sábado, dezembro 26, 2009

Se um Taxista Pensasse em Verso numa Noite de Inverno



© Joel Meyerowitz

Red Interior – Provincetown, 1977


Souto, Casa, entardenoitecer e noite de 26 de Dezembro de 2009







Sobre os ombros a dor enxuta de ser pessoa na voracidade das esferas.
A música dos altos veludos frios espalha firmamento por toda a parte.
Ramagens fronteiriçam vivendas solitárias, além de que cães e cântaros.
Um poço olha as estrelas venosas de muito baixo para muito acima.
As mulheres que cantam, depois da curva, vão sangrar aves para a ceia.


O frio toma a carne, xilofona os ossos, vitrifica o olhar vilão, range dentes.
Gosto disto.
Estou preparado para o que aí vem.
Tem de se ser sempre pessoa.
É como ser estrela: tem de se ser voraz sempre.


Cava-se um buraco vertical: e resulta uma pessoa.
Ou uma estrela.
Uma esteira de gases, de diamantes, de cafés de beira-estrada, de berlindes.
Aflora-se com a boca a erva dos anos: o cavalo vertical: a estrela: a pessoa.
As praias no Inverno: tu sabes.


As pessoas cavam diamantes nos cafés de beira-estrada.
O céu vai saindo por rifas, as estrelas por máquinas de venda automática.
Educa-se a criança contra o horizonte, mente-se-lhe o frio, a sorte das aves.
Sobre os ombros da criança a dor húmida ainda: a seiva do leite de mama.
A placenta medusou a pessoa infante, emaranhou-a de gaze, atou-a.


E eu, que gosto disto, espero
ser, servir e ir.

CONFIAR NO CORVO – em prosa e em verso

Souselas, noite de 24 e manhã de 25 de Dezembro de 2009




1

O que podia ter sido, pensando ora nisso à boca da noite, tem a ver com este frio, aliás moderado, em pátina nas casas. A outra vida – a que passou, se passou, se foi embora. Mudaram entretanto um tanto a face da terra: duas que três vias automóveis, degolação de franjas arbóreas, uma que duas estações de serviço, o futuro já pretérito à nascença, enfim.
O que devia ter sido, alheio ao corpo agora embora, embacia as vidraças (ou os olhos). Um cão lá fora, preso sem culpa formada. Os carros em fila lenta na via-rápida. As torres da cimenteira, o último café fecha portas, o asfalto mostra espelhos de prata, guincha a cancela da ferrovia (a artrose da guarda da linha), os mochos cingem o pename calorífero, ele pensa tanto no que podia como no que devia.


2

Parece que S. Paulo, o Eremita, em seus longos anos de deserto, era fornecido cada dia de meio pão por um corvo celestial. Visitado na solidão por Santo Antão, trouxe-lhe o corvo um pão inteiro, tal que aos dois santos coubesse igual ração.
As histórias da História do Pão são humanas. Não recorda o tubarão a genealogia que destroça abocanhando a pescada individual. É bem que assim seja. Nós, gente, somos em tudo diferença. As lendas correm séculos. O pão e as vidas fundem-se. Por cima, a parte susã. Por baixo, a jusã. Os corvos deflagram, panificadores.
Quanto pão não terá comido certo Benabet (dito também Amenhamet), alegado rei de Sevilha no século XI, por aí? Deu D. Afonso VI de comer a seu filho Sancho, que tão moço veio a morrer em 1108 na Batalha de Velez? E era de facto Joana o nome da mulher de Cusa, suposto intendente da casa de Herodes? E que qualidade de pão, ázimo ou não, terão ingerido Herodes, Cusa e Joana? E que linhos envergou quem dentre eles, se alcânave, se cânhamo?
Da minha linhagem (linho e linha), um tal Jacob veio da Galiza há não contadas décadas para estas bandas. Mas não há Joanas entre as mulheres da minha casa. Há pão, mas não Joana. A prestigiosa família galega Lago, patronímico corrompido talvez em Lages, não é a minha. Dessa planta de gente, há a distinguir os primitivos descendentes de um D. Mendo, comedor de pão ele também e irmão de Desidério, que foi o rei derradeiro dos Longobardos, e outros de confusa origem e incerta consequência.
Isto apreendo lendo em Souselas a Lenda da Torre de Moncorvo, terra de pão, gente, santos, anjos e corvos. Mas não apenas.
Não apenas porque à colação arriba um voluminho intitulado O Livro da Confiança. É da autoria do senhor Padre Thomas de Saint Laurent, escritor pio nascido em Lyon de França a 7 de Maio de 1879 e defunto em Uzès aos 11 de Novembro de 1949. A obra obteve (ob, ob) o NIHIL OBSTAT (outro ob) do Cónego José Valdemar Pires a 20 de Setembro de 1993, a menos de dois meses do nascimento da Leonor, em Bragança, cidade cujo bispado era, naquele tempo, de D. António José Rafael, desconheço se ainda é ou não. O bispo António concedeu o IMPRIMATUR a 22 do mesmo Setembro.
O livro do Padre Thomas assegura que a Confiança, sendo uma forma superior da Esperança, radica na Fé. De tal modo, que nos não devemos preocupar com o pão de cada dia. Ou seja: há que confiar no Corvo.


3


Somatório de gazes e cortinas,
o nosso tempo é vaporoso.
Criamos os meninos e as meninas,
do forno sai o galo capitoso.


Calda de açúcar, maçãs molhadas
da geleia mesma interior,
peras avinhadas em dormente langor,
de galinha a canja às taçadas.


É Natal – e os anjinhos,
brutinhos a comer, adocicados,
ao lar sesteiam mui digerentes.


É Natal – e os doces vinhos,
p’lo ’quenino cálix bebericados,
dão paz a estas horas diferentes.


