terça-feira, janeiro 05, 2010

Demora-se muito a ser Espinosa outra vez

Souto, Casa, manhã de 5 de Janeiro de 2010




Demora-se muito ano a ser moço outra vez.
Muito ano gasto em livralhada que faz mal à vida.

Tanto livro e uma só vida, só.
Ainda assim, muita vida.
Também vai um bocado da pessoa.
Não anda tudo ao mesmo, acho.
A pessoa é uma pedra muito rara.
O mais são pessoas apenas semipreciosas.
Um homem de chapéu-fato-sombrio na luz do cais.
Uma mulher envolta de sedas num salão-de-chá, uma quarta-feira.
Uma igreja aberta uma vez só por ano e de noite só.
Um só olhar alberga dois bandos de pássaros em situações distintas.
A criança ainda aqui dentro, morta por chegar a velha.
Ir ao Algarve com o marido, ingressar na horda semipreciosamente.
Ir à merda com a esposa, regressar por assim dizer feliz, coitado.
Muita gente, pouca pessoa.
Pouco oiro, muito zinco.
Demora-se muita hora a ouvir asneiras.
A tremenda humanidade vulgaríssima dos telejornais.
A mentira multitudinária da civilização.
As secretarias, as menopausas, as barras de chocolate com cereais, os gases do chefe.
Tufos de margaridas num varandim de velha solteira, ainda assim.
O perfil gráfico do gato, a tudo superior, lindo de viver, dono das ruas.
A câmara-ardente de pensar com os olhos tudo o que mexe e não mexe.
Horas concretas como paus.
Raras porém as que rondam a românica S. Marcos para um coral na noite.
As pessoas não estão fora dos grandes centros comerciais iguais banais.
Duas gotas de perfume exsudadas pela artificial gardénia francesa.
No Hospital Garcia da Orta, urgências atrasadas catorze horas, as pessoas
que se fodam, também quem as mandou não saber Espinosa nem nada.

Janeiro de Vinte-Dez


© Isaac Levitan



Souto, Casa, madrugada de 5 de Janeiro de 2010



O que sei,
sei-o de cor.
Viver,
por exemplo.

*
Agora paredes verdes compartimentam dimensões do pensar.
Agora nem tudo é possível, basta não tentar.
Este ter-sido vivo ainda nos objectos remanescentes,
sei lá, um trecho de árvore trazido de um passeio,
um seixo lanceolado de outonos dados a húmus,
um bilhete de autocarro tirado para um trajecto que já não há,
líquenes e dólmanes e hímenes e ímanes,
bastidores de reinados entrevistos por criadas negras,
um pato que tínhamos na infância que deixei de ter e ser,
sábados de manhã na biblioteca municipal,
nesse tempo tudo se abria – até a biblioteca aos sábados – era ,
a chuva e agatha-christie e café-com-leite e pronto.
Paredes verdes agora fechando o confessionário,
agora a praça de alexandre, a viela do fala-só,
agora não chove, quem sabe outro dia a mesma noite.



*
Sou de poucos desejos, ainda é a minha sorte.
Por mor agravo, cobiço nada e invejo ninguém.
O problema está em coxear à simples visão do mar.

*
Brandos bandidos de brandy brandidos:
é dos livros dos livros dos livros é dos livros.

De Sorte que a P. do Tempo


Clube de Futebol União de Coimbra – Plantel de 1935






Souto, Casa, madrugada de 5 de Janeiro de 2010

De sorte
que a arte
há-de perder-te
e abrir-te
e fechar-te.







*



Cimento embora pisem,
tudo é jardim
onde os pardais.
Tenho amparado aves olhando-as.
Em Peniche, as marinhas corvoam a negro,
azul e branco, comedoras de sal
e de dias.







*



Em abstracto, vogo bem.
Conheço os meus ilimites.
Agora deu-me para copiar nomes da televisão.
Sento-me na sala até que as horas se tornem madeira.
A beleza desce das paredes aracnideamente.
A minha respiração embacia o vidro do relógio.
Cometas em câmara-lenta sideram os olhos cerrados.
Buzinas surdem longe como sinos horizontais.
Muito poderosa é a evocação de certos jardins públicos.
Pardais, corvos, albatrozes, mariposas
e, em abstracto, outras coisas maravilhosas.







*



Numa sobreloja de pensão familiar
é mais fácil (muito mais fácil) aceitar
que os Outros não venham nem deixem recado.
O resto – o resto passa-se ao lado.







*



Assim tem sido todas as noites:
cubro uma zona do sofá da sala e espero.
A leitura adia-me e anoita-me.
Mereço isto, ao menos isto.







