Monday, September 16, 2013

DOIS DIVERTIMENTOS (linguagem e assuntos um bocadinho pesadotes)

DIVERTIMENTO (1)

Leiria, 13 de Setembro de 2013, sexta-feira

Como altos frutos de seiva alta crescem
e passam pela galeria as mulheres alheias.
Todas, sem excepção quase, me merecem
as felicitações mais altaneiras.

Olhai-me esta morena: parece um lírio bronzeado.
É desconfiadita: mamalhuda, olha de lado
o poeta inocentíssimo que a soletra, o vil.
Em cada pernaça rija tem quilómetros mais de mil.

Fincai-me esta loura à força como é de moda:
já aquele coirão (perdão!) mereceu muita foda,
que no derramar do leite está o choro ganho.
Fica-lhe bem a popelina fresca na pele saída do banho.

Estas duas, siamesas, amorangam framboesas.
As bocas são de uma carnação acerejada
que apetece lamber com chantilly – ou então com nada.
Que passinhos voadores! Que sandalinhas princesas!

Passa por fim a feia forte não desprovida de encanto.
Farfalhuda de barrigola, é de marido que gosta de bola.
Mas um não-sei-quê se evola dela,
uma trepidação que conspira sob a blusa amarela.

Já quase arrumo o caderno, já vou quase em casa.
Portei-me hoje bem, não ensaquei o grão-na-asa.
E quando a minha me perguntar pelo dia,
minto-lhe, feito cegueta, que só a ela vi quando escrevia.



DIVERTIMENTO (2)

Leiria, 15 de Setembro de 2013, domingo

Esvurmo, mui voraz, à palitada
de dente cavernoso uma bocada
de carne que ali me apodrecia.

Sarro e catarro arranco a puxões,
que escarro depois sobre um relvado.
Que feio e ruidoso, puxar o escarro

e deixar o verde pano ov’estrelado!
A minha santa Mãe, se isto me via,
ralhava, pomba furiosa, pois não podia

que o Menino fosse qual vil carroceiro,
p’ra mais com universidade e do nome Abrunheiro.
Mas nem sempre se é mota. Às, vezes só se é lambreta.

Sou feliz assim, porcalhão, descuidoso.
Chego a cuspinhar pelo mero gozo
de imitar a fonte, a carranca, a sarjeta!

Ora pois qu’inda bem. Hoje, não lavei ’inda os dentes.
E pois então? Cariados, rachados, são sorridentes
à mesma, quando disso é ocasião.

Esta, uma dessas. Mas pelo que te escrevo não meças
(ou, muito menos, me peças)
que mude agora de condição.

Algumas lostras chegam a ser formosas,
com seu quê de ostras, de ovo, de rosas.
Daí o parecer-me algo pacóvia

a repugnância indistinta ante toda a escarróbia.
As que prefiro são as de recheio como as empadas
– folhosas, cristaladiças, suculentas e folhadas.

E não direi muito pelo errar, não,
que, afinal, todo o cuspir-pró-ar
acaba caindo no chão

como é da mais humana condição.


Sunday, September 15, 2013

Rosário Breve n.º 324 - in O RIBATEJO de 12 de Setembro de 2013 - www.oribatejo.pt

Utopia lamentosa

A minha utopia é a de um País cujos bombeiros só fossem precisos para tirar da árvore o gato que a ela subiu para desespero da viúva que tanto o mima.
Agosto ardeu já de ponta a ponta. Queimou combatentes que precisavam só de ter juízo, de ficar em casa com a família, de deixar arder os outros e o que é dos outros. Morreram uns tantos? Não faz, parece, mal: vamos continuar a ter futebol distrital.
A minha isotopia é a de um Portugal que quisesse chamar-se Mar-Pinhal. Uma longa horta de litorais 860 quilómetros. Um que plantasse sardinhas e pescasse tomate. Um que não permitisse à hidra do capitalismo a transformação de searas em campos de golfe. Um que, em vez de amestrar, educasse quem nasce. E que cuidasse de quem, por culpa inocente dos muitos anos, des-nasce sem amparo nem remédio.
Agosto é o nosso carnaval em chamas. Até aqui, era só um mês parolo, uma jornada bailada em calão, uma temporada pimba, papalva, quase inocente. Já não é só isso. Agora é também uma época mortífera. Parece uma telenovela fatal, a que acresce a “fatalidade” intolerável do calendário.
A minha utopia portuguesa é a de erradicar de uma vez para sempre o mês de Agosto. Baniríamos para sempre a crise, passando directamente de Julho a Setembro. Pensando em profundidade, aliás, nem de Julho precisaríamos. Ficávamos só com Junho, cujo Inventário foi escrito por Teixeira Gomes, elegante e nosso esquecido Presidente da República. Maio? Longe com ele: nasci num. Abril? Memória nenhuma e respeito nenhum, meu capitão Salgueiro Maia. Março? Nem com bagaço. Fevereiro? Adeus, atoleiro. Janeiro? Acabado, como o professor que antologiava as lendas da Primária no tempo em que se lia nas escolas. E nenhum Natal e nenhum Novembro por causa de tão infiel e tão defunto e nenhum Outubro.
A minha utopia é a dos oito bombeiros, entre rapazes, homens e raparigas, voltarem para casa a tempo de um País que nem de meses precisasse para estar a tempo de si mesmo.
No entretanto, também a democracia para que fui educado arde. Chega a ser desopilante, a anti-PIDE do tudo-à-mostra: a carcaça da corrupção, o Cavaco nas Selvagens a fazer de Vasco da Gama, os fatos Armani-Sócrates dos comentadores tipo Judite/Seara, a exuberante inteligência do CR7 pelo menos naquilo da Irina. Mas os bombeiros, os bombeiros…
Prefiro o gato da viúva, gozão, em cima do choupo. Sei do que falo: sou marido de bombeira, pelo que tive um mau mês. Muito mau. Mas para o ano há mais, bem no sei.


Wednesday, September 11, 2013

Rosário Breve n.º 323 - in O RIBATEJO de 5 de Setembro de 2013 - www.oribatejo.pt

