Friday, June 28, 2013

Rosário Breve n-º 315 - in O RIBATEJO de 27 de Junho de 2013 - www.oribatejo.pt



Fala um pobretuguês

A vida – ou é politécnica ou dá em ser chilra como as águas de bacalhau. Já quanto a tal não engordo o bacorinho da dúvida. Por teologia portátil, sou tão-só um não-católico praticante. Não sofro Deus lá em cima nem temo do Diabo o baixio. O que se acha no fundo de cada copo é o desencontro. O desencontro e o desencanto, que o retorno à sobriedade pune e agrava.
Longamente esperei Junho – para isto. Isto sendo: na abcissa do paladar, o abcesso do couro molhado em a malvasia da melancolia. Isto é um País que nem Junho melhora. Deve ser porque a minha doença se chama Portugal. Ou Pobretugal. O amor é uma doença, ninguém com dois dedos de testa e duas unhas de coração raciocinante (m)o negará. Padeço de me serem portuguesas, ou pobretuguesas, a vida e a condição. Acontece que convalesço mui mal de tal enfermidade. Entardenoitece-me o espectáculo reiterado da estupidez mineral de um ex-Povo. O nosso. Portador embora de uma Língua superlativa e como nenhuma outra milionária de sílabas do mais fino quilate áureo, multissecular já, a Malta continua a dar o crânio por mesa de onde lhe comem as papas. Entenebrece-me que os mandadores planetários (amailos seus lacaio-caudatários locais) possam impunemente condenar a comum gente a trincar areia por pão. Por extensão, desfanica-me a coragem que o meu País se veja, à maneira titular de Irene Lisboa, com uma mão cheia de nada, outra de coisa nenhuma.
Entanto, a terça-feira para que renasço, 25 de Junho, é de uma limpidez prístina que até dói. A Luz é maiúscula como um avesso de Lua – e de redundante quididade. O esplendor é prodigioso qual um trecho camoniano (um qualquer). Como vela à bolina fresca, a aragem empluma levezas de pele que se dá ares. Fragrâncias de limoeiro confirmam da passarada a condição de porta-perfume. Tudo se aguarela muito, tudo se me afigura recente de si mesmo. Junho floresce perigosamente como a esperança. A esperança seja do que for. A esperança que é perigosa por consistir em usança da espera. Mas esta Luz ajunhada, esta claridade que dá perfeitamente para perceber, por essas ruas & praças, quais os cônjuges que pela noite se refizeram eroticamente sudoríferas branduras e quais os que não.
Despertar para a legibilidade humana sempre me permitiu, até hoje, a não, por assim dizer, d-existência. Nasce-se com defeito e morre-se perfeito. Há quem se minta o contrário. É talvez porque a morte torna anterior até o futuro. E porque ela já (nos, a todos) começou nos lugares onde estivemos e a que não voltaremos. É por isso que tanto faço por voltar. Voltar por voltar. Voltar para viver. Ainda. Um pouco. Mais. Ainda que não física ou geograficamente, voltar para e em frente da lembrança. Tenho (temos todos) uma máquina-do-tempo para o efeito. Chama-se Memória.
O amor é cego.
A memória é o cão do cego.
Assim pude escrever, resgatando-me, mercê deste dístico, há uns poucos anos e em sítio e para gente a que não voltarei, de uma manhã parda, vivia eu então numa merdaleja qualquer certas minhas horas más de anos não bons.
Fora de portas, a Realidade rosnava ameaças peremptórias: pobreza, desemprego, álcool a mais, fins-de-linha. Ainda rosna, mas retorquindo-lhe lhe vou, a instantâneo prazo, em, por assim dizer, r-existência. Escoro-lhe de livros bons as horas más. Esturrico-lhe de versos tónicos as veleidades materiais. E desminto dela, em paleta arco-irisada, o pretobranquismo de suas práticas e feias fauces.
Estragou-se-me ontem o telemóvel, não tenho dinheiro para outro e não quero saber. Quem quiser falar comigo, que me escreva. Outra coisa não tenho feito estes já tantos anos todos. Tenho andado mais macambúzio que de costume por causa de um documentário que há dias revi pela TV. Era sobre a breve vida (mas perene obra) de um grand’enorme artista: Mário Botas (1952-1983), português da Nazaré. Morreu aos 31 anos, como o meu irmão Jorge. Mário e Jorge gostavam ambos de Egon Schiele (1890-1918). Outro que morreu tão novo.
Por contraponto, acabo saudando o ter vivido já os meus 49. Ninguém mos tira, por mais torçam Deus e o Diabo os respectivos rabichos de saca-rolhas de bacorinho. Assim contra os canhões marcho, afinal, no esplendor de Junho, se não de Portugal.