4



Tenho dias em prosa, noites em verso.
O meu mundo nem sempre chega a universo.
É um veículo limitado, este corpo-corvo. No entanto,
é quanto basta para devassar cidades e lances
pensativos dotados de melancolia e léxico.
Outra coisa é nunca ter ido ao México.


Rente à lareira ardente, a paz permite sentir
o desagravo de outras jornadas arrefecentes.
O que podia ter sido, pensando nisso à despedida
da manhã, a vida, o que a enforma e a conforma.
Os amigos, as taças de fruta, a oliveira do vizinho,
a Lenda da Torre de Moncorvo, o honesto estudo,


o homem de cabeça nevada fumando em silêncio,
o café de arcadas onde deixam fumar, o sossego
que a iminente chuvada traz ao coração,
a galeria onde assam leitões, os pátios com nespereiras,
a promessa de ir a ver museus no futuro anterior,
a minha Avó adormecida no húmus desconhecido.


Terra de cortinas e fumos, pântano vital,
a minha vida há-de às vossas semelhar-se,
que de contribuições mais é feita que de
retribuição em conta. Assim seja, pois sempre
assim tem sido, na minha como nas vossas
vida e vidas. Somas pagas e contas devidas.


No chão primacial assenta o humano asfalto,
trilhos numerados que a mediações levam
ou deixam ir. Litorais arborizados bramam
fulgurações e adamastores fantacinemáticos.
Viva, a imaginação aumenta o viver, se
calada a pessoa se projecta e vive mais


dentro. O olhar no lume, a cabeça alhures em volutas.
As neves perpétuas de uma espécie de paz,
a solidão benigna da criança que envelhece
em prosa e em verso e em verso e em prosa,
a rosa do olhar no rosal do lume, um
dia santo sesteado sem fazer mal a ninguém.


O que podia ter sido tem a ver com este rio.
O Joaquim, o Fernando, o António, o Abel,
a Conceição, a Odete, a Sílvia, a Teresa,
as casas fosforescendo ao sol limoeiro da matina,
Joaquim e Conceição tiveram um menino,
o Abel e a Sílvia, uma menina.


Para bandas de S. Martinho, o cemitério novo
é estaleiro ainda, dormem as máquinas onde dormirão
os mortos amados. Breve será campo-santo de gente de mármore,
as décadas trarão e hão-de levar os poemas
futuros, os romances terminados da pobre
multidão viva ’inda ao momento em que escrevo.


Nunca ter ido ao México senão em mente,
mal não tem. Hoje por bandas de Coimbra, amanhã
aos pés de outro castelo, tanto conta. Mais
do que o périplo do organismo sólido, marca
o verso atingido, a urdida prosa, acesa a
lareira em dorme-ardência mui pensativa.


Como um plasma (uma linfa de ninfa), a melancolia
ajuda a entretecer a teia de referências: a cabeça
como pólo norte do coração, o pacificado sexo
qual equador dos hemisférios da infância e da
senectude, onde ardem os motivos, a genealogia,
o vago avô galego, os irmãos do Pai, os pátios


de nespereiras e latas oxidadas e oxidados gatos.
Viajo, na bagagem levando da rua primeira
os gentis gentios mortos verdadeiros: os senhores
Sacramento, Nunes, Gonçalves, Velindro, Paula,
Alcides, Maricato, Morais, Pinto, Botelho,
Borges, Pimentel, Manuel, Elói, Catarino.


O Abel e a Sílvia tiveram uma menina.
A Conceição e o Joaquim, um menino.
Arde o olhar, por vezes, no fósforo amado
que a noite devassa em ardência literária.
Um rio, um lume que corre, uma veia de mercúrio,
a vida pronta a ser significante.


Gabinetes de estética, centros de documentação,
maternidades, cenáculos, estudos sociais,
núcleos sportinguistas, círculos ecologistas,
mandarins e brâmanes, cânhamo e alcânaves,
linhos, linhas e lenhas, animais bonitos
como flores de carne, belas as cabeças animais


nas paragens de autocarros, pelas gares ferroviárias,
em marinas de nórdico aroma, chapinhando os barcos,
devassando a oleaginosa tainha a água densa,
lixeiras em monturo largando fumo e crianças
muito pobres pescando relíquias no esterco,
repleto o coração de léxicos, méxicos e afins tóxicos.


Casinos royais, bailes de gala, lantejoulas senhoris,
roxas emanações, perfumes e suores, tabernáculos,
oráculos, dancerinações, vermutes folheados a limão,
capilés e groselhas, vendedores de gelados, estios
lacados a ouro e preto-e-branco, morte das
professoras primárias, natércias e marcos do correio,


televisores avariados, gatos mansos, nenúfares,
charcos microbiais, penitenciárias sob cúpula,
lúpulo de cerveja, mães de amigos, semáforos,
cabos de alta-tensão, baldes de tinta, calças de bombazina,
bibes azuis, cisnes de gesso, postais,
pornografias da Belle Époque, Strindberg,


o conflito israelo-árabe sumariado por Sartre,
as áleas bosquímanes de Marcel P., as Ardenas
de Von Rundstedt, Bidonville e Zundappville,
Fribourg e Roterdam, Freeling e Van der Valk
e Castang, a Rainha Santa manchada de opas
escarlates como o coração imaginado da raposa,


certo Natal colhemos musgo e ramas de pinho,
ay flores, a manhã cristaleira reverberava lustres, o ar
refrigerava a respiração, tudo era perfeito,
outras famílias sorriam à ventura da novidade
vitalícia de nenhuma morte ainda, ’inda nenhuma
pessoa se nos lhes fora embora, até que


radiofonias em lojas de ferramentas, o Antunes
carpinteiro emaciava ripas, mais havia
taludes de ferrovia, reclamos luminosos marcavam
os 60 para os 70, Dabri, Couto, Rexina, Ájax,
SuperPop, Clock, Primor, Vaqueiro, Knorr,
Pirata, Teobar, Serranita, Canadá Dry, Repimpa,


Laranjina C, Bravo, Petromax, Taunus, NSU,
Campião, Colmeia, Coração, Cergal, Amparo,
Sical, Maggi, Triunfo, Cassata, Peninsular,
Pernambucana, Paraíso, Mìele, Miúra, Sanjo,
Tebe, Olex, Nacett, Digest, BocaDoce,
Fá, Superfresco, Vilar, Goodyear e 333.


