terça-feira, julho 21, 2009

O Texas É Diferente


Souto, Casa, noite de 14 de Julho de 2009



Nada posso fazer já por Eugene Weidmann.
Nunca pude, não poderia nunca fazer o que fosse por Eugene Weidmann.
Nem por ele, setenta anos depois dele guilhotinado em Paris, nem por qualquer dos muitos decapitados vivos da ex-Jugoslávia da década última do último século.
Quando às vezes penso na minha vida, esclarece-se-me sem peias o quão nada posso fazer pela morte senão deixá-la ser pelos caminhos um lobo magro, ávido, perdido de amor por todos nós.
Se me recordo, é com a língua.
Se, mesmo não olhando, vejo, é com a língua.
Não posso andar aqui pela vida a ser estúpido como um texano, posso mas não devo andar aqui pela vida a ser estúpido como um texano.
Também não hei-de ir a Vukovar, sítio onde talvez em tempos tenha havido uma paz matraqueada de escolas de dactilografia, como as havia no meu tempo, em Coimbra, em frente à Império, por exemplo, perto da Estação Nova e do Café Angola.
Sempre ter sabido o que não queria nem por isso me propiciou querer bem ao que desejava.
Meia dúzia de nomes - e meia dúzia de sítios cada vez mais interiores na cabeça.
A Europa, claro, é feita também de alemães com meias dentro de sandálias longas e largas como cargueiros, e de rapazes holandeses sentados no chão com violas e raparigas, e de portugueses que foram daqui erguer paredes e abrir valetas.
O Texas é diferente, suponho que preferem a cadeira eléctrica ou a injecção letal à guilhotina libertária e a Mozart.

segunda-feira, julho 20, 2009

Ivan Milat e Guy Georges




Eugene Weidmann


Até na Montanha o Ar Cheira a Barcos - informações para fazer placas de beira-estrada


© Cindy Sherman
Untitled Film Still #48 (1979)



Souto, Casa, noite de 19 de Julho de 2009



1

Da estrada, chega o rumor do metal, da borracha e da humanidade em trânsito.
A noite parece a última nação possível.
Sei que as pessoas são importantes, que cada uma desembrulha a vida como pode e sabe, não sei mais que isto - nem da vida, nem das pessoas.
No rigor do Inverno, vivi já uma espécie de aura, algo como uma felicidade municipal, uma idade do ouro sem anéis.
Veio então o tempo de partilhar a humidade das pensões, as carreiras rurais a bordo de um autocarro que prometia mas não cumpria desconjuntar-se nas curvas.
No meu sono, recuperei pessoas de que me perdi.
Tive vinte anos, depois mais vinte, mais vinte possa contar ainda, à beira da estrada.



2

Talvez saiba também que há pessoas sozinhas até por dentro.
Espairecem como podem, até na montanha o ar cheira a barcos.
Cavalheiros do asfalto urinam ao frio sob as árvores da berma da estrada.
As bandeiras usam cordas para subir como os enforcados.
Em salas frias, casais antiguecem uns contra os outros.
Na cozinha, alguém descasca e corta cebolas, um naco de carne e um alguidar com peixes esperam as mãos cabeludas do cozinheiro.
Motéis sozinhos de entreposto de artesanato e estações de serviço luzem na progressiva via da noite.
Garrafas-termos com café amparam os caixas das portagens até que seja manhã.
Raparigas de bar aventalam mamas fartas, trocam prazenteiras obscenidades com os motoristas de longo curso.
A ponte pulsa rubis altos para avisar os aviões de que há terra um dia - e água sempre.
Mesas atoalhadas de quadrículas vermelhas e brancas suportam copos, travessas com restos de cozinha, fragmentos de pão, caroços de azeitona, facturas traçadas com rapidez por uma mão cansada.



domingo, julho 19, 2009

UM POUCO ANTES DE AMANHÃ (20-21)

© Eadweard Muybridge
Ascending stairs (1884- 85)


20

Pombal, tarde e entardenoitecer de 17 de Julho de 2009

Billie Holiday morreu há precisamente 50 anos, reza a efemeridade, digo: a efeméride.
Há coisa de 70, foi a última execução pública em França: a guilhotina mostrou-se ao estimado público pela última vez.
Eugene Weidmann foi o criminoso executado.
A cerimónia letal foi filmada de um apartamento.
Parece que a euforia da multidão levou o Presidente a proibir execuções públicas dali em diante.
A guilhotina passou a decapitar muros adentro, salvo erro até 1977.
A pena de morte em França acabou em 1981, salvo erro também.
Os crimes continuam, pourtant: é lembrar a Besta da Bastilha, Guy Georges.