Thursday, June 20, 2013

Rosário Breve n.º 314 - in O RIBATEJO - www.oribatejo.pt

Vai devagar antes que tomates alguém

Não foi ainda desta que me fiz presente na sempre aparato-grandiosa e scalabitana Feira Nacional de Agricultura (FNA). Não por culpa da Organização mas por causa da minha matripatrimonial senhora, que pouco me deixa sair de casa. (A não ser por escrito – embora uma só vez por semana e só até 3500 caracteres em página última. Misérias suaves, enfim, as minhas. Adiante.)
Por modos que não fui à já hemissecular FNA (acrónimo a que só falta um C final para vender best-sellers e cêdêvêdês com fartura ou um T terminal para homografar a estadonovista antecessora do INATEL que Deus tem). Não fui eu mas foi o Portas, o inefável Portas, o cândido Paulinho, esse exímio fandanguista de arraiais, esse incansável e quase lúbrico osculador de peixeiras, esse ASAE bonzinho que mais depressa caça um voto à viúva zarolha dos tremoços e ao cigano contrafactor da Benetton de Avintes do que o Diabo se esfrega o terceiro-olho à Lobsang Rampa. A falta que lá não fiz, fá-la-ia o adocicado PP, ex-enfant-terrible do gorado e não saudoso Independente, fotocopista licencioso e multiusos de documentos da Defesa Nacional, hoje tão depressa feirante da diplomacia como amanhã diplomata das feiras. O preclaro Portas! Utente malapato e malacafento de uma “clareza” no explicar-se chapeada a rebites de onzeneiro judeu à la Gil Vicente, beato como um guarda-redes de mesa de matraquilhos em salão paroquial, o PP do PP está para a sinceridade como o Gaspar para a rapidez fonética, o Relvas para os estudos, o Crato para uma decente carreira docente, o Alvarinho para o livro Anita Procura Emprego, o Coelho a cantar a Nini, o Soares para a mocidade (portuguesa), o Seguro para a maturidade, o Alegre para a poesia a sério, o Goucha para a Playboy e eu, nem que uma vez só na vida, para a FNA.
Não fui. Perdi eu. O mais longe que fui, foi ali à Rita, primeiro, e à Rosa, depois. Ambos os estabelecimentos são de boa índole cafeíno-licorosa, ambos graciosamente oferecem a leitura sempre auspiciosa do purulento Correio da Manhã. A propósito deste periódico (recorrente tripulante, aliás, da nave da minha mundivisão), dia 15 passado foi um bom dia. Na rubrica Mundo Louco (súmula, afinal, de todo o jornal), auferi a alvíssara de não ter ido à FNA. Era a páginas 29. Um alegado poeta colombiano chamado Brochero (pois…), frustrado com a indiferença que em sua/dele nativa América do Sul lhe devotam ao respectivo escrevinhanço, propunha-se fazer uma viagem à Europa no intuito de divulgar o seu/dele livro mais fresco, uma decerto pataratice intitulada “Poesia pela Paz”. O problema dele era o que o nosso é: dinheiro, nicles. Vai daí, no propósito sempre louvável da angariação de verba pró-verbo poético, lembrou-se, o palerma, de leiloar os próprios testículos. Sim, as próprias bolsas gónadas. E isto a partir de uma licitação de coisa de 15 mil euros. A sete mil e ½ o guizo, portanto.
Notai, meu fiel leitor e deslumbrante leitora minha, que bem mais bocejo eu do que pasmo, na idade não ínclita mas madurota já a que já cheguei – e que é de apenas menos um do que os cinquenta anos nesta edição festiva e justamente celebrados pela FNA. Mas perante coisa assim, confesso, pasmei. É que nem dá para gozar. (Ou dará?)
Pacificou-me todavia uma arte que mui hei desenvolvido até ao presente hoje-dia: a da contrastaria.

Contrastei assim: para publicar um livro, posso não ter os tomates provisórios do Brochero, mas também de nada me adiantaria, para efeito de me ver em prelo e escaparate e JL e tudo, cercear-me a virilidade dos jardins-suspensos ligeiramente refrigerados na sub-reentrância das axilas de baixo. Ou seja: nem cortá-los para pública haste, nem ter ido ao 10 de Junho a Elvas, efeméride e sítio onde o senhor Presidente da República, discursando, também se pôs a falar de uns tomates que naquele certame em particular não havia, como os figurativamente não há no resto do arraial político deste eunuco País.

Thursday, June 13, 2013

Rosário Breve n.º 313 - in O RIBATEJO de 13 de Junho de 2013 - www.oribatejo.pt



Exemplares (&) portugueses

Estou certo de que o farei para o resto da vida. Digo: a observação avulsa de exemplares portugueses. Em pessoa(s), claro. Ruas & Cafés constituem as torres-de-vigia ideais para a consumpção do mirone observatório. Revisto-me, para o efeito, de discreto vestuário (cinzentos, castanhos, azuis obscuros) e ponho-me a receber de boca fechada (em cujo imo se abre a Língua) o aparato mundial à escala local.
O primeiro exemplar de hoje é uma febra pequenita de seus/dela cinquentas e picos. Ardem-lhe por faces duas rosáceas sanguíneas, a que presidem uns olhos aguados e tristolentos amaila cera amarfinada de umas orelhas pingonas e ratiformes. Inquiro dela em sede da Rosa do Colonial, que dela me garante a bonomia pessoal, não obstante certa vocação para o encornanço de quanto macho lhe logrou cravejar até hoje (até ontem mesmo, digo) a (de)posição horizonte-ventral. Chamemos-lhe Dina. Dina Men.
O exemplar segundo é um ronceiro barrigudo de pelagem arbustiva (peito, barriga, pulsos, sobrancelhas, pezunhos) com muitos anos de França mas nenhuns de Voltaire ou Prévert. Arca-encourou umas milenas jeitosas. A primeira coisa que fez no retorno definitivo ao torrão pátrio foi contra o torrão pátrio: votar no Cavaco, passando depois a eleger os seus (dele, Cavaco) derivados, incluindo os do PS. Usa botinas de elástico preto envernizadas a cuspo e boné à Pedroto. Tem mais q.b. do que q.i., pelo que investe em tremoços o que pelo mesmo preço lhe ficaria em camarões. Chamemos-lhe nomes.
O terceiro espécime, encontro-o sem surpresa nem alarde ao espelho do lavatório do Café. Finge um olhar que já tive e de que só me sobraram os olhos bagáceos e piscos. Conta-que-Deus-não-fez, este n.º 3 arroga-se colunista encartado, arriscando em verso o que lhe não sobra em prosa ou raciocínio fundamentado. Veste todavia com razoável discrição: cinzento, castanho & obscuro azul. Chamemos-lhe Vazdeluiz.
Servirá este penúltimo parágrafo de recensão sinóptica ao motivo vero da presente crónica: ser português tornou-se, de vez, um ofício triste. É verdade que nos barbeiros ainda o Jornal de Notícias serve de evangelho, mas a delícia porno-rosa do Correio da Manhã é que enxameia os Cafés e as almas de uma enxúndia crápulo-criminológica cuja suma nadice é homiliada aos domingos por esse portento da vacuidade Moita Flores chamado (sempre a páginas dois). É por igual verdade que a manjericação santantoninha perfuma de assada sardinha o País que sobra de Lisboa, a Macrocéfala sem Cabeça, mas o mais é a maltosa de aquém-Aveiras e de além-Barreiro ter de lhe(s) pagar as Expos, as (a)Fundações Soares e afins rendimentos máximos garantidos. No fundo & por cá, tudo é verdade, a começar pela mentira. Nisto, o parágrafo cede vez & voz ao epílogo aliás discretamente preparado: o trocadilho em tríade para bom entendedor. Esta porra toda para que:

nem isto Portugal, nem eu Camões, nem ela Dinamene. 

