Wednesday, December 18, 2013
Friday, December 13, 2013
Thursday, December 05, 2013
Rosário Breve n.º 336 - in O RIBATEJO de 5 de Dezembro de 2013 - www.oribatejo.pt
Do fundão do mar
Em recente madrugada álgida e petrificada de cristal, como
é da época e de lei, derivando eu não acompanhado pela avenida deserta das seis
da manhã, aconteceu um fragmento de folha de jornal vir, à maneira de famélico
cão perdido, aninhar-se-me aos pés. Toda a vida tenho tropeçado em lixo (do
humano inclusive), pelo que não liguei e segui em frente, rumo ao Café onde
diariamente procedo ao desjejum de cafeína, nicotina & versos.
– Olhe o senhor
Daniel que traz aí qualquer coisa agarrada às canelas – avisou-me, maternal como sempre, a
D.ª Lena, como sempre reiterada pelo olhar da senhora Ermelinda, que quando
olha para os homens nem é para as canelas que olha.
Toda a vida tenho olhado para baixo (mas não quando é
gente que olho), pelo que accionei a grua do pescoço no ângulo descendente: era
o pedaço de jornal. Rezava assim:
“(…) revelaram
tratar-se de uma pessoa com ‘superficialidade afectiva, ausência de remorsos,
manipuladora e com elevado grau de reincidência’”. Mais nada.
Reli o trecho não sei quantas enésimas vezes: “revelaram tratar-se de uma pessoa”
enquanto tilintava a colherinha no rebordo da chávena; “com superficialidade afectiva” enquanto abafava na faringe o
delic(i)ado arrotinho a açúcar torrado; “ausência
de remorsos” enquanto buscava e rebuscava o nómada do isqueiro em todos os
bolsos menos no certo; “manipuladora”
enquanto fumegava a melhor passa do Camel
de enrolar, por ser a primeira do dia; “e
com elevado grau de reincidência” como este mesm’O Ribatejo, periódico que, à imagem dos melhores casamentos de
longo curso e média duração, ainda se dá uma (vez) por semana.
Por padecer da incontornável e irredimível mania de me ver
como espécie de escritor, fiquei perplexo de propósito ante tal papelucho.
Qui-lo ominoso. Qui-lo código de qualquer coisa mística, como a besta do Dan
Brown, o inenarrável Paulo Coelho e essa fotocópia sem toner de ambos chamada Zé Rodrigues dos Santos. Fiz até de conta
que às canelas se me tinha vindo prostrar o pedacículo que faltava aos Manuscritos do Mar Morto. Ou que era,
mais grave e mais especiosamente ainda, a única genuína evidência documental da
entrada “Miguel Sousa Tavares” no Dicionário da Não-Literatura Portuguesa dos
Tristes Editoriais Dias da Contemporaneidade. Ou, ainda, que se tratava de
alguém a dizer mal de alguém só para ter alguém de quem dizer mal a ponto de
ser também considerado alguém, coisa que sempre me repugnou, como é disso
cavalar prova cabal esta crónica mesma. Decidi indagar.
Paguei a bica a prestações, esmaguei a segunda metade do
cigarro e, sempre de papeleta nas unhas roídas por causa dos nervos, rumei ao
quiosque jornaleiro do meu distinto e anónimo Amigo, que se chama Gervásio e
não se distingue. Herdou do pai a banca e, como o pai, lê todos os dias, à
frente de toda a gente, aquela porra toda, menos as revistas com gajas de mamas
expostas ao sol e à chuva porque a Sé é ali mesmo ao lado da traquitana dele –
e já se sabe que isto de sexo & religião é como álcool & condução.
(Dizem eles, como abaixo se não verá.) Mas adiante. Eu assim para ele:
– Ó Gervásio, de que
jornal, de que data e sobre quem há-de ser este bocado de prosa?
E ele assim p’ra mim:
– Há-de ser, não: já
foi. Se está escrito, já foi. Só há-de ser p’ra sempre se estiver bem escrito e
for bem lido. Deixa cá ler.
Eu deixei. Ele leu. Então o Gervásio, que é uma maravilha
de óculos como ele há poucas, que devia mas era ser director da Biblioteca
Nacional como o foi aquele Carlos Reis professor que nos lixou a todos com a
bênção do abort’ortográfico, o Gervásio, dizia eu, disse-m’assim:
– Diário de
Notícias, 3.ª feira, 3 de Dezembro de 2013, pág.ª 4, Ano 149, n.º 52 829, 1,10
€.
E então eu, aflito de propósito e numa ânsia de
investigadorzeco à maneira do Jaime Coiso do Montalbánzito de cá, vulgo
Chico-Zé Viegas, eu então assim:
– ‘tá bem, pá, mas
isso é sobre quem?
E ele, esvurmando-me as ganas que eu tinha de que fosse o
Passos, o Portas, o Cavaco, o Sonasol ou o SuperPop, sentenciou:
– Pá, tem pouco
interesse, é o costume, um padre e crianças masculinas tudo-ao-molho-e-fé-em-Deus,
é só a avaliação psiquiátrico-pericial daquele que era vice-reitor do Seminário
do Fundão e abusou de meninos.
Fiz finca-pé cá na minha:
– ‘tá bem, ó
Gervásio, ‘tá muito bem, mas o gajo, por viol’ipendiar crianças, apanha dez
anos. Já os outros (o SuperPop e o Sonasol) de que te falei, os
superficialmente afectivos, os sem pinga de remorso, os manipuladores e
altamente reincidentes, nem um ano apanham por abusarem de dez milhões.
E não apanham, como eu do chão apanhei um pedaço de jornal
que, dizendo pouco afinal, afinal tudo diz – tanto do “fundão” como do
mar-morto em que este País deixou que o tornassem.
Friday, November 29, 2013
Rosário Breve n.º 335 - in O RIBATEJO de 28 de Novembro de 2013 - www.oribatejo.pt
Mea non vestra culpa
Já uma vez aqui mesmo Vo-lo disse, pelo que é mesmo aqui
que Vo-lo reitero: há três décadas e meia que PS e PSD, com o ocasional
penduricalho do CDS-PP, alternam à boca do tacho da desgovernação da Pátria –
portanto a culpa é minha.
É minha – mas não é dos circunstantes com quem compartilho
o usufruto cafeíno do café-galeria onde todos os dias, a partir das seis da
manhã, matino os ossos, o lápis e o meu olhar de papel. Estes homens e estas
mulheres são todas e todos de uma dignidade que não merece, nem de perto nem ao
longe, ser amesquinhada como anda a sê-lo com mais agravo do que apelo.
Não duvideis: estas pessoas são como Vós e como eu
pretendo ser, a compostura delas é a Vossa mesma, que reflectir pretendo.
Permiti-me, pois, que Vo-las descreva com o, sumário embora, apuro possível:
– o Quarteto de
Mulheres-da-Limpeza: começaram, crianças ainda, a contribuir para pão &
sabão em casa; pouca escola lhes deram; batidas ora pelos maridos como pelos
pais outrora; por luxo único, esta chávena quente e parlamentar de cada
madrugada; sei quando recebem o pouquíssimo que lhes pagam: é quando se
permitem a extravagância mensal do pastel-de-nata; acho-as bonitas a todas, uma
por uma; e considero-as não menos do que princesas reais. Ou canoas respiratórias
ancoradas na precária angra do pão-de-cada-dia.
