Sunday, November 10, 2013

BAILE SOZINHO ou O INVERNO DE QUELUZ - 37 (10 de Maio de 2013)


37

Ib.
                                                                                                                                               

Começas criança mas ninguém te diz onde é o cinema.
Acabas percebendo a lata das bolachas, o ter de não estar vazia.
Percebes que a canção é mais do que um poema.
E chega a noite de ontem ao amanhã do dia.
Como cucos, os velhos são relojoeiros.
E nós, ex-crianças, disparamos morteiros.

Começa-se sempre pela louça, água-corrente nem sempre.
Mas há um horror ao lixo, que a limpeza é diferente.
É o mesmo que em pobreza a gente ser gente.
E as vagens-verduras sustentam a Mãe que morrer vai,
sei lá eu se é pecado ser nado ou nada ou d’onde-meu-Pai.
Dez de Maio, duplo-mil-&-treze, entretanto sai

o Sol inclemente, que com a Lua troca, indif’rença p’la gente.
Pela Arregaça antiga, que de Coimbra orla uma sandes paga,
a Matilde de há pouco (a louca dos meus versos) s’apaga,
de coxas varizmarmóreas, ante um viúvo desejoso,
uma ejaculação d’aguadilha, cuja emissão é o gozo
de um homem que não vou ser.

Amanhã, a manhã há-de ser de amanhecer.
O meu mais velho cruza morenamente a infância terminal.
Mandaram-no longe matar pretos em nome de Cristo-Portugal.
Tenho pena da Matilde, Gracita, aproveitam-se dela.
Já fez 60 anos, mas é branca de lírio. A beijar, é amarela.
Acontece exactament’agora. Escrevo bem. Acho mal.

Thursday, November 07, 2013

Rosário Breve n.º 332 - in O RIBATEJO de 7 de Novembro de 2013 - www.oribatejo.pt



Da solidária solidão

Há um ano e um século, a White Star Line, companhia proprietária do Titanic, enviou às famílias dos músicos da orquestra da fatídica viagem, também eles engolidos pelo abissal mar gelado, as facturas dos respectivos uniformes: afinal, a roupa pertencia à companhia de navegação, não a eles – e eles tinham cometido a gravosa imprudência de se afogarem sem se despir antes do que não era deles. (Isto não é patranha: é um histérico facto histórico.)
Cento e um ano depois, o Capitalismo “neoliberal”, essa besta autofágica e indutora do suicídio das nações que se não chamem EUA ou Alemanha ou China, segue à risca, à letra e a grosso a selvajaria da White Star Line acima descrita. O Capitalismo “neoliberal” é a Grande Hidra Cega. O Capitalismo “neoliberal” é a Nossa Mãe ao Contrário. O Capitalismo “neoliberal” é o ouro valer merda riscada a sangue. Vive de músicos afogados e de famílias desfeitas. Alimenta-se de podridões. E serve-se de lacaios acéfalos e invertebrados como esta cambada de cachopos que nos entretemos a eleger de quatro em quatro anos.
Vale que, um ano depois do Titanic, mais precisamente a 7 de Novembro de 1913, nasceu Albert Camus. Figura gigante, colosso ímpar da literatura do século XX, deixou obra sem cotejo possível. Muito superior à vedeta zarolha chamada Sartre, primou sempre pela solitária discrição. Morreu demasiado cedo, aos 47 anos, terminado por um desastre de viação automóvel.
Mas legou-nos A Peste, O Estrangeiro, O Mito de Sísifo e O Homem Revoltado, entre outros marcos descomunais das boas-letras.
Foi dos Nobel da Literatura mais justamente reconhecidos de que hei memória. E determinou para sempre uma distinção ética que outro gigante da literatura, também ele nobelizado, Gabriel García Márquez, adoptou como epigráfica divisa: que o ser solidário é o absoluto contrário do ser solitário.
Mas lá no fundo, o mesmo fundo em que jaz o Titanic, Camus mais não terá feito do que dizer à White Star Line, aos EUA, à Alemanha e à China que, de uma vez por todas, cresçam e desapareçam.

Saturday, November 02, 2013

Duas crónicas para O RIBATEJO - n.ºs 331 e 330 da série ROSÁRIO BREVE - de 31 e 24 de Outubro de 2013, respectivamente

Acabar com o parque-de-merendas

Estar pobre e ser miserável são dois mundos antagónicos mas coevos no comum mundo tristonho nosso. O pobre – acha-se sempre provisório. O miserável – sabe-se para sempre definitivo. É por isso que a pobreza usa certos ouros só dela. E é por isso que a riqueza excessiva é sempre miserável. Aliás: como é que, fundamentada na multitudinária miséria alheia, uma fortuna colossal poderia alguma vez deixar de ser mais miserável ainda do que o húmus humano em que farpeia raízes? Não poderia. Nem pode. Nem jamais há-de poder. É ver o caso de Angola. É ver o nosso caso.
Qualquer nababo da Banca me parece sempre a lustral versão pós-sauna do chulo navalhista (no tempo do Eça, um faia) de cachucho no mindinho escarafunchando com a unhaca respectiva a cera do orelhame. Qualquer sanguessuga vitalícia do Estado me obriga a ver em sua figura a mesma do tarado perpétuo e impune que, à mesa do Café como na cadeira da sala-de-espera do posto médico, mirona lúbrica e sorrelfamente o seio da mãe que amamenta seu petiz em candura.
Disse-Vos ainda, acima, que, ainda assim, a pobreza usa certos ouros só dela. Disse-Vo-lo bem. Nenhuma nota de cem no bolso vale, como ali em cima (como agora mesmo) no céu de um azul-ferrete que o Sol estende em ampla colcha de seda, a castelar nuvem toda neve, de um branco que evoca a nata bem batida. Nenhum maço das de vinte enroladas em cartão à feirante vale para mim o que vale a parlapiação dos homens quando no barbeiro, ocasião em que essa espécie de mulherio masculino, mui geriátrica e pausadamente, estabelece cartilhas morais à la Jornal de Notícias. Nem nenhuma ceia no Tavares Rico puxa mais salivação pré-palatal do que as tábuas de parque-de-merendas, sobre que os pobres estendem o afinal linho, a cambraia afinal, da toalha de algodão aos quadrados grossos encarnados e brancos para que rescendam a divino a capitosa sopa-da-pedra que fumega, o bacalhau enroupado de cebola e ungido de azeite que crepita, o honesto pudim-de-pão que confirma a pançada saloia e a taçada simples de nêsperas frescas que a água da fonte quase vitrificou.
Temo todavia que a Troik’ASAE venha ainda a proibir, ó mein führer!, a garfada da mesma vasilha de pimento assado às tiras. Isto numa primeira fase. Na segunda, que se proíba até a reunião pura e simples de mais três pobres, assim exterminando para sempre a lamentação fadista e o jogo-da-sueca. O dominó há-de porém resistir, quero-o bem crer.
Era oxioma litúrgico-salazarista que “quem dá aos pobres, empresta a Deus”. Sabemos hoje que só o contraponto a esta (i)moralidadezinha de sacristia espuriamente caritária é que é verdadeiro: quem rouba aos pobres, é sócio do Diabo.
Ou então é como, num instantinho, irmos ali a Angola sem precisarmos de sair daqui.

