domingo, setembro 13, 2009

Humiaunidade


Souto, Casa, 13 de Setembro de 2009





Parece que todas as pessoas são só uma – e uma só de cada vez.

Por assim dizer, reproduzem o ser dos gatos – um só é todos.

Permanece a questão de apenas uma pessoa por pessoa.

O amor e a dor reproduzem-nas – nisso parecem repetir-se.

A questão permanece de todas serem um gato, por assim dizer.

E como ele todas sós.

quarta-feira, setembro 09, 2009

Senhoras, Areia, Crianças e Estorninhos





Souto, Casa, madrugada e entardenoitecer de 9 de Setembro de 2009



I

Estou dentro da cabeça de uma mulher morta quando viva.
Setembro é o meu mês-Woolf.
Recebo as ondas, os recessos, a melopeia ideográfica, veja as flores dela dentro dela, as cores que sopram como ventos, os animais a pensar linha a linha, a cercania por assim dizer vegetal de mar & céu (a terra é toda cascalho).
Digo então que um rumor de estorninhos e um brilho circular de louça de jantar se conciliam num campo de visão não nascente da cara mas do desejo de cinema gráfico, escritural.
Um rumor de louça, estorninhos brilhando círculos negros no céu de porcelana.
Jantar dos Ramsay, Jacob sublinhando Virgílio (como Correia Garção), Lily B. colorindo os anos, as horas.
Sentado na madrugada sem possibilidade de sono.



II

Vi crianças brincando distraídas da corrupção política.
Construíam entre os gestos e os objectos: como os poetas fazem.
Também tenho passado a vida na brincadeira.
Vi a zona verde de Campo de Ourique, a barra do Tejo, Tuy além de Caminha.
Uma mulher de chapéu azul tarjado a ouro e púrpura: bonita senhora e bonito chapéu.
Esta força aqui de dentro, pusilânime quando calha.
A pressão da vida fazemdo olhar muito, fazendo usar os ossos e a língua, latejando nas fontes como água nascida a ferver.
As crianças não sabendo que são elas também areia.
Os canaviais da minha mocidade, os pássaros redactores do vento da mocidade a que pertenci antes disto.
Brincando distraídas, arenosas, estorninhas.
A água tremendo as vidraças, como às vezes os olhos tremem o olhar,
além do sono.

A NOITE EM BREVE ou CORUSCAÇÕES NO IMO DE SOMBRAS (uma portugalidade delével) - 20

Coimbra Antiga, Nora no Choupal




20

Caramulo, tarde de 5 de Setembro de 2007

Ontem e hoje, dois dias ao mesmo tempo exaustivos e exaustores. Fiz-me à estrada, fui a Antuzede buscar o resto da minha biblioteca. Recebi a preciosa ajuda do meu irmão Fernando (que hoje, 5 de Setembro, completa sozinho 53 anos de vida; digo sozinho porque ele foi gémeo, outrora; ainda o é, aliás, de uma maneira dele que só ele sabe).

Milhares de títulos esperam povoar em ordem as estantes novas, que são insuficientes. Tenho muita coisa boa, assim como, enfim, acumulei muita porcariazinha, grâce Dieu: uma biblioteca é uma vida. É um cansaço delicioso e humaníssimo, recompor em casa própria a acumulação de uma vida. Lá estava a minha Maria Alberta Meneres d’O Poeta Faz-se aos 10 Anos. E o Caldwell numa ponta, em cima, mais o Updike na outra, em baixo. A senhora Yourcenar. O Gogol. O Kawabata. O Pasolini entant qu’écrivain. Osvaldo Soriano, falecido não há muito. Messieurs Voltaire, Lautréamont, Gide et Barthes. O grande (enorme) Freeling. Shakespeare ? Sim. Gil Vicente e Bernardo Santareno ? Sim, sim. Shepard, Pinter e Lope de Veja? Trissim. Pulsa, viva, a leda tristeza de Camões. José Rodrigues Miguéis voltou da América, no mesmo voo de Jorge de Sena. Há Lodge, Hamsun e Nerval. Há Eugene O’ Neill. Há Wodehouse e Lovecraft. Há Walter de la Mare e O. Henry. Há Joaquim Paço d’Arcos e Al Berto. Há muito Herberto. Em caixotes não subidos a estantes, vou descendo merdices volumétricas que a minha vida, em tempos, quis conhecer – e agora já não reconhece.

Fora do âmbito geológico da prosa narrativa e da poética, a outros nomes faço de agradecido anfitrião. O historiador Duby (grande escritor-escritor). O pedagogo Althusser (o que enlouqueceu e matou a mulher sem saber como nem porquê). O singular Ariès. O senhor Valéry. O senhor Boorstin. O doutor Damásio. O senhor Teófilo. O senhor Julião Quintinha. O senhor Mattoso. Dom Unamuno.

Daqui a duas horas, noutro vector, vou participar do programa da minha senhora. Anuncia-se-me uma hora (21-22h00) de rádio em formato de entrevista. Tem a ver com a afamada Rampa do Caramulo (em moderno, Caramulo MotorFestival). É trabalho. Retornaremos depois a casa, onde os livros que esperam ordem e onde uma sopa hei-de pôr a cocção: um pequeno tijolo de carne de vaca (com gordura), cebola, nabo, cenoura, feijão, couve e azeite. Sal à medida do lingual, conformes as papilas do senhor reitor. Servido o prato, picar cebola crua e espichar um traço de azeite não cozido. Pão. Noite, depois.

Lembrei-me hoje, durante tudo, disto tão triste: este Verão (que corre ainda), não tomei qualquer banho de mar. Não nadei nas ondas, não me derreti ao Sol, não me descalcei na areia, não senti o apito benignamente temeroso dos senhores banheiros que vigiam, por fastio, os mergulhos das crianças e dos proboscídeos. Não tenho férias (nem ofício) há não sei quantas vidas. Deve ser bom sinal, só que eu não interpreto sinais – dou-os à interpretação.