*



Tantos anos aguardei a vinda delas,
rutilantes umas, outras amáveis e amantes,
tantos anos que os depois eram dantes,
até que hoje aconteceu chegarem todas,
começo já para lhes não perder a embalagem,
o fio de lápis entreabrindo a boca,
a sedução narcótica do cigarro solitário,
as persianas verdes da parte alta da cidade,
o fervilhar pobrezinho da praia fluvial,
uma vez em Coja perto da ponte eu,
julgo haver uma fotografia perdida disso,
uns calções azuis há coisa de quarenta anos,
os dentes ’inda todos na boca já então lápis,
a galeria de amados cães dizendo adeus a Deus,
a descoberta muito adentro do Tempo, a porra do Tempo,
os cavalheiros operários eram todos do União de Coimbra,
fios de seda afinal chita mas seda,
as navegações mediterrânicas num charco de chuva,
placas de cortiça roubadas do lixo dos silos,
cedros de faroeste na encosta poente do Monte,
o Américo e o Armando e o Rui e o Tó e o Beto,
mais tarde troquei-os a todos, mas mal, por
o Rilke e o Belo e o Eliot e o Camões e o Jorge,
tantos anos, santos anos,
de sorte
que a arte
há-de perder-me
e abrir-me
e fechar-me.







*

Dizia-me
isto passava-se em Seia
que
por outro lado.







*

Braga, antepenúltima noite e dois últimos dias de Outubro de 1986.
Figueira da Foz, 18 e 19 de Abril de 1989.
Vinha do Faria, Pedrulha, 1º de Janeiro de 1974.
Rua Ferreira Borges, Coimbra, 17 de Fevereiro de 1981.
Beco das Cruzes, idem, Primavera de 1985.
Avenida Bissaya Barreto, idem, 2 de Maio de 1983.
Pombal, todo o Janeiro de 2005.
A porra do Tempo, a grande porra do Tempo.