*
**

Uma maneira de dizer

Julgo de razoável precisão certa memória minha, eu teria o quê?, os meus cinco anos. Foi no Largo da Portagem, Coimbra, terra inicial minha. O céu desse dia era (como) este de hoje sob que Vos escrevo: um cartão-de-caixa-de-sapatos, uma folha-de-Flandres aluminiosa, glauca, catarata-de-olho. Não sei já se Mãe ou Pai me acompanhavam então, como ainda hoje, defuntos ambos embora, o fazem. Olhei esse céu de Coimbra, mirei esse rio que dá fados como dá quelhas arbustivas – e pensei assim: E se nada existisse?
Nada. Nem céu, nem rio. Nem cidade, nem ser de Pai ou Mãe. Nem pobreza, nem bicicletas. Nem violência doméstica, nem abandono de animais (ou de filhos). Nem polícia, nem recifes. E nem sequer Deus a precisar tanto do Diabo. E se nada, o Grande Nada?
Curto filósofo de um metro, a auto-pergunta inquietou-me o resto da vida. Até hoje. Hoje, sento-me neste café a fazer duas colunas de prosa para um jornal decente feito por gente decente para um leitorado decente. Sou o gajo do blusão verde, duas mesas atrás dessa gente toda. Folheio as conversas alheias em digitação: é como se paginasse o papel oral dos meus Portugueses. Digo: a gorda de blusa roxa e unhas lacradas a carmim que comenta a Casa dos Segredos; a de cabeleira amarelo-açafrão cujas mamas exsudam o soro do leite amamentador à boca do pequenito de dois meses; o capataz de ar sueco que aloira os cilícios dando ordens; e a sombra da minha mão direita fazendo-se tinta num papel a que nem sempre sei responder. Como aliás não soube, dessa talvez-manhã de talvez-1969, responder ao Big-Brother:
E se nada fosse, existisse ou houvesse?
Domingo passado, 20 do corrente, fui ver-ouvir um concerto-encontro de bandas filarmónicas. De uma, a minha Primeira-Filha era a linha-da-frente. As respostas acabam sempre vindo, percebo-o já bem enquanto, por encanto, escrevo:
– Tudo há no que é.
Tranquilo finalmente, não tenho cinco anos já.
Tenho menos.
Um dia morro, um dia nasço – baralha & torna a dar. E o rio sob o céu: página a página.
Até hoje.


Saturday, October 19, 2013

Rosário Breve n.º 329 - in O RIBATEJO de 17 de Outubro de 2013 - www.oribatejo.pt


De ferreiro mau, só espeto de pau

Davam as cinco da tarde na passada segunda-feira, 14 do corrente, quando os secretários de justiça notificaram, por todo o País, os escrivães de direito das secções judiciais, informando-os de que, afinal, os funcionários judiciais sempre podiam sair do trabalho às 17 horas. Mas atenção – desde que sindicalizados. Os outros, não. Os outros tinham (e tiveram) de ficar até às 18h00m. O episódio, rocambolesco, histriónico e bufo à maneira das mais velhacas e mais tragifarsantes operetas, só pode ter feito rir na campa, e à gargalhada, o velho George Orwell. Sim, o mesmo Orwell que, em O Triunfo dos Porcos (Animal Farm, no original), já tudo dissera quando estabeleceu que “todos os animais são iguais, mas alguns são mais iguais do que outros.”
A anedota triste (mais uma) tem história e tem cronograma. A saber:

1. A 2 de Agosto último, sai a Lei n.º 68/2013. Nela se “estabelece a duração do período de trabalho dos trabalhadores em funções públicas”. Novidade: aumento da carga horária, ordem de passar a sair só às 18h00m, em vez de às 17. A entrar em vigor no dia 28 do seguinte Setembro.
2. O Sindicato dos Funcionários Judiciais interpõe providência cautelar de suspensão de eficácia a 30 de Setembro.
3. A Direcção-Geral da Administração da Justiça (DGAJ) insiste na “obrigatoriedade do cumprimento imediato da Lei 68/2013, de 29 de Agosto”.
4. 11 de Outubro : o Tribunal Administrativo do Círculo de Lisboa (TACL) vê pertinência na providência cautelar interposta, dando-lhe razão e provimento.
5. A DGAJ ordena então o exposto no início desta crónica.

O episódio é deveras velhaco, bufo, histriónico e rocambolesco. E poderia não sê-lo, caso a DGAJ soubesse ler decisões. A decisão do TACL dá razão a TODOS os funcionários judiciais, sindicalizados OU não. E mais: a decisão do TACL até ensina aos mandadores do sistema que, para obrigar TODOS os funcionais judiciais, sindicalizados OU não, a trabalhar mais horas pelo mesmo dinheiro (ou por menos, como se tem visto de mês para mês), há que alterar uma coisa chamada LOFTJ, id est: a Lei de Organização e Funcionamento dos Tribunais Judiciais, que consagra, entre outras minúcias, o Estatuto Próprio de Carreira dos Trabalhadores Judiciais, esses inimigos do Estado em geral e deste desGoverno em particular.
Querem mais uma hora de borla, querem? Não pode ser, olha a LOFTJ. Mas é claro como água turva que, se agora não se pode, depressa se vai poder – e com h depois do p: é que, a 26 de Agosto último, três dias apenas portanto da tal Lei 68/2013, saiu a Lei 62/2013, que visa a organização (ou, digo eu, requalificação, ou degradação, ou destruição) do sistema judicial. Esta marosca-de-rabo-de-fora traz no bico a alteração do tal Estatuto Próprio de Carreira dos Trabalhadores Judiciais (TODOS, p’s ’tá claro). Alterado este, vai de hora diária suplementar e nada de refilar, qu’isto já não são 25-d’abris.
Li os documentos que acima vos crono-enumerei. São orwellianos. Informam e enformam (e enfermam) a desengraçada realidade triste dos tristes dias sem graça que vivemos penando, sem culpa formada embora. A decisão do TACL, porém, é de despachada (e despachante) clareza. E de minuciosa pedagogia seria até, no caso improbabilíssimo de os desmandadores ministeriais preferirem, a escrever por linhas tortas, saber ler (a) direito.
Em casa de ferreiro, espeto de pau – quando os próprios desmandadores da tutela não sabem a quantas andam (sabendo embora para onde querem ir, os maganos), mau-Maria. Curial seria que a cúpula da Justiça soubesse na ponta da língua a tal LOFTJ, por mero mas não despiciendo exemplo, mui especial e nomeadamente no que consta dos artigos 122.º, aprovado pela Lei 3/99, de 13 de Janeiro, e 152.º, aprovado pela Lei n.º 52/2008, de 28 de Agosto. Por aí veriam qual é, por lei e por direito, o horário de trabalho dos Funcionários de Justiça. Mas não sabe. Ou não quer saber.
O mínimo que destas caricaturas processuais o Público (tu e eu, Leitor/a) pode concluir, não há que nem como negá-lo, é que nem o ferro é de pau, nem o ferreiro percebe de espetos.
(Nisto, ouve-se de novo o Orwell a rir-se na tumba: mas, para aliás não grande admiração geral, a gargalhada dele tem o timbre vocálico do, valha-me Deus!, Marinho Pinto.)