As crianças de agora envelhecem como dantes amanhã,
tupperwares sarcofagam restos de consoada,
revoadas de laranjas galgam encostas a baixo,
sinais de trânsito fatiam o vento de fim do ano
fim de tarde fim de dia, cegonhas nidificam
até o olhá-las numa elanguescência anisada,
sextilhas desemaranho do novelo pensadigestivo.


Ao lume, a panela de bom ferro ferve água boa,
a oliveira do vizinho pintalga de cinza o papel-cenário
da tarde, amadurece de gelo a roupa no estendal frio,
dezembro ondula como arrepiada pele de lago (lages),
é uma felicidade termos o televisor avariado,
dá para escutar o rumor dos móveis, o falar que as

louças têm entre si no aparador. Poetas galegos
a esta hora amam os filhos que se fizeram, em Lisboa
suponho o Rossio pouco devassado, o mais da capital
é gente da província, taxistas vindos de Abrantes, açougueiros
do Sabugal, arrumadores de Celorico da Beira,
carteiristas de Portalegre, médicos de Soure,


enfermeiros de Tavira, pescadores à linha de Portel,
estivadores da Buraca, estucadores de Mafra,
electricistas de S. João das Tábuas, administradores de Oiã,
imobiliários de Castelo Branco, andebolistas do Barreiro,
clarinetistas da Leirosa, caixeiros de Matosinhos,
ferroviários de Vila Franca das Naves, osteopatas de Setúbal,

cartomantes de Balasar, caldeireiros da Guarda,
torneiros da Torneira, escrivães de Almeida,
locutores da Mêda, freiras de Viseu,
acólitos de Bragança, administrativos de Algés,
modelos da Pampilhosa (do Botão), condutores de Faro,
putas de Silves e vereadores de Lisboa mesma, onde


S. Vicente e mais corvos, à confiança.



quinta-feira, dezembro 24, 2009

Elementos Porreirinhos para um Presépio Alternativo

Souto, Casa, manhã de 24 de Dezembro de 2009











O Presidente da República com a mulher ao lado, muito circunspectos ambos.
Uma galeria de pinturas iluminada a periquitos muitíssimo amarelos.
Paris by night sitiada por caçadores alentejanos de coelhos e ouriços.
Duas pessoas homossexuais de vez em quando.
Uma ovelhinha, mas azul.
Um catálogo de hipermercado com o retrato de Wenceslau de Moraes ao pé da campa da primeira mulher.
Um burro de gravata cor-de-secretaria-de-estado.
Uma cruz-de-guerra alemã sem soldado atrás.
Uma família incompleta, como todas.
Destroços vários de um só naufrágio.
Poemas da adolescência para o burrinho limpar o cu a eles.
Poemas como este para o burrinho limpar o cu a eles.
Lata de graxa para os sapatos.
Um iogurte de melão.
O Presidente da República sem a mulher ao lado, a sorrir portanto.
A equipa do União de Coimbra de 1978/79 mais o senhor Augusto Gonçalves.
Um começo de auto-estrada para nenhures.
Um investimento angolano sacado ao genocídio pela fome.
Uma miniatura do monumento aos Restauradores com putas de miniatura também na base.
O Miguel Torga a queixar-se do Nobel nunca mais.
Os tomates do Padre Inácio.
Um rei e um cão, ambos de nome Faruk.
Um gramofone com swing à aposentado finlandês em cruzeiro no Estreito de Bering.
Um exemplar de Sledge, de Martin Lindsay, para a Penguin.
Uma dose de papas de aveia em prato Aleluia.
Um sinal de estacionamento proibido incluindo cargas & descargas.
Um poetinha coimbrinha sem ser o Torga-nunca-mais-o-Nobel-porra-porra.
Cuspinhadelas de maracujá por toda a palha.
Um dos Reis Magos apanhado a mijar nas traseiras da estrebaria.
Sua Papa a Santidade.
Um vestido de noiva depois de usado, portanto com rosa vermelha.
Uma zundapp sem roda da frente.
O Pedro Barroso visto de lado como se estivesse de costas.
A Linda Lovelace a mandar bocas, naturalmente.
A Batalha de Ourique, com Cristo espadeirador e tudo, agora em DVD HD.
E o Menino Jesus a tratar o padrasto por Zé.



Meia Dúzia em Família

Souto, Casa, manhã de 24 de Dezembro de 2009









Por instantes é feliz imaginando-se um dos Thibault ou um dos Buddenbrook, alguém outro dele diverso, um dos Buendía ou um dos Bloom, outro além deste que vai pela avenida na manhã despovoada, perto do rio mas sem o rio à vista, alguém para além deste tão vulnerável à anunciação de coisa nenhuma, tão poroso ao pano da luz mais fria, um dos Ramos Pinto ou um dos da Bouça.
É feliz por instantes, o peito desagravado pela visão de meia dúzia de palavras finalmente justas, meia dúzia de palavras exactamente seis: gardénia, mercê, fraternidade, conflito, soluço, solução.
Recorda uma mesa de camilha, um serviço de chá, um dos Thibault ou um dos Buddenbrook, noutra vida a páginas tantas. Recorda uma banca larga com louça por pintar, o perfume de aguarrás, as mãos de outro homem em outras décadas que não esta, um dos Buendía ou um dos Bloom, abrindo-se ao estendal da respiração.
Tão longe do litoral, distingue perfeitamente a orla espumada pelo mar, o crocitar agudíssimo das gaivotas, as carretas de madeira ressumando baba de peixe, as crianças pescadoras agredindo cães, estas coisas fazem-no feliz enquanto não é hora de tornar à pensão, um dos Handke ou um dos Santos.


