terça-feira, julho 04, 2006

O Último Dia - teatro mínimo

PERSONAGENS:

Dário, um homem de sessenta anos
Hélia, uma mulher de setenta anos

ACTO ÚNICO:

Hora indefinida do dia e/ou da noite

CENÁRIO:

Um quarto-casa. À direita baixa, duas estantes-nichos, uma sobre a outra. Na de baixo, uma cafeteira azul de esmalte com flores de papel muito velhas. Na de cima, fotografias a preto-e-branco com rostos indistintos, brumosos. A seguir, subindo, do mesmo lado, uma lareira sem lenha onde um aquecedor eléctrico pequeno de duas resistências substituiria o lume se não estivesse desligado: a ficha, à vista do público, no chão aos pés da tomada. Nota: o mesmo com todos os apetrechos eléctricos em cena. À direita alta, uma banca de cozinha minimamente apetrechada. Um fogão pobre, branco, de esmalte, só de dois bicos. Por cima do lava-louças, o esquentador tem um aspecto queimado que sugere avaria irremediável. Ao centro-fundo, a cama de ferro do casal. Por cima da cama, o quadro do menino-que-chora. À esquerda alta, um roupeiro sem portas com roupas penduradas de um arame. Aos pés do roupeiro, uma arca de cartão com motivo escocês verde muito lascada. Maços de jornais e revistas. Sapatos e chinelos desirmanados. Apetrechos eléctricos imprestáveis. À esquerda baixa, uma porta. Ao centro da cena, uma mesa de cozinha de fórmica e duas cadeiras de igual material. Sobre a mesa da cozinha, um rádio de fio pendurado, inútil. Uma lâmpada nua suspensa na perpendicular, mas descentrada, sobre a mesa. No início, Dário está de pé, à esquerda; Hélia está sentada à direita, de costas para o centro e virada para a lareira apagada. Folheia um álbum de fotografias. As pretensas fotografias familiares são recortes de revistas.


Hélia (com um suspiro) O que estes meninos crescem, parece impossível…
Dário (de costas para ela, sem se virar) Hã?
Hélia O meu filho aqui na escola, parece ontem, parece uma miniatura dele mesmo, valha-me Deus.
Dário Não é boa coisa estar sempre no passado, mulher. Faz mal, acho eu que faz mal.
Hélia (em voz baixa) Como se tu alguma vez fizesses outra coisa, benza-te Deus. (Subindo a voz) De vez em quando, não faz mal nenhum. É o que o futuro nos deu.
Dário (virando-se para ela) Hã?
Hélia Felizmente, tenho-os aos dois bem. O meu Raul de mecânico de oficina e pagam-lhe ao fim do mês. E a Isabel lá fora.
Dário (aproximando-se da porta) Achas que chove hoje?
Hélia Vi o meu Raul há coisa de dois meses na cidade. Riu-se para mim com a boca toda. Ele ri-se com os olhos. Gosto quando ele faz assim.
Dário Pára lá com essa conversa do filho e da filha e dos filhos dos outros. Tás aqui tás a falar do teu falecido homem pai deles e lá vem a missa.
Hélia (voltando-se, fria e agressiva) Não te admito faltas de respeito. Estás avisado há muito tempo que não te admito faltas de respeito dessas.
Dário (encarando-a, mas de ao pé da porta) Estou farto de ser obrigado a resmoer no mesmo. Sempre a ir ter ao mesmo.
Hélia Estás ao pé da porta.
Dário Hã? O que é que queres dizer com isso, hã?
Hélia Que estás ao pé da porta. Quero só dizer que estás ao pé da porta.
Dário És bruta. Está-te na massa do sangue. És bruta. A pensão é tua, modos que podes falar como as rainhas, não é o que pensas?
Hélia Só não quero é faltas de respeito. Quais rainhas…
Dário (olhando as próprias mãos) Eu só queria falar do tempo. Se chove, se não chove. Ter uma conversa de gente. O que eu queria era só isso, ter uma conversa de gente. Quero lá saber de fotografias ou de mortos.
Hélia Ciúmes pode ser uma coisa boa como o sal. Mas demasiado faz mal.
Dário Hã? Qual sal? Vou mas é ver se está a chover, que merda esta!
Hélia Se saíres agora, esquece-te de voltares.
Dário (parando, sentando-se na cadeira ao centro) Eu falo-te alguma vez na minha filha? Eu falo-te alguma vez na minha filha para te moer, falo?
Hélia Não me mói que me fales da tua filha. Até gostava que me falasses dela.
Dário Gostavas era de ir lamber sabão.
Hélia Tenho setenta anos feitos. Não tenho de te ouvir falar assim, nem a ti nem a ninguém.
Dário Eu calo-me. O que me dói, eu calo-me.
Hélia Calas-te até a bebida te desarrolhar a boca. Depois é a conversa do costume.
Dário Não bebi nada hoje nem ontem.
Hélia Por isso é que torces as mãos e me faltas ao respeito. É por isso. Então sai e vai beber e deixa-me aqui. E esquece-te deste sítio.
Dário É tão bom estar no poleiro, não é, minha galinha velha? Tão bom receber uma merda de cinquenta contos e pagar as sopas e mandar no palácio, não é? Hã?
Hélia Homem, cala-te, por amor de Deus. Sai um bocado, a sério. Podes voltar depois. Faz isso, faz como quiseres. Quando estás assim, a tua boca fica mais suja do que o chão. Deixa-me ficar aqui ao lume.
Dário Eu também não quero guerras, Hélia. Só queria era começar outra vez.
Hélia Isso não pode ser. A vida não pode ser isso, não deixa. O futuro já está feito para a gente.
Dário Ainda temos algum tempo.
Hélia Olha à tua volta. Aqui dentro. Olha à tua volta: o que é que vês?

(Silêncio prolongado. Hélia de olhos fixos na lareira. Dário esgazeia em torno.)

Dário Achas que chove hoje?
Hélia (fecha o álbum, levanta-se, vai ao fogão) Vou fazer café. Só há do de frasco. Queres uma caneca dele?
Dário Com uma pinga de aguardente?
Hélia Sim, meu amor. Já mereces a tua pinga de bagaço. Pareces ter tudo controlado, finalmente: o ciúme, a raiva, o futuro, a chuva e o mais que vier de debaixo da cama ou da terra.
Dário Hélia, desculpa. Desculpa-me mais uma vez. Sou um gajo perdido. Tenho uma raiva qualquer contra quem não devo. Só aqui estás tu.
Hélia Tu também aqui estás, Dário. Também és suspeito.
Dário Hã?
Hélia Deixa. (Põe as chávenas e o frasco na mesa. Traz as colheres e o açúcar. Vai à arca e tira de dentro dela uma garrafa de aguardente) Não bebas pela garrafa. Não posso com isso. Nunca pude que fizessem isso à minha frente. Bebe pela chávena no fim do café.
Dário Sim, minha rainha.
Hélia As rainhas são mulheres como as outras.
Dário Achas que as rainhas também bebem café instantâneo?
Hélia Acho que sim, que devem beber. Só não acho que se juntem com electricistas de automóveis que não saibam consertar uma porcaria de um radiador que dê calor à casa.
Dário Ao palácio.
Hélia Quê?
Dário Elas vivem em palácios. Nunca viram uma casa por dentro, aposto. E um quarto destes, muito menos.
Hélia É tudo igual. No fim, é tudo igual.
Dário Achas que já chegámos ao fim.
Hélia Não há-de faltar muito.
Dário Não era uma pergunta.
Hélia Também não te estava a responder. (levantando a louça) Mas se mo tivesses perguntado, respondia-te que sim, que acho. Mas também acho que mais vale fingir que não.
Dário Eu queria ter-te conhecido antes dos filhos. Queria que essas fotografias todas fossem de filhos nossos.
Hélia Deus me livre.
Dário (ofendido) Hã? Porquê? Meto-te nojo?
Hélia (alheia) Tive algum tempo bom, apesar de tudo tive algum tempo bom.

(Silêncio. Hélia retoma o lugar sentado à lareira. Dário senta-se e levanta-se, inquieto, ciranda pela cena, mexe nos aparelhos eléctricos.)

