domingo, agosto 09, 2009

Soneto para Escuras Águas


Souto, Casa, tarde de 9 de Agosto de 2009

Estou interessado nas luzes que sobem das águas escuras de noite.

Mal não tem, nem importância, que a atenção se cative das casas / apagadas.

O mundo é um dos lugares possíveis na atenção de escuras águas.

A ponte imagina o outro lado, versa e reversa, como um corpo a outro.


Sinto a claridade das entidades escuras: as árvores, as antenas, os / adormecidos.

Reconhecendo a propriedade do tempo sobre o nosso quintal pessoal,

a eternidade segue dentro de momentos sem qualquer dificuldade.

Não minto a claridade das entidades escuras: as aves, as antenas, os / antepassados.


Com um pouco de calma, a luz deixa que lhe mexam nas asas, aceita subir / aos olhos.

Importância não tem, nem mal, que roxa venha ao dia interior da noite, / a luz.

Últimos cães transitam policiando as sombras das janelas derradeiras.


E se do castelo nos chegarem notícias, lampejos de ferro, vapor de / caldeirões,

há-de ser bom estar vivo com muita atenção à chapa metálica do rio,

sobre que voga a Lua e as adiadas mortandades dos atentos, escuramente.


Pedra, Ar, Areia


© Sandra Bernardo

Castelo de Pombal e Sacos de Areia

Sábado, 8 de Agosto de 2009

sábado, agosto 08, 2009

UM POUCO ANTES DE AMANHÃ (27)

27

Seis, Sete e Oito do Oito do Nove

Souto, Casa, 6, 7 e 8 de Agosto de 2009

Racine County, Milwaukee, algures num filme.

A aurora estende relvados suburbanos.

Primeiros acordados, hirtos de frio pelas ruas, vão comer qualquer coisa, engolir duas canecas de café, desfazer tempo até picarem o ponto nas fábricas.

Passa vagaroso o carro-de-água que ejacula pressão contra os lixos limpos do Outono.

Fort Pastor.

Homens de pele castanha, homens e mulheres de pele pálida.

Uma grávida medindo o mundo em passinhos.

Certa delícia: a frialdade do vento.

Casais, Penafiel, Setembro de 1896, António Nobre recupera (ilusão) da tísica que o matará (não é ilusão),

Guilherme de Castilho caracteriza a hospedaria das irmãs Andrade:

É uma pensão modesta mas impecavelmente asseada, deste asseio escrupuloso que ainda se mantém em certas casas da província portuguesa, feito de roupas alvas e cheirosas a alecrim ou alfazema, de soalhos carcomidos mas rebrilhantes, de aroma a maçãs camoesas espalhado por todos os aposentos.

Perfumada prosa, ela também, que depois mostra Nobre ante os túmulos de Antero, nos Açores, e de E. A. Poe, em Baltimore, colhendo folhas nascidas dos mortos para oferecer em cartas.

Dias 6 e 7 e 8 do mês 8 do ano 9.

Faz 31 anos que Ruy Belo morreu.

Termino a leitura de Vida e Obra de António Nobre, de Guilherme de Castilho (Bertrand, Lx., 3ª ed., 1979/80).

Coitado do Nobre – a tuberculose fê-lo sofrer horrores.

Morreu criança como Cristo, aos 33 anos de idade, não chegou aliás a tantos, sequer, por cinco meses.

Tomo nota de ideias/versos a desenvolver, não sei se nem quando:

Dá-se à luz do mar a linha muito pura,

barcos voam ao que aves vão buscar (…)

Través os dias, entanto, nomes e coisas engendram os instantes dentro (e a mera enumeração resulta versejante qual poema):

Liebknecht

Rosa Luxemburgo

Spartak!

Theodore Roosevelt

Madame Curie

Deauville / 1919

(Criar uma Villedeau)

Epson

Auteil

Albion

Sufragistas

Acrobacias aéreas

Belle Époque

Filomena Moretti

1918 / 1919, Sidónio, Tamagnini Barbosa

Alferes Botelho Moniz

Portugal

Governamentais contra rebeldes monárquicos

(a merda dos fadisto-marialvas, já então como agora)

Tenente-Coronel Vieira da Rocha

Capitão Júlio de Cerqueira (da Marinha)

Moniz Barreto (com Nobre em Paris, antes, 1895, por aí)

Álvaro de Castro

Santarém, 1919 também

Egas Moniz, peça de Jaime Cortesão

O Professor Egas Moniz representa Portugal na Conferência da Paz pós- Primeira Guerra Mundial

Insurreição (os 25 Dias) dos esbirros monárquicos (Monsanto, Norte &c.)