Mais para o Catálogo do Circo-Instante ou então Шоу должно продолжаться






Souto, Casa, noite de 4 de Janeiro de 2010



Somos a nossa mesma mais próxima circo-instância.
Uns temos (e queremos mais) colonatos na Cisjordânia.
Outros patinhamos nas inundações australianas.
Há gente em Helsínquia.
Morreram queimados uma data de operários e operárias no Grande Incêndio da Triangle Shirtwaist, em NYC, no ano 1911 d.C.
Uns queimamos os dias a rolar nomes de pessoas, algumas das quais vivas ainda talvez, não sabemos, marcadas desta ou daquela maneira pela II Guerra Mundial. Até à noite do quarto dia do ano 2010 d.C., um dramaturgo inglês, Bernard Kops, deu-se ao rol. Ele e dois lordes da hierarquia britânica de então, Lord Chandos e Lord Boothby. Mais discretos, Hans Kehrl, Konrad Morgen, Heinz Reinheimer, Hugh Greene, Ewald von Kleist, Heipke Remer, Werner Pusch, Christabel Bielenberg, Siegmund Weltlinger e Emmi Bonhoeffer, para já.
O iceberg soviético colapsa em 1991 d.C.. Tal como o III Reich hitleriano, também não durou mil anos. Nomes que falam disto no ecrã de vidro: Michael Stürmer, Norman Birnbaum, Sergej Khrutshev, Vladimir Kryuchov, Timothy Garton Ash, Wolfgang Leonhard, Valentin Falin, Leonid Luks. Susan Boyle não aparece por estas bandas. Vê-se passar o Romanov-mor, o segundo e derradeiro Nicolau. Salários miseráveis em São Petersburgo, Minsk e arredores. Jornadas de trabalho escravo de dezoito horas. Muita polícia, antes e depois daquele Outubro incontornável do século XX d. C.. Sir Paul McCartney não integra a Liga Revolucionária para a Libertação da Classe Operária. Bolchevique significa detentor da maioria. Menchevique, idem da minoria. Fé e falácia, evolução, revolução e involução. Conhaque e vodka de alambique popular e muito frio, muita neve, muito vento cortando. Massas na rua. Brancos versus Vermelhos. Kerensky. E Lenin, por enquanto refugiado em Zurique, Suíça. Mais solidão pública do que solidariedade trans-individual, como hoje ainda e amanhã também. O fantasma vivo e assombroso da Alemanha, entre Catorze e Dezoito e além d.C.. Uns rapazes cá de Bragança foram morrer à Flandres e arredores franco-belgas por esses meados. Em Maio de 1917 d.C., exacto mês do embuste anti-republicano de Fátima, Trotsky regressa da Sibéria. Organiza o assalto ao Palácio de Inverno. Tem êxito. O analfabetismo popular passa dos oitenta por cento nas estepes russas, não só na Cova da Iria. O Conselho dos Comissários do Povo toma posse do Governo. Tréguas com a Alemanha e retirada da Grande Guerra: em 1941 d.C. voltaremos a falar. Expropriações de latifúndios, a terra a quem a trabalhava. Bem. Eusébio da Silva Ferreira não se meteu ao barulho. Indústria por desenvolver. Teorias de um lado, práticas dos outros. Abolição da propriedade privada dos meios de produção, mas não completamente pela cartilha marxista. Isaac Berlin garantindo que um Marx ressuscitado se diria não-marxista. A 25 de Novembro de 1917 d.C., as mulheres, pela primeira vez, participam das eleições. Fundação da polícia política, a Tcheka. Rostos obnubilados, pretibrancos. Democracia de um só dia: dissolução da Assembleia Constituinte. Leninautocracia. Quem não for bolchevique, que se vá e cá não fique. José Cid, nem piu. As massas em irracionalidade, como sempre, ou, como diria José Cid em caso de piu, ontem-hoje-e-amanhã. Força armada, arma forçada. Muito frio, muita neve, muito vento cortando. Fins que justificam os meios desde o princípio. Cossacos revoltosos a Sul. Com os czaristas renitentes, tornam-se os Brancos. A Triangle nova-iorquina ardeu em 1911 d.C.. A partir de 1918 d.C., aldeias inteiras ardem pela nova União Soviética. Na Alemanha, é a Era de Weimar. Os sovietes alemães, porém, no pasarán. O propósito de uma Revolução Mundial chega a menos de Hemisférica. O Ocidente bebe coca-cola e água-benta. A 9 de Novembro de 1918 d.C., um tal Scheidemann, social-democrata, renega-se à bolchevização da Alemanha. Social-democracia e comunismo teutónicos irreconciliam-se. KPD, Rosa Luxemburgo, Spartakusbund, confusão de magotes, bombas carbonárias, tiros e pedradas e carnificinagem à larga. Rosa nasceu na Polónia e foi para Berlin um ano antes de Eça morrer em Neuilly, Paris. Era o ano 1899 d.C. Fernando Pessoa tinha onze anos. Hitler, dez. Nada a ver. Porta de Brandeburgo, 6 de Janeiro de 1919 d.C., deposição do Governo Provisório na Alemanha, bandeiras vermelhas, rebeldes espartaquistas, mais carnificinagem pelas mãos direitas do Freikorps. Putas de classe e luta de classes. A República de Weimar, burguesa, é ditada a 19 de Janeiro do mesmo 1919 d.C.. Trotsky, lá em cima no mapa, forma um exército de cinco milhões de soldados (meio Portugal de hoje). Os Vermelhos vencem a guerra civil contra os Brancos. A Grande Fome da época mata cinco milhões de (também cinco milhões) de pessoas. Supressão de focos revoltosos por toda a parte. Junho de 1920 d.C.: II Congresso da Internacional Comunista, em Moscovo. Álvaro Cunhal tinha sete anos menos cinco meses de idade, portanto não foi lá. Alfabetização popular em extensíssima escala. Luta dura contra o obscurantismo religioso. Combate sem tréguas aos saudosistas da Outra-Senhora, que no caso era a mulher de Nicolau II, aquela que sustentava o morcego Rasputin. Sistema do Comunismo de Guerra: trotskyanamente falando, militarização do trabalho. As filmagens repõem a Greve de Petrogrado (Janeiro de 1921 d.C.). Liberdade de expressão – queriam-na, mas não, brincamos ou quê? Quê. Outros partidos, também não. Ataque bolchevista a 7 de Março de 1921 d.C. aos marinheiros rebelados em Kronstadt. Sangue báltico. Primeiros julgamentos público-moscovitas: the show must go on, em russo talvez seja assim: Шоу должно продолжаться. Longas penas de prisão, execuções em barda: Ut(iro)topia. Ortodoxia, economia, euforia e escárnio, oposição igual a exclusão. Purga atrás da orelha. Reabertura do mercado de acções, da banca, força do rublo. Na sombra, Stalin serpenteia já e já baba visco. Lenin é levado para uma propriedade rural perto da cidade de Gorki. Vai – ou levam-no – mortalmente doente. Morre a 21 de Janeiro de 1924 d.C.. Trotsky em bicos de pés, à bailarina de Bolshoi, para ascender ao pedestal primo. Bem se lixará, no exílio mexicano, também a 21 mas de Agosto e de 1940 d.C.. O Bigodes da Geórgia sabe o que quer, para onde vai, nunca se engana e raramente tem dúvidas. Klaus Hoepke, último ministro da Cultura da RDA, fala de Lenin. Michael Jackson é que já não pode fazer o mesmo. A partir de 21 de Janeiro de 1924 d.C., morto Lenin, o futuro torna-se mais fosco ainda. Stalin seca tudo em seu, dele, redor. O Titanic, glória rápida de 1912 d.C., demorou menos tempo a afundar-se.
E na noite do primeiro dia do ano de 2010 d.C. morre a cantora americano-mexicana Lhasa de Sela.

segunda-feira, janeiro 04, 2010

Nos 50 anos da morte de um Grande



(Mondovi, Argélia, 7 de novembro de 1913
Villeblevin, França, 4 de janeiro de 1960)

UM GAJO SOZINHO EM CAFÉS DE PROVÍNCIA - VI



© Brad Holland

VI


Matos da Vila, Café Convívio, tarde de 7 de Novembro de 2009



O vento instaura o mar nas ramas mais altas do pinhal. É o mar em terra em pleno ar. O caçador conta como ficou de arma, cães e presas apreendidas por um cabozito da GNR.