Hélia Ainda cá ficas depois de mim.
Dário Não sejas parva. Isso é conversa parva.
Hélia Não tem mal nenhum. É como é.
Dário O que é que é como é?
Hélia (marcando as frases) Só gostava era de termos uma janela. Não precisava de ser para a rua. Bastava-me que fosse para trás. Sempre se via uma couve, ou se era de manhã ou de noite.
Dário Olha, querida, podíamos sair hoje. Ir ao café. Sempre víamos se era de dia ou de noite. Cheirar o ar, ver os candeeiros públicos. Ou ver as estrelas, que também são públicas.
Hélia (dura) Combinámos, não combinámos? Que espécie de palavra é a tua? Que espécie de homem és tu?
Dário (em falta) Hélia…
Hélia Combinámos, está combinado.
Dário Achas que o dinheiro de dois cafés nos vai fazer passar fome? Então tomas só tu, eu digo que não-me-apetece-nada-obrigado. Mas sempre saímos daqui um bocado. Isto abafa. Não temos uma janela, estamos sempre para aqui com os teus filhos e o teu falecido e isto e isto mesmo. Abrimos aquela porta e saímos. É de borla. Nem vamos à porcaria do café, pronto, Hélia! Hélia…
Hélia Já tomámos café. Já tomaste a tua aguardente. Queres mais, tens ali mais. Queres sair, sai tu. Já te disse até que se quiseres voltar, volta. Não quero estar sempre a fazer de carrasca, mas combinámos o que combinámos. O meu lugar é aqui. Se queres ter um lugar de homem, é ao pé da tua mulher. Se não tens palavra de homem, faço eu de homem também.
Dário (ofendido) Faz antes de rainha. É o que sabes fazer melhor.
Hélia Estou cansada. Deixa-me em paz.
Dário E eu quero ver luz, quero cheirar ar fresco.
Hélia O que tu queres, sei eu.
Dário (levanta-se e senta-se, desistindo) Está bem, não se sai. Fica-se aqui para sempre. Mete-se um papel debaixo da porta com os nossos nomes e as nossas datas. Só temos de escolher o último dia. Quantos são hoje? Sem janela, é difícil saber quantos são hoje, meu amor.
Hélia Disparates.
Dário Não, a sério. Nunca falei tão a sério. Dário Pereira, 8-5-1944 e Hélia Silva, 4-2-1934. Escolhe tu a outra data. Escolhe hoje. Só tens de saber quantos são hoje.
Hélia Pára com isso! Estás-me a assustar! Não te devia ter deixado beber aguardente.
Dário Diz-me quantos são hoje, ó meu amor reformado, ó guardiã do futuro e do passado que nem sabes a quantas andas, eh guardadora de pobres de espírito sem asilo nem filhas emigradas em França nem filhos mecânicos que se riem até aos olhos: queres que este seja o nosso primeiro último dia?
Hélia (levanta-se, dirige-se à arca, tira uma carteira de dentro dela) Toma dinheiro. Sai. Podes voltar, não tenhas medo. Tens a minha palavra de honra em como te deixo entrar em casa, venhas no estado em que vieres. Toma, leva a chave. Eu deixo-te entrar. Bebe o que quiseres. Mas agora pára com isso!
Dário (marcando as frases) Mas eu quero sair contigo. E voltar contigo. Homem e mulher, um casal de gente normal. Quero que a gente seja um casal normal de gente normal, homem e mulher.
Hélia E eu combinei contigo cada tostão. É pouco, mas dá se fizermos como combinámos fazer com cada tostão todos os dias de todos os meses.
Dário Não quero o teu dinheiro. Só queria que me dissesses quantos são hoje.
Hélia Não queres o meu dinheiro? Não tens onde cair morto, miserável!
Dário Aqui parece-me um sítio tão bom para cair morto como outro sítio qualquer, ó minha rainha… (aparentemente senhor da situação, mas à beira do colapso) Não tenho mas é onde cair vivo, Hélia.
Hélia (visivelmente constrangida) Desculpa, Dário. (Vai compor as fotos na estante-nicho. Muda a posição da cafeteira-jarra) Achas mesmo que estou sempre a falar no mesmo?
Dário Não. Acho que és uma mulher maravilhosa. Só queria ter tido filhos contigo e que Deus não tivesse de te livrar por causa disso. Queria mesmo. Não é coisa de macho nem de ciúmes.
Hélia É coisa de macho, mas gosto de ouvir. Aos setenta anos, ainda é agradável.
Dário Ainda gostas de mim?
Hélia Nesta idade, Dário?
Dário (batido) Hã? Nesta idade, como? Sim, nesta idade, por que não?
Hélia Às vezes, pergunto-me em que mundo é que andaste os teus sessenta anos todos. A sério.
Dário (desconfiado) O que é que queres dizer com isso?
Hélia Só o que disse. Não desconfies.
Dário (chocado, em plena incompreensão) Uma pessoa… És fria. És como o gelo.
Hélia A vida é assim. Sente-se ternura, mas o amor gasta-se. A ternura acaba por ser melhor, acredita.
Dário À merda mais a ternura!
Hélia Dário…
Dário És fria. És de pedra.
Hélia Pronto. Estou outra vez cansada. Sai daqui.
Dário És uma rainha de cinquenta contecos por mês: uma rainha de chinelas!
Hélia (ciranda em torno da mesa; senta-se na cadeira dele) O falecido pai dos meus filhos, sabes?
Dário Que se foda ele e tu e os teus filhos!
Hélia (ignorando, com visível esforço, as obscenidades de Dário; tom de solilóquio, virada para o público, olhar para cima, perdido) O falecido pai dos meus filhos. Também teve um tempo bom e deu-me um tempo bom. Era mecânico, pegou o gosto dos carros ao filho como se fosse a gripe. Tinha bons dentes em solteiro. Pareciam mais brancos na cara suja de óleo. Depois o tempo e as comezainas e o tabaco e o álcool estragaram-lhe os dentes, mas lembro-me sempre deles muito brancos, a gente lembra-se sempre como escolhe lembrar-se. Também me lembro das mãos dele com o pano de desperdício às voltas. Mãos de homem, feitas para segurar destes lados, levantando as costas, as minhas costas leves, feitas de cana. Foi pouco tempo, isso tudo. Demorou o tempo de o estar a contar agora. Foi dois anos? Não, o Raul e a Isabel têm vinte e um meses de diferença. Depois, ele ficou mau. Ou o que era mau nele tomou conta do resto. Eu depois disseram-me que a doença faz assim, que a doença é mesmo assim, que a culpa não é toda da vítima.(Dário senta-se no lugar dela à lareira apagada) O cancro na cabeça não o deixou escolher o último dia ou o primeiro, como tu pretendes fazer por causa das moedas dum café ou dois, comigo ou não, com aguardente ou sim. Ele não escolheu nada. Olha, safou-se disto: de me conhecer velha e reformada, a tirar vinte e seis contos de cinquenta para pagar quarto, água e luz, fora pão, café e aguardente, contando contigo, meu querido. Uma vez, chegou-me a casa riscado de sangue. Tinha sido despedido, pois pudera. Tinha-se metido por uma valeta num carro dum cliente. Os espertos concluíram logo que tinha sido do álcool. Quando souberam que era cancro no cérebro, vieram ao funeral. Estive para mandá-los à merda dentro da própria igreja. Nunca te contei isto, já está contado. Vamos sair? Sempre vamos sair? Acho que sempre me apetece o tal café.
Dário Não. Percebo.
Hélia (dirige-se a ele, põe-lhe as mãos nos ombros, acariciadora) Pobre homem. Pobres homens. Pensam que só eles é que têm contas a ajustar com o céu e com a terra e com o mar, não é, meu príncipe?
Dário Diz? Como?
Hélia Agora diz-me a tua história. Ao menos, podemos ficar os dois decentemente tristes. E depois, talvez eu concorde com essa coisa toda do último dia por baixo da porta. Ou talvez não. Vende-me lá o teu peixe, meu querido.
Dário Tu já sabes a minha história. Não tem piada nenhuma, a minha história.
Hélia Sei. (relance para o público) Mas há quem não saiba.
Dário (mesma posição “narradora” de Hélia, antes) É o normal do costume. O marido desta senhora, meu colega de oficina. Há muitos anos. Ela, boa de fazer farinha, a trazer-lhe o almoço ao trabalho. E eu fora da mulher num tempo em que divórcio nem palavra era. Uma vergonha para mim, um gozo para ele. Depois vi-o ficar esquisito, as dores de cabeça, a doença, falhar as reparações mais fáceis. Disfarçava comigo com bagaço e cerveja ao mesmo tempo quando mais lhe doía. E eu sempre com ele, sempre com ele. Sem ser por mal. Depois não há muito mais história. É a degradação. As pessoas usam roupa preta, os sinos tocam, as mulheres ficam livres como os táxis e envelhecem e nunca mais hão-de emprenhar de ninguém e é bem feita.
Hélia Chega perfeitamente, meu querido, minha ternura. Chega perfeitamente. Estiveste branquinho como um anjo.
Dário (sorrindo, pueril) Achas? Achas mesmo?
Hélia Acho. E também acho que devíamos sair os dois para tomar um café grande, um café royal!
Dário E eu conserto amanhã o radiador?
Hélia E tu consertas amanhã o radiador.
Dário Ou arranjo lenha.
Hélia Não, lenha é que não. Mais dez tostões de luz não atrasam. E o verão está à porta.
Dário Achas mesmo?
Hélia Que o verão está à porta?
Dário Sim.
Hélia Acho que tudo está à porta.
Dário Vamos ver?
Hélia Vamos.

(Vão ao roupeiro. Vestem os casacos. Não saem. Sentam-se cada um em sua cadeira. Luz diminui gradualmente até escuridão total. Assim o tempo suficiente até confusão do público, que aplaudirá confundindo com FIM. Regresso também gradual e lento também da luz. Dário está sentado à lareira, na posição que era de Hélia. Hélia está de pé junto à cama, terminando o gesto de benzer-se.)

Hélia Não vens deitar-te? Está frio. Está muito frio.
Dário Vou já. Amanhã conserto mesmo esta porcaria de radiador. Ou arranjo lenha. Costumam deixar bons bocados de madeira nas obras, não lhes hão-de fazer falta nenhuma.
Hélia Não, não faças isso, ainda te apanham e é uma vergonha. Lenha, não. Conserta mas é o radiador. Não te há-de custar nada. (Som de sinos gravados de igreja perto: música de “A 13 de Maio na Cova da Iria…”). É tarde.
Dário Já nem sei se ainda sei fazer isso, já lá vai tanto tempo.
Hélia Já tudo lá vai há tanto tempo, Dário, não podemos ligar a isso. Não há-de ser por isso que não sabes. As mãos não esquecem.
Dário As mãos não quê?
Hélia As mãos não esquecem. A cabeça esquece, mas as mãos não. Ainda no outro dia estive a falar disso com…
Dário A tua cabeça nunca esquece coisa nenhuma. E o que não esquece, inventa.
Hélia Benza-te Deus.
Dário Só cá faltava esse.
Hélia Não o Ofendas. Nem a mim, já agora.
Dário Preciso de falar de outras coisas. Precisamos os dois.(Luz geral diminui. Foco vermelho sobre Dário. Hélia apenas silhueta, em contraluz. O mesmo a seguir, mas vice-versa, quando a fala for de Hélia e o silêncio de Dário)
Hélia (em contraluz) Talvez sim. Exemplifica.
Dário A 6 de Abril de 1974, num estádio cheio de cabelos e cigarros sem filtro, a versão Deep Purple com Coverdale/Hughes enfrenta a multidão com pleno sucesso.
Hélia Com o sacro triunvirato Blackmore/Paice/Lord?
Dário Isso. Esses todos. Eu não estava lá. Devia estar na oficina com o teu falecido. Éramos moços. Jovens. Era tudo tão cedo, que nem se sabia se era de manhã na nossa vida ou não. Tudo era possível, mesmo assim. Mudar de oficina, ir para o Luxemburgo, não emprenhar ninguém. Ir ver um filme. Comprar uma máquina fotográfica para registar o que se tornava ontem a olhos vistos.
Hélia (sentada na beira da cama, jogo de luzes inverso como indicado) No próprio instante, a possibilidade não é futura, é imediata. Logo, não é possível, mas instantânea. Eu gostaria de perceber Henry James, que era músico de senhoras e cavalheiros sós. Algum jardim onde tomar chá e apreciar a correria sexual dum podengo. Se outra fosse a vida. Se ainda falássemos assim um pouco mais.
Dário Também podemos, um pouco apenas mais. Um sopro de outra gente falando por nós. Sei dizer um poema, não sei como sei, mas sei.
Hélia Di-lo, amor.
Dário Vem de um sonho. Espera, não é ainda o poema. É a explicação dele. Sonhei uma coisa. Se soubesse escrever, teria escrito isto. Ouve:

Um tempo para perceber a pele do ar
Uma oportunidade nova como uma sala azul
Um desejo não obsceno uma mulher que o quisesse
E não perguntasse e só estivesse.