Os Trapos

Envelhecemos, deveras e de vez, quando deixamos de praticar a eternidade. (A de cada dia, digo, que não a outra, a de mentira das seitas autistas-evangélicas, essas matilhas engravatadas que andam de Deus na boca como cães que não desmordem o osso.)
A eternidade é aquilo que as crianças são de cor – e às cores. Certa idade madura existe que, não desprovida de lucidez, logra até assomos de felicidade, consistindo esta num ardil simples. É o ardil do alzheimer voluntário: esquecer a morte, deixando-a dissipar-se como pretérito hélio de balão passado, inútil (e nociva até) para o dia-a-dia.
Mas os velhos existem – e nem todos o são pela idade. Todos os dias os vejo por esta galeria que erigi em observatório mundial. Andam devagar, rasteirados pela exasperante areia que (n)os não deixa fugir, essa areia de quando, nos sonhos, o pânico nos congela o sangue. Parecem-me pombas golpeadas pelo falcão da irreversibilidade. São de uma castidade involuntária. O mais alto acontecimento deles é respirar ainda, ao alto de uma digestão de lâminas dispépticas. Casas que ameaçam derrocada, não têm a quem abrir a janela do que viveram. Têm pena, e raiva até, de que deles saibamos tão-só a história de irem morrer como se para nada mais houvessem nascido e sido. Semelham, um a um, lojas de centro comercial que, uma a uma, se liquidam as existências antes de, de vez e deveras, fecharem a porta e dar a chave ao gato.
Volvem-se aquíferos tártaros pelos mesmos poros por onde outrora jorraram salubridades chamadas filhos. Hibernam em pleno Verão, imunes à estupidez malévola dos netos, que entretanto ascenderam ao púlpito das freguesias, dos municípios, das secretarias de Estado e dos sobreiros trocados por submarinos em vez de, ao menos, helicópteros para o bombeiral.
Os velhos são a ominosa e luminosa evidência, por obscuro contraste, de que tudo arde. Não só, como hoje, à inclemência de Setembro, a tarde – mas a própria vida, a vida mesmo. Alienados, por deles e para eles feliz nesciência, das tropelias malsãs do quotidiano, vegetam iodadamente numa espécie de algodão já surdo às premências mais básicas: comer um morango entre risadas de champanhe, soletrar sílaba a sílaba a carnação suculenta & suco & lenta de um ser que se nos dispa, reler Cesário Verde sem segundo resgate da Troika – e não necessitar ainda da perícia benevolente do doutor Vítor Martins do Hospital de Santarém, que, por assim dizer, miniaturiza no coração a vontade pacemaker de viver, nem que seja só mais um bocadito.
(Explicação, em prol e/ou prece da cumplicidade do meu leitor: dá-me sempre para isto, cada vez que Setembro volta a fingir que é o mesmo Setembro de antigamente. “Para isto”: isto é: para, verso/velho/a/velho/verso, reiterar a necessidade outonal do húmus, que é a latência polar do Inverno, que sagra à Vivaldi e à Stravinsky a Primavera que tudo, como tudo e como vereis, Verão será.)
Foi que, como esta manhã, mal ainda se anilando a alva no alvor entrecortado do morse dos estores e raspando-me eu a barba, o pequeno milagre da repetição quis ser mais novo do que trapo: ao espelho, a barba era minha que se ia, mas vinha dos olhos o olhar que foi, e há-de ser, o do meu Pai, esse trapo.



Friday, August 30, 2013

Rosário Breve n.º 322 - in O RIBATEJO de 29 de Agosto de 2013 - www.oribatejo.pt

Ficamos a Ermelinda

Aqui na taberna da Ermelinda, o Chico Júlio da oficina de bicicletas acha normal que a versão SG Lights do Salazar, vulgo Passos Coelho, vocifere canivetes contra o Tribunal Constitucional em calção-de-banho. Já o Manel-Zé das peças Volvo, a quem a respectiva São pôs os cornos por distracção, acha normalíssimo que o Estado compre submarinos para nada em vez de helicópteros para o bombeiral. Sempre categórico e raso como é timbre dos idiotas sérios e sem leitura, o Serafim da Genoveva afiança a quem o quer ouvir que o Jorge Jesus está no Sporting não tarda nada. E eu deixo crescer barba, bigode & boina com estrelinha para ao menos fisicamente me parecer com o poster do Che Guevara. Brandindo oleaginosamente a bela cabeça de chicharro frito, o Artur Malacueco, que é reformado da Marinha desde os 42 anos, grunhe que “esta maltosa não quer é trabalhar”. Definitivamente provisório, o Ibraim Chamiça, que foi quem fez aquilo com a São ao Manel-Zé das peças da Volvo, entre outros, não acha nada por causa de tanta gasosa espanhola no vinho-de-cozinha. O Serafim da Genoveva continua a arengar com aquilo de Jesus em Alvalade etc. E eu deixo que as barbas à Che se me encaneçam para ao menos fisicamente me parecer com o poster do Karl Marx. Já o Arnaldo Melão, que tem essa alcunha por a mãe dele ter nascido em Almeirim, jura a pés-juntos que o amarelo-opiáceo do seu indicador dextro se deve à qualidade do ouro que indica, não à impenitência de fumador sem filtro & com décadas. Em irónica maiêutica, o Toni Tira-Linhas alinha na socratização blasfema do casamento gay entre ciganos, só que ninguém percebe o que ele quer dizer, se é que quer. Entrementes, o Caló da Eduarda, que bebe água-das-pedras porque uma vez viu um gajo na televisão a fazer isso, duvida “infectivamente” que “o Cavaco tenha culpas no cartório como querem que ele tenha”. E eu de repente rapo barba & cabelo para ser lustralmente glabro e inocente como o Duarte Lima. Ao meio-dia & picos, a taberna da Ermelinda entristece um bocadito por causa do pessoal ter a mania de ir almoçar à sogra. Ficamos a Ermelinda e eu. Peço-lhe que ponha a televisão naquilo dos programas da vida selvagem só p’ra não ter de assistir à múmia nervosa do Goucha a comover viúvas, mas ela diz que não por causa de “ao menos a TVI ser a única a mostrar que o Tribunal Constitucional está ao serviço da gráfica que faz um balúrdio com os posters do Che Guevara”. É então que eu juro ser desta que deixo de fumar, muito menos SG Lights.

Thursday, August 08, 2013

Rosário Breve n.º 321 - in O RIBATEJO de 8 de Agosto de 2013 - www.oribatejo.pt



Lembrando Manuel Dias

A vida não me deu muito tempo para deixar crescer a flor-do-sal que era a minha amizade com um homem bom chamado Manuel Dias. Deu-se ele ao trabalho de morrer sem aviso, aqui há umas temporadas. Era um exímio cultor da Língua Portuguesa, que toda a vida foi o instrumento de trabalho dele. Jornalista, escritor, exímio narrador oral de episódios da vida, graves uns, hilariantes outros. Um destes últimos é o que me traz hoje a esta coluna.
Contou-me o Man’el que, de certa vez que um clube português da bola se deslocou à Grécia para um desafio uefeiro, um muito conhecido figurão dessa arte do coice e da cabeça que integrava a comitiva foi a uma “casa-de-tia”, como se diz no Norte. Era em Atenas. O referido figurão tinha consigo uma apreciável maquia, como parece ser costume entre os futeboleiros a partir de determinado nível. Acudindo-lhe ao faro venéreo certa senhora profissional circunstante, chamou o empregado e perguntou-lhe quanto é que em dólares lhe ficaria o gasto pela companhia e o doce usufruto da referida. O empregado foi e veio.
“ – Ela diz que são cem dólares”, informou.
O cliente nosso protagonista disse assim então ao rapaz:
“ – Diz-lhe que está bem, mas avisa-a de que eu gosto de bater um bocadito!”
O empregado foi e veio.
“ – Ela quer saber se o bocadito é muito ou pouco.”
E o figurão:
“ – Diz-lhe que é só até ela largar os cem dólares.”
Como o nosso jornal vai parar duas semanas para o mais que merecido descanso do pessoal, resolvi cronicar este episódio hílare em alternativa às coisas algo macambúzias que aqui costumo plasmar. Mas desde já aviso que há rabo mal escondido de gato irónico nesta minha prática. Por outras palavras: vou ser mauzinho. Noutros termos: vou figurar bitaite azedo. De outros modos: vou-me às canelas da Merkelzita local, aquela que mente que não mente.
A culpa é do meu saudoso Manuel Dias. Fosse ele vivo, que a história ateniense acima exposta seria rebuçado narrativo de bem melhor embrulho linguístico. Paciência, hei que ser eu a fazer-lhe as vezes. Ora, que poderá ter Maria Luís Albuquerque que ver com a anedota helénica? Pelo lado figurado (e, note-se, devidamente separadas as águas contextuais do prostíbulo de luxo que deu cenário ao episódio pícaro e caricato dos cem dólares), tem ela, não muito, mas tudo que ver.
Porque, tal como a mim, já várias vezes terá apetecido ao meu Leitor bater na agora ministra. Mas, claro, não muito.

Só até ela largar os “swaps”.

