Thursday, May 29, 2014

Rosário Breve n.º 360 - in O RIBATEJO de 29 de Maio de 2014 - www.oribatejo.pt



Vai uma chanfanada?

1. Não me lembro se já V. contei ou não a anedota mais intelectual que conheço. Passa-se com duas cabras.
Estando ambas muito omnívoras numa lixeira, acontece que uma delas encontra num monturo a bobina do filme E Tudo o Vento Levou. Curiosa, a outra pergunta-lhe:
– Então  ’tás a gostar?
Ao que a protagonista responde:
– Hum, gostei mais do livro.
Não sei bem porquê (mas sim, sei bem porquê), emergiu-me à memória & à mão esta graciosa fábula quando, e logo que, me foi dado saber que, na sequência e em consequência da pírrica “vitória” do PS nas recentes Eleições-dizem-que-Europeias, Costa se prepara para confrontar e apear, de frente e de vez, o inseguro Seguro. A recorrência da cena das cornúpetas mastigadoras justifica-se, penso eu: é que, à bobina do actual líder cor-de-rosa, muita gente prefere a versão paginada do edil de Lisboa. Não sei se estais a ver o filme…
2. O eventual sorriso que, mercê da história das vorazes cabrinhas, possa ter-Vos ajudado a aflorar à labial comissura encontra paralelo, julgo, noutra boa notícia para a lixeira que somos: corremos para Bruxelas com o Marinho da ANOP, vulgo Doutor e Pinto. Canastrão dos costados, truculento de feições como de interjeições, cabotino não raro, o referido e súbito arauto do ecologismo humanista do MPT pode, espero eu mui bem que sim, autodesprotagonizar-se, por assim dizer, das pantalhas telerradioactivas, onde tem sido tão ou quase tão assíduo quão o tisnado e cabisbaixo Moita Flores e o efabulador José Hermano Saraiva que Deus tem se tiver. Desse filme, gosto eu – armado em portador de fendido casco.
3. Por esta altura da crónica, já consabido e avisado está o meu Leitor de que a semana me deu para o anedotário. Sou dado a ridentes vilezas, confesso. Mas nem sempre. As mais vezes, tendo mais para o sorumbático, para o bilioso, para o linfático & para o triste gozo. É até mais difícil apanharem-me a rir do que ao edil Ricardo Gonçalves em alguma procissão, esse jogging das alminhas veneradoras & obrigadas. São manhas minhas: para não chorar, rio-me. Como suponho que o mesmo Costa a esta hora mesma faz, ao avesso do que se desfaz, por este instante, o desmesmo Seguro.
4. Por aí cabritando alegorias, resta-nos o cada vez menos Bloco e cada vez mais de Esguelha. Aquilo da bicefalia comandatária não é coisa, digamo-lo assim, nem muito sã nem muito louçã. A miúda não convence. E o pachorrento Semedo também não. O esvaziamento salta às vistas. Suponho que a marijuana não fica legal tão depressa quão o casamento gay. E é pena: porque é analgésica, porque faz rir e porque é erva. Ora, toda a gente sabe quanto, havendo-lhe acesso, as cabras preferem o herbáceo natural ao incidental lixo. Mas, é claro, tudo depende do bicho.
Ou da cabra que se apanhe, seja na biblioteca de casa, seja num cinema perto de si, aqui na Lix’Europa do nosso desconsolo.

Friday, May 23, 2014

Há precisamente 28 anos que adormeceu de vez o meu Irmão Jorge


Jorge Manuel Leite dos Santos Abrunheiro
5 de Setembro de 1954
23 de Maio de 1986

Thursday, May 22, 2014

Rosário Breve n.º 359 - in O RIBATEJO - www.oribatejo.pt




Palavras cruzadas

“Uma vida em segunda-mão não tenta ninguém.”
Di-lo Katharina von Bülow em A Alemanha entre Pais e Filhos, tradução que as Edições Cotovia publicaram em 1988 entre e para nós.
Na banca ao lado daquela miniFeira do Livro, por os idos do Março passado, encontrei também o José Cardoso Pires de Dispersos 1 – Literatura, que a Dom Quixote nos propôs em Maio de 2005. A páginas 255 desse caderno póstumo, recolho um ditado bretão que o Autor de O Delfim achou por bem nele incluir: “Até aos vinte anos, o homem tem a cara que Deus lhe deu, daí em diante aquela que merece.”
Diz então Katharina:
Zé, olha que ‘uma vida com sentido não é a sobrevivência pura e simples. Acomodar-se às coisas é renunciar.’
E ele assim para ela:
A quem o dizes, Katy, a quem o dizes!  ‘O repouso do guerreiro mata o guerreiro, é essa a sua ingenuidade.’ Mas olha que ‘a felicidade individual requer planificações políticas amplas e ambiciosas. O burocrata, o carreirista da governação ou o legislador provinciano têm pavor aos projectos vastos’.
E ela assim para ele:
Verdade, meu amigo. ‘O país só tem sentido se lá possuirmos uma casa. E uma casa só tem sentido se abrigar uma família.’
Zé:
Katy, a propósito destas coisas inteligentes que aqui cruzamos para gáudio de um cronistazito de comarca, ouviste dizer que pertinho de aqui onde estamos, ali para riba do Tejo, lixaram o Melão?
Katy:
Não me digas! O Tó? Fizeram-lhe isso?
Zé:
Fizeram.
Katy:
Trinta e um, então.
Zé:
31? Isso é nome de fadinho, cá pelas minhas bandas. Mas q’ais 31?
Katy:
O Tó mais os 30 que a ViverSantarém vai despedir.
Zé:
Essa ’tá boazinha, sim senhora. A menina ajeita-se a fazer descontas, já vi.
Katy:
Que fará ele agora?
Zé:
Com aquele nome, sempre é gajo para arranjar emprego em Almeirim.
Katy:
Não sejas mauzinho. Estávamos a conversar tão bem lá em cima, com datas de edição e páginas e tudo.
Zé:
Pronto, a graçola sempre nos serve de escape ao facto de a política ser a ‘manobra do dia-a-dia, solução a reboque dos acontecimentos, que é, em termos de administração, o caminho tradicional dos providencialistas e dos caciques domésticos’.
Katy:
‘Ontem pertencíamos a uma nação, hoje somos caça.’ Acho mesmo isto, Zé: ‘Nós somos caça, acasos, heranças absurdas.’
Zé:
Isso está bem posto, rapariga. ‘O homem contemporâneo que se julga integrado numa idade de progresso (…), pobre dele, vive paredes-meias com a contradição elementar e o anacronismo.’ É como tu mesma disseste, menina: ‘De eleitores cobardes, democratas dóceis’…
Katy:
Sabes tu? Tenho por vezes ‘a impressão de andar ao lado dos meus passos’…
Zé:
Também me acontecia muito, mas agora menos, que estou morto.
Katy:
Não de todo, Zé, de todo não: alguém nos faz ’inda falar. Nos faz ainda ser, portanto.
Zé:
Valha-nos isso. Somos o que merecemos – como os bretões. E já não temos vinte anos.
Katy:
Tudo bem, desde que vivamos em primeira-mão.
Zé:
Não digas isso assim, que rima com Melão.