– o
Assentador-de-Pavimentos: é rapaz que não vai para criança, por isso mesmo
que já cinco décadas e meia de nascido o coroam; gosto das mãos dele:
parecem-me estrelas-do-mar capazes de tornar coral a pedra-pomes da
subsistência; já o espinhaço batido se lhe adunca em fadiga óssea, é certo –
mas certo é por igual não ser ele homem para desistir de merecer o que come,
amailos filhos e a mulher, amanhã.
– a
Estagiária-de-Farmácia: era para ter sido médica, pelos sonhos de prestígio
social que por ela e em vez dela tinham os pais e os avós, mas uma certa
desvocação escolar para as Ciências interditou-lhe a formação clínica, pelo que
se vinga em xaropes e supositórios do que nem Esculápio nem Hipócrates quiseram
dela; é delicada como uma gardénia revestida a seda; namora um barbudo que mete
música afro-brasileira numa espelunca de alterne aqui perto; enternece-me
sempre muito o modo como, cedinho, esparge derredor si os bons-dias: como se
francamente no-los desejara; mas, à boca-pequena, já se comenta que a
directora-técnica da farmácia lhe lancetou que lugar efectivo, no fim do
estágio, nem pensar.
Mais exemplos titulares vos escreve(da)ria, mas para tal
são poucas as colunas que o Jornal me dá. Valham-Vos os supra-alinhados por
paradigma, ainda assim.
O Tempo é o Rio que a todos nos usa por margens. Saibamos
ao menos, como Ele, viver em moção, prescindindo ou desistindo jamais da
fundamental dignidade que é a de não morrer sem ter vivido.
Há pelo menos trinta e cinco anos que Vós não cuidais
muito disso, eu sei. Nem Vós, nem aqueles de “lá de cima”.
Como aliás sei que a culpa de tal é minha.
Saturday, November 16, 2013
Rosário Breve n.º 333 - in O RIBATEJO de 14 de Novembro de 2013 - www.oribatejo.pt
Certidão de
renascimento
Portugal é o nome da terra em que, a poder nascer-se de
propósito, eu nasceria sempre e para sempre.
À beira do meu primeiro meio século de nascido, tenho por
firmes tal opinião fetal e tal axioma amniótico. Não é por vão “patrioteirismo” à la Portas que vo-lo afirmo.
É porque só neste País a bruma, subindo do chão à primeira
fímbria óptica da alva, faz do musgo, como em alhures algum, o espontâneo leito
fofo do presépio natural. Dissipada ela, ela bruma, a luz põe-se toda a
esmaltar, como em nenhum outro rincão mundial, os fundos pinhais de um verniz
matizado de manteiga de ouro, que o vento reitera oceanicamente.
Mais digo que: também é por causa das mulheres absoluta,
absurda e completamente Portuguesas. Algumas delas, com o desengonço içado e
altamente elegante das girafas, escalam o escadote do próprio corpo encimado de
um olhar húmido de água-ágata. Outras, meãs como empadas de açúcar, fazem
reviver ao observador a ternura primeva das Mães lusitanas, essas magistrais
economistas da escassez que nenhum Nobel contempla mas que todo o filho tenta
repetir na esposa.
Os homens Portugueses são também, por outras tantas razões
quantas as que perfazem o número deles todos um por um, outro motivo forte pelo
qual, a ser-me possível escolher em que cor do mapa-múndi conhecer a primeira
(e a derradeira) luz, isto só poderia dar-me Portugal. Mesmo os moralmente
pequeninos, velhacos e bailarinos. Mesmo os que, imbuídos de um imponderável e
improvável poder local tão mal exercido, maniganciam corrupçõezitas de
mercearia num el-dorado de fancaria
enodoado de quinquilharia.
Sim, definitivamente sim: Portugal é o único alfobre onde
se pode nascer com alguma decência de alma, lavado o corpo e macerada a roupa
través abluções a sabão azul-e-branco como só aqui se fabrica. Mesmo
descontando esse elfo chamado Rui Machete. Mesmo engordando à perpetuidade esse
lípido chamado Mário Soares. Mesmo só com dois cachorros, ou quatro gatos, por
apartamento que se deva ao banco.
Da razão final pela qual me devo a reiteração
incontornável de só me querer (e poder) nas-ser
Português, terminalmente vo-la adjudico mercê de uma “sacanice”, digo, citação.
Recorro a João de Deus, esse límpido Poeta nosso que, certa ocasião, celebrando
de um amigo o aniversário, lhe rimou esta formosa graça:
Dia de anos
Com que então caiu
na asneira
De fazer na
quinta-feira
Vinte e seis anos!
Que tolo!
Ainda se os
desfizesse…
Mas fazê-los não
parece
De quem tem muito
miolo!
Não sei quem foi que
me disse
Que fez a mesma
tolice
Aqui o ano passado…
Agora, o que vem,
aposto,
Como lhe tomou o
gosto,
Que faz o mesmo.
Coitado!
Não faça tal, porque
os anos
Que nos trazem?
Desenganos
Que fazem a gente
velho.
Faça outra coisa,
que, em suma,
Não fazer coisa
nenhuma
Também lhe não
aconselho.
Mas anos… Não caia
nessa!
Olhe que a gente
começa
Às vezes por
brincadeira,
Mas depois se se
habitua,
Já não tem vontade
sua,
E fá-los queira ou
não queira!
Onde o/a meu/minha Leitor/a lê, no poema, “Vinte e seis anos”, leia, por favor,
28. São quantos perfaz o aniversariante (e nosso) O RIBATEJO. Todas as terças, para às quintas sair, me calha a
obrigação de escrever para este jornal-árvore (porque enraizado na terra), para
este jornal-vento (porque a todo o lado se leva em palavras). Há quase três
décadas que vem resistindo às intempéries e às tropelias da economia, do buraco
na estrada, dos pontuais tiranetes de pacotilha que infestam a democracia
(tanto a local como a do Terreiro do Paço). NB: mas sem jamais, até ao momento,
ter feito de galego aguadeiro de fretes. De clara matriz editorial, O RIBATEJO é plural como o mundo e único
como a Região que lhe dá o nome e o sentido existencial. Saudá-lo
aniversariantemente é, até por sinédoque, saudar o público que tem sabido
merecer. E, no meu caso, o caso é de perguntar: pois se não em Portugal, em que
outro País um qualquer jornal me aturaria a crónica? Não é?
É.
Sunday, November 10, 2013
BAILE SOZINHO ou O INVERNO DE QUELUZ - 37 (10 de Maio de 2013)
37
Ib.
Começas criança mas
ninguém te diz onde é o cinema.
Acabas percebendo a lata
das bolachas, o ter de não estar vazia.
Percebes que a canção é
mais do que um poema.
E chega a noite de ontem
ao amanhã do dia.
Como cucos, os velhos são
relojoeiros.
E nós, ex-crianças,
disparamos morteiros.
Começa-se sempre pela
louça, água-corrente nem sempre.
Mas há um horror ao lixo,
que a limpeza é diferente.
É o mesmo que em pobreza a
gente ser gente.
E as vagens-verduras
sustentam a Mãe que morrer vai,
sei lá eu se é pecado ser
nado ou nada ou d’onde-meu-Pai.
Dez de Maio,
duplo-mil-&-treze, entretanto sai
o Sol inclemente, que com
a Lua troca, indif’rença p’la gente.