Thursday, August 01, 2013

Então agora, já agora, o soneto desta tarde

SONETO DA FOTOGRAFIA

Leiria, 1/VIII/2013, quinta-feira


Para
Alfredo Muñoz de Oliveira,
José Freitas,
Tó Vieira
e
Helder Medina


O que a fotografia revela, depois de revelada, não é
os vivos que ainda o são ou os mortos quando o não eram.
Não. O que revela a fotografia é a si mesma: tripé
egoísta que à vida substitui e tantos veneram

sem no (na) perceber. Não é (se calhar nunca foi)
a mera distância, em luz e sombra medida,
que vai do olhar do fotógrafo à realidade exibida.
É ela mesma e só ela mesmo, coisa que dói,

pois, sobremaneira, acentua a vanidade da vida.
Todos aparecemos em alguma pelo menos;
connosco mesmos em ela e por ela nos parecemos:

ilusão, como todas vã, que o esquecimento olvidará.
–Olha o meu Pai! O meu Cão! O meu Avô!
– Não! diz Madame La Photo. – Não, eu é que sou.
            

Rosário Breve n.º 320 - in O RIBATEJO - www.oribatejo.pt

Fala o Pardal Oleiro

A idade é uma fábrica de paradoxos afinal simples. Com os anos, (a)parecem cada vez mais recentes as coisas mais antigas, na exacta proporção que inverte em menos frescos os episódios acabados de conhecer a luz.
O nosso senhor Magalhães de agora é o meu senhor Elói de há quarenta anos: a idade deles é a mesma, mesmo é o copito de tinto à mesma hora certa de cada dia incerto, mesmas as opiniões lacónicas e rezingonas de ambos a propósito do que aconteceu àquele que tinha a sucateira no quintal dos Lourenços.
À cristalaria da infância, opus (opus de opor, mas também de obra), na soma irrefragável e inconsútil de tantos entretantos, uma silveira de emaranhamentos: a primeira gilete púbere contra a barba de ontem, por essas praias as ninfetas adolescentes reiterando a universalidade das minhas Filhas – e a certeza concreta e inabalável de cada Pardal ser Um, Uno e Único – isto é, Todos: como a Morte.
Não é que essa vã guarda chamada Actualidade se me escape, toda de todo ou/ao menos. Não. É outra coisa, que esta é: as lembranças ressoam-me cavas porque a memória me adquiriu uma tonalidade de cisterna. E é dela que me sirvo para, ante as notícias que reportam o flagelo das guerras e das rebeliões e das religiões e das manifestações silêncio-ciliciadas pelos mastins-de-choque, reconhecer sem hesitação nem dúvida o abismo de diferença que há entre os mortos que foram homens e os homens que foram mortos.
Pelo vestuário pingão e pelo olhar rórido com que por ruas & praças & beira-rio vou manchando o papel do ar até que tudo seja o mais filactério pergaminho – não me seria possível a evasão da condição de um ser tocado à nascença pela vocação d’outono-inverno. Passado e Presente, com os anos que os cozem até à mútua fusão, acabaram engendrando e expondo, para meu consumo-da-casa e meu caso, a natureza siamesa da Bela e do Senão.
O que hoje foi amanhã, ontem viria a ser. Na estrumeira política corrente, os pagantes são oleiros – e bandoleiros, os (auto)governantes.  Vale-me ser este o Verão de 1970, vale-me repartir já então com as minhas Nascituras, no areal ébrio de ouro à sombra da Bola Nívea, o balde, a pá, o moinho e os ciclistas a dados.

Como aliás me vale também não ter chegado jamais a ser aquele que, por caridade dos Lourenços, arranjou pátio onde montar a oficina para acumular a irreparável sucata do Tempo, isso que só os Pardais é que. 

Soneto desta manhã baseado em casos verídicos

SONETO POR COMPANHIA

Leiria, 1/VIII/2013, quinta-feira



(Em roda volante, corpo-consciência/espaço-tempo.
Singrar sem sangrar, suportar & comportar.
Inda que breve, renda a vida mais que momento.
Estratégia avisada é trabalhar.)

Dois homens desjejuam-se em esplanada.
Café-com-leite-pão-com-manteiga.
Serenos parecem, conversam serenos: nada
os demove em ira, à sombra meiga.

Ao lado, a de mamas grandes (minha vizinha),
vem de algum serviço: é, diz-se, acompanhante.
Vende a própria companhia àquela maltinha

que por si mesma, a não tendo, assim obtém
dois dedos de conversa e outros tantos de espumante.
Nunca a vi com filhos: faz aquilo mas não é mãe.

Tuesday, July 30, 2013

Rosário Breve n.º 319 - in O RIBATEJO de 25 de Julho de 2013

Malhar no linho

É com uma espécie de estupor sereno que confiro a terraplanagem da existência, mercê duvidosa dos anos compressores. A uma banca de Café de bairro, não se me estraga a vocação de viajante sentado, mais atento à fábrica de imagens com que por dentro giro e digiro a luz do mundo do que à orwelliana suinicultura em que o meu (e teu) descoroçoado País se degradou.
Vindo e indo de temperada moderação (e modulação) o corrente Estio, chega a ser gratificante apontar os óculos aos enigmas simples disso a que à falta de melhor palavra chamamos Realidade. Cuida, ó Leitor(a), que se não trata, por parte minha, de uma passividade mas sim de um alternativo malhar no linho, por assim dizer. Tu e eu, para bem mal nosso, sabemos que à desPolítica não há que dar confiança – há que dar palha, por ser burra. Só que, enquanto de todo me não vibrar través a nuca o cutelo da hora última, todo o instante me será primeiro – pois que cada novo dia ou é renascimento ou não é dia nem novo.
Em menino, eu não temia o futuro. Naturalmente não, posto que cada criança é o futuro mesmo feito corpo. Só se envelhece quando se passa a temê-lo. Nos entrementes, porém, como a gente sabe, os anos a tudo terraplanam. Outra conjunção adversativa, ainda assim, saibamos opor a tal “porém”: todavia. Assim: todavia, subir em idade (para descer a/o tempo) não é tudo amargor. À infecta fauna do regime “cagarro” de nossos tristes dias, o alegre e comovente e comovido momento contraponho, esse de quando, a casa volvendo, me dou de rosto com a taça de fruta fresca que a minha Senhora pôs a presidir à camilha antiga e limpa que a Avó dela lhe transmitiu. Como jóias vivas, os frutos dão de si a colorida água-forte & a substanciação do açúcar. Por outro mais simples lado: são pêras.
A visão é mais-que-perfeita como um pretérito longe feito perto hoje, não todavia suficiente para me fazer esquecer, ante todo este espúrio e estupefaciente carnaval de crocodilas lágrimas antecipadas pró-pré-morte de Nelson Mandela, que em 1987 (há meros 26 anos, portanto), reunida a Assembleia Geral das Nações (alegadamente) Unidas, ia a moção plenária um apelo à libertação incondicional desse gigante sul-africano. Votaram a favor 129 países. Três votaram contra: os EUA, então tragicomicamente rendidos ao Reagan, a Grã-Bretanha, da Thatcher, e um tal Portugal dum tal… Cavaco.
Nem quem viola é preso, nem quem é violado esquece. A nossa amnésia carneirinho-multitudinária persiste em procrastinar (isto é, adiar; isto é, odiar) o evidente. E o evidente é a quinta de porcos do velho Orwell, que a tudo e todos, filósofos de Café de bairro incluídos, pretende terr’arrasar.

Por meu linho, que à camilha da minha Senhora dá corpo como outrora o futuro corpo deu à minha infância, que o não permitirei sem luta. Nem sem pêras, dessas doces e de anatomia tão similar ao violino e, já agora, à minha Senhora também. 