Dia feriado do Município de Leiria. Ideal para maluqueiras em verso (caderno 30 da série LEITE DOS SANTOS)

19

AQUI NO CAMPO É DIA FERIADO

Leiria, manhã de quinta-feira, 22 de Maio de 2014

Em pleno feriado, esta calma de campo desertado.
Mais livres me parecem as aves ao fresco.
Mais livros me parecem os campos da ave fresca.
Os toxiarrumadores não têm hoje que fazer.
Aborrecem-se devagarinho sem pão nem ópio.
Friúra de azulejo por gravura.
Estou aqui mui assentadamente contente.
Gosto do campo.

*
**

Durante muito tempo acreditei na dádiva de si
com que cada um(a) finge entregar-se.
Como este homem de carão vermelho-sanguíneo-rubi.
Como a minh’antiga gata nas canelas a esfregar-se.

Sei hoje que não é preciso um(a) acreditar-se.
Todos antes por nenhum(a), cada um(a) por si.
O de rosto encarnado veio, creio, empanturrar-se.
(& eu interrompo o soneto par’ir fazer chichi.)

Estou de volta. Envelheci. Sofro de catarse,
de gota, de meia rota, de maleitas que nunca vi
sofrer o inimigo, o antipático – nem agora nem aqui.

Componho a braguilha, discreto, por disfarce.
O zíper enferrujou, desdentou-se, vai encravar-se.
Tá-tá-tara-tá, pi-piri-pipi-pi-pi.

*
**

(Conversámos muitas vezes no escuro.
Foi quando melhor nos resultou a conversa.
Em solidão, fui talvez mais puro
– mas de forma inversa.)

*
**

(E de também inversa forma é o soneto que se segue:)

É o que V. dizia: isto aos feriados é campo.
No relvado municipal, beira-Lis, um melro, um santo
melro a invisíveis larvas picotando.

É de retinto carvão, é lustral, é tão bonito.
Refulge de puro oiro o ouro do seu bico.
Em verbo fotograf’olho o nigromante saltarico.

Lá vai ele a seu nenhures ominoso.
Não, espera, poisou adiante, só mudou de sítio.
Por não ser bipolar, não é dado ao lítio.
À minhoca sim, lípido maravilhoso.

Quem bem rimou O Melro foi o Guerra Junqueiro.
Faço o mesmo por menos, que sou só Abrunheiro.
Mas, em a casa chegando, vou ler isto à mulher
- & de crisóstomo bico, como ela prefere.

*
**

A maresia física chegava à cidade portuária
pelo ar das coisas que ao Tempo mesmo suspendiam.
Entre nós-ninguéns, as imagens a gelo ardiam
- & a vida era vária & una & una & vária.

Já então à morte não havíamos por adversária.
Os acontecimentos eram lentos mas aconteciam.
Da barra marítima velejava a ânsia corsária
por ignotos remo(r)tos portos que nunca amanheciam.

Compactas décadas fecharam a noite precária.
O mesmo corpo noutro rosto se fez alimária.
Os que foram, não voltam. Não vêm os que iam

lacrar nestes versos os que se lhes seguiriam.
Calma. A cidade lá mora. Demora, aniversária.
& a morte será vária & una & una & vária.

Thursday, May 15, 2014

Rosário Breve n.º 358 - in O RIBATEJO de 15 de Maio de 2014 www.oribatejo.pt


Fala o escriba

Desde princípios de Abril passado que ando a manuscrever duas biografias. Nenhum dos trabalhos tem como alvo alguma celebridade. Foi uma Editora amiga (minha amiga) a encomendar-mas. Respondi logo que sim, que as fazia, claro, que o vento é muito e o provento é pouco.
Em ambos os casos, os meus biografados (homens ambos) são aquilo a que vulgarmente se chama gente comum. Única, portanto. Não é paradoxo: para mim, é no ordinário que o extraordinário vinga. Para mim, são os anónimos que substanciam as eras, as civilizações, o que por algum tempo fica. Alguém arrastou, içou e assentou aqueles calhaus que ainda hoje articulam as Grandes Pirâmides – e não estou em crer que tenha sido o Faraó.
Cada um por si, estes dois senhores abordaram a tal Editora. Que queriam, o mais dignamente aliás, deixar de si alguma coisa em letra impressa. Um rasto. Um resto. Um rosto. Uma vida que se lesse tal como eles quereriam saber escrevê-la. O Editor e eles numeraram e enumeraram os custos e os emolumentos da coisa. Chegaram a acordo. Daí, tocou o meu telefone. E há mês e meio que ando na coisa.
Cá ando. Visito-lhes as infâncias, devasso-lhes as casas, miro-lhes as fotografias amareladas pelo soro das décadas, falo-lhes com as esposas, os filhos, os amigos, os vizinhos, os profissionais relativos. Com as amantes, não: dizem que as não têm, que nunca as tiveram – isto do que fica escrito é de muito respeitinho, de muita prudênciazinha. Tenho alguma pena: sempre outra pimenta me perfumaria o sal da bionarrativa, sempre outro talozinho de coentro viria ao mordiscar do dente. Paciência: pode ser que ainda me apareça alguma marquesa decrépita que queira, em baskerville old face tamanho 12, e aos olhos do mundo, desempoeirar a alcova dos seus muitos anos.
Em Out of Africa (África Minha, na tradução portuguesa), há páginas maravilhosas sobre isso de a vida ser definitivamente real e realmente maravilhosa quando passada a escrito. A também maravilhosa Karen Blixen, que as escreveu, arruma assim o episódio consagrador da maravilha do indígena que, havendo merecido da mulher branca dona da fazenda uma carta de identidade & favor, logrou a eternidade em vida:
“A cada leitura o seu rosto assumia a mesma expressão de profundo triunfo religioso e após a leitura alisava cuidadosamente o papel, dobrava-o e metia-o no saco. A importância do relato não diminuiu, antes aumentou com o tempo, como se para Jogona a maior maravilha a seu respeito fosse o facto de não mudar. O passado, que fora tão difícil de trazer à memória e que provavelmente parecia modificar-se cada vez que ele pensava nele, havia sido captado, conquistado e imobilizado ali, perante os seus olhos. Tinha-se transformado em História, com o que perdera todo o perigo de variação e de sujeição às sombras da mudança.”
Ao cabo do corrente Maio, devo ter completado a primeira; lá para Setembro, a outra. Mas o que eu não enjeitaria mesmo, juro, seria, de uma assentada mas sem perder o cunho individualíssimo de cada caso e de cada casa, escrever as trinta biografias dos trabalhadores que a Viver Santarém se prepara para pôr na rua. Essas trinta e – no reverso de cada uma, ao gosto da antítese – as não-biografias dos nascimentos que a “reorganização dos hospitais” do distrito de Santarém vem proibir.
Não me parece, no entanto, que eu venha, nem a escrever tais linhas, nem a ficar célebre por elas.
É o que faz ser escriba por conta do Faraó. 