Hélia É um poema, realmente. Não é para perceber. Eu preferia não saber nem escrever nem sonhar. Torna-se monótono ser a desejada. A tal rapariga vestida de azul no tal comboio. Não me importaria de substituir todo o álbum de falsas fotografias de família por algo como um cesto de conchas, uma lata de bonecos de jazz, uma litografia de Jesus no Monte das Oliveiras, uma praia da República Dominicana fotografada em Cuba para que os americanos de cima não soubessem disso.
Dário Substituir?
Hélia Por outras palavras. Antes que a vida acabe, termos outras palavras em casa. Como brinquedos, outras palavras por toda a casa. Palimpsesto. Ónus. Revérbero. Podengo. Blackmore. Bivalve. Radiador.
Dário Eu trato dele.
Hélia Não. Olha só a palavra. A palavra que cheira a queijo antes do queijo ou a flor do monte antes da flor do monte. Um concerto antigo dos Deep Purple, como dizias agora.
Dário Há a versão da banda com Glover/Gillan. É outra coisa, o timbre é outro.
Hélia Sim. Essas coisas deixam conhecer-se. Há acesso a elas, noutra vida, noutros dias que não sejam tão últimos quanto este. Mas, daqui a pouco, meu príncipe, perdemos a noção, vamos perder de novo esse conhecimento mundial. Voltaremos para junto de nós, à frentatrás. Nem medo tenho. Só frio. E é tarde. Não vens deitar-te? Está frio, está tanto frio.
Dário Daqui a pouco, quando nos perdermos.
Hélia Gostei do poema. É teu?
Dário É de outra pessoa, é doutro sonho. Não é a mesma coisa. Não sei se vou saber consertar o radiador, Hélia. Está frio e eu estou cansado amanhã.
Hélia Às vezes, vejo-te e és só um pobre homem. Outras vezes, és só um homem pobre.
Dário Eu olho-te. Acho que não te vejo.
Hélia É o momento em que poderiam bater à porta. Viriam para nos salvar. Uma ambulância, um filho rico vindo do futuro para que não passássemos frio, um músico, uma lufada de ar fresco pela janela. Achas que podemos mesmo escolher o último dia?
Dário O último dia foi o dia 6 de Abril de 1974. Califórnia Jam. Penso que vou ser capaz de arranjar o radiador. Só espero que sim.
Hélia (deitando-se sem abrir a cama) Espero que sim.
(Luz diminui gradualmente até escuridão total. Luz volta gradualmente. Posições iniciais da peça.)

Hélia Vamos.
Dário Vamos ver.
Hélia Está alguém à porta.
Dário Deve ser o verão.
Hélia Achas mesmo?
Dário Acho.
Hélia Época dos incêndios. Mais dez tostões de bombeiros.
Dário Lenha não falta.
Hélia Conserta a telefonia. Gostava de ouvir música.
Dário Amanhã conserto.
Hélia Devíamos sair mais. Tomar um café royal!
Dário Achas?
Hélia Acho. Parecemos aqui anjos de gesso com as asas partidas.
Dário (posição “narradora” para o público) Não me dói a cabeça. Não me dói nada. Nunca estive numa oficina, nunca conheci o teu marido. Nunca tive filhos, nem tu. Nunca apanhei um táxi na minha vida.
Hélia Não sei.
Dário O quê?
Hélia A tua história.
Dário Como?
Hélia Pobre homem. Homem pobre. Andam no céu a perder a terra. E o céu e o mar: perdem tudo de vista.
Dário Não percebo.
Hélia Nunca me casei. Nunca perdi um homem na minha vida. Nem a vida de nenhum homem. Nunca tive um tempo a que chamasse meu. Nunca tive um tempo a que chamasse bom. Merda merdeca. O dia e a noite, o frio por baixo da porta.
Dário Filhos, instantes.
Hélia Alguma ternura.
Dário Café. Agora, bebia um café.
Hélia Saímos? Vamos sair?
Dário Vamos.

(Vão ao roupeiro. Vestem os casacos. Não saem. Sentam-se cada um em sua cadeira. Luz diminui gradualmente até escuridão total.)





FIM


Tondela, 29 de Dezembro de 2005 / 11 de Janeiro de 2006




domingo, julho 02, 2006

EDWARD HOPPER, ALBERTO ABRUNHEIRO E OUTROS POEMAS DE TRAZER POR CASA

1

Só não digo que guardo em casa as coisas erradas
da vida toda até amanhã - porque
de coisas erradas é feita toda a casa
de todo o homem.
Também de certas - decerto.
A disposição dos órgãos, os cantos mudos,
uma reprodução de Hopper, a neve
(as caras das filhas).
Em casa urde o misantropo sua anónima
filantropia. Os velhos
rejuvenescem em casa, quando
sós.
Em casa, coragem e mercearia.
Um pouco de ambas cada dia.
Se a pergunta estivesse escrita
nos muros das ruas
- "Foi para esta vida que vieste?" -
oh sim, foi para esta casa que vim.
Há vezes em que mais recordo que
penso. Prefiro o contrário, claro.
Em casa, Jorge de Sena e Vitorino Nemésio.
Em casa, viagens litorais.
Na lareira, não apenas lenha:
também o manso ódio às putas sérias,
aos políticos cadaverosos, à má poesia;
e ainda o suave amor às mulheres
cuja tristeza vera impede a putice,
aos utopiómanos e à boa poesia
- tudo arde.
Vejo do parque a minha casa:
covil limpo em cujo dentro posso
esperar homens e mulheres tocados pela
bondade.
Sairei certas noites sem de casa sair.
Assim me sucede permanecer no parque,
abandonado o parque.
Tu agora estás a ler isto, pensas
- "Quanta amargura" - mas olha
que não.
Já não.
Tenho um disco dos Psychedelic Furs,
tempo para ouvi-lo, tenho o número
de telefone da minha Mãe, talvez
lhe ligue para que diminua
a idade dela com a minha.
Isto nunca vai fechar-se - a casa escrita.
Tenho ainda tempo para nascer um pouco mais.
Ser um homem bom para ser um bom poeta.


2

Quando descobrimos que a vida real
não era exclusiva dos reis, foi
um choque. Agradável, mas choque.
Está documentado.
Quem viu já fotografias de Portugal
(de Lisboa, quero dizer) de inícios de
XX, entende isso logo com o coração.
Piolhoso piedoso país pátrio - criança
suja, ignara, malevolente, bonita.
Tenho um sofá no meu coração
em que me sento para folhear
as caçadas gordas do D. Carlos,
a prateleira mamária da Rainha,
a beocidade servil dos ministros,
o bodum dos pés populares pré-Fátima.
Por esse tempo, voltou Fernando Pessoa
para Lisboa. Equivale o momento,
em importância civilizacional, à
chegada do Homem à Lua.
Um clarão daguerreótipo nimba-me
o coração, o sofá.
Esqueci o cigarro que ardia, acendo
outro. Vou buscar mais café.
Estou assim há cem anos.


3

Desde criança espreito os quintais
dos matrimónios velhos.
Casitas brancas e baixas.
Jardins mais hortas que jardins.
Gosto da ferrugem vegetal:
o Tempo botânico.
Na empena frontal um painel
com a Rainha Santa
pingando rosas.
À porta, sentada, descascando favas,
a rainha santa real.
Na horta, o homem, amanhando mais
favas.
Eu passo e fico.
Comovo-me até ao sorriso.
Podes crer que sim.


4

E os mortos?
Queres que fale deles?
Amei alguns.
Não muitos: nisso
são iguais aos vivos.
A imortalidade deles é
nosso ofício vivo.
Devagar.
O meu truque é usá-los como
a um perfume.
Não temos de concordar sempre
com eles.
Aqui na montanha
morreu-me um tio
em Agosto de 1980.
Em Junho de 2006
visitei, por uma manhã de sol,
o cemitério.
Não li o nome dele.
Há muitas campas anónimas.
Pareceu-me bem.
Senti-o, devo dizê-lo.
Não como pirotecnia fátua,
fantasma hollywoodesco,
nada disso.
Senti que o nosso comum apelido
se eriçava de pêlos de braço.
Sussurrei
- "Alberto Abrunheiro" -
e nada mais.
Foi a primeira vez que assim
o tratei.
Quando vivo, chamava-lhe
- "Tio" -
ou
- "Tio Alberto" -
e mais nada.
A morte é merecer o apelido.
A vida, também.


5

Só a beleza faz sentido.
Obrigatório, direi mesmo.
Quando, na praia, uma nuvem
acinzenta o sol, depois nuvai
e nos devolve o ouro:
desse sentido escrevo.
E nesse sentido.


6

Culpa é morrer em vida.
Pena capital merece e leva.


7

Alguns homens sentam-se no muro
ao último sol do dia útil.
Estão muito cansados, trabalharam muito.
Tiraram em casa, à soleira,
botas e meias, tiveram sede,
beberam vinho na cozinha, vieram para o
muro solar.
Pouco falam.
Mas a mim, dizem-me tudo
assim.


8

Antecipo pela língua portuguesa
todos os homens vestidos de cinzento
que no futuro vão demorar-se
um pouco
em varridos do vento cais ferroviários.
Será inverno, terá chovido, terá
a cidade fechado o coração aos viajantes.
Já os vejo - já
os escrevi.


9

Na manhã
ama ainda alguma coisa
antes que se faça
tarde.


10

Há corta-unhas com fartura,
apara o teu corpo;
pentes também,
sulca os pensamentos.
Trata de ti com sabão
e livros.
Não deixes as panelas sujas.
Há ovos e fiambre,
o pão de ontem está bom,
come contra o frio.
Se fores ao baile, leva
as chaves do regresso
a casa.



