quarta-feira, agosto 19, 2009

Relentamente


Souto, Casa, tarde de 18 e madrugada de 19 de Agosto de 2009
(Foto: Rua Direita, Viseu, madrugada de 16 de Abril de 2008)








O pensamento dá-se como um relento, perto havendo barcos não à vista, bordados os calados de canora água, a Lua de cima desfechando néon.

Um dia, estas ruas nada terão de nós. Algumas noites vão enegrecê-las de chuva, algumas manhãs hão-de palhetá-las de ouro-de-igreja. Assim será - e bem assim estará.

Entretanto, relento.


segunda-feira, agosto 17, 2009

Fulguração

Souto, Casa, tarde de 17 de Agosto de 2009






Partilharei contigo o oiro da minha pobreza, assim o queiras.
Sou de modos delicados, não te me receies.
Por mão de versos te levo a ver a chapa de luz, que é o metal da tarde batendo o rio.
Bosques e crianças fulguram,
feéricos, feéricas.
É tudo tão bonito, sobretudo em livros, isto do mundo.
O primeiro funeral a que assisti, foi em canícula a mais ardente.
Era em Antuzede.
Eu era jovem como uma flor.
O Sol imperiava a aldeia.
Tinha morrido um homem muito antigo.
Na praça breve, pousaram a urna tal que descansassem um pouco quem carregava e quem dormia.
O esquife fedia a rosas cortadas, chilras, murchas já para sempre.
Ia pela mão do meu Pai como tu por a mão destes versos.
Também fui já a baptizados, onde conferi que nascemos para um nome entre duas datas.
Uma parte substancial quero dar-te da minha vida maravilhosa.
Pode acontecer sermos ambos tocados pela peçonha da tristeza, mas ainda assim a luz metálica - e urna e berço descendo, jusantes, o rio,
feérica, feérico.

Sandra Bernardo, Pombal, 27 de Março de 2009

DE DIA, TODOS OS GATOS SÃO CLAROS

Um cidadão furtivo, silencioso príncipe da rua.

Tigre educado a caçar dentro da lei.

Habitante da liberdade.

Pessoa também, à minha maneira.

À minha anónima maneira.

Senhoras Litorais, Violetas - apontamento noticiário

Souto, Casa, tarde de 17 de Agosto de 2009






Flúi serena a minha vida branca.
A tarde é de uma claridade assombrosa.
Aspectos sinistros mondam os trigos do mundo, emigrantes lusitanos estouram-se de carro em as autopistas de Espanha, os corvos humanos piam dinheiro escuramente, os noticiários falam de bombas artesanais, de militares de cerebelo de amendoim e de demais coisas assim.
Não se ouve falar tanto de cornos conjugais, estão na moda as normas de segurança até em poesia.
Dos arredores de Lisboa chegam imagens de gasolinas de serviço e de pessoas tristes e de jardins de pedra com flores cancerígenas.
Há uma estupidez muito branda nos mapas da existência.
Ela é feroz mas branda.
É como um lume-maria.`
Às vezes, caladamente na cozinha, debulho os meus legumes, fervo um chá metafísico, tomo na varanda haustos de ar morno, derivo pelos salões paginados do meu negócio,
isto.
E a páginas tantas assisto às senhoras-violetas tomando gelados em uma esplanada litoral.
Perto, cavalos brancos e aves cor-de-pérola carrosselam o Verão quase acabado, sereno, branco como a minha obscura vida.

Sete Derradeiras Aproximações a Edinburgh

Souto, Casa, madrugada de 17 de Agosto de 2009




I

Receio bem que nenhuma parte
do que tiver sido a minha vida
deixe marcas em, por exemplo,
Edinburgh.
Vivi muito menos do que escrevi,
talvez por isso.
Esta noite, deitado em lençóis
frescos de novos, a gata mais
nova dormindo nas pernas, penso
a minha vida só por dentro
romanesca.
Profundamente ibérico, afinal,
posso ter direito a um pouco de
sol e à sombra de uma oliveira.
Não será mau património, feitas
as contas.