Thursday, May 08, 2014

Rosário Breve n.º 357 - in O RIBATEJO de 8 de Maio de 2014 - www.oribatejo.pt

Do que me dizem de José

O meu sogro chamou-se José em vida.
Falam-me às vezes dele. Dizem-me dele coisas limpas e boas de saber.
Um destes dias tornam-me sogro também. Espero que a esses dois aleatórios rapazes também ocorra dizer de mim alguma coisa que não seja sombria, equívoca, reticente, mesquinha, tipo eu-nem-te-conto.
Do que de José me dizem, gosto. Amigo leal. Generoso de mais, consta. Construtor de tudo a que deitou mãos: casas, filhos, trilhos.
Sei que já aqui V. falei de meu Pai. Não quero pessoalizar esta coluna por excesso, mas é que também ele, meu sogro, José, cumpre neste ano terminado em 4 o vigésimo aniversário do seu contranascimento. Por mérito próprio, ele integra a minha galeria de efemérides não propriamente festivas. A suma que dele me fazem, é esta:
– Foi um homem bom.
Dele, não me dizem que foi meramente bom homem. O adjectivo antecipado nem sempre sobe e/ou sabe a arroubo lírico-encomiástico. No caso da hombridade, a sucessão do bom ao homem vale muito mais. Vale tudo. Ele valeu esse tudo, dizem-me.
A minha Senhora & eu passamos por casas que ele fez. Ela aponta-mas com esse dedo índex que há no olhar dos filhos:
– Aquela foi o meu Pai.
Que coisa mais bonita se poderia dizer de uma casa?
Eu, usurpador, sei, olhando-a de encolhido dedo, que também ela, a minha Senhora, é dele, José, obra. Fez-me portanto a Casa, o senhor de nome José.
Estas coisas, assim escritas, podem parecer bonitas só & só tristes. Pareçam-no, enfim. Justas – são.
O meu sogro era do Sporting. (Ninguém chega a perfeito, eu sei.) Dizem-me que tinha um Peugeot 404. Comprou-o azul na chapa e no livrete. Mandou pintá-lo de branco para ir a Alvalade com os estandartes verdes atarraxados atrás por artes serralheiras lá muito dele. Coisas pueris, se à peremptória morte cotejadas. Mas é que.
Mas é que, à exacta, precisa & concisa data de vinda à luz e a lume desta edição do nosso Jornal, 8 de Maio, perfaço 50-anos-50 de nascido. Começo a ter idade de sogro. É como quem diz – de avô-não-tarda-muito. Ainda não aconteceu: nem uma coisa, nem outra.
Mas se & quando, sendo-o finalmente, um dos genros me chamar José, não há-de, espero eu, errar muito – que sempre terei sido capaz de ter construído para ele uma casa, digo, uma Senhora.


Thursday, May 01, 2014

Rosário Breve n.º 356 - in O RIBATEJO de 1 de Maio de 2014 - www.oribatejo.pt

Caderneta da fome

Diz que há por aí famílias com fome.
Excelente janela-de-oportunidade para exercício do catolicismo esmoler. Nada beatifica mais do que uma sopinha-dos-pobres. Unto de gozo purinho, sermos todos Madres, todos Teresas, de Calcutá todos. Andarmos todos por aí a distribuir sacos plásticos para a canonização em vida da Jonet. Isso – e no intervalo das esmolinhas coleccionarmos presépios piíssimos como a Maria do Coiso.
Temos quase tantos anos de “democracia” quantos suportámos de fascismo legionário: oito anos são um sopro de fósforo. E no entanto. Mas todavia porém.
Que a Direita babe homilias coitadinhistas de templária grã-cruzada, nada me surpreende: é subgente apenas, apenas antónima da humanidade chã dos dias reais. Mas certa Esguelha que por aí anda, histriónica, calendária, instalada, acomodada, papagueadora de grândolas por calendário e casseteficadora de boas-intenções que povoam o inferno – essa gente nem me diz coisa boa, nem este Jornal assina sequer, não vá saber o Edil que ainda somos uns mil.
Ponho-me na pele do professor Manuel Sousa, protagonista involuntário, ou talvez não, do Editorial que abriu a edição passada deste mesmo semanário. Por via da caderneta, sinalizou o docente à mãe que o filho era desinteressado, alheado, cabeceador de estranho sono. Vai-se a ver e a saber, era a fome. Era da fome, afinal.
Uma pessoa lê isto – e fica com um calhau onde era suposta a garganta. No país que hesita entre a “saída limpa” e o “programa cautelar”. No país do indizível Portas, esse indefectível devoto dos virginais pastorinhos e das epifanias a néon em azinheiras anti-republicanas. No país da Albuquerque, essa Barbie cuja brincadeira favorita é destruir casinhas. No país do pavor aos que “comem criancinhas ao pequeno-almoço” e do louvor aos que “comem o pequeno-almoço às criancinhas”. No país do valha-te-deus-que-o-diabo-não-se-distrai. No país onde parece terem-se tornado obrigatórias a estupidificação massiva dos estudantes e o genocídio imbecil das praxes.
Aqui perto de onde redijo estas linhas amargas, morreu atropelada uma velhota que, de burro e carroça, andava às couves. O animal também morreu na colisão. Mais perto da minha mesa, um jovem titila o seu tablet modernaço. Coexistências do caraças: o I de XXI aparecer a meio dos XX. Entretanto, bufarinheiros de Mercedes pato-braveiam jogatanas municipais, manilhas, tout-venants, esquemas-negociatas-almoçaradas de favor, empenho, cunha & falcatrua. O Benfica joga em Turim a sua Europa de alienação de massas. A Jonet quer saber o número de telemóvel do professor Manuel Sousa, em cuja caderneta inscrevo esta crónica por procuração da amargura.
E no espeto da tumba santacombadense, o Salazar, esse santo estéril, esse pesadelo de que se não acorda, roda voltas de gozo o mais apostólico, o mais sacro, o mais pró-famélico, o mais eu-bem-vos-avisei-não-foi?
Foi.