UM GAJO SOZINHO EM CAFÉS DE PROVÍNCIA - V



© William Klein - Horn & Hardart - Lexington Avenue (1954-55)






V



Pombal, Café O Rio, tarde de 5 de Novembro de 2009


O vento do país dele é o país verdadeiro dele. Esta tarde, a tarde é alargada em mão pelo vento, que da tarde faz uma espécie de folha de plátano – um acontecimento vegetal. Tudo é muito bonito – até viver. Uma senhorinha de peitilho de andorinha agita no ar a saqueta de açúcar, percussão especiosa de grão de areia doce. Um rapaz de olhos de lúcio cozido pasma ante nada. Na parede, um quadro bucoliza um trecho de rio, uma ramada de choupos, uma camponesinha a trote de mula.


Soneto com Cruzes

Souto, Casa, madrugada de 4 de Janeiro de 2010



Encruzilhadas em bosques anoitecidos para sempre
esperam os viajantes sem memória nem desejo.
Aves de gestação lunar vigiam as profundidades,
aves negras forradas a vermelho como opas húngaras.

Alguém ou algo as cruzes habita do caminho.
Quem ou quê, com vinagre celebra, não com azeite.
Se se sente um rio, leite negro o forma e flúi.
O que nasce verme, vive anaconda e morre gente.

Fé, devoção, adoração e terror e temor e tremor
mais do que amor importam e contam e pesam.
Pelo chão, o sangue reconstitui o mapa das veias.

Estrelas pegam fogo frio a geladas velas.
Corações ao alto, como aves, emanam névoa roxa.
De olhos abertos dormem as almas desavindas.

domingo, janeiro 03, 2010

Observatório Observado

Souto, Casa, noite de 3 de Janeiro de 2010





A cabeça, como um observatório ao alto de uma colina, atirando atenção aos vales do mundo: dever original da pessoa viva.
Tal dever cumpre mandato na função escriturária de uma das mãos, a outra segurando o cigarro ou a testa.
A vida traz entretanto coisas: despojos a cores, triângulos defensivos, quartetos de jazz, facturações irreversíveis, treinadores da respiração, menopausas agressivas, prospectos da Guiana Francesa, estigmatizados com e sem crédito na Piazza di San Pietro, cartões amarelados que forraram cómodas de mulheres solteiras, guardanapos de refeitório de polícias, lascas genitais, capacetes, tiras de milho frito, crestomatias gregas, só o sentido dela mesma vida é que não.
Um domingo, em casa, sentir (e observar) o albatroz, o rumor humano da vindima, o ranger dos matrimónios, os versos felizes de pessoas amarguradas, a Marinha da Guia, o cauteleiro osteopata, o tubarão jactancioso e democrata-cristão, a efeméride deste e daquilo, postais do Café Gelo, um electricista chamado Patrício Delfim Vilhena Abrantes, uma copeira chamada Rosa Alice Vieira Augusto, um casal judeu não praticante uma do outro, um cabalista perdido na floresta, uma avenida de oitenta quilómetros só com sapatarias de um lado e do outro, o Kirk Douglas mais velho do que o Novo Testamento, o Nacional da Madeira a caldos de galinha, micções geológicas calculadas pelos rins, a tristeza material por causa de Sebastião da Gama e um fim-de-semana esquecido na prateleira como uma lata de graxa das redondas.
A cabeça observada pelos vales do mundo, à leitura.

Coroo Rostos mais por Numismática do que por Necessidade

Souto, Casa, 3 de Janeiro de 2010





Deste antiponto do espaço-tempo, vejo a noite tomando posse da casa dos meus tios Manuel Fardinha e Augusta Rendilheira. Que corpo tenho para esta visão? Seguramente mais que apenas este: um outro mesmo.
Do lado esquerdo desse corpo, desse futuro antigo, a sobreloja do Armando Curto e sua mulher Odete com taberna-mercearia em baixo. À direita taberna-carvoaria do Manel Pantaleão. Vórtice e décadas. Cheguei ao futuro, sou estoutro corpo. Quanto juntei – uma gramática. Coroo rostos mais por numismática do que por necessidade. Sou através.
Eles antigamente traziam o entardenoitecer à arreata. Vinham das fábricas, vinham do Campo. As mulheres urdiam lume nas casas rasas. Os homens consertavam pobrezas ínfimas: uma cadeira, um relógio, uma picareta, um psyché. Eu rondava. Parecia-me (’inda me parece) a explicação das colmeias, o que eles e elas davam.
Todos eram vivos e necessários ao mundo. Perto do Natal, a geada vitrificava os pastos, as eiras, os tractores, os passaritos, os choupos, os fontanários, os pastores, as cortinas, os bandolins, a Tia Maria da Estação, as Convertidas, o Picoto, a quinta e os cavalos do Notel, o espaço-tempo.
Hoje é o futuro para que eu possa ser antigo, não se fala mais nisso, numismática para quê, para quem.