Dar de Beber



© André Kertész

Sixth Avenue, NY, 1959



Souto, Casa, manhã de 24 de Dezembro de 2009



Acorda para a imagem instantânea do tempo como rio
e a água da idade fica represa no tempo mesmo de acordar
os cantores de rua trabalham já as canções antigas
os invernos fazem barragem de folhas caídas à flor da água
é bonito sentir as esferas que prensam as leis do sono
ele acorda e não desperta, ele acorda e não desperta
mas sente a força invencível do tempo nas persianas
todo o quarto se volve nave de esferas de águas
abre a janela e vai seco o rio, boceja e meia dúzia de lágrimas
da mesma água de dar de beber aos cantores.

quarta-feira, dezembro 23, 2009

E vão 135 da série Rosário Breve - sempre nO Ribatejo - www.oribatejo.pt



Natal à portuguesa







O Natal é, por excelência, a época da caça ao sem-abrigo.
O zagalote da caridadezinha municia a cartucheira dos bem intencionados sazonais cujo cristianismo tem data marcada, fora o resto do ano. As caçadeiras são à base de copos de plástico com sopa morna e fatias de pão de forma plastificado com uma tira transparente de mortadela fora de prazo.
Há prendinhas: a peúga desirmanada, o cachecol da Selecção, a pagela do Padre Cruz, o pente desdentado, o dêvêdê nº 149 das arengas tele-invasivas do professor Marcelo, o diaporama da Sãozinha de Alenquer, a costeleta de porco a pilhas, o poema do Torga, o contentor de Alcântara, o segredo de justiça, o rebuçado de fluoxetina, o laçarote daquele senhor que é pai do satélite português e que imita muito bem o Parvalhotti que Deus tem, o folheto do doutor Francisco George contra a Gripe-A e contra o resto do mundo, o rolo de papel higiénico marca Cimeira de Copenhaga, a previsão sempre-em-alta do Banco de Portugal, a escritura da geminação de Santarém com Palermo, a torrada seca também a pilhas, a fotografia do Natal passado dos manos Portas com o poster do Che e a estatueta fluorescente da Senhora de Fátima ao fundo, o Festival RTP da Canção de 1967 em cartõezinhos para colorir e colar com cuspo, o sol das terças-feiras, a infância de cada um clonada em ovos Kinder Surpresa, a visão fantasmática de Fernando Pessoa descendo o Chiado mas a sorrir à vida e às gajas que sobem a Rua Garrett, o Tejo e o Douro e o Mondego e o Guadiana e o Zêzere e o Sado uma vez na vida arribando todos juntos à mesma foz, a chuva dos sábados, o segredo crepuscular da morte e a lotaria inexorável do nascimento, a outra peúga que faltava e um beijo nas ventas.
O Natal, por tudo isto, não me entra cá em casa. Escuso de pedir mortadela à mulher. Uma vez, pedi – e ela ia-me pondo fora de casa, zona do mundo onde o mais certo é ser caçado sem apelo e com agravo cada vez que é Natal, chiça.

Lados do Coreto

Souto, Casa, entardenoitecer de 23 de Dezembro de 2009



Para os lados do coreto cheira a açúcar torrado, a crianças vivas, o tempo suspende as patas como uma louva-a-deus em vilegiatura, as avós não sucumbem ainda aos venenos da viuvez, no município cunham as medalhas de história-pátria local, as ciganas mamam café com leite e copinhos de anis em torno de uma fogueira invisível, a estátua do soldado ultramarino ganha um verde oceânico a que não é alheia a obra da chuva vespertina, já fiapos de sol catedralizam a tarde, a bonomia social é feita de rulotes e de tendas e de botijas de hélio suspendendo homens-aranhas de encher, antes de tudo isto ser cinza, um domingo, na nossa terra na nossa vida.

Deita-se o Corpo



© Jerry Uelsmann

Untitled (1975)

 Souto, Casa, tarde de 23 de Dezembro de 2009



Deita-se o corpo como a um bidon
dentro ladra o cão do coração acorrentado
num pátio à lua se vive em pensamento
não tem nada que saber o viver

um pouco antes do sono a desatenção possível à mente mesma
o sossego das jarras favorece o estertor das flores
retratos decapitados pacificam enfim as famílias
outra gente ocupará estas casas, estas ruas, aqueles tempos


oscila-se um pouco entre ferreira de castro e os ten years after
entre o dicionário da lello e a pagela do professor doutor elysio de moura
nascido em braga a 30-8-1877, falecido em coimbra a 18-6-1977
entre o foucault dos blusões de cabedal e o tarantino da pam grier


a tarde é um túnel breve, melhor seguir de faróis acesos
até a próxima estação de serviço, a próxima vida
dentro ladra o cão do coração ao volante, neva na serra
os jornais não falam de outra coisa, a neve é a caspa da lua


o problema pode ser a atenção demasiada aos panos de treva
à argúcia dos gatos, ao fervilhar das enguias, às florestas matizadas
tundra e taiga, árctico e antárctico, zénite e nadir, josé e maria
há agora que não sonhar com pastelarias nem com mulheres


procura-se sem cessar a palavra justa
aquela que trará enfim a dormência
aquela que enfim trairá a atenção
a palavra às vezes entrevista num olhar, num gesto


sossega agora, bidon lunar
corpo jacente, território de enguias
o desejo dorme, são breves o túnel e
a próxima vida