II

A noite veio tocar a casa com
suas rendas acústicas.
Esta é a minha atenção ardendo
no escuro.
Vejo homens e espectros rondando
o meu coração, madeira do meu
lume.
Sinto ilhas.
Coligi crepúsculos puerilmente.
Tenho sido razoavelmente feliz.
Toquei águas que desciam colinas.
Juntei laranjeiras em cadernos.
Aprendi idiomas: o das janelas
acesas, o das mãos dos animais,
o lunar das senhoras-de-aluguer,
o dos choupos farfalhados pela
altitude boreal.
Sou tão có(s)mico quanto a pedra,
qualquer pedra em qualquer eu.
Já andei muito só em por exemplo Lisboa,
em Edinburgh é que nunca.



III

Esta não é talvez a minha noite
derradeira, farei um pouco 'inda
por merecer a manhã.
Viverei talvez alguns livros 'inda.
No meu outono privado, usarei
fraque e chapéu alto, terei um
cavalo e uma casa com cavalariça
e portão de ferro chancelado em
latim.
Fecho os olhos para ver rosas e
senhoras altas de marfim.
O meu futuro convoca cinzas,
esmaecidos postais fluviais, algum
gesto terno merecido em criança.
Sou poderosamente humano
em esta Ibéria que não conhece
Edinburgh.



IV

Toco a face dele com estas frases
tiradas da noite da minha vida.
Uma vez, vi uma andorinha
presa num cabo alto, vieram os bombeiros
e resgataram-na, escrevi isso no
jornal e fui feliz dois dias
completos e seguidos em
razão disso.
Ele compreende-me perfeitamente:
partilhamos genética e limbo.
Ele uma vez recolheu uma maçã
silvestre e ofereceu-ma, trago-a
'inda no sabor.
E o amor torna peninsular
a ilha que cada um de nós
é.



V

Sério e honesto estudo não me
salvará, mas aqui e ali há-de
ser pretexto de redenção.



VI

Escuta comigo: este rumor de
papéis é o vento da noite
dando nas folhas da figueira
(choupo imaginado).
É uma música muito bela.
O coração dá-se-nos muito
a estes solfejos.
Agora adormecemos sem
ofensa.
E amanhã nascemos ao
pé da figueira escritora.



VII

Haverá ele árvores-de-figo
em Edinburgh?
Digo cristais com os dentes
frios como água em pedra.
A humanidade do pensamento
é tremenda,
por exemplo em
Edinburgh.




domingo, agosto 16, 2009

Foto: Sandra Bernardo, Alqueidão da Serra, 21 de Dezembro de 2008


LUZ, SOMBRA, PESSOA

A sombra da pessoa é feita da idade que com ela se levanta, anda, fala, lembra, escuta e deita.

A sombra é a prova definitiva de que a pessoa é, no essencial, feita de luz.

Um Olhar Uno - agora em blog

http://sol.sapo.pt/blogs/umolharuno/

Fado Bondoso da Resignação - mais uma maluqueira em verso(s)

Souto, Casa, tarde de 16 de Agosto de 2009




Digo-te uma bondade próxima da resignação.
Alimento-me de janelas, como nuvens, andarilhas.
Ao fim das tardes saem os desquitados a ver as filhas,
ao anoitecer evanescem as luzes da civilização.

Às vezes viajo só com a imaginação.
Saio para dentro de mim, vejo cabras nos montes.
Uma dedada azul perfila águas e horizontes,
confundo então bondade com resignação.

As coisas belas são de um triste mui puro,
tal o vazio tão frio dos dentros das igrejas.
Homens à sombra emborcam tremoços e cervejas,
olhares são tiaras brilhando no escuro.

Não cuides, amor, que sou feliz aqui calado.
Falei ontem co' Luís, vou comprar uma viola.
À tardinha do domingo, toco-te um fado
com versos novos tiradinhos da minha tola.

Cinco olhares da melhor fotógrafa do mundo e cá de casa, Sandra Bernardo, em Dia de Nossa Senhora da Boa Morte, Louriçal, 15-08-09





De la musique, m'sieurs dames


Ela chama-se Elisabeth Fraser, dos Cocteau Twins.

sexta-feira, agosto 14, 2009

Léo Guillaume Ferré Apollinaire

Brasil deles brasileiro...

http://observadorglobal.com/impunidad-a-la-brasilena-v2228.html


Rosário Breve nº 116 - O Ribatejo - www.oribatejo.pt

Só temos um problema

Portugal tem razões tão justas quão de sobra para se orgulhar da literatura de Eduardo Paço, romancista e poeta de grande sensibilidade e apurada técnica diegética: os seus romances e a sua poesia são, da primeira à última páginas, o melhor Portugal em papel e tinta.