Pela Arregaça antiga, que
de Coimbra orla uma sandes paga,
a Matilde de há pouco (a
louca dos meus versos) s’apaga,
de coxas varizmarmóreas,
ante um viúvo desejoso,
uma ejaculação
d’aguadilha, cuja emissão é o gozo
de um homem que não vou
ser.
Amanhã, a manhã há-de ser
de amanhecer.
O meu mais velho cruza
morenamente a infância terminal.
Mandaram-no longe matar
pretos em nome de Cristo-Portugal.
Tenho pena da Matilde,
Gracita, aproveitam-se dela.
Já fez 60 anos, mas é
branca de lírio. A beijar, é amarela.
Acontece exactament’agora.
Escrevo bem. Acho mal.
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BAILE SOZINHO ou O INVERNO DE QUELUZ
Thursday, November 07, 2013
Rosário Breve n.º 332 - in O RIBATEJO de 7 de Novembro de 2013 - www.oribatejo.pt
Da solidária solidão
Há
um ano e um século, a White Star Line, companhia
proprietária do Titanic, enviou às
famílias dos músicos da orquestra da fatídica viagem, também eles engolidos
pelo abissal mar gelado, as facturas dos respectivos uniformes: afinal, a roupa
pertencia à companhia de navegação, não a eles – e eles tinham cometido a
gravosa imprudência de se afogarem sem se despir antes do que não era deles. (Isto
não é patranha: é um histérico facto histórico.)
Cento
e um ano depois, o Capitalismo “neoliberal”, essa besta autofágica e indutora
do suicídio das nações que se não chamem EUA ou Alemanha ou China, segue à
risca, à letra e a grosso a selvajaria da White
Star Line acima descrita. O Capitalismo “neoliberal” é a Grande Hidra Cega.
O Capitalismo “neoliberal” é a Nossa Mãe ao Contrário. O Capitalismo
“neoliberal” é o ouro valer merda riscada a sangue. Vive de músicos afogados e
de famílias desfeitas. Alimenta-se de podridões. E serve-se de lacaios acéfalos
e invertebrados como esta cambada de cachopos que nos entretemos a eleger de
quatro em quatro anos.
Vale
que, um ano depois do Titanic, mais precisamente a 7 de Novembro de 1913,
nasceu Albert Camus. Figura gigante, colosso ímpar da literatura do século XX,
deixou obra sem cotejo possível. Muito superior à vedeta zarolha chamada
Sartre, primou sempre pela solitária discrição. Morreu demasiado cedo, aos 47
anos, terminado por um desastre de viação automóvel.
Mas
legou-nos A Peste, O Estrangeiro, O Mito
de Sísifo e O Homem Revoltado, entre outros marcos
descomunais das boas-letras.
Foi
dos Nobel da Literatura mais justamente reconhecidos de que hei memória. E
determinou para sempre uma distinção ética que outro gigante da literatura,
também ele nobelizado, Gabriel García Márquez, adoptou como epigráfica divisa:
que o ser solidário é o absoluto contrário do ser solitário.
Mas
lá no fundo, o mesmo fundo em que jaz o Titanic,
Camus mais não terá feito do que dizer à White
Star Line, aos EUA, à Alemanha e à China que, de uma vez por todas, cresçam
e desapareçam.
Saturday, November 02, 2013
Duas crónicas para O RIBATEJO - n.ºs 331 e 330 da série ROSÁRIO BREVE - de 31 e 24 de Outubro de 2013, respectivamente
Acabar com o parque-de-merendas
Estar
pobre e ser miserável são dois mundos antagónicos mas coevos no comum mundo
tristonho nosso. O pobre – acha-se sempre provisório. O miserável – sabe-se
para sempre definitivo. É por isso que a pobreza usa certos ouros só dela. E é
por isso que a riqueza excessiva é sempre miserável. Aliás: como é que,
fundamentada na multitudinária miséria alheia, uma fortuna colossal poderia
alguma vez deixar de ser mais miserável ainda do que o húmus humano em que
farpeia raízes? Não poderia. Nem pode. Nem jamais há-de poder. É ver o caso de
Angola. É ver o nosso caso.
Qualquer
nababo da Banca me parece sempre a lustral versão pós-sauna do chulo navalhista
(no tempo do Eça, um faia) de
cachucho no mindinho escarafunchando com a unhaca respectiva a cera do
orelhame. Qualquer sanguessuga vitalícia do Estado me obriga a ver em sua
figura a mesma do tarado perpétuo e impune que, à mesa do Café como na cadeira
da sala-de-espera do posto médico, mirona lúbrica e sorrelfamente o seio da mãe
que amamenta seu petiz em candura.
Disse-Vos
ainda, acima, que, ainda assim, a pobreza
usa certos ouros só dela. Disse-Vo-lo bem. Nenhuma nota de cem no bolso
vale, como ali em cima (como agora mesmo) no céu de um azul-ferrete que o Sol
estende em ampla colcha de seda, a castelar nuvem toda neve, de um branco que
evoca a nata bem batida. Nenhum maço das de vinte enroladas em cartão à
feirante vale para mim o que vale a parlapiação dos homens quando no barbeiro,
ocasião em que essa espécie de mulherio masculino, mui geriátrica e
pausadamente, estabelece cartilhas morais à
la Jornal de Notícias. Nem nenhuma ceia no Tavares Rico puxa mais salivação pré-palatal do que as tábuas de
parque-de-merendas, sobre que os pobres estendem o afinal linho, a cambraia afinal,
da toalha de algodão aos quadrados grossos encarnados e brancos para que
rescendam a divino a capitosa sopa-da-pedra que fumega, o bacalhau enroupado de
cebola e ungido de azeite que crepita, o honesto pudim-de-pão que confirma a
pançada saloia e a taçada simples de nêsperas frescas que a água da fonte quase
vitrificou.
Temo
todavia que a Troik’ASAE venha ainda a proibir, ó mein führer!, a garfada da mesma vasilha de pimento assado às
tiras. Isto numa primeira fase. Na segunda, que se proíba até a reunião pura e
simples de mais três pobres, assim exterminando para sempre a lamentação
fadista e o jogo-da-sueca. O dominó há-de porém resistir, quero-o bem crer.
Era
oxioma litúrgico-salazarista que “quem dá
aos pobres, empresta a Deus”. Sabemos hoje que só o contraponto a esta (i)moralidadezinha
de sacristia espuriamente caritária é que é verdadeiro: quem rouba aos pobres,
é sócio do Diabo.
Ou
então é como, num instantinho, irmos ali a Angola sem precisarmos de sair
daqui.
*
**
Uma maneira de dizer
Julgo
de razoável precisão certa memória minha, eu teria o quê?, os meus cinco anos.
Foi no Largo da Portagem, Coimbra, terra inicial minha. O céu desse dia era
(como) este de hoje sob que Vos escrevo: um cartão-de-caixa-de-sapatos, uma
folha-de-Flandres aluminiosa, glauca, catarata-de-olho. Não sei já se Mãe ou
Pai me acompanhavam então, como ainda hoje, defuntos ambos embora, o fazem.
Olhei esse céu de Coimbra, mirei esse rio que dá fados como dá quelhas
arbustivas – e pensei assim: E se nada
existisse?
Nada.
Nem céu, nem rio. Nem cidade, nem ser de Pai ou Mãe. Nem pobreza, nem
bicicletas. Nem violência doméstica, nem abandono de animais (ou de filhos).
Nem polícia, nem recifes. E nem sequer Deus a precisar tanto do Diabo. E se nada, o Grande Nada?