Saturday, October 12, 2013

Rosário Breve n.º 328 - in O RIBATEJO de 10 de Outubro de 2013


Uma anedota itálica com mulher distante só p’ra disfarçar

Que o senhor Ricardo Araújo Pereira seja melhor contador de anedotas (e melhor cronista também, já agora) do que eu – não é nem de espantar nem de grande pólvora descoberta agora. Mas que um senhor Rui Machete o seja, isso já, a mim me ata dois nós: um na garganta e outro, mais a sul, nas tripas. Nunca tive especial apetência erótica por virgens, muito menos das ofendidas, como me parece quer um senhor Rui Machete (a)parecer(-se). “Inexactidão factual” não é, de facto, exacto. É só mentira. É como dizer “inverdade”. Ou, tratando-se de pessoa fisicamente cega, chamar-lhe “invisual”- porque “invisual” é o que se não vê, invisível portanto, e não quem não vê.
Destes preciosismos retóricos inventados por bezerros-de-lata chamados Assessores vive a (in)comunicação (as)social dos nossos tristes dias de tão-mau-tempo-no-canal. Eu até era para perder mais do meu e do vosso tempo com isto, mas não ceder vou à tentação. É que, pela galeria onde assentadamente dou escrivão assento a esta crónica hebdomadária, vai passando um monumento respiratório, todo carne e todo luz-de-olhos. É uma senhora. Vive e trabalha aqui perto do Café onde diariamente inscrevo o bolor do meu ócio. Permiti-me Vós que vo-la diga:
Olhar adjudicado a orçamento de veludos nacionais, tem, por pestanas, aranhas movediças. O rosto vale por maçã arrebatada, daquela golden que se faz camoesa. Ivóreos dentes afloram o carmim do lábio quase grosso. Queixo ergonómico tamanho concha-da-minha-mão. Pescoço que se alabastra em nervura tensa. Pele global de tensa elasticidade, que dá ganas de morrer tactilmente e de olhos abertos para não perder um segundo de filme. Peito que vos não digo. A sul do diafragma, todo um ventre valendo o postal de todo um estuário azul. Coxas de colunar templos gregos, dentre os que ela um deles. Rótulas de madrepérola por joelhos que a breve saia roça de comichões de chita. Artelhos de mínima protuberância: como soluços ósseos de mais espuma que osso. E pés de uma ascendência de asas ícaras: por mais de cera que de palmípede.
Já uma vez lhe franqueei a conduta salva da divisória de vidro do Café da Rita.
Pestanejou-me o óbolo do cavalheirismo.
Fui fulminadamente feliz no instante mesmo, de onde me resultou evitar a felicidade alienígena à hora a que a minha senhora esposa volta do trabalho cansada de tanto-cabrão-no-governo-e-fora-dele.
Não, não cronicarei, à falta de ser sequer meio Ricardo Araújo Pereira, sobre um senhor Rui Machete, cujo rosto, aqui há muitos anos (sei-o de cor, juro que sim) o Expresso descrevia como “suave e civilizado”.
É figura que me parece elfo já nascido com óculos, como o Harry Potter, à maneira dos gatos, ou dos ratos, mais fedorentos.

E, anedota por anedota, inverdade por mentira, semblante que só merece que eu, por senhor o tratando, o faça sempre em cursivo itálico.

Thursday, October 03, 2013

Rosário Breve n-º 327 - in O RIBATEJO de 3 de Outubro de 2013 - www.oribatejo.pt

Cartão-de-eleitor do papa-bivalves

De quando em vez, os bivalves tornam-se objecto de apanha proibida. A interdição sanitária visa precaver o consumidor de incómodos mui nocivos, como sejam, e são, a intoxicação diarreica e a amnésia. A estas duas mazelas de mau convívio, eu ousaria, e ouso, adir a patologia social da sintonização televisiva na TVI e a famigerada abstenção eleitoral, por fundamentarem ambas, a meu ver, a nem sempre compreendida mas crucial distinção entre o praticar o mau-olhado e o ficar mal-visto. Já da supracitada paridade diarreia/amnésia, não me inibirei, escarninhamente, de, atentos os resultados eleitorais, relevar a peregrina simetria moitaflorista de, se de facto o senhor Ricardo Gonçalves “não tem cabeça para a herança de Moita Flores”, também o senhor Moita Flores, pelos vistos e pelos votos, não ter unhas para a viola da herança de Isaltino. Sequer. Acaba por ser triste, aliás: conta mais um responsável preso do que um irresponsável em liberdade.
(Nota: com a relesia das minhas crónicas de última página e penúltimo bom-senso, mais não pretendo do que subsidiar o historiador do futuro que se não arreceie de emporcalhar as mãos na gamela da sociometria política à portuguesa de princípios de terceiro milénio. Quem deveras não tem cabeça para urdume de tão monumental desconcerto c’est moi, como Flaubert dizia que era a Madame Bovary. Ou aquela Loulou do perfume da Cacharel.)
Do maralhal cómico que bota bitaite comentador nas capoeiras de néon, vulgo estações televisivas, não houve muito exemplar que relevasse o verdadeiro vencedor das Autárquicas/2013: a Abstenção. No formoso trecho de mundo chamado Ribatejo, ela campeou lezírias e galgou valas, malogradamente revestida, como sempre e por todo o lado, das não diáfanas gazes da indiferença, da resignação, da desistência, da não-resistência e da auto-interdição comum à dos bivalves de quando em vez.
Isto que digo nem sequer é discutível, posto que inequívoca verdade de Abrantes a Ourém, de Alcanena a Vila Nova da Barquinha, de Almeirim a Torres Novas, de Alpiarça a Tomar, de Benavente ao Sardoal, do Cartaxo a Santarém, da Chamusca a Salvaterra de Magos, de Constância a Rio Maior, de Coruche a Mação e do Entroncamento à Golegã, passando por Ferreira do Zêzere. E o mesmo vale dizer dos restantes 287 municípios do território pátrio.
Tenho por definitivo que o abstencionista é bivalve. E do estragado, não desse que, fresco como um limão de sal, acorda o mar no palato em cúpida antemão de uma rajada gélida de cerveja e/ou de uma explosão glacial de verdasco gaseado. Somos deveras um País tão lerdo, que ao cabo de meio século de ditadura vamos já cumprindo, como quem enferma de um mal que desconhece ou à guisa de quem pena de um anátema que se calhar merece, quase outra meia centúria de tiranete “democracia”.
(Nota pessoal e final: posso parecer-vos indignado. Não estou. Isto já só me faz bocejar larga, aberta e profundamente, em nojosa exposição da mui cariada arcada dentária minha. Sim, este Povo leva-me ao bocejo, à quase misericórdia quase cristã. E à saudade do senhor Bulhão Pato, que sabia mais de como se faz a amêijoa do que esta minha gente há-de saber de como fazer, de si mesma, País. E que nem sabe que diarreia e amnésia, em alegada Democracia, são uma única e mesma coisa.)

Sunday, September 29, 2013

Rosário Breve n.º 326 - in O RIBATEJO de 26 de Setembro de 2013 - www.oribatejo.pt

Crónica para ler ao altifalante

1. São estes os últimos dias da campanha para as Autárquicas/2013. Por todo o País, viaturas entestadas de altifalantes rastreiam por becos, vielas, travessas, ruas, avenidas e praças o ladrar roufenho da propaganda. É som que me melancoliza: lembra-me sempre, por irrecusável e irredimível homofonia, a presença antecipada dos circos. E pior: traz-me dos antigamentes a camioneta dos sorteios dos cegos por cercanias do Natal. Ou, das feiras, o casal de microfone enrolado em peúga a vender colchões milagrosos a velhinhos de arruinadas ortopedias e enxovais mijados a noivas já prenhes.
Tenho já idade a suficiente, todavia, para que a minha propensão merencória se não alcandore a critério de aferição. Este vozear a pilhas altífonas & megafónicas do vota-neste-vota-naquele é, afinal, quanta música a democracia local sabe cantar. Mas antes essa cantiga, afinal e deveras, do que o silêncio sepulcral das nomeações a dedo do tempo do Morcego Eunuco, vulgo Salazar.
Que eu não tenha expectativas, é moléstia pessoal só. É só enfado incréu meu. Agora que o País as não tenha, aí já fia mais grosso. Casos há e autarquias há em que um mínimo de bondade prática é exercido nos ínfimos meandros da quotidianidade. São excepções, todos o sabemos – mas a regra é ir a votos sempre, posto que muita e muito boa gente sofreu em combate as sevícias da ditadura para que os vindouros (que nós somos) pudessem errar à livre vontade sua no boletim democrático.
Eu sei, eu sei: “eles” não vão para lá para nos servirem mas para se servirem. Nem todos, porém. Conheço casos de gente eleita cujas clara honestidade e competência irredimível são irrecusáveis. Trata-se, no fundo, de sabermos, como eleitores, identificar os gatos e os ratos, votando no cão. No lobo, não.