Sobra-me a beleza. Digo: a do mundo. Estou sempre à beira de um enfarte de tílias. Cardiovascula-me sempre a rapidez dos castanheiros ao vento. É-me sempre renal um cálculo de pedras: ao monte, na serra, prateando-se de Lua para acinte sexual de lobos extintos e de raposas quase isso. Habito instâncias e circunstâncias de perigosa formosura: estes montes, estes arvoredos, estes pingos de cal a que chamam casas ainda não percebi porquê. Vivo correrias aéreas, sentado na pastelaria. Tenho em casa muitos fascículos da colecção Jacto. Deito-me na cama e ando de cavalo? Não: já não sou o aríete deslumbrador de torreões femininos. Deito-me na cama e vou à Noruega. Durmo entre gelos que Jack London estabeleceu na estante que ainda lhe não atribuí. Deito-me no sossego triste, suave e civilizado de todo o corpo que se cansa de cansar-se, libertando sinapses incompletas que os sonhos gambiarram como a palimpsestos de feira popular.

Sobra-me a beleza. A mesma hora consumi muitas vezes, em muitos anos muito diferentes, por lares de repouso folheados a mármore e a datonomástica. Sim: não vou a terra que não vá a mortos. Uma excepção se me imprime (grave, gravosa): quando, há coisa de três anos, fui a Santarém dar duas rosas, regressei por Rio Maior. Passei perto do sítio onde suponho durma Ruy Belo. Era late in the evening, porém, não dava para parar, ir, ver, ler, sentir: S. João da Ribeira, Rui de Moura Belo (1933-1978). Estou perdoado, para já: não fiz ainda quarenta e cinco anos. (E, algures entre 1979-82, lancei sozinho, eu também, a bola de basquete à tabela: e também contra a campainha; não era no Liceu de Santarém, era no da Senhora Dona Maria, em Coimbra.)

No dia em que fez quinze anos, encontrei uma rosa


24 de Abril de 1994-2009

Alguns Pedidos Gentis

© Eugene Atget
Parque de Versailles, 1901




Souto, Casa, madrugada de 9 de Setembro de 2009





Fala-me de um tempo pacificado pelo sol a preto-e-branco dos sonhos
de um tempo há tempo suficiente que não doa nem mexa no exposto
as pessoas expostas são para consumo da causa é bem de ver
feiras populares e circos pobres também são gente é bem de ver.

Escreve-me um postal que ilustre para sempre o que choveu
o sol que deu árvores e lances de rio e sonhos a preto-e-branco
e senhoras guilherminas a contas com o flato e as crianças e as chitas
e instantes de vento para pura exaltação dos estudantes pobres.

Dita-me outros destinos que podem ser ferroviários
desde que não obriguem a respostas nem a tirar os sapatos
que outra coisa sejam que não este a preto-e-branco sujo.

Vê se me entendes e me alcanças ali o açucareiro
passeios memoriais por áleas e azinhagas já não fazem mal
notas à margem da vida compreendem a vida mesma, é bem de ver.

terça-feira, setembro 08, 2009

& - Primeira referência a Iago Flandres, à Pensão Runa e às senhoras Adelina Esteves e Júlia Príncipe




Souto, Casa, manhã de 8 de Setembro de 2009

(Sombra: 27 de Abril de 2009, algures)

Beleza antecipada do novo dia: pano de luz, pessoas, animais, plantas, pedras. Setembro, mapa vivo, fronteira do Outono. Possibilidade razoável de escrita, certa de leitura. Luta também razoável com os meandros da consciência. Comunidade linguística vingando vindas, partidas & chegadas, idas, vidas. Uma volta documentária por imagens sempre fascinantes, quais elas sejam no dia novo (em folha).

Poder nunca desistir disto: existência redactorial, digo.

Convívio sem vilegiatura de mortos & vivos, inanimados & cósmicos, onde dói e onde não. A vida também como economia emergente em vi(d)as de desenvolvimento. Poder anestesiar algumas vezes o farol dentro: mesmo sem leitura, sem redacção mesmo. Merecer a praia vertical das dez da manhã em plena aldeia, pleno século XXI. Ver passar as bandeiras, os estorninhos, as viaturas do mercado abastecedor, as sombras da noite caídas aos pés do Sol.

Pequenas, ferozes alegrias: um jazz calado a partir de dentro, com muitas janelas, muitas catedrais-de-são-paulo. Inscrição de notas na agenda multianuária para construção íntima do Senhor Iago Flandres, inquilino da Pensão Runa. Nomes de senhoras: Adelina Esteves e Júlia Príncipe.

No televisor, cenas de putas & polícias, donos da bola & autarcas. Carnavais tristíssimos & quotidianos. Mas beleza subida: algumas casas, alguns sertanejos recantos do rio, pontes traçadas a tinta-da-china no ar-papel-de-seda. Isso sim, muitas vezes.

A NOITE EM BREVE ou CORUSCAÇÕES NO IMO DE SOMBRAS (uma portugalidade delével) - 19

19

Caramulo, manhã e tarde de 3 de Setembro de 2007

Agosto foi um mês chilro. A poluição mundial matou as estações do ano. Setembro arrancou em ademanes de Grande Estio – ou grande estilo. A luz é tanta, que a manhã surge como uma catedral sem telhado, devolvendo folhas de ouro ao céu, onde nuvens e aviões parecem deflagrações de cal.