Curto
filósofo de um metro, a auto-pergunta inquietou-me o resto da vida. Até hoje.
Hoje, sento-me neste café a fazer duas colunas de prosa para um jornal decente
feito por gente decente para um leitorado decente. Sou o gajo do blusão verde,
duas mesas atrás dessa gente toda. Folheio as conversas alheias em digitação: é
como se paginasse o papel oral dos meus Portugueses. Digo: a gorda de blusa
roxa e unhas lacradas a carmim que comenta a Casa dos Segredos; a de cabeleira amarelo-açafrão cujas mamas
exsudam o soro do leite amamentador à boca do pequenito de dois meses; o
capataz de ar sueco que aloira os cilícios dando ordens; e a sombra da minha
mão direita fazendo-se tinta num papel a que nem sempre sei responder. Como
aliás não soube, dessa talvez-manhã de talvez-1969, responder ao Big-Brother:
– E se nada fosse, existisse ou houvesse?
Domingo
passado, 20 do corrente, fui ver-ouvir um concerto-encontro de bandas
filarmónicas. De uma, a minha Primeira-Filha era a linha-da-frente. As respostas
acabam sempre vindo, percebo-o já bem enquanto, por encanto, escrevo:
– Tudo
há no que é.
Tranquilo
finalmente, não tenho cinco anos já.
Tenho
menos.
Um
dia morro, um dia nasço – baralha & torna a dar. E o rio sob o céu: página
a página.
Até
hoje.
Saturday, October 19, 2013
Rosário Breve n.º 329 - in O RIBATEJO de 17 de Outubro de 2013 - www.oribatejo.pt
De ferreiro mau, só
espeto de pau
Davam as cinco da tarde na passada segunda-feira, 14 do
corrente, quando os secretários de justiça notificaram, por todo o País, os
escrivães de direito das secções judiciais, informando-os de que, afinal, os
funcionários judiciais sempre podiam sair do trabalho às 17 horas. Mas atenção
– desde que sindicalizados. Os outros, não. Os outros tinham (e tiveram) de
ficar até às 18h00m. O episódio, rocambolesco, histriónico e bufo à maneira das
mais velhacas e mais tragifarsantes operetas, só pode ter feito rir na campa, e
à gargalhada, o velho George Orwell. Sim, o mesmo Orwell que, em O Triunfo dos Porcos (Animal Farm, no original), já tudo
dissera quando estabeleceu que “todos os
animais são iguais, mas alguns são mais iguais do que outros.”
A anedota triste (mais uma) tem história e tem cronograma.
A saber:
1. A 2 de Agosto último, sai a Lei
n.º 68/2013. Nela se “estabelece a
duração do período de trabalho dos trabalhadores em funções públicas”.
Novidade: aumento da carga horária, ordem de passar a sair só às 18h00m, em vez
de às 17. A entrar em vigor no dia 28 do seguinte Setembro.
2. O Sindicato dos Funcionários Judiciais
interpõe providência cautelar de suspensão de eficácia a 30 de Setembro.
3. A Direcção-Geral da Administração
da Justiça (DGAJ) insiste na “obrigatoriedade
do cumprimento imediato da Lei 68/2013, de 29 de Agosto”.
4. 11 de Outubro : o Tribunal
Administrativo do Círculo de Lisboa (TACL) vê pertinência na providência
cautelar interposta, dando-lhe razão e provimento.
5. A DGAJ ordena então o exposto no
início desta crónica.
O episódio é deveras velhaco, bufo, histriónico e
rocambolesco. E poderia não sê-lo, caso a DGAJ soubesse ler decisões. A decisão
do TACL dá razão a TODOS os funcionários judiciais, sindicalizados OU não. E
mais: a decisão do TACL até ensina aos mandadores do sistema que, para obrigar TODOS os funcionais judiciais,
sindicalizados OU não, a trabalhar mais horas pelo mesmo dinheiro (ou por
menos, como se tem visto de mês para mês), há que alterar uma coisa chamada
LOFTJ, id est: a Lei de Organização e
Funcionamento dos Tribunais Judiciais, que consagra, entre outras minúcias, o
Estatuto Próprio de Carreira dos Trabalhadores Judiciais, esses inimigos do
Estado em geral e deste desGoverno em particular.
Querem mais uma hora de borla, querem? Não pode ser, olha
a LOFTJ. Mas é claro como água turva que, se agora não se pode, depressa se vai
poder – e com h depois do p: é que, a 26 de Agosto último, três
dias apenas portanto da tal Lei 68/2013, saiu a Lei 62/2013, que visa a
organização (ou, digo eu, requalificação,
ou degradação, ou destruição) do sistema judicial. Esta
marosca-de-rabo-de-fora traz no bico a alteração do tal Estatuto Próprio de
Carreira dos Trabalhadores Judiciais (TODOS, p’s ’tá claro). Alterado este, vai
de hora diária suplementar e nada de refilar, qu’isto já não são 25-d’abris.
Li os documentos que acima vos crono-enumerei. São
orwellianos. Informam e enformam (e enfermam) a desengraçada realidade triste
dos tristes dias sem graça que vivemos penando, sem culpa formada embora. A
decisão do TACL, porém, é de despachada (e despachante) clareza. E de minuciosa
pedagogia seria até, no caso improbabilíssimo de os desmandadores ministeriais
preferirem, a escrever por linhas tortas, saber ler (a) direito.
Em casa de ferreiro,
espeto de pau –
quando os próprios desmandadores da tutela não sabem a quantas andam (sabendo
embora para onde querem ir, os maganos), mau-Maria. Curial seria que a cúpula
da Justiça soubesse na ponta da língua a tal LOFTJ, por mero mas não
despiciendo exemplo, mui especial e nomeadamente no que consta dos artigos
122.º, aprovado pela Lei 3/99, de 13 de Janeiro, e 152.º, aprovado pela Lei n.º
52/2008, de 28 de Agosto. Por aí veriam qual é, por lei e por direito, o horário
de trabalho dos Funcionários de Justiça. Mas não sabe. Ou não quer saber.
O mínimo que destas caricaturas processuais o Público (tu
e eu, Leitor/a) pode concluir, não há que nem como negá-lo, é que nem o ferro é de pau, nem o ferreiro
percebe de espetos.
(Nisto, ouve-se de novo o Orwell a rir-se na tumba: mas,
para aliás não grande admiração geral, a gargalhada dele tem o timbre vocálico
do, valha-me Deus!, Marinho Pinto.)
Saturday, October 12, 2013
Rosário Breve n.º 328 - in O RIBATEJO de 10 de Outubro de 2013
Uma anedota itálica com mulher
distante só p’ra disfarçar
Que
o senhor Ricardo Araújo Pereira seja melhor contador de anedotas (e melhor
cronista também, já agora) do que eu – não é nem de espantar nem de grande
pólvora descoberta agora. Mas que um senhor Rui Machete o seja, isso já, a mim
me ata dois nós: um na garganta e outro, mais a sul, nas tripas. Nunca tive
especial apetência erótica por virgens, muito menos das ofendidas, como me
parece quer um senhor Rui Machete (a)parecer(-se). “Inexactidão factual” não é, de facto, exacto. É só mentira. É como
dizer “inverdade”. Ou, tratando-se de
pessoa fisicamente cega, chamar-lhe “invisual”-
porque “invisual” é o que se não
vê, invisível portanto, e não quem não vê.
