & condução. (Dizem eles, como abaixo se não verá.) Mas adiante. Eu assim para ele:
– Ó Gervásio, de que jornal, de que data e sobre quem há-de ser este bocado de prosa?
E ele assim p’ra mim:
– Há-de ser, não: já foi. Se está escrito, já foi. Só há-de ser p’ra sempre se estiver bem escrito e for bem lido. Deixa cá ler.
Eu deixei. Ele leu. Então o Gervásio, que é uma maravilha de óculos como ele há poucas, que devia mas era ser director da Biblioteca Nacional como o foi aquele Carlos Reis professor que nos lixou a todos com a bênção do abort’ortográfico, o Gervásio, dizia eu, disse-m’assim:
– Diário de Notícias, 3.ª feira, 3 de Dezembro de 2013, pág.ª 4, Ano 149, n.º 52 829, 1,10 €.
E então eu, aflito de propósito e numa ânsia de investigadorzeco à maneira do Jaime Coiso do Montalbánzito de cá, vulgo Chico-Zé Viegas, eu então assim:
– ‘tá bem, pá, mas isso é sobre quem?
E ele, esvurmando-me as ganas que eu tinha de que fosse o Passos, o Portas, o Cavaco, o Sonasol ou o SuperPop, sentenciou:
– Pá, tem pouco interesse, é o costume, um padre e crianças masculinas tudo-ao-molho-e-fé-em-Deus, é só a avaliação psiquiátrico-pericial daquele que era vice-reitor do Seminário do Fundão e abusou de meninos.
Fiz finca-pé cá na minha:
– ‘tá bem, ó Gervásio, ‘tá muito bem, mas o gajo, por viol’ipendiar crianças, apanha dez anos. Já os outros (o SuperPop e o Sonasol) de que te falei, os superficialmente afectivos, os sem pinga de remorso, os manipuladores e altamente reincidentes, nem um ano apanham por abusarem de dez milhões.
E não apanham, como eu do chão apanhei um pedaço de jornal que, dizendo pouco afinal, afinal tudo diz – tanto do “fundão” como do mar-morto em que este País deixou que o tornassem.