Ma femme reviendra ce matin de Viseu. Precisamos de ir ao sal e ao vinagre. Há chouriço e fruta em casa, mas vinagre e sal acabaram-se-nos anteontem. Falaremos durante. Depois, à tarde, enviarei um Licor para Paris, oferta a Lídia Martinez, uma excelente amiga nova que me chegou do que vou herdando do editor e amigo José Antunes Ribeiro. São coisas boas para a mais recente segunda-feira da História.

Iniciei o boletim de hoje com uma referência grata a Setembro – e no entanto já anseio pelo Inverno, o verdadeiro. Quando o frio voltar, voltarei ao coração monástico de Rilke e às andanças de Holmes e de Maigret: releituras que a invernia nunca deixa de me presentear com. Um mapa de alegrias perdoáveis, enfim. E também: bolsas respiratórias no frio algodoado. Em casa, em silêncio, assisto à condição florestal das estantes. Sou feliz por quase nada.

Longe daqui, o mar fala barcos. Homens maciços tripulam a dura poesia dessa eternidade. Vejo daqui esses longes tripulados. Antigamente, a minha Mãe olhava o mar com o espanto tranquilo de quem gerou tal coisa. As mulheres e o mar esperam-se desde sempre – e correspondem-se. Nós, homens, embarcamos na incompreensão de tanto amor – de tanta perda. Alzheimeriamos as nossas vidas navegantes. Por isso nos soam as ondas a papel amarfanhando-se.

Estou na manhã com este idioma antigo. Trabalho a lentidão do sangue: circuito-fechado. Fujo só pela memória, por sua mentirosa verdade afectiva. Gosto de saber que António Sérgio nasceu precisamente no dia em que morreu Ivan Turguenev (diz-mo o Jornal de Notícias). Coisas que amor saber para nada, para nada e para quase ninguém.

No parque da vila, corredores babujam sombras coruscadas a ouro em flechas de pó voador. Ninguém transita – e no entanto todos passam(os). Por essas ruas vegetais, ambularam outrora os tuberculosos, meses e anos e décadas e manhãs. A terra bebeu-os, deles resquiciando não mais que vaporosas gazes sem lembrança do que foram em vida.

Soeiro Pereira Gomes e John Steinbeck tomaram-me cedo. Esteiros é um livro inesquecível mas esquecido – eu sei por que e por causa de quem. Do norte-americano de Salinas recordo muita coisa, entre que avulta um pequeno-almoço de toucinho e café magnificamente exposto numa das histórias de The Long Valley, salvo erro. Estas coisas solitárias e mundiais: ter lido, desejar essa primeira vez de volta sem ter partido.

Há muito (me) parti, porém. Ainda hoje, no escuro de algum teatro, me apercebo da impossibilidade do regresso. Na luz cénica, corpos e palavras mumificam a angústia essencial dos vivos. Eu estou vivo no escuro. Começo logo de manhã.

Parti muito. Devo nunca ter chegado. Estas são as minhas palavras? Sim, mas menos isso do que (finalmente) uma verdade: estas são as palavras a que pertenço. A estas palavras (a este idioma) entreguei a minha vida e as minhas mãos: três bandejas que adejam de folha na luz negra.

Adejam, sim. Concedo-me percepções que só a loucura da língua esclarece. Perante uma mulher, por exemplo, digo-me: lírio. Não é um lírio, esta branca magrinha de cinquenta anos que pede um biscoito de canela e um chá verde? Um lírio é: e eu entreguei a minha vida a esta floricultura que não toca, mas sente, seus (de)lírios.

Há outras coisas.

Muitos anos me convenci não amar bem. Amo bem. Algumas pessoas, todas as cores, determinados animais – e a Língua Portuguesa. Só isso me conta. No mês passado, tarde do dia 18, um homem chamado Fernando Jorge embaciou-me a vista relatando-me de seu Pai. Há cerca de dois anos, a mulher morrera. O Pai, aprisionado pelo Doutor Alzheimer, telefonava ao filho às sete da manhã.

– Não sei da tua Mãe. Procurei-a por toda a casa.

Era numa piscina de água do mar da Figueira da Foz. Em torno de nós, os filhos dele borboleteavam como papel-de-seda deixado ao vento. O céu abobodava a cerâmica azul de uma doçura quase insuportável. Perante a praia, a Torre do Relógio marcava pontos, perto de bandeiras vivas. Gente dentro de água flutuava silêncios de rã absorta. E eu ouvia aquelas palavras portuguesas de um destino mil vezes português:

– Não sei da tua Mãe. Procurei-a por toda a casa.

Ao fim do dia, jantámos com as crianças dele num sítio preservado pelo frio de Agosto. Tiraram fotografias. Depois, foi cada um à sua vida: a seu Doutor A.

Vejo escurecidos corsos de homens em terras a que não irei senão pela escrita: gandulos escoceses vivendo e bebendo do desemprego em bares sitiados por divorciadas que dão umas baldas à procura do baldado amor; silhuetas pé-de-arroz em água vietnamita, bicudos elmos de palha, curvados como flores terminais; guardas-nocturnos guardando a noite, aguardando a manhã, por condomínios povoados de médicos e traficantes ciganos, um cãozito inofensivo aos pés; autómatos japoneses tirando a gente fotografias automáticas; gaibéus ribatejando vietnames de Portugal nos salazar’anos; Rilke no Castelo de Duíno.

Mosaicos de 30x20 forram as paredes da pastelaria até altura de ombro sentado. Uma rapariga mamalhuda como uma vaca de pé toma descafeinado por chávena vermelha. Os assassínios da noite no Porto são celebrados na TV com uma gula apetitosa. E lá fora a luz desvela a noite interior dos objectos.