Caramulo, Café Montanha, tarde de 1 de Julho de 2006,
durante o Portugal (3) - Inglaterra (1) do Mundial da Alemanha 2006


sexta-feira, junho 30, 2006

Artigos Locais ou Eu Já Apertei a Mão ao Pianista do Herman José

(Quem gosta muito destas brincadeiras é um senhor que casou com a senhora Lina, que até é professora, e ao casamento deles até foi tocar o pianista do Herman José, eu vi porque estava lá, já foi há muito tempo mazeu lembro-me bem porque amigos amigos memórias à parte, modos que escrevi uma data de brincadeiras que parecem japonesas mas não são, quem sabia muito do Japão era o Wenceslau de Moraes porque foi para lá viver há muito tempo, há muito mais tempo do que o casamento da senhora Lina com aquele senhor que é danado para a brincadeira, aqui estão elas, 30yuma delas.)
1) EULA
A palavra eu
em poesia
é outro homem.
Pode significar
mulher.
2) S. JOÃO I
Assaram sardinha morta.
Como era vivo, o cheiro?
3) ISBN
Não pratiques o amor:
só a memória é depositária.
4) DESOBEDIÊNCIA
A tua mãe nunca te disse
"Tira as cuecas!".
Mas tu falo,
perante filhas de outra mãe.
5) O PONTO COME
Hoje, os cavalos não trotam, teclam.
Fremem pela internet.
6) REDE VIÁRIA
Os motéis,
porquinhos-de-mealheiro,
esperam só que tenhamos
uma gaja e dinheiro.
7) S. JOÃO II
Ver-te queria
de manjerico em Novembro.
Isso é qu'era poesia.
8) TVGLOB(O)ALIBRASILAÇÃO
As telenovelas são a retaliação do genocídio.
Nós fodemo-los em 1500.
Eles fodem-nos desde a Gabriela.
9) AO MENOS
As pessoas estúpidas são as mais honestas.
As pessoas estúpidas são as mais.
10) SÃO QUENTIN
Devolveram-me o fato e o relógio.
Mas matei.
11) SPORTING LISSABON ou CELTIC GLASGOW
Uma sacada de feijão verde.
Um intervalo branco.
12) OS FILHOS HÃO-DE IR TODOS PARA A UNIVERSIDADE
Peixe salgado:
vocação cumprida.
13) DIGA TRI
Cona, igreja e respeitinho:
santíssima trindade.
14) INTERVALO PARA COMPROMISSOS COMERCIAIS
Shampoo anticaspoo:
cala-te, Avô Cantigas!
15) SANTO AGOSTINHO, POR EXEMPLO
Perneta de santo:
profissão de fémur.
16) BBC
Do not die on me:
aprende-me a viver, instead.
17) TEORIA DA CONSPIRAÇÃO
S'a braboleta tossir,
temos telejornal.
18) COVA DA IRIA EM SANTA COMBA DÃO
O assassino assassinou
em meses de Fátima:
todos os dias são de Maria.
19) SIMÃO E ARTUR NA AMÉRICA DO NORTE
Tosse-me um cigarro.
20) GRAÇA I
Graças a Deus
não me levo a sério
nem acredito em Deus.
21) GRAÇA II
Acredito na Graça.
Não acredito em mim.
Existo de mais
para isso.
22) RECUERDO
Já bebi para esquecer.
Nunca me esquecia de beber.
23) PENA
Falo com o homem
que transporta galinhas.
Fernando Pessoa existe.
Ele sabe.
24) PRATO DO DIA
A vida é
arroz-batatafrita-salada.
O que se mata
é o resto.
25) UM PROVÉRBIO, C'UM CARAÇAS!
Não guardes para amanhã
o amor feito ontem.
26) CANAL HISTÓRIA
O melhor ano de Estaline foi
1953.
27) VIENA
As minhas mãos olham-me.
Acha normal, doutor?
28) MULHER
Quem na tem, chama-lhe sua.
Quem nã' tem, pé na rua.
29) UMBIGOS
Não gosto.
Sempre sujos de si.
30) O FUNDAMENTAL DA COZINHA
Na sala comedora,
batatas-mártires.
31) OS DIREITOS FUNDAMENTAIS A PARTIR DE 1776 SÃO PARA CHORAR DE RIR E DEPOIS SÓ PARA CHORAR
USA e abusha, filho-da-puta.
Caramulo, manhãs de 29 e 30 de Junho de 2006

Uma Vez por Festa

Deixai-me contar-vos isto, que nada tem, nem é.
Era, ou foi, na noite de 24 de Junho. Comemorava-se o santo pastorinho, o João, o do cordeirinho. Tinham engalanado de fita-cor o candeeiro, o arbusto, o cruzeiro, o contentor municipal até.
Meio bidão, cortado na longitudinal, safirava de brasas. Grelha, grade e trempe suportavam a prata do mar a que só chamamos sardinha por tão maus mineiros sermos. A senhora do café ofereceu um pote de caldo verde. Outra senhora, de chita e joanetes, apareceu com uma tarte de ananás. Sangrou-se o garrafão. A broa, muito telúrica, deu de bojo à faca. O ar da respiração era arranhado de cassetes binárias com a pior alegria musical do mundo.
Apresentei-me com duas mulheres ao baile sem orquestra. Homens avançavam em câmara lenta. Mulheres resguardavam os colos mamários, digo que do frio. Um cão exercia a humildade republicana dos sem-dono. Estava tudo pronto, então, e então o vento frio começou.
Começou por caiar as camisas. Avivou a safira e a prata. Levou logo os guardanapos de beiços e papel. Fez o cão mudar de topografia. Trouxe o hálito da neve. Um dos homens soergueu ainda o garrafão como um colossal cálice de palha, mas já alguém guardava o ananás da tarte. Os dois autarcas presentes cumprimentaram e foram-se embora no bmw emprestado. Foi a debandada.
De repente, estava tudo no café a pedir café e aguardente, que boa foi a festa. Como quem não quer a coisa, fez-se lume no lar. Quatro homens pediram cartas e jogaram-nas.
Eu ainda fui lá fora consultar as estrelas, ardia delas a prata no meio bidão, era já dia 25.

Caramulo, tarde de 29 de Junho de 2006

O Dia 28 de Junho de 2006 Foi

1. ESTAÇÃO DE SERVIÇO

Cada novo dia é mais do que nunca.
Vivemos um Verão adiado, na montanha.
Dias caixa-de-sapatos, dias de cartão prensado
e pensado.
Esmalto tudo com palavras associadas.
Há muito que não vou ver o mar.
Conheço o vocabulário do mar na montanha.
Leitura de Mes Cloîtres dans la Tempête,
livro de Frei Martial Lekreux (1884-1962).
Comprei anteontem um chouriço no talho.
Desfez-se na sopa (nabos, cenouras, cebolas, feijão
branco e feijão verde).
Habitada, a casa cheira menos a alcatifa.
Planos para estantes novas.
Uma imagem pobre, mas certa: escrevo poemas
como quem interrompe a estrada para
demorar-se um pouco em estações de
serviço.
Gosto de estações de serviço. Fixas
na total transitoriedade, abastecedoras.
Assim me fossem os poemas, não mais.
Mas não viajo há muito tempo: há
três dias que não.
No domingo, fui buscar a Leonor para
almoçar.
Cada vez que a vejo, falo uma língua nova
- a da nova idade dela.
Assuntos adolescem.
Zonas escuras são iluminadas.
Também acontecerá que claras zonas
de antes
escureçam agora.
De qualquer maneira, é o amor.
Cada novo dia é mais o amor do que sempre.

2. ELEGIA DOS ÚLTIMOS OPERÁRIOS

Procedi bem, quando entreguei a minha vida
às avenidas aumentadas pelo vento.
Nunca nasci. Estava já tudo em marcha
quando se me associou o idioma que
estabelece e faz vigorar as agências da
caixa geral de depósitos, os quiosques de
jornais, as lojas de sapatilhas para
atletas amadores, os cafés onde os
vereadores e os desempregados se
repelem mutuamente.
Guerra Junqueiro massacrado por
António Sérgio, vento nas avenidas,
derivações luminoneónicas: a loja de
ferragens, a companhia seguradora,
ali era a peanha do cabeça-de-giz,
hoje semáforos apenas.
Vêm almoçar à minha elegia os últimos
operários fabris da última
zona industrial.
Comem um rabo de bacalhau com feijão-frade
encebolsalsado. Molham o pão na
fímbria de azeite, bebem vinho como
padres-livres.
Onde era a fábrica de
artefactos de borracha - de ali assisti
eu a tantos táxis, tantas putas,
esperava eu ali mais
a chuva do que
o autocarro.
Nada disto é triste.
É apenas mesmo assim.
Uma nação é feita de pessoas que lhe chamam
Nação.
Não sei a vossa, mas a minha compreende
últimas coisas.
Apetece-me (é quase uma da tarde)
bacalhau com feijão-frade.

3. O LADO

A literatura é para que as pessoas não tenham
de olhar para o lado fingindo que acreditam.
Oh sim, elas acreditam!
Têm um casamento estoirado que mantêm.
Têm fotografias no festival rock mais na moda.
Têm dois filhos-requeijões de ovelhas, ou carneiros, diferentes.
Gerem carteiras de clientes.
Pepsipipocam o último filme da
Mulher-Aranha contra o Rancho Folclórico de Gualdim.
A literatura é para que as pessoas não tenham
de olhar para o lado, enfim.

4. TUBERCARAMULO

Há por aqui áleas tão breves, tão outonais,
que sulcá-las, é, não menos, não mais,
reaver os passos dados por senhores
entregues p'la boca ao cuidado dos doutores.

Vinham morrer. Tinham dinheiro.
Golfavam, lívidos, hemoptises.
Sulcavam as áleas o dia inteiro.
Arbóreos pulmões escarravam raízes.

Estou anos depois. Saído do bosque,
venho ao sol tomar limonada.
É curioso: então eu sou dos que
morrem de outra coisa, bem talvez de nada.

5. CONTINGENTE

Nunca pensei, disse ou escrevi a vida.
Há zonas, decerto, de contingência.
Mas não. Só tenho escrito, dito e pensado
a língua portuguesa.
Percebo aquilo do outro, o da pátria etc..
Homens ao balcão falam do preço de cada metade
de um porco esquartejado.
Não há homens, nem balcão, nem porco.
Há imagens rápidas, fosforescentes: letras.
Um casal de agricultores comeu bolos de carne.
Vinham cansados. Vi-os na flor do outono deles:
a cor amarela, a primeira velhice (a última).
Ele sentado, comendo e mastigando de boca franqueada.
Ela de pé, de costas para a lareira, aproveitando
o lume.
Sim, na montanha faz-se lume no frio do
Verão.
Eu e a vida, bem, é outra coisa.
Percebo José Gomes Ferreira, aquilo do filho
preso no Porto, os versos quase sem adjectivos,
as explicações parentéticas: a vida, enfim.
Não vou por aí.
Estou à espera que me chova.
Lembro-me de olhar para o teclado da
máquina de escrever (uma Underwood de
canhão alto) e de ter percebido que tudo
estava ali escrito. Bastaria combinar
dedos e teclas.
Nada a ver com a vida.
Chovia tinta.
O sol era branco: A4.
As pessoas estavam vivas, nada
tinham a ver com isto.
E não tinham: tinham
a vida delas.
Lembro-me de que amanhã
faça sol
faça chuva.