Wednesday, April 30, 2014

One (good) reason

“Great poverty exists in Chile. One reason assigned is the great number of poets in that country – people who would rather write poor verses than saw wood.”

In the Jeanette Daily Dispatch, 1 Fev 1893

http://news.google.com/newspapers?nid=voxG-9qLvA4C&dat=18930201&printsec=frontpage&hl=pt-PT

Thursday, April 24, 2014

Rosário Breve n.º 355 - in O RIBATEJO de 24 de Abril de 2014 - www.oribatejo.pt



Em nome do Pai

No dia 24 de Abril de 1994, o meu Pai morreu.
Sepultámo-lo no dia seguinte, faziam vinte anos os Cravos salgueiromaios.
É duro escrever sobre esses dois amados cadáveres: o de um Pai que não volta e o de uma Revolução que não chegou a vir.
Tantos (demasiados) anos depois, ainda hoje me volto para trás quando aos balcões me dizem Senhor Daniel: microesperança de ser a ele que falam, não a mim. Cumpre-me ser, ao menos em nome, a sombra do que ele foi: em nome dele, com o nome dele.
À limpa e clara figura paterna minha, aponho, sem filial desvio, a clara e limpa figura de Salgueiro Maia, esse navegador da madrugada que branqueou uma noite velha de quase meio século com a autoridade terratenente exclusiva daquele tipo de homem que todos os homens querem ser quando forem homens.
Que Vos dizer do senhor meu Pai? Não muita coisa. Que foi um primoroso pintor cerâmico anónimo. Que se salvou mercê do casamento vitalício com a mulher perpétua da vida dele. Que com ela engendrou sete filhos, dentre os que um se lembrou de acabar aos 31 anos, estilhaçando-lhe irreversivelmente o coração em cada dia dos oito invernos que conseguiu sobreviver-lhe.
E que dizer do senhor capitão Salgueiro Maia que os senhores Carlos Beato e Armando Fernandes Vos mais e tão bem não tenham já dito, na pretérita edição de O Ribatejo e em páginas notáveis que são de guardar no bolso da camisa do lado do coração? Como, sem pretensões tolas, acrescentar seja o que for aos ditos & feitos dos rapazes Beato e Fernandes? Nada, pois que nada sou à beira deles.
À beira de meu Pai, todavia, alguma coisa fui.
Alguém a quem o meu Velhote quis dar o 25 de Abril como quem dá o pão e a mão.
Alguém a quem a Liberdade (pelo menos essa que uso aos balcões do beb’esquecimento) tratasse por Senhor Daniel sem me fazer precisar de voltar-me para trás.
Para a frente, sim – que é onde e quando os Cravos devem, nascendo de vez mas agora a sério, fazer (mais) anos.


Friday, April 11, 2014

Rosário Breve n.º 353 - in O RIBATEJO de 10 de Abril de 2014 - www.oribatejo.pt

Agora neste lugar solitário a vaidade já não se apaga

O facebook de antigamente era o lado de dentro da porta das cagadeiras públicas.
A minha geração foi agraciada, até, com esse opus magnum da retretologia que é O Guardador de Retretes, feliz ideia e prática felicíssima de um tal Pedro Barbosa, cuja condição de utente de sentinas nacionais & estrangeiras o levou a tornar-se atento & fiel escriba-mor das pré-facebookianas e pós-vicentinas cagas merdeiras deste mundo e dos outros.
A lápis, a esferográfica ou até, em caso de mais peremptória assertividade, a canivete, essa literatura de trono-de-louça reverberava de humanidade a mais pungente em lacónica, lapidar e exemplar concisão epigramática. Em apocalípticas elocuções tão apropriadas ao acto que ali os sitiava, os anónimos Autores sentados eram capazes, sem outro esforço que o do alívio tripeiro, do gracioso dichote político, da clandestina demanda homoerótica, da clássica quadra caralheira e do geni(t)al impressionismo meteorológico sobre se a Isaura da Camisaria chovia ou fazia sol e com quem.
É com merencória nostalgia que rememoro essas pautas maravilhosas, essas WCentenárias inscrições de equívoca & esquisita premência confessional afinal afim daquela que hoje, a grafismo azul-bebé, o facebook prolonga em quantidade mas não, hélas!, em qualidade – porque, hoje em dia, os facebookães mais peritos são no ladrar online do que no morder em manif.
Por deficiência (minha) de carácter (meu), também eu me inscrevo no rol triste das tristes selfievaidades que vociferam indignações de photoshop e partilham comoções em pps de florinha-passarinho-criancinha-fominha-áfricazinha, dos que sabem tudo sobre cada cerimónia dos Oscars mas não fazem puto-ideia de quem tenha sido o Paulo Rocha de Os Verdes Anos, dos que confundem o legado de Mandela com a chacha verbodiarreica do hip-hop, dos que acham aquilo de O Beijo do Klimt dever ser coisa do instagram & dos que atribuem a Fernando Pessoa as merdices alquímicas e as pestilentas banalidades filoteoantropológicas do Paulo Santiago Coelho de Compostela Carioca.
Antes, muito antes do apenas-isto de agora-hoje, o outro facebook, o das calças pelo canhão das meias, é que era. A própria profusão oblíqua de linhas & traços à altura do olhar (por ser muito mais capitosa a escrita durante o acto de evacuação do que depois da descarga feita e do terceiro-olho papel-higienizado) nos garantia o fulgurante caos ordenado da Poesia Surrealista, em aval da vitória (pelo menos íntima, ínfima embora) da liberdade criativo-expressiva sobre a miséria fecal da realidade.
Todos já reparámos que os dentros das portas desses filosóficos cubículos já não são nem estão escritos. Atribuo isso a duas coisas: uma, a ninguém já trazer consigo material de escrita, sequer canivete; outra, ao facto de as portas continuarem a ser de contraplacado, baquelite ou chapa e não (ainda não, pelo menos) em plasma, detalhe que obsta à escrita a partir do telemóvel ou do tablet por bluetooth.