Como de costume, todo o dia circulei pelos corredores da cabeça.
Ao almoço (tardio), tive ajuda do caldo de legumes 8fino, perfumado, fácil, temperado, cooperante), da salada de atum (com pepino, tomate, alface, cebola, orégão, ovo cozido, maionese, uma sugestão de feijão-frade, das duas quadrículas de pão integral descrostado, do copo de água pingada de lágrimas de limão, da chávena azul olhando o olho de café muito negro, irresistível, humanitário, profundo, aromado de psicologia, sem açúcar.
Pela tardinha, o mundo deu-se a refrigério: o favónio dá-se todo aos campos, o sol é quase frio, não parece Julho, Abril mais que Julho, fiz bem em sair de camisola (deu-ma a Fernanda do César pelo Natal do ano passado) em vez de camisa, está-se apesar de tudo bem, desde que dê para ler e escrever.
O tempo é propício: o crono como o meteorológico.



21

Pombal, manhã de 18 de Julho de 2009

Guy Georges.
Ivan Milat.
Nomes de séri'assassinos, o primeiro em França, o outro na Austrália.
Identidades finalmente reveladas do horror, da força da catástrofe individual ramificando a metástase do desespero às famílias das vítimas e da sociedade.
As vítimas, delas o holocausto agora televisivo, em quietas madrugadas de sofá.
As obsessões, as técnicas, as pulsões, as facas, os sítios, a Nação da Morte.
Guy Georges: La Bête de la Bastille,
Ivan Milat: The Backpack Murderer.
Como títulos de livros.

Como títulos de livros?
Sim.
Então, trabalho desta manhã: titular livros por haver:

A Expedição das Almas
Falha Final de Gustavo Quadros
Sentido da Solução Visionária
Explanação Polissensorial do Tópico Tempo
Tomismo e Alienação: o Custo da Infinitude
Petróleo para Todos Nunca Mais
Retirada da Manchúria
Parâmetros de um Plano de Sessão
Heurística do Cognitivo
A Abordagem
Como Parecer Feliz em Pastelarias
O Conde de Porto Santo
Lágrimas a Mais à Chegada
A Rendição Humana
Cronograma do Desvalido
Solicitação do Progresso em Pecúnia
Pecúnia e Malfeitoria: Um Matrimónio Fatal
O Inevitado
O Primo Usava Sabonetes
Dificuldade e Desvio em Aprendizagem à Distância
Processos de Heidelberga para Principiantes
Os Hermenautas
Chegada da Altura
Tudo ao Sol, Nada à Lua
Armand Galeville sem Ódios
Intenção de Matar
No Tempo dos Primeiros Ardores
Teste da Resignação Africana
Esta Noite não Sonhei Contigo
Como Fazer um Diagnóstico Eficaz sem Grandes Merdas
Seis Questões Presentes ao Futuro Próximo
Próximo Oriente, Próxima Crise
Um Banho de Sangue em Capri
Nice às Moscas
Plano a Plano por Lindbergh
O Balão
Sessões Espíritas e Pré-Requisitos Gnósticos
Situações e Limites da Marselha Gangster
A Noite no Porto: Pés Sujos e Bocas Foleiras
Simulação Sequencial da Alunagem
Rápidas Incursões na Savana
Asa Delta no Mekong
Esquecimento Prévio em Dívidas do Coração
Dois Grandes Recursos e um Urso Menor
As Ciclópicas
Cavalete Armado - Manual de Pintura Ociosa
Neurociência Aplicada a Brancos
Os Processos de Moscovo Voltam a Atacar
História Apolítica do Nixon e do Bugs Bunny
Mancha Gráfica dos Teutões do Início
Saber Antes, Esquecer Depois
O Perdão
Esclarecimento ao Futuro Morgadio
Lavagem de Dinheiro e de Criancinhas Indesejadas
Para um Ajustamento Humanista dos Produtos Febris
Pequenas Frustrações ao Longo do Curso
Durante este Rio
Ganhos Mínimos do Vendedor de Saleiros
Polícia Fiduciária: uma Necessidade dos Nossos Dias
O Pai
O Peixe
Sesimbra: Guia Secreto de Manuel Barata
O Interamnense Escalfado
Quinze a Vinte Minutos de Amor Louco
Depende da Hora do Dia
Ritmo Biológico do Indivíduo Matutino
O Protocolo Mãe-Filha
Questões do Método Expositivo ou A Minha Vida para Quem?
Três Demonstrações Activas em Orçamento Familiar
Estudo de Casos - Teoria, Aplicação e Sensaboria
A Revolução dos Costumes segundo o Dr. Deuxiéme
Paixão de Martim Froste por Gardénias
Lília Domingues e a Violação de Bicicletas
Demonstração da Psicomotricidade no Alentejo
Março e Abril de Anos Diferentes em Lisboa
Lisboa Paleolítica Hoje
Como Pedir Respostas em Anúncios Regionais
O Chouriço
Aroma Livresco, meu Fixador de Tempo
Alcochete para Quase Todos
Guia de Conversação Manchega
Noruega para Todos Mesmo
História dos Artelhos e dos Cotovelos
O Artilheiro Rançoso
Se me Deres uma França, dou-te um Beijo à Canadiana
Emigração Açoriana no XIX
Os EUA e Mais Nada e Mais Ninguém
A Galinha Dourada no Forno
O Cu de Kissinger
Coração Árctico
A Hora do Energúmeno
Evangelho de S. Gabriel Malaquias, o Tonto
Os Cornos são Nossos Amigos
Sem Semelhança nem Remédio
Conclusão dos Encontros
Acção e Reacção: a Química dos Desejos em Solteiro,
Polissemia das Fraldas mais Utilizadas em Word
Ambiente Necrotérico de Medellín
Sequestro Púbico
Roda Viva de Resultados Impraticáveis
O Convento de Seiça
Grelhas de Observação em Histologia
Dicotomia Numérica da Separação Conjugal
A Abordagem Flibusteira
O Tesouro de Guernica
O Besouro da Mafarrica
Qualidade e Pragmatismo dos Instrumentos de Avaliação
Selecções do Leitor Digestivo
Os Amigos da Tripa-Forra
Saudades da Academia: a Boémia dos Doutores da Mula-Ruça
Autoscopia do Mata-Palíndromos
Rigor da Neve
Um Domingo no Montana
O Escabeche
Outro Domingo em Almada
O Pechisbeque
Assinar X com o Dedo; Totobola e Salazarismo
Testes de Numismática
O Caraças
Curso Breve do Incinerador Funerário
Muitas Saudades do Bràziu
A Pequena Tragédia de Mofino Mendes Churchill
O Negativo do Descobrimento
Para uma Colónia sem Água
Tira os Óculos e Olha-me a Direito
Na Grelha do Zairense
O Totem Partido em Dois Lados
Dominação e Tirinhas de Cabedal: o Testemunho de Vanessa
Investigações Alemãs em Israel