Coronel Mineiro de Almeida e alistamento de civis pró-República (como o Batalhão Académico de Defesa da República de Coimbra)

Júlio da Costa Pinto

Aires de Ornelas

João de Azevedo Coutinho

(estes três, presos por rebeldes em Monsanto)

No Porto, “restauração” da Monarquia Portuguesa

Junta Governativa do Reino de Portugal

“Presidente”, Paiva Couceiro

“Ministro dos Negócios Estrangeiros”, Luiz de Magalhães

“Ministro das Obras Públicas”, Coronel Silva Ramos

“Ministro do Interior”, Sollari Allegro

Corpo de Polícia de Defesa e Vigilância da Monarquia – “Os Trauliteiros”

Sá Guimarães, Comandante da Coluna-Relâmpago

Em Viana do Castelo, “restauração” da Monarquia também

Viseu, é Administrador o Cavaleiro José Casimiro

Aveiro, centro operacional militar dos “reizinhos”

2 de Fevereiro de 1919, manifestação pró-República em Lisboa

Chefe de Governo, José Relvas

Novo Ministro do Trabalho, Augusto Dias da Silva

Combates violentos em Mirandela

Teatro 1º de Maio, QG monárquico

General Abel Hipólito a cargo de uma coluna republicana

Comandante Supremo da carga verde-rubra, General Costa Ilharco

Em Aveiro, os azuis-brancos incluem Bento de Almeida Garrett, do Real Grupo de Trauliteiros, capturado pelo Alferes Roby

Assaltada e destruída a sede do Clube de Fenianos do Porto

Morre Jorge Camacho, monárquico, assassinado no Terreiro do Paço apesar da escolta que levava

Estarreja é objectivo militar dos governamentais

Ministro da Justiça, Couceiro da Costa, que visita as linhas triunfantes do palco de operações anti-monárquicas

Coronel Djalme de Azevedo

Capitão Schiappa de Carvalho

(ambos republicanos)

O “célebre” Padre Domingos Pereira, subversivo cadastrado, é preso

É preso o Conde de Mangualde, que por os 25 dias foi “Governador Civil” da Invicta (afinal victa…)

Silves e Ponte de Lima festejam os sucessos republicanos

Café Camões (no Funchal?)

Presidente da República, Canto e Castro

21 de Fevereiro de 1919, comício no Coliseu dos Recreios com sequelas trágicas (tiroteios pela cidade, 6-mortos-6 e 40-feridos-40, pelo menos)

População vive o “TERROR DAS BALAS PERDIDAS”

25 de Outubro de 1918, morre Amadeo de Souza-Cardoso, Pintor, em Espinho, vítima da “Pneumónica” (“Gripe Espanhola”)

Margaret Rutherford, Actriz, morre de Alzheimer aos 22 de Maio de 1972, deixando viúvo Stringer Davis, que morre em Agosto do ano seguinte

Madalyn Murray O’Hair, da associação American Atheists, assassinada (juntamente com um filho e uma neta) aos 29 de Setembro de 1995

Dá-se à luz do mar a linha muito pura,

barcos voam ao que aves vão buscar (…)

George Michael é um músico a levar muito a sério

The Who em grande forma


The original Who line-up performing a full live set in front of 600,000 people at the Isle of Wight festival in the UK in 1970.
At 2am August 30th The Who appeared on stage and gave one of the most memorable concerts of their career.
The filmed negative of the show, shot by Academy Award winning Director Murray Lerner, has been restored to the highest visual quality.
The sound has now been remixed from it's original 8 track tapes under the personal supervision of Pete Townshend at his Eel Pie Studios in London.
The result is a stunning 24 bit mix available for the first time in 5.1 Surround Sound and DTS.
This track is from the full live DVD "The Who - Live at the Isle of Wight Festival 1970", available now.

O grande Alfredo Kraus canta Amapola em 1959

Bué de oboé, ah poizé

És a minha Irmã (até o Antony e os Johnsons sabem disso)


sexta-feira, agosto 07, 2009

Rosário Breve nº 115 - O Ribatejo - www.oribatejo.pt

Imagem: © http://wehavekaosinthegarden.wordpress.com

Uma vez na vida


(Esta crónica é aqui nO Ribatejo, não no Correio da Manhã. Tem felgueirice, mas é mais isaltinante.)

Tenhamos ao menos alguma decência na demência, que não são palavras separadas apenas pela diferença de uma consoante.

Se calhar, os casais gay não deveriam poder adoptar crianças porque depois, por causa da lei ou assim, também não iriam poder, em caso de necessidade, dar sangue aos filhos adoptados. Ainda se não fossem gays mas apenas homossexuais, era uma coisa. Assim, são duas. Tenhamos ao menos, ó manos, alguma decência na demência, que também são duas, mas diferentes, é consoante.

Se não, é como dizer, com um sorrisinho sacana engelhado ao canto da boca, que a política internacional do Obama tem um lado negro.