Manhã muito cedo, recordo, acordei ao cabo de um porto de sonhos inatracáveis. Levantei âncora, lavei-me, comi fruta, vi o correio (alguma coisa), parti a tomar café e jornais na sala dos anjos terminais. Eles chegaram pouco depois, cerimoniais sempre e sempre cerimoniosos, cada um a sua mesa e em sua cadeira, separados e sós como recados de família. Tomaram café, fumaram. Aquele escreve num caderno de capas pretas como eu. Aquele pediu-me o cinzeiro. Aquele balbuciou coerências só dela. Aquele pestanejou em morse. Eu assisti.

Chega agora a tarde: pano branco atirado à flanela respiratória; país versilibrista de horas que não rimam senão consigo mesmas; estendal de corvos azuis numa manta de ferro. Chego agora à tarde: levo comigo canivetes idiossincráticos, que eu diria, até, aristocráticos, não fora a minha irremediável vocação de pobreza. São palavrinhas justapostas, não reflexivas mas reflectoras: espelhinhos-de-mão, esmaltes dados a água numa luz que é pedra, que é gente e que é antes.

segunda-feira, setembro 07, 2009

Nox


Souto, Casa, noite de 7 de Setembro de 2009

As estrelas trabalham lá fora, em casa frita-se peixe, rega-se as plantas, a brisa dá de leve nos cortinados. Movimentos pendulares tem o coração físico, trabalhador ele também. A noite é nova, rapariga antiga perfumada de pobres jóias. Um momento para aceitar o que vem quando vier. Ofício grave, a aceitação. Tem a ver com as esquinas futuras, as porvenientes outonações dos anos feitos corpo.

De longe recebo luzes, vozes. Chegam do que é mundo, amortecidas no espectro, graves também. Costumo supor presenças, pés nus escrevendo areais. Ontem vi o mar. De espuma, geração espontânea de gaivotas: cruzes de sal na abcissa azul. Um barzinho sazonal vendia copos de café. A jornada tinha sal. Pinheiros florestavam a respiração. Depois, estrada, o cedro, a casa. Pude reconciliar-me com o sono, pude receber vozes, luzes. Não todas, porém, do plano dito real.

Consulto imagens que remetem para a solidão fundamental dos nascidos. O trabalho vigora: nomes, datas, dimensões, ícones, sentimentos, rejeições, chávenas e pires. Mulher de nome Graça, carpinteiro de nome Armindo. Ano 1973, ela. 1959, ele. Algures na noite do mundo, uma e outro. Casas com anexos viveiros para animais alimentícios. Leiras abandonadas pela emigração. Candeeiros a petróleo, ainda, muitos. Formigação ubíqua de políticos com seus acólitos. Cronistas, electricistas, copistas, gondoleiros. Melros, cágados, patos, jibóias. Mulher de nome Selma, pedreiro de nome Diamantino. No mundo da noite. 1962. 1951.

Sentado aqui por enquanto, atento, tonto, português. Capaz de ramificar sentidos ilusórios com a caneta, pensador pendular de vielas e fragmentos frásticos, sílabas como dentes de ouro, tirador de água – e florestador, eu também, como o coração e o sal e Graça e Selma e Armindo e Diamantino.

Em Defesa do Bicho Humano

Souto, Casa, entardenoitecer de 7 de Setembro de 2009



Mais que o poeta vale quem defende

do tigre a vida como a da baleia.

Humano não é ser quem tanto ofende.

Humano é ter por natural ideia

do bicho a natural fraternidade

e neve, pedra e rosa em igualdade.

Conta quem faz, não quem deixa desfazer

do mundo a vida una a viver.

Tarefas domésticas

Portrait of Erik Satie by Santiago Rusiñol

I

Souto, Casa, madrugada de 14 de Agosto de 2009

Ela dá brilho aos anjos que da noite descem do telhado ao quintal cansados de luz, as penas partidas do muito que tiveram de suportar.

Perguntado sobre os abastecimentos, digo-lhe que trouxe velas, azeite, sabão, cordel, sardinhas enlatadas, petróleo, palha-de-aço, fósforos.

Ela esfrega o soalho e os móveis com fluido de abelhas, impregnando as madeiras de sistema solar.

Eu reparo na loja da casa os badalos das ovelhas, as tranças dos cavalos, os sapatos dos bois e o berço que serviu todos os filhos até que se foram embora na permilagem.

II

Ibidem, madrugada de 15 de Agosto de 2009

Com versos vejo mais que versejo.

Ousar a rosa de Eros

Oser – Rose – Eros

é Ronsard, não comigo.

Vê-se verso, vice-versa.

Tarefa doméstica para ninguém,

enfim.

Portugal Profundo - sítio a conhecer.


http://doportugalprofundo.blogspot.com/

domingo, setembro 06, 2009

Antes do Mar


© Joel Meyerowitz

Truro, 1977




Souto, Casa, amanhecer de domingo, 6 de Setembro de 2009



Às vezes os vivos deixam em paz a vida e não pensam, vêem a luz acontecer como se tal milagre tivesse perdão, sei desta vez o que digo.

Bancas de fruta marginam de cor as estradas de cinza, quem vai ao mar deixa em terra toda a dúvida e, se qualquer esperança, toda também.

Na noite que se acaba, a farmácia de serviço serve de farol verde, os derradeiros do turno da bebida recolhem às casotas, dão lugar aos primeiros do turno do pão, do leite, do peixe, da hortaliça, dos jornais.

O tempo arde como um gás.

Então, encharcadas de perfume como passarões tropicais, as senhoras saem à rua e ambulam, maquinais manequins, areados arlequins, sarrafados serafins. Trazem os bicos lacrados a escarlate como malaguetas, sapatos de boa pelica, artelhos duros como nós de oliveira, carteirinhas preciosas repletas de pequenos-nadas.