Destes
preciosismos retóricos inventados por bezerros-de-lata chamados Assessores vive a (in)comunicação
(as)social dos nossos tristes dias de tão-mau-tempo-no-canal. Eu até era para
perder mais do meu e do vosso tempo com isto, mas não ceder vou à tentação. É
que, pela galeria onde assentadamente dou escrivão assento a esta crónica
hebdomadária, vai passando um monumento respiratório, todo carne e todo
luz-de-olhos. É uma senhora. Vive e trabalha aqui perto do Café onde
diariamente inscrevo o bolor do meu ócio. Permiti-me Vós que vo-la diga:
Olhar
adjudicado a orçamento de veludos nacionais, tem, por pestanas, aranhas movediças.
O rosto vale por maçã arrebatada, daquela golden que se faz camoesa. Ivóreos
dentes afloram o carmim do lábio quase grosso. Queixo ergonómico tamanho
concha-da-minha-mão. Pescoço que se alabastra em nervura tensa. Pele global de
tensa elasticidade, que dá ganas de morrer tactilmente e de olhos abertos para
não perder um segundo de filme. Peito que vos não digo. A sul do diafragma,
todo um ventre valendo o postal de todo um estuário azul. Coxas de colunar
templos gregos, dentre os que ela um deles. Rótulas de madrepérola por joelhos
que a breve saia roça de comichões de chita. Artelhos de mínima protuberância:
como soluços ósseos de mais espuma que osso. E pés de uma ascendência de asas
ícaras: por mais de cera que de palmípede.
Já
uma vez lhe franqueei a conduta salva da divisória de vidro do Café da Rita.
Pestanejou-me
o óbolo do cavalheirismo.
Fui
fulminadamente feliz no instante mesmo, de onde me resultou evitar a felicidade
alienígena à hora a que a minha senhora esposa volta do trabalho cansada de
tanto-cabrão-no-governo-e-fora-dele.
Não,
não cronicarei, à falta de ser sequer meio Ricardo Araújo Pereira, sobre um senhor
Rui Machete, cujo rosto, aqui há muitos anos (sei-o de cor, juro que sim) o Expresso
descrevia como “suave e civilizado”.
É
figura que me parece elfo já nascido com óculos, como o Harry Potter, à maneira
dos gatos, ou dos ratos, mais fedorentos.
E,
anedota por anedota, inverdade por mentira, semblante que só merece que eu, por
senhor o tratando, o faça sempre em cursivo itálico.
Thursday, October 03, 2013
Rosário Breve n-º 327 - in O RIBATEJO de 3 de Outubro de 2013 - www.oribatejo.pt
Cartão-de-eleitor do
papa-bivalves
De quando em vez, os bivalves tornam-se objecto de apanha
proibida. A interdição sanitária visa precaver o consumidor de incómodos mui
nocivos, como sejam, e são, a intoxicação diarreica e a amnésia. A estas duas
mazelas de mau convívio, eu ousaria, e ouso, adir a patologia social da
sintonização televisiva na TVI e a famigerada abstenção eleitoral, por
fundamentarem ambas, a meu ver, a nem sempre compreendida mas crucial distinção
entre o praticar o mau-olhado e o ficar mal-visto. Já da supracitada paridade
diarreia/amnésia, não me inibirei, escarninhamente, de, atentos os resultados
eleitorais, relevar a peregrina simetria moitaflorista de, se de facto o senhor
Ricardo Gonçalves “não tem cabeça para a
herança de Moita Flores”, também o senhor Moita Flores, pelos vistos e
pelos votos, não ter unhas para a viola da herança de Isaltino. Sequer. Acaba
por ser triste, aliás: conta mais um responsável preso do que um irresponsável
em liberdade.
(Nota: com a relesia das minhas crónicas de última página
e penúltimo bom-senso, mais não pretendo do que subsidiar o historiador do
futuro que se não arreceie de
emporcalhar as mãos na gamela da sociometria política à portuguesa de
princípios de terceiro milénio. Quem deveras não tem cabeça para urdume de tão monumental desconcerto c’est moi, como Flaubert dizia que era a
Madame Bovary. Ou aquela Loulou do perfume da Cacharel.)
Do maralhal cómico que bota bitaite comentador nas
capoeiras de néon, vulgo estações televisivas, não houve muito exemplar que
relevasse o verdadeiro vencedor das Autárquicas/2013: a Abstenção. No formoso
trecho de mundo chamado Ribatejo, ela campeou lezírias e galgou valas,
malogradamente revestida, como sempre e por todo o lado, das não diáfanas gazes
da indiferença, da resignação, da desistência, da não-resistência e da
auto-interdição comum à dos bivalves de quando em vez.
Isto que digo nem sequer é discutível, posto que
inequívoca verdade de Abrantes a Ourém, de Alcanena a Vila Nova da Barquinha,
de Almeirim a Torres Novas, de Alpiarça a Tomar, de Benavente ao Sardoal, do
Cartaxo a Santarém, da Chamusca a Salvaterra de Magos, de Constância a Rio
Maior, de Coruche a Mação e do Entroncamento à Golegã, passando por Ferreira do
Zêzere. E o mesmo vale dizer dos restantes 287 municípios do território pátrio.
Tenho por definitivo que o abstencionista é bivalve. E do
estragado, não desse que, fresco como um limão de sal, acorda o mar no palato em
cúpida antemão de uma rajada gélida de cerveja e/ou de uma explosão glacial de
verdasco gaseado. Somos deveras um País tão lerdo, que ao cabo de meio século
de ditadura vamos já cumprindo, como quem enferma de um mal que desconhece ou à
guisa de quem pena de um anátema que se calhar merece, quase outra meia
centúria de tiranete “democracia”.
(Nota pessoal e final: posso parecer-vos indignado. Não
estou. Isto já só me faz bocejar larga, aberta e profundamente, em nojosa
exposição da mui cariada arcada dentária minha. Sim, este Povo leva-me ao
bocejo, à quase misericórdia quase cristã. E à saudade do senhor Bulhão Pato,
que sabia mais de como se faz a amêijoa do que esta minha gente há-de saber de
como fazer, de si mesma, País. E que nem sabe que diarreia e amnésia, em
alegada Democracia, são uma única e mesma coisa.)
Monday, September 30, 2013
Sunday, September 29, 2013
Rosário Breve n.º 326 - in O RIBATEJO de 26 de Setembro de 2013 - www.oribatejo.pt
Crónica para ler ao altifalante
1. São estes os últimos dias da
campanha para as Autárquicas/2013. Por todo o País, viaturas entestadas de
altifalantes rastreiam por becos, vielas, travessas, ruas, avenidas e praças o
ladrar roufenho da propaganda. É som que me melancoliza: lembra-me sempre, por
irrecusável e irredimível homofonia, a presença antecipada dos circos. E pior:
traz-me dos antigamentes a camioneta dos sorteios dos cegos por cercanias do
Natal. Ou, das feiras, o casal de microfone enrolado em peúga a vender colchões
milagrosos a velhinhos de arruinadas ortopedias e enxovais mijados a noivas já
prenhes.
Tenho já idade a suficiente, todavia, para que a minha
propensão merencória se não alcandore a critério de aferição. Este vozear a
pilhas altífonas & megafónicas do vota-neste-vota-naquele é, afinal, quanta
música a democracia local sabe cantar. Mas antes essa cantiga, afinal e
deveras, do que o silêncio sepulcral das nomeações a dedo do tempo do Morcego
Eunuco, vulgo Salazar.