Thursday, June 06, 2013

Rosário Breve n.º 312 - in O RIBATEJO - www.oribatejo.pt

Carlos, Ionesco e N’Dinga

Os livros bons são os que procuram (e encontram) gente que coincida com eles. Há anos que porfio as estopinhas para ser capaz de um – até hoje, porém, nem um dos que já fiz ao desbarato dos anos me trouxe população a suficiente para uma matraquilhada completa: a minha carreira por assim dizer literária tem sido jogar sozinho ao varão da baliza e ao idem do ataque. Cheiro a óleo e a pano de desperdício, mas coincido comigo. É justo. Mas.
Mas, aqui há dias poucos, aconteceu-me uma epifania gentil. Foi no Café Colonial (o da Rosa, vós sabeis, aquele ali além). É lá que me dedico às minhas três principais tarefas: escrever, escreviver & escrebeber. Cada uma leva às outras duas. (Posto assim, parece magia – e é-a.)
Foi portanto no Colonial da Rosa. Tinha eu acabado de revisitar uma frase portentosa de um gajo romeno chamado Ionesco: “Cada um de nós é o primeiro a morrer.” Senti-me logo coincidido. Verdade. Um gajo nasce como toda a gente, mas morre só como só um. A vida é tipo Maria-vem-como-as-outras. A morte faz-nos príncipes, aniversariantes do mesmo eterno dia. Pena que tal palaciana glória dure tão pouco, pena tanto gás para tão pouco champanhe. Mas adiante.  
Foi então que ele entrou. Chama-se Carlos. Cavalheiro freguês, há bem mais décadas do que eu, do Colonial, é de olhos líquidos, vívidos e vividos. Delicado no falar e no manusear, a primeira e talvez mais definitiva impressão que dá – é a de alguém que gosta de viver. E do que viveu. E do que viver lhe falta, por tanta falta sentir que viver lhe faz.
Este senhor costuma tomar o abatanado e a meia-torrada em mesa da minha vizinha. Deve ter pensado, se calhar mal, que eu seria capaz de escrever a história dele. Que é esta:
A 17 de Julho de 2005 foi-lhe diagnosticado um linfoma sublingual. Cancro. Cancro tem seis letras, a primeira é C – como Carlos. Ele tinha completado 57 anos oito dias antes: era um rapaz, portanto. Moço de mais para saber se Ionesco está ou não certo.
Até então, uma vida de trabalho resgatada aos trabalhos da vida: moço-de-recados aos 13 anos, contabilista aos 19 (idade em que se casa com outra criança como ele), supervisor turístico aos 24. Falida a Torralta para que trabalhava, embarca a partir dos primeiros tempos pós-25 de Abril no ofício de “olheiro” de futebol em África. Para Vitória de Guimarães, Desportivo de Chaves, Leixões, Rio Ave e FCP, viaja e “olha” por Gana, Zimbabwe, Congo(s), Mali.
Acumulando-se representante de vinhos alentejanos e durienses na zona Centro do País, conhece finalmente Ivone, que para médica estudava em Coimbra. Casa-se com ela logo que pôde, que só olhar, mesmo por ofício, não chega, mesmo para o caçador de talentos nela, mulher, confirmado. Trinta anos passam num fósforo. Até esse 17 de Julho de 2005. Linfoma. Na base da língua. Cancro. A morte na boca antes de no papo.
– Daniel, é uma rua escura. Não tem luz. Não tem janelas.”
Mas tem Ivone.
Sabe o povo, e di-lo bem, que quem se ionesca ao mar, ivona-se em terra. Médica sempre, mas esposa para sempre, revolve céus e lezírias em prol do pai da sua Catarina. Voltam ambos à Coimbra do tempo primeiro em comum. Vão ao IPO, onde o(s) acolhe(m) o doutor Arnaldo Guimarães e respectiva equipa.
Há oito anos que a tal “rua” voltou a ter “janelas”.
Digo eu, sem errar muito talvez, que janelas são o lapso espácio-temporal por que transitam o dentro e o fora.
É neste ponto que o Carlos, levando como todos os dias o almoço à mãe (aos 64 anos, ainda tem mãe, o danado, o felizardo), me sopra uma manchete que o Tempo me torna impublicável: sussurra-me ele que, há coisa de valentes anos, esteve vai-não-vem para trazer o Ionesco para o Guimarães, mas que a coisa só se não concretizou porque os vitorianos preferiram o zairense N’Dinga, que não era romeno nem jamais constou que, como Carlos, fosse gajo para morrer primeiro, ou para, restabelecida a igualdade no marcador, não ser, para sempre, o primeiro a viver.


Monday, June 03, 2013

BAILE SOZINHO ou O INVERNO DE QUELUZ - 30 (manhã de 10 de Maio de 2013)

30


                                                                                                                                               

E do turíbulo do coração fumega o incenso moral.
Passa-se isto quando Peter “Columbo” Falk já morreu.
E quando o meu (re)conhecimento entra mortos adentro
para celebrar na mera laranja o rubi do fogo-ouro.
Suporto a tarde, é verdade, mas não sou vespertino.
Dirimo a íntima quezília, sou forte sem dados lançados.

Os presidiários conhecem os horrores diários
que aos ventos soltaram aziagamente.
Nem a vida deles paga os assassinados.
Não creio na bonomia da lei.
Quando músico-de-baile, ia ao bufete nos interlúdios.
Tomava o meu cálice e amargava sozinho.

Estou aqui que posso, não matei ninguém
e por vezes duas a alguém ajudei já a fazer.
O meu único pecado mortal,
ao Vosso igual,
é haver nascido.
O mesmo é dizer que uma mulher se me fez nascente.

Ora, acontece que nascer
não deveria ser
tão vinculativo.
Resgato-me na sabença de ler & escrever,
dois afins modos de ser
que me dão o estar, e o ser, vivo.

BAILE SOZINHO ou O INVERNO DE QUELUZ - 28 e 29 (manhã de 10 de Maio de 2013)



28

Ib.


Deixo o eu-corpo ir dar sem mim uma volta.
Dou-lhe o arroz que trouxe para efeito de pombas.
Em troca, ele deixa-me como de facto sou: em sombra.
Quando penso nos meus Amados Mortos, é o mesmo.
Tenho dinheiro para um par de cálices, meia-dúzia
de cigarros acalentam o bolso esquerdo do gibão.

Ao telemóvel, uma mulher louca queixa-se de quanto
engordou a uma remota outra Heloísa chamada.
Passa-se esta eternidade degradada no Café Colonial,
a que muitas vezes aplico tributariamente o nome de
Café da Rosa,
que hoje me (a)parece um seu tanto nervosa.