2. Até lá (dia 29 do corrente), não nos doa a cabeça nem nos apodreça o dente. Ao morredouro quotidiano do tostão, saibamos opor o lingote do bom sol português, que o Outono já oficial ainda não soube, ou não quis, desveranizar. Foi o que fiz no sábado, 21. A minha mais nova quis ir ver a primita, neta da minha irmã. Través a fornalha reverberante da tarde, soubemos merecer, na casa que foi de nosso Pai quando infante, a frescura das grossas paredes de uma alvenaria mais antiga do que a morte dele. Houve refresco de café lambido a limão em gelo. A minha sobrinhita-neta, que se chama Margarida, não estava – mas a minha Teresa não esmoreceu por causa disso. A minha irmã (que é Lucília, cuja etimologia é luz por a razão óbvia do que ela é em pessoa) foi buscar os álbuns das fotografias familiares. E então a Teresa folheou o Pai dela quando mais novo do que ela – e quando os cães altifalantes das eleições, que então nem havia, não altiladravam por becos, vielas, travessas, ruas, avenidas e praças a local e nacional e patriótica democracia.

Monday, September 16, 2013

DOIS DIVERTIMENTOS (linguagem e assuntos um bocadinho pesadotes)

DIVERTIMENTO (1)

Leiria, 13 de Setembro de 2013, sexta-feira

Como altos frutos de seiva alta crescem
e passam pela galeria as mulheres alheias.
Todas, sem excepção quase, me merecem
as felicitações mais altaneiras.

Olhai-me esta morena: parece um lírio bronzeado.
É desconfiadita: mamalhuda, olha de lado
o poeta inocentíssimo que a soletra, o vil.
Em cada pernaça rija tem quilómetros mais de mil.

Fincai-me esta loura à força como é de moda:
já aquele coirão (perdão!) mereceu muita foda,
que no derramar do leite está o choro ganho.
Fica-lhe bem a popelina fresca na pele saída do banho.

Estas duas, siamesas, amorangam framboesas.
As bocas são de uma carnação acerejada
que apetece lamber com chantilly – ou então com nada.
Que passinhos voadores! Que sandalinhas princesas!

Passa por fim a feia forte não desprovida de encanto.
Farfalhuda de barrigola, é de marido que gosta de bola.
Mas um não-sei-quê se evola dela,
uma trepidação que conspira sob a blusa amarela.

Já quase arrumo o caderno, já vou quase em casa.
Portei-me hoje bem, não ensaquei o grão-na-asa.
E quando a minha me perguntar pelo dia,
minto-lhe, feito cegueta, que só a ela vi quando escrevia.



DIVERTIMENTO (2)

Leiria, 15 de Setembro de 2013, domingo

Esvurmo, mui voraz, à palitada
de dente cavernoso uma bocada
de carne que ali me apodrecia.

Sarro e catarro arranco a puxões,
que escarro depois sobre um relvado.
Que feio e ruidoso, puxar o escarro

e deixar o verde pano ov’estrelado!
A minha santa Mãe, se isto me via,
ralhava, pomba furiosa, pois não podia

que o Menino fosse qual vil carroceiro,
p’ra mais com universidade e do nome Abrunheiro.
Mas nem sempre se é mota. Às, vezes só se é lambreta.

Sou feliz assim, porcalhão, descuidoso.
Chego a cuspinhar pelo mero gozo
de imitar a fonte, a carranca, a sarjeta!

Ora pois qu’inda bem. Hoje, não lavei ’inda os dentes.
E pois então? Cariados, rachados, são sorridentes
à mesma, quando disso é ocasião.

Esta, uma dessas. Mas pelo que te escrevo não meças
(ou, muito menos, me peças)
que mude agora de condição.

Algumas lostras chegam a ser formosas,
com seu quê de ostras, de ovo, de rosas.
Daí o parecer-me algo pacóvia

a repugnância indistinta ante toda a escarróbia.
As que prefiro são as de recheio como as empadas
– folhosas, cristaladiças, suculentas e folhadas.

E não direi muito pelo errar, não,
que, afinal, todo o cuspir-pró-ar
acaba caindo no chão

como é da mais humana condição.


Sunday, September 15, 2013

Rosário Breve n.º 324 - in O RIBATEJO de 12 de Setembro de 2013 - www.oribatejo.pt

Utopia lamentosa

A minha utopia é a de um País cujos bombeiros só fossem precisos para tirar da árvore o gato que a ela subiu para desespero da viúva que tanto o mima.
Agosto ardeu já de ponta a ponta. Queimou combatentes que precisavam só de ter juízo, de ficar em casa com a família, de deixar arder os outros e o que é dos outros. Morreram uns tantos? Não faz, parece, mal: vamos continuar a ter futebol distrital.
A minha isotopia é a de um Portugal que quisesse chamar-se Mar-Pinhal. Uma longa horta de litorais 860 quilómetros. Um que plantasse sardinhas e pescasse tomate. Um que não permitisse à hidra do capitalismo a transformação de searas em campos de golfe. Um que, em vez de amestrar, educasse quem nasce. E que cuidasse de quem, por culpa inocente dos muitos anos, des-nasce sem amparo nem remédio.
Agosto é o nosso carnaval em chamas. Até aqui, era só um mês parolo, uma jornada bailada em calão, uma temporada pimba, papalva, quase inocente. Já não é só isso. Agora é também uma época mortífera. Parece uma telenovela fatal, a que acresce a “fatalidade” intolerável do calendário.
A minha utopia portuguesa é a de erradicar de uma vez para sempre o mês de Agosto. Baniríamos para sempre a crise, passando directamente de Julho a Setembro. Pensando em profundidade, aliás, nem de Julho precisaríamos. Ficávamos só com Junho, cujo Inventário foi escrito por Teixeira Gomes, elegante e nosso esquecido Presidente da República. Maio? Longe com ele: nasci num. Abril? Memória nenhuma e respeito nenhum, meu capitão Salgueiro Maia. Março? Nem com bagaço. Fevereiro? Adeus, atoleiro. Janeiro? Acabado, como o professor que antologiava as lendas da Primária no tempo em que se lia nas escolas. E nenhum Natal e nenhum Novembro por causa de tão infiel e tão defunto e nenhum Outubro.
A minha utopia é a dos oito bombeiros, entre rapazes, homens e raparigas, voltarem para casa a tempo de um País que nem de meses precisasse para estar a tempo de si mesmo.
No entretanto, também a democracia para que fui educado arde. Chega a ser desopilante, a anti-PIDE do tudo-à-mostra: a carcaça da corrupção, o Cavaco nas Selvagens a fazer de Vasco da Gama, os fatos Armani-Sócrates dos comentadores tipo Judite/Seara, a exuberante inteligência do CR7 pelo menos naquilo da Irina. Mas os bombeiros, os bombeiros…
Prefiro o gato da viúva, gozão, em cima do choupo. Sei do que falo: sou marido de bombeira, pelo que tive um mau mês. Muito mau. Mas para o ano há mais, bem no sei.