Que eu não tenha expectativas, é moléstia pessoal só. É só
enfado incréu meu. Agora que o País as não tenha, aí já fia mais grosso. Casos
há e autarquias há em que um mínimo de bondade prática é exercido nos ínfimos
meandros da quotidianidade. São excepções, todos o sabemos – mas a regra é ir a
votos sempre, posto que muita e muito boa gente sofreu em combate as sevícias
da ditadura para que os vindouros (que nós somos) pudessem errar à livre
vontade sua no boletim democrático.
Eu sei, eu sei: “eles” não vão para lá para nos servirem
mas para se servirem. Nem todos, porém. Conheço casos de gente eleita cujas
clara honestidade e competência irredimível são irrecusáveis. Trata-se, no
fundo, de sabermos, como eleitores, identificar os gatos e os ratos, votando no
cão. No lobo, não.
2. Até lá (dia 29 do corrente), não
nos doa a cabeça nem nos apodreça o dente. Ao morredouro quotidiano do tostão, saibamos
opor o lingote do bom sol português, que o Outono já oficial ainda não soube,
ou não quis, desveranizar. Foi o que fiz no sábado, 21. A minha mais nova quis
ir ver a primita, neta da minha irmã. Través a fornalha reverberante da tarde,
soubemos merecer, na casa que foi de nosso Pai quando infante, a frescura das
grossas paredes de uma alvenaria mais antiga do que a morte dele. Houve refresco
de café lambido a limão em gelo. A minha sobrinhita-neta, que se chama
Margarida, não estava – mas a minha Teresa não esmoreceu por causa disso. A
minha irmã (que é Lucília, cuja etimologia é luz por a razão óbvia do que ela é
em pessoa) foi buscar os álbuns das fotografias familiares. E então a Teresa
folheou o Pai dela quando mais novo do que ela – e quando os cães altifalantes
das eleições, que então nem havia, não altiladravam por becos, vielas,
travessas, ruas, avenidas e praças a local e nacional e patriótica democracia.
Monday, September 16, 2013
DOIS DIVERTIMENTOS (linguagem e assuntos um bocadinho pesadotes)
DIVERTIMENTO (1)
Leiria, 13 de Setembro de 2013, sexta-feira
Como
altos frutos de seiva alta crescem
e
passam pela galeria as mulheres alheias.
Todas,
sem excepção quase, me merecem
as
felicitações mais altaneiras.
Olhai-me
esta morena: parece um lírio bronzeado.
É
desconfiadita: mamalhuda, olha de lado
o
poeta inocentíssimo que a soletra, o vil.
Em
cada pernaça rija tem quilómetros mais de mil.
Fincai-me
esta loura à força como é de moda:
já
aquele coirão (perdão!) mereceu muita foda,
que
no derramar do leite está o choro ganho.
Fica-lhe
bem a popelina fresca na pele saída do banho.
Estas
duas, siamesas, amorangam framboesas.
As
bocas são de uma carnação acerejada
que
apetece lamber com chantilly – ou então com nada.
Que
passinhos voadores! Que sandalinhas princesas!
Passa
por fim a feia forte não desprovida de encanto.
Farfalhuda
de barrigola, é de marido que gosta de bola.
Mas
um não-sei-quê se evola dela,
uma
trepidação que conspira sob a blusa amarela.
Já
quase arrumo o caderno, já vou quase em casa.
Portei-me
hoje bem, não ensaquei o grão-na-asa.
E
quando a minha me perguntar pelo dia,
minto-lhe,
feito cegueta, que só a ela vi quando escrevia.
DIVERTIMENTO (2)
Leiria, 15 de Setembro de 2013, domingo
Esvurmo,
mui voraz, à palitada
de
dente cavernoso uma bocada
de
carne que ali me apodrecia.
Sarro
e catarro arranco a puxões,
que
escarro depois sobre um relvado.
Que
feio e ruidoso, puxar o escarro
e
deixar o verde pano ov’estrelado!
A
minha santa Mãe, se isto me via,
ralhava,
pomba furiosa, pois não podia
que
o Menino fosse qual vil carroceiro,
p’ra
mais com universidade e do nome Abrunheiro.
Mas
nem sempre se é mota. Às, vezes só se é lambreta.
Sou
feliz assim, porcalhão, descuidoso.
Chego
a cuspinhar pelo mero gozo
de
imitar a fonte, a carranca, a sarjeta!
Ora
pois qu’inda bem. Hoje, não lavei ’inda os dentes.
E
pois então? Cariados, rachados, são sorridentes
à
mesma, quando disso é ocasião.
Esta,
uma dessas. Mas pelo que te escrevo não meças
(ou,
muito menos, me peças)
que
mude agora de condição.
Algumas
lostras chegam a ser formosas,
com
seu quê de ostras, de ovo, de rosas.
Daí
o parecer-me algo pacóvia
a
repugnância indistinta ante toda a escarróbia.
As
que prefiro são as de recheio como as empadas
–
folhosas, cristaladiças, suculentas e folhadas.
E
não direi muito pelo errar, não,
que,
afinal, todo o cuspir-pró-ar
acaba
caindo no chão
como
é da mais humana condição.
Sunday, September 15, 2013
Rosário Breve n.º 324 - in O RIBATEJO de 12 de Setembro de 2013 - www.oribatejo.pt
Utopia lamentosa
A minha utopia é a de um País cujos bombeiros só fossem
precisos para tirar da árvore o gato que a ela subiu para desespero da viúva que
tanto o mima.
Agosto ardeu já de ponta a ponta. Queimou combatentes que
precisavam só de ter juízo, de ficar em casa com a família, de deixar arder os
outros e o que é dos outros. Morreram uns tantos? Não faz, parece, mal: vamos
continuar a ter futebol distrital.
A minha isotopia é a de um Portugal que quisesse chamar-se
Mar-Pinhal. Uma longa horta de litorais 860 quilómetros. Um que plantasse
sardinhas e pescasse tomate. Um que não permitisse à hidra do capitalismo a
transformação de searas em campos de golfe. Um que, em vez de amestrar,
educasse quem nasce. E que cuidasse de quem, por culpa inocente dos muitos
anos, des-nasce sem amparo nem remédio.
Agosto é o nosso carnaval em chamas. Até aqui, era só um
mês parolo, uma jornada bailada em calão, uma temporada pimba, papalva, quase
inocente. Já não é só isso. Agora é também uma época mortífera. Parece uma
telenovela fatal, a que acresce a “fatalidade” intolerável do calendário.
A minha utopia portuguesa é a de erradicar de uma vez para
sempre o mês de Agosto. Baniríamos para sempre a crise, passando directamente
de Julho a Setembro. Pensando em profundidade, aliás, nem de Julho
precisaríamos. Ficávamos só com Junho, cujo Inventário
foi escrito por Teixeira Gomes, elegante e nosso esquecido Presidente da
República. Maio? Longe com ele: nasci num. Abril? Memória nenhuma e respeito
nenhum, meu capitão Salgueiro Maia. Março? Nem com bagaço. Fevereiro? Adeus,
atoleiro. Janeiro? Acabado, como o
professor que antologiava as lendas da Primária no tempo em que se lia nas
escolas. E nenhum Natal e nenhum Novembro por causa de tão infiel e tão defunto
e nenhum Outubro.
A minha utopia é a dos oito bombeiros, entre rapazes,
homens e raparigas, voltarem para casa a tempo de um País que nem de meses
precisasse para estar a tempo de si mesmo.