Já a casa das lotarias estende sortes numeradas de resto-zero e demais noves-fora.

O senhor Ilídio descarrega caixas de laranja e sacos de batata com a ajuda do filho, que tem um relógio partido dentro da cabeça, sobre o lado esquerdo.

Uma criança, julgando-se perdida, chora no jardim público, pensa na vida – por isso chora.

De que lado estarei? Sei desta vez o que digo – mas não sei de que lado. É dia de ir ver o mar, de trazer para casa um pouco de areia tirada a tanto azul, a tanto ouro roubada. A caminho (antecipo já), a delícia humilde de uma chávena de café entre os bicos-de-lacre senhoris que devoram mil-folhas e mil empadas de periquito, um cigarro chupado ao ar fresco, a atenção ao espreguiçar das laranjeiras.

Guardo o resto do papel para ver essa luz acontecer, sabendo-a porém milagre.

sábado, setembro 05, 2009

Do Rosto de Portugal

Souto, Casa, noite de 5 de Setembro de 2009



É bonito o rosto do meu País, mas os olhos são de vidro.

MANHÃ, TARDE E SENHORAS


I. COIMBRA, UM FIM DE MANHÃ

Coimbra, fim da manhã de 4 de Setembro de 2009

Uma zona arborizada de prédios bons, deitadores de vistas para bandas do rio, que passo ligeiro do coração. Reconheço alguns detalhes de há três décadas – e mais que tanto, até. Por aqui adquiri gramáticas e peripatetismo soliloquaz. Saí daqui há vinte e três anos. Tinha vinte e dois, quando saí. Ainda não voltei. Talvez só volte já cadáver, como dizem os bombeiros que chegaram tarde ao local do desastre. Não sei. Nunca se sabe. Esta manhã é bonita: é uma manhã conimbricense, a luz é familiar, as árvores e os cães são tuteáveis, cor-e-salteado. As mulheres fumam. Há quem leia jornais. Vi uma pessoa com um livro. Há vinte e três anos que não via disto. Num café antigo perto do novo Estádio, Bolton e Liverpool vão-se empatando a zero (28m51s de jogo). Fui com toda a sinceridade de todas as terras onde já vivi. A verdade é que sou daqui, porém. Não há que enganar(-me). Uma pessoa ama de cor-e-salteado quando e quanto ama. Por mais anos que a queimem, uma pessoa ama de cor-e-salteado. Conheço isto tudo, sobretudo o que descubro. A manhã acaba em poder do sol. A cara da manhã toda ao mesmo tempo: a luz é uníssona, ubíqua, multívoca, toda simultânea. As árvores traem sem maldade a aldeia-em-nós. Senhorinhas utilitárias metem combustível nos carrinhos senhorinhos. O dono de O Nosso Café está estabelecido desde 1964. Eu nasci em 1964, estou portanto estabelecido há tanto tempo quanto ele. Somos pois, por assim dizer, colegas. Colegas são aquelas senhoras – eu sei. Bolton, 1 - Liverpool, 1 – aos 40 minutos. Faço e desfaço horas com o meu distinto perfil de cavalheiro. Olha: um Opel Manta. Aos anos que não via um Opel Manta. Tivemos um vizinho que tinha um Opel Manta. O senhor do Nosso é Senhor Manuel. Pessoas de cabelo que deveio branco. Mulheres bonitas e envernizadas. Setembro também bonito. Lojas de brinquedos, de livros, de trapos. Pus dois euros no euromilhões. Nunca se sabe. Passa longe um homem que conheço. Chama-se David. Recordo nomes. Os nomes ficam, as pessoas passam. Estou aqui e recordo um casamento em Lorvão. Fui com a minha Irmã Xelinha e com a minha também Irmã Gracita. Levaram-me, quero dizer, eu era pequeno como nunca mais deixei de ser, apesar dos centímetros entretanto. Lembro-me das taças de pudim cor-de-rosa. Lembro-me de uma bateria. Lembro-me de um rapaz maior do que eu que vestia fato completo, o que me maravilhou porque o fazia grande como os grandes. Um homem diz

– Incompetências que a gente vê –

e sai porta fora. Converso com o senhor Manuel acerca dos Taborda Nogueira e dos Moura, meus professores antigos e bons do liceal tempo. Estou em Coimbra, o Sol renasce a minha cidade. Um casal: ela de ombros morenos presidindo a um vestido roxo muito (in)justo ao corpo. Ele de camisa branca listrada a castanho-pardal. Lá vão, coitaditos. O futuro ainda mora aqui um tempo mais. Está por aqui perto sepultado Vitorino Nemésio. Há cartazes grandes de propaganda autárquica e da outra, de Lisboa. Também gosto de Lisboa mas menos, por causa do patriotismo regional. Nunca fui a Paris, nem já quero saber: é verde, não presta. No Centro Paroquial de S. José, aqui tão perto, vimos e ouvimos um guitarrista chamado Roberto Olabarrieta, acho que é assim que se escreve. Pass(ad)os surdos no coração, como gemidos sentidos em casa pequena. Operários em folga de almoço, pintores da construção-dita-civil. A luz terrena e alta: atiradora de pontes, deflagradora de árvores. Bolton, 2 - Liverpool, 2: bom jogo andante. Exerço a minha boca, língua adentro. Aquela senhora chama-se Isabel – eu sei. Berlim, Milão, Capri, Odessa – nada disto. Tudo isto: Calhabé, Ginjal, Casa Branca, Olivais, Rocha Nova. Tempo de me acertar sem terrores nem euforias. Deus te pague, que eu estou um bocado à rasca. De momento. Digo: de momento. Onde era o cinema do Girassolum, agora é IURD: Centro de Convenções, chamam-lhe os gajos, papões evangelistas com sotaque de casa-de-alterne. Fui ver. Tive pena. No dia 17 de Maio de 1985, fui lá ver um filme com o Robert De Niro e a Meryl Streep. Também lá vi um filme com um cão que dava peidos, o que me ri deliciadamente escandalizado com o raça do cão e os peidos do cão, chamava-se Hotel New Hampshire, o filme, o cão não me lembro como se chamava, era baseado num livro do John Irving, agora o desgraçado do Cristo é lá ladrado em brasilês. NATO, Afeganistão, Magistrados do Ministério Freeport Público, equipa de futebol do Freamunde toda de quarentena por causa da porca da alegada gripe-dos-A-porcos, essa lend(e)a do piolho farmacêutico à escala global. Tempo. Pássaros calafetam frinchas do ar. O ar é um grande barco azul de costado amarelo. A solidão permite a fuga ao imo sentimento de vergonha. Que o menino era para ser isto, era para ser aquilo. Jogatana, viver. Ali fechou uma fábrica. Céus de Coimbra, homens de pêra.