6. LEVAM SALSA

É-se de total ferocidade
na guarda do que não resta.
Isto acontece ser verdade.
E digo ainda mais esta:

Se a vida não comprometes
no ofício executor,
quando fizeres omoletes,
see you later aligatôr.

7. ANATOMIA SUCINTA

Mais do que o coração, equilibra a
trompa-de-Eustáquio.
Os miolos esponjam lodo.
Pernas e braços - distensões.
A banana pénica mais chora
do que mama.
A barba branqueja interrogações reformatórias.
Os pés são feios - conta sempre
com eles.
O mel fecha os olhos.
Fecha-os tu também.
Secreto, democrático, o sono sopra
as velas musculares.
Abre a mão em estrela.
Se ta arranhar a gata,
aprende.



Tudo Caramulo: 1, 2, 3 e 4: manhã de 28 de Junho de 2006; 5, 6 e 7: essa tarde.




quinta-feira, junho 29, 2006

A Riqueza das Nações (título roubado a Adão Silva)

"O que o poeta desconhece, a poesia sabe."
Carlos Nejar (poeta brasileiro nascido em Porto Alegre, estado do Rio Grande do Sul, em 1936)
Pois, não sei.
Digo eu.
Ainda é nossa a disposição das coisas na terra.
São estes os dias, não conto com outros.
Estas coisas são nossas - e nós somos da terra.
Nós celebramos o Rio como Tempo.
Sim, coleccionamos pedrinhas e ossos.
O meu trabalho é este.
Estou (estamos) por dias.
Há uma encosta perto de minha casa.
Eu digo minha casa como quem diz
meu corpo.
Há uma encosta perto do meu corpo.
Desce por ela água - e a água canta,
pura, em pura auto-celebração.
Eu passo e ouço.
Eu passo no Rio como no Tempo.
Nós dispusemos assim as coisas.
Olho o banco de pedra do parque.
Está sempre ali - como uma pessoa fiel.
Olho e olho e olho - um é ele.
Uma massa de cartão fazia o céu.
Eu consultava a montanha suspensa,
suspenso.
Uma casa de vasos às janelas.
Gente de óculos, sapatos pretos.
Gente na capela fria, adorando o cartão.
Nós derivamos, declinadores.
Eu conheço as pessoas.
Eu passo no Rio há muito Tempo.
Eu conheço-nos.
Nós somos as coisas dispostas.
Vemos vasos e ouvimos água.
Somos pobres disto tudo.
Pode acontecer que sejamos
um banco de pedra.
Somos claramente nocturnos.
Fotografa-se a si mesma a Lua.
Um dia, outro, o mesmo.
As nossas mãos animais,
a nossa memória zoológica,
os nossos cantos rituais,
a nossa paixão demagógica.
Na lareira arde o fogo convocatório.
Um traço de giz de avião
no céu das viagens.
Não queremos que o telefone toque.
Se ele tocar, teremos de envergar o fato escuro,
regressar ao adro da igreja, rever os amigos
envelhecidos do Tempo primeiro, primário Rio.
Aceitar seus pêsames roucos.
Eu já atendi o telefone.
Mas o Rio flui, cantando (contando) pedrinhas, ossos -
a filha do dono do café já demolha
de seiva soutiens e telemóveis.
Amamos mal mas por bem.
Não sabemos. Não lemos. E
as coisas sempre estiveram à
disposição.
Sucedíamos tachos de guisado.
Ríamo-nos, muito púberes, da comichão
do leite.
O Tempo fluviou-nos.
Estalidam na noite dos quartos os móveis,
o outro corpo rente a nós dorme inocente
da nossa culpa.
O Tempo desenha a persiana,
emoldura de grés o caixilho.
Cheira um pouco a gás, a gata
soluça sonhitos patiformes,
caiu nos mosaicos a toalha da cara.
A própria cara sobe, desperta, ao tecto.
É tão cedo.
O meu trabalho é ser fiel.
Todos os dias o mesmo, o outro
Rio, aquele não posto à disposição, aquele
que conta.
O que me leva.
Nós levamo-nos.
Canta a água, escuta o banco, o parque
freme, tudo está por dias,
as coisas são móveis, nós
não dormimos,
é escuro o quarto,
na capela de cartão os santos
registam os pedidos,
apertam de preto os sapatos,
somos ricos disto tudo.
Caramulo, manhã de 26 de Junho de 2006

segunda-feira, junho 26, 2006

Um na Bélgica, Outro em Lisboa

Um tachito de arroz de cenoura,
um prato de rissóis de peixe,
a televisão ligada com o som a zero,
a luz amarela aluando o tecto.

A cadeira bamba para cu algum,
de Mercedes Blasco as memórias em carneira,
o tapete grená sideral de ácaros,
o ronronar branco do frigorífico.

O cesto da lenha esperando o inverno,
cortinas proscénias encenam a noite,
passa na rua o jardineiro da Junta,
ouço-lhe a artrose, a tosse, as navalhas.

É ligar o rádio, esperar as notícias,
grassa lá longe a guerra de Deus,
tenho frio, é Verão, a Lua é de prata,
morreram dois filhos a Mercedes Blasco.



Caramulo, tarde de 26 de Junho de 2006

sexta-feira, junho 23, 2006

Joãozito Ringo

Aproveito agora
porque falei da Figueira.
Havia o Johnny Ringo,
nessa altura havia uma data de coisas.
Ainda não havia o Fernando's Hideaway,
uma coisa em inglês que não faz mal.
Isto era coisa talvez de 88, oitentinove.
O meu amigo tocava greicelénde com um irmão
que entretango emigrou por dois dedos
de conversa.
Eu tinha na altura um rapaz cunhado
como uma moeda.
O rapaz desapareceu para Leiria,
é longe.
Lembro-me do Johnny Ringo por causa
das coisas.
Lembro-me dos fins-de-ano:
"Tudo está em seu lugar."
Caralho, que eu estou.




Caramulo, foi há bocadito, tarde de 23 de Junho de 2006

Estoril

Era uma cabeça de peixe.
Tinham-na escalado, dourado depois ao lume.
Era num barraco da praia, um sítio pintado
cimabaixo de listras amarelas e brancas.
Comemos a cabeça ao peixe.
O empregado era magro e vertical,
um ponto de exclamação
algo triste, talvez por
mal pago.
O mar rugia como um puta rouca,
aos pés da barraca.
Como já disse em poema anterior
(tudo o que é poema é, aliás, anterior),
eu tinha dinheiro.
Depois a avenida esperava o verão de há
30 anos.
Esperava os mesmos turistas de há
30 anos,
mas agora com dinheiro, agora
outra vez mas
agora.
Era o quê?
Fevereiro? Março?
Chovia a magra chuva portuguesa,
o afinal pouco frio, o gelozito
de pechisbeque.
No bar amarelibranco, serviam
cabeça de peixe.
Algum legume, um pouco de
batata redonda.
Tinham acendido a televisão,
passava talvez um rioavebelenenses,
eu não recordo isso,
recordo a aragem sem potência,
o estoril falso do município,
a pouca figueiradafoz que
poderia ser até que
se me gastasse o dinheiro,
o peixe
e a
cabeça.



Caramulo, ind'há bocadito, tarde de 23 de junho de 2006

Uma das Velhas de um dos Lares

Magra como uma caneta,
saia roxa.
Cinto de plásticouro preto.
Sandálias dirmã-lúcia.
Quico de pescador na cabeça.
Camisa de homem pequeno, manga curta,
quadradinhos vermelhazuis sobre fundo
casca-de-ovo.
Gasta dois pacotes de açúcar na bica,
sorve o café, depois caça o açúcar
encaramelado com a colher de níquel.
Nem louca nem já
como nós.
Hoje não a atropelei por acaso.
Ela derivava, folha à brisa, na manhã clínica.
Pés magros nas junções,
dedos trombósicos.
Um pormenor comovente:
pinta as unhas dos pés.
Oitentital anos.
Cana seca, esfolhada,
guardadora de lírios, juncos, rãs.
Naufragou aqui, à praia da minha
mocidade.
Chuparam-lhe o tutano,
os peitos, o útero, o líquido dos
olhos.
Tem um quarto agora, um transístor,
uma senhora-de-fátima meteorológica,
varia a virgem de cor conforme a
humidade do ar.
Rosa, chove.
Azul, faz sol.
Amarelo no meio, névoa ou cartão.
É o número 14, p'ra todos os efeitos.
Gosta muito de açúcar,
ri-se de repente perante
qualquer coisa.
Chama-se naturalmente Maria,
filha de Portugal, foi uma vez
numa excursão
ao nosso mar,
sal damendoeiras-em-flor.
À tarde, no pátio, rodam
cassetes de cavaquinhos.
Carolina, Isabel, Cátia, Andreia:
filhas-juncos, netas-libelinhas.

Vou deixá-la dormir,
agora.




Caramulo, tarde de 23 de Junho de 2006

Maria Abandona Manuel em Dois Poemas Complementares

1. Tê Zero
Caramulo, tarde de 22 de Junho de 2006

O verdor insólito dos olhos dela
não valia talvez uma biblioteca.
Pousava a mão branca na colcha amarela.
Sem qu'ela m'olhasse, olhav'eu p'ra ela.

Laranjava a cabeceira. Torrava o dia
findando cortinas, findando o Verão.
Ela era então tudo quant'eu sabia,
resgate da noite com absolvição.

Guisávamos frango, torrávamos pão,
saíamos ao fresco a tomar café.
Jardins suspendiam a respiração
por causa de quem eu ia ao pé.

Hoje não está. Concorreu para fora.
A chave encarnada deixou no porteiro.
Eu cá nunca me dei, não sei ir-m'embora.
Pago a renda sozinho, 'inda sobra dinheiro.