Ou como dizer que, com o acordo simplex totógráfico aprovado, o Diário da República passa a sair em freeport-uguês. Não vos parece que há mesmo que não confundir decência com demência, hum?

Eu tenho por natureza, e por assim dizer, um grand’enorme respeito pelos dementes, mas ainda mais pelos decentes. E não me parece decente, nem de gente, a gente, por assim dizer, andar por aí a isaltinar-se uns contra os outros por causa de tudo e de nada e de mais alguma coisa como por exemplo o lobby-gay, o lobby-lusófono, o lobby-contentor-de-alcântara, o lobby-cegos-involuntários-do-santa-maria, o lobby-benficampeão-da-pré-época, o lobbyp-hop-bairro-social, o lobby-se-as-mulheres-votam-por-que-é-que-os-ciganos-hão-de-pagar-impostos. Porquê? Porque convivência não é conivência. Pelos menos forçosamente não é. É só consoante. Oeiras ou eiras, Badajoz à vista.

Tudo isto por causa do sorrisinho sacana que se me engelhou na boca ao saber dos sete anos de cana cravados ao Isaltino. Será ele possível desperdiçar tempo da vida a presumir inocências insuspeitas a uma Fátima dessas que por aí peregrinam a si mesmas em covas que iriam mas não vão? Decência é uma coisa, demência é outra. Uma coisa é a moita, outra as flores. Uma coisa é ter juízo, outra é ir a ele. E outra, ainda, fugir de Felgueiras para o Brasil. Ou de Oeiras para a Suíça.

A lei, porém e por mais simplex, é a lex, enfim. Uma vez na vida ao menos, ó manos.

quinta-feira, agosto 06, 2009

Leve Queimadura na União do Indicador ao Médio


Souto, Casa, fim do dia 6 de Agosto de 2009


Conversa com senhoras no Passeio, depois volta a sós para casa.

É pela hora a que os mortos amados sobem do chão a ser árvores na névoa.

Linhas de água ex-azul circunscrevem horizontes sucessivos em dedadas ópticas.

Toma caldo de cebolas com tomate, fatias de pão escuro com manteiga de porco, uma chávena de chocolate.

Rumor de jóias muito longe, não determina se carros na noite, se primeiras estrelas.

A união do indicador ao médio torrada ao de leve do ópio do cigarro, o fato correcto de cavalheiro, os sapatos cansados e limpos, a boca escura – ele em reflexo de montra da Baixa.

Outra manhã, cresce para a praça que coroa a Avenida, um livro de versos na mão, na outra um roteiro de castelos de berma-lago.

Onde era a fábrica de porcelanas, além, é hoje a sede de um banco.

Há uma casa-de-pasto afamada, aberta há décadas que migram gerações.

O sol é pálido nas pedras, a banca de jornais grita Líbano, Honduras, Transvaal, Sudão, Laos, Filipinas, Alcafache.

A Europa é um andar muito acima, inacessível por estes anos.

Ele gosta de subir a Morais Soares, tornear os adormecidos do Alto de S. João, descer ao Rio rente a blocos cinzentos como megalitos lunares.

Nunca sairá daqui, jamais irá a Bex ou ao Castelo de Chillon.

O mais longe a que chegou, foi à Pampilhosa, os mesmos versos na queimada mão, já então.

Mozart - Lacrimosa (do Requiem)



Lacrimosa dies illa
Qua resurget ex favilla
Judicandus homo reus.
Huic ergo parce, Deus:
Pie Jesu Domine,
Dona eis requiem. Amen.

Tearful that day,
on which will rise from ashes
guilty man for judgment.
So have mercy, O God, on this person.
Compassionate Lord Jesus,
grant them rest. Amen.

Día de lagrimas aquel día,
en el que resurjan de las cenizas.
los culpables para ser juzgados.
Ten piedad de ellos, Señor.
Compasivo Señor Jesús,
concédeles el descanso eterno. Amén.

Três maravilhas: letra, música e António dos Santos

Do que Fica à Passagem


Souto, Casa, 6 de Agosto de 2009



Estive um pouco a ver os pássaros que passavam a meia altura na tarde fria.

Descansaram alguns no jardim, encarrapitados no cedro, de nov’oaram depois embora.

São suaves naves, as aves, são.

Gosto de vê-las, gosto de voá-las olhadas na tarde fria sobre o jardim do cedro.

Os pássaros são acontecimentos que ficam indo e vindo sem mapa na minha vida.

Lembro-me deles amanhã desde sempre, exerço em baixo a minha função de homem calígrafo, vou vivendo vindo vivo.

Em outros quintais suponho assim seja idêntica a passagem sedentária das aves.

A redoma celeste, azul azulejo convexo, nomadamente volta à minha vida de pátio com cedro.