E quando as crianças sobem no ar como balões,
a gente madura sente a dor morna do ter-sido
às cores atmosféricas que o deslumbramento do Estio
volve estrelas capturadas em espelho nos fontenários.
E quando o senhor Carlos toma o seu chá & a sua torrada,
o que Leiria merenda é o pousio mais restaurador.

Por isso, podes imaginar em uma espécie de falida Detroit
inçada de motor-fantasmas, riscado o chão de poemas
a óleo. Quando o corpo me voltar, se voltar,
darei com ele a ronda do reconhecimento da luz,
que a 10 de Maio de 2013 tornou em glória franca.
E o Diabo dispara até com uma tranca.

29

Ib.
                                                                                                                                               

O Diabo até com uma tranca dispara
assim nos disse o Alferes Sardinha
em Mafra, Escola Prática de Infantaria,
acabava-se o Inverno de 1987/88.
Éramos homenzinhos verdes na parada,
marcianozitos do Serviço Militar Obrigatório.

O Abreu diz que vai deixar de fumar,
eu não fui ainda à Ereira, a Sesimbra sim.
A Trompa-de-Eustáquio silva o aquário cerebral.
Nada é tão lamentável quanto o viúvo entesoado.
Aqui na Colonial Rosa aparecem muitos,
com a agravante de as esposas serem ’inda vivas.

Leonor, ó minha gardénia clara,
volveste forte a minha vida e rara.
Teresa, jasminzito delicado,
volveste sorte a minha vinda e rara.
Não se pode errar tudo.
Esperar não é remédio.

A 8 de Março de 1988, adentrei o Convento de Mafra.
Nas arrecadações dele vive a tropa.
Aprendi a traçar o azimute & a disparar a tranca.
Cometi a melhor marca nos 80 metros: 9,4 segundos.
Disseram-me que só o Nené do Benfica tinha feito melhor.
Contei isso ao meu Pai, que viu logo que eu era para ser poeta.

Sunday, June 02, 2013

BAILE SOZINHO ou O INVERNO DE QUELUZ - 26 e 27

26

Leiria, manhã de10 de Maio de 2013, sexta-feira


É preciso ter passado, como eu passei, por vilas desertas ao domingo.
É preciso não ter nada em frente senão um salário.
Eu sabia que ia ficar para sempre na Música.
Sabia também que não me sustentaria dela mas para ela.
Suturava feridas invisíveis nascidas da fome de saber.
Como no Verão de 1991.

No Verão de 1991 trabalhei por conta de um homem que eu já era.
Perto, o regato mal respirava,
saturado de sol como estava.
Fazia as refeições num reservado invisível também:
como se celebrasse uma missa agnóstica
à impossibilidade de Deus e ao minério do Corpo.

Derredor, na volta da fonte, mulheres alheias cacarejavam
as notícias vilãs com essa tão portuguesa fúria alegre
que resulta do comentário da desgraça dos outros.
Habitava eu então um quarto muito branco
de cuja janela se me oferecia o mistério simples do dia,
que invariavelmente pintava cegonhas e campos de arroz.

Quando a alguém da Filarmónica morria um alguém seu,
fardava-me para integrar as honras da Música
à pessoa perdida. No fim, embebedávamo-nos sempre,
pois que é ponto assente a libação vínica contra
o desmando escandaloso da Morte.
E o jornal íntimo se me manchava em furor sereno.

27

Ib.


Não eram ainda as sete quando a alva me levantou.
Saí do poço que imita a morte, dei-me ao ofício de renascer.
Procurei no escuro o fato para não despertar a Mulher.
Açucarei água na cozinha, que bebi de pé não devagar.
Senti as escadas desdobrarem para mim a rua.
E depois cumprimentei o senhor Eduardo, que vinha com o neto.

Às tantas de ter 49 anos, uma pessoa já sabe o prémio do dia.
Na mercearia do bairro, caixas cantam alto a fruta.
De coxas gordas, varizmarmóreas, a senhora Juliana beijarica o canário,
que é claro como o limão e como o pão novo.
Nada me custa alcançar o Rio, sabendo nas costas o nascimento.
O nascimento & a morte.

Quando chego, estou de partida.
Assim como toda a gente toda a vida.
Exerço então o lápis qual florete,
esgrimindo o puro minério (a pura chispa) do Verbo.
Almoço a saturação da Música, das casas encerradas
à passagem do rei morto.

Canto para dentro o meu Sá, o meu Garção.
Finjo que não componho qualquer canção.
Ponho-me a arabescar as árvores maiores
enquanto desfloro rosinhas de, digamos, torrão-de-Alicante.
Então, a glória banha-me todo, torna-me lustral
como uma tocha de gelo, como um homem para o fogo.