Para ser franco, a única coisa que permanece, e de uma permanência invencível e autoritária como a morte, é a natureza da necessidade. Digo: a fisiológica, não a poética. Mas há razões para a esperança: a de, pelo menos, sempre podermos continuar com merdas.

Thursday, April 03, 2014

Rosário Breve n.º 352 - in O RIBATEJO de 3 de Abril de 2014


 
Em modo leitor antes que a reforma nos falhe

E de diverso modo não cuidara eu jamais, que pronto & aprontado sou & estou & sinto, antes vingo & vinco dos humanos circo-instantes os detalhes alguns de seus corpos ao meu idênticos mas deveras outros, de fábrica outra e para outros préstimos.
Pouca me dura cada cigarro, que na sinistra esqueço cinzardendo mentre a dextra labora & lavora linhas que ao Diabo não lembraram & a Deus não aprouveram, o contrário de ambas coisas sim, ou talvez, nisto de certezas nem o remédio tem mal nem o mal é não ter remédio.
Sobre pano de relvado defrontante, nódoa limpa de pomba sozinha, que o chão está lendo de boca decifradora de rimas afinal migalhas, fulgura fresca & voluminosa, bem alimentada anda tal ave municipal, pois que de todos autarquia & de ninguém posse, no concreto como no abstraído, longa delonga me mereceria a explicação, que não merece nem haver vai, gravura sim & dada está.
No entrementes, cuidadosa carícia falsa iço à asa narigosa a barlavento da cara, por ali me migar miúdirritante prurido um danado retorcido pêlo do ranho seco emerso, descambando a carícia, por falsa, em traidor sacão puxante, que lágrima pronta & fervente me faz estrelar em névoa ao olho do mesmo lado do vento facial mas em glória de pêlo caçado interpolegaríndex.
Derredor-me, esplanadociosos sem utilidade nem utilização como eu, como eu se espraiam estios de imaginação, dado o que chove & é muito, cumprindo-se do neomês aprilíneo a prestação prima a que novecentas & noventa & nove outras se cumularão, pluvial conta que a Abril torna toante de mil.
Casal antigo a dois cães não novos atrelado vem oxidoxigenando-se em paulatino ambular por berma-rio, do hemisfério cardiosquerdo assustados por via das recrudescentes arritmintermitências e do direito meio pelo que aí vem, já veio & mais há-de vir de cortes brutais em as respectivas aposentações já de si, deles & delas, fracas.
Em montra de bazar electrodomesticante, ardem a frio aparelhos de recep(ta)ção televidente, em cujos luz & brilho rutila a alvar euforia dos pogroms da manhã para holocáustico gáudio dos pupilos do doutor Alzheimer, esquecidos até do que lhes roubaram, roubam e mais hão-de roubar à reforma, como ao casal de cães passeante, em impenitente procissão matinodiária à laica nossa-senhora-da-acefalia.
Alvíssara não de somenos, todavia, ei-la que se me plasma ao par de lentes, bifocal & trifatal, uma alta amazona de botas altas também, visão substanciosa de torre fêmea toda empedrada a leite & a torresmos de nata viva, rescendente humananimal a cabedal feito de humana seda animal também mas seda, mas voluptuosa seda a alheio tacto destinada, ó mal de mim, fulgindo dela a adaga de cada mão e a safira de cada olho, perdoando-Vos eu de mais & maior minúcia no temor respeitoso de Vossa mulher conVosco estar isto lendo também.
Como quem a coisa não quer, mas quero, conto as linhas por mano escritas já, isto no cuidado de, por eventual demasia verbochilreante, acabar embaraçando o bom Vítor Arsénio, do departamento gráfico oficiante mandador nesta Casa tão ao Outono símile porque de folhas feitas também e sacerdote o mais sumo no que a caracteres, palavras, colunas, esquadrias e mais macintoshices respeito diz, que sem tal prestidigitador nem por ilusão O Ribatejo, fechado enfim, ao almoço de quarta-feira haveria de chegar, quanto mais ao lume e à luz das quintas a que teimosamente vem saindo há trint’anos quase.

Posto que um derradeiro parágrafo possível me surge restante, ele o voto devota & incensamente à insígnia nunca insignificante do meu Leitor, que, se a meu par aqui chegou, também não haveria de ser agora que comigo se não achegasse a nenhures, que é onde, há quase sete anos já e em página última sempre, fiel & lealmente nos encontramos, cinza que somos, à guisa destoutro cigarro que entretanto também esqueci mas a ele, Leitor, não, nunca & jamais, em de verso modo.

Sunday, March 30, 2014

Sou um "lampião" esquisito.
Dos meus 5-top-5 ídolos desportivos da infância/mocidade/e/para/o/resto/da/vida, quatro são do Sporting.
Consola-me que um deles, o genial António Livramento, me tenha vestido a cor também.
Camisolas e emblemas à parte, são figuras absolutamente gigantes para mim.
Só uma delas (Carlos Lopes) está fisicamente viva.
Mas todas respiram glória no meu Panteão de miúdo pré-cinquentão.
Eusébio. Vítor Damas. António Livramento. Carlos Lopes. Joaquim Agostinho.