Wednesday, September 11, 2013

Rosário Breve n.º 323 - in O RIBATEJO de 5 de Setembro de 2013 - www.oribatejo.pt

Os Trapos

Envelhecemos, deveras e de vez, quando deixamos de praticar a eternidade. (A de cada dia, digo, que não a outra, a de mentira das seitas autistas-evangélicas, essas matilhas engravatadas que andam de Deus na boca como cães que não desmordem o osso.)
A eternidade é aquilo que as crianças são de cor – e às cores. Certa idade madura existe que, não desprovida de lucidez, logra até assomos de felicidade, consistindo esta num ardil simples. É o ardil do alzheimer voluntário: esquecer a morte, deixando-a dissipar-se como pretérito hélio de balão passado, inútil (e nociva até) para o dia-a-dia.
Mas os velhos existem – e nem todos o são pela idade. Todos os dias os vejo por esta galeria que erigi em observatório mundial. Andam devagar, rasteirados pela exasperante areia que (n)os não deixa fugir, essa areia de quando, nos sonhos, o pânico nos congela o sangue. Parecem-me pombas golpeadas pelo falcão da irreversibilidade. São de uma castidade involuntária. O mais alto acontecimento deles é respirar ainda, ao alto de uma digestão de lâminas dispépticas. Casas que ameaçam derrocada, não têm a quem abrir a janela do que viveram. Têm pena, e raiva até, de que deles saibamos tão-só a história de irem morrer como se para nada mais houvessem nascido e sido. Semelham, um a um, lojas de centro comercial que, uma a uma, se liquidam as existências antes de, de vez e deveras, fecharem a porta e dar a chave ao gato.
Volvem-se aquíferos tártaros pelos mesmos poros por onde outrora jorraram salubridades chamadas filhos. Hibernam em pleno Verão, imunes à estupidez malévola dos netos, que entretanto ascenderam ao púlpito das freguesias, dos municípios, das secretarias de Estado e dos sobreiros trocados por submarinos em vez de, ao menos, helicópteros para o bombeiral.
Os velhos são a ominosa e luminosa evidência, por obscuro contraste, de que tudo arde. Não só, como hoje, à inclemência de Setembro, a tarde – mas a própria vida, a vida mesmo. Alienados, por deles e para eles feliz nesciência, das tropelias malsãs do quotidiano, vegetam iodadamente numa espécie de algodão já surdo às premências mais básicas: comer um morango entre risadas de champanhe, soletrar sílaba a sílaba a carnação suculenta & suco & lenta de um ser que se nos dispa, reler Cesário Verde sem segundo resgate da Troika – e não necessitar ainda da perícia benevolente do doutor Vítor Martins do Hospital de Santarém, que, por assim dizer, miniaturiza no coração a vontade pacemaker de viver, nem que seja só mais um bocadito.
(Explicação, em prol e/ou prece da cumplicidade do meu leitor: dá-me sempre para isto, cada vez que Setembro volta a fingir que é o mesmo Setembro de antigamente. “Para isto”: isto é: para, verso/velho/a/velho/verso, reiterar a necessidade outonal do húmus, que é a latência polar do Inverno, que sagra à Vivaldi e à Stravinsky a Primavera que tudo, como tudo e como vereis, Verão será.)
Foi que, como esta manhã, mal ainda se anilando a alva no alvor entrecortado do morse dos estores e raspando-me eu a barba, o pequeno milagre da repetição quis ser mais novo do que trapo: ao espelho, a barba era minha que se ia, mas vinha dos olhos o olhar que foi, e há-de ser, o do meu Pai, esse trapo.



Friday, August 30, 2013

Rosário Breve n.º 322 - in O RIBATEJO de 29 de Agosto de 2013 - www.oribatejo.pt

Ficamos a Ermelinda

Aqui na taberna da Ermelinda, o Chico Júlio da oficina de bicicletas acha normal que a versão SG Lights do Salazar, vulgo Passos Coelho, vocifere canivetes contra o Tribunal Constitucional em calção-de-banho. Já o Manel-Zé das peças Volvo, a quem a respectiva São pôs os cornos por distracção, acha normalíssimo que o Estado compre submarinos para nada em vez de helicópteros para o bombeiral. Sempre categórico e raso como é timbre dos idiotas sérios e sem leitura, o Serafim da Genoveva afiança a quem o quer ouvir que o Jorge Jesus está no Sporting não tarda nada. E eu deixo crescer barba, bigode & boina com estrelinha para ao menos fisicamente me parecer com o poster do Che Guevara. Brandindo oleaginosamente a bela cabeça de chicharro frito, o Artur Malacueco, que é reformado da Marinha desde os 42 anos, grunhe que “esta maltosa não quer é trabalhar”. Definitivamente provisório, o Ibraim Chamiça, que foi quem fez aquilo com a São ao Manel-Zé das peças da Volvo, entre outros, não acha nada por causa de tanta gasosa espanhola no vinho-de-cozinha. O Serafim da Genoveva continua a arengar com aquilo de Jesus em Alvalade etc. E eu deixo que as barbas à Che se me encaneçam para ao menos fisicamente me parecer com o poster do Karl Marx. Já o Arnaldo Melão, que tem essa alcunha por a mãe dele ter nascido em Almeirim, jura a pés-juntos que o amarelo-opiáceo do seu indicador dextro se deve à qualidade do ouro que indica, não à impenitência de fumador sem filtro & com décadas. Em irónica maiêutica, o Toni Tira-Linhas alinha na socratização blasfema do casamento gay entre ciganos, só que ninguém percebe o que ele quer dizer, se é que quer. Entrementes, o Caló da Eduarda, que bebe água-das-pedras porque uma vez viu um gajo na televisão a fazer isso, duvida “infectivamente” que “o Cavaco tenha culpas no cartório como querem que ele tenha”. E eu de repente rapo barba & cabelo para ser lustralmente glabro e inocente como o Duarte Lima. Ao meio-dia & picos, a taberna da Ermelinda entristece um bocadito por causa do pessoal ter a mania de ir almoçar à sogra. Ficamos a Ermelinda e eu. Peço-lhe que ponha a televisão naquilo dos programas da vida selvagem só p’ra não ter de assistir à múmia nervosa do Goucha a comover viúvas, mas ela diz que não por causa de “ao menos a TVI ser a única a mostrar que o Tribunal Constitucional está ao serviço da gráfica que faz um balúrdio com os posters do Che Guevara”. É então que eu juro ser desta que deixo de fumar, muito menos SG Lights.

Thursday, August 08, 2013

Rosário Breve n.º 321 - in O RIBATEJO de 8 de Agosto de 2013 - www.oribatejo.pt



Lembrando Manuel Dias

A vida não me deu muito tempo para deixar crescer a flor-do-sal que era a minha amizade com um homem bom chamado Manuel Dias. Deu-se ele ao trabalho de morrer sem aviso, aqui há umas temporadas. Era um exímio cultor da Língua Portuguesa, que toda a vida foi o instrumento de trabalho dele. Jornalista, escritor, exímio narrador oral de episódios da vida, graves uns, hilariantes outros. Um destes últimos é o que me traz hoje a esta coluna.
Contou-me o Man’el que, de certa vez que um clube português da bola se deslocou à Grécia para um desafio uefeiro, um muito conhecido figurão dessa arte do coice e da cabeça que integrava a comitiva foi a uma “casa-de-tia”, como se diz no Norte. Era em Atenas. O referido figurão tinha consigo uma apreciável maquia, como parece ser costume entre os futeboleiros a partir de determinado nível. Acudindo-lhe ao faro venéreo certa senhora profissional circunstante, chamou o empregado e perguntou-lhe quanto é que em dólares lhe ficaria o gasto pela companhia e o doce usufruto da referida. O empregado foi e veio.
“ – Ela diz que são cem dólares”, informou.
O cliente nosso protagonista disse assim então ao rapaz:
“ – Diz-lhe que está bem, mas avisa-a de que eu gosto de bater um bocadito!”
O empregado foi e veio.
“ – Ela quer saber se o bocadito é muito ou pouco.”
E o figurão:
“ – Diz-lhe que é só até ela largar os cem dólares.”
Como o nosso jornal vai parar duas semanas para o mais que merecido descanso do pessoal, resolvi cronicar este episódio hílare em alternativa às coisas algo macambúzias que aqui costumo plasmar. Mas desde já aviso que há rabo mal escondido de gato irónico nesta minha prática. Por outras palavras: vou ser mauzinho. Noutros termos: vou figurar bitaite azedo. De outros modos: vou-me às canelas da Merkelzita local, aquela que mente que não mente.
A culpa é do meu saudoso Manuel Dias. Fosse ele vivo, que a história ateniense acima exposta seria rebuçado narrativo de bem melhor embrulho linguístico. Paciência, hei que ser eu a fazer-lhe as vezes. Ora, que poderá ter Maria Luís Albuquerque que ver com a anedota helénica? Pelo lado figurado (e, note-se, devidamente separadas as águas contextuais do prostíbulo de luxo que deu cenário ao episódio pícaro e caricato dos cem dólares), tem ela, não muito, mas tudo que ver.
Porque, tal como a mim, já várias vezes terá apetecido ao meu Leitor bater na agora ministra. Mas, claro, não muito.