Monday, July 22, 2013

Nomes da maltosa

19h11m da tarde de 21 de Julho de 2013

Durante (muitas) horas a fio, procedi hoje ao acabamento de um trabalho encomendado. Era a revisão tipográfica completa da edição comemorativa do Centenário de uma instituição cujo nome não vem aqui a propósito. Os trabalhadores da mesma (designados como “colaboradores”, como agora é moda dos “sinergéticos”), às largas centenas, lá têm os honrosos nomes escarrapachados. Revi aquilo tudo. Pus acentos onde os deveria haver, descolei justaposições, tirei e pus negritos, tudo. É trabalho picuinhas, mas que adoro fazer. Como recompensa, e à sorrelfa, copiei alguns dos apelidos mais peculiares. Como se trata de obra dada à publicidade (i. e., a lume público), tudo bem. Não é informação confidencial. Ei-los, a alguns desses nomes tão lindos, giros e bonitos, para Vosso deleite, que meu foi também:

Lúcia Alá (sim, verdade)
Coelho Calado Cortes (sim, tal e qual)

E AINDA

Santos Bem
Serigado
Casquinha Branco
Paliotes
Pepe Toninho
Labreca Maduro
Bleck Louza
Stélio Pino
Plácido Pisa
Nogueira Pica
Caciones Marreiros
Lúcio Franganito
Rosa Narra
Violante Matado
Bogango Bonito
Carasco Mosca
Beiçudo São Braz
Amante Honrado
Tendinha
Mealha
Calçarão
Achando da Costa
Terceiro
Pargana
Estiveira
Louzeiro
Papuchinha
Mota Mosca
Pompónio
Carepa
Chumbinho
Pernão
Ganhão
Nugent
Galante
Fontenete
Horta Lago
Bragada
Inverno Barroso (pois…)
D’Avo Neto
Pascoal Amendoeira
Verdasca Carvalho
Rabita
Borga (deve ser meu primo)
Passarinho
Machacaz
Doutor de Assis
Parracho
Conchinha
Vinagre (deve ser meu primo também)
Espadinha
Chouriço
Matela
Escaramaia
Escarameia
Marmelo
Marrafa
Cachaço (se fosse no feminino, era minha prima, claro)
Higino
Marouvo
Balão
Leirião
Ratinho (se fosse no feminino, era para Verdasca Carvalho…)
Tibúrcio
Arteiro

E AGORA REPARAI NESTES DOIS:

Sim Sim Penetra
Bacalhau Alho

E AINDA

Palancha Canudo Chouriço (sim, uma pessoa só, aqui não há truques)
Barsiliza Mazaroto Orelha (chiça…)
Borracha Martins
Pato Oca
Barqueta Bragadesto
Ferreira Carracinha
Maduro Ilhéu
Farinha Pimpão
Canoa Hora
Costa Folgado
Costa Potes
Travanca Pela
Mariquito
Remísio
Lopes Quina
Generoso Boto
Velez Sátiro
Mansinho Gens
Caramujo Branco
Pechina

E para acabar, esta delícia:

General Abelha.



Saturday, July 20, 2013

Soneto feito há minutos em caderno estreado há pouco



EM SEQUEIRO

Leiria, 20/VII/2013, sábado



Ao sequeiro dos anos, as imagens verbais
tendem, algumas, a consolidar-se em pétreo éter.
Inumeráveis & inomináveis sempre, as aves reais
também escrevem & lêem também, preciso é ter

pão justo e enxuto arroz que se lhes ofereça.
Na idade da humidade, os ossos rangem capciosos,
já o derradeiro Inverno, em coração & cabeça,
faz dos prazeres ínfimos os mais capitosos.

Esta tarde, emudecido em ermo benévolo rincão,
soliloquaz se me volve, por escrito, a solidão.
Mas dei já a pombas (duas) e a pardais, uns quatro ou três.

Iço ora o cós das calças, reordeno os artigos do bornal,
saúdo a senhora Rita, que fecha p’ra descanso semanal
e vou de soneto feito, como me vês & aqui lês.

Thursday, July 18, 2013

Rosário Breve n.º 318 - in O RIBATEJO de 18 de Julho de 2013

Rio Sabença

Nos tempos mais recentes, tenho sabido abster-me de comentar por escrito a tragifarsa pulha da política à portuguesa. Por razões curiais e duas: uma, por higiene mental pura e simples; outra, por não querer engrossar o lote de comentadores e de “tudólogos” que infestam os jornais, a internet, a rádio e a televisão, chusma quase invariavelmente abaixo de medíocre que me levou a tornar-me num especialista do “zapping”.
Alheado (mas não alienado) dos fedelhos da tríade PSD-CDS+PS (a quem Cavaco instigou a “salvação da Pátria”, assim de facto e deveras exortando aos gatos a convalescença dos ratos), salva-me diariamente a boa sorte de ter perto da porta um rio que passa e fica. Todos os dias o abeiro. Mirando-o em silêncio, permito-me reiterar a volúvel essência da transitoriedade. Da banda d’além, panos de relva bem cuidada verdejam ao sol. A luz resulta em puro ouro açucarado à língua dos olhos, que as águas vitrificam aos pirilampos numa hialurgia sem cotejo possível. Mães jovens infantam de carrinhos-bebés o areal dos passadiços. Corredores calvo-cinquentenários destabacam os pulmões ortopedicamente. Sonetistas concorrendo a prémios município-literários florilegiam rimas difíceis e vácuas. E homens-sexuais discretos cobiçam óptico-lambedoramente o rapazinho que há muito deixei de ser. Assim, de borla e em graça, me imunizo a vesânias & tristuras, ostracizadas as fialhescas caganifâncias do nosso triste cenáculo lesa-pátrio.
Contra o rio que perto passa de onde a casa me fica, nada pode a esquadrilha de moscas poedeiras do “comentário”. Nada. Ante o eflúvio, sinto-me natural como a chuva e o pardal. Brandos zéfiros e suaves favónios ventilam-me a respiração, pacificando-a de uma doçura e de uma paz de que há muito me não julgava merecedor.
Queiram o meu paciente leitor e a minha formosa leitora pastar de olhos comigo a cena cardial de tanta serenidade: de oriente, um congresso de cirros nimba a coalhos o azul-forte do firmamento; a ocidente, sente-se como se aqui mesmo a mesma ânsia oceânica; do norte, a perenidade lavada da pedra que encima o repouso terminal de meus Pais; e a sul, a invencível beleza do Ribatejo e das minhas leitoras.
Nem por um instante se me desatavia a compostura: à cacolalia-tatibitaite de marcelos, santanas, moitas, sócras, pachecos & quejandos nadas, oponho um nefelibatismo todo-o-terreno de largo espectro de acção filantrópica. Chouso sem remorso o meu coração mental a tal escória. A tais choutos, contraponho, firme, uma passada vertical de vertebrado pobre mas sério. Vale-me a magna Natura de cartapácio. Álamos, faias, salgueiros & plátanos perfumam-me em e de uma supina gentileza a mais diáfana. E a simples visão de um cão a dormir à sombra, pela torrefacção da mais alta hora da tarde estival, é quanto me basta para ser uma espécie de cenobita sem pecado ou mandamento.
Nada me custa, por outro lado, reconhecer ante Vós, e de viva voz, que, assim, nunca, como o meu País, estarei de volta aos “mercados”. Que nenhuma mordomia gatuna encourarei em arca mealheira. Que nenhuma filha de banqueiro me espremerá o acne. Que, por assim dizer, jamais me cinhajardinarei em uma Cascais-wanna-be-Saint-Tropez, benzido de frivolidade e em lustral aparato de gardénia de plástico. Isto porque: não é que a idade me haja trazido sabedoria – mas é que me trouxe a arte do desprezo.

Para guarda-rios, convenhamos, já não é pouca sabença, indo/ficando o longo rio breve da vida idem.  