Friday, May 31, 2013

Rosário Breve n.º 311 - in O RIBATEJO de 30 de Maio de 2013 - www.oribatejo.pt

Confeitaria Setembro


É um fim de tarde como alguns que vivi na moça idade. Não frio, mas fresco. Cinza plumada de umas poucas palhetas de ouro, lá longe. Setembro ténue para uma vida crepuscular. Café e cigarros numa confeitaria que diz "TRESPASSA-SE" na porta de vidro. Quase ninguém neste mundo. No outro, o das ruas, uma suave agitação comercial de ante-fecho de lojas: últimas compras, últimas vendas do dia.
É a hora dos cinzanos na velha vila (não consigo chamar-lhe cidade, embora o seja por decreto). Tenho um livro de Machado de Assis, limpei os óculos, reencontrei a caneta preta de que andava perdido. As coisas compõem-se.
Andava farto de Agosto, cansado da fornalha omnipotente, exausto por nada. Agora, devolvo-me este sossego serôdio de batedor de confeitarias em trespasse. Algumas moedas na algibeira: douradas umas, outras castanhas. Uma impressão na garganta, que alivio com ríspidos regougos. Uma rapariga com um balde verde na rua.
Imagino um rio que não vejo daqui. Vai para o mar, como eu iria também se pudesse mais que imaginar. Bordado de salgueiros diagonais e de pedras deitadas, é um rio bom. Absorve a luz cinzelada, faz dela uma faca dinâmica, uma folha de aço não matadora, antes sim avivadora de olhos.
Imagino a minha cidade natal (essa sim, cidade) sulcada por esse rio, essa lâmina benigna. Transporto-me no tempo, devolvo-me a moça (c)idade. Vivi perto desse rio este entardecer. O mesmo crepúsculo nas mesmas margens. A ponte? No tempo. No tempo crepuscular, a ponte é uma dedada de contracor. Automóveis mais lentos que pessoas - os meus mortos e os alheios vivos cruzam-se na ponte, cumprimentam-se surdamudamente, hologramam a visão cinemascópica, passam infinitamente como outros tantos rios.
Embalo belo, esmerada esmeralda - escreviver. Quietas hostes, adormecidas legiões, uma mala encarnada de cartão juncada de fotografias de bordos ondulados com o carimbo do fotógrafo no verso.
Um tractor carregado de lenha trota na calçada: há já quem se aprovisione de lenha para o inverno. Antecipo esses invernos individuais que não vejo daqui: as mulheres aquecidas nas cozinhas de pedra amanhando coelhos; os gatos, saciados de vísceras mornas, derramados ao lume do lar como trapos de flanela; as panelas negras aferventando a galinha gorda; os homens que chegarão do trabalho e dos cinzanos.
Nada disto é comigo, excepto por magia: imagino - imagi(a)nação - letrinhas pretas de caneta reencontrada. Atravesso setembros. Não é difícil. Já não é difícil. Um homem aprende a ser uma imagem de homem, um relógio de sol, um varredor de cinzas.
Que será o jantar? Peixe do rio não pode ser, que longe ficam ambos, rio e peixe. Sopa de tomate, quero imaginar, e depois peito de vitela com massa, doce de laranja, café. Água da fonte, que a da rede anda química de todo. Uma fatia de pão de segunda, uma lâmina de marmelada. Depois, sendo já noite, de Machado de Assis nos joelhos e ao rés do candeeiro, esperar o canto do vento nas laranjeiras vizinhas. O canto do vento nas laranjeiras vizinhas e o canto rouco dos cães à Lua molhada, à humana Lua que do alto nos vigia a inocência, o breve cromo do crepúsculo colado de costas à caderneta da idade, a esperança de um bom trespasse para a senhora da confeitaria.



Thursday, May 23, 2013

Rosário Breve n.º 310 - in O RIBATEJO de 23 de Maio de 2013 - www.oribatejo.pt


Madeira

Segunda-feira passada, através de um calor de sufocação, preparava-me para estacionar o carro quando um agente de polícia me sinalizou que o não fizesse ali.
O agente inclinou-se com cortesia à janela direita e explicou-me: “Há um cavalo morto, tem de passar por aqui a máquina para o levar.” Estacionei noutro sítio e fui ver. Era verdade. No terreno baldio onde acaba o bairro social (pintado, com humor, de cor-de-rosa), havia um animal entregue à impenetrabilidade da morte. Era um pónei acabado. Perto dele, um pónei vivo olhava o morto com a mesma humana incompreensão. Talvez fosse irmão dele. Nem eu nem o guarda sabíamos porquê. Se de doença, se de sede, se de quê. Um animal deitado de vez na erva exausta, apenas. Abatido pela inclemência do sol, parecia o que era: um saco de ossos, carne, pele, cabelo – um saco igual àquele em que nos embrulhamos para existir, faça chuva, faça sol. Fazia sol. Jazia todo o sol que há, nessa segunda-feira esbraseada que já não podia punir o cavalito, o cavalito que nenhuma terça-feira torturará mais. O ar vibrava de vidro derretido. O gás da luz cozia as casas como a ovos geométricos. Nenhuma brisa chegava de nenhum mar. A única árvore do sítio dardejava riscos de giz de passaritos de ardósia. O calor era tanto, que a eternidade se tinha tornado um fenómeno local. A marca da camisa tatuava-se-me sobre o mamilo do coração. Era uma cena triste. Por um momento, desejei que não fosse verdade, que o polícia e a realidade e o sol se tivessem enganado, que aquele vulto jacente não fosse um pónei morto mas, afinal e tão-só, um cavalito de pau ali abandonado à condição de madeira sem magia dos carrosséis desmantelados. Que ainda fosse, enfim, uma brincadeira de crianças. Mas era o que era. E o que era, era triste e ao sol. “Os animais são como nós”, disse eu ao polícia, só para que, dizendo alguma coisa, alguma coisa nos desse a ilusão de ser possível sobreviver ao calor e à tristeza e ao pónei. Ele concordou com um menear de cabeça. A verdade é que não havia nada a dizer. A máquina falaria, arquejando de gasóleo na remoção do corpo. Não fiquei para assistir a essas exéquias mecânicas. Ao fim do dia, quando a noite me concedeu o cessar-fogo, voltei ao carro. Antes de meter a chave, decidi regressar ao baldio. Nenhum pónei, vivo ou morto, por ali siderava na sufocação fátua da lua de Junho. Regressei a casa pensando no pónei vivo. Já tinha a crónica. A crónica que é, afinal, sobre ele. Resume-se a isto: é nos vivos que devemos pensar. Póneis ou não, irmãos ou não, é nos vivos. A eles devemos a sombra em plena canícula, a água no cálido deserto, o soro em hora de veia aberta, a palavra quando o óxido da indiferença (n)os arrepanha de ferrugem. Os mortos cantam, mas os vivos contam. Caso contrário, a vida torna-se tão improvável como um lugar de estacionamento num carrossel de vivos cavalitos de osso, carne, pele, cabelo, madeira.