Continuo a Ver um Homem de Gabardina Cinzenta

Souto, Casa, noite de 22 e madrugada de 23 de Dezembro de 2009














Continuo a ver um homem de gabardina cinzenta atravessando uma praça outonal à luz tíbia do entardenoitecer. Há mais homens, mais gabardinas e mais cidades, mas o meu é o único a atravessar no tempo mesmo uma praça e uma visão outonais.
Não é difícil perceber que já esteve de luto, que já teve a alegria de um corpo de mulher aberto em cima pelo olhar dela, que já o mar e a montanha se lhe fundiram na mente – e também portanto na minha.
Cabe-me aceitar este homem, este cinzento, esta personificação da chuva.
A melancolia nada tem já a ver com a persistência desta epifania. Trata-se de um modo de vida – ver.
Portanto: praça cinzenta, homem outonal, luz finando-se a favor do veludo frio da noite, perto de algum cais gritado a gaivotas e chapinhado a barcos. Folhas pelo chão, algumas escritas. Vento erguendo-se do chão como um ressuscitado de lenda. Derradeiros pardais oficiam a sagração do crepúsculo, dobrando a Basílica já, já se perdendo na treva nova.
O meu homem oficia ele também, mas humanamente. Só, açoitado de vento e água (as badanas da gabardina drapejando como bandeiras), ruma à casa-de-pasto onde, a caldo, pão, azeitonas e vinho, se curará da hora e dos quilos da solidão.
De que anos provém? Às vezes pergunto-me isto – porque não tenho todas as certezas. Sei isto: deitado, deito-o. Regressou já de comer sozinho, tem um quarto na sobreloja de uma farmácia de bairro. Penso a cidade dele, feita de todas as minhas. No escuro dele, a gabardina pendurada de um prego, as calças partidas sobre a cadeira, as meias emurchecidas na boca dos sapatos, as cuecas ligando o corpo deitado.
Não, a melancolia não tem nada a ver com isto. É o que vejo de olhos cerrados. Ou então: de olhos encerrados para obras. A minha obra é levada por este homem cinzento, ambula com ele pelas cidades da minha vida fundidas na dele: a praça, a casa-de-pasto, a sobreloja de farmácia.
Na madrugada, um chá forte. Ele deseja uma chávena de chá forte, mas o quarto não tem serviço de cozinha. Eu tenho. Faço o chá enquanto aguardo os parágrafos novos da visão já antiga. Decido não comer pão com manteiga ou bolachas. O chá é bastante. Derivo de chávena na mão pela sala, recolho-me ao sofá, espero que ele volte. Não volta. Espero-o.
A minha noite é serena. Inquieta-me um pouco o estado da máquina de escrever. Está a pedir reforma. Não tenho dinheiro para substituí-la sequer por uma em segunda-mão em condições. Hei-de aguentá-la. Um tempo mais, uns tempos mais. O tempo não falta. Ouço o vento cavalgar a rua. Zune na alta tensão. De vez em quando, faz faltar a luz. Então, recorro a velas. Gosto da sala toda fechada em torno da chama da vela. Imagino-me num século sem luz eléctrica. Só a vela e a lareira – e o Inverno todo lá fora varrendo o mundo dos outros. Gosto de imaginar os adormecidos, esses ensaiadores da morte. Os quartos deles como câmaras-ardentes, mas sem morbidez, sem tragicomédia, sem nada disso. Apenas adormecidos-mortos-vivos. Enquanto o meu homem não retorna, preciso de ver outras coisas. E imaginar é fazer imagens. Eu acho que é. Ele não volta, volto eu a deitar-me. Trouxe uma manta para o sofá. Desliguei a luz do candeeiro, permanecem o brasido da lareira e a vela. Fecho-me na noite, estou tranquilo, nada pode o mundo contra mim estas horas. Encerro os olhos como agora fazem aos teatros antigos. Ei-lo.
Um homem de gabardina outonal atravessa uma praça tíbia à luz cinzenta do entardenoitecer. Não há mais homens, nem mais cidades. Só há aquela gabardina, barcos perto e uma montanha recordada.
Amaina a ventania que se dava e fazia pela rua fria, fora a cidade do meu corpo, isto. Devagar, agora: a vela, o lume na lareira, a palpitação fátua dos objectos que enformam a casa. Penso na mulher que foi dele.
Não: penso na mulher a que ele terá pertencido antes desta praça, desta gabardina, deste dormir sobre uma farmácia. Têm uma presença de barcos apresados, por assim dizer, as mulheres recordadas. Mas ele agora não tem mulher, agora ele não pertence a qualquer mulher. A realidade é a sobreloja de farmácia, a casa-de-pasto, o Inverno que se anuncia nas manchas das empenas dos prédios, nos ossos das figuras idosas, no paradoxo das nuvens, cuja efemeridade assenta praça na eternidade mesma.
Não, a melancolia sim.



terça-feira, dezembro 22, 2009

O que me lembro de Coimbra

Souto, Casa, tarde de 22 de Dezembro de 2009





Para o Lelo, naturalmente










Tantos anos de migração trouxeram-me a que as minhas capitais da cidade sejam ambas as estações ferroviárias, a Velha e a Nova, a B e a A. Acho que a Velha foi inaugurada um século exacto antes do meu nascimento. A ela ia a estudantada queiroziana e quejanda a buscar as encomendas livrescas de França. Isso passou. Também o meu tempo de Coimbra passou, não me basta lá ter nascido. Sou agora de outras paragens – ou por outras aragens. Não sei. Quando volto, volto sempre brevemente. Saio numa das duas gares e faço-me a pé à vida. Trato do que tenho a tratar – e então queimo o tempo do anterregresso em ambulações de ilusória revisita. Não se revisita de facto. Eu pelo menos não o consigo fazer sem escrever. De modo que