Tirocínio do Punheteiro de Bacalhau
Elaboração de Campos de Futebol
Ornitologia de Duas Horas Bem Passadas
A Cotovia Rápida
Não Vás Contar à Madona
Estratégia da Metadona em Casa
Muitas Árvores por Razão Nenhuma
Quem Quer Facturas?
Aula Magistral e Última de Vasconcelos Júnior Pedro
Os Taratas
Socorrismo em Banho-Maria
In Imo Pectore de Mis Niños
Não Vás aos Ninhos Não
O Processo Histórico e o Retrocesso Histérico
Um Cigarro para o Condenado à Morte
Guy Georges e Ivan Milat: Duas Bestas de Merda
A Sedução dos Cornúpetos
Quadrilateração do Círculo Polar
O Pinguim
Três Momentos Agnósticos e Dois Diagnósticos
Com Base no Vosso Plano
Reflectir para Desaprender Nomes de Rios
O Apeadeiro
Mancha em Rede no McIntosh
A Maior Moção
A Maior Monção
Austro e Zéfiro em Munique
Prolongamento Diapositivo das Trevas Interiores
Controlar Acontecimentos Futuros: O que É a Planificação?
Datas em Mármore, nossas Irmãs
Calças Mal de Roupa como a Porra!
O Presidente das Pedras
Em Vidago uma Vez na Vida
Água Mineral, Termalismo e Violação Sebastianista
O Conde Maltrapilho
Protagonismo Insensato do Algoz
Salvar a Europa e o Corno de África
Modelismo para Marionetas, por Mário Neto
O Bacalhau à Brás não É à Bulhão Pato
A Osga
Como Roubar Ourivesarias sem Disparar um Tiro
Intenção Falaciosa da Testa Quadrada
Alberto Simões, Raça de Homem
Discriminar Crianças sem Favor
Não Esquecer My Lai
O Bambino Monocolor
A Amargura Hepática
O Trombone
Londres em Balão
O Cancro das Partes nos Gays e nos Houtros
Prevalência do Agente Patogénico
Uma Ida a Loures
O Inverno em Beja
Tu És ou não És Mãe de Família
Rebarba do Mal-Casado
Tarantantã a Diesel
Frases Certeiras para Casamentos e Baptizados
A Aula de Costura
Momento Fatal em Poesia Falada
O Bairro Alto nem por Sombras
Verd' Alma
Para uma Perdição com Algum Jeito
Fórum Telheiras de Ocasião
Mira-se Fotocópias
Ecologia do Disparate
Não Ter mais Nada que Fazer
O Canibal Arrependido
O Círio
O Bistrot Andaluz
Placas Esqueléticas e Brandos Costumes
Atenção e Concentração do Destinatário Míope
Bibliografia de Casas Mortuárias Oitocentistas
O Pêndulo de Bocage
O Princípio da Framboesa
A Canja e o Espaldar
O Pi
O Olho
O Piolho
Deveria Tudo Permanecer Comigo Deitado?
Auto do Estragão
Aspecto Belicoso e Fácies Ensonado
Calíope Seduz Mestre Galiano
As Vilosidades Intestinais de Enid Blyton
A Fêmea Crónica
Simplesmente Faria
Veludo
Ronca, Ronca, que Eu Estou-te a Ouvir
Punição entre os Templários: O Sem-Fim do Inexorável
Vocabulário das Mortadelas
Andam Lobos no Mar
Heróis Púnicos e Camafeus de Ferro
A Cofragem
O Homem que Desconheci de Mais
Café d'Alsace
A Lorena Gosta de Tranças
Fúrias Benditas
A Suíça é Noutra Secção
A Crosta
A Bíblia do Pantomineiro
Lei e Circunspecção Militares
O Arquipélago da Meia-de-Leite
Tanto Filho-da-Puta, Santo Deus!
Nectarina e Agripina
O Bocho
A Fonte dos Desamores
Não Separe o Casal Metalúrgico pelo Picotado
Metalurgia dos Bocas-de-Ouro
Estar como o Aço: Alcoologia Póstuma
Vicissitudes, Vícios e Atitudes
O Ducado de Berna em Selos
Reprografia do Tímpano
Eustáquio e Falópio, Criadores de Trompas
Facilitar o Corrimento É Preciso
António Calvário e a Meninice d'Outrora
O Resto da Chita
Agora Vem Tarde
Pacemakers e Rótulas de Titânio
Entrega de Domicílios com Talento
PIN, PUK e Password em Ambiente Hostil
A Rebentação das Águas à Nascente
A Portela do Mondego
A Tensão
As Altas Torres do Crepúsculo
O Rouxinol Atrabiliário
O Opúsculo Maduro
Magritte, Esponsal Habitado
O Anjo menos Tenebroso de Bilbau
Mesma Regra, mesmo Acerto
A Pousada da Tranquila Emancipação
Tanta Tinta Tonta, Tonta
Usando Camisas, os Quadrados
Pode Pedir-se a Dois, Nunca a Um
A Inexactidão
Uns Pós de Colômbia
Dilema no Equador
Se Alguma Vez por Engano
O Odor do Ódio
Especificar Operacionalmente
Fazer as Barbas de Molho
Grânulos de Chicória à Sevilhana
Uma Molhada de Grelos: Tratado Ginecológico
Arcaísmo do Fresco
O Cachorro de Giotto
Pundonor e Sicofância
Bel-Ami de La Rochelle
Gorilas Vis em Preparos Menores
O Dentro do Desespero
O Balão II
e
Zé Maria, Não me Rates, que Tua a Cem
.