– Amanhã mesmo –

diz uma mulher de chapéu. Aos anos (vinte e três) que eu não via uma mulher de chapéu. Amanhã, o mesmo – digo eu, que há quanto-tanto não via um chapéu com uma mulher por baixo, a sul da sombra. Os pintores pagam as bicas e as meias-macieiras e vão-se embora. Uma carrinha representante de batatas-fritas-lays. O meu tempo era pala-pala. O século XXI. Isto não ser, por exemplo, 1959. Ou 1964. Descida de receitas nos casinos. Dei dois euros ao euromilhões. Uma volta mental pela chuva, pelo frio que fazia. O corpo sensível ao lume como uma febra pensativa ao carvão. Toques laterais no peito, nos braços, na língua e em Coimbra.

II. POMBAL, A MEIO DA TARDE

Pombal, tarde de 4 de Setembro de 2009

Lentidão dos olhos acalmados de sol, a meio da tarde. Vê-se daqui a linha-do-comboio, parte da Charneca, um pano amplo de céu. Tudo em ordem. Fadiga do foro físico. Casas paradas, carros também. Um rapaz conhecido, como é que se chama, acho que é Rui, lá vai ele de pasta na mão como o boneco da Regisconta, camisa atormentada de calor, o cabelo porém correcto, curto, limpo. Já por aqui andei um milhão ou dois de vezes. Não tem importância, não conta, não faz mal nem bem. Estou acordado. Falei com a minha Irmã ao telefone. Disse-me coisas. Os anos vencem. O Sol é uma maravilha alta. As pessoas também são maravilhas, só não altas todas. Algumas são altas dentro: são fundas. Vêm todas nos olhos. Estendem as mãos: são raras. Estou fatigado. Sei línguas. Conheço paragens: carros, casas. Estou a pensar um livro. Ando aqui parado. Fui a Coimbra de manhã. Vim-me embora. Amanhã, diz.

III. DUAS SENHORAS A MEIO DA TARDE

Pombal, tarde de 4 de Setembro de 2009

A Senhora Newhaven não é correspondente da Senhora Luzia, mas entender-se-iam ao chá (a Senhora Luzia diria e iria por café) sem problemas. As mulheres entendem que a vida não é uma coisa que se atire fora agora para ver se é possível ir buscá-la daqui a bocado. As mulheres e as senhoras. Eu tenho um grande respeito por mulheres que são senhoras. Tenho. Como sei escrever, escuso de pensar. Newhaven, em solteira Spencer. Luzia, em solteira Luzia Gaspar Vaz, depois Luzia Gaspar Vaz Correia por mor do entretanto falecido, carpinteiro de Barcelos, não major na Índia como Mr. Newhaven, Cyril. O que estas coisas são – escritas. Minha vida. Este lapso entre quase nada e pouca coisa mais alguma. Mal nenhum. Mal nenhum também em seguir aberto ao saltar-de-coelhos da fascinação literária. Na eira de ao pé de casa, a Arcádia Ulissiponense, a tanta-graça-séria de Gil Vicente, os nucleares Fernão Lopes e António Vieira e Fernão Mendes Pinto, o íntimo Brandão das paletas (o amor dele pela mulher ainda hoje ama/impressiona); noutras eiras, Bruce Lee, DangerMan, Claude Nougaro, Hart Crane, Hristo Mladenov, Peter Falk, Claude Jeter, Lovecraft, Pierre. Lá como cá, a senhora Newhaven. Cá como lá, a Senhora Luzia. Sossego entre madeiras, papéis, tocos de lápis, notícias, cortes de cabelo, bocados de filmes, sonetos e camisas de estampa desenho-pescoço-de-cisne. Tempo de suportar a realidad’agora, vigorando porém meandros de idos&marços outros: gente que se não amou a si mesma, teatros com nome de príncipes arrasados pelo bolor e pelo pato-bravismo, a feiúra da liberdade conquistada a ferros para-afinal-esta-merda, hoje. As pessoas adultas dos anos 20/XX, de roupas densas contra a liberdade do vento, meias até os joelhos por fora das calças, sapatos cambados e poemas difíceis de penetrar como freiras. Destas maravilhas oraculares vivo – ou para elas. O resto, os restos – têm sido aldeias maravilhosas de Portugal, onde o cheiro a merda é uma virtude das mais católicas e um catolicismo dos mais virtuosos; e o cheiro a dicionário, um rastilho de paneleiros da alma. Sobem então as galerias gasosas (diz etéreas), sobem então as galerias etéreas do que vale mesmo muito a pena não perder: a ambidestreza do De Vinci, o gosto-por-elas-novinhas do Chaplin e não só, o metro humaníssimo de Rui de Moura Belo São João da Ribeira Rio Maior Ribatejo Portugal, os azulejos refrescando a paragem breve do velho filho a caminho ferroviário do enterro do Pai (ou da Mãe, não tarda), a música-miosótis, a trança-tango, a clara correcção do perfil do cavalheiro quando em Coimbra. Tempo de profunda (alta, portanto) aceitação. Linha-férrea, em frente; casas paradas, idem carros, idem vida minha. Sol com fartura, consolo ígneo de cegonhas, brutalidade quase no Setembro-tão-novo-inda. Volta por volta, ligamentos cruzados, resistência e proteína e, um destes dias antes que se faça tarde, noite.

quinta-feira, setembro 03, 2009

O Ribatejo(nline)

http://sojormedia.startlogic.com/oribatejo

Para ler O Ribatejo online.