Thursday, July 11, 2013

Rosário Breve n.º 317 - in O RIBATEJO - www.oribatejo.pt

Se queres ser gente, chama-te Bruno

A edição pretérita deste nosso/vosso O Ribatejo assuntava, entre outros temas matrizes da actualidade de uma região cujas lezírias humedecem à luz como verdes olhos ou esmeraldas virentes, uma realidade notável. Essa notável realidade chama-se Bruno João, nascido há três décadas apenas. Vinha a páginas 19, no entrecho do suplemento especial que a Redacção dedicou a Mação.
Bruno João é rapaz’omem: já fez a tropa, já lhe nasce a barba, já lhe reluz ao anelar esquerdo a forca de ouro dos matrimónios consumados. Em cinco colunas e duas fotografias, o jornalista (que não assina, mas deveria tê-lo feito, por bem feita que a coisa está e fica) revela-nos um cidadão que não ficou em casa à espera do que e de quem não prometia vir. À face da terminação da ligação contratual com a Força Aérea e ante o espectro do desemprego, esse ócio óxido de corpo & alma,  olhou-se ao espelho e viu-se reflectido em barbeiro. Comprou uma carrinha (com gerador, painel solar e tudo), comprou uma tesoura, comprou uma navalha. As mãos ficaram-lhe de borla desde a nascença. A vontade de fazer vida trabalhando parece que também. Ei-lo, pois, de aldeia em aldeia, a períodos certos como a lunaridade feminina e as asneiras do desGoverno. Tine dextra em sua mão a prata inox da dupla lâmina, desarbustando o excréscimo capilar do freguês. É cena portuguesa: qual a estridente buzina do peixeiro ambulante atraindo o mulherio, assim a mornidão parlamentária de todo o barbeiro atrai os aposentados, que, a pretexto de aparar a grenha, acodem ao Bruno João como a mariposa à bugia acesa.
Mação, para seu bem (A Bem de Mação, parafrasearia até), sofre a visita benigna deste profissional de rosto suave e delicada delineação, a troco de uns trocos que, dourados, lhe creditam o gasóleo, a atitude e o invencível verniz natural das unhas que trabalham sem ser por viola, ou guitarra, de cigarra.
Sinopse: Bruno João tem trinta anos. Ficou sem trabalho. Não se ficou. Ex-militar, aparou por treino o próprio cabelo, primeiro. Depois, desgraçou com graça e de graça alguns colegas e amigos. Meteu papéis de matrícula na Escola de Barbearia do Centro de Formação Profissional do Penteado, Arte e Beleza. Diplomado (sem ser à Sócrates &/ou Relvas), fez-se à estrada e à vida.
Era a páginas 19 de O Ribatejo de 4 de Julho pretérito. Aprendi que ser Bruno ajuda muito a ser gente. O nosso barbeiro é Bruno e João. E fontes as mais fiéis minhas me garantem que o tal jornalista também é Bruno. E Oliveira.

Leitor: queres assim ou mais curto?

Thursday, July 04, 2013

Rosário Breve n.º 316 - in O RIBATEJO - www.oribatejo.pt

Um gozo diferente da comum gente

Nas terras pequenas, as existências idem são por vezes mosqueadas de um gozo diferente do da carne (viva ou assada), por a ela concorrer tão-só a serotonina específica da emoção má chamada “desforra”. Nas terras maiores não será talvez muito diferente, mas disso não falo por coerência retórico-geográfica: nada valho, nem (d)a terra onde vivo. Mas adiante.
Foram os casos, esta semana, da queda daquela arrastada e paulatina e errada figura tão desfasada do real como os islamitas do toucinho, os indianos da higiene e o zamericanos das crianças desarmadas, amailo da condenação efectiva a dez anos de prisa daquele quisto lustral que em má-hora soube guindar-se ao leme de um Clube que já viveu melhores assembleias e melhores coloniais.
O gostinho a pólvora no palato da alma substanciou-se-me de uma doçura que já só pertence ou à justiça inequívoca ou às crianças desarmadas.
No dia da demissão do ministro que falava devagar e prejudicava depressa, regressava eu a casa de uma incursão de cinco dias à minha cidade-natal. Dei por mim, quando soube da velha nova, a assobiar solfejos de adolescente a quem o futuro é um futuro de sentido obrigatório, proibido é que não. Libei a nova (no sentido de “notícia”, que às vezes tenho de explicar tudo) apeadeira com uma tacinha fria de branco agulhado da Mealhada que me soube a champanhe em Montmartre sustido em sovacos por coristas do Moulin Rouge.  
No dia seguinte, soube-se daquilo do burlão que ainda gozou uma data de tempo o preto e o prato em Londres até que o TriboPortunogal o cangou a preceito. Sorri então eu o mais escarninho dos meus rictos – se o Vale e Azevedo, por uns (não muitos, mesmo assim & afinal) milhões, apanhou o que apanhou, quantos não apanharia (em milhões e anos) o Gasparzito, o Lento-Rápido, no caso de as fraudes com direito a carimbo governamental serem vistas e tidas e entendidas e punidas como tão criminosas quão as do foro privado?
É ciência corrente que “com uma pistola se rouba um banco, mas com um banco se rouba toda a gente”. O roubar só é crime, sabemo-lo, dependendo do lado do balcão. Ora, esse (não tão metafórico quanto isso) balcão ladra e morde. Já o médico (por regra) se distingue do político (com excepções) por isto: aquele jura por Hipócrates, enquanto este é um hipócrita que jura. Entre o Gaspar e o Vale, no cadinho já não crisol do meu entendimento, a diferença está na evidência de o advogado só ter lixado o Benfica, ao passo(s) que o alegado “génio financeiro” deu cabo do Benfica, do Sporting, do Penafiel, do Lusitano de Vildemoinhos, do União de Tomar, das Académicas de Coimbra e de Santarém e de Newark, da Segurança Social Futebol Clube, do Comércio & Indústria das Relações com as Mulatas de Cabo Verde, da Juventude Salesiana do Tempo em que os Hoquistas de Doze Anos ainda não Eram Vítimas de Pederastia, do Futuro dos Nossos Filhos Todos sem Excepção, do meu vizinho João, do Pequeno Retalho de Famalicão, do Bom & do Mau Jesus de Braga, mais de Quem Consome, se Some e não Paga, dos Pescadores de Caxinas, do Alterne Lusobrasileiro das Meninas, do Barbeiro Abel, do Tanoeiro Ismael, do Copeiro, do Furriel, do Porco & do Respectivo (do Porco) Granel.
Vale e Azevedo tem muito quem o substitua. Gaspar só teve, ou tem, esta bracarense chamada Albuquerque que, ninguém sendo de facto, se deu já ao luxo-lixo de deveras mentir, antes de Ministra ainda, ao Parlamento. Triste sina e triste sino: tudo por nós dobra. Tudo nos cobra. Deve ser obra.
Jure-nos Hipócrates, ainda que nos não cumpra.

Antes um menino daquele do zamericanos de pistola na mão e do tamanho antropométrico do novel desempregado, vulgo Gaspar, vulgo qualquer coisa dessas. 