Uma citação de Viagem ao País dos Nefelibatas - de Joaquim Namorado

Humilde
é a erva dos caminhos
Todos a pisam.

Thursday, March 27, 2014

Rosário Breve n.º 351 - in O RIBATEJO de 27 de Março de 2014 - www.oribatejo.pt

Quatro não-histórias para crestomatia alguma

1. Futebol

As formigas verdes querem comer, ou pelo menos matar, as brancas, que vêm contentes da casa das encarnadas, onde mataram e comeram na semana passada.
José Alves trabalha na Mutual e é fiel ao seu balão de anis, que toma ao balcão do senhor Assis. José Alves, branco, encarnadeja acintes ao senhor Assis, que, encarnado, reverdece de raiva.
Nisto, entra Filinto Elísio, um poeta de outro século. Não percebendo a discussão, sai de cena e vai tomar capilé a outro sítio, que alguém pintou de azul sem ser para provocar ninguém.

2. Acento Grave

Uma pessoa aclimata-se de pequenina a objectos preciosos que depois lhe tomam a vida.
Nalguns milhões de casos, a solidão colecciona selos: é a selidão.
Outros coleccionam pègadas, mantendo, por pura ortoteimosiagráfica, o acento grave.
Mulheres seleccionam amantes finos como caules de champanhe.
Rapazinhos domesticam rãs.
Menininhas adoram avôs.
No tudo, a vida e a morte coladas a cuspo pelo Tempo.
Depois, as segundas e as quintas dispersam-se como fins de feiras: horas ciganas, minut’oldos, segun’bancas, existir a saldo e a soldo, caixas aeróbicas com galinhas tísicas rodeadas de pintos de bairro social.
Eu fui escolhido por alguns Mundos de Aventuras (Matt Marriott, Wes Slade, Rip Kirby, Cisco Kid, Garth, Matt Dillon) com capas de Carlos Alberto, o mesmo de Camões e de Romeu e Julieta em cromos.
Uma pessoa é para o que nasce, é para o que morre.

3. Pensar em Si

O pensamento tem ruas onde entardece.
Também nessas ruas deflagra o pequeno comércio: frutas de furta-cores, flores de tela, sapatos de corda, relógios também de corda, café de cheiro, banco de frio numerário, açougue em sangue, farmácia asséptica, electrodomésticos de ocasião electrodoméstica, lotarias lá fora por uma vida melhor, próteses básicas.
O pensamento é uma (c)idade feita de outras (c)idades, trechos de aldeias e bosques, planos directores sem direcção de pormenor e, ainda ou até, placas de desorientação que dizem Coimbra, Leiria, Barrocal; Porto, Lisboa, Espanha; Albergaria, Londres, Guia; Viseu, Baleal, Carriço; Versalhes, Lameira, Lagares; Santiago, Santarém, Charneca.
Por tais ruas passam como segundos incertos certas pessoas pensadas a vagaroso contra-relógio: benignos fantasmas à hora do chá, de magras mãos depostas ao lado do prato de biscoitos sobre mesa-de-camilha. Nas paredes das ruas-de-pensar-nisso, há cartazes que antigueceram sem dor: touradas de outros verões, bailes de falidos outonos, recenseamentos eleitorais que coincidem com a época venatória, Julio Iglesias no Casino Atlântico, Marco Paulo no Viuveiro, vota Partido Nacional, uma Promoção a Pensar em Si.

4. A Dor, o Alívio

Não quero contar a dor, mas a memória da dor.
Fazer de conta que ela não me interessa nem existe senão na forma contada, dia a dia contada. Conto e conta: palavra e número: meus recursos.
Dias contados sem apelo e com agravo: histórias, imagens, lances, datas, pânicos, serenidades.
No fundo, o mar de terra vegetal, seus peixes calcários, seus tufos de espargos, trevo, funcho, um monte geodésico, o horizonte vertical do meu Irmão.
É isto que estou a fazer, enquanto a vida, de lado, me assiste, meteorológica, escrita, sem outra memória possível que a da invenção da dor deveras.
Recordo: o alívio de, comparada a vida com o céu nocturno de Verão, a dor não ter sentido. No sentido de não ter aonde ir. A dor, não ter aonde ir a dor: o alívio.
Era outro Verão. Tinha anoitecido. Cheirava a feno e a animais cansados no limite da doçura. O ar podia arredar-se à mão como a uma cortina.
Tudo tinha o ar de ter vivido o suficiente. As coisas mundiais muito bem dispostas no tabuleiro largo: o céu estilhaçado de cardumes de cristal, o monte de veludo negro parado como um touro, a terra estremecida de silveiras e ratos, os olhos do menino expostos à mais pobre e mais terrena imitação das estrelas: os pirilampos.
Eu não podia saber mais do que tudo. E tudo era a sombra ambulante de meu Pai: dupla sombra. Então, nessa outr’hora hoje falseada por minhas artes e manhas de aliviado, a felicidade era a moeda que luzia na arca.
Hoje, não tenho em que gastar esse dinheiro sem câmbio nem remissão.
Não importa.
Olha o céu. 

Monday, March 24, 2014

Conheci Augusto Mota em pessoa(s) - foi em Leiria, sábado, 22 de Março de 2014. Fiz-lhe um soneto, trouxe um pão.



Com Augusto Mota e Rosa Neves
Fotografia de Ana Ramon



O QUE NOS DER O DIA




XV


Vou hoje ver e ouvir o senhor Augusto Mota.
Isto decorre no sábado, Março-Marçagão.
Ao alto viceja o Castelo, do qual a cota
eu só azimuto por aproximação.

O senhor que é Augusto augustamente persegue
a rosa do dizer ficado por escrito.
Sem dito prescrito, persegue ele a rosa
por ser da Ortigosa & do Portugal pequenito.

Vou vê-lo agora, sentir que nos diz.
Oxalá muitos anos o tornem feliz.
É na Cerca do Castelo, mesm’ ao pé da Polícia.

Eu fui convidado. Venho sem malícia
ser grato & presente & gente por demais.
Poesia é a palavra feita gente. Nem menos, nem mais.