2. Aquário
Caramulo, manhã de 23 de Junho de 2006

Já vivi num aquário.
Apanhava o limo da manhã e ondulava.
A minha vida era a cores por fora.
Apanhava coisas com a boca, nem todas
chegavam ao cérebro.
Defecava perpétuos filamentos.
Eu transparecia de rubro, a digestão
e os poemas à vista.
Algumas pessoas aumentadas de óptica
olhavam-me fora, deitavam-me
películas orgânicas, ficavam a ver.
Uma hora na água vale anos.
Anos e anos na mesma hora.
Evitei o preto e o amarelo e o verde.
Há dentro de água linhas aéreas,
também.
Eu voava de anémona.
Medusava-me todo.
Cantava num coral
canções de bolhas
como um boneco de
banda desenhada ou
um mergulhador ou
uma garrafa de água
mineral.
Não havia música possível.
O cascalho raspava o coração,
as antenas vivas raspava.
Eu enchia a barriga de lodo.
Andorinhas de barro
na parede da sala
pareciam-me negros
albatrozes micénicos.
Só volto à hora aquária
para não voltar.
As mulheres nem sempre se apercebem do que é deixar um homem,
do que acontece depois,
dentro d'água.

quinta-feira, junho 22, 2006

Mas Eu Tenho Dinheiro

Acho que temos de ter uma história para contar
quando a noite traça o risco, à noite.
Cada dia não é uma moeda que se perca.
Não é uma coisa gasta, à noite.
Eu falo assim porque sei.
Tenho uma caderneta de meses, colo pelas
costas os dias, quadrado a ano, ano a quadrado.
Era uma vez quantas vezes forem precisas.
As informações sociais são peremptórias:
as pessoas adoecem, súbditas, de súbito.
Um primo por afinidade da minha irmã
começou registando uma constipação longa.
A irmã dele fez chá com mel cortado de limão.
Mas era um cancro nas mucosas.
Cheguei a ver uma fotografia dele.
Era antes do cancro.
Um rapaz normal: um cidadão.
Zinga, já está.
De modo que temos de chegar à noite
portadores de uma história nova.
Sabedores de fresco, contadores de ribalta.
Na longa tarde dos pátios infantis, a bola
de borracha tocada contra a parede.
A sucessão dinástica dos cachorros e dos gatos.
A vizinha de cima alimentadora de um papagaio guatemalteco.
Alguém nos deu atenção, alguém nos espera.
Só temos de levar-lhe alguma mercearia.
E uma história.
Que foi que fizeste hoje, fiz isto assim assim.
E tu.
Tudo isto é um bem de primeira necessidade.
Não podemos poupar.
Fora disto (mas nisto) ando a escrever uma coisa que
começa assim
"Eu tenho dias, talvez anos."
Todos os dias me conto essa história enquanto
se me não acaba a história,
o contar.
Tenho uma moeda, vai ser noite,
mas tenho uma moeda, mas vai ser noite.



Caramulo, tarde de 21 de Junho de 2006

quarta-feira, junho 21, 2006

Que É Feito

Vejo daqui a calma das aves
garantido o pão de cada dia
volatizando curvas suaves
sobre céu tinto de malvasia

Daqui vejo o antigo homem
pantufas de pano canelas magras
arroios e córregos e azinhagas
viagem finita ter sido jovem

Colchas à janela a banda passou
ao longe se sente ainda tocar
às vezes até eu sinto que sou
mais que homem modo de olhar

Vejo o crocante gafanhoto
um jardim eu vejo e tão bem tratado
guardado p'lo cão chamado Piloto
da casa amarela aqui mesmo ao lado

Cola de cuspo as coisas a paz
ascensora serra urzando o nariz
o sono da gata parece que faz
um homem olhando sentir-se feliz

Amanhã eu não sei
Sei hoje entretanto
Basta p'ra ser rei
Meia c'roa se tanto

Mesmo deitado ergue de pé
erecto amor rijo molhado
olhado parece o amor que é
o dia mais novo à noite roubado

Dando para exemplo
que é isto escrever
é dar fundo de tarde ao tempo
estand'a manhã 'ind'a ser

Dar nome Piloto a um cão
que não existe nem ladra
uma colcha à janela em dia de v'rão
pode ser a morte a menina não abra

Já passou a filarmónica
leva saudades de mim
quero limão e água tónica
mais um suspiro de gin

Quando outra vez enlouquecer
e disser que a gata dorme
vem caladinha comigo ver
a breve vida a serra enorme

Daquele lado como branqueja
o casario todo inclinado
a torrezita da igreja
parece um giz muito aprumado

Meu Pai o senhor queira conhecer
qu'é feito do filho da vida enfim
diz que foi ali'ó café'screver
coisas que não são mas são mesm'assim

É vermelho às vezes o arvoredo
rubrica rubis alberga o temor
opala-se nele precioso medo
safira se fira se perca fulgor

Oh eu sei conheço eu sei
pantufas de pano aqui sossegado
mais meia c'roa só para ser rei
do reino ao fim tão despovoado

Dorme a gata ladra o cão
Passa a banda irrompe a flor
queira conhecer o senhor
versos da imaginação

Assim se cumpre a manhã
prometo logo ao fim do dia
rever a calma pura e sã
de aves no céu cor da malvasia.



Caramulo, manhã de 21 de Junho de 2006

Quatro Vezes Coimbra Quatro

1. Balada Coimbrã

Rio a nós paralelo
Diz a hora secular
Reza ao sol amarelo
Reza à rosa que é lunar

Casas da gente pobrinha
Do lado de Santa Clara
Um'alma não'stá sozinha
Coimbra pobre tão cara

2. Outra Balada Coimbrã

Quando era p'la Rainha
Santa cuspiam nas bocas
Da pobreza adormecida
As estudantadas loucas

Isto está documentado
Isto era mesmo assim
O povo nunca é doutorado
O cuspo nunca tem fim

3. E Outra

Coimbrinhas coimbrinhas
Ides a lado nenhum
Pois comprais muitas latinhas
Amarelinhas de atum

Quando a merda der tese
Lá na Sala dos Capelos
Será dra. a maionese
Brilhantina de cabelos

4. Só Mais Uma

Rua Antero de Quental
Rua Visconde da Luz
Da Ladeira do Cidral
À igreja de Santa Cruz

Putas da Casa do Sal
Tanta miséria: mais de mil
Calhabé não não calha mal
Ao fim da Rua do Brasil



Caramulo, tarde de 21 de Junho de 2006

terça-feira, junho 20, 2006

Lisboa para o Corpo nº 1995

As coisas que foram e as que são
- todas por aí, em todos os corpos.
Só quando digere, é concreto, o meu.
No resto, esparso como os vossos.
Expu-lo já à chuva lateral
em paragens de autocarros e
estações de comboios.
Em pastelarias matinais, senti.
Em cinemas, perdi
o filme em proveito
da memória.
Vi repetidas, reactivadas, algumas emoções
outrora minhas, agora nos olhos do
caixa do banco, no casaco hirto de esterco do arrumador,
na estátua fervilhante de pombos
que exclama a praça.
Deixamos filhas em toda a gente, Fernando.
Lembrar-se-á do que fui,
um novembro, o homem
que vendia pires de vísceras de
passarinhos?
Conversámos um pouco, quase nada.
A mulher desse inverno levou-me
leite, uma agenda com nomes de
outros corpos, um bilhete de autocarro.
Ou de comboio, hoje não sei.
Fui concreto digerindo passarinhos.
Abandonei o homem-pires
à sua sorte.
Os dedos dele, gordos de molho.
O olhar invisível dele, amarrado
pelas cordas da chuva à estante de vidro
onde garrafas explodiam de ouro
e demandas de esquecimento.
Uma mulher-polícia tinha tirado
o boné e compunha o cabelo, na
praça da estátua.
O corpo dela, cinzazul, cumprindo
horas extraordinárias.
O corpo dela exilado na cidade capital,
telefonando à noite para a província
onde o namorado seguiria olhando com os meus
olhos, na caixa do banco.
Na manhã da pastelaria, eu ficava.
Pensava nos barcos brancos.
O corpo ficava na pastelaria,
eu embarcava.
Era na Rocha Conde d'Óbidos.
Os monhés vendiam bifanas numa rulote,
eu largava a barra.
Crucificadas em pleno voo, as gaivotas
gritavam como se as capasse
a cutelaria do vento.
Eu passava meses nórdicos em alto-mar.
Na pastelaria, um jovem gordo,
manuseador de massas tenras,
oferecia cafés de borla ao meu corpo.
No barco norueguês, eu era
contemporâneo dessa abordagem nédia.
Insisti em pagar os cafés, o gordo
fez boquinha-de-cu-de-galinha,
saí e não me encontrei,
rumava longe o barco branco.
Novembro tinha rendido as
lanças chuvosas, Lisboa era
uma louca mansa derrubada
sobre a própria saia de cal.
As minhas coisas encontravam-se
umas às outras, sem que as contasse
o meu corpo.
Voltava-me quando lhe dava de comer.
Sopa de nabiças, croquetes de carne, bifanas.
Homens negros algaraviavam sem latim
dentro de cabinas telefónicas.
Tu ficas por aqui, eu volto logo.
Combinava hora e sítio com o meu
corpo,
partia.
Tudo partia. Tudo se partia.
No sopé da Glória, um sportinguista
vendia garrafas de cervejas a 150 escudos,
não era caro, havia pípechô.
Ele era seco, alto e Fernando.
Ele admirava-se de mim, tão
transparente eu aparecia.
- Deixei o corpo por aí -
explicava-lhe eu.
- Ah - compreendia ele.
Suponho que muito gostaria ele
de fazer o mesmo, mas não
podia, estava
muito preso ao trabalho, muito preso
às duas filhas de diferentes duas
mulheres,
vivia sozinho com as filhas na
cabeça.
O sol era o mesmo nos Restauradores
de quando Fialho
vinha sentar-se numa cadeira na
Clássica.
Vós sabeis, o do País
das Uvas, o d'Os
Gatos.
Cheirava a pólvora carbonária,
a folhas amarelas de António
José d'Almeida,
a país piolhoso, a Palace.
A minha esperança desse 1995 era
não reencontrar-me com o meu
corpo.
Vogar, só. Vogar só.
Eu hoje sei que não é assim que
as coisas são.
O corpo volta sempre ao sítio
combinado.
Quer ingerir e digerir passarinhos como
uma estátua.
Faz-se praça de si
mesmo.
Eu entendo-o, comovo-me
até.
Estamos os dois um pouco
envelhecidos.
Eu não disse
envilecidos.
Somámos os dois tempos,
eu e ele,
e a soma é 2006,
20 de Junho.
Não é muito.
Não é de mais, ainda, já, outroragora.
E não é Lisboa,
já.
É outra reunião.
Agora é outrora quando
se escreve.
Uso a mão direita dele,
ele diz-me piadas porcas
quando a mão esquerda dele
me coça as viris ilhas,
eu sorrio na suspensão
de cristais,
largada a barra,
longe o senhor
Conde d'Óbidos,
longe o senhor
Fernando da Glória,
e convosco é a mesma coisa,
a diferença está no facto de não
escreverdes, de não
sentirdes as bifanas aferventadas
onde era a loja de espingardas,
à boca do Rossio,
onde a estátua, as pombas
e suas vísceras, a mulher-polícia
e a chuva
conciliam,
na aspersão,
o que as coisas foram, são e serão.
É o que faz
pensar em barcos brancos,
espera aí que eu já vou,
corpo.
Glória.