Só até ela largar os “swaps”.

Thursday, August 01, 2013

Então agora, já agora, o soneto desta tarde

SONETO DA FOTOGRAFIA

Leiria, 1/VIII/2013, quinta-feira


Para
Alfredo Muñoz de Oliveira,
José Freitas,
Tó Vieira
e
Helder Medina


O que a fotografia revela, depois de revelada, não é
os vivos que ainda o são ou os mortos quando o não eram.
Não. O que revela a fotografia é a si mesma: tripé
egoísta que à vida substitui e tantos veneram

sem no (na) perceber. Não é (se calhar nunca foi)
a mera distância, em luz e sombra medida,
que vai do olhar do fotógrafo à realidade exibida.
É ela mesma e só ela mesmo, coisa que dói,

pois, sobremaneira, acentua a vanidade da vida.
Todos aparecemos em alguma pelo menos;
connosco mesmos em ela e por ela nos parecemos:

ilusão, como todas vã, que o esquecimento olvidará.
–Olha o meu Pai! O meu Cão! O meu Avô!
– Não! diz Madame La Photo. – Não, eu é que sou.
            

Rosário Breve n.º 320 - in O RIBATEJO - www.oribatejo.pt

Fala o Pardal Oleiro

A idade é uma fábrica de paradoxos afinal simples. Com os anos, (a)parecem cada vez mais recentes as coisas mais antigas, na exacta proporção que inverte em menos frescos os episódios acabados de conhecer a luz.
O nosso senhor Magalhães de agora é o meu senhor Elói de há quarenta anos: a idade deles é a mesma, mesmo é o copito de tinto à mesma hora certa de cada dia incerto, mesmas as opiniões lacónicas e rezingonas de ambos a propósito do que aconteceu àquele que tinha a sucateira no quintal dos Lourenços.
À cristalaria da infância, opus (opus de opor, mas também de obra), na soma irrefragável e inconsútil de tantos entretantos, uma silveira de emaranhamentos: a primeira gilete púbere contra a barba de ontem, por essas praias as ninfetas adolescentes reiterando a universalidade das minhas Filhas – e a certeza concreta e inabalável de cada Pardal ser Um, Uno e Único – isto é, Todos: como a Morte.
Não é que essa vã guarda chamada Actualidade se me escape, toda de todo ou/ao menos. Não. É outra coisa, que esta é: as lembranças ressoam-me cavas porque a memória me adquiriu uma tonalidade de cisterna. E é dela que me sirvo para, ante as notícias que reportam o flagelo das guerras e das rebeliões e das religiões e das manifestações silêncio-ciliciadas pelos mastins-de-choque, reconhecer sem hesitação nem dúvida o abismo de diferença que há entre os mortos que foram homens e os homens que foram mortos.
Pelo vestuário pingão e pelo olhar rórido com que por ruas & praças & beira-rio vou manchando o papel do ar até que tudo seja o mais filactério pergaminho – não me seria possível a evasão da condição de um ser tocado à nascença pela vocação d’outono-inverno. Passado e Presente, com os anos que os cozem até à mútua fusão, acabaram engendrando e expondo, para meu consumo-da-casa e meu caso, a natureza siamesa da Bela e do Senão.
O que hoje foi amanhã, ontem viria a ser. Na estrumeira política corrente, os pagantes são oleiros – e bandoleiros, os (auto)governantes.  Vale-me ser este o Verão de 1970, vale-me repartir já então com as minhas Nascituras, no areal ébrio de ouro à sombra da Bola Nívea, o balde, a pá, o moinho e os ciclistas a dados.

Como aliás me vale também não ter chegado jamais a ser aquele que, por caridade dos Lourenços, arranjou pátio onde montar a oficina para acumular a irreparável sucata do Tempo, isso que só os Pardais é que. 

Soneto desta manhã baseado em casos verídicos

SONETO POR COMPANHIA

Leiria, 1/VIII/2013, quinta-feira



(Em roda volante, corpo-consciência/espaço-tempo.
Singrar sem sangrar, suportar & comportar.
Inda que breve, renda a vida mais que momento.
Estratégia avisada é trabalhar.)

Dois homens desjejuam-se em esplanada.
Café-com-leite-pão-com-manteiga.
Serenos parecem, conversam serenos: nada
os demove em ira, à sombra meiga.

Ao lado, a de mamas grandes (minha vizinha),
vem de algum serviço: é, diz-se, acompanhante.
Vende a própria companhia àquela maltinha

que por si mesma, a não tendo, assim obtém
dois dedos de conversa e outros tantos de espumante.
Nunca a vi com filhos: faz aquilo mas não é mãe.

Tuesday, July 30, 2013

Rosário Breve n.º 319 - in O RIBATEJO de 25 de Julho de 2013

Malhar no linho

É com uma espécie de estupor sereno que confiro a terraplanagem da existência, mercê duvidosa dos anos compressores. A uma banca de Café de bairro, não se me estraga a vocação de viajante sentado, mais atento à fábrica de imagens com que por dentro giro e digiro a luz do mundo do que à orwelliana suinicultura em que o meu (e teu) descoroçoado País se degradou.
Vindo e indo de temperada moderação (e modulação) o corrente Estio, chega a ser gratificante apontar os óculos aos enigmas simples disso a que à falta de melhor palavra chamamos Realidade. Cuida, ó Leitor(a), que se não trata, por parte minha, de uma passividade mas sim de um alternativo malhar no linho, por assim dizer. Tu e eu, para bem mal nosso, sabemos que à desPolítica não há que dar confiança – há que dar palha, por ser burra. Só que, enquanto de todo me não vibrar través a nuca o cutelo da hora última, todo o instante me será primeiro – pois que cada novo dia ou é renascimento ou não é dia nem novo.
Em menino, eu não temia o futuro. Naturalmente não, posto que cada criança é o futuro mesmo feito corpo. Só se envelhece quando se passa a temê-lo. Nos entrementes, porém, como a gente sabe, os anos a tudo terraplanam. Outra conjunção adversativa, ainda assim, saibamos opor a tal “porém”: todavia. Assim: todavia, subir em idade (para descer a/o tempo) não é tudo amargor. À infecta fauna do regime “cagarro” de nossos tristes dias, o alegre e comovente e comovido momento contraponho, esse de quando, a casa volvendo, me dou de rosto com a taça de fruta fresca que a minha Senhora pôs a presidir à camilha antiga e limpa que a Avó dela lhe transmitiu. Como jóias vivas, os frutos dão de si a colorida água-forte & a substanciação do açúcar. Por outro mais simples lado: são pêras.
A visão é mais-que-perfeita como um pretérito longe feito perto hoje, não todavia suficiente para me fazer esquecer, ante todo este espúrio e estupefaciente carnaval de crocodilas lágrimas antecipadas pró-pré-morte de Nelson Mandela, que em 1987 (há meros 26 anos, portanto), reunida a Assembleia Geral das Nações (alegadamente) Unidas, ia a moção plenária um apelo à libertação incondicional desse gigante sul-africano. Votaram a favor 129 países. Três votaram contra: os EUA, então tragicomicamente rendidos ao Reagan, a Grã-Bretanha, da Thatcher, e um tal Portugal dum tal… Cavaco.
Nem quem viola é preso, nem quem é violado esquece. A nossa amnésia carneirinho-multitudinária persiste em procrastinar (isto é, adiar; isto é, odiar) o evidente. E o evidente é a quinta de porcos do velho Orwell, que a tudo e todos, filósofos de Café de bairro incluídos, pretende terr’arrasar.