Thursday, March 20, 2014

Rosário Breve n.º 350 - in O RIBATEJO de 20 de Março de 2014



O primeiro a sair que diga por onde é que

Antigamente, só de alguns ofícios se podia afirmar, com razoável caução e inspirada garantia, que eram profissões/carreiras de muita saída. Por aflitiva e angustiosa e factual tristeza, hoje são-no quase todas: os professores estão de saída, os enfermeiros dirigem-se à saída aeroportuária, os operários navais estão como na canção do Fausto: “o barco vai de saída”, os funcionários públicos idem e etc. – tudo e todos tão de saída, que os mais novos nem a entrar chegam.
É isto que a lápis mental vou penosamente considerando quando dou de fuças, em parede antiga de viela baixa-histórica, com a seguinte gritante-garrafal-caixa-alta-vermelha-spray inscrição:

CRISTO VAI VOLTAR

– Outro D. Sebastião… – rosno eu para com as minhas miudezas botão-acústicas. – Ele que não faça isso, que neste morredouro de míseros nem para Ele há milagres – cuspinho eu à maneira dos fumadores de mata-ratos.
Tenho rosnado muito. Muito e em vão, à catedrática maneira dos revolucionários de sofá, neste cada vez mais redoliano barranco de cegos a que não adianta bradar Alto e pára o braille! Rosnar, rosno – mas quase tudo do quase-nada em que esta choldra piolheira descambou me dá pigarro canídeo à interjeição. E logo a mim, espécie de lobo desdentado que, se e quando alguma coisa mastiga que não seja o próprio cuspo, o faz mercê de uma geringonça dentada à base de resina acrílica plastificadora até do sorriso, quando algum.
No bolso dextro do blusão, porto um poema de amor inçado e inchado de turva fatalidade. Mandou-mo um amigo tristonho como eu, que como eu e comigo se carteia electronicamente a mote de tudo o que seja indignações, gajas boas e piadolas frescas. Reza assim a missiva (que fiz imprimir por masoquismo):
“Descemos 3 posições no Índice de Desenvolvimento Humano da ONU.  
1,4 milhões de desempregados. 
Défice sem baixar. 
Dívida a chegar aos 220 mil milhões. 
Adiamento do pagamento de dívida através da troca, de uma taxa de juro de 1,5%, para outra de 4,5%. 
PIB ao nível de 2001. 
250 mil emigraram, só desde 2011. 
2 milhões de pobres, em 2011. E em 2013, 2,750 milhões. 
E agora, dados de 2013, 660 mil famílias não conseguiram pagar empréstimos à banca. 
500 mil pessoas com salários penhorados em 2013, recorde. 
Mais de 14 mil presos nas cadeias portuguesas em 2013, recorde.
Relendo-a pela enésima-cagagésima vez, sinto-me (e arvoro-me logo em) Pirro. Era no ano 279 a.C. E o generalíssimo assim para os seus oficiais: “Outra vitória como esta e estamos perdidos.”
Tenho para comigo e por certo que o género humano é o maior erro trágico da Natureza, não de Darwin nem do tal Cristo que há-de voltar mas é o caraças. Na mesma linha, o cancro é uma moléstia estúpida porque, matando o hospedeiro, se mata a si mesmo, coisa que equivale, sem tirar nem pôr, ao capitalismo selvagem made in América & Berlim. E o seguidismo acrítico é uma manifestação clara da escura acefalia – mas vão lá dizer isso aos tontos dos Ucranianos, mortinhos como andam para que lhes troikem a vida como a nós nos troikaram os passos.
Definitivamente provisório como a vida mesma, resgato-me destas tristuras macambúzias ingressando numa tasca à antiga portuguesa no propósito de beijar, à maneira de artista, um càlicezito de bagaço daquele áspero-carvalhoso que sulc’arranha arrepios cuteleiros na isca da figadeira. Em meu derredor, o antro jubila de colegas desempregados e de reforma-roubados que bebem do mesmo enquanto lambem a bisca ou concatenam o espinhaço de baquelite do dominó. É então que, compulsando a edição do dia do Diário de Notícias, um gajo alto de gestos alquebrados que lhe tornam a locomoção parecida com a dos que acarretam cegonhas mortas às costas, é então que ele altivozeia assim:
“Então vossemecêzes não me querem ver esta? O Pintas da Bosta agora quer que o meu Sporting desça de divisão! Diz ele que o puto presidente de Alvalade não sei quê coacção dos árbitros! Porra, ao cabo de 30 anos de trafulhices larápias, este gajo ainda tem a alma ao lado do cu para ladrar merdas destas sem vergonha nenhuma, c’um carácio, ó pàzinhos! Sempre quero ver a que saída vai dar isto!”
– Também eu – volto eu a rosnar para comigo. – Também eu. Mas dá-se que, apontando eu o nariz à saída do tabernoso palácio, se me escapa audível um “Enfim, mais do mesmo.” Solícito, o taberneiro serve-me outro conhaque nacional, glaucoma líquido do olho do Diabo, a que, enfim, dou honras de escorropicho com uma cabeçada de arrecuas tecnicamente perfeita.
E acabo por ali ficar ronro(s)nando solilóquios de beberrão impenitente e resignado ante a evidência de nem isto nem a taberna terem, como é que eu dizia?, saída nenhuma que não seja para pior.

Friday, March 14, 2014

Mais para o 25: de ontem já e já de hoje

FOTOGRAVURA INSTANTE

Leiria, quinta-feira, 13 de Março de 2014

Manhã.
Uma bambina chilreia na praça.
Entretida com o próprio infinito.
Passarito sideral.
Haja luz.
O Inverno foi de rigor longo.
Uma boa parte da colin’além é ainda verde.
Em campânula, um bom azul-redoma.
Cristalaria da nitidez.
É um referendo ganho.
Isto não morrer nem renascer.
Isto ser isto.
Isto ser isto assim.
Labuta dos elementos concordes.
Do ar, as povoações retalhando a terra.
Ontem, o olho-lua superintendendo.
A tundra gelando até o desejo-taiga mesmo.
Certame dos avindos.
Termos tido manhãs assim sem remédio.
Braço esquerdo, da moç’além, mãe da bambina.
& o bom verd’além em colina.



