
terça-feira, julho 21, 2009
O Texas É Diferente

segunda-feira, julho 20, 2009
Até na Montanha o Ar Cheira a Barcos - informações para fazer placas de beira-estrada

domingo, julho 19, 2009
UM POUCO ANTES DE AMANHÃ (20-21)

UM POUCO ANTES DE AMANHÃ (19)
© Brunelleschi
19
Pombal, tarde e entardenoitecer de 15 de Julho de 2009
Esta tarde estou aqui para ser feliz sem pressa.
Convivi com a poesia de Eugénio de Castro (Camafeus Romanos, 1921), ligação que me deu prazer e construção.
Também pude ouvir música, comer pêssegos, escrever para o semanário O Ribatejo, ver The Simpson, tomar um sol refrescado de brandíssimos favónios.
De madrugada li linhas e versos de António Duarte Bento e de João Camilo, estive vivo com calma, senti a serenidade qie decorre da desimportância.
Conversei um pouco com a minha filha Leonor.
Ao telefone, disse-me coisas dela, preciosas todas para mim - a começar por ela e a acabar nela.
Estou pronto.
Decorre a sessão de formação de formadores da formação (ena!) profissional - e eu estou pronto para aproveitar à mão tudo quanto à linguagem ocorrer.
Uma possibilidade é a construção de máquinas, como
a maravilhosa máquina (m. m.) de sobressaltar senhoras em aparato de bandeiras amarelas;
a m. m. de verificar bolsas de pus em frases rosissorridentes;
a m. m. de picotar pescoços com garfos de açúcar;
a m. m. de traduzir em telha verde franco-escocesa certo olhar azul a Sul;
a m. m. de fritar meninas-dos-olhos sem manómetro nem lobo temporal;
a m. m. de recortar celofanes fílmicos para exibições de feira-popular;
a m. m. de superar excessos de familiaridade e/ou de rancor;
a m. m. de avaliar produções oníricas com critérios dentados;
a m. m. de empalhar cegonhas em pleno voo nos meses de fevereiro a junho;
a m. m. de laquear menstruações oratórias em adros de igrejas;
a m. m. de testar arritmias à base de codornizes em polpa de pêssego;
a m. m. de despentear macacos glabros em pântanos;
a m. m. de aparar bebés vernícomos;
a m. m. de pingar lábaros de ouro a partir de orelhas sujas de sangue;
a m. m. de complexificar colunas de fumo em tornados de noticiário;
a m. m. de nortamericanizar a vida em verdadeiro-ou-falso, falso sobretudo;
a m. m. de alimentar bombeiros pelo nariz;
a m. m. que obriga tudo a ser o que puder um pouco antes de amanhã;
a m. m. de desenterrar mortos sem avisar nem as famílias nem as finanças;
a m. m. de topar optometristas numa multidão de final-da-Taça;
a m. m. de fazer amor sem conhecer ninguém;
a m. m. de distribuir carruagens metropolitanas pelos mais pobrezinhos;
a m. m. de redimensionar os avós à escala dos super-heróis da Mattel;
a m. m. de chamar clinteastwood-clinteastwood ao primeiro que se mexer;
a m. m. de grelhar peixes ainda não nascidos;
a m. m. de convencer os ciganos de que há mais música além da cigana;
a m. m. de apanhar em flagrante a alma de Eça de Queiroz em aparato de bandeiras amarelas;
a m. m. de ofuscar mapas com bicos-de-lacre importados do Cacém;
a m. m. de pulverizar adeptos da bola em estações de serviço;
a m. m. de coser insígnias de organdi a senhoras também de organdi como a Nini;
a m. m. de atribuir aos mortos as virtudes mais insuspeitas;
a m. m. de escrever versos por encomenda do Governo;
a m. m. de apostrofar moscas com vírgulas-altas e/ou guardanapos de chapa;
a m. m. de dar a conhecer a toda a gente a Mãe do nosso Melhor Amigo;
a m. m. de rechupar soro de gasolina sem baixar a mandíbula;
a m. m. de trocar a memória por uma caixa de gouaches;
a m. m. de envernizar técnicas psicomotoras para isto e para aquilo;
a m. m. de resistir à fadiga dos outros com uma insensibilidade monstruosa;
a m. m. de desgastar topógrafos divorciados que não venham nas páginas-amarelas;
a m. m. de pintar páginas-amarelas de outra cor;
a m. m. de re-unir os Beatles que ainda há para lhes dar canetas;
a m. m. de defecar em dois máquedónaldes ao mesmo tempo;
a m. m. de penalizar santos-de-ao-pé-da-porta;
a m. m. de impedir que as vizinhas parturientes dêem à luz vanessas e tatianas;
a m. m. de entrar em todo o lado sem convite nem necessidade;
a m. m. de causticar os corações mais hidroeléctricos;
a m. m. de juntar cem pessoas sem ter de lhes chamar nomes;
a m. m. de vender tapetes até a marroquinos;
a m. m. de atormentar ínsuas com recordações da infância;