Por meu linho, que à camilha da minha Senhora dá corpo como outrora o futuro corpo deu à minha infância, que o não permitirei sem luta. Nem sem pêras, dessas doces e de anatomia tão similar ao violino e, já agora, à minha Senhora também. 

Monday, July 22, 2013

Nomes da maltosa

19h11m da tarde de 21 de Julho de 2013

Durante (muitas) horas a fio, procedi hoje ao acabamento de um trabalho encomendado. Era a revisão tipográfica completa da edição comemorativa do Centenário de uma instituição cujo nome não vem aqui a propósito. Os trabalhadores da mesma (designados como “colaboradores”, como agora é moda dos “sinergéticos”), às largas centenas, lá têm os honrosos nomes escarrapachados. Revi aquilo tudo. Pus acentos onde os deveria haver, descolei justaposições, tirei e pus negritos, tudo. É trabalho picuinhas, mas que adoro fazer. Como recompensa, e à sorrelfa, copiei alguns dos apelidos mais peculiares. Como se trata de obra dada à publicidade (i. e., a lume público), tudo bem. Não é informação confidencial. Ei-los, a alguns desses nomes tão lindos, giros e bonitos, para Vosso deleite, que meu foi também:

Lúcia Alá (sim, verdade)
Coelho Calado Cortes (sim, tal e qual)

E AINDA

Santos Bem
Serigado
Casquinha Branco
Paliotes
Pepe Toninho
Labreca Maduro
Bleck Louza
Stélio Pino
Plácido Pisa
Nogueira Pica
Caciones Marreiros
Lúcio Franganito
Rosa Narra
Violante Matado
Bogango Bonito
Carasco Mosca
Beiçudo São Braz
Amante Honrado
Tendinha
Mealha
Calçarão
Achando da Costa
Terceiro
Pargana
Estiveira
Louzeiro
Papuchinha
Mota Mosca
Pompónio
Carepa
Chumbinho
Pernão
Ganhão
Nugent
Galante
Fontenete
Horta Lago
Bragada
Inverno Barroso (pois…)
D’Avo Neto
Pascoal Amendoeira
Verdasca Carvalho
Rabita
Borga (deve ser meu primo)
Passarinho
Machacaz
Doutor de Assis
Parracho
Conchinha
Vinagre (deve ser meu primo também)
Espadinha
Chouriço
Matela
Escaramaia
Escarameia
Marmelo
Marrafa
Cachaço (se fosse no feminino, era minha prima, claro)
Higino
Marouvo
Balão
Leirião
Ratinho (se fosse no feminino, era para Verdasca Carvalho…)
Tibúrcio
Arteiro

E AGORA REPARAI NESTES DOIS:

Sim Sim Penetra
Bacalhau Alho

E AINDA

Palancha Canudo Chouriço (sim, uma pessoa só, aqui não há truques)
Barsiliza Mazaroto Orelha (chiça…)
Borracha Martins
Pato Oca
Barqueta Bragadesto
Ferreira Carracinha
Maduro Ilhéu
Farinha Pimpão
Canoa Hora
Costa Folgado
Costa Potes
Travanca Pela
Mariquito
Remísio
Lopes Quina
Generoso Boto
Velez Sátiro
Mansinho Gens
Caramujo Branco
Pechina

E para acabar, esta delícia:

General Abelha.



Saturday, July 20, 2013

Soneto feito há minutos em caderno estreado há pouco



EM SEQUEIRO

Leiria, 20/VII/2013, sábado



Ao sequeiro dos anos, as imagens verbais
tendem, algumas, a consolidar-se em pétreo éter.
Inumeráveis & inomináveis sempre, as aves reais
também escrevem & lêem também, preciso é ter

pão justo e enxuto arroz que se lhes ofereça.
Na idade da humidade, os ossos rangem capciosos,
já o derradeiro Inverno, em coração & cabeça,
faz dos prazeres ínfimos os mais capitosos.

Esta tarde, emudecido em ermo benévolo rincão,
soliloquaz se me volve, por escrito, a solidão.
Mas dei já a pombas (duas) e a pardais, uns quatro ou três.

Iço ora o cós das calças, reordeno os artigos do bornal,
saúdo a senhora Rita, que fecha p’ra descanso semanal
e vou de soneto feito, como me vês & aqui lês.

Thursday, July 18, 2013

Rosário Breve n.º 318 - in O RIBATEJO de 18 de Julho de 2013

Rio Sabença

Nos tempos mais recentes, tenho sabido abster-me de comentar por escrito a tragifarsa pulha da política à portuguesa. Por razões curiais e duas: uma, por higiene mental pura e simples; outra, por não querer engrossar o lote de comentadores e de “tudólogos” que infestam os jornais, a internet, a rádio e a televisão, chusma quase invariavelmente abaixo de medíocre que me levou a tornar-me num especialista do “zapping”.
Alheado (mas não alienado) dos fedelhos da tríade PSD-CDS+PS (a quem Cavaco instigou a “salvação da Pátria”, assim de facto e deveras exortando aos gatos a convalescença dos ratos), salva-me diariamente a boa sorte de ter perto da porta um rio que passa e fica. Todos os dias o abeiro. Mirando-o em silêncio, permito-me reiterar a volúvel essência da transitoriedade. Da banda d’além, panos de relva bem cuidada verdejam ao sol. A luz resulta em puro ouro açucarado à língua dos olhos, que as águas vitrificam aos pirilampos numa hialurgia sem cotejo possível. Mães jovens infantam de carrinhos-bebés o areal dos passadiços. Corredores calvo-cinquentenários destabacam os pulmões ortopedicamente. Sonetistas concorrendo a prémios município-literários florilegiam rimas difíceis e vácuas. E homens-sexuais discretos cobiçam óptico-lambedoramente o rapazinho que há muito deixei de ser. Assim, de borla e em graça, me imunizo a vesânias & tristuras, ostracizadas as fialhescas caganifâncias do nosso triste cenáculo lesa-pátrio.
Contra o rio que perto passa de onde a casa me fica, nada pode a esquadrilha de moscas poedeiras do “comentário”. Nada. Ante o eflúvio, sinto-me natural como a chuva e o pardal. Brandos zéfiros e suaves favónios ventilam-me a respiração, pacificando-a de uma doçura e de uma paz de que há muito me não julgava merecedor.
Queiram o meu paciente leitor e a minha formosa leitora pastar de olhos comigo a cena cardial de tanta serenidade: de oriente, um congresso de cirros nimba a coalhos o azul-forte do firmamento; a ocidente, sente-se como se aqui mesmo a mesma ânsia oceânica; do norte, a perenidade lavada da pedra que encima o repouso terminal de meus Pais; e a sul, a invencível beleza do Ribatejo e das minhas leitoras.
Nem por um instante se me desatavia a compostura: à cacolalia-tatibitaite de marcelos, santanas, moitas, sócras, pachecos & quejandos nadas, oponho um nefelibatismo todo-o-terreno de largo espectro de acção filantrópica. Chouso sem remorso o meu coração mental a tal escória. A tais choutos, contraponho, firme, uma passada vertical de vertebrado pobre mas sério. Vale-me a magna Natura de cartapácio. Álamos, faias, salgueiros & plátanos perfumam-me em e de uma supina gentileza a mais diáfana. E a simples visão de um cão a dormir à sombra, pela torrefacção da mais alta hora da tarde estival, é quanto me basta para ser uma espécie de cenobita sem pecado ou mandamento.
Nada me custa, por outro lado, reconhecer ante Vós, e de viva voz, que, assim, nunca, como o meu País, estarei de volta aos “mercados”. Que nenhuma mordomia gatuna encourarei em arca mealheira. Que nenhuma filha de banqueiro me espremerá o acne. Que, por assim dizer, jamais me cinhajardinarei em uma Cascais-wanna-be-Saint-Tropez, benzido de frivolidade e em lustral aparato de gardénia de plástico. Isto porque: não é que a idade me haja trazido sabedoria – mas é que me trouxe a arte do desprezo.