No entretanto, também a democracia para que fui educado
arde. Chega a ser desopilante, a anti-PIDE do tudo-à-mostra: a carcaça da
corrupção, o Cavaco nas Selvagens a fazer de Vasco da Gama, os fatos
Armani-Sócrates dos comentadores tipo Judite/Seara, a exuberante inteligência
do CR7 pelo menos naquilo da Irina. Mas os bombeiros, os bombeiros…
Prefiro o gato da viúva, gozão, em cima do choupo. Sei do
que falo: sou marido de bombeira, pelo que tive um mau mês. Muito mau. Mas para
o ano há mais, bem no sei.
Wednesday, September 11, 2013
Rosário Breve n.º 323 - in O RIBATEJO de 5 de Setembro de 2013 - www.oribatejo.pt
Os Trapos
Envelhecemos,
deveras e de vez, quando deixamos de praticar a eternidade. (A de cada dia,
digo, que não a outra, a de mentira das seitas autistas-evangélicas, essas
matilhas engravatadas que andam de Deus na boca como cães que não desmordem o osso.)
A eternidade é
aquilo que as crianças são de cor – e às cores. Certa idade madura existe que,
não desprovida de lucidez, logra até assomos de felicidade, consistindo esta
num ardil simples. É o ardil do alzheimer voluntário: esquecer a morte, deixando-a
dissipar-se como pretérito hélio de balão passado, inútil (e nociva até) para o
dia-a-dia.
Mas os velhos
existem – e nem todos o são pela idade. Todos os dias os vejo por esta galeria
que erigi em observatório mundial. Andam devagar, rasteirados pela exasperante
areia que (n)os não deixa fugir, essa areia de quando, nos sonhos, o pânico nos
congela o sangue. Parecem-me pombas golpeadas pelo falcão da irreversibilidade.
São de uma castidade involuntária. O mais alto acontecimento deles é respirar
ainda, ao alto de uma digestão de lâminas dispépticas. Casas que ameaçam
derrocada, não têm a quem abrir a janela do que viveram. Têm pena, e raiva até,
de que deles saibamos tão-só a história de irem morrer como se para nada mais
houvessem nascido e sido. Semelham, um a um, lojas de centro comercial que, uma
a uma, se liquidam as existências antes de, de vez e deveras, fecharem a porta
e dar a chave ao gato.
Volvem-se aquíferos
tártaros pelos mesmos poros por onde outrora jorraram salubridades chamadas filhos. Hibernam em pleno Verão, imunes
à estupidez malévola dos netos, que entretanto ascenderam ao púlpito das
freguesias, dos municípios, das secretarias de Estado e dos sobreiros trocados
por submarinos em vez de, ao menos, helicópteros para o bombeiral.
Os velhos são a
ominosa e luminosa evidência, por obscuro contraste, de que tudo arde. Não só,
como hoje, à inclemência de Setembro, a tarde – mas a própria vida, a vida
mesmo. Alienados, por deles e para eles feliz nesciência, das tropelias malsãs
do quotidiano, vegetam iodadamente numa espécie de algodão já surdo às
premências mais básicas: comer um morango entre risadas de champanhe, soletrar
sílaba a sílaba a carnação suculenta & suco & lenta de um ser que se
nos dispa, reler Cesário Verde sem segundo resgate da Troika – e não necessitar
ainda da perícia benevolente do doutor Vítor Martins do Hospital de Santarém,
que, por assim dizer, miniaturiza no coração a vontade pacemaker de viver, nem que seja só mais um bocadito.
(Explicação, em prol
e/ou prece da cumplicidade do meu leitor: dá-me sempre para isto, cada vez que
Setembro volta a fingir que é o mesmo Setembro de antigamente. “Para isto”: isto é: para,
verso/velho/a/velho/verso, reiterar a necessidade outonal do húmus, que é a
latência polar do Inverno, que sagra à Vivaldi e à Stravinsky a Primavera que
tudo, como tudo e como vereis, Verão será.)
Foi que, como esta
manhã, mal ainda se anilando a alva no alvor entrecortado do morse dos estores
e raspando-me eu a barba, o pequeno milagre da repetição quis ser mais novo do
que trapo: ao espelho, a barba era minha que se ia, mas vinha dos olhos o olhar
que foi, e há-de ser, o do meu Pai, esse trapo.
Friday, August 30, 2013
Rosário Breve n.º 322 - in O RIBATEJO de 29 de Agosto de 2013 - www.oribatejo.pt
Ficamos
a Ermelinda
Aqui na taberna da Ermelinda, o Chico
Júlio da oficina de bicicletas acha normal que a versão SG Lights do Salazar,
vulgo Passos Coelho, vocifere canivetes contra o Tribunal Constitucional em
calção-de-banho. Já o Manel-Zé das peças Volvo, a quem a respectiva São pôs os
cornos por distracção, acha normalíssimo que o Estado compre submarinos para
nada em vez de helicópteros para o bombeiral. Sempre categórico e raso como é
timbre dos idiotas sérios e sem leitura, o Serafim da Genoveva afiança a quem o
quer ouvir que o Jorge Jesus está no Sporting não tarda nada. E eu deixo
crescer barba, bigode & boina com estrelinha para ao menos fisicamente me
parecer com o poster do Che Guevara. Brandindo oleaginosamente a bela cabeça de
chicharro frito, o Artur Malacueco, que é reformado da Marinha desde os 42
anos, grunhe que “esta maltosa não quer é
trabalhar”. Definitivamente provisório, o Ibraim Chamiça, que foi quem fez
aquilo com a São ao Manel-Zé das peças da Volvo, entre outros, não acha nada
por causa de tanta gasosa espanhola no vinho-de-cozinha. O Serafim da Genoveva
continua a arengar com aquilo de Jesus em Alvalade etc. E eu deixo que as
barbas à Che se me encaneçam para ao menos fisicamente me parecer com o poster
do Karl Marx. Já o Arnaldo Melão, que tem essa alcunha por a mãe dele ter nascido
em Almeirim, jura a pés-juntos que o amarelo-opiáceo do seu indicador dextro se
deve à qualidade do ouro que indica, não à impenitência de fumador sem filtro
& com décadas. Em irónica maiêutica, o Toni Tira-Linhas alinha na socratização
blasfema do casamento gay entre ciganos, só que ninguém percebe o que ele quer
dizer, se é que quer. Entrementes, o Caló da Eduarda, que bebe água-das-pedras
porque uma vez viu um gajo na televisão a fazer isso, duvida “infectivamente” que “o Cavaco
tenha culpas no cartório como querem que ele tenha”. E eu de repente rapo
barba & cabelo para ser lustralmente glabro e inocente como o Duarte Lima. Ao
meio-dia & picos, a taberna da Ermelinda entristece um bocadito por causa
do pessoal ter a mania de ir almoçar à sogra. Ficamos a Ermelinda e eu.
Peço-lhe que ponha a televisão naquilo dos programas da vida selvagem só p’ra
não ter de assistir à múmia nervosa do Goucha a comover viúvas, mas ela diz que
não por causa de “ao menos a TVI ser a única a mostrar que o Tribunal Constitucional está ao serviço da
gráfica que faz um balúrdio com os posters do Che Guevara”. É então que eu
juro ser desta que deixo de fumar, muito menos SG Lights.