UM POUCO ANTES DE AMANHÃ (19)

© Brunelleschi


19

Pombal, tarde e entardenoitecer de 15 de Julho de 2009



Esta tarde estou aqui para ser feliz sem pressa.

Convivi com a poesia de Eugénio de Castro (Camafeus Romanos, 1921), ligação que me deu prazer e construção.

Também pude ouvir música, comer pêssegos, escrever para o semanário O Ribatejo, ver The Simpson, tomar um sol refrescado de brandíssimos favónios.

De madrugada li linhas e versos de António Duarte Bento e de João Camilo, estive vivo com calma, senti a serenidade qie decorre da desimportância.

Conversei um pouco com a minha filha Leonor.

Ao telefone, disse-me coisas dela, preciosas todas para mim - a começar por ela e a acabar nela.

Estou pronto.

Decorre a sessão de formação de formadores da formação (ena!) profissional - e eu estou pronto para aproveitar à mão tudo quanto à linguagem ocorrer.

Uma possibilidade é a construção de máquinas, como

a maravilhosa máquina (m. m.) de sobressaltar senhoras em aparato de bandeiras amarelas;

a m. m. de verificar bolsas de pus em frases rosissorridentes;

a m. m. de picotar pescoços com garfos de açúcar;

a m. m. de traduzir em telha verde franco-escocesa certo olhar azul a Sul;

a m. m. de fritar meninas-dos-olhos sem manómetro nem lobo temporal;

a m. m. de recortar celofanes fílmicos para exibições de feira-popular;

a m. m. de superar excessos de familiaridade e/ou de rancor;

a m. m. de avaliar produções oníricas com critérios dentados;

a m. m. de empalhar cegonhas em pleno voo nos meses de fevereiro a junho;

a m. m. de laquear menstruações oratórias em adros de igrejas;

a m. m. de testar arritmias à base de codornizes em polpa de pêssego;

a m. m. de despentear macacos glabros em pântanos;

a m. m. de aparar bebés vernícomos;

a m. m. de pingar lábaros de ouro a partir de orelhas sujas de sangue;

a m. m. de complexificar colunas de fumo em tornados de noticiário;

a m. m. de nortamericanizar a vida em verdadeiro-ou-falso, falso sobretudo;

a m. m. de alimentar bombeiros pelo nariz;

a m. m. que obriga tudo a ser o que puder um pouco antes de amanhã;

a m. m. de desenterrar mortos sem avisar nem as famílias nem as finanças;

a m. m. de topar optometristas numa multidão de final-da-Taça;

a m. m. de fazer amor sem conhecer ninguém;

a m. m. de distribuir carruagens metropolitanas pelos mais pobrezinhos;

a m. m. de redimensionar os avós à escala dos super-heróis da Mattel;

a m. m. de chamar clinteastwood-clinteastwood ao primeiro que se mexer;

a m. m. de grelhar peixes ainda não nascidos;

a m. m. de convencer os ciganos de que há mais música além da cigana;

a m. m. de apanhar em flagrante a alma de Eça de Queiroz em aparato de bandeiras amarelas;

a m. m. de ofuscar mapas com bicos-de-lacre importados do Cacém;

a m. m. de pulverizar adeptos da bola em estações de serviço;

a m. m. de coser insígnias de organdi a senhoras também de organdi como a Nini;

a m. m. de atribuir aos mortos as virtudes mais insuspeitas;

a m. m. de escrever versos por encomenda do Governo;

a m. m. de apostrofar moscas com vírgulas-altas e/ou guardanapos de chapa;

a m. m. de dar a conhecer a toda a gente a Mãe do nosso Melhor Amigo;

a m. m. de rechupar soro de gasolina sem baixar a mandíbula;

a m. m. de trocar a memória por uma caixa de gouaches;

a m. m. de envernizar técnicas psicomotoras para isto e para aquilo;

a m. m. de resistir à fadiga dos outros com uma insensibilidade monstruosa;

a m. m. de desgastar topógrafos divorciados que não venham nas páginas-amarelas;

a m. m. de pintar páginas-amarelas de outra cor;

a m. m. de re-unir os Beatles que ainda há para lhes dar canetas;

a m. m. de defecar em dois máquedónaldes ao mesmo tempo;

a m. m. de penalizar santos-de-ao-pé-da-porta;

a m. m. de impedir que as vizinhas parturientes dêem à luz vanessas e tatianas;

a m. m. de entrar em todo o lado sem convite nem necessidade;

a m. m. de causticar os corações mais hidroeléctricos;

a m. m. de juntar cem pessoas sem ter de lhes chamar nomes;

a m. m. de vender tapetes até a marroquinos;

a m. m. de atormentar ínsuas com recordações da infância;

a m. m. de reciclar botinas de calfe em bifes de papel de jornal;

a m. m. de aferir os pénis dos que nunca acertam nas naftalinas de urinol:

a m. m. de ensinar a cantar como Jussi Björling;

a m. m. de subjectivar as naturezas-mortas de um século futuro (um qualquer, se o houver);

a m. m. de taquigrafar baterias tocadas por manetas da Grande Guerra;

a m. m. de recolher restos de comida das dentaduras dos mortos;

a m. m. de irrigar com cidra reuniões as mais adustas de executivos de fábricas de mosaicos;