a m. m. de reciclar botinas de calfe em bifes de papel de jornal;
a m. m. de aferir os pénis dos que nunca acertam nas naftalinas de urinol:
a m. m. de ensinar a cantar como Jussi Björling;
a m. m. de subjectivar as naturezas-mortas de um século futuro (um qualquer, se o houver);
a m. m. de taquigrafar baterias tocadas por manetas da Grande Guerra;
a m. m. de recolher restos de comida das dentaduras dos mortos;
a m. m. de irrigar com cidra reuniões as mais adustas de executivos de fábricas de mosaicos;
a m. m. de disparar peidos sem ser com a boca;
a m. m. de forrar ventríloquos com criadas-de-fora;
a m. m. de colar pelas costas os melhores momentos vividos na Bélgica;
a m. m. de recuperar ou António Duarte Bento ou Antonin Artaud para a realidade;
a m. m. de champselysear qualquer ruela de província;
a m. m. de comentar tudo sem resquício algum de imprecisão derivada da inconsciência;
a m. m. de calibrar a pus as moças tatianas e vanessas;
a m. m. de obliterar antigas cartas-de-condução sem aviso-de-recepção:
a m. m. de cooperar com as autoridades sem ter de abandonar a retrete;
a m. m. de filtrar ansiolíticos com um mosquiteiro todo cagado;
a m. m. de chupar com a cultura-geral dos completamente ignorantes;
a m. m. de evitar o mês em que vêm mais emigrantes de férias religioso-fogueteiras;
a m. m. de frequentar cursos de filoxera com final aproveitamento de míldio;
a m. m. de revisitar os Amigos de Alex numa paróquia-perto-de-si;
a m. m. de tender para a estupidez urbi-et-orbi;
a m. m. de desfraldar criancinhas nórdicas dadas à metadona;
a m. m. de confiscar cerejas a grávidas judias que não gostem de canja de galinha;
a m. m. de espremer cítaras com Limpa-Metais-Coração;
a m. m. de manifestar interesse em cerimónias etíopes;
a m. m. de tossir em velórios lusitanos;
a m. m. de traduzir emoções em tremoços;
a m. m. de formar estivadores com apetências estruturalistas;
a m. m. de apanhar Salman Rushdie quando não chove;
a m. m. de trazer nêsperas de Barcelos sem ser na barriga;
a m. m. de copiar as defesas completas do Sporting entre 1963 e 1978;
a m. m. de raspar caravelas com um x-acto de marfim;
a m. m. de agredir ideias à saída de Tondela-Molelos;
a m. m. de estripar outra vez as putas mais pobres de Whitechapel;
a m. m. de polir unhas de pés com bastões-chilenos-de-11-9-1973;
a m. m. de arranjar pretextos poliglotas para dormir com alguém mudo;
a m. m. de obter livres-trânsitos para feiras internacionais de hermenêutica;
a m. m. de ganhar vantagem com a simples repressão de um dedo;
a m. m. de lançar dados quando a fortuna ajuda;
a m. m. de perguntar onde é o Lidl a meio de uma regata fluvial;
a m. m. de aceder ao segredo-dos-deuses numa campina agnóstica até aos dentes;
a m. m. de arrulhar amarelos como os canários mais icterícios;
a m. m. de evitar mísseis intercontinentais sem ter de abandonar a retrete;
a m. m. de ensinar Guerra Junqueiro ao Jack Nicholson e à Nicole Kidman;
a m. m. de arrancar louvores póstumos aos mitterrands de serviço à Pátria;
a m. m. de deixar o sentido da vida em paz para sempre;
a m. m. de jogar às escondidas com o Stevie Wonder;
a m. m. de instruir dálmatas na condução de catrapilos;
a m. m. de orizicultivar plantações de esparguete;
a m. m. de decidir ao contrário do que era inesperado;
a m. m. de reproduzir a extenso a brevidade da existência;
a m. m. de pulverizar mosquitos em Trancoso;
a m. m. de trigonomedir alucinações de raiz psicotrópica;
a m. m. de resumir travessias do Canal da Mancha em linguagem gestual;
a m. m. de capacitar um normando da imprescindibilidade do litoral;
a m. m. de rebentar aloquetes com a ponta da língua;
a m. m. de pintar postos de turismo com licor-de-café;
a m. m. de aludir sem ser sexualmente à potestade da Rainha;
a m. m. de eucaliptar o caminho de regresso a casa dos bêbados;
a m. m. de impingir cachecóis do Belenenses a pessoas do Fundão;
a m. m. de reflectir ecos do Joselito em películas do Cantinflas;
a m. m. de enumerar cebolas mesmo que chovam prospectos de espíritas afro-brasileiros;
a m. m. de trazer o Nick Cave à baila a todo o custo;
a m. m. de desflorar ostras em cumes eólicos de todos;
a m. m. de trocar uma ida ao circo por uma oportunidade perdida;
a m. m. de amestrar babuínos na colonização de Nova Amesterdão
e
a m. m. de sermos todos felizes em tão pouco quão tudo isto.