Thursday, May 16, 2013

Rosário Breve n.º 309 - in O RIBATEJO de 16 de Maio de 2013 - www.oribatejo.pt




Felicidade é mais depressa açúcar dos caramelos que azeite dos iluminados

Agora já não, que o tomou já a calvície sem retorno, mas ele era naquele tempo de uma cabeleira lustral qual tocha de gel. O mesmo espaço esférico-cabeçal funcionava au ralenti de uma acefalia atinente ao seu linguajar pulha e à sua estroinice miseranda. Mas ela era dele assim mesmo que gostava. Isto do amor pode ter muito que se lhe repita, mas, no fundo, nada tem que se lhe inove.
Nunca lhe conhecemos o piripíri de uma ideia, o mentol de uma graça, a pimenta de uma hipótese, o coentro de uma opinião perfumada de fundamento. Invariável, inevitavelmente, o seu raciocínio íngreme estatelava-o, nunca sem estrépito e jamais sem edemas, na cloaca petrificada do guano mais endurecido. Mas que tal lho dissessem a ela mil vezes, que mil e uma e mais cem ela o queria e curava e amava e babujava.
Dele, lesmice e mesmice eram uma só e mesma coisice. Se lhe causticavam uma toleima, cacarejava todo espalha-penas com aquela estupidez indignada das galinhas-carecas quando um cachorro pueril quer brincar às cadelas com elas. Só podia, por tudo isto, ser carimbado daquele terrível apodo que é a derradeira coisa que se pode chamar a um zé-ninguém: era bom-rapaz. Não fazia mal e nunca mal fez, para ela: porque ela hipostasiava nele a essência mesma do santo, cuidada e tomada a vulgaridade piolhosa por insígnia a mais virtuosa.
A ignorância envelheceu-o em novo, como é quilate pindérico da beterraba que se julga ananás. Rangia de incompreensão à face de paráfrases simples como “Quando mais o euromerkel sobe, mais o Alcabideche”. Rábulas e fábulas de figurado sentido moral não puderam nunca adentrar-lhe o maciço granítico sobre que os antigos usavam chapéu e em cujo cocuruto os rastas de jamaicana import-imitação espessam o esterco da grenha. Mas ela? Oh se ela alguma vez outro peso de alimária quisera que lhe amulatasse a alvura!
Ele tinha dinheiro. Deixara-lho uma avó, figurinha de cera que conseguiu, chegando embora aos 94 anos, não estourar tudo em padres. Nisso, vá lá e venha cá, não foi ele burro: vivia, sem abrir sequer uma mola da roupa, dos juros dessa maquia que nunca viu sol. Disso – e das rendas de dois prédios (um com farmácia e tudo no piso térreo) sitos no miolo comercial mais nobre da Vila. Naturalmente, ela também disso gostava muito nele, dele emprenhando a tempo de salvaguardar para si o caldo e o cabeleireiro da velhice amailo um fiat-uno para cada um dos quatro moços que pariu sem dor na glória das estruturas de hélice do ADN auto-replicativo.  
Foram, é claro, muitas vezes a Fátima, mas sempre pela Marateca, à guisa de quem ruma ao Algarve da fé. Uma vez até se deram à extravagância de ir ao Complexo do Bonito, no Entroncamento, onde gozaram a boa sorte de assistir àquela memorável e dramática conquista da Taça do Ribatejo pelos rapazes juniores do União de Tomar frente aos seus não menos bravos homólogos do Alcanenense. No fim do prélio, foram os dois com sua/deles quaternária prole fedelha alambazar-se de enguias a Escaroupim, jóia de terra-água-ar de Salvaterra de Magos, por acaso até no mesmo dia em que os fotógrafos Zé Freitas e Tó Vieira por lá andavam também, aquele como de costume a fotografar passarocos e este sem fotografar fosse o que fosse por, como de costume, andar de óptica toda obturada nas gajas.
O tempo entretanto passou (que é aliás o que ele mais faz nos entretantos) e tornou-se hoje.
Ora, acontece que hoje é precisamente o dia em que mais nada tenho a dizer, portanto não digo.

Wednesday, May 15, 2013

BAILE SOZINHO ou O INVERNO DE QUELUZ - 16 a 20


16

Leiria, tarde de 9 de Maio de 2013, quinta-feira


É com férrea disciplina que cometo afinal a minha vida.
Colonizei todos os lugares que respirei em presença.
Cedo pouco importância até ao alude dos anos.
No fundo, não tenho medo, facto que me apazigua.
O problema, a havê-lo, estaria na urgência inelutável
de tudo escrever sem o luxo do repouso.

Postulo, por tudo isto, uma verdade pessoal e ínclita
quase. Faço-me livros de que hei veloz necessidade.
Eles acabam adentrando-me a fala, a vida social,
os nervos da flora, a ubiquidade dos animais,
a ventania que desde menino me euforiza aos gritos,
me iça aos ares frios atordoados de azul.

Não posso ser igual a mais nada, a começar pelo espelho.
Quando bebo uma cerveja em atento silêncio, sidero
a solidão gástrica e dela a vocação de entranha
labiríntica, ao fervor da sede que a aridez da esperança
implica e imbúi. Encastoo os meus ferros em oral
veludo, o que é muito para um pobre e nada para o moribundo.

Os núcleos efervescentes da minha vida têm amor dentro.
Sou um pássaro de calças sobre areias e mirtos
(e mortos também, sempre & para sempre), querida.
Vejo que toda a criança reitera a eternidade caduca.
Vejo o cão que dança de lobo dentro vigiando.
E com férreo disciplinado amor atiro pedras à água da fala.

17

Ib.


Gosto de coisas como a que ora mesmo aconteceu:
um velhote de boina que antes de se sentar
boatardou todos os circunstantes (um homem/uma mesa)
no Café da Rosa. Sim, sou de gostos simples,
como o de gostar de bons-dias, boas-tardes, boas-noites
dadas e recebidas por e de pessoas não conhecidas.

Em este Maio me pergunto quantos Dezembros serei ainda.
E se será em casa que de vez adormecerei.
A minha casa – esse país por onde traficam os meus
Amados Mortos o amor mais estupefaciente em
açúcar cristalizado e violáceo, violento às vezes.
(Sim, estou hoje capaz de verdades.)

Não percebo o aquário como não aceito a gaiola.
Mas em casota caninamente me encerro, pulguento
de tanta poesia ao mundo desnecessária mas a mim
crucial, em Língua Portuguesa de Portugal. E tal.
Sou bonito quando atiro diamantes às pombas, embora
pão seja só, de rosas esmigalhado-diamantinas perfumado.

Sim – e viva o fado. Quando músico de baile, certa noite,
adentrei o bufete no intervalo para rifas em quermesse
pró-pobrezinhos da aldeia. Lá fora, chovia gelo quebrado.
Pedi uma cerveja, que o director em função barista
me serviu com rodela graciosa de tremoços gordos
curados em serapilheira no ribeiro. E eu dei-lhe as boas-noites.

18

Ib.