Friday, June 28, 2013

Rosário Breve n-º 315 - in O RIBATEJO de 27 de Junho de 2013 - www.oribatejo.pt



Fala um pobretuguês

A vida – ou é politécnica ou dá em ser chilra como as águas de bacalhau. Já quanto a tal não engordo o bacorinho da dúvida. Por teologia portátil, sou tão-só um não-católico praticante. Não sofro Deus lá em cima nem temo do Diabo o baixio. O que se acha no fundo de cada copo é o desencontro. O desencontro e o desencanto, que o retorno à sobriedade pune e agrava.
Longamente esperei Junho – para isto. Isto sendo: na abcissa do paladar, o abcesso do couro molhado em a malvasia da melancolia. Isto é um País que nem Junho melhora. Deve ser porque a minha doença se chama Portugal. Ou Pobretugal. O amor é uma doença, ninguém com dois dedos de testa e duas unhas de coração raciocinante (m)o negará. Padeço de me serem portuguesas, ou pobretuguesas, a vida e a condição. Acontece que convalesço mui mal de tal enfermidade. Entardenoitece-me o espectáculo reiterado da estupidez mineral de um ex-Povo. O nosso. Portador embora de uma Língua superlativa e como nenhuma outra milionária de sílabas do mais fino quilate áureo, multissecular já, a Malta continua a dar o crânio por mesa de onde lhe comem as papas. Entenebrece-me que os mandadores planetários (amailos seus lacaio-caudatários locais) possam impunemente condenar a comum gente a trincar areia por pão. Por extensão, desfanica-me a coragem que o meu País se veja, à maneira titular de Irene Lisboa, com uma mão cheia de nada, outra de coisa nenhuma.
Entanto, a terça-feira para que renasço, 25 de Junho, é de uma limpidez prístina que até dói. A Luz é maiúscula como um avesso de Lua – e de redundante quididade. O esplendor é prodigioso qual um trecho camoniano (um qualquer). Como vela à bolina fresca, a aragem empluma levezas de pele que se dá ares. Fragrâncias de limoeiro confirmam da passarada a condição de porta-perfume. Tudo se aguarela muito, tudo se me afigura recente de si mesmo. Junho floresce perigosamente como a esperança. A esperança seja do que for. A esperança que é perigosa por consistir em usança da espera. Mas esta Luz ajunhada, esta claridade que dá perfeitamente para perceber, por essas ruas & praças, quais os cônjuges que pela noite se refizeram eroticamente sudoríferas branduras e quais os que não.
Despertar para a legibilidade humana sempre me permitiu, até hoje, a não, por assim dizer, d-existência. Nasce-se com defeito e morre-se perfeito. Há quem se minta o contrário. É talvez porque a morte torna anterior até o futuro. E porque ela já (nos, a todos) começou nos lugares onde estivemos e a que não voltaremos. É por isso que tanto faço por voltar. Voltar por voltar. Voltar para viver. Ainda. Um pouco. Mais. Ainda que não física ou geograficamente, voltar para e em frente da lembrança. Tenho (temos todos) uma máquina-do-tempo para o efeito. Chama-se Memória.
O amor é cego.
A memória é o cão do cego.
Assim pude escrever, resgatando-me, mercê deste dístico, há uns poucos anos e em sítio e para gente a que não voltarei, de uma manhã parda, vivia eu então numa merdaleja qualquer certas minhas horas más de anos não bons.
Fora de portas, a Realidade rosnava ameaças peremptórias: pobreza, desemprego, álcool a mais, fins-de-linha. Ainda rosna, mas retorquindo-lhe lhe vou, a instantâneo prazo, em, por assim dizer, r-existência. Escoro-lhe de livros bons as horas más. Esturrico-lhe de versos tónicos as veleidades materiais. E desminto dela, em paleta arco-irisada, o pretobranquismo de suas práticas e feias fauces.
Estragou-se-me ontem o telemóvel, não tenho dinheiro para outro e não quero saber. Quem quiser falar comigo, que me escreva. Outra coisa não tenho feito estes já tantos anos todos. Tenho andado mais macambúzio que de costume por causa de um documentário que há dias revi pela TV. Era sobre a breve vida (mas perene obra) de um grand’enorme artista: Mário Botas (1952-1983), português da Nazaré. Morreu aos 31 anos, como o meu irmão Jorge. Mário e Jorge gostavam ambos de Egon Schiele (1890-1918). Outro que morreu tão novo.
Por contraponto, acabo saudando o ter vivido já os meus 49. Ninguém mos tira, por mais torçam Deus e o Diabo os respectivos rabichos de saca-rolhas de bacorinho. Assim contra os canhões marcho, afinal, no esplendor de Junho, se não de Portugal.

Thursday, June 20, 2013

Rosário Breve n.º 314 - in O RIBATEJO - www.oribatejo.pt

Vai devagar antes que tomates alguém

Não foi ainda desta que me fiz presente na sempre aparato-grandiosa e scalabitana Feira Nacional de Agricultura (FNA). Não por culpa da Organização mas por causa da minha matripatrimonial senhora, que pouco me deixa sair de casa. (A não ser por escrito – embora uma só vez por semana e só até 3500 caracteres em página última. Misérias suaves, enfim, as minhas. Adiante.)
Por modos que não fui à já hemissecular FNA (acrónimo a que só falta um C final para vender best-sellers e cêdêvêdês com fartura ou um T terminal para homografar a estadonovista antecessora do INATEL que Deus tem). Não fui eu mas foi o Portas, o inefável Portas, o cândido Paulinho, esse exímio fandanguista de arraiais, esse incansável e quase lúbrico osculador de peixeiras, esse ASAE bonzinho que mais depressa caça um voto à viúva zarolha dos tremoços e ao cigano contrafactor da Benetton de Avintes do que o Diabo se esfrega o terceiro-olho à Lobsang Rampa. A falta que lá não fiz, fá-la-ia o adocicado PP, ex-enfant-terrible do gorado e não saudoso Independente, fotocopista licencioso e multiusos de documentos da Defesa Nacional, hoje tão depressa feirante da diplomacia como amanhã diplomata das feiras. O preclaro Portas! Utente malapato e malacafento de uma “clareza” no explicar-se chapeada a rebites de onzeneiro judeu à la Gil Vicente, beato como um guarda-redes de mesa de matraquilhos em salão paroquial, o PP do PP está para a sinceridade como o Gaspar para a rapidez fonética, o Relvas para os estudos, o Crato para uma decente carreira docente, o Alvarinho para o livro Anita Procura Emprego, o Coelho a cantar a Nini, o Soares para a mocidade (portuguesa), o Seguro para a maturidade, o Alegre para a poesia a sério, o Goucha para a Playboy e eu, nem que uma vez só na vida, para a FNA.
Não fui. Perdi eu. O mais longe que fui, foi ali à Rita, primeiro, e à Rosa, depois. Ambos os estabelecimentos são de boa índole cafeíno-licorosa, ambos graciosamente oferecem a leitura sempre auspiciosa do purulento Correio da Manhã. A propósito deste periódico (recorrente tripulante, aliás, da nave da minha mundivisão), dia 15 passado foi um bom dia. Na rubrica Mundo Louco (súmula, afinal, de todo o jornal), auferi a alvíssara de não ter ido à FNA. Era a páginas 29. Um alegado poeta colombiano chamado Brochero (pois…), frustrado com a indiferença que em sua/dele nativa América do Sul lhe devotam ao respectivo escrevinhanço, propunha-se fazer uma viagem à Europa no intuito de divulgar o seu/dele livro mais fresco, uma decerto pataratice intitulada “Poesia pela Paz”. O problema dele era o que o nosso é: dinheiro, nicles. Vai daí, no propósito sempre louvável da angariação de verba pró-verbo poético, lembrou-se, o palerma, de leiloar os próprios testículos. Sim, as próprias bolsas gónadas. E isto a partir de uma licitação de coisa de 15 mil euros. A sete mil e ½ o guizo, portanto.
Notai, meu fiel leitor e deslumbrante leitora minha, que bem mais bocejo eu do que pasmo, na idade não ínclita mas madurota já a que já cheguei – e que é de apenas menos um do que os cinquenta anos nesta edição festiva e justamente celebrados pela FNA. Mas perante coisa assim, confesso, pasmei. É que nem dá para gozar. (Ou dará?)
Pacificou-me todavia uma arte que mui hei desenvolvido até ao presente hoje-dia: a da contrastaria.