A luz desaguava em sua mesma foz de luz, brisada – e eu não tinha de procurar a beleza, mas ser encontrado por ela, fria a tarde, o cedro em seu jardim de suas suaves aves vindas voadas.

Gosto de quando a luz é fria em si mesma – e de poder ser um homem nela como um cedro é um cedro e como uma tarde é todas as que houve a partir de amanhã na infância e no jardim.

Trabalho Dito em Seda


Souto, Casa, noite de 5 de Agosto de 2009

Senta-te nesta pedra e fala-me de humanismo, ou então de ti, não te acanhes, a noite é bela e quase longa.

Preside-nos, alta, a silveira de estrelas emaranhadas, cristal dos pobres, da igreja fechada abre-se o frio dos mortos lajeados cujos livros de assentamento se perderam como almas num bosque.

Nada te importe que de facto fale sozinho quem fala: a vida é assim, tu e eu somados resultamos ninguém como toda a gente.

Fala-me sozinho, não te cuides, como a palavra alaúde não cuida de ser já música, dita.

O nosso jardim-de-ninguém é todo cósmico, benza-o o Deus que lhe plantámos.

Nada nem ninguém pode ser mais mundo que cada um, por mais ninguém que o um seja e esteja e aja e haja.

Igreja na noite, face branca arrefecida, do adro se dando ao campo aberto, em epifania lunar que compreende e contempla o que desta pedra se diz.

Fremem aves nocturnas, sedas de carvão esfregadas em surdina roça-campanário, humanas como agonias ou cartas por abrir.

Toda a terra vibra de águas venosas, frias roladoras de pedras e árvores quebradas, e nós vibramos aqui, como toda a gente.

Em as caiadas cavernas dormem os patriotas que semeiam e lavram e ao mar arrancam a prata multitudinária e ao dia dirigem as máquinas , à hora.

Incessante é o florilégio que funde peixes e aves e estrelas e pedras e humanismos, altos para o campo.

A nossa irmandade é toda dizível, pulcra pugna pela vida, silêncio de pulcro sepulcro, pena aquilo dos livros perdidos.

Matiz e matriz de horas conventuais, as que a atenção nos vive, humanos, tão humanos na noite que sobe a rosa da aldeia ao veludo do firmamento.

Candeeiros publicam as nuvens baixas, quintas antigas habitadas de fantasmas de cavalos que foram precisos noutros poemas, com aves de tijolo, com rosa-dos-ventos, almácega e ínsua.

Com palavras, enfim.

Senta-te comigo nesta pedra, partilha a tua solidão com o firmamento e comigo e com os morcegos que trabalham em seda.

quarta-feira, agosto 05, 2009

Anne



A mezzo-soprano sueca (n. Estocolmo a 9 de Maio de 1955) Anne Sofie von Otter canta "Mariettas lied" [Glück das mir verblieb}, da ópera "DIE TOTE STADT" de Erich Wolfgang Korngold (1920). Em Chatelet, ano 2000.

UM POUCO ANTES DE AMANHÃ (26)

26

Pombal e Souto, Casa, noite de 4 e tarde de 5 de Agosto de 2009

Por mais verticais que sejamos,

é para baixo que olhamos

para nos vermos em pessoa.

Um pouco de chá, alguma caligrafia e ir pelos jardins – um plano para a vida.

Imagem e imanência: possíveis pela língua.

Zonas extensas da ruralidade, manchas do domínio verde com lapsos maravilhosos de amarelo, roxo, encarnado, sépia.

Homens horizontais, como cavalos, trabalhando a terra, vistos daqui em sílabas.

Horizonte e vertigem, luzes humanas que confirmam e condensam a noite, as cabeças das pessoas como bustos animados, as mãos (as mães) que enredam cestos e encestam redes, dedos-vimes, nós-dos-dedos, olarias que rodam e pulsam e urdem o barro como carne para coração, as lojas onde os animais exercem a metafísica privada do silêncio, os vasos com flores (dedadas de lacre), revoadas de papel de jornal assinalando o ar corrente ao nível do chão (outono impresso em folhas), categorias caligráficas das ramadas, arabesc’árvores, rendas de tinta-da-china contra o livor glacial da alba, retorno dos homens como pontos escuros ao domínio do verde.

Ver tudo de aqui, em silabário e lábio e astrolábio.

Lírio em delírio, turnos e retornos pela linha de pedra-mar, a espécie de leite-em-sal da escuma em rebentação, um pouco mais longe no tempo.

Escadarias paralelas da atenção decuplicam o corpo, municiam-no de poderes-vectores viajantes, de Port Ortford a Dickensville, de Burgos a Salt Lake, do Rio Chetco a Mira.

Uivos azul-gelo das viaturas de polícia inquietam a realidade, tornam-na súbit’aflitiva, os residentes locais levam a mão à garganta, ao peito, às cabeças-bustos.