O Telheiro, o Padrão, o Rio, o Búzio, o Danúbio, os cafés da linha de ferro, da linha que sublinha a linha de água do Mondego, o clarão escuro do Choupal gerando sombras e trilhos de cana-da-Índia e homos furtivos espreitando as barrigas das pernas dos jogadores de bàsquete, restaurantes populares para resguardo do que chove em tardes com a noite na barriga à nascença, fileiras de homens da linha de ferro, cauteleiros, mulheres do corpo de aluguer, crianças fechadas em roupas de um cor-de-rosa ferruginoso, as bochechas inchadas com ranho coagulado, rastilhos de lágrimas apagados a tabefe, fritos em mostrador de vidro, chouriça para assar, o presunto pendurado como um enforcado, moscas moles do fumo da grelha, raparigas de avental cartografado a nódoas servindo pratadas de grão, os anos ganhando gordura e amarelos pelas paredes, o contador de talheres, pratos, copos, travessas, a taça de fruta artificial edulcorando pó e teias de aranhas antropológicas, o Telheiro, o Padrão, o Rio, o Búzio, o Danúbio, os anos de ferro corridos a cortina de água, a reposteiro de névoa, sair dali e fazer a Fernão de Magalhães até a Casa do Sal, arrasaram entretanto a LUSA ARTEFACTOS DE BORRACHA, outra gare, a Rodoviária, outros anos de repente, a mesma noite ligando-os a todos, noite de mulheres-candeeiros à berma da avenida esperando as fodas e os trocos, noite-anos de taxistas friorentos com saudades de Salazar e do Benfica campeão europeu, Neptuno, Imprensa Nacional, Lampião, vidavenidacimabaixo, meus anos de ninguém, sempre que volto é pela primeira vez que estou, os anjos já cá estavam, gravados a fogo frio na minha cidade de ninguém, levanta um pouco o olhar, anda, levanta, a Conchada alta, as moradas derradeiras, subida a Rua de Aveiro, lá onde Guilherme o Lelo, a Guerra Junqueiro, a Nicolau Chanterene, a de Saragoça, a Calouste Gulbenkian até o ar refrescado de Celas, cruz de pedra e árvores de sentinela, Penitenciária e mais anjos, bancas de fruta, jornais, guardas, o milagre do Botânico em contraponto ao do passamento da Sãozinha na Rua de Santa Tereza, o Botânico das árvores em latim e do moderado desespero erótico dos namorados, mais homos por aqui como no Choupal, homenzinhos de sapatos-fato-de-treino-pochette, cãezitos de terceiro-andar doidos de euforia à solta pelas áleas que Brotero abriu acho que em 1864 também, bom ano para a cidade esse, Seminário, Combatentes, Restaurante Safari, descer à Santos Rocha até que a maior das avenidas, a do Brasil, ofereça Arregaça e Calhabé. A pé, muito. Parar no Nosso, cheirar a gasolina, encomendar um vermute e pasmar doutoralmente para os morcegos catedráticos que se emborracham de príncipes e canecas entre tiradas e citações rebatidas como pneus de recauchute. Enquanto escrevo, prometo-me tornar a fazer-me a estes caminhos insensatos. Se chover, melhor. Coimbra floresce de outra maneira à chuva, sobretudo quando o corpo venceu o que restava da Brasil até à Navarro, onde o Parque (mais homos, mais crianças, mais senhoras-papagaios, mais guardas) se miniaturiza de Choupal domesticado, à direita alta a Torre de Anto e o Governo Civil, a Cabra e as vielas aferventadas de mijo e de guitarradas, à esquerda o Mondego sempre sereno, camoniano para sempre e para sempre inesiano, basta querer, como quando se vai ver o coto do braço da Rainha Santa ou molhar os pés a Santa Clara-a-Velha, muita coisa velha há em Coimbra, santo deus, a Estação, Santa Clara e até Celas, onde fizeram a passar de há meio século o bairro social para os despejados da Alta antiga, o Parque e então a Ponte que leva e traz da Portagem, grande Mata-Frades todo cagado das pombas, Bertrand e Novalmedina e Ferreira Borges e tudo, e Praça Velha, outra velha, dita do Comércio onde de tempos a tempos vendem a cebola nova e o alfarrábio e o artesanato de chapa e a missanga colonial e a nêspera e a cereja e exemplares maravilhosos do Mundo de Aventuras, S. Bartolomeu e João Brasileiro, onde Adelino Veiga, onde Nemésio (Santo António dos Olivais, agora), onde Antero, onde, enfim, George Orwell.