Véspera sem Nitrato nem Prata


© Edward Steichen – The Pond Moonlight (foto, não pintura, de 1904)



Souto, Casa, entardenoitecer de 3 de Janeiro de 2010




Por Argentina e Chile, rios de cavalos conspiram o tempo feito couro.
Rico de prata e nitrato, o chão queima os homens já de si emparedados entre planície e firmamento.
Tinem navalhas e malgas de metal no espólio narrativo destas aragens & paragens.
É o que imagino, a milhas de mais distantes.
Por cá, pouca humanidade em o anoitecimento de domingo.
Não é que faça frio em excesso, mas as ruas não chamam.
Papilam luminotecnias arrefecidas e vãs, ângulos de telha obliquam a distracção, um carro que outro no estacionamento do cinema, hoje em dia os computadores sequestram em casa os namorados e os solitários deles afins.
Por Argentina e Chile, fogachos de pólvora, clarões de dinamite boreal, dos lados do mar um espelho deita-se à Lua Grande – e segunda-feira não é nunca na planície, aqui sim.

Horizonte de (E)Ventos


Praia Fluvial em Coimbra- anos 40 do século XX








Souto, Casa, tarde de 3 de Janeiro de 2010





Das bandas do mar imaginado chegam naves estelares.
Chamam horizonte de eventos ao que acontece no imo
dos buracos-negros, que dizem ser a gravidade (e)levada
além do extremo mais inimaginável, as coisas que os telescópios
e as televisões mostram, digo, acabam por se parecer muito
com incertas partes de certos sonhos.
Hoje não vou uma vez mais ver o mar verdadeiro nem conferir
a estelaridade imaginária das naves, nem ferver senão
alguma chávena de chá contra a presença molhada do (e)vento
nos pavilhões auditivos, além da varanda e do horizonte de
(e)ventos.
Está tudo bem.
Hidrogénio, leucemia infantil, torneio de sueca
sábado e domingo
na associação cultural recreativa desportiva e social mais perto
de si,
Julie London sobreviveu quatro anos à morte da filha Stacy.
Naves e aves, muito podem os sonhos e as imaginações e os
telescópios e as televisões.
Aos domingos, resiste-se à vida subindo a pé a Rua de Aveiro até
à Conchada, altura da Cidade onde se pode comprar que fumar
e passear lendo lápides no altaneiro cemitério.
Pela Nicolau Chanterene também se pode ir até Celas, tudo faz
parte, afinal, da Via-Láctea, flana-se e plana-se pela Guerra Junqueiro,
depois a Antero de Quental até essoutro buraco-negro chamado
Praça da República, batendo o mar nas costas do Jardim da Sereia.
Acho eu que ruas e galáxias se parecem muito, tanto, a ponto de
serem as mesmas flores, digo,
naves.
Astros e marcos do correio, cabines telefónicas e matérias difusas,
um chapéu e um ano-luz, o senhor Ramiro e Andrómeda,
a terça-feira nublada e a nebulosa límpida, o sapato e o quasar,
o núcleo sportinguista e o núcleo atómico, a ilha e o quadrado
da distância.
Pessoas há de muita carga positiva.
Julie London primeiro casou-se com um senhor chamado Jack,
depois com outro chamado Bobby, Webb aquele, Troup este.
As constelações também são chamadas:
Cassiopeia, Ave do Paraíso, Centauro, Pomba, Cefeu, Mosca, Oitante,
Cabeleira de Berenice, Orion, Fénix, Retículo, Tucano, Perseus, Pégaso.
São como as pessoas:
Karen, Talita, Ganimedes, Magda, Edna, Valério, Basílio, Carlos,
Odete, Herculano, Ibraim, Raquel, Faruk, Abelardo, Laura, Úrsula.
São como as ruas e as avenidas da Cidade:
Sota, Sargento-Mor, Santos Rocha, Navegadores, Moçambique,
1º de Maio, Carlos Seixas, Fernando Namora, Dias da Silva, Cidral,
Santa Tereza, Corpo de Deus, Verde Pinho, Direita, Moeda, Corvo.
Astros do correio, telégrafos e telefones de Mercúrio, saudades
de gente adormecida ao Alto da Conchada, ventos e eventos dando
altos sobre pano azul, abóbadas e abcissas e aves e naves e Rua
Adelino Veiga,
em pleno mar-alto como o céu
alto.

UM GAJO SOZINHO EM CAFÉS DE PROVÍNCIA - IV


© William Eggleston – Red Ceiling – Greenwood, Mississippi (1973)



IV



Louriçal, Café Sol Dourado, tarde de 2 de Novembro de 2009


Ele cresce diagonalmente, sobretudo depois de falar com octogenários sobre o cair-das-folhas, sobre o ser dia-de-todos-os-santos.


FINALMENTE UMA FORMA

, diz-se ele a si mesmo próprio em especial, consultando nada especial. Passam pessoas graves como pássaros, ao ar da terra também grave. A rapariga de camisola tão roxa quão o Senhor-dos-Passos. Aquele divorciado a quem proferem esta expressão:


OLHA, VAI ALI O HOMEM DA TUA MULHER!