Razões ibidem para nos orgulharmos todos mui compatrioticamente da arte e do ofício arquitectónicos de Braga Quintas, cujas casinhas litorais reforçam, por assim dizer, a qualidade azul da nossa costa marítima. Num país de touradas e garraiadas, os avanços heurísticos em Biologia Animal do catedrático Pires de Melo seguem nesta linha ascendente, até pelo prestígio internacional de que gozam há coisa de década e meia.

Uma vez por outra (digo-vo-lo com comovida sinceridade), o nosso País é um sítio bom de gente óptima.

A música orquestral de Bernardo Copes, os épicos feitos alpestres de Túlio Brandão, a acção humanitária de Susana Leite, a diplomacia lusíada de Gonzaga Ribeiro e a ecologia lúcida e militante da Associação Poder Azul merecem, de todos nós, honrarias sumas, bem para além dos postiços carnavais peitorais de cada 10 de Junho.

Tenho e mantenho esta opinião – e não vou pedir desculpa por ela a ninguém.

Orgulho-me, sim, e mui portuguesmente, de Paço, de Quintas, de Melo, de Copes, de Brandão, de Leite, de Ribeiro e dos “Azuis”.

O problema (meu e nosso) é só este: nem a Associação Poder Azul, nem o diplomata Gonzaga Ribeiro, nem a benemérita Susana Leite, nem o alpinista Túlio Brandão, nem o compositor Bernardo Copes, nem o biólogo Pires de Melo, nem o arquitecto Braga Quintas, nem o escritor Eduardo Paço – existem.

E Portugal também não.

quinta-feira, agosto 13, 2009

UM POUCO ANTES DE AMANHÃ (31)


31.

Para que Saibas como Durmo a Vida, P.

Souto, Casa, madrugada e tarde de 12 de Agosto de 2009

I

Disse-te já que todas as noites é junto a um rio que adormeço lavado de lavanda?

Ter-te-o-ei dito decerto, que muito me repito já – ecóica é a idade que, avançando, a si mesma recua.

É uma ingenuidade feliz, imitar assim o meu futuro de terra e a minha terra futura.

Junto, um rio corre pratas.

Roçagam-se levianas as pedras, a areia do leito movediça-se prazenteira, uúlam as aves da noite – e eu tudo vejo de bem cerrados olhos.

Não tenho frio nem fome, gasalhei-me de roupas e vitualhas antes de me deitar a jazer, atento e feliz.

Também me não ocorrem já sexualidades nem porcarias, só bocaditos de redondilhas, rostos brandos brandamente afagados outrora – e saudades do meu Cão Amarelo e do meu Pai, mas com, digamos, saúde.

O ar tem lances frutados, é crepitante a vizinhança das tangerineiras, dá-lhes de flanco o favónio aromado.

O resto é páramo lunar: o gesso das coisas é uma olaria de crateras.

Aldeiazinhas de presépio lusc’ofuscam-se nos panos da treva, gosto sempre de imaginar as famílias tomando caldo e coçando gatos à lareira, o mais pequenito é muito engraçado, o mais velho está na tropa não tarda nada.

II

Olhos cerrados, abre-se-me a beleza maravilhosa das pequenas mentiras:

o riacho que é tântalo de si mesmo,

os dedos fluindo como enguias feitas de cordões de água,

o firmamento electrificado de migalhas diamantinas,

o jacto insonoro que as traceja,

a irrisória falácia de Deus,

o amor das pessoas aos filhos,

o mel dentro das pálpebras chamando as abelhas dos sonhos.