Para guarda-rios, convenhamos, já não é pouca sabença, indo/ficando o longo rio breve da vida idem.  

Thursday, July 11, 2013

Rosário Breve n.º 317 - in O RIBATEJO - www.oribatejo.pt

Se queres ser gente, chama-te Bruno

A edição pretérita deste nosso/vosso O Ribatejo assuntava, entre outros temas matrizes da actualidade de uma região cujas lezírias humedecem à luz como verdes olhos ou esmeraldas virentes, uma realidade notável. Essa notável realidade chama-se Bruno João, nascido há três décadas apenas. Vinha a páginas 19, no entrecho do suplemento especial que a Redacção dedicou a Mação.
Bruno João é rapaz’omem: já fez a tropa, já lhe nasce a barba, já lhe reluz ao anelar esquerdo a forca de ouro dos matrimónios consumados. Em cinco colunas e duas fotografias, o jornalista (que não assina, mas deveria tê-lo feito, por bem feita que a coisa está e fica) revela-nos um cidadão que não ficou em casa à espera do que e de quem não prometia vir. À face da terminação da ligação contratual com a Força Aérea e ante o espectro do desemprego, esse ócio óxido de corpo & alma,  olhou-se ao espelho e viu-se reflectido em barbeiro. Comprou uma carrinha (com gerador, painel solar e tudo), comprou uma tesoura, comprou uma navalha. As mãos ficaram-lhe de borla desde a nascença. A vontade de fazer vida trabalhando parece que também. Ei-lo, pois, de aldeia em aldeia, a períodos certos como a lunaridade feminina e as asneiras do desGoverno. Tine dextra em sua mão a prata inox da dupla lâmina, desarbustando o excréscimo capilar do freguês. É cena portuguesa: qual a estridente buzina do peixeiro ambulante atraindo o mulherio, assim a mornidão parlamentária de todo o barbeiro atrai os aposentados, que, a pretexto de aparar a grenha, acodem ao Bruno João como a mariposa à bugia acesa.
Mação, para seu bem (A Bem de Mação, parafrasearia até), sofre a visita benigna deste profissional de rosto suave e delicada delineação, a troco de uns trocos que, dourados, lhe creditam o gasóleo, a atitude e o invencível verniz natural das unhas que trabalham sem ser por viola, ou guitarra, de cigarra.
Sinopse: Bruno João tem trinta anos. Ficou sem trabalho. Não se ficou. Ex-militar, aparou por treino o próprio cabelo, primeiro. Depois, desgraçou com graça e de graça alguns colegas e amigos. Meteu papéis de matrícula na Escola de Barbearia do Centro de Formação Profissional do Penteado, Arte e Beleza. Diplomado (sem ser à Sócrates &/ou Relvas), fez-se à estrada e à vida.
Era a páginas 19 de O Ribatejo de 4 de Julho pretérito. Aprendi que ser Bruno ajuda muito a ser gente. O nosso barbeiro é Bruno e João. E fontes as mais fiéis minhas me garantem que o tal jornalista também é Bruno. E Oliveira.

Leitor: queres assim ou mais curto?

Thursday, July 04, 2013

Rosário Breve n.º 316 - in O RIBATEJO - www.oribatejo.pt

Um gozo diferente da comum gente

Nas terras pequenas, as existências idem são por vezes mosqueadas de um gozo diferente do da carne (viva ou assada), por a ela concorrer tão-só a serotonina específica da emoção má chamada “desforra”. Nas terras maiores não será talvez muito diferente, mas disso não falo por coerência retórico-geográfica: nada valho, nem (d)a terra onde vivo. Mas adiante.
Foram os casos, esta semana, da queda daquela arrastada e paulatina e errada figura tão desfasada do real como os islamitas do toucinho, os indianos da higiene e o zamericanos das crianças desarmadas, amailo da condenação efectiva a dez anos de prisa daquele quisto lustral que em má-hora soube guindar-se ao leme de um Clube que já viveu melhores assembleias e melhores coloniais.
O gostinho a pólvora no palato da alma substanciou-se-me de uma doçura que já só pertence ou à justiça inequívoca ou às crianças desarmadas.
No dia da demissão do ministro que falava devagar e prejudicava depressa, regressava eu a casa de uma incursão de cinco dias à minha cidade-natal. Dei por mim, quando soube da velha nova, a assobiar solfejos de adolescente a quem o futuro é um futuro de sentido obrigatório, proibido é que não. Libei a nova (no sentido de “notícia”, que às vezes tenho de explicar tudo) apeadeira com uma tacinha fria de branco agulhado da Mealhada que me soube a champanhe em Montmartre sustido em sovacos por coristas do Moulin Rouge.  
No dia seguinte, soube-se daquilo do burlão que ainda gozou uma data de tempo o preto e o prato em Londres até que o TriboPortunogal o cangou a preceito. Sorri então eu o mais escarninho dos meus rictos – se o Vale e Azevedo, por uns (não muitos, mesmo assim & afinal) milhões, apanhou o que apanhou, quantos não apanharia (em milhões e anos) o Gasparzito, o Lento-Rápido, no caso de as fraudes com direito a carimbo governamental serem vistas e tidas e entendidas e punidas como tão criminosas quão as do foro privado?
É ciência corrente que “com uma pistola se rouba um banco, mas com um banco se rouba toda a gente”. O roubar só é crime, sabemo-lo, dependendo do lado do balcão. Ora, esse (não tão metafórico quanto isso) balcão ladra e morde. Já o médico (por regra) se distingue do político (com excepções) por isto: aquele jura por Hipócrates, enquanto este é um hipócrita que jura. Entre o Gaspar e o Vale, no cadinho já não crisol do meu entendimento, a diferença está na evidência de o advogado só ter lixado o Benfica, ao passo(s) que o alegado “génio financeiro” deu cabo do Benfica, do Sporting, do Penafiel, do Lusitano de Vildemoinhos, do União de Tomar, das Académicas de Coimbra e de Santarém e de Newark, da Segurança Social Futebol Clube, do Comércio & Indústria das Relações com as Mulatas de Cabo Verde, da Juventude Salesiana do Tempo em que os Hoquistas de Doze Anos ainda não Eram Vítimas de Pederastia, do Futuro dos Nossos Filhos Todos sem Excepção, do meu vizinho João, do Pequeno Retalho de Famalicão, do Bom & do Mau Jesus de Braga, mais de Quem Consome, se Some e não Paga, dos Pescadores de Caxinas, do Alterne Lusobrasileiro das Meninas, do Barbeiro Abel, do Tanoeiro Ismael, do Copeiro, do Furriel, do Porco & do Respectivo (do Porco) Granel.
Vale e Azevedo tem muito quem o substitua. Gaspar só teve, ou tem, esta bracarense chamada Albuquerque que, ninguém sendo de facto, se deu já ao luxo-lixo de deveras mentir, antes de Ministra ainda, ao Parlamento. Triste sina e triste sino: tudo por nós dobra. Tudo nos cobra. Deve ser obra.
Jure-nos Hipócrates, ainda que nos não cumpra.

Antes um menino daquele do zamericanos de pistola na mão e do tamanho antropométrico do novel desempregado, vulgo Gaspar, vulgo qualquer coisa dessas.