O rapaz de brinco luzindo madrepérola ao lóbulo esquerdo. A passagem do tempo também no corpo dos porcos. O lóbulo esquerdo do rapaz substanciando isto da globalização, da mudança de paradigma, de isto disto ser tudo moderno, de quase ninguém assegurar já a correcta locução em língua portuguesa. O professor de música que passa enroupado de flanela em padrão escocês. A senhora freira procurando uma chave neste café mesmo, pedindo por Pedro.

sábado, janeiro 02, 2010

Desde que não Matem mais Focas, tudo Bem







Souto, Casa, madrugada e noite de 2 de Janeiro de 2010


Mudar o destino do mundo é redundar em redundância – porque tanto destino como mundo são mudança.
Ter merecido algures na vida uma tarde ante o mar, ter merecido não ser recrutado para o, por exemplo, Afeganistão – lances que mudam no mundo a pessoa.
Saber com o grau absoluto de certeza (e de pureza, portanto) que neste instante preciso (de escrita como de leitura – é o mesmo, por magia) crianças urdem cada uma seu tesouro vitalício, saber isso consola e resigna.
Não muitas, mas algumas pessoas são deveras mundiais.
As que abreviam a dor.
As que remendam roupa que nem é delas nem para elas.
As que não matam focas.
As que encontram um sentido até na doença, até no mato urbano, até dentro delas.
Facções desavindas do núcleo arvoram razias étnicas.Sucede-se a paz podre – ou comercial, dá o e no mesmo.
Cuba, 1959. Berlin, 1945.
La Habana pela Ponte Glienick.
Em pleno centro de Matanzas, a Königsplatz.
A jovem Renate Giese comendo morangos com Luis Conte Agüero em Camaguey.
Na Weissensee Station, esperar um pouco pela chegada dos capitães Smailov e Camilo Cienfuegos Gorriarán.
Num Verão benigno, a um 26 de Julho além-Tempo, nadar no rio Havel em a companhia de Carlos Franqui, Agustín País, Daniel Alarcón Benigno, Rudolf Oberhaus, Jo Brettschneider, Anatoly Mereshko, Hubert Matos, Waltraud Süssmilch, Ernst Bittcher, Ramiro Valdés Menéndez, Lothar Loewe, Bernd Freitag von Loringhoven – e do Padre Llorente e de Semen Glushenko e até do General Weidling, pois, assim como do General Ochoa, por Santiago de Cuba ou na Alexanderplatz, em Santa Cruz del Sur como sobre a Ponte Moltke, que o mar cubano é todo o Rio Spree, sabem-no Manuel Ray e Günther Dunsbach, entre Potsdam e Berlin não é só a ponte, é Holguín de um lado e Santa Clara do outro, já que a Rua Pankow vai dar à igreja de Cienfuegos, a cujo pórtico conversam com amenidade Vladimir Gall, Henri Fenet e Alfredo Alfaya enquanto não chegam Mikhail Petrovich Minin, que neste momento atravessa a Rua Heinersdorf, e Faustino Pérez Hernández, que, redundante, dá corda ao relógio por bandas da Schönhausen.



UM GAJO SOZINHO EM CAFÉS DE PROVÍNCIA - III


© André Kertész – Rue des Ursins (1931)

III

Figueira da Foz, Taberna O Gato Preto, tarde de 27 de Outubro de 2009






A pessoa faz-se por vezes ao mar de uma maneira terrível. A pessoa fazer-se – é que é terrível: e o mar torna-se uma circunstância. O duro bico da pomba comendo (bicando duramente) o pão do chão – a natureza, por assim dizer, de comer a pedra. As pessoas podem todas ficar pobres de repente enquanto um homem está sentado num café de província. Algumas pessoas escurecem no Inverno como as recordações. Não é sempre o caso dele, mas algumas vezes assim é. Um rápido desfraldar de albatrozes sobre paisagem marítima – pode acontecer, enquanto tudo, de resto, acontece.



Tu É que Sabes

Souto, Casa, tarde de 2 de Janeiro de 2010

Vergastas-te de ópio e de calamento e de compras discretas feitas a horas-mortas.
És um cidadão e vives em democracia e tudo está bem quando acaba mais ou menos.
Grassam à flor da terra os mortos futuros, não, nem toda a gente é boa caça.
Tens frequentado covis e salões, azinhagas e travessas avinagradas a mijo de gato e associações recreativas e lançamentos borda-fora de versos bem intencionados mas
sinceramente.
Às tantas, és lisbonense, vives na Rua Carlos Mardel ao Alto do Pina, em algum saguão alivias as micções solitárias e ardentes e lunares e solitárias e solitárias.
Ou então não, não vives, vergastas-te mas não vives propriamente o que viver é.

UM GAJO SOZINHO EM CAFÉS DE PROVÍNCIA - II


© Edward Hopper – Nighthawks (1942)



II

Pombal, Gelataria 2000, 26 de Outubro de 2009







O gás da melancolia pega-se ao corpo, envolve-o do cheiro da madeira velha molhada. Isto acontece enquanto tudo o resto acontece. As crianças são rosas totalmente biológicas – e o gás da melancolia pega-se ao corpo, envolve-o do cheiro da madeira velha quando molhada. A beleza acontece ser sempre extrema; a vida, um pouco menos. As pessoas parecidas com periquitos sentimentais e sem grandes leituras. O abastecimento de víveres, vitualhas. O pequeno comércio da vida pequenina. Ali a farmácia agrícola, ali o Gabriel das Lâmpadas, ali o senhor polícia tão idêntico a um pombo municipal. Esquecia-se ele de dizer:


O destino estelar das mãos.