O Inverno de Queluz sempre me acinzentou a imaginação.
Aquelas pessoas, sabes, a fazer de canários nos andares-gaiolas.
Que luz Queluz não pode ter, dada a taxa de divórcios,
óbitos do amor contratual com que os católicos não-
-praticantes enganam a Deus? Adeus, adeus, não
quero morar jamais em Queluz, nem no Monte Abraão,

que Rui de Moura Belo circum-escreveu como ninguém.
A minha Mãe tinha uma prima velha chamada Clementina
e muito sozinha que morava em Queluz. Nos Julhos de
primórdios de 70/XX aparecia-nos na praia da Figueira da Foz,
a minha Velhota e ela conversavam eternitardes
enquanto eu absorvia as cores mais salgadas da felicidade.

Às vezes falo de coisas assim à minha Graça,
ela não acha estranho que eu continue ao pé da Bola-Nívea,
por isso nos casámos. O meu Pai vinha de comboio
aos sábados, não sei por que terá deixado de fazê-lo,
talvez porque não dêem aos mortos dinheiro que chegue
para o comboio, que naquele tempo eram de cartão

p(r)ensado, os bilhetes da ferrovia. Às vezes a minha vida é
Queluz, outras em que luz. Isto depende dos sais,
que são mancúspias grão-cristalinas como as enzimas
mas um bocadinho menos.
No Verão, o Mar exulta.
E os Campos aureolam-se de ricos fenos.

19

Ib.


É uma espécie de transe.
Uma combustão, um quase-grito.
É um amaciar de coxas.
É como ser flibusteiro.
É lapijar a cores o mapa das laranjeiras.
E é não ter hipóteses.

Respondi exacta-sic-mente assim à pessoa
que no Largo das Forças Armadas, Leiria,
me perguntou em que trabalha o mundo
e que sentido pode haver em que ele trabalhe
e para quê tanta pomba tanta criança
tanta às vezes aflição.

Vi depois um homem todo vestido de roxo.
Talvez fosse o vinho: o meu como o dele.
Sim, pode ser aflitiva a consciência verbal.
É quanto tenho.
Se poderia ter mais?
Não o quereria.

Depois, o carro da polícia passou em frente à Rodoviária.
Um notário filatelista pediu chá de tília.
Pensei nos telefonemas que de quando em vez faço à família.
Sementes agrícolas e ceras apícolas e agonia viária.
Página em frente, trabalha muito, sê gente.
Não escreviver, morrer seria, seria ser igual só, nunca dif’rente.

20

Ib.


Um rapaz representante de vasilhames
teve à nossa frente sua quebra-de-tensão,
demos-lhe todos água açucarada
e face-palmadinhas de cristão carinho,
o moço rearribou,  é de calvície precoce,
pele tipo cor-de-sobrinho-filho-de-padre.

Depois, a Celeste, que usa e abusa daquela blusa
que lhe acarna o seio adiposo de amamentadora
profissional, quis saber qualquer coisa que não ouvi,
não me sendo portal, perdão, por tal
possível poetar seja o que for
com Celeste sextilh’ adentro.

Três-euros-e-meio são setecentos-paus dos antigos.
Há já quem consumo-minimize isso a senhoras
nos bailes-das-velhas que são
a mais admirável circunscrição
desta como de muita re(li)-
gião.

Aguardo activamente o Poema que me resgate,
qualquer coisa tipo
Os-Lusíadas-como-os-diz-Molero.
Ainda não será hoje.
Pego nas manchas de tipografia.
(Não há dia em que te não deseje bom-dia.)

BAILE SOZINHO ou O INVERNO DE QUELUZ - 13 a 15


13

Leiria, manhã de 9 de Maio de 2013, quinta-feira


Como se deveras tivesse sido músico,
porto em corpo a moléstia da atenção.
Cultivo no rio mesmo a serradura sideral:
se ele espelha das miríades a miopia estelar.
Vale-me o, tendo que dizer, não mandar
dizer por ninguém.  Por algo cresço ’inda.

Quebrei já muitos vidros na imaginação.
Teima em mim o infante de outro início.
E em partitura para harpa a velha chuva.
Adormeci ontem no sofá enquanto os Marx Brothers
iam ao circo emaranhar ingénuos  enredos.
A alegada Civilização precisa de Irmãos.

Volto ainda a aldeias apenas entressonhadas.
O avô e o neto extraem água ferrosa do poço.
O cão é o mesmo de quando Teixeira de Pascoaes.
E o frágil japão da geada matinal, a mesma
de quando o bondoso Wenceslau de Moraes.
Sim, estas coisas podem ser.

De limitada edição é o amor lácteo.
Começa-se pela Mãe, chega-se à Mulher final.
Panifico-me todo em óbolo de pombas,
columbina é minha ronda pela Cidade.
E duas rolas são as filhas que pude,
no gás das esferas, na noite aldeã.

14

Ib.


Quando talvez músico outror’ um dia,
mais do que saber o que fazia, eu vivia.
Ainda assim me é o expediente respiratório
na consumpção do quase semisséculo pessoal.
O meu Cunhado José Maria faz hoje, 9, anos.
Foi com a minha Irmã ao Lidl de Eiras,

apanhei-os por telefone tomando café, uma
na companhia de outro, é bonito saber tal.
O resto da manhã, vou ardê-lo na composição
destas canções, ofício que desempenho com mais
pertinácia do que talento, eu sei, mas outro
remédio me não sobra que o da contumácia

mais relapsa. Saindo daqui da Rita, vou ao
Lagoa, aproveito para atirar ao Lis o olhar
ambulatório de músicozito provincial,
sendo meu natural um coração manual.
Se alguma vez de novo em seio de floresta,
refarei de cada passada uma festa,

pois que tudo a passado passa.
O oficial dos Correios, ao lado, vozeia
caladamente as missivas por frinchas
de alumínio à face dos prédios.
Já o vi com a mulher às compras no
hipermercado da Gândara, comprou sardinhas de lata.

15
Ib.


Supina amabilidade, gentileza a mais grácil,
tudo me conforma a mulher que tenho e de quem
sou na espiral das horas que dias e anos
engessam sem remédio mas a azul-marinho.
Quebram-se-me os dentes de não lascivo desejo
quando a bom-dio, a desperto e a beijo.

De pantanas, ex-relicários, que mover me fizeram,
me não comovem já, fruto que mordi mas não
lamento, não mais & já não, podeis crer.
Procedo em paulatino crescimento, vergando as horas
como se dobrasse duros ferros em fundação de casas,
sim, trabalhei já de adjunto de mação.