a m. m. de disparar peidos sem ser com a boca;

a m. m. de forrar ventríloquos com criadas-de-fora;

a m. m. de colar pelas costas os melhores momentos vividos na Bélgica;

a m. m. de recuperar ou António Duarte Bento ou Antonin Artaud para a realidade;

a m. m. de champselysear qualquer ruela de província;

a m. m. de comentar tudo sem resquício algum de imprecisão derivada da inconsciência;

a m. m. de calibrar a pus as moças tatianas e vanessas;

a m. m. de obliterar antigas cartas-de-condução sem aviso-de-recepção:

a m. m. de cooperar com as autoridades sem ter de abandonar a retrete;

a m. m. de filtrar ansiolíticos com um mosquiteiro todo cagado;

a m. m. de chupar com a cultura-geral dos completamente ignorantes;

a m. m. de evitar o mês em que vêm mais emigrantes de férias religioso-fogueteiras;

a m. m. de frequentar cursos de filoxera com final aproveitamento de míldio;

a m. m. de revisitar os Amigos de Alex numa paróquia-perto-de-si;

a m. m. de tender para a estupidez urbi-et-orbi;

a m. m. de desfraldar criancinhas nórdicas dadas à metadona;

a m. m. de confiscar cerejas a grávidas judias que não gostem de canja de galinha;

a m. m. de espremer cítaras com Limpa-Metais-Coração;

a m. m. de manifestar interesse em cerimónias etíopes;

a m. m. de tossir em velórios lusitanos;

a m. m. de traduzir emoções em tremoços;

a m. m. de formar estivadores com apetências estruturalistas;

a m. m. de apanhar Salman Rushdie quando não chove;

a m. m. de trazer nêsperas de Barcelos sem ser na barriga;

a m. m. de copiar as defesas completas do Sporting entre 1963 e 1978;

a m. m. de raspar caravelas com um x-acto de marfim;

a m. m. de agredir ideias à saída de Tondela-Molelos;

a m. m. de estripar outra vez as putas mais pobres de Whitechapel;

a m. m. de polir unhas de pés com bastões-chilenos-de-11-9-1973;

a m. m. de arranjar pretextos poliglotas para dormir com alguém mudo;

a m. m. de obter livres-trânsitos para feiras internacionais de hermenêutica;

a m. m. de ganhar vantagem com a simples repressão de um dedo;

a m. m. de lançar dados quando a fortuna ajuda;

a m. m. de perguntar onde é o Lidl a meio de uma regata fluvial;

a m. m. de aceder ao segredo-dos-deuses numa campina agnóstica até aos dentes;

a m. m. de arrulhar amarelos como os canários mais icterícios;

a m. m. de evitar mísseis intercontinentais sem ter de abandonar a retrete;

a m. m. de ensinar Guerra Junqueiro ao Jack Nicholson e à Nicole Kidman;

a m. m. de arrancar louvores póstumos aos mitterrands de serviço à Pátria;

a m. m. de deixar o sentido da vida em paz para sempre;

a m. m. de jogar às escondidas com o Stevie Wonder;

a m. m. de instruir dálmatas na condução de catrapilos;

a m. m. de orizicultivar plantações de esparguete;

a m. m. de decidir ao contrário do que era inesperado;

a m. m. de reproduzir a extenso a brevidade da existência;

a m. m. de pulverizar mosquitos em Trancoso;

a m. m. de trigonomedir alucinações de raiz psicotrópica;

a m. m. de resumir travessias do Canal da Mancha em linguagem gestual;

a m. m. de capacitar um normando da imprescindibilidade do litoral;

a m. m. de rebentar aloquetes com a ponta da língua;

a m. m. de pintar postos de turismo com licor-de-café;

a m. m. de aludir sem ser sexualmente à potestade da Rainha;

a m. m. de eucaliptar o caminho de regresso a casa dos bêbados;

a m. m. de impingir cachecóis do Belenenses a pessoas do Fundão;

a m. m. de reflectir ecos do Joselito em películas do Cantinflas;

a m. m. de enumerar cebolas mesmo que chovam prospectos de espíritas afro-brasileiros;

a m. m. de trazer o Nick Cave à baila a todo o custo;

a m. m. de desflorar ostras em cumes eólicos de todos;

a m. m. de trocar uma ida ao circo por uma oportunidade perdida;

a m. m. de amestrar babuínos na colonização de Nova Amesterdão

e

a m. m. de sermos todos felizes em tão pouco quão tudo isto.