Assim quase durmo quase vivo, a cama povoada de instâncias da Natureza:

Lucrécio,

o meu Pai,

o meu Cão,

Catulo,

a Yourcenar,

a musicalidade dos nomes florais

(estrelícia-miosótis-jacintodágua-jasmim-begónia),

relampejos vítricos de louça azul,

certas ruas de Viseu enjauladas pela chuva,

o Caramulo onde passeei com os mortos,

o meu tio Alberto,

o Picoto,

as cheias do Bolão,

a ponte dos arcos de Maiorca,

a chegada a Carritos,

a exaltada exultação da Figueira da Foz,

beduínos e dromedários,

piratas e flibusteiros,

escudeiros e onzeneiros,

João Xavier de Matos lido no Chiado por Carlos Queiroz,

a Sãozinha de Alenquer e a Alexandrina de Balasar,

os homens da minha rua,

segmentos das histórias dos outros,

o pai da rapariga de Tavarede batendo-lhe com o cinto na barriga,

o pequeno Tiago de volta do pai no café de Albergaria dos Doze,

o senhor com nome de mês e olhos de papel-de-céu-num-dia-bom,

o homem das botas de lona cuja mercearia foi à falência a começar pelos olhos dele,

a ti’ Maria do Sol com o quartilho de mistura,

o meu cunhado criador de pardais,

a gaguez do meu tio António irmão de Alberto,

o Homem a chegar à Lua na nossa sala,

a mesma por onde passaram os tanques ingénuos do 25,

a Figueira da Carmo,

o Poço da Galinha Morta,

a família cabo-verdiana de dois adultos e dez crianças na casa em ruínas da encosta do cemitério,

o Zé Tarzan a olear betume,

o senhor Rendilho sentado às escuras,

as mortes infantis da minha infância tão acordada como nunca mais para sempre,

a passagem da Volta à Estação Velha com o Agostinho de camisola amarela à frente,

o Kalinkas-115 sem vergonha nenhuma a cagar de costas viradas para a multidão festiva no Parque da cidade em dia 1º de Maio ou 25 de Abril pouco depois dos cravos,

o senhor Velindro a dar champanhe na Queima das Fitas de 1986,

o mendigo de barbas de neve que trocava calendários de santos por um prato de sopa e quanto o meu Pai lhe pudesse dar,

isto ser tudo uma passagem,

o primeiro beijo foi com a Cristina do senhor Pinto e da senhora Hermínia na garagem onde depois foi viver uma família de retornados,

a senhora Teresa e as duas filhas solteiras e velhinhas vendiam ovos bons como condensações em casca do sol-poente,

o relâmpago primeiro da poesia na minha cabeça com aquele livro

O Poeta Faz-se aos Dez Anos

da Professora Maria Alberta Meneres

e também

Platero e Eu

de Juan Ramón Jiménez

com ilustrações maravilhosas de Bernardo Marques,

edição da Livros do Brasil,

a delicadeza tímida do senhor Sacramento casado segunda vez com a Amarala,

o danado que ficava o Zé Marques

(José Manuel Rebelo Marques, lembro-me bem do nome todo)

quando a gente lhe chamava

Ó Zé Macaco, ó Zé Macaco,

o Beto e o Mário e o Victor e o Lelo (RIP) e o Beto Amaral e o Pedro e o Jorge Sacramento e o Carlos Patatolas e o JêPê e o Quico e o Jorge do ti Alcides e o Tó Chicha e o Armando e o Rui Shartela e o Américo e os irmãos Toninho e Nelito Elói da senhora Celeste que dava injecções,

o senhor Carlos e a senhora Eduarda da loja pais da Màlita que deram em jeovás,

a Belinha Gorda que casou com o Benjamim Preto,

o senhor Amaro e a mulher para quem escrevi as lápides a pedido do filho mais novo o Pedro,

o homem que comia nozes no monte e vendia de porta em porta um livro de capas vermelhas e letras douradas chamado

A Saúde pelos Alimentos,

aquele ano em que me levantei muito cedo a 2 de Janeiro para conseguir ser o cartão nº 1 da Biblioteca Municipal de Coimbra e consegui e depois quando ia requisitar agathachristies e o Mundo em Guerra e steinbecks e hemingways e simenons dizia

Número Um!

em voz alta e os outros leitores olhavam-me com uma espécie de espanto e de consideração que ainda persigo na cabeça dos meus leitores com os versos e com tudo o que me anda na cabeça quando cerro os olhos para dormir outra vez para sempre como nunca mais a minha vida,

Pai.

Como eram as festas há 20 anos bem contados


Dizzy Gillespie & The united nation orchestra
Live at The Royal Festival Hall, London. 1989.