(Lá atrás de tudo isto, isso

a que chamo eu

vigia e toma conta

da loja em

silêncio animal.)

Brookings, no Oregon; Rua da Saudade, na Figueira da Foz – instâncias de alojamento do viajante verbal.

Balística dos versos: estrias digitais (caligrafia, chá, jardins, tiro, de acordo com um indecifrável A. M. O. a propósito de um indespistável João Paulo Branco, Coimbra, Julho de 1997, ed. SASUC) para uma estilística sem Deus, ou coisa assim.

A poesia e a existência das moscas partilham a diafaneidade da Hora Grande.

Um homem chamado Warren, um homem de nome Salústio, seus trajectos paralelos em as Discussões Justapostas

(deles os eus sem Deus).

Em cabanas florestais, leitores duram anos por dentro.

Hercúleos mastins musculam pesadelos de criancinhas sherlóckicas ou lovecráfticas ou delamáricas ou algernonblackwoódicas, través massas de névoa – mas corre a bênção de um estio suave, benigno como uma época sem telegramas obituários, como o que Alice Fowles (solteira, 25 anos, natural de Liverpool) remete a Mr. Ashcroft (viúvo, 42 anos, de Bristol), por ocasião da tragédia de Cartpool-on-Sea, 1903.

Castelos disto, de afins assuntos caligrafados em documentos agora, e finalmente, poetizáveis.

Walsall, Cabanas de Viriato, Reims, Monróvia – em 1984, voltas de Mr. Burke.

Contingências militares, ditames de medicina legal, roncos automóveis na madrugada das províncias, edições do The Oregon Tribune em Setembro e Outubro de 1979, as freguesias de Avintes e Veiros, providências cautelares muito tácticas, muito pensadas para tornear a lei, gentis camponesas de louçãs maçãs-do-rosto, um homem chamado Luiz Phillipe S., coxo da perna esquerda, travessando a do Giraldo, um copinho de madeira servido sob moscas, esta demanda incessante de um sentido para a serenidade

(lá atrás, um dos eus).

Amarante e Glasgow, a do Pico e New Bedford, Málaga e Caen, Jacksonville e Portel: linhas da quieta força na cartografia que desidera (que anela), noções por assim dizer minerais na Grande Geologia do Trânsito Glotológico.

Ali, as mãos das mães – pre(gra)ciosas, anónimínimas, trançadoras de cabelos e de cebolas, leitoras dos destinos filiais menos vernícomos

(vai suave o estio).

Mundiverbo, fervilhar de fonemas-soluços, género e degeneração

(será da muita genebra),

corrupção e corruptela, inspecções sanitárias a balcões de caminho com agência de mala-posta, pobres aos milhões sozinhos-um-de-cada-vez como poetas ou detectives especializados em cornos conjugais, velhotas com filhos quarentões vivendo-lhes à mama em barracas sobreviventes a salsichas e couves trazidas da Assistência Social e dos colégios de freiras, uma mulher chamada Carminda França frigindo peixes do rio numa tenda à beira do Mondego (Portela ou Torres, ano 1971), movimentações e acusações feias de e entre candidatos ao comando dos bombeiros locais

(há dois anos que andam nisto, o barbeiro e o da papelaria),

a impenetrabilidade mútua entre a História da Higiene e a da Índia, mais confrontos entre hordas operárias alemãs de origem turca e matilhas da polícia de intervenção alemã de origem teutónica.

Inclinação em itálico da cursiva chuva numa rua de Boston em 1970 (Janeiro quase de certeza), esmaltes e alumínios juncam a pobreza limpa das últimas casinhas além, na Covilhã.

Perímetros de mata nacional medidos pensativamente por cavalos em repasto, perpetuação das pragas cíclicas (agnosia, afasia, cova-da-iria), magazines relatando o amor bonito e grácil do rapaz Kevin pela menina Brigitte, visões portuárias reveladoras de até o crepúsculo ser barco, casamatas hoje habitadas por ervas e caracóis, dias estalactíticos confirmando e deferindo a fundamental mineratura do Espaço-Tempo, incursões belgas em etnografia portuguesa, Múrcia e Calecut, Scatman Crothers e Debussy, Claude.

O entendimento como uma surpresa em fio de oboé – é isto, finalmente, o que tal

eu queria ter dito amanhã.

Muita graça: os Umbilical Brothers com o Cânone de Pachelbel em fundo

Beleza pura: Movimento terceiro da Sinfonia nº 1 ("Titan") de G. Mahler



Consta que esta célebre marcha fúnebre foi composta por Mahler a partir da canção infantil Frère Jacques, nele em tom menor. A abertura do movimento em contrabaixo solo também ficou para a História.