TOTTENHAM, 0 – BENFICA, 1 AOS 29 MINUTOS
– prosa dos restantes 61’

Leiria, quinta-feira, 13 de Março de 2014 (Noite)

A cidade arrefece a horas certas.
O polvo do movimento anestesia-se a si mesmo.
Não é desagradável sentir o deserto no corpo.
Coladas a cuspo de luz, janelas no cartão dos prédios escur’anoitecidos.
O arvoredo frúi a aragem que arrepia (f)rio.
A oriente de nada, a ocidente de nenhures.
Pasmo das rotundas: como olhos vazados.
Veludo refrigerado, solidão consuetudinária.
Isto do mundo é tabuleiro tudo.
Numa casa-de-pasto de largas altas vidraças, três, não, quatro indivíduos comendo sopa, cada um a sua mesa: peixes humanos em aquário, cada por si, gerindo cada um o orçamento próprio, sem mulher cada um dos quatro, única refeição quente do dia, vão levando o que trazem à vida, deixam-se anoitecer, deixam-se a noite ser.
Numa colina, o Castelo. Ermo.
Noutra colina, o Cemitério. Ermo também, mas de outra maneira.
Nos arrebóis, lumes domésticos, motorizadas encostadas à parede do telheiro, arames para a roupa crucificando camisas e fatos-macacos, no curral o porco repleto sonhando açougues, dia de reunião da Associação, resolver aquilo com o padre e com o patrão da pedreira para a Festa de Agosto.
Talvez.
À beira-rio, as solas percutindo cascalho, como se esmigalhando diamantes, prensando quartzos, incalculáveis tesouros do nascimento do planeta.
Sono das coisas, palidez dos vidros, rasto-rumor (luz-motor) de camiões na via-sacra-rápida muit’além.
Vontade de seguir num deles para qualquer lado.
À porta da pensão, boceja o padeiro, veio tomar café, regressa ao forno, artista nocturno.
Tabuleiro tudo, sim, é isso.
Paredes bem pintadas, a deste reduto.
Ele ainda há operariado com valor.
Gente insigne – mas antes o Castelo, mas depois o Cemitério.
Tem de se viver em obra.
Obra corrente como as águas da pensão, por cujo Lumiar há pouco o padeiro.
Falta pouco para Abril, ou Novembro, ou coisa assim.
De manhã, na papelaria, o homem de colete verde; o balde com rolos de papel-de-parede para quarto de crianças; o aprumo afiado da lapisaria; os cadernos sonhando a tinta do futuro.
Pela finimanhã, revoando pelo chão as folhas de uma revista estraçalhada.
Esquerda cardial, dextra cardial, zénite sideral, nadir do nada-nenhures.
O tempo é este, o vapor, a espuma, a escuma, é este o trabalho, esta a atenção.
Depois não vale já a pena, qualquer pena.
No osso da página tornada possível.
Como os restaurantes da beira-mar no Inverno agreste: aquários também, que do mar temem as águas em revolução.
Dizem que esta foi a mais pluvial invernia dos, digamos, últimos 35 anos.
Em Londres, últimos 32 minutos, o Benfica vai vencendo por 1-2.
Repousar um pouco junto ao candeeiro (cúbica e amarela, a peça luminotécnica).
Ar de enfermeira cansada, a da senhora que entra: encanecidamente entra, olhos aguad’azuleados, joelhos cambos de fadiga, sapatas brancas de couro sintético, sem adornos auriculares, sem anéis, sem verniz onicológico, blusa cinz’água fina, camiseta desmaiad’amarela, bolsa larga mas não atulhada, mãos laborais.
Se a eternidade for parecida com isto, há-de ser aborrecido morrer.
Quando a gente nasce, já os primeiros créditos do filme passaram há muito, passa-se o resto da fita a trabalhar para The End.
Belas palavras, belas frias palavras, minha querida.
Muitos de nós, sabe-se, chumbados à caliça da memória.
Dos idos em nós, persistência ou do nome ou do timbre palato-vocálico, ou da cercadura pisada dos olhos, ou do feitio dos dedos (pés & mãos), ou do ricto comissúrio-labial. Ou quase tudo em um.
Como aqueles, um por um, comedores de sopa. Três. Não, quatro. Só dois agora. Os outros pagaram & desandaram. Não ligam a futebóis. O primeiro a ir-se embora: pode ser Pietra. O segundo a partir: pode ser Arsénio. Os que ficam – Janeiro um; o outro, Crispim.
A sete minutos do término regulamentar, o capitão encarnado, Luisão, averba o terceiro tento da equipa, segundo da conta pessoal.
Se calhar, a reunião da Direcção vai ser só depois do jogo, sempre os homens casados têm desculpa para só regressar pelas meias-noites. Em solo britânico. Em areias de Portugal.
Isto é só uma quinta-feira. Não tarda, é Junho ou Fevereiro.
Infinitude possível: olhar o pano preto que azul foi: céu que dá noite, fabrica sem medida toda gás-vidro e deus nenhum, olha o diabo.
Dão três minutos de desconto, nem a toda a gente é concedida tanta largueza.



PLANO(S) QUIETO(S)

Leiria, sexta-feira, 14 de Março de 2014

I

Duas mulheres goelando ante chás-gelados-palhinhas, os telemóveis ao lado como pistolas de prevenção.
De manhã recordei-me da tarde abrasiva, foi no Verão de 2010, a Mãe no Lar assim para mim:
– E tu, quem és tu? –
e eu, escrevivente, fazendo, ainda & sempre, por ter o que responder-lhe.

II

A outra mesa, um rapaz esbranquicela de cabeleira à rasta. Vai enfardafarinhando-se de um mil-folhas crepitante. À frente do falso jamaicano, um rapazola parecido com o Marc Anthony cantor. Mosca-pêlo no sublábio. Bebem ambos coca-colas.

III

Além: a pomba de peito-madame-pompadour. Pombadour, portanto. Mais além: o estádio feio, o estádio absurdo. Entre estádio e pomba, o Lis, veia a tudo indiferente menos à ânsia pelo mar da Vieira.

IV

Quieto, aqui. Calmo. Um ligeiro toque de ansiedade, sim, mas perfeitamente dominável. Bolo de chocolate em casa, café feito de fresco. Pesadumbre palpebral. Não ceder à vocativa sesta. Alinhar linhas novas na máquina-info, arrancá-las ao manuscrito.
E então, isso feito, esperar por as que a noite queira dar.