Caramulo, esta manhã, 20 de Junho de 2006

segunda-feira, junho 19, 2006

Alimentícia

Rissóis de bacalhau afiambrámos
lingotados em toalha de papel.
Eram entradas.
Rissolando, pois, entrámos
aos fritos d'ouro com pele.
Veio a salada verdejar
o vinagrete laminado de cebola.
Houve um de nós (pessoa tola)
que se não quis alfacear.
Breve chegava o arroz
(tanto bem haja quem no-lo pôs!)
de vera galinha recheado.
Sangrara esta o seu bocado
no imo daquele cabidelado.
Mais vinagre nervosinho
espichou a travessa de louçã louça.
Comi de mais! Ai Deus te ouça
em quanto digas, cozinheirinho!
Tudo não era: mais havia
e viria que servir.
Cálice doce de malvasia
nos haveria de sorrir.
Antes dele porém sem custo
(quem gemesse houve: "Disparate!")
rojou vinho o mais vetusto
e uma sopinha de tomate.
Logo crustificado
(mesmo na morte se mexe)
o carapau frit'encebolado:
mudogritou, mas que escabeche!
Peititos tenros da tenra codorniz,
servidos sem soutien,
frescos de pura manhã,
em talo de funcho e anis.
Em tanto, a ampla costeleta
da vitela virginal
rivalizou com a punheta
esfiapada, seminal.
Grelos rijos alquebrados
de fervura cerce e sã
vinham à mesa alheados
do sumo alho de Ançã.
Canja havia para descanso
a quem quisera enxundiar:
ôlha gorda de remanso
com massa pouca pr'àssentar.
Estoirar, morrer:
ai quem se arrisca
do leitão 'inda morder
a ternuríssima isca?
Todos riscámos, pois pudera!
Melhor fora não houvera,
em tão gentil bacanal,
um cantinho posto à espera
do hepático animal...
Veio então a doçaria
(e digo isto por mim)
que à fria frutaria
fui preferindo pudim.
Um palito, ó fàxavôr!
Não, não quero melancia.
Queira trazer-me o senhor
o tal copito de malvasia.



Caramulo, com fome, manhã de 16 de Junho de 1906

Lavor

Que madureza é, minha senhora, esta?
Quão sossego pode assim sossegar?
Natura e lavoura consumam-se festa?
Nada disso sei, só sei obliterar.
Só sei acudir sem choro nem riso
na boca, nos olhos, na fronte convexa
àqueles momentos em que só preciso
da suave palavra que não tem V. Exa.
Tantos anos disto. Tant'outros virão
talvez ressentir a palavra dada.
Às vezes, manhã. Às vezes, verão.
Em Junho um punho de água esmurrada.
Folclores, ciclismos; suores, abismos;
e cestos de fruta à mesa do rei.
Madura a fruta, ele há naturismos
despidos, senhora, à face da lei.
Hei-de não amar-te. Não t'ele amará.
Eu'screvo na loja, cadeira a um canto.
Gent'entra, sai gente e mais gente virá.
Lavor da natura: está escrito? Está.



Caramulo, tarde de 13 de Junho de 2006

terça-feira, junho 13, 2006

Tomada de Posse

O que não tenho, invento:
detenho em vento.
Possuo uma duna lembrada.
Capataz sou de brancos operários:
cinco dedos desta mão.
Tenho uma segunda edição (1926) de
Andam Faunos pelos Bosques.
Quatro cigarros, ainda, no maço.
Uma chávena vazia, uma tarde íntegra.
Um boião de mel e uma gata.
Um nome igual ao Pai.
Bruscas, masturbatórias incursões
na memória almóada:
correrias, quero dizer, de cavalasno
pela planilembrança.
Uma garrafa-termos com chá,
Conan Doyle, um pássaro no quarto.
Farei escritura das palavras que
não vieram já por não ser ainda
tempo delas.
Faço usucapião de meu corpo.
O tempo virá, um pouco mais.
Sopa, fogo de lenha, gata no quintal.
Mar congelado, criogénico cardume.
Leitaria de neve na serra,
álgido estio.
Outonumano: invernomem.
Raparigas solteiras de chinelinho de borracha a
daradar.
Baile beneficente, ceguinho acordeonista pai
de organista filho, mais tarde.
Vês, vês? Estou vivo sem ti.
A posse é possível.
Crio como uma ferida - pa'larvas.
Nada te dou: tudo
te abandono.
Falo com propriedade.
Não mais a puberdade gónada
me fará seminar.
Educo a febre há tantos anos,
sabes.
Possui-se um pássaro
vendo-o.
Na cidade, outrora, eu fui.
Era num beco junto ao teatro.
Cheirava a terra de vasos e a
chilras menopausas.
Já então era
muito violento não amar,
não ser capaz.
O vento enchumaçava a gabardine paterna.
Oh sim, claro que sim, então:
John Steinbeck, Manuel da Fonseca.
Água na lameira descendo? - café com leite.
O rapaz crocitava. Lambia sal.
Atraía-o a maresia de café torrado
à porta da mercearia.
O feijão a litro.
A chuva nos ombros.
A aguadilha espermática.
A tangerineira pintada de perfume.
Ávida, almorávida vida:
correrias sempre.
Às seis da manhã, uma vez,
reclinado numa cadeira campista,
um banho de lua
rente à roseira da Mãe.
O cão amarelo, apreensivo de
tanta poesia, ciracheirando
marcas aduaneiras de próprio mijo.
Falo desse milagre: todas
as palavras, todas
as combinações.
Vê-se que as pa'larvas
do futuro sempre
vieram
entretanto.
Aqui estão: ei-las.
Confesso, húmido de alegria, primaciais
toques em frente:
Vitorino Nemésio evocando
Herculano e Camilo;
Carlos de Oliveira afogando
abelhas;
Soeiro Pereira Gomes afluindo
galos e laranjas;
Bocage trepando
caralhaz contumácia;
Martim Codax gravado
em pastoril VHS;
Dinis Machado estocando
a pura forma romanesca;
Teixeira de Pascoaes saudadando
a universal serra;
e Fernando Pessoa (faz hoje 118 anos que nasceu) pedindo
ao barbeiro aguardente.
Isto são posses.
Valem casas, moedas, austrálias.
Transporto isto.
Se me angustia a pastelaria,
850 km de costa marítima
compensam.
Moles vísceras gangrenam notícias
más.
Aflições telefónicas avisam
horários de enterros.
Amigos apagam-se como velas.
Carago.
Nectarino, sumarento, o meu
rapaz segue.
Ufano, flâmulo, peripatético,
gárrulo, bandeirante, trívio,
ínvio, zuco, lábil, o meu
rapaz prossegue.
Damos, nós, cegos,
nós cegos: fundimos
mas confundimos,
em mulher,
penetração com posse.
Valha-te a tosse:
nada, nem alguém, se
possui.
Adentrar coralinas húmidas
não equivale a guardar
almas.
Para isso foram criados
os bancos, as seguradoras.
Só é o homem.
O homem é só
o ab-de-homem.
Cascalhosas romarias agostam
o nacional verão: organistas
cardiológicos, de cegos filhos, colunam
baques (traques) de dois-por-quatro.
Sente-se na cama a bailação.
Às onze da noite, despedido o sono,
o serôdio rapaz faz abandono
da cama e vai ao
baile.
A aldeia, lampadária de furta-cor,
adra foguejeiras e cervetórios.
Ancam ao piso ninfas rurais.
Viúvas de palimpséstica ruga
cadeiram lonas no pó da dança.
Passa isto, passa o verão.
Sobrevém a colheita, o mosto em-
bebedor de moscas.
Chuvilhas tracejam o ditado da luz.
Videiras enroxam o ferro.
Magro cão esburga magro osso.
Tomo disso posse. Ouço
(sanguínea, lenta)
a sanguinolenta relatação de
homem mata mulher e depois
voluntário viúvo por instantes
mata-se.
Gelo, geleia, gelosia:
o belo é uma coisa fria.
Paris e Londres cheias de pretos.
Lima e Assunção molhadas de brancos.
Internet no Alaska e
nazis na Noruega, filhos de
1940.
Irrupções candelárias.
Ousar dias por calendária ousadia
- só não usa quem teme.
Ele diz ao rapaz:
"Teima sempre."
O rapaz tem-ma.
Ele tem.
O que ele não tem,
inventa.
Nisto, o vento.




Caramulo, tarde de 13 de Junho de 2006

LUSOFOLIA – 1

Sumário – O coração em sentido contrário ao do relógio. Tempo de ver, ao sol e à lua. Come qualquer coisinha. Pousa e repousa no sofá. Funções excretórias, procriação incluída. Carpe diem cerevisiamque, ou lá como se diz. Escrita e leitura. Antes que seja tarde.