Dizzy Gillespie: Trompeta, Dirección.
Arturo Sandoval: Trompeta, Flugehorn, Trompeta piccolo.
Claudio Roditi: Trompeta.
Paquito D'Rivera: Saxo Alto, Clarinete.
Mario Rivera: Saxo Tenor y Soprano.
James Moody: Saxo Alto, Tenor Y Flauta Traversa.
Slide Hampton: Trombón
Steve Turre: Trombón, Shells.
Danilo Pérez: Piano.
Ed Cherry: Guitarra.
John Lee: Bajo.
Flora Purim: Voz
Giovani Hidalgo: Congas, Percusión.
Airto Moreira: Percusión, Batería.
Ignacio Berroa: Batería.

quarta-feira, agosto 12, 2009

Faz hoje um quarto de século


Faz hoje 25 anos que Carlos Lopes venceu olimpicamente a maratona de Los Angeles / 84.
Foi uma madrugada gloriosa também para nós.
Lembro-me perfeitamente da estranha euforia que me resultou de tanta humildade ligada indestrutível e incontornavelmente à força pura.
Viva o rapaz-campeão de Vildemoinhos!

terça-feira, agosto 11, 2009

UM POUCO ANTES DE AMANHÃ (28)

© Sandra Bernardo

Corte de Cabelo

Souto, Casa, tarde de 10 de Agosto de 2009


28

Souto, Casa, entardenoitecer e noite de 8 de Agosto de 2009



O senhor Jonas não virá esta tarde tomar chá connosco.

Vamos merendar a sós.

Temos música de Glenn Miller, compota composta de figo, pão integral e chá de Moçambique.

Antes e depois do chá, ocupamo-nos em privado das nossas coisas.

Ela continua a organizar os arquivos fotográficos.

Eu tiro apontamentos díspares: Reinhard Tristan Eugen Heydrich, Julian Lennon, Boémia/Morávia/Praga/Londres/, Operação Antropóide, fileiras escocesas, Jan & Josef, 28 de Dezembro de 1941, Cynthia & Julia, comunicações via rádio com a capital do Império e chá de Moçambique.

A casa está em sossego, o senhor Jonas deve a esta hora estar a tratar dos pássaros no quintal que tanto ama.

Ela mostra-me algumas fotografias a preto-e-branco recentes, de que gosto muito.

Matilde, esposa de Jonas, tem andado doente.

Ambos quiseram garantir-nos que não há motivo para preocupações de maior, mas eu desconfio daquela tosse dela.

Passa o eléctrico nº 2210 no meu campo de visão mental.

27 de Maio de 1942.

Lei marcial em Praga.

No nosso pátio, o cedro acolhe aves friorentas: estranho Estio.

Sudetas, Checos.

Medidas draconianas.

Kurt, Franck.

Mleijnic Jaroslav, 1908; Novák Bohumil, 1900.

Vivo da atenção em papel & tinta.

Fantoches, criaturas do Grande Desumano.

Horas imemoriais: a História é um Trapo Negro Tinto de Sangue.

Corpos mal acordados em hospitais.

Fragmentos de granada, Heydrich todo rebentado por dentro leva dias a morrer, graças a Deus uma vez na vida.

4 de Junho de 1942, morte do Carniceiro de Praga.

Multitudinário pavor.

Noite em pleno dia todo o ano.

O Mal é Astuto; o Bem, não.

Os bichos da religião dominam a Rua.

Maurabezza, Cecília, Cora, Áreta.

Heroísmos e martírios, suicídios e eutanásias.

Tumbas lacrimogéneas, certos corações acordados.

Represália: recordação documentada.

Heróis exterminadores de Heydrich:

JOSEF GABLIK

JAN KUBIS

ADOLF OPALKA

JOSEF VALCIK

JAROSLAV SUARK

JOSEF BUBLIK

JAN HRUBY.

Traidor:

KAREL KURDA, filho-da-puta, cujo rosto aparece na televisão em nojo.

Enforcado por mérito próprio, libertada Praga.

Não sei quando voltaremos a oferecer o chá ao senhor Jonas.

Por enquanto, ela descansa um pouco com uma das gatinhas ao lado na cama.

Falámos um pouco da morte, hoje, de Raul Solnado, Actor, aos 79 anos.

Figura extremamente portuguesa – é o que me ocorre pensando nele.