Excelentes informações históricas em http://en.wikipedia.org/wiki/Symphony_No._1_(Mahler)

terça-feira, agosto 04, 2009

UM POUCO ANTES DE AMANHÃ (25)


António Nobre e Stanley Holloway


Objectos para Deixar em Inverness

Souto, Casa, 3 e 4 de Agosto de 2009

Como é admirável a paciência dos objectos que, sendo a casa, esperam em casa que os e a deixemos a sós. Penso nunca ter deixado de perceber-lhes o jogo, a atitude, a estratégia. Fazem-se passar por objectos, pretendem ocultar deles mesmos uma humanidade que lateja, esconder de nós quem os trouxe e no-los deu, quem os fez, o que quis de nós com eles. Este pires com rosas de cromo, este cinzeiro de baquelite, esta pedra do campo, esta agenda com tantas urgências rabiscadas, esta garrafa de óleo alimentar, este livro de Caldwell, este lápis maduro como uma nuvem carregada sobre um campo em que cavalos, ou cães.

Chuva azul em os dias frios de Inverness, noutra vida, em outra talvez futura talvez vida. As vozes das gaivotas como fios eléctricos redigindo o ar alto sobre o lago, cantoneiros locais queimando o tempo em jogos de cartas com genebra e cerveja preta, recortes de títulos desportivos e religiosos nas paredes de madeira, fotografias de caçadas nas paredes de madeira, o lume de coque no fogão de ferro do canto, o vento do entardenoitecer vibrando as chapas metálicas dos abrigos, vergando os cocurutos das árvores que marginam as vias.

Num dia frio e bonito, com Stanley Holloway a ver os anões no cemitério raso, fora do Tempo: podes vir comigo.

Há pouco, ouvi que tocavam piano algures dentro de uma casa invisível. Senti as frases da música, que era lenta e imparável como um rio magro. De onde estou, vejo cavalos vindo devagar por um carreiro de terra dura. Um deles traz uma estrela amarela na testa. Vêm sós, atrelados ao vento apenas. Preparo água para o primeiro chá do dia, há dança de ar no limoeiro do pátio, é um cedro. Talvez sejam afinal cães, os cavalos, mas tenho de dar realeza à realidade. Também é verdade que os objectos nos guardam em casa, sítio de onde podemos partir para Inverness sem sair. Tudo se escritura na atenção, sem mor cuidado.

Onde estou, revive instantes vivos o senhor António Nobre, o solipsista de Paris, bom poeta, decerto equivocado quanto a Alberto de Oliveira, mas faltará sempre o conhecimento do teor dos mútuos postais do Diário Anto-Alberto, que Alberto, por respeito, mandou destruir postumamente. “Caganifâncias”, enfim, peculiar expressão epistolar de Junqueiro remetida ao ex-maior-amigo de Nobre a propósito dos mexericos influência/não influência Só / Os Simples, em 1892. E como diria Holloway, se os dissera, os versos de António Nobre? Mas em 1892 Stanley era um infante de dois anos apenas, ou nem tanto, posto ter nascido no primeiro de Outubro de 90 e o ter visto a luz da publicidade em Abril desse ano, de Paris para o mundo. Mundo-mudando dígitos, o 1892 da primeira edição do livro mais triste de Portugal passa ao 1982-ano da morte de Stanley Holloway, uma dúzia de anos depois da aparição cameo como coveiro em The Private Life of Sherlock Holmes (de Billy Wilder, 1970, com Robert Stephens, Colin Blakely, Genevieve Page, Mollie Maureen e Cristopher Lee, entre outros). With a little bit of luck, enfim, sempre viveu 91 anos, o pai da Eliza Doolittle de My Fair Lady (com Jeremy Brett no/na pa-pele de Freddie Eynsford-Hill), do mesmo ano em que finalmente nasci pela primeira vez.

Guardarei o que me guarda, de Inverness para o mundo.

Por falar em Tempo...

Parece mentira ter sido há 37 anos, mas não faz mal

Como sinto e penso sempre isto em Agosto, aqui vai outra vez disto mesmo

Agostonia


Lamento, mas nunca gostei de Agosto. Prefiro-lhe Junho e Setembro, gémeos iniciais e terminais, cada um à sua maneira, de outra ilustração.

Agosto é gordo e grosseiro. É um penico de ânsias. É o mais cansativo dos falsos repousos. E é trauliteiro, pauliteiro e paliteiro. Digo eu, que nada sei mas tudo sinto.

Em Agosto, nada se aprende. Pés feios afloram de sebosas sandálias de couro plástico. Mulheraças encarnadas como lagostins-do-rio e desconjuntadas como carroças passam o mês a ralhar com as crias concebidas em outros agostos iguaizinhos a este. Derrubados em esplanadas de baquelite, homenzarrões pequeninos, entalados em camisoletas de cavas, expõem os tufos pilosos dos sovacos, de que emana um vinagrete em decomposição absolutamente mortífero para a pituitária individual e idem para a esperança colectiva neste País.