Alaparda, lerdo, teu dia. Farás bem, se dele não pretenderes, ou fingir, mais colher que passagem. Represo ao pulso do coração, o relógio canhoto, mediado a cinta de terileno, pulsa contra o coração: em seu sentido contrário, goleando-o: 24 a zero.
Conheço que de tua quotidianidade assaz não sobra (soçobra, antes) que torrada sombra burocrática: caminho do emprego; e fora dele. Tempo de ver.
Um dia com a noite dele, e dela noivo. Sua meda de feixes lunares, sua rosácea cremosa de pus: tu, mais sol e lua.
Pequenas ternuras de gato lamberás: aba da vaca cozida com cebola e cenoura: agulhoso arroz acintado de pimento mordaz; a manilha ossobucal boqueando tutano encarnado; mais a esconsa batata de cozedura.
Então, solapado pela gárrula nutrição, colapso de arrotinhos contentes, ferverás ao lume da carpete os nacos dos pés, de onde apontam, amarelas, as unhas sua delas insensatez zoológica. Do sofá, vês na têvê, que te vê como és, alguma cloaca de amor casadoiro à brasuca.
Adormeces, agora: anjo porcino, inocente mamão, bola láctea, recolector de frangos ao sol de filarmónicas, ardendo o estio. Peidinhos pagãos soltas sem ofensa, com verruma de cheiro sim. Se solteiro, bem. Casado, incomodas a barbuda faneca com quem comprometeste tudo e a quem nada quase meteste: o suficiente, ainda assim, e assado ainda, para geração de dois cabeçudos girinos a baptizar.
De modo que, de teu dia, haverias, ou ás, de fazer romanidade: curtição dele, entre panos de luz estrambelhando folhedos de parque e cervejas trigais tiradas a espuma de mar.
Jigajogam em meu crédito escrevente a parvoeira maila assumpção dela. Em teu haver lusofolião, a arenosa verdade e seus caramujos ontológicos. O que conta, é do dia tirar provento todos os dias todo o dia, antes que sobre ele, mariposa de lâmpada, recade a noitaranha sua dela teia lápide-dadora.



Caramulo, tarde de 12 de Junho de 2006

sexta-feira, junho 09, 2006

Adiantamento

Alguns poetas - nem todos- lixam-se
de lhes andarem as musas por hipermercados
enquanto eles se desunham lapijando
ânsias e tesões.

Eles aos versos
elas aos tostões.

Eles ao soneto
elas ao knorr.

Mas no fim
juntos jantam.

Nem uns
nem outras
adiantam.

Nótula: este poema, que fiz agorinha mesmo, não vale uma badana de cu. I know. I knorr. Mas tinha de fazê-lo. Passei uma boa porção da manhã e idem outra da tarde a ler um bom poeta mais sua muito boa poesia: falo de Emanuel Félix (n. 1936, Angra do Heroísmo, Ilha Terceira). Lendo-o, cansou-me o contraponto lembrado de tantos e tão maus poetas.Os maus poetas distinguem-se logo por uma coisa imediata: são todos campeões morais. Nunca beberam nada. Nunca foderam sem ser por amor. Nunca casaram por dinheiro. Nunca tiveram um piano que não soubessem tocar. E nunca foram à puta que os pariu antes que os mandasse eu. Pois mando agora. Tirando a puta, em caso de coincidência.


Caramulo, agorinha, tarde de 8 de Junho de 2006

Fadinho do 31

1
Uma flor é uma flor:
não é capaz de fingir.

2
Estamos presos na árvore:
a grade é a gravidade.

3
As mulheres mostram as mamas:
a praia povoa-se de bebés serôdios.

4
Dizemos "lótus":
preferimos lotaria.

5
O leite dele fez-se sangue:
chamo-lhe Pai.

6
Sol branco nas cortinas encarnadas:
rosa vertical.

7
A Mãe envelhece:
nunca mais hei-de morar.

8
Olhas os sucessivos gatos:
percebes o que significa "dinastia".

9
Uma nobreza pobre:
a mão no pão.

10
Eu andei no vinho:
Cristo, nas águas.

11
Ligo a luz cabeceira:
sombra tua deitada.

12
Tenho telefonado pouco:
evito palavras no escuro.

13
Pedra de ouro:
laranja de arremesso.

14
Em Paris serias feliz:
mas não sabes francês.

15
Os pés ao lume de Eça de Queiroz:
o olhar dele nos pés.

16
Noruega e Japão matam baleias:
mas têm Segurança Social.

17
O Imperador masturba-se:
a plebe dribla o jacto.

18
Esperança e Economia:
enganosa letra E.

19
Ainda amas o gajo:
e ele nas putas.

20
Esvaziei o coração:
atira-me uma laranja.

21
O pénis habita a alma:
nunca paga a renda.

22
Jornal de Notícias, 8 de Junho:
não li.

23
Urina é mijo:
não há que enganar.

24
A palavra ao poder:
vota, mudo.

25
Boa-nova:
Susana-22anos.

26
Rugas na terra:
pescoço do lavrador.

27
Junco, Junho:
água, sol.

28
Unha encravada:
também o corpo é estúpido.

29
Vigo, Maio de 1990:
casaco verde, alma idem.

30
Preservativo embainhado:
morrer na praia.

31
Faço sombra:
pagam-me em lâmpadas.



Caramulo, manhã de 8 de Junho de 2006

quinta-feira, junho 08, 2006

Dez minutos

Estive ontem um pouco mais de dez minutos ao telefone com a minha filha Leonor.
Liguei à noite. Naturalmente, fez-se logo dia.
Conversei com esse meu futuro feminino, púbere de novo, inocente.
Algumas dificuldades a Francês, ela. Nada de especial.
Gostaria de poder ajudá-la no être e no avoir.
É evidente que não sou a pessoa indicada, dadas as minhas comprovadas dificuldades quanto a être. Do avoir, então, nem falo.
Ela falou-me com a impiedosa lucidez dos doze anos.
Gostei muito de falar com ela.
Eu tinha já ganho e perdido o meu dia.
Uma pessoa, em Junho, é uma pedra de luz maciça.
Não lhe disse esta frase (este verso).
Temos ambos necessidade de ir comer uma pizza ao Aniano.
Ela viaja no tempo: nasceu de leite, fez-se licor de água, anda rosa de todo.
Suspeito da sua beleza invencível, do coração forte com que nasceu para dizer ao mundo:
- Uma criança é assim que é.
Faz-se entretanto rapariga. Tem telemóvel, amigos e amigas. Aprendeu clarinete.
Tem as coisitas dela. É sacanita.
E é a minha vida.
A minha vida um pouco mais breve, cada vez que o telefone se desliga.



Caramulo, manhã de 8 de Junho de 2006

Festapresentação da Caramulana

quarta-feira, junho 07, 2006

Nossa Senhora de Fátima usa Fósforos Lusitanos

"As minhas mãos não são mãos de senhora. São mãos de homem."

Assim falou uma mulher no telejornal da hora de almoço. Proprietária florestal, ardeu-lhe a mata. Diz que tem dois filhos na universidade, que contava com as árvores para lhes sustentar os estudos, que não sabe agora como fazer. Mostra as mãos à câmara: são mãos de homem, realmente. Olhos embargados, cera na garganta. Cabeça católica, blusa humilde. Um cordão de ouro ao pescoço frango. Atrás, uma parede mal caiada. Som do vento no microfone. Mais atrás, o País. Peregrinações a pé e de bicicleta até Fátima. Lisboa, exposições universais, festivais de rock e sida envergonhada. Segurança Social em descalabro sempre adiado. Lei anti-tabágica à la USA. Plano Nacional de Leitura. Camões na gaveta. Justiça de pantanas. Ensino, nunca mais. Nisto, no canto inferior esquerdo, aparece a cárie sorridente do incendiário. Ele apoia a Selecção no Mundial. Nação valente, na qual até as senhoras têm mãos de homem.




Caramulo, início da tarde de 7 de Junho de 2006

terça-feira, junho 06, 2006

Tu me Amas, meu Brasil, mas Desampara-me a Loja

Gostamos do fogo, mas não podemos
que tudo arda. Não percamos o
mistério. Isto é, vivamos. Mesmo
sem o amor televisivo e brasileiro,
vivamos. Em mercearias decerto
nos atenderá a senhora gorda, tão
sabedora de conservas, sabão, verduras.

Uma mulher muito lésbica de colete preto,
como um mandador de rancho, na gare de comboios.
Duas moscas em torno de seus malares sólidos.
Um tasco de bifanas e traçados, na
esconsa viela. Fados, navalhadas e
iscas em vinagre. Mais moscas.

Exulto, eu sei. É de ser Junho.
Tu, não sei não. Deixei-te cair na
gravidade, essa lei de maçãs.
Meia cambota faz de cinzeiro. Suponho
nem sempre bem. Quase sempre
atiro o verso, que adere e fixa.

Aqueles homens de chinelos, a unha
negra de nascença do dedo grande.
Pior: de calções e surrobeco, os joelhos
com pelagem, flácidas as barrigas
das pernas. E flácidas suas frases
portuguesas, brancas, gordas.

Os mansos dementes dos lares passeando sob
as árvores conventuais. Trila o grilo, rala o ralo.
O sol, branco de leite fervido, ainda
nos acode - a mim e ao que escreve,
autónomo, automático. Um pouco triste,
também, mas é de ter sido Maio
e já não ser.

Quanta beleza. Até a dos carros
estacionados. Casais casados sonham
na cama independentes sonhos. Longe,
a genealogia esquece seus tantos filhos. Atilhos
de gaze asfixiam o sangue do
joelho. Mármore e batatas fritas.
Idades clássica e de ter juízo.

Prefab Sprout, manhã cedo, no leitor
de cassetes do carro. Pastelarias e camião de rações.
A aldeia tem já semáforos: europeia
união, de tudo calibradora. Olha a merda: já nem há
anchovas, colheres de pau. Há
passarinhos, suas vísceras em colorau.

Quando amámos, entregámos o cacau
todo. Algum anjo canhoto se enojou
de nós, posto que no Brasil não há
anjos, só capítulos seguintes. Rico ama pobre.
Pobre rompe na vida. Gere fábrica?
É doutora. Tem filho secreto de
polícia militar que a violou. Coitada.

Em Lisboa, por esta hora, o Saldanha
há-de refulgir de comerciais a
gasóleo. Recordo a minha vida de
Lisboa. Longe da filha, tão perto de um
rio espanhol, eu tão perto de um
rio espanhol. A filha em Coimbra, guardada
por gatos e vasos de sardinheiras.

Celebremos ambos a coruscância: o que
escreve e eu, como nós fôssemos.
Górdios, cegos - nós. Nunca descartar
o conhecimento que salva: Ardenas, Verdun,
El Alamein, Odessa, Estalinegrado, Boers,
Christiania, Waterloo, Buçaco, Ourique,
Barcelona, Little Big Horn e Coimbra, onde
a filha e a Praça da Feira.