Ao fervor das tripas me marulha a humanidade,
o dia chegará em que de vez se me prateiem os gestos,
um pratito de massa com carne me sustenta
enquanto vejo aquela série-reality-show dos polícias
detendo traficantes e afins gafanhotos da heroína,
lá fora o dia não abre o jogo do sol.

Ali em São Romão, uma mulher atropelou de carro
uma criança e fugiu do local, a criança morreu,
ela já foi detida, a vida não é uma festa porque
a gente abandona o local dela, imagino o que por São Romão,
Leiria, vai, ou não, nem imaginar quero,
ele há músicas que se não dança, só se chora.

Tuesday, May 14, 2013

BAILE SOZINHO ou O INVERNO DE QUELUZ - 6 a 10


6

Ib.

De anémonas um rosário eu possa,
ora que ’inda é hora de escre’viver.
Um cântico é um ladrar solitário,
quantos palcos de associações recreativas
venci na penumbra de anos esboroados,
tangos, valsas, fandangos & fados.

Operática nudez me convoco sem pranto,
nas salas-de-espera dos apeadeiros concebi
a inconcebível solidão moral do músico,
já então me adornava de cadernos impublicáveis,
lia com minúcia os mapas-horários,
meu era o fervor da ópera, da tragicomédia.

Coimbra, sim, mas Peniche, mas Aveiro,
mas o Caramulo com seus fantasmas hécticos,
Viseu com seu brasiledo de putas,
a por vezes inumana (inumada) Lisboa,
pensões de cinco tostões cuja humidade
fervia peixes frigidíssimos de agora-que-me-será-?,

fecho os olhos, canto (tom e meio sobre a linha melódica)
a Montanha, a Lua Fanal da Montanha,
canto a Grande Rapariga de Prata no Tempo,
canto a poliglotia dos animais mais mudos,
só não canto o quanto uma pontada de desespero
pode furar coração adentro um desejo simples.

7

Ib.

Quem ainda trabalha no meu ex-negócio é
o José Cid, coitado. Compreendo-o bem,
é afinal um português que gosta de cavalos
e de falar de D. Sebastião, o cachopo realengo
que se foi fazer ferrar a África. Falei
uma vez com ele – o Zé Cid, não o Sebastiãozito.

Fora & tirante o Cid, não mantenho grandes ícones.
Talvez o Conjunto Maria Albertina.
A Hermínia Silva. O Max da Madeira.
Um pouco de Händel, concedo.
Uns pós de Vivaldi na sensibilidade, vá lá.
E Paulo Frederico Simão do Bairro das Rainhas, NYC.

Tudo quase quanto hoje sei, é onde há pombos,
pombos e laranjeiras e cabeleireiras sós
como peúgas desirmanadas em marquises,
troco às vezes a serenidade por uma botelha,
uma botelha daquele bagaço que sabe a evangelho
todo cagado dos pombos.

Verdade é, também e porém, que isto tudo deriva
da habit(u)ação: às marés terrenas sufragadas
pelo vento de música dos bailes da mocidade,
quando eu era para não ter sido, não ’inda,
uma calota polar do que se junta, janta &,
irrefragável, se dispersa – cinzas quase tudo.

8

Ib.

Delego na memória fabril o febril produto,
que operário sou da articulação dita,
que não falada, da indústria poética.
No Largo do Cónego Maia, Leiria, anos-ora-depois,
Inscrevo a sombra confessa do meu Inverno,
o meu portátil Inverno de rapaz português.

Sou, em verdade mo repito & crocito, um órfão.
Tenho uma experiência venatória, pelo lado
do gamo. D. Fuas Roupinho não m’ enjeitaria.
E do meu tempo de infante pedonagem
reservo a pedraria viva de gafanhotos, sardaniscas,
ouriços, raparigas lácteas, primeiro desejo

de ver o universo em verso.
Evoco às vezes um vocativo que não há,
como se em palco de associação recreativa
me dirigisse em rogo a um público
de namorados zundapp-motorizados
e costureirinhas perfumadas de bolacha.

Quan/d/to assim escrevo, deponho. Não é o mesmo
que enlouquecer – não ainda, minha linda.
Eu sou do Verão de 78, da Primavera de 74.
Mas também do Mondego, que o Pavia e o Lis
me repetem em aquífero eco.
Não me quero par de qualquer badameco.

9

Ib.

Cantei uma vez a solo, andava adoentado o cantor.
Desempenhei-me na função como canário tristímano.
Uma mulher dentre a assistência quis saber mais.
Não havia telemóveis na altura.
Quando me apareceu com um copo de Dimples sem gelo,
Agradeci-lhe, primeiro, questionando-a depois

se era mordoma de alguma festividade religio-fogueteira,
dessas de aldeia que Agostam a portugalidade,
disse-me que não, que gostara de me ouvir cantar,
que se eu compunha,
disse-lhe eu que ainda não,
que só em Maio de 2013

me atreveria a compor um Baile mas Sozinho,
redarguiu-me ela, em aquiescência, que sim,
que compreendia, que às vezes se sentia sozinha
entre tanta pomba e tanta laranja,
& que sentido é haver por aí tanta ourivesaria
e tanto cantor e tão sozinho dela ser o dia.

Isto não é verdade. Nunca aconteceu. É só um livro-só.
É apenas como se eu tivesse integrado o Trio Odemira.
E só o Bailinho-da-Madeira em quádruplas sucessões
de sextilhas em estilhas verbais.
É só um ter-nascido-e-já-sido.
É não saber mais.

10

Ib.

As linhas cantadas atiram lírios aos pés descalços
que a alma usa quando a desnuda a música.
Senti vivamente isso em certos desempenhos bailadores,
quando o conjunto menos era movido pelo dinheiro
do que pela urgência de partilhar a chaga-viva
da rima tónica, em C-cortado, tipo slow.

Outra coisa são as linhas contadas.
Essas que em família soliloquamos nos invernos.
Essas que nodulam (ondulam) a garganta à saída de casa
para a vida definitiva, essa morte da canção,
vê se me percebes, vê
pelo menos se me ouves.

Recordo entre bailes
(entre livros, sobretudo)
certo hepático cavalheiro
cuja amarelidão traía
muito granel de aguardente
e muito hectare de tabaco acre.

Era Serafim:
a mulher traía-o.
O bairro via-o (e, casquinho, escarnecia-o).
Não nascera amarelo. Foi fugazmente, por bebé, até belo.
Gostava da música que a gente fazia,
mas no fundo só queria tão-só companhia.