segunda-feira, dezembro 21, 2009

O que me lembro de Lisboa

Souto, Casa, tarde de 21 de Dezembro de 2009




Para o Armando, naturalmente





Que cada um tem cada um sua birmânia pouco secreta, seu exposto orwell devassando íntimas selvas, lamacentas vias na obscuridade, indochinas de mercearia de bairro, pouca atenção às frias fogueiras que as estrelas são, o tremor das mãos também não ajuda por aí além agora, golpadas de vento revolucionam pelo chão os lixos e os despojos outonais em plena invernia, os sem-abrigo espreitam de entre cartões frigoríficos nas arcadas do D. Maria II, bifanas e bancários lustram a esquina da gare ferroviária, a voz cega de Rosa na Rua Augusta, douradores de ferro sportingando imediações de cinemas encerrados, putas sérias obliquando olhares-cartões-de-convite, mas também por vezes o ar muito branco, por vezes o entardecer juntando barcos como na serra o pastor as ovelhas do regresso, num terreiro os despojos do circo que deixou a cidade, ao Alto de S. João os mortos curraleirados e legíveis, inglesas velhas chegadas friorentas de Brighton tomando intermináveis chás na Suíça ao Rossio, a janela de quarto-andar do Eça olhando ainda S. Jorge, revoadas de espanholas alegres gargalhando nos bazares melancólicos da capital da Nação, o bolor de Salazar metastisando ’inda as pensões Restauradores acima Bica abaixo, o senhor Fernando das cervejas no peep-show, os totós com o último paulo-coelho no sovaco, a celebridade-pivô-de-telejornal braboleteando pela Avenida de Roma, a cidade alternativa e final dos Prazeres, a Rocha do Conde d’Óbidos marcando o marinheiro que não fui nunca serei, o Passeio Público juncado de tipóias topo-de-gama, a epistemológica estupidez dos taxistas todos, o maluco do Areeiro que se julgava Ciccio Ingrassia, poucas moedas, esta noite uma sopa, uma sandes de iscas, a cabeça-herberto-entre-as-helder-mãos, a procela de sentir nitidamente a voz de António dos Santos nas vielas que levam uma pessoa pela mão a ver o mar afinal rio, o brilho dos hotéis vistos sempre de fora, uma vez que o Armando me lá foi ter às ginjas, os cegos descendo Santa Marta S. José Portas de Santo Antão, tantos cegos tem Lisboa, na taberna da Mercedes Surda se juntavam eles para falar de futebol, a optometria ajudava a divisar Santana dos Mártires e do Irmão Doutor Sousa Martins, Tourel de galegos, Estefânia do nascituro Pacheco, Arco do Cego (mais um), e onde era a cerâmica (mais uma) do Júlio Martins patrão do meu Pai é hoje a descomunal sede da Caixa Geral de Depósitos, João XXI, Campo Pequeno, Gambrinus, o diabo-a-quatro-pintado-a-sete, o mourame vermelho da praça de touros, a irremediabilidade do tempo fora do corpo, mas também por vezes o ar muito branco, as manhãs iguais a cristaleiras, as lisbonenses genuínas iguais a psychés de estrear pelo Santo António, mas também por vezes a chuva, a mais triste chuva do mundo que é a de Lisboa, uma pessoa ali e a chuva por todo o lado, nunca ter vindo a Santa Apolónia a mostrar ao Pai os Malhoas do Museu Militar, uma pessoa ali e não propriamente ali, a chuva sim, a chuva na Rocha Conde d’Óbidos, a desamparada chuva até Odivelas e mais além, o maricas da pastelaria de Xabregas, os tisnados toxis de Chelas, os cauteleiros restaurando a tristeza de estar vivo em mais um fim-de-século, onde era o gabinete de médico dum tal doutor António Martinho do Rosário, os prédios mais cinzentos do mundo são todos em Benfica, onde uma mulher chamada América passa a vida à janela e ao telefone chamando fantasmas de guarda-redes mortos, o cantor angolano Waldemar Bastos a quem mataram um filho, os cegos subindo Portas de Santo Antão S. José Santa Marta, o homem da cara roxa esmolando à porta da Brasileira, descer e subir e descer a 1º de Dezembro, os bancários almoçando bifanas com uma pose de banqueiros ante lagostas, mas também de repente uma alegria insensata ante as mansardas lacradas a sardinheiras, uma insensata euforia ante os eléctricos amarelos quais canários, as estátuas alpinistas da luz, sete colinas sete presépios, uma vida sete mortes, pátria de gás de Cesário Verde, de sobrecasacas de Guerra Junqueiro, de in-fólios de Oliveira Martins, de bengalas de Ramalho Ortigão, de Amor de Mãe Angola 1968, a cada um sua-birmânia-sua-lisboa, uma pessoa está fechada em sua mesma cabeça como um pássaro em sua gaiola mesma, mas também de repente os quiosques que também vendem café, as vielas perfumadas de bacalhau e sabão azul, os jardins onde a melancolia floresce diagonal, o Príncipe Real ainda vivo ainda não 1908, a Estrela de velar os mortos mais célebres da TV, a condição essencialmente basílica da solidão, a circunspecta cabisbaixice da freira que passa, mas também de repente dois gênêérres a cavalo como antigamente, um cardume de ciganos subindo para a ford-transit, o rosto das caixeirinhas do comércio empalidecendo a preto-e-branco dentro de lojinhas à pátio-das-cantigas, a imponência malfeitora dos grandes bancos, os sheratons de ver-por-fora e as pensões de sofrer-por-dentro como daquela vez o Armando e as ginjas e ele ter morrido pouco depois na Figueira da Foz, não vem agora ao caso mas se calhar até vem, certa ocasião ter sido feliz num restaurante que dava pelo nome de Paris, era na avenida desse nome, sopa de tomate, medalhão de vitela com esparguete, doce de ovos, café, um pouco mais de moedas havia nesse dia, depois Rua de S. Paulo até Santos, depois onde?, por onde depois?, talvez Águas Livres, talvez Cacilhas, Almada talvez, quase de certeza rente à casa da divina Amália a S. Bento, um trapo de conhaque naquele bar da noite onde se estreou o António Variações, onde enfim George Orwell.

domingo, dezembro 20, 2009

Chama-se Philippe Jaroussky, este pássaro


Sala de (s) Espera

Souto, Casa, manhã de 20 de Dezembro de 2009



Tenho manhãs em que entro na vida como se na sala de espera do centro de saúde. Entro e sento-me e espero e envelheço entre corpos velhos sentados que esperam. Então a vida parece-me juntar vidros enquanto o inverno junta ossos glaucos com senha de espera.
Mais tarde ou mais cedo serei atendido.