Contrastei assim: para publicar um livro, posso não ter os tomates provisórios do Brochero, mas também de nada me adiantaria, para efeito de me ver em prelo e escaparate e JL e tudo, cercear-me a virilidade dos jardins-suspensos ligeiramente refrigerados na sub-reentrância das axilas de baixo. Ou seja: nem cortá-los para pública haste, nem ter ido ao 10 de Junho a Elvas, efeméride e sítio onde o senhor Presidente da República, discursando, também se pôs a falar de uns tomates que naquele certame em particular não havia, como os figurativamente não há no resto do arraial político deste eunuco País.

Thursday, June 13, 2013

Rosário Breve n.º 313 - in O RIBATEJO de 13 de Junho de 2013 - www.oribatejo.pt



Exemplares (&) portugueses

Estou certo de que o farei para o resto da vida. Digo: a observação avulsa de exemplares portugueses. Em pessoa(s), claro. Ruas & Cafés constituem as torres-de-vigia ideais para a consumpção do mirone observatório. Revisto-me, para o efeito, de discreto vestuário (cinzentos, castanhos, azuis obscuros) e ponho-me a receber de boca fechada (em cujo imo se abre a Língua) o aparato mundial à escala local.
O primeiro exemplar de hoje é uma febra pequenita de seus/dela cinquentas e picos. Ardem-lhe por faces duas rosáceas sanguíneas, a que presidem uns olhos aguados e tristolentos amaila cera amarfinada de umas orelhas pingonas e ratiformes. Inquiro dela em sede da Rosa do Colonial, que dela me garante a bonomia pessoal, não obstante certa vocação para o encornanço de quanto macho lhe logrou cravejar até hoje (até ontem mesmo, digo) a (de)posição horizonte-ventral. Chamemos-lhe Dina. Dina Men.
O exemplar segundo é um ronceiro barrigudo de pelagem arbustiva (peito, barriga, pulsos, sobrancelhas, pezunhos) com muitos anos de França mas nenhuns de Voltaire ou Prévert. Arca-encourou umas milenas jeitosas. A primeira coisa que fez no retorno definitivo ao torrão pátrio foi contra o torrão pátrio: votar no Cavaco, passando depois a eleger os seus (dele, Cavaco) derivados, incluindo os do PS. Usa botinas de elástico preto envernizadas a cuspo e boné à Pedroto. Tem mais q.b. do que q.i., pelo que investe em tremoços o que pelo mesmo preço lhe ficaria em camarões. Chamemos-lhe nomes.
O terceiro espécime, encontro-o sem surpresa nem alarde ao espelho do lavatório do Café. Finge um olhar que já tive e de que só me sobraram os olhos bagáceos e piscos. Conta-que-Deus-não-fez, este n.º 3 arroga-se colunista encartado, arriscando em verso o que lhe não sobra em prosa ou raciocínio fundamentado. Veste todavia com razoável discrição: cinzento, castanho & obscuro azul. Chamemos-lhe Vazdeluiz.
Servirá este penúltimo parágrafo de recensão sinóptica ao motivo vero da presente crónica: ser português tornou-se, de vez, um ofício triste. É verdade que nos barbeiros ainda o Jornal de Notícias serve de evangelho, mas a delícia porno-rosa do Correio da Manhã é que enxameia os Cafés e as almas de uma enxúndia crápulo-criminológica cuja suma nadice é homiliada aos domingos por esse portento da vacuidade Moita Flores chamado (sempre a páginas dois). É por igual verdade que a manjericação santantoninha perfuma de assada sardinha o País que sobra de Lisboa, a Macrocéfala sem Cabeça, mas o mais é a maltosa de aquém-Aveiras e de além-Barreiro ter de lhe(s) pagar as Expos, as (a)Fundações Soares e afins rendimentos máximos garantidos. No fundo & por cá, tudo é verdade, a começar pela mentira. Nisto, o parágrafo cede vez & voz ao epílogo aliás discretamente preparado: o trocadilho em tríade para bom entendedor. Esta porra toda para que:

nem isto Portugal, nem eu Camões, nem ela Dinamene. 

Thursday, June 06, 2013

Rosário Breve n.º 312 - in O RIBATEJO - www.oribatejo.pt

Carlos, Ionesco e N’Dinga

Os livros bons são os que procuram (e encontram) gente que coincida com eles. Há anos que porfio as estopinhas para ser capaz de um – até hoje, porém, nem um dos que já fiz ao desbarato dos anos me trouxe população a suficiente para uma matraquilhada completa: a minha carreira por assim dizer literária tem sido jogar sozinho ao varão da baliza e ao idem do ataque. Cheiro a óleo e a pano de desperdício, mas coincido comigo. É justo. Mas.
Mas, aqui há dias poucos, aconteceu-me uma epifania gentil. Foi no Café Colonial (o da Rosa, vós sabeis, aquele ali além). É lá que me dedico às minhas três principais tarefas: escrever, escreviver & escrebeber. Cada uma leva às outras duas. (Posto assim, parece magia – e é-a.)
Foi portanto no Colonial da Rosa. Tinha eu acabado de revisitar uma frase portentosa de um gajo romeno chamado Ionesco: “Cada um de nós é o primeiro a morrer.” Senti-me logo coincidido. Verdade. Um gajo nasce como toda a gente, mas morre só como só um. A vida é tipo Maria-vem-como-as-outras. A morte faz-nos príncipes, aniversariantes do mesmo eterno dia. Pena que tal palaciana glória dure tão pouco, pena tanto gás para tão pouco champanhe. Mas adiante.  
Foi então que ele entrou. Chama-se Carlos. Cavalheiro freguês, há bem mais décadas do que eu, do Colonial, é de olhos líquidos, vívidos e vividos. Delicado no falar e no manusear, a primeira e talvez mais definitiva impressão que dá – é a de alguém que gosta de viver. E do que viveu. E do que viver lhe falta, por tanta falta sentir que viver lhe faz.
Este senhor costuma tomar o abatanado e a meia-torrada em mesa da minha vizinha. Deve ter pensado, se calhar mal, que eu seria capaz de escrever a história dele. Que é esta:
A 17 de Julho de 2005 foi-lhe diagnosticado um linfoma sublingual. Cancro. Cancro tem seis letras, a primeira é C – como Carlos. Ele tinha completado 57 anos oito dias antes: era um rapaz, portanto. Moço de mais para saber se Ionesco está ou não certo.
Até então, uma vida de trabalho resgatada aos trabalhos da vida: moço-de-recados aos 13 anos, contabilista aos 19 (idade em que se casa com outra criança como ele), supervisor turístico aos 24. Falida a Torralta para que trabalhava, embarca a partir dos primeiros tempos pós-25 de Abril no ofício de “olheiro” de futebol em África. Para Vitória de Guimarães, Desportivo de Chaves, Leixões, Rio Ave e FCP, viaja e “olha” por Gana, Zimbabwe, Congo(s), Mali.
Acumulando-se representante de vinhos alentejanos e durienses na zona Centro do País, conhece finalmente Ivone, que para médica estudava em Coimbra. Casa-se com ela logo que pôde, que só olhar, mesmo por ofício, não chega, mesmo para o caçador de talentos nela, mulher, confirmado. Trinta anos passam num fósforo. Até esse 17 de Julho de 2005. Linfoma. Na base da língua. Cancro. A morte na boca antes de no papo.
– Daniel, é uma rua escura. Não tem luz. Não tem janelas.”
Mas tem Ivone.
Sabe o povo, e di-lo bem, que quem se ionesca ao mar, ivona-se em terra. Médica sempre, mas esposa para sempre, revolve céus e lezírias em prol do pai da sua Catarina. Voltam ambos à Coimbra do tempo primeiro em comum. Vão ao IPO, onde o(s) acolhe(m) o doutor Arnaldo Guimarães e respectiva equipa.
Há oito anos que a tal “rua” voltou a ter “janelas”.
Digo eu, sem errar muito talvez, que janelas são o lapso espácio-temporal por que transitam o dentro e o fora.
É neste ponto que o Carlos, levando como todos os dias o almoço à mãe (aos 64 anos, ainda tem mãe, o danado, o felizardo), me sopra uma manchete que o Tempo me torna impublicável: sussurra-me ele que, há coisa de valentes anos, esteve vai-não-vem para trazer o Ionesco para o Guimarães, mas que a coisa só se não concretizou porque os vitorianos preferiram o zairense N’Dinga, que não era romeno nem jamais constou que, como Carlos, fosse gajo para morrer primeiro, ou para, restabelecida a igualdade no marcador, não ser, para sempre, o primeiro a viver.