Alvor



Souto, Casa, alvorecer de 3 de Setembro de 2009
(Imagem: visto algures, 20 de Fevereiro de 2009)





As palavras que buscamos estão penduradas rente à árvore. Vimos de madrugada e achamo-las frescas debaixo das folhas.

Virginia Woolf, O Quarto de Jacob



Alvor:
o milagre fresco dos pinhais nascendo afinal ilesos do cabo da noite.
Arde 'inda a minha vela de cabeceira, ouro de pobre, vertical, almada.
A vida aí está, peremptória como (desde) sempre: demonstra-a um insecto agarrado ao vidro da janela, o despertar das plantas que a mulher cultiva na varanda, elas olhando para as irmãs sem vaso de baixo, no quintal.
Café novo na cozinha, queijo e manteiga e pão e bolachas das mais baratas.
Alvor também dos livros amados, parecem soldadinhos de sentinela aos quartéis humanos: Leonardo, Eliade, Oliveira Martins, Ariès, Ferreira de Castro, Soeiro, as Senhoras Woolf e Crayencour (dita Yourcenar), Mortimer & Blake.
Troto-trânsito a jumento e a gasóleo, relinchar de porcos em invisível remoto curro, ladrar fino de arvéolas e felosas, falar do cão próximo, grasnar das velhas madrugadoras na paragem do autocarro, pissitar das criancinhas-creches, murmurar do diospireiro para o cedro: sinto tudo , tudo alvoreço.
Daqui a pouco, dar à máquina esta caligrafia, raspar a barba sem grande metafísica se possível, escolher as músicas da manhã, afiar lápis e preparar a noite de todo o resto do dia.

Rainha do Café Angola





Souto, Casa, madrugada de 3 de Setembro de 2009





Às vezes o nosso corpo viaja fora de nós connosco de través Grécia-Egipto-Roma-Bruxelas: as cabeças que no café pensam filhos, lotarias, empregos, férias, cêntimos.
É muito perigoso deixar que a desolação baralhe e dê as cartas do jogo de cada dia - claro que é.
E como tudo o que temos para ser é o corpo, o jogo tem de ter mais distribuidores, mais banca, na ausência de parceiros.
Faço assim: vou à varanda, mostro a cara às ausências, aos mecanismos da noite, à via abandonada pelos adormecidos.
Faço por pensar o mínimo, solicitado pela brandura do ar, grande criador de arvoredos e de postes de iluminação pública.
Recordo sem ser por mal as putas idosas do Café Angola, que me entraram um livro adentro e nele ficaram, a páginas tantas.
Estou aqui vivo, sou este corpo, este poço, esta laranjeira, este pártenon barato de uma coluna só.
Nefertiti, sempre bonita, melhor de perfil por causa do olho vazado do outro hemisfério do rosto.
Sou também um rosto, na madrugada tépida da varanda.
Tenho letras, letras que circunscrevem números: datas ilusórias, mas

"Sem dúvida estaríamos dum modo geral pior do que estamos se não tivéssemos um espantoso talento para a ilusão."

A senhora Virginia W., claro, essoutra Nefertiti, na página 147 de O Quarto de Jacob, claro.

Isto não tem mal.
Pior, bem pior, é apaixonar-se pelo amor em vez de amar apenas outra pessoa - fora do corpo.
Queria pensar menos, recolho da varanda à sala, ainda há café na cozinha, o silêncio é intenso como uma madeira cara.
Ou como uma cara de madeira.
Sento-me, vejo azinhagas frondosas estendendo sombra e pedras, desejo a passagem de cavalos de artelhos musicais, noc-clop-noc-clop, fiz bem em não me meter a ler Maugham de mais em 1981, sorrio para o vidro do televisor desligado, o sino falso (é cassete) da capela faz clop-noc-clop-noc, duas da manhã.
Regresso à varanda - e sou oferecido a maravilha de chover.
Chove uma harpa transparente, o chão é de um negro rutilante, parece carvão envernizado, muito bonito e muito triste: nefertristi.
Vi delfins, uma vez: projécteis perfeitos, vorazes, de uma elegância atroz.
Não os escrevi então, deixei-os ir.
Agora, voltaram.
Está a chover na minha vida, o verniz sobe do chão ao ar da respiração, a boca adquire asperezas de dióspiro (e dióspiro é uma palavra noc-clop-noc-clop), é maravilhoso que passem tão poucos carros, o padeiro da Estrada não passa antes das quatro e meia, Estrada é como se chama uma terra aqui perto, nome curioso: sítio e via, como um rio, ao mesmo tempo.
Ao mesmo tempo da Rainha e Senhora Nefertiti tão bonita à chuva, pensa a varanda em vez do homem, do corpo.

quarta-feira, setembro 02, 2009

Dentes, Falcões e Pré-Românticos - uma Relação




The Lusitania at the end of the first leg of her maiden voyage
New York City, September 1907




Souto, Casa, noite de 1 e madrugada de 2 de Setembro de 2009





Pessoas cujos dentes aparecem em colecções privadas de pérolas, mordedoras de água de rios, de pedacitos de éclogas, de instantes que vivi de olhos encerrados mas de olhar não.
Corydon Erymantheo e Matt Marriott & Powder, Zanzibar mercurial, pessoas que se fecham em casa para viver e para morrer, relógios à lareira, gatos articulando egiptos muito pensativos.
Em salões de dança, cavalheiras folgadas vermutam pasodobles sem culpa nem redenção, quem diz Corydon diz Elmano Sadino, o esfomeado.