Thursday, August 08, 2013
Rosário Breve n.º 321 - in O RIBATEJO de 8 de Agosto de 2013 - www.oribatejo.pt
Lembrando Manuel
Dias
A vida não me deu muito tempo para deixar crescer a flor-do-sal
que era a minha amizade com um homem bom chamado Manuel Dias. Deu-se ele ao
trabalho de morrer sem aviso, aqui há umas temporadas. Era um exímio cultor da
Língua Portuguesa, que toda a vida foi o instrumento de trabalho dele.
Jornalista, escritor, exímio narrador oral de episódios da vida, graves uns,
hilariantes outros. Um destes últimos é o que me traz hoje a esta coluna.
Contou-me o Man’el que, de certa vez que um clube
português da bola se deslocou à Grécia para um desafio uefeiro, um muito
conhecido figurão dessa arte do coice e da cabeça que integrava a comitiva foi
a uma “casa-de-tia”, como se diz no
Norte. Era em Atenas. O referido figurão tinha consigo uma apreciável maquia,
como parece ser costume entre os futeboleiros a partir de determinado nível.
Acudindo-lhe ao faro venéreo certa senhora profissional circunstante, chamou o
empregado e perguntou-lhe quanto é que em dólares lhe ficaria o gasto pela
companhia e o doce usufruto da referida. O empregado foi e veio.
“ – Ela diz que são
cem dólares”,
informou.
O cliente nosso protagonista disse assim então ao rapaz:
“ – Diz-lhe que está
bem, mas avisa-a de que eu gosto de bater um bocadito!”
O empregado foi e veio.
“ – Ela quer saber
se o bocadito é muito ou pouco.”
E o figurão:
“ – Diz-lhe que é só
até ela largar os cem dólares.”
Como o nosso jornal vai parar duas semanas para o mais que
merecido descanso do pessoal, resolvi cronicar este episódio hílare em
alternativa às coisas algo macambúzias que aqui costumo plasmar. Mas desde já
aviso que há rabo mal escondido de gato irónico nesta minha prática. Por outras
palavras: vou ser mauzinho. Noutros termos: vou figurar bitaite azedo. De outros
modos: vou-me às canelas da Merkelzita local, aquela que mente que não mente.
A culpa é do meu saudoso Manuel Dias. Fosse ele vivo, que
a história ateniense acima exposta seria rebuçado narrativo de bem melhor
embrulho linguístico. Paciência, hei que ser eu a fazer-lhe as vezes. Ora, que
poderá ter Maria Luís Albuquerque que ver com a anedota helénica? Pelo lado
figurado (e, note-se, devidamente separadas as águas contextuais do prostíbulo
de luxo que deu cenário ao episódio pícaro e caricato dos cem dólares), tem
ela, não muito, mas tudo que ver.
Porque, tal como a mim, já várias vezes terá apetecido ao
meu Leitor bater na agora ministra. Mas, claro, não muito.
Só até ela largar os “swaps”.
Thursday, August 01, 2013
Então agora, já agora, o soneto desta tarde
SONETO DA FOTOGRAFIA
Leiria, 1/VIII/2013, quinta-feira
Para
Alfredo Muñoz de Oliveira,
José Freitas,
Tó Vieira
e
Helder Medina
O que a fotografia revela,
depois de revelada, não é
os vivos que ainda o são
ou os mortos quando o não eram.
Não. O que revela a
fotografia é a si mesma: tripé
egoísta que à vida
substitui e tantos veneram
sem no (na) perceber. Não
é (se calhar nunca foi)
a mera distância, em luz e
sombra medida,
que vai do olhar do
fotógrafo à realidade exibida.
É ela mesma e só ela
mesmo, coisa que dói,
pois, sobremaneira,
acentua a vanidade da vida.
Todos aparecemos em alguma
pelo menos;
connosco mesmos em ela e
por ela nos parecemos:
ilusão, como todas vã, que
o esquecimento olvidará.
–Olha o meu Pai! O meu Cão! O meu Avô!
– Não!
– diz Madame La Photo. – Não, eu é que sou.
Rosário Breve n.º 320 - in O RIBATEJO - www.oribatejo.pt
Fala o Pardal Oleiro
A idade é uma fábrica de paradoxos afinal simples. Com os
anos, (a)parecem cada vez mais recentes as coisas mais antigas, na exacta
proporção que inverte em menos frescos os episódios acabados de conhecer a luz.
O nosso senhor Magalhães de agora é o meu senhor Elói de
há quarenta anos: a idade deles é a mesma, mesmo é o copito de tinto à mesma
hora certa de cada dia incerto, mesmas as opiniões lacónicas e rezingonas de
ambos a propósito do que aconteceu àquele que tinha a sucateira no quintal dos
Lourenços.
À cristalaria da infância, opus (opus de opor, mas também
de obra), na soma irrefragável e
inconsútil de tantos entretantos, uma silveira de emaranhamentos: a primeira
gilete púbere contra a barba de ontem, por essas praias as ninfetas adolescentes
reiterando a universalidade das minhas Filhas – e a certeza concreta e
inabalável de cada Pardal ser Um, Uno e Único – isto é, Todos: como a Morte.
Não é que essa vã guarda chamada Actualidade se me escape,
toda de todo ou/ao menos. Não. É outra coisa, que esta é: as lembranças
ressoam-me cavas porque a memória me adquiriu uma tonalidade de cisterna. E é
dela que me sirvo para, ante as notícias que reportam o flagelo das guerras e
das rebeliões e das religiões e das manifestações silêncio-ciliciadas pelos
mastins-de-choque, reconhecer sem hesitação nem dúvida o abismo de diferença
que há entre os mortos que foram homens e os homens que foram mortos.
Pelo vestuário pingão e pelo olhar rórido com que por ruas
& praças & beira-rio vou manchando o papel do ar até que tudo seja o
mais filactério pergaminho – não me seria possível a evasão da condição de um
ser tocado à nascença pela vocação d’outono-inverno. Passado e Presente, com os
anos que os cozem até à mútua fusão, acabaram engendrando e expondo, para meu
consumo-da-casa e meu caso, a natureza siamesa da Bela e do Senão.
O que hoje foi amanhã, ontem viria a ser. Na estrumeira
política corrente, os pagantes são oleiros – e bandoleiros, os
(auto)governantes. Vale-me ser este o
Verão de 1970, vale-me repartir já então com as minhas Nascituras, no areal
ébrio de ouro à sombra da Bola Nívea, o balde, a pá, o moinho e os ciclistas a
dados.
Como aliás me vale também não ter chegado jamais a ser
aquele que, por caridade dos Lourenços, arranjou pátio onde montar a oficina
para acumular a irreparável sucata do Tempo, isso que só os Pardais é que.
Soneto desta manhã baseado em casos verídicos
SONETO POR COMPANHIA
Leiria,
1/VIII/2013, quinta-feira
(Em roda volante,
corpo-consciência/espaço-tempo.
Singrar sem sangrar,
suportar & comportar.
Inda que breve, renda a
vida mais que momento.
Estratégia avisada é
trabalhar.)
Dois homens desjejuam-se
em esplanada.
Café-com-leite-pão-com-manteiga.
Serenos parecem, conversam
serenos: nada
os demove em ira, à sombra
meiga.
Ao lado, a de mamas
grandes (minha vizinha),
vem de algum serviço: é,
diz-se, acompanhante.
Vende a própria companhia
àquela maltinha
que por si mesma, a não
tendo, assim obtém
dois dedos de conversa e
outros tantos de espumante.
Nunca a vi com filhos: faz aquilo mas não é mãe.
Nunca a vi com filhos: faz aquilo mas não é mãe.
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