Monday, June 03, 2013

BAILE SOZINHO ou O INVERNO DE QUELUZ - 30 (manhã de 10 de Maio de 2013)

30


                                                                                                                                               

E do turíbulo do coração fumega o incenso moral.
Passa-se isto quando Peter “Columbo” Falk já morreu.
E quando o meu (re)conhecimento entra mortos adentro
para celebrar na mera laranja o rubi do fogo-ouro.
Suporto a tarde, é verdade, mas não sou vespertino.
Dirimo a íntima quezília, sou forte sem dados lançados.

Os presidiários conhecem os horrores diários
que aos ventos soltaram aziagamente.
Nem a vida deles paga os assassinados.
Não creio na bonomia da lei.
Quando músico-de-baile, ia ao bufete nos interlúdios.
Tomava o meu cálice e amargava sozinho.

Estou aqui que posso, não matei ninguém
e por vezes duas a alguém ajudei já a fazer.
O meu único pecado mortal,
ao Vosso igual,
é haver nascido.
O mesmo é dizer que uma mulher se me fez nascente.

Ora, acontece que nascer
não deveria ser
tão vinculativo.
Resgato-me na sabença de ler & escrever,
dois afins modos de ser
que me dão o estar, e o ser, vivo.

BAILE SOZINHO ou O INVERNO DE QUELUZ - 28 e 29 (manhã de 10 de Maio de 2013)



28

Ib.


Deixo o eu-corpo ir dar sem mim uma volta.
Dou-lhe o arroz que trouxe para efeito de pombas.
Em troca, ele deixa-me como de facto sou: em sombra.
Quando penso nos meus Amados Mortos, é o mesmo.
Tenho dinheiro para um par de cálices, meia-dúzia
de cigarros acalentam o bolso esquerdo do gibão.

Ao telemóvel, uma mulher louca queixa-se de quanto
engordou a uma remota outra Heloísa chamada.
Passa-se esta eternidade degradada no Café Colonial,
a que muitas vezes aplico tributariamente o nome de
Café da Rosa,
que hoje me (a)parece um seu tanto nervosa.

E quando as crianças sobem no ar como balões,
a gente madura sente a dor morna do ter-sido
às cores atmosféricas que o deslumbramento do Estio
volve estrelas capturadas em espelho nos fontenários.
E quando o senhor Carlos toma o seu chá & a sua torrada,
o que Leiria merenda é o pousio mais restaurador.

Por isso, podes imaginar em uma espécie de falida Detroit
inçada de motor-fantasmas, riscado o chão de poemas
a óleo. Quando o corpo me voltar, se voltar,
darei com ele a ronda do reconhecimento da luz,
que a 10 de Maio de 2013 tornou em glória franca.
E o Diabo dispara até com uma tranca.

29

Ib.
                                                                                                                                               

O Diabo até com uma tranca dispara
assim nos disse o Alferes Sardinha
em Mafra, Escola Prática de Infantaria,
acabava-se o Inverno de 1987/88.
Éramos homenzinhos verdes na parada,
marcianozitos do Serviço Militar Obrigatório.

O Abreu diz que vai deixar de fumar,
eu não fui ainda à Ereira, a Sesimbra sim.
A Trompa-de-Eustáquio silva o aquário cerebral.
Nada é tão lamentável quanto o viúvo entesoado.
Aqui na Colonial Rosa aparecem muitos,
com a agravante de as esposas serem ’inda vivas.

Leonor, ó minha gardénia clara,
volveste forte a minha vida e rara.
Teresa, jasminzito delicado,
volveste sorte a minha vinda e rara.
Não se pode errar tudo.
Esperar não é remédio.

A 8 de Março de 1988, adentrei o Convento de Mafra.
Nas arrecadações dele vive a tropa.
Aprendi a traçar o azimute & a disparar a tranca.
Cometi a melhor marca nos 80 metros: 9,4 segundos.
Disseram-me que só o Nené do Benfica tinha feito melhor.
Contei isso ao meu Pai, que viu logo que eu era para ser poeta.

Sunday, June 02, 2013

BAILE SOZINHO ou O INVERNO DE QUELUZ - 26 e 27

26

Leiria, manhã de10 de Maio de 2013, sexta-feira


É preciso ter passado, como eu passei, por vilas desertas ao domingo.
É preciso não ter nada em frente senão um salário.
Eu sabia que ia ficar para sempre na Música.
Sabia também que não me sustentaria dela mas para ela.
Suturava feridas invisíveis nascidas da fome de saber.
Como no Verão de 1991.

No Verão de 1991 trabalhei por conta de um homem que eu já era.
Perto, o regato mal respirava,
saturado de sol como estava.
Fazia as refeições num reservado invisível também:
como se celebrasse uma missa agnóstica
à impossibilidade de Deus e ao minério do Corpo.

Derredor, na volta da fonte, mulheres alheias cacarejavam
as notícias vilãs com essa tão portuguesa fúria alegre
que resulta do comentário da desgraça dos outros.
Habitava eu então um quarto muito branco
de cuja janela se me oferecia o mistério simples do dia,
que invariavelmente pintava cegonhas e campos de arroz.

Quando a alguém da Filarmónica morria um alguém seu,
fardava-me para integrar as honras da Música
à pessoa perdida. No fim, embebedávamo-nos sempre,
pois que é ponto assente a libação vínica contra
o desmando escandaloso da Morte.
E o jornal íntimo se me manchava em furor sereno.

27

Ib.


Não eram ainda as sete quando a alva me levantou.
Saí do poço que imita a morte, dei-me ao ofício de renascer.
Procurei no escuro o fato para não despertar a Mulher.
Açucarei água na cozinha, que bebi de pé não devagar.
Senti as escadas desdobrarem para mim a rua.
E depois cumprimentei o senhor Eduardo, que vinha com o neto.

Às tantas de ter 49 anos, uma pessoa já sabe o prémio do dia.
Na mercearia do bairro, caixas cantam alto a fruta.
De coxas gordas, varizmarmóreas, a senhora Juliana beijarica o canário,
que é claro como o limão e como o pão novo.
Nada me custa alcançar o Rio, sabendo nas costas o nascimento.
O nascimento & a morte.

Quando chego, estou de partida.
Assim como toda a gente toda a vida.
Exerço então o lápis qual florete,
esgrimindo o puro minério (a pura chispa) do Verbo.
Almoço a saturação da Música, das casas encerradas
à passagem do rei morto.

Canto para dentro o meu Sá, o meu Garção.
Finjo que não componho qualquer canção.
Ponho-me a arabescar as árvores maiores
enquanto desfloro rosinhas de, digamos, torrão-de-Alicante.
Então, a glória banha-me todo, torna-me lustral
como uma tocha de gelo, como um homem para o fogo.