O destino de estrela de cada mão – diria ele, num café de província, uma manhã de segunda-feira. Ele conhece casais felizes, um dos quais infeliz, casados para toda a vida contra o resto do mundo. Quando chove, quando uma pessoa está sentada em um café de província. Também: quando o que cresce em uma pessoa é um cancro ou uma ideia – ou uma palavra como


MIOSÓTIS



, que é completamente música portuguesa. Ele está sentado em um café de província, uma manhã muito nublada e completamente de segunda-feira. Ele sabe que a vida equivale a Portugal, o que o torna por vezes capcioso, dogmático, infalível e melancólico e madeira velha. As coisas sempre a acontecer todas, um pombo beijando o pão do chão com o duro bico, um senhor decerto Anacleto de camisa comprada aos chineses, a mãe-de-família de blusa castanha e saco dourado do ouro da recordação.

Saber Ontem






Souto, Casa, madrugada de 2 de Janeiro de 2010



Ontem esqueci o que saberei hoje.
Dean, Monroe, Mao, Guevara, Adams, Feltrinelli, Lipovetsky, Castro, Kent, Jor-El, Nathaniel Samuel Fischer Jr., Boone, Parker, Korda, Gorki, Rendilho, Veríssimo, Fitzpatrick, Fangio, Videla, Eichmann, Bernal, Sartre, Sastre, Retamar, Deniz, Salcede, Krieger, Krüger, Bach, Bosh, Bashô, Pires, Harding, Gustafsson, Gard, Banville e Almeida.
Se pensar nela, que assustadora, a minha mediocridade! Que assustadora, a alarve alacridade de cada um!
Uma bala ou um sermão?
Uma granada ou uma prédica?
Tem de ser revisitado o horror de Heydrich.
Os mastins humanóides necessitam de extermínio, não venham com merdas.
O Korda da foto universal do Che morreu a 25 de Maio de 2001. Coexistiu tudo nele: por ter sido captor de um instante inalienável. Quantos poderemos ousar sequer desejar parecido?
Mas – e um Heydrich?
Como sobrepassá-lo?
Como integrar na corrente humana tal monstro?
A tragédia resulta maior por não nos ser possível matar um morto.
E então isto: o amanhã ser só feito de esquecidos ontens.

Fala um dos Períscios


© John Singer Sargent - The Pavement (1898)



Souto, Casa, madrugada de 2 de Janeiro de 2010







Campeia a geral indigência, aliás histórica e genealógica aliás, da Nação. Grassa a imbecilidade,  da economia moribunda ao cadáver da literatura.
Tal pode – mas não deve – impedir as pessoas de bem de seja o que for.
Há quem acometa um poema como quem comete uma malandrice.
Tanto malandro verdadeiro e tanto falso poeta, porra. Súcia de sécios e de sécias insaciáveis, porra. De atafal janota, de asinina condição, porra, porra.
Ponho-me mas é na alheta sem sair do sítio, derivo por Bélgica, Holanda, Noruega, Dinamarca, Brest-Litovsk, Oradour sur Glane (hoje é dia 10 de Junho de 1944), Budapeste, Frankfurt am Main, Bucelas.
E no entanto não deixa de ser possível – e até prático – admirar num rosto novo a repetição de um olhar antigo: que é poético às vezes o atavismo.
Dentro, está-se vivo por mais do que obrigação.
Rios varam a terra de-lés-a-lés, movidos por um fervilhar vital que se não amodorra jamais.
Inscrevo-me sem favor nem mercê entre os patriotas da memória futura, por ela ser a vera Pátria Atávica. Ouros e cabedais municiam o viático pessoal, atentos os olhos sempre ao que houver de registo e indicação.
Almácegas, açucenas, colibris, hidrografias: tudo vem e tudo parte.
A pessoa é o seu mesmo instante.
Consumir-se-o – importa.
A-ser, por-ser, ter-sido: entemente.
Vogar no País, crescendo na Língua, sendo feliz em rincões que uma maioria lerda (como lerdas são sempre as maiorias, afinal) considera obsoletos – e até nocivos – não importa.
Uma sala escalada por duas velas bem acesas. Nomes seguros a lápis, mina que mata o anonimato: carrascos e vítimas de uma guerra, movimentos peristálticos, andanças do sabor da tâmara embrulhada em toucinho frigido.
Sim, a verdade é sermos todos, sem excepção, mesmo os lerdos, períscios.
Ou a sombra rapace dos gun-men de todas as décadas dos séculos todos.
A colonização canadiana, dita Nova França.
O genocídio inca’zteca-palestiniano-curdo-hindu: pedrinhas imperiais.
O Sussex, o Montana de McLean e o Maine terminal da Yourcenar, a Beira Baixa, Navarra, a Cafraria e o Turquistão: tudo Pátrias Atávicas.
Os sentidos profundos como peixes cegos que não precisam de olhos para nada nas frias águas negras.
Montanhas submarinas. Uma mulher alheia de impossível olhar negro (melanope, melanope!) – ou verde.
E nacional.