Não estou a perceber nada disto

geme um leitor desalmado de pré-românticos.

A fraude Milli-Vanilli também é gira, a tuberculose fila e fina Carlos Eugénio Correia da Silva (Paço d'Arcos) aos 26 anos de idade, pobre moço.
Vale que as moças casadoiras seguem engendrando e desentranhando luíses-filipes e anas-paulas com relativa fartura, não vão fáceis nem vêm simples os tempos.
António Damásio é um dos arautos da desneurose de Deus, vamos todos ter problemas com tanto vazio fora-de-portas-do-Corpo.
Esplendor, fulgor e melancolia dos viajantes de vendas em zonas demarcadas, maior fortuna a dos que a quem cabe os périplos litorais, sempre almoçam pacotes de batata frita e latas de coca-cola olhando enseadas, metendo cassetes de Peter Gabriel e Nazareth e Gianni Morandi e Van der Graaf Generator no leitor da carrinha carregada de batata-cola e coca-frita, é giro não pensar muito no que te espera em casa.
(Eu já fiz o périplo da Barra de Aveiro.)
Corydon preso a 9 de Abril de 1771 por ordem do Oeiras/Pombal.
Longas extensões de charneca, onde o enriquecimento fulmina de quase felicidade o colector de nomes/datas.
E não falecer, não 'inda, antes de um verso que a esmalte dental mereça.



Mente em corpo-Giorgio-Armani, por bandas de Fresno.
Os satélites trabalhando altíssimos em prol da incomunhão.
Cruzes de pedra em tetravias, famílias jantando massa com linguiça em serões ofuscados a petróleo.
Dunas corridas por um vento de pássaros transidos de frio.
Bonecos abraçados por crianças sonolentas.
Alcatifas ensopadas de sangue em assassínios domésticos.
Enumerar tudo isto e o quanto e o mais que se puder, em prol de uma sobrevivência ao menos epigráfica: como um disco dos Milli-Vanilli.



Tudo isto é escrita paralela a, digamos, um livro.
Naturalmente outro, digamo-lo também.
Não se trata propriamente de amor, a vida regressar à literatura sempre que pode ou que outra coisa não pode é mais correcto equivaler tal regresso à Síndrome de Estocolmo, por (bom, aliás) exemplo.



"Eu quero incluir praticamente tudo e no entanto saturar."

Isto é Virginia Woolf a 28 de Novembro de 1928.
Há quase um ano e um século, portanto.
É já, então, a tentativa de desvenda dos

"momentos do ser".

Em 1932, a mesma senhora apontava aos jovens poetas a "tarefa" primordial:

"encontrar a relação entre coisas que parecem incompatíveis e contudo têm uma misteriosa afinidade."

Isto, precisamente isto, em Estocolmo como em toda a parte.



E falcões que, mais do que voar, desenham auto-retratos no ar de papel-pardo, algures em Itália ou Fresno, aonde não posso ir porque escrevo.



terça-feira, setembro 01, 2009

Até Ser Pedra


Souto, Casa, entardenoitecer de 1 de Setembro de 2009
(Foto de autor desconhecido, vista de Brown Willy, ponto mais elevado de Cornwall)



Um tempo de leões rugindo na voz do mar: conheces esse tempo?
A situação pode ser posta desta maneira: a criança floresce até ser pedra.
Ao entardenoitecer, as obras dos homens são marcadas pela silhueta das gruas, pelas notas a lápis deixadas à beira da página, à beira do mar.
Quando eu ia ao Tivoli, domingos à tarde, a máquina dava café de saco, a marca mais prestigiada era Dunhill, havia chocolates, os jornais não tinham edição de domingo, algumas revistas estrangeiras supriam a cosmogonia humílima.
Já então viajava como Xavier de Maistre, que Garrett retomou a caminho do Ribatejo liberal.
Quem viajava?
O leão, que saía mal olhando a boca escancarada da Estação Nova, passava à Júlio Lages, desaparecia para oriente, Bota-Abaixo, João de Ruão, Brown Willy,
à vida.

Pássaros Frios e Duros e Propícios


Souto, Casa, entardenoitecer de 1 de Setembro de 2009
(Foto de autor desconhecido, detalhe de Bodmin Moor, Cornwall)



O florescimento na pele de sinais propícios: brisa que toca cravos, por exemplo.
Rio de carros, alguns de madeira a tiro de animal, ao crepúsculo.
As solidões gregárias: nenhum paradoxo nisto.
Nenhum paradoxo nisto.
Visão como todas improvável: meda de trigo ardendo como cabelo de mulher estrangeira, chiar de carroças, terror por ciganos ou lobos, casebres que fumegam gravetos na água-fraca da névoa abatendo-se sobre o narrador e a charneca.
Desolação extrema, segurança da morte sem rebuço, pássaros frios e duros e rápidos e prováveis.

1 de Setembro de 1939 - 2009


Esta é uma das imagens fundamentais da nossa (ainda) contemporaneidade: a invasão nazi da Polónia há precisamente 70 anos. Marca o início oficial das hostilidades que descambaram na II Guerra Mundial.
Vivos, somos os netos dessa geração e dessa mortandade: a Globalização tem nome e rosto.