Candeeiro

Souto, Casa, madrugada de 20 de Dezembro de 2009






O dia e a noite e o pai e a mãe e a água e o pó e a puerilidade até do sofrimento como a da alegria.
Temos pouco tempo mas quanto temos é todo o tempo do mundo.
Às escuras vê-se claramente quanto não pertencemos senão a uma rua fustigada por um candeeiro, uma sombra de cães entre rosais falidos, um fragmento de lixo levado pela revoada de água.
Tem-nos aparecido um homem enroupado de frutos secos como sonhos desidratados, um homem que voltou por se ter esquecido de nos dizer algo, lembrou-se do que era no caminho, voltou para nos dizer o que era, esqueceu-se de quem era quando nos chegou.
E temos a certeza ao mesmo tempo que o medo – de que seja um homem que não sabíamos que amávamos até que se nos foi.
De modo que
O dia e a noite e o pai e a mãe e a água e o pó e a puerilidade e uma sombra de cães e um candeeiro.

sábado, dezembro 19, 2009

Sem Dúvida




Camilo Pessanha e Wenceslau de Moraes em Hong Kong
Ano incerto, Autor desconhecido




Souto, Casa, entardenoitecer de 19 de Dezembro de 2009





Falo-me um pouco desses homens hoje não mais que nomes
Nomes são sombras como homens sombras são
Lá fora o século torna-se antigo à frescura de cada dia
Faz frio vem dos montes o paladar das frutas em petrificação


Um quarto me basta para muito mundo
Ainda hoje sobrevoei subterrâneo, vede bem, Belgrado
Fado cantava roupa pendurando
A vizinha viuvinha do lado


Do outro lado é talvez o horizonte, a minha vida,
Eu deste vou estando quando muito a leste
Agora que o tempo valha ou que não preste
Às vezes sim outras não, fica a dúvida.

O Q. Tarantino escreve cada personagem com determinada canção na cabeça. Esta é a da Jackie Brown (Pam Grier) no filme homónimo. Ganda música, ganda filme, ganda Randy, ganda Quentin

http://www.youtube.com/watch?v=cnNyxy7XPfs


Direitinha às ruas do Rui e do Fernando, px tá claro.

Qual Natal, pá, qual Natal



O meu Pai lia o Diário de Lisboa.
Já não há.
Nem Pai, nem Diário de Lisboa.

quinta-feira, dezembro 17, 2009

Esta semana, nO RIBATEJO do costume, o nº 134 da série cronicante Rosário Breve








Os dentes de Berlusconi

Sempre tive inveja dos dentes de Berlusconi. Deixei de ter.
Devo dizer que não gostei das infinitamente repetidas imagens da agressão de que o superpadrinho italiano foi alvo. São frias, rápidas, ríspidas, vermelhas de mais até para um benfiquista dos mais agarrados. A violência é sempre insensata e mal fundamentada. Não era assim que Berlusconi deveria ficar com os dentes partidos. Era metaforicamente. Pela força da Lei, por exemplo, se ele não estivesse tão acima dela. Não era com uma estatueta brandida por um alegado deficiente mental com quem tanta mas tanta gente silenciosamente se solidarizou (sobretudo portuguesa, mudada a figura).
Nada disto tem a ver com as orgias e os desmandos sexuais do cavaliere. A mim, essas coisas não dizem nada. Antes isso do que andar na droga. O megaplutocrata italiano gosta muito de se dourar ao sol cercado por jovens pouco vestidas junto a piscinas de um azul mediterrânico. Que as jovens sejam pagas pelo erário público ou pelas contas-correntes de um tipo que só por graça quereríamos como primeiro-ministro (ou não?...), é indiferente, visto ser ele o dono e senhor daquela coisa (nostra…) toda.
Ainda bem que por cá não fazemos nada disto. Os já célebres episódios de Mário Soares na Marinha Grande, de Vital Moreira não sei onde e de Francisco Assis em Felgueiras – são excepções aliás brandas. Foi só fumaça, para parafrasear o inenarrável Pinheiro de Azevedo de outros tempos.
Por cá, quem anda de boca partida e nariz à banda são os desempregados e os mal empregados. É a mulher mal descasada cujo antigo macho cumpre a ameaça final da facada e da caçadeirada. É o idoso que teve a má ideia de envelhecer num país que não é nem para velhos nem para crianças nem para ninguém que se não saiba armandovarar a tempo.
Para Berlusconi, chegou a hora do dente por dente.
Para nós, ainda não chegou a do olho por olho. 

terça-feira, dezembro 15, 2009

SANT’IFIGENIA E O POLEGAR D’ARANHA - canção

Louriçal, noite de 3 de Dezembro de 2009




A aranha tem cabelo
A viúva também tem
Muito arranha o cerebelo
Ser filho de pai e mãe

A braboleta adiposa
Vai p’à lip’aspiração
Nem sempre o poeta é rosa
Uns serão e outros não


No convento afamado
Por doces e malvasia
Encerrou-se a minha tia
Em dia mais azarado


Quatro dedos tem a mão
Mais um p’ra contrariar
É o da oposição
Que se chama polegar


Linda é a foz do rio
Quando morre contra o mar
Assim sou eu mesmo ao frio
Sem modos de t’aquentar


Azulejo sant’antoninho
Santa casa nosso amor
Azeitonas pão e vinho
Não te cases c’um doutor

Se Sant’Ifigénia fosse
Em romagem a Belém
T’ria aranhas no cabelo
Por filha de pai sem mãe.





ALGUNS AMANHÃS ANTES

Louriçal, entardenoitecer e noite de 3 de Dezembro de 2009





Alguns ontens depois,
sobe à tona dos olhos
a quase mínima turvação
de tantos ontens,
depois de tantos.

Não tem mal assim seja.
Vê-se um pouco menos,
sim,
mas a idade traz
que se olha mais.



*



Eu agora estava aqui quase quieto,
nas costas a praça sobrevoada de cegonhas,
em frente os sanitários, as mesas imitadoras
de rodas de carroça à faroeste.

Roda da carroça da minha vida
não ‘inda finda nem ida, antes sobrevoada
da bela cegonha estelar de praça quieta,
uma quinta-feira, pelo entardenoitecer, calma.



*



Heavy morning drinker,
diz-me ao que vens, acabada a manhã.



*



Hoje fechadas.
Talvez algum velho vivo recorde
algum nome de estas casas, algum
episódio,

qualquer coisa.