Depois, há ainda o problema dos ranchos. Pelos parques merendeiros, a gaitada acordeónica mescla-se à gordura da sardinhagem que estraleja de pimentões em fumo carbónico. Reco-recos e carcaças de suíno são indissociáveis, a par da fervura vínica e das sestas ressonadas a compasso binário à sombra de pinheiros que só não arderam ainda por momentânea indisposição do maluco local. Para piorar a conjuntura, os ministros da República surgem sem gravata na televisão, seus pescoços e rostos bronzeados ao limite pela vocação afro-atlântica das viagens pagas por nós.

Isso – e as férias dos actores e dos pivôs de telejornais, tão parecidos connosco, afinal, excepto no terem férias de revista de luxo rentes a piscinas globalizadas pelo nojo ao mar.

Já o Brasil, país que vive um Agosto perpétuo de carnavais, futebol-de-praia e meninos-de-rua, continua todo amontoado cá na militante e peregrina esperança de que Fevereiro chegue a todo o gás, tal que o mulherio se dispa de preconceitos e os preconceitos se dispam de gays.

Não, não posso gostar de Agosto. É em agonia que redijo esta crónica: por ser dia 1, chamo-lhe “agostonia”. Concedo que tais (des)considerações sejam menos imputáveis ao corrente mês (afinal abstracto e inocente degrau da calendária escadaria) do que à minha propensão vitalícia para uma espécie de melancolia que só se permite suavizar quando chove. Quando chove ou quando neva.

E é a maldade que, cada Agosto, me faz desejar que neve. Mas que neve assim muito, tanto, que, ao menos pelo frio, nos possamos disfarçar de evoluídos e civilizados como a Noruega.

No País dos acordeões e das cascas de melão, perdi já toda a esperança. Mas na neve em Agosto, ainda não.

Senhoras e senhores, ouçamos o grande Scott Walker

domingo, agosto 02, 2009

A Mesma de Sempre Comoção ante as Louças ou De l. m. a. t. chose

© Dorothea Lange

Migratory Cotton Picker (1940)





Súmula de palavras de Abril, Julho e Agosto de 2009

para o Henrique Costa e para o João Mário Gonçalves



De la musique avant toute chose

Verlaine

I

O Filho do Homem

O filho do homem tem de evitar ser vidro.

O tempo é areia, que pedra foi e será.

Portanto o homem deve ser pedra e cor na pedra.

E deve portanto transmitir isso ao filho.

O pai do homem também se engana.

Não é por mal, acontece.

II

Marcações Vocabulares para Inscrição em Colégio Jesuíta

– ou coisa parecida

Languedoc e Westminster fazem parte do rol de palavras para a vida útil, tal como Deus e Outras.

Elas trotam como cavalos em azinhagas térreas, quebrado um sol de papel pelas coruscantes áleas da visão de dentro.

(Digo eu que trotam, pode ser que possam ser ditas de outra forma, na hora e nos dias.)

Por enquanto é dia, noite virá com outros vocábulos de utilidade.

Armas de carregar pela boca como palavras ensombram encruzilhadas de Oitocentos.

Massacres ingleses na Índia de Dezanove, atmosferas pejadas de virgens pagas ao quilómetro em pavilhões de caça, em solares abandonados à nascença, em tardes de regata e hockey club.

Ticiano e almorávidas, alvores de litoral algarvio e Jack Dempsey, o Bronx e relatos enegrecidos de fumo em tugúrios da Beira Alta de Portugal.

Esplendor sexual do folclore católico, peregrinações da classe-abaixo-de-média às galerias hipercomerciais do Vinte-e-Um.

MacMillan e Sara Bay, Doolittle e o Purgatório, o mecenas de Ludwig e o botulismo, a I República e os piolhos.

Nisto, entrada de cromos de safari na caderneta cinegética.

Revisão de António Nobre rumo à França após segunda reprovação em Coimbra.

As pernas altas de Raul Brandão Chiado a baixo em voada tarde enevoada.

Subsídios de História do Município Coimbrão para uma Visão Minuciosa da Palermice Nacional.

Um catálogo de filatelia com violetas prensadas entrepáginas 180-81.

As barrigas das pernas das lavadeiras à lixívia fluvial reparadas pelos meninos nadadores.

A Roménia como nós.

Publicação em alexandrinos dos nomes em solteiras de todas quantos traem os maridos.

A violência doméstica do ponto de vista masculino a partir de Celorico da Beira.

(Digo estas coisas enquanto o cedro do meu pátio dança um pouco na brisa: como alguém invisível dentro do meu cedro, na hora a que pertenço enquanto inscrevo leitores em um colégio jesuíta.)