sexta-feira, janeiro 01, 2010

Vinte e Seis



BREVE E ALEATÓRIA LISTA DA ARRAIA-MIÚDA DE CARRASCOS VOLUNTÁRIOS E DE VÍTIMAS INVOLUNTÁRIAS DA II GUERRA MUNDIAL (1939-1945), TUDO À MISTURA, NUM TOTAL PROVISÓRIO DE 26





(pode ser lido como um poema e/ou como um edital venatório)



0l. Artur Brauner
02. Karl Stojka
03. Hans Stark
04. Günter Stark
05. Kazimierz Smolen
06. Heinz Junge
07. Harry Seidel
08. Igor Kravec
09. Vera Bulina
10. Nina Ilyenkova
11. Robert Kroetz
12. Gerhard von Jordan
13. Ruvin Stein
14. Ludmilla Zavorodnaya
15. Boris von Drachenfels
16. Hermann Langbein
17. Hans Frankenthal.
18. Hans Münch
19. Hellmuth Szprycer
20. Stefan Grayek
21. Israel Gutmann
22. Marek Edelmann
23. Arthur Liebehenschel
24. Antje Wagenfuhr
25. Benjamin Ferencz
26. Otto Ohlendorf

UM GAJO SOZINHO EM CAFÉS DE PROVÍNCIA - I


© Walker Evans – City Lunch Counter, 1929







I


Souto, Café A Petisqueira, noite de sábado, 17 de Outubro de 2009






Um sábado à noite, um café de província, o televisor sintonizado numa incursão à Beira Baixa, ares de Monsanto. À tarde, tinha ouvido música finlandesa pela Rádio Nacional. A música passou, levou-a o vento, casa invisível do dia. Nas estantes de vidro, pacotes de bolacha-baunilha, latas miniaturais de sardinha em tomate com molho picante, garrafa de anis, garrafa de ponche, tabaco variado, rifa do presunto pelo número suplementar do totoloto, whisky de Sacavém, sacas de giletes e cartões de pilhas. Uma formosura melancólica, a destes bens expostos ao vidro, ao sábado, à província que se deixou anoitecer sem luta nem agravo. O televisor muda para barcos muito grandes no mar muito maior. As gaivotas gravadas gritam riscos de giz ao ar de moscas do café. A atenção aos barcos no mar traz-lhe uma ânsia fácil, um querer-ir que fica. Os barcos dão lugar a incêndios, fogo-posto em viaturas de polícia, restaurantes, contentores do lixo em jardins da Capital. A patroa do café lava copos, o patrão resolve o descubra-as-diferenças do dia. É o único freguês – do café como do mundo. Vai lá fora fumar um cigarro, conta os poucos carros que regressam à cidade. Reportagem sobre a pobreza nacional. Testemunhos, bairros-de-lata, velhos e crianças em silêncio folha-de-flandres e cartão de frigorífico. Um poster do Benfica de antigamente escurece no canto mais vazio do estabelecimento, Barcelos e Santa Maria da Feira sucedem-se no ecrã, depois Esposende e Moura. Nada finlandês no horizonte. Rostos feios, comezinhos, talhados em pedra-sabão, prestam depoimentos à repórter numa gramática estropiada e irreversível. Recolha de alimentos por caridade, depois o assassínio em Ermelo, Mondim de Basto, do marido da presidente da Junta, uma senhora chamada Glória cuja viuvez comove mais ou menos a Pátria Autárquica. Depois, crimes ambientais lusitanos, cuja sordidez revela e releva em esplendor o pato-bravismo do íncola luso. Um securitas entra no café para bica-e-bagaço. Rapaz de trinta e poucos, casado com uma rapariga que patita entre galhos provisórios: limpezas em creches, em fábricas, em escritórios. Ele, vá que não vá, securitas há já três anos. Outubro, gente na praia aproveita o outono estival que vai fazendo. Depois, um homem com calças de caçador chega para um cone de martini-cerveja. É portador de um bigode cerrado tingido de carvão e espuma. Filmagens submarinas nas Maldivas – outra vez o mar, a ânsia outra vez nele, que fica em terra. Sai de novo ao pátio a fumar, um carro pára, o casal pergunta-lhe pelo Centro de Exposições, que ele indica com delicadeza e segurança, assim tudo lhe viesse e fosse. O boião de chupa-chupas teima colorindo a extrema da pedra de imitação de mármore do balcão. Meias-garrafas de vinho de cooperativa, embalagens de leite achocolatado. Brindes a meia-coroa. Uma criança de olhos velhos fulmina o televisor por dentro. A patroa senta-se à mesa mais próxima da porta, boceja a revista suplementar do jornal. O patrão conversa com o bigode caçador. Riem-se de trocadilhos pueris: dinheiro, velhice, bola, cornos, empregos: tudo os faz filosofar alvarmente. De gajas já não falam, passou-lhes a veneta. Dá-lhe uma pontada de vontade de sopa de agrião, não sabe porquê. No regresso ao quarto da pensão, remediar-se-á com pão, queijo, salsichas de lata em cru e uma maçã. E vinho branco do de temperar carne.