Morreu de manhã, dizem que às 10h50, no Hospital de Santa Maria, em Lx. (o mesmo em que seis doentes ficaram cegos não se sabe porquê nem por quem).

Teve e deu grande representação em Balada da Praia dos Cães, filme de Fonseca e Costa.

Não conhecerá a noite que acaba de assentar praça no nosso quintal.

Vigoram já os candeeiros públicos, cúmplices da melancolia da hora.

Também é noite no Bairro Azul – e em Tavira – e em Abrantes – e em Vagos, onde mora agora o meu amigo Quico Correia.

A noite é a Nação mais próxima, agora que escrevo enquanto ela, no quarto com a mais velha das gatinhas, descansa de um dia trabalhoso.

Estou aqui e penso em séculos diferentes.

A televisão trabalha baixinho.

Vejo casas que não são daqui, visito cidades que nunca pude ver.

Ou vejo cidades e casas que nunca visitei.

29 de Abril de 1870 – inaugurado no Rossio de Lx. o monumento a D. Pedro IV.

S/d é o que aprendo, por Nemésio, ter o poeta Manuel Laranjeira desabado a Amadeo de Souza-Cardoso:

Os meus nervos? Mais serenos: uma tranquilidade pessimista. Marco Aurélio diria que eu estava no caminho da sabedoria.”

Bem posto: “…uma tranquilidade pessimista.”

Como também (muito) bem posto é isto seguinte do Professor Nemésio, à arte poética se referindo:

…actividade humana inutilitária e utópica, (…) a poesia (…)”

– pois, de facto e deveras.

A 17 de Dezembro de 1952, já o mestre açoriano (um dos maiores de sempre da Língua Portuguesa, sem dúvida alguma) lamentava, a propósito da morte de Teixeira de Pascoaes, que a obra do grande poeta amarantino andasse

publicamente nivelada com os subprodutos que gozam do favor e da ignorância colectivos.”

Pois – como tanta trampa da treta hoje, ainda e sempre.

Esta manhã, morreu Solnado, que não era poeta.

Disseram naturalmente bem dele.

Mas este é um País relapso e contumaz no crime da ignorância.

Para mais, cada vez mais pimba: ou seja, orgulhoso de ser ignorante.

O senhor Jonas concordaria comigo.

Tenho de lhe ler isto quando ele vier para o chá, se vier – e a esposa com ele, pobre D. Matilde Pascoaes.

Aliança

© Sandra Bernardo

Castelo de Pombal, tarde de 8 de Agosto de 2009




Souto, Casa, tarde de 11 de Agosto de 2009




Aliança cinestesia/sinestesia: mais do que possível, preclara, precípua.
Vibra, meu corpo, antes que se faça noite em a tua vesperal condição.
Quero-me agora mais digo: mais dentro do ter vindo
vidro.
Lojas, armazéns, áleas de pedra, estrelícias, outonais promoções, nomes-datas, relicários e voltas litorais, pastelinhos tenros, cães públicos e mulheres sem sexo por fora, crianças absortas, azulejos com dizeres: pretendo tudo olhar com a língua.
Pacato pacto – deveras.
Deveras este homem plantado onde fui menino e venha a ser velho sem ter sido antigo, ai de nós.
Quando te digo

Atrás da casa as figueiras,

tu re(per)cebes-me, e não és unívoco, como o não são

a casa, as figueiras,

pois que é fundo o mundo.
Manhã muito cedo, ingerida uma quantia de leite fresco, o navegador do dia estende suas velas verticais ao vento tremendo.
Eis-nos (n)esse homem à bolina.
Dentro, como membranas batendo portas e caixilhos, páginas por ler.
Candelabros glabros, viciosos palácios de palingenesia
(aqui-posto-de-escuta).
Quando acontecem novas coisas no passado, percebes?, quando há futuros por estrear no passado – eu preciso de uma aliança nova.
Sangrar para sagrar, compreendes?
Esta é uma tarde nº 11 mais, telefonou-me o João Saraiva Pinto, falámos de Nemésio e de bocados de horas distintas como vidros caídos à água.
E um luxo de lixos muitos, no trapézio opala do Mário de S.-C. um pouco antes de amanhã em Paris.
Uma aliança com essa gente-mármore, essa palombina galeria de datas, alburno-borne ebúrneo, idade/ecceidade.
Língua barbatanatológica, minha vida.