Lord Edgware e Santa Rita de Olhos Vazados, mais a histeria das mulheres da Nazaré à chegada do autocarro com turistas-dólares.

A voz do senhor da televisão pergunta-se-nos se o pequeno tumor cerebral (um glioblastoma, não um mero astrocitoma incipiente) descoberto na autópsia de Charles Whitman pode ter contribuído para o bródio mortífero de 1 de Agosto de 1966 em Austin, Texas.

Ou, Charles também, Starkweather e sua Caril Ann Fugate (como será viver em Lansing, Michigan, menina?) cantados por Springsteen, B., em Nebraska.

Tudo isto conta: tudo isto canta.

III

A um Tempo Vivo

A um tempo vivo dirijo quanto tenho e me tem,

o soro das frases jusantes, a uniforme atenção,

a mesma de sempre comoção ante as louças,

os brinquedos que as crianças abandonaram crescendo.

Hoje é de não tão a sério este levar-se nas horas, nos dias.

Tenho um, dois amigos muito doentes.

Sábados fora do Tempo são os deles dentro deles.

É assim que vejo as coisas, mais do que isto não sei.

IV

O que Sei

Sei o preço da consciência, o do sal e o da chuva.

Temos os três algum tempo, já não é sábado.

Sobre o cinema de Manoel de Oliveira portantos-é-assim

Sobre Hitchcock, uma boa crónica de Paulo Nogueira no CM

http://www.correiomanha.pt/noticia.aspx?contentid=AA9F29C4-0024-47A2-83EB-65C2C68EC9D3&channelid=00000093-0000-0000-0000-000000000093

Natalie Dessay canta uma ária de L. Bernstein chamada Glitter and be GAY, mas não quer dizer que no fim se possa dar sangue nem adoptar meninos/as...

ANOVIS ANOPHELIS: UM NOVO HITLER!!!

ANOVIS ANOPHELIS: UM NOVO HITLER!!!

José Afonso completa hoje, 2 de Agosto / 09, os primeiros 80 anos

José Afonso nasceu há 80 anos

UM OLHAR UNO - fotografia(s) de Sandra Bernardo em exposição no Restaurante-Marisqueira CERVEJÁLIA, em Pombal, durante o mês de Agosto / 09

PORTA FECHADA

Memória roubada, trancas à porta.

Este é o rosto da casa natural de um herói humanitário dos tempos da fúria que varreu o mundo a fogo.

Aristides de Sousa Mendes: saberá o mundo quem foi?

Saberá Portugal quem é?

sábado, agosto 01, 2009

Cartas Íntimas de Beckett

Mais uma coimbrice dum coimbrinha

Família de José Afonso indignada com vereador da Cultura

Posted: 31 Jul 2009 08:05 AM PDT

Na apresentação de uma homenagem ao cantor, por ocasião do 80º aniversário do seu nascimento, Mário Nunes, vereador da Cultura, disse que José Afonso “devia ter morrido num lar” e que “até medicamentos lhe faltaram” no fim da vida. A família de José Afonso diz que é uma afirmação infeliz.

"Um homem que devia ter morrido num lar ou numa cama em condições e a quem até os medicamentos lhe faltaram no final da vida". É esta afirmação, feita pelo vereador da Cultura de Coimbra, Mário Nunes, que indignou a família de José Afonso.

“Lamento profundamente a infelicidade da afirmação que fez. Quero crer que não foi proferida com má-fé, mas apenas por falta de sentido de perspectiva e de conhecimento do assunto”, refere a filha do cantor, Helena Afonso, numa nota enviada ao JN, sublinhando que se trata de “um autarca com responsabilidades na área da Cultura”.

O vereador falava no passado dia 22 de Julho, na apresentação do "Memorial" em homenagem ao cantor e compositor, que inclui música, dança e poesia, a realizar na cidade dos estudantes dia 2 de Agosto, por ocasião do 80º aniversário do nascimento de José Afonso (Zeca Afonso).

Helena Afonso explica que o internamento do pai num lar “seria um acto indigno do próprio e dos parentes e amigos que o acompanharam e lhe prestaram a assistência possível, além de ser inapropriado para a sua patologia progressiva”.

Refere ainda que o célebre cantor que deu voz a “Grândola, vila morena”, falecido a 23 de Fevereiro de 1987, esteve “sempre rodeado pela família e amigos”.

Helena Afonso garante que “é redondamente falsa” a afirmação de que “até os medicamentos lhe faltaram no final da vida", feita por Mário Nunes.

“Uma vasta rede solidária, em Portugal e no estrangeiro (onde gozava de enorme reputação e respeito), constituída por gente de muitos quadrantes, permitiu a José Afonso o acesso à medicamentação mais actualizada na época”, assegura ao JN.

Sandra Alves » Jornal de Notícias