Tuesday, March 11, 2014

OUTRO SONETO COM A LUZ MESMA - Leiria, terça-feira, 11 de Março de 2014






Onde aqueles dois que sabeis a luz primeira
primamente viram, cada um por si
– é Coimbra chamada, pátria soalheira
onde, nascendo, a prima luz também vi.

Por ela passa o Mondego rio, que fica.
Nela se incrusta a ouro o fresco sol.
Bordado de choupos, o manso arrebol
menos ao estudante guarda que ao futrica.

Ao pó dos livros como ao pó dos caminhos,
vai o leitor-caminhante se sacudindo.
Manhãs lhe foram já. Já a noite, vindo,

o instrúi na resignação por pura antecipação.
Nascemos a sós, finamo-nos sozinhos.
Mas a luz. Mas Coimbra. Mas o coração.  

Monday, March 10, 2014

SONETO DO DIA POR GRATIDÃO À LUZ DO MESMO - Leiria, segunda-feira, 10 de Março de 2014



Esta é de cetim, não de trapo ordinário.
Digo: do dia, a luz não serapilheira.
Redour&brilha quanto a vista ’cança inteira,
uma nudez de vidro dando, una, ao vário.

Delicadeza operatória rondando o passeio das coisas.
Disposição que enfeit’adorna o que adora.
Instante do instante, século da hora:
eternitarde do éter da idade, pois as

vidas corpos feitas o sol em todas tudo abrange.
Ressoam, cavos, o címbalo & o bronze.
Adeja, purpurina, a gaze-gaivota.

Fazer sonetos tem seu quê de gloríola idiota,
mas merece-o bem a santa luz pura
da segunda-feira passante & a da futura.

Nossa Pátria minha


A 21 de Maio de 2008, publiquei no Jornal da Bairrada esta crónica. Mantém-se actual, infelizmente. Menos, infelizmente, no que respeita à minha Mãe, então viva.




Nossa Pátria minha


Sou um rapaz da área norte de Coimbra. Cresci na zona industrial da Pedrulha (do Campo, não confundir com a Pedrulha do Monte, na Mealhada). A minha Pedrulha é agora apenas zona, dada a devastação empresarial sofrida pela economia coimbrã. Caso atrás de caso, tudo abre falência (verdadeira ou manhosa), tudo fecha as portas. Operários às centenas (muitos com mais de 30 anos de casa) vêem-se atirados sem rede ao frio horror do desemprego.
Quando lá vou ver a minha Mãe, choca-me sempre a galeria dos edifícios fabris em ruínas. Sei perfeitamente que por trás de tudo está a ganância empreiteira das imobiliárias, que, em conluio com a “democracia” autárquica, nunca gostaram de pessoas, só de fregueses tê-zero que lhes comprem as gaiolas de betão nas estéreis e dormitórias urbanizações da modernidade. Logo que posso, venho-me embora dali, para desgosto da minha Mãe, que preferia que eu tivesse 12 e não 44 anos, de modo a viver com ela na casa de operário que o meu saudoso Pai sustentou, febril e fabrilmente, com mais de meio século de trabalho na pintura cerâmica. 
Se vos pareço amargo, não duvideis da parecença: ando amargo com isto a que, à falta de melhor palavra, chamamos Pátria. Suponho que a vossa Pátria é a mesma que a minha, mas não posso garanti-lo. Porquê? Porque a minha Pátria é a da selvajaria “liberal” do preço dos combustíveis, a do desemprego multitudinário, a da cavalar ignorância linguística, a da parasitária cáfila de assessores, a da arrogância ministerial, a das multimilionárias negociatas com submarinos que nos levem ao fundo e com comboios que em alta velocidade nos levem a nenhures, a de empresários desonestos que vêem na honradez o oitavo pecado mortal da alma.
Lamento, mas a minha Pátria não é a que o Scolari nos mandou pendurar das janelas e das varandas. A minha Pátria, de facto e deveras, é a dos meus 12 anos, quando as fábricas trabalhavam com gente dentro.
Garanto-vos que é triste, ter uma Pátria do século passado.

Thursday, March 06, 2014

Rosário Breve n.º 348 - in O RIBATEJO de 6 de Março de 2014



Olhai que depois o Tino não casa connosco

O Tino de Rans do PSD é o professor Marcelo. Quase sem tirar e com mais pôr – são a mesma coisa. Foi vê-lo, ao professor, na última feira(rrobodó), vulgo congresso, orangina. Ao genuflectido conclave, só faltou aquele intérprete gestual doidinho do funeral do Mandela. A aura de non-sense era a mesma. O esbracejar era o mesmo. A risota descabida, a mesma. De olhos tipo lémure hiperactivo, querendo muito fazer rir, querendo muito fazer pensar que pensa, querendo muito passar uma esponja sobre a nódoa do apodo de “cata-vento” que tão cruel mas tão justamente lhe pespegou o homem chamado Coelho, o Tino do PPD-que-Deus-tem coaxou presença nas Rans de tal sinédrio tragifarsante para que ninguém, muito menos aquela gente, se esqueça de que ele é que sim, de que ele é que só, de que ele é que TVI. E para que seja a ele e só a ele e a mais ninguém do que ele, não a durões transgenizados em couves-de-Bruxelas ou a santan’adolescentes obsoletos das discotecas da 24 de Julho, que levem pelo bracinho mendigão a atravessar a passadeira-de-cegos que leva aos salões dourados de Belém. Foi por isso e foi para isso, não foi por nem para outra coisa. Abençoado convénio aquele, que, sob um só tecto tão pejado de balões vácuos como aquelas cabeças mais dadas ao gel do que ao raciocínio, juntou a mais fina-flor do nosso mais requintado entulho. Nem o abjeccionismo do saudoso Luiz Pacheco lograria compendiar, numa só separata-de-cordel a cinco paus de edição-de-autor, tão inerme e tão enorme catálogo de nulidades apátridas. O que o mar nos anda a (des)fazer ao litoral, anda esta pandilha a contrafazer ao que nos resta, a começar pelo pão-de-cada-dia e a acabar no último assomo de auto-estima. É um partido que faz ao País o que a Abispark anda a fazer ao estacionamento pago de Santarém, à revelia das regras mais estritas da sanidade legal mais lata. A lata é a mesma, de facto.
Olhai: a mim, não me repugna nada o holocausto das “ideologias” manequísta-dicotómicas com que nos formataram no sentido do (des)entendimento do mundo. Os ismos são pepinos mal torcidos que resultam em destinos de reviralho. A meu ver, a Utopia ou é terrena (e portanto humana; e portanto da mesma estatura que nos vai, a nós-gente, das solas ao risco do cabelo) – ou então vê-se assolada por uma espécie malsã de suão soprando-nos nas fuças a estupidez malévola que faz vergar de joelhos os pastorinhos carreiristas ao nível das patorras da azinheira do Poder, essa sarça ardente de néon como as barracas-de-farturas. O que deveras me repugna, é – em detrimento da válida gente séria que este País ainda tem em todos os sectores da vida produtiva – a promoção aos lugares de (ir)responsabilidade do idiota-da-turma, do cunhado sabujo, da amante oxigenada como uma tocha de milho, do sucateiro ignóbil, do licenciado da mula-ruça, do jot’idiota, do pato-bravo anelado de ametista falsa a cavalo num Mercedes de manilhas e de, enfim,  todo o espantalho verminoso capaz de, muito mais depressa do que o comum espectador-eleitor, perceber que esta é uma terra em que só a merdina faz carreira.
Mais do que meu receio, é já minha a certeza de que, como nos filmes porno, acabemos todos por ser a gaja que, depois de tanto e de por tantos facturada e mal paga, nem a consolação do casamento redima. Para que isso não nos aconteça (ainda mais), hemos de ter tino. Tino, salvo seja. 

Tuesday, March 04, 2014

CEM-CATORZE: TERMINAÇÃO (último texto do caderno 27 da série Leite dos Santos)


CEM-CATORZE: TERMINAÇÃO

Leiria, terça-feira, 4 de Março de 2014

Ontem, três anos que a Mãe nos terminou.
Em paz na terra, então como agora.
Olha: é um lírio do campo.
Sal da terra. Mulher de boa vontade.
Presente nas palavras do presente.
Pretérita amanhã, todavia.
Mais branca na morte: noiva outra vez.
Nós por aqui: orfã’ndando descalços no terreiro do circo,
do terreiro do circo cortando-nos nos despojos afiados.
Orfeus órfãos, partilhamos uma língua universal,
por particularmente obscura, com os órfãos outros todos.
Empalhámos a gaivota.
Engessámos a santa.
Perdemo-nos da mulher.
Já não vamos a correr para casa.
Já o fizemos – para contar-lhe a rua.
Dédalo mais simples agora, esta Ítaca de nenhum retorno.
Ainda perfumadas dela, as mercearias que resistem à passagem:
café, sabão, bacalhau, naftalina, à passagem.
Tudo agora afora cânfora, água de flores pisadas.
Persis-resis-exis-tência dela na lavagem da roupa.
Muda de calças, filho.
Aproveita e muda de vida também, filho.
Não fumes.
Não andes por aí só por andar.
Não abandones as minhas datas, filho.
Os chinelos-de-quarto dela levitando-a.
As fraldas de velha que deixou por usar: bebé rebelde, terminal.
Ao cabo e ao fim, uma Mãe dessas que só em, ou de, Portugal.

Thursday, February 20, 2014

Rosário Breve n.º 346 in O RIBATEJO de 20 de Fevereiro de 2014 - www.oribatejo.pt



Equivalências adversativas em nome do Diabo

Chamar universidade à Lusófona é o mesmo que chamar doutor ao Relvas. Fé na Virgem e o Diabo a correr. É como o Vara, por uns meros robalos, apanhar-se doutorado em Piscicultura. A Educação estropiada em antros afins, da pré-primária ao superior. Colegiais contratos-de-associação com paralelismo-pedagógico. Milhões públicos ao desbarato privado. Licenciaturas falsas como Judas pago a lentilhas corrupto-milionárias. Euromilhões do bacoco de província capaz de erguer um gimnodesportivo de cartolina para o futsal do 12.º sem esforço. Diplomas de carne-picada à bolonhesa segundo o tratante Tratado de Bolonha: faço de ti doutor-engenheiro mais depressa do que a desAssunção inEsteves há-de perceber o que seja um prefixo de negação. Para um imbecil académicoa praxe é um direito fundamental; para um imbecil jota todos os direitos fundamentais são referendáveis. Imbecil por imbecil, a coisa compõe-se. Mas no dia em que a deficiência mental for por lei equiparada à deficiência motora, os palácios e os terreiros-do-passos vão ter uma data de rampas. Deixa-me ouvir o que diz o Marcelo que sabe disto. Especialista, ele também, do culto do instantâneo, da retórica frívola, da papagueação de encher-olho com a boca cheia de nada. Já tivemos Presidentes da República por bem menos. O Capucho corrido à pedrada pelos estalinistas cor-de-laranja. Mas o Rui Nunes, in Uma Viagem no Outono, a dizer que “O futuro onde estamos tem a iníqua alegria dos sacanas.” Pois estamos. Pois tem. Mas o Júlio Isidro, no Diário de Notícias de 17 de Fevereiro do corrente, a dizer que “Só as pessoas felizes é que são livres.” Pois são, elas sim, mas então aqui a gente vai toda presa, pois que a tristura nos algema olhos e mãos. O Stig Dagerman afiançando algures que “O jornalismo é a arte de chegar tarde o mais cedo possível.” Mas ser muito mais fácil o Cardozo marcar com êxito um penalty decisivo do que chamar jornalismo, por exemplo, ao Prós & Contras, programa em que tudo o que possa ser sério é arquivado para amnésia futura enquanto a sacerdotisa-de-serviço se arregala e saracoteia. A nossa dignidade derradeira estilhaçando-se em irrecicláveis despojos de granada-de-fragmentação. A República ser constitucionalmente laica mas ter e pagar na mesma uns milhares de euros ao, aliás reformado, próximo bispo-capelão das Forças Armadas. O País quase todo a barafustar contra o atraso do Porto naquele jogo da Taça da Liga – mas quase ninguém a vituperar o atraso de décadas do mesmo País de patuscos, i.e., Nós quase todos. O cómico-trágico desta pandilha litoral que tem por nome Portugal estar escarrapachado na implacável sucessão de encerramentos de tribunais, centros de saúde, escolas, oficinas – mas, só por nevar da pala de um campo-da-bola, ai-Jesus-que-falta-o-ar à carneirada. E tudo ilibado no caso dos submarinos: pelo que porta-aviões-da-Justiça ao fundo. Mais o paradoxo pulha de agilizar o despedimento com uma pata enquanto a outra (oh mas quão blandiciosamente!) drapeja a bandeirola do milagre económico. A Virgem correndo e o Diabo a rir-se. À privatização das águas, há-de seguir-se a do ar, a do sol, a da lua e a das mães deles, até agora públicas. As mães. Venda-se os Mirós todos mas não nos lixem a Joana Vasconcelos, essa nossa kitsch de últimos-socorros para basbaques parisienses. Explica-desenhar a cores aos drogados deste morredouro-de-seringas que o Caran d’Ache rima com haxe mas não é para fumar. A maldição de Circe, que foi a de transformar os homens em porcos, continuando viva e esperneante no Orwell dos porcos-ao-poder. A literatura de hipermercado acabando de esvaziar as mentes das professoritas do tal ensino particular sempre tão mortinhas por beijocar a boca-de-sapo do Sousa Tavares a ver se descobrem a que é que sabe a beiça de um príncipe-do-nada. A tal Lusófona a dar cobertura ao bisonho Bisonte-dux-badameco do Meco e ameaçando processar os pais dos afogados por calúnia e atentado ao bom-nome da instituição. A Virgem a querer saber – Mas qual bom-nome? – e o Diabo a dizer-lhe – O meu, querida, pois de quem querias tu que fosse?
E tudo isto nos causar uma estranha espécie de surdez diurética, que consiste no já nem os podermos ouvir mas nos mijarmos a rir de todos eles na mesma.

Thursday, February 13, 2014

Rosário Breve n.º 345 - in O RIBATEJO de 13 de Fevereiro de 2014 - www.oribatejo.pt



Diferimento


Figura de homem com gorro azul entre profusa instrumentália científica. Num quarto alto, dando a janela o rosto à foz do rio. O fotógrafo esteve com o cientista de cabeça azul da parte da tarde. À noite, o fotógrafo janta a sós numa casa-de-pasto cuja clientela regular é feita de seres irrecicláveis para esta vida. Depois, vai a um boteco mobilado de madeiras escuras cujo televisor trabalha com o som em off. O inglês Eccles e o inglês Green travam uma final muito bem servida de triplos-vinte. O fotógrafo gosta de ver dardos bem atirados. À quarta leg, Green leva vantagem: 3 a 1. Nem Green nem Eccles são já rapazes. O fotógrafo já não pensa no cientista cujo gorro azul indiciava rotina e serenidade. Solidão também, talvez. O homem oferecera-lhe uma bebida no Café do rés-de-chão do prédio. Aceitou. Tomaram-na na esplanada, que era pequena e soalheira, dando ela também para a grande foz que esteve, e está, na base da razão de os Antepassados ali terem erigido a capital. Têm entre ambos vinte anos de diferença, mas a vida parece tê-los consumado e consumido à mesma velocidade. O fotógrafo não pensa nisso. Talvez se nem lembre já do homem gentil e pouco expansivo que usa há tantos anos o mesmo gorro e o mesmo azul e o mesmo quarto de vidraça em rosto para o rio. A final Eccles/Green é muito agradável de seguir. O fotógrafo permite-se outro shot de Jameson antes de rodar a primeira cerveja do serão. Escassa clientela derredor. O patrão vem sentar-se à mesa do lado direito. Comentam a final, o fotógrafo aproveita uma ida do patrão ao balcão para lhe pedir a cerveja. O homem traz-lha mas não volta a sentar-se. Dois casais ainda moços entraram. Já trazem algum álcool no bucho, a atmosfera range como um móvel velho. Pedem ao patrão que mude o canal para outro de música. O patrão diz que não. Porquê? – querem os audaciosos saber. O patrão diz que há gente a ver as setas. Eles dizem que é só uma pessoa. O patrão diz que são duas – e aponta o polegar de gigante ao próprio peito. Uma das raparigas diz que não faz mal, que dá para conversarem enquanto bebem um copo, mas o namorado da outra, o do porquê?, diz que sendo assim não, que o dinheiro deles é mal empregado ali, espera uma reacção do gigante da casa mas não a tem porque o homem se foi sentar à mesa do fotógrafo com dois copos largos de Jameson puro e mais duas Corona geladas com rodela de limão embutida no gargalo. E depois sentem o silêncio nas costas. E em frente Green vence Eccles, os dois lançadores abraçam-se com desportivismo, depois há saltos de ski mas em diferido, como tudo, cedo ou tarde, acaba sendo.

Tuesday, February 04, 2014

Faz 70 anos a minha rica Irmã(e)


Xelinha x 70

Terça-feira, 4 de Fevereiro de 2014, onze horas menos alguns minutos da manhã – a minha única Irmã faz setenta anos. A prole dos meus Pais começou, portanto, a uma sexta-feira bissexta. Davam as onze horas.
Única menina e primeira de sete, viu-se depressa entregue à condição de Irmã(e) dos seis pimpolhos subsequentes. Eu, vinte anos depois para sempre, que o diga: porque sétimo, porque último e porque escusável.
Ela foi a rosa-perpétua do nosso Pai, senhor que se quedava apreensivo sempre que, mirando-a em prisma de pedra-filosofal, não percebia por que motivo, tendo ele em cadinho de crisol crismado a ouro o sol, fez dela ainda mais seis réplicas em latão. Misérias do desejo progenitor, enfim.
Foi ela também, em luz-íris a mais caleidoscópica, a sombra duplicada da nossa Mãe n.º 1, a cuja velhice terminal amparou mais em encanto de Irmã do que enquanto Filha.
Pós uma mocidade de chitas pobres, remendados sonhos, bailes fugazes e ingénuos platonismos de cine-magazine, a vida deu-lhe entretanto, través o concurso carnal de um quase assustado alto-beirão de olhos bonitos, dentes perfeitos e nome José Maria, uma menina e um menino. As fotografias da época que viu tais nascenças comprovam sem esforço e com glória o clarão capilar-tritíceo dos rebentos: dois cortazàrianos “relâmpagos de trigo”. Ficou doida por eles, doidice que, aliás, os anos não abrandam, antes extremam. Com o nascimento da neta, aqui há uns pouquíssimos anos-segundos, viu-se na posse de um tesouro incalculável, que indefessa e avaramente resguarda em vigilância de escopeta municiada a zagalote grosso, atenta em pura raiva aos bandoleiros de encruzilhada-de-alminhas sob o luar sinistro que o heterónimo-mor da Vida (o Diabo) gosta de entenebrecer riscando na pedra as cuneiformes pègadas da cabra do Assombro.
Em moça, cantava – e então, a filomela toda dela rouxinolava dramalhões de fado menor em redondilha maior, paixões lúgubres e fatais relativas àquela Carmencita em revoadas pícaras de ciganos e novelescas fugas a cavalo través montes com cartão cénico por fundo e de uma poética-de-cordel por insígnia.
Sempre tomou uma taça de espumante por ano – era pelo nosso Natal pagão, quando, à mesa, todos éramos vivos e morrer era uma coisa que só lá fora, coitados dos vizinhos.
Mestre nunca amável e jamais afável, o Tempo, por agravo, a todos nos amestra e resigna sem brandura nem apelo. Cada manhã se faz tarde, sendo a noite mais certa do que a tal improvável perpetuidade de umas tais rosas provadas. O que não posso, porém, é deixar de sorrir ao acaso de, às exactas onze horas deste Fevereiro-4, uma fresca frecha de sol vir pelo ar varar a cinzura februária e a empena da casa em frente, de pronto rutilando de jóias vivas os pardais ao beiral dela inscritos como sentinelas gráficas.
Sim, sorrio à imagem pensada da netita da minha Irmã(e), criança que nem sabe, mas há-de saber, a sorte que houve em ter começado a nascer não há meros três mas há precisamente setenta anos, ainda a Carmencita congeminava a fuga –  como tudo aliás acaba fugindo, menos o amor invencível que temos por aquela que a cantava.

Monday, February 03, 2014

Un poema en mal estado intoxica a 13 personas de melancolía

http://www.elmundotoday.com/2012/02/un-poema-en-mal-estado-intoxica-a-13-personas-de-melancolia/



SEIS DE LOS AFECTADOS SIGUEN INGRESADOS CON "PESADEZ DE CORAZÓN"
Publicado por Kike García el 5 de febrero, 2012


Al menos 13 personas han sufrido una intoxicación el pasado fin de semana después de asistir a la lectura pública de un poema en mal estado, según han señalado fuentes del Institut Català de la Salut (ICS). De las 13 personas afectadas de “pesadumbre vital, dolor del alma y un amor desbocado hacia una persona indeterminada, quizá un ideal”, entre otros síntomas, al menos 6 continuaban la tarde del domingo llorando en el Hospital de Sant Pau y “buscando respuestas en el ocaso”, en palabras de los médicos que las atendieron.
La rosa del desierto, el local barcelonés en el que tuvo lugar la lectura pública del poema en mal estado, ha sido clausurado esta mañana. “La poesía es un arma cargada de futuro, y si cae en malas manos pasa lo que pasa, coño. Por suerte, hay pocos aficionados a la poesía hoy en día y no tenemos que hablar de pandemia”, explica uno de los policías que ha cerrado el establecimiento. El poema, que no se puede reproducir por motivos evidentes, arrancaba con los versos “No alabes mi belleza maltrecha” y terminaba con la expresión “pozo sombrío”.
El departamento de intoxicaciones alimentarias del ICS ha abierto ya una investigación para determinar, mediante comentarios de texto, cuál de los versos es el que habría sumido en un profundo estado de pesadumbre a los que asistieron a la lectura. El poeta aficionado, autor del poema en cuestión, ya ha pasado a disposición judicial y se verá en la obligación de justificar todos los recursos estilísticos usados en el texto. Se comprobará así si los copió de algún sitio y si el poeta está capacitado para abrir su corazón en locales públicos o debería conformarse con guardar sus versos en un cajón y sentirse incomprendido y eternamente desamparado.

Las personas intoxicadas solo pueden hablar usando un “lenguaje florido”

“Cuando salí del café ya empecé a notarme raro, pero al llegar a casa sentí una desazón que parecía que se me iba a partir el alma en dos”, confiesa uno de los afectados. Desde entonces, no ha sido capaz de superar la aflicción en la que se encuentra sumido ni de dejar de hablar “en lenguaje florido”. Al otro lado del teléfono, reconoce que ha sentido deseos de terminar con su vida. “Visto desde fuera parece horrible morir, pero puede que sea la única salida ante esta confusión total que es la vida, a la que podemos considerar el cálculo total de algo que en realidad no ha ocurrido”. Al colgar dijo: “No puedo dejar de anotar la belleza de este momento en mi cartera, olmo verdecido”.
No todos los afectados acudieron por iniciativa propia a los centros hospitalarios, muchos fueron aconsejados por sus familiares, que los encontraron extraños. “A mi marido se ve que le caló mucho un verso de Petrarca que leyeron en la lectura esa y se vistió en plan medieval y empezó a recitar ‘Marisa, siento por ti un fuego helado y tus dientes relucen como radiadores domésticos’ y otros recursos típicos del petrarquismo pero usados con muy mala fortuna. Me debatí entre pegarle dos hostias o llevarle al hospital y, para no ponerle más triste, le llevé al hospital”, explica. Otro de los afectados no deja de decir “Me siento completamente viernes”, lo que ha obligado a los médicos que le atienden a improvisar un pequeño foro literario para interpretar entre todos lo que “el poeta” está intentando decir y así poder diagnosticarle.
No es el primer caso de poesía en mal estado que ha saltado a los medios en los últimos meses. El pasado noviembre, la policía interceptó en el puerto de Barcelona un cargamento de poemas del “Machado chino” que estaban construidos a base de falsos sentimientos.

Sunday, February 02, 2014

Do caderno 27 (CÃO) da série LEITE DOS SANTOS

CINQUENTA: PERDURAÇÃO - II

Leiria, terça-feira, 28 de Janeiro de 2014

Nada perdura que humano seja
– assim Maio escrevi ano passado.
Ora, o arvoredo, despassarado,
semelha ao vento um frio vão de igreja.

É como se antigamente o Inverno.
É como se nada fosse – e não é.
É como se a vida mesma, aqui ao pé,
ázima invernasse o pão que vier no

restolho de outros dias perduráveis:
esses mais amáveis e mais amados,
esses idos já todos, já passados.

Do conto incontável dos dias-tempo,
não lâmpada sobra nem filamento.
Humanos são só os não perdurados.

Thursday, January 30, 2014

Rosário Breve n.º 343 - in O RIBATEJO de 30 de Janeiro de 2014 - in www.oribatejo.pt




Projecto esverdeado por uns olhos

Os sonhos são para se ter a dormir.
Os projectos são para se ter quando acordado.
Os meus sonhos são estapafúrdios (como o são, suponho, os de toda a gente), mas os meus projectos são simples. São simples e são poucos.
Um deles consiste tão-só nisto: ir, um destes dias menos agrestes, tomar café àquele Vale a que Santarém dá nome e que a Santarém franqueia o Sul. A Vale de Santarém chegado, muito prazer me viria de, permeando o portal da Sociedade Recreativa Operária local, encontrar quiçá a senhora Teresa Horta e/ou o senhor Alfredo Silva, habitantes que são daquela geoformosura apenas maculada pelos fedores residuais do (deficiente) tratamento de imundícies. Com ela e com ele à cavaqueira a mais amena, julgo o mais crível este cenário: o senhor Alfredo evocando o poeta local que de nome houve João d’Aldeia, autor assinante da quadra consagrada e honrada em azulejo a azul-nascente:
Lavadeiras que lavais
Na água doce e branquinha
Nos suspiros que vós dais
Está toda a esperança minha.
E de pronto, certo disso estou e fico, a senhora Teresa ajuntaria ao lume oratório a suave cavaca do espectro benigno e gentil da Joaninha dos Olhos Verdes, essa feminil e virginal musa de rouxinóis que o grande Almeida Garrett ali vincou e fincou para sempre, entre as águas que correm no Tempo que se não cansa, nas nunca por de mais celebradas Viagens na Minha Terra.
Há tempos já que tal projecto me incandescia o íntimo escrivão, mas a coisa agravou-se quando, a 8 de Dezembro passado, vi uma breve reportagem da Local Visão TV. Tomei notas logo, muito bem de antemão sabendo eu que de algumas me adviria o presente cronicar. Por e de tais imagens, foi-me possível, sem esforço algum e sem do sofá levantar o fofo cindido, voltar a subir ao diadema vivo das Portas do Sol, sentindo à esquerda essa jóia (i)memorial chamada Casa-Museu Passos Canavarro e, a toda a larga volta, o esplendor elástico que o régio Tejo, qual veia aberta, atira em poalha de cobalto à pureza inefável e diáfana do ar, esse ar que só no Ribatejo assim se pode respirar com os órgãos da vista. A luz, muito alta e muito irrígua, toma conta de um gajo sem lhe pedir, e muito menos lhe dar, explicações.
Deixei-me por ali estar quanto pude, saciando de saúde as sílabas e os pulmões, cuidando só de não sentir essa fome que, parece, um tal senhor chamado Tiago Leite, afinal mero nosso empregado porque funcionário público, abespinhadamente afiança que só passa quem quer, por mais pobre, no distrito a que Santarém dá nome também.
À noitinha, porém, a realidade, que não se compadece nem de sonhos nem de projectos, muito menos de sonhadores e de projectistas, contou-me os caracteres e mandou-me encerrar a crónica: foi quando a minha Senhora (que me esmolou comigo se casando), mui alquebrada de honesta fadiga, chegou a casa. Arguta como pardal e bífida como é da fêmea serpentina condição, deu logo por que sobre a mesinha-de-centro havia não uma mas duas chávenas de ex-café. A de excesso não podia ser minha – era, claro, a da clara Joaninha.
Ou a de toda a esperança minha


Thursday, January 23, 2014

Rosário Breve n.º 342 - in O RIBATEJO de 23 de Janeiro de 2014 - www.oribatejo.pt

A mesma história duas vezes

Por ocasião dos primeiros dias do ano corrente, apareceu vadiando pelas imediações do bairro onde assentei praça para a vida um gato. Bonito, masculino, sozinho, o todo dele parecia-se demasiado com o nada, mercê do golpe sem mercê do abandono. Pela esplanada da pastelaria, o animal roçava-se pelas pernas humanas dos sentados, mais mendigando afagos na cabeça do que comida. Conto-me entre as pessoas que se condoeram do bicho, decerto perdido de carinhos até então usufruídos. Não mostrava feridas para além da do olhar, que catrapiscava desamparo a milhas longas. Um dia, na passagem coberta entre prédios, apareceram duas taças plásticas, uma com água fresca e outra com ração seca própria para felídeos. Comecei a trazer a minha contribuição diária.
Pelos mesmos entretantos, ali-além, à beira de uma vala que delimita a oriente um terreiro de feira, fiz outra descoberta. Existe nesse azimute um cubículo pré-fabricado, desses que servem de guarita de billheteira para os certames pimbas tão ao gosto da populaça de alegada ascendência lusitana. Como o gato referido supra, também o cubículo amanh’anoitece todos os dias em abandono. Até começar o ano.
Aconteceu que, debruçando-me eu para içar do chão o guarda-chuva, que se me escapulira do antebraço do lado do relógio, me foi dado sentir que a minha pluvial e proverbial solidão não estava tão sozinha quão de costume. E não estava: reerguido, vi pela janela estilhaçada da ex-bilheteira um homem quase ainda rapaz lá dentro. Também sozinho, também masculino, talvez bonito quando criança com casa de pais ou mulher. Estava lá dentro deitado, por paradoxo, entre cartões de embalar frigoríficos para se aquecer, que o Janeiro tem andado de modos frígidos. A minha cabeça assustou-o. Como que devassado, mirou-me em cautelas defensivas. Tivera ele asas – e estou certo que teria despassarado dali num fósforo de tempo. Por respeito, por embaraço também, murmurei-lhe Desculpe e despassarei eu de chapéu, guarda-chuva e gabardina, que até parecia o Jacques Tati. Na crónica que de imediato senti não poder deixar de escrever, guardo o olhar dele: fulgia daquela brasa álgida tão própria dos que perderam tudo menos a certeza de a vida ser uma estéril meretriz quando lhe apetece.
Levei-me para outra geografia onde as chuvas não doessem tanto na almácega do coração. Tão cedo, não volto lá a passar. Não é que eu não tenha em casa comida de gente para partilhar com ele. O meu receio é que, levando-lhe algum pão, me distraia a ponto de, sem que ele mo peça ou de mim o espere, ainda acabar por lhe fazer algum afago na cabeça.


Monday, January 20, 2014

BAILE SOZINHO ou O INVERNO DE QUELUZ, 48, Leiria, manhã de 11 de Maio de 2013, sábado

48

Leiria, manhã de 11 de Maio de 2013, sábado


Para onde vai o mundo, digo, onde se metem
as pessoas que ao meio-dia desertam a feira?
Por que imperioso desígnio fica tudo tão vazio?
Ao cabo de tantos anos de trabalho, adentram-me
a escrita esta preocupação e outras afins, não sou
um narrador de viagens heróicas, nunca fui

tal coisa. Tenho pelo menos essa decência, já não é
mau de todo. Pela tarde, hei-de desertar, eu mesmo,
que feira? Já o Rio me chama, faz sol o ar,
há, ou dá-se, uma brisa decente & refrigerante,
uma pessoa pode flectir pelas bandas do realmente,
a écloga é possível e até provável no sábado.

Numa tenda beira-fluvial cozinham peixe em água-de-tomate,
a álea de freixos fica perfumada como uma sacristia,
muito eu gosto de sentir a felicidade simples das merendas,
que são lentas e lautas e pobres e tão dignas e tão históricas,
é uma bela coisa o anonimato do Povo, nem tudo
pode ser triste, devo insistir que não para sobreviver.

Ponho-me então a grafar sem a fúria já dos primeiros anos.
Daqui a pouco vou para casa algo valetudinariamente.
Sou tão português de aldeia, que chego a adoecer só
de pensar seja no que for, alguma coisa se me avariou
talvez para sempre, mas nem assim o pus do medo
me infecta a constância, o pão das pombas & o Diabo-por-ele.

Thursday, January 16, 2014

Rosário Breve n.º 341 - in O RIBATEJO de 16 de Janeiro de 2014 - www.oribatejo.pt




O Henrique, o David e eu com dentes novos

Pode ser uma chatice, isto de acordar às seis da manhã já vestido e na pastelaria já. À saída do transe, a vida põe-se toda a saber a bolos de ontem e a aguadilha de café refervido. Na nublação, as caras não chegam a rostos: parecem, antes, moedas gastas, trocos indiferentes de nota nenhuma cujo único câmbio áureo é o amarelo do alerta-idem que há semanas invernosamente varre o litoral continental de Norte a Sul.
A coisa agrava-se se, como segunda-feira passada foi o meu caso, for manhã de ir ao dentista. Lá estive, de bocarra escancarada como betoneira mole, exposto ao doutor que implacavelmente me garimpava poços novos naquela parte do corpo que uso para urdir sílabas, cuspos e ontens cariados. Mas estou melhor, obrigadinho, isto passa – como tudo passa.
“Toda a gente quer endireitar o mundo; ninguém quer ajudar o vizinho.”
Assim fala um homem chamado Henrique Moleiro. Por apreciar o que dele ouço, presto-lhe uma atenção mais por escrito. Não faz mal que tenham dado já as nove e ¼ e que por isso seja eu o único freguês da confeitaria, tirante a empregada, que é Deolinda e também sofre dos dentes. Não faz mal que Henrique seja de facto Henry e Miller em vez de Moleiro, que o que lhe ouço dizer esteja afinal escrito em Max e os Fagócitos Brancos, prosa que escancarei no tampo da mesa, à maneira da própria boca no trono reclinado do odontologista, para melhor suporte meu da realidade dos outros.
Faz-se entretanto horas-de-não-sei-quê. No entrementes, chega o David Jornaleiro com os jornais do dia para leitura gratuita dos fregueses. A Deolinda dá-lhe a esmola discreta do galão-pão-com-margarina, esta afinal sempre ajuda o vizinho ao contrário do que o Miller diz, o David é vizinho de toda a gente por ser sem-abrigo, isto de entregar os jornais pelos Cafés e de andar aos recados é um favor que lhe deixam fazer a troco do pão-margarina de cada dia. O mundo que se endireite por conta própria, afinal o David sempre faz pela vida, que a esperança pode ser a última a morrer mas cada um de nós é o penúltimo a fazer o mesmo.
O jornal traz a doutrina do costume: ex-maridos que, possessos de furioso ciúme venatório, caçadeiram as ex-mulheres, multibancos estoirados à botija, velhotes que, como pescadores em terra, amanhecem afogados dentro de poços a céu-aberto (como a minha bocarra no dentista segunda-feira passada, já não me lembro se Vos falei disso já), baixas mortais da guerra civil em que o trânsito rodoviário se tornou, Cavaco escrevendo Direita por linhas mortas. E São Cristiano Ronaldo, espécie de anjo feliz com lágrimas que, na esteira multigloriosa de Santo Eusébio, nos reitera o rotativismo monárquico-geracional do “rei morto, rei posto”.
Vale-nos, de França, que uma certa errante fragrância parisiense de sedosas saias e de anáguas emanuellianas, com furtivos motociclos abandonando de madrugada o ninho-de-amor à mistura, nos chega das peripécias com uma actriz até jeitosinha frequentada a nu pelo senhor presidente gaulês, monsieur que, por se chamar Hollande, sempre dá outro prospecto erótico a moinhos rouges e a tulipas abaixo do nível do mar em plenos Champs Elysées. Nos arredores tristonhos desse divertimento com Tour Eiffel ao fundo, aqui a maltosa cá vai aprendendo inglês pelo lado mais dark da moon, que é como por mania os Bifes chamam a uma coisa que se vê logo ser a Lua. Exemplos desse poliglotismo: bullying escolar (suicídio do miúdo de 15 anos no concelho de Braga), carjacking (com fartura e por todo o lado), rating (agências ratonas de Wall Street em desprezo total pelas Constituições ex-livres e ex-democráticas das nações), spread (manigâncias tipo usura-à-BPN), swaps (tipo papagaio-louro-de-bico-amarelo-põe-as-pensões-pobres-dentro-dum-chinelo): e tudo isto com sotaque à Lauro António, tipo léte-se-lu-két’da-trêila.
Indiferentes a tais apuros apenas humanos, porém, a Grande Roda do Tempo marcha em ímpia surdez rumo ao próximo Natal via Época-de-Incêndios-Caça-ao-Bombeiro-do-Verão. Que até lá, enfim, nos não doa fisicamente a cabeça. Ou os dentes. A mim de certeza que não, digo os dentes, que por essa altura já não hei-de ter nenhum dos naturais, por tê-los estragado com bolos tão de ontem como a vida, mas sim daqueles que fazem do sorriso um pequeno milagre feito de resina acrílica, cuspinhenta e silábica, ó Deolinda.


Wednesday, January 15, 2014

Palavra "encómio" no Priberam refere-nos (a O Ribatejo e a um seu cronista): fixe, porreiríssimo da silva (por falar em Silva, obrigada pela chamada de atenção, FêJota)

http://www.priberam.pt/dlpo/enc%C3%B3mio

Esta palavra em notícias

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...incomparável sports(gentle)man afroportuguêsmuito encómio foi em boa-fé tecido,...
 Em O Ribatejo

"encómio", in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013, http://www.priberam.pt/dlpo/enc%C3%B3mio [consultado em 15-01-2014].

Friday, January 10, 2014

Primeira crónica de 2014 - Rosário Breve n.º 340 - in O RIBATEJO de 9 de Janeiro de 2014 - www.oribatejo.pt

Meninos-da-trapeira também nós somos, enfim

A dobradiça que rangeu o pórtico da passagem do ano 13 para o ano 14 do corrente milénio nosso fez, como é do crepuscular costume dos ocasos, os seus óbitos ilustres e as suas terminações anónimas.
Gente comum houve que deixou de haver por o mar físico a ter levado. E gente outra foi levada pelo mar do Tempo, que ainda assim não logrou, dados dela o gigantismo colossal e dela o nome claro, roubar-no-la de todo. Falo de Nelson Mandela e de Eusébio da Silva Ferreira.
Tanto ao tribuno e estadista sul-africano como ao incomparável sports(gentle)man afroportuguês, muito encómio foi em boa-fé tecido, em uma impressionante universalidade que só pode resultar do mais elementar consenso em matrimónio com o mais curial bom-senso. Do passamento deste último, resultou-nos um baque no coração que nos trouxe à boca o amargor frustre do golo sofrido na própria baliza, que é como quem diz, sem nacional-sentimentalismos tolos, Pátria.
Muito a quente do acontecimento obituário deste homem que tinha pelo menos tanto de pantera negra quanto de gaivota branca, desta figura que como tão poucos humanos irmanou Beleza e Graça em sinonímia pura, escrevi, como se sobre os martirizados joelhos mesmos dele, umas breves horas depois da alvorada triste que determinou o furto, ao colar do Mundo, de tal pérola. Estas foram tais linhas:

Órfãos do menino-da-trapeira desde a madrugad’agora

Leiria, manhã de domingo, 5 de Janeiro de 2014

Órfãos do menino-da-trapeira desde a madrugad’agora:
às 3h30m, morreu Eusébio, o grande senhor Eusébio
da Silva Ferreira, que deixa viúva Flora e viúvo
Portugal.
Nascera em Moçambique a 25 de Janeiro de 1942.
Chamaram-lhe depois Pantera. Negra, naturalmente.
Vi-o três vezes nas nossas vidas:
uma, em Coimbra (perdeu por 2-0 com a Académica);
outra, em Coimbra também (os encarnados deram 0-4 ao meu União);
e outra, em Lisboa, no Cemitério do Alto de São João, tinha ele lá ido fazer as honras a alguém do dirigismo futeboleiro, enquanto, quanto a mim, passeava por ali lendo lápides, visitando o derradeiro sítio de Ramalho Ortigão, sentindo coisas para escreviver.
Sinto o mesmo, com exactidão o mesmo, que senti
quando, no ocaso do ano 1999, nos morreu a divina Amália:
dois colossos pátrios, duas pessoas melhores, dois artistas
de uma época que a eles deve, em boa ho(n)ra, ser imorredoura
chamada.
(E trapeira é bola de trapo, na terra batida da antiga
Lourenço Marques.)

Parece-me não ter andado em grande desacerto isto escrevendo. Lamento tão-só, a reboque de certa justíssima observação do meu Amigo Júlio Murraças no Facebook no próprio dia das grandes exéquias e das altas honras, não poder fazê-lo também a propósito de todos e de cada um que este País diariamente aniquila sem ao menos lhes volver meã a haste da Bandeira:
o idoso que comete o improvável crime geriátrico do envelhecimento e a quem uma reforma obscenamente miserável proíbe o medicamento paliativo e a higiene da dignidade;
o moço que incorre na insensatez de estudar e a quem a voracidade da besta hiante do troikapitalismo interdita o futuro agora-já;
o jornaleiro agrícola que, loucamente contumaz no intuito de fazer das próprias mãos duas estrelas férteis, vê impotente que e como lhe (trans)tornam as searas em campos de golfe, para exclusivo e regalado usufruto de inúteis plutocratas que devem pensar que o pão cresce das árvores e o azeite pinga dos intervalos da chuva;
o funcionário público “promovido” de repente a avatar de todos os males sistémicos deste mundo e do outro, mas cuja verdadeira origem, a dos males, reside sem discussão na chulice da corja parasitária que tão bem sabemos quem seja mas que também não deixamos, pontuais, de reeleger ad infinitum, à maneira de fedelhos estúpidos que se deitam com o papão nosso de cada dia;
e toda a demais honesta gente a quem Portugal, tirante o bom Eusébio, gosta de fazer mal porque o Bem é um luxo demasiado requintado para desperdiçar com pelintras.
Nelson Eusébio Mandela da Silva Ferreira nunca nos deixaram, porém, de mostrar que o contrário não só é possível como obrigatório.

Bem-hajam por isso, lá na éter-eternidade que os não deixa morrer, como a nós deixa.

Sunday, January 05, 2014

Órfãos do menino-da-trapeira desde a madrugad’agora - Leiria, manhã de domingo, 5 de Janeiro de 2014




Órfãos do menino-da-trapeira desde a madrugad’agora:
às 3h30m, morreu Eusébio, o grande senhor Eusébio
da Silva Ferreira, que deixa viúva Flora e viúvo
Portugal.
Nascera em Moçambique a 25 de Janeiro de 1942.
Chamaram-lhe depois Pantera. Negra, naturalmente.
Vi-o três vezes nas nossas vidas:
uma, em Coimbra (perdeu por 2-0 com a Académica);
outra, em Coimbra também (os encarnados deram 0-4 ao meu União);
e outra, em Lisboa, no Cemitério do Alto de São João, tinha ele lá ido fazer as honras a alguém do dirigismo futeboleiro, enquanto, quanto a mim, passeava por ali lendo lápides, visitando o derradeiro sítio de Ramalho Ortigão, sentindo coisas para escreviver.
Sinto o mesmo, com exactidão o mesmo, que senti
quando, no ocaso do ano 1999, nos morreu a divina Amália:
dois colossos pátrios, duas pessoas melhores, dois artistas
de uma época que a eles deve, em boa ho(n)ra, ser imorredoura
chamada.
(E trapeira é bola de trapo, na terra batida da antiga
Lourenço Marques.)

Sunday, December 29, 2013

Última crónica de 2013 para O RIBATEJO - Rosário Breve n.º 339 - in www.oribatejo.pt



Aritmética de rebanho

Digo-o de cor mas não à pressa: a 8 de Março próximo, é de celebrar o primeiro século decorrido desde a magia de maravilha daquele   momento/limiar em que, acercando-se de uma cómoda alta em perfeito transe de criação, um tal Fernando Alberto Pessoa Caeiro deu à luz, e de um jacto, os poemas de O Guardador de Rebanhos.
Esse mesmo ano quatordécimo do XX foi o do rebentamento da famigerada Grande Guerra, também chamada Primeira Mundial (como se toda e qualquer guerra, por invariavelmente configurar o crime da desumanidade contra a humanidade, não fosse sempre mundial).
E foi também, já agora, o do nascimento de Alberto dos Santos Abrunheiro, meu Tio paterno e o mais perfeito exemplar da mais exemplar solidão pessoal que já me foi acontecido conhecer. Amputado aos dezanove anos de uma das pernas no mesmo ano de gangrena da ascensão de Hitler à chancelaria do Reich e da, por cá, infame Constituição salazarenta que pros(ins)tituiu a ratazanaria do Estado Novo, esse meu também Alberto atravessou a vau o almegue desolado da própria existência, a qual se lhe finou, sozinho ele como à chuva um cão sem coleira, a 14 de Agosto de 1980. Outro catorze para outro Alberto, portanto: aritmética de rebanho.
Destas águas passadas, confesso, se movem os meus moinhos, quiçá se não de mais. São, por assim dizer, a minha cinemateca portátil, pois que, surda e gestual à maneira de cinema-mudo comigo sozinho na plateia, sempre me deixa re(vi)ver o-que-lá-vai no cumprimento da ameaça de nunca mais voltar.
Entre o ano que aí vem e o que ora se nos acaba, parece-me bem (mal) que o Diabo já veio e já escolheu: mais do mesmo e p’ra pior. O contumaz e relapso desGoverno da Nação, em inquebrantável imunidade ao mais simples civismo como o daltónico ao arco-íris, tudo (des)fará em proveito do piorio.
Passos continuará sempre inapto e inepto, incapaz sempre de entender o Barão de Itaraté: “Não é triste mudar de ideias, triste é não ter ideias para mudar.”
Já o inefável Portas não há-de ter, dentre as dezenas de milhar de fotocópias que à escancarada sorrelfa esmifrou ao xerox do Ministério da Defesa, uma mera folheca A4 que lhe recorde o que Virginia Woolf recordou, que foi aquilo que fez a Lady Winchelsea escarnecer do autor de Trivia, um tal John (curiosamente) Gay: “Mais lhe competiria andar à frente da carruagem do que andar nela.”
Resta-nos, dos vigentes, o mineral Cavaco, cuja rigidez malar trai dele a propensão facínora para a lagrimeta de esguicho provinda da flor de plástico à lapela de mau cómico. Porque, de entre tantas mais coisas, a “preocupação” dele para com os reformados se resume a dois utentes: ele próprio e a própria mulher dele próprio.
Em 2013 como em 2014, tudo isto me parece ser de sem-tirar-nem-pôr, tão-só ressalvando, da geral canalhada, a rapaziada de toga-tunga do Tribunal Constitucional, benza Deus a tais santinhos deste mais estábulo do que Estado.
À guisa, enfim, de conclusão, isto está pró péssimo e não vai p’ra menos ruim. Optimismos tolos, sirva-se deles o acéfalo de serviço à porta da sopa-dos-pobres em arroubo de caridadezinha sazonal. A verdade é sermos, um a um(a), dez milhões de pategos sempr’agradecidos a Vossa Senhoria, o bonèzito estendido como língua de pano, o joelhozito dobrado em ângulo tipo-Cova-da-Iria ante a azinheira do Poder. Como é verdade também subirmos todos já a encosta nascente da Serra do Caramulo, em cujo cume pontifica o quarto sozinho e crepuscular do sanatório que os dois Albertos, o que era meu Tio e o que guardava rebanhos de tinta por veigas de papel, escolheram para, respectivamente, morrer e nascer – dois actos existenciais que o próximo ano não promete propriamente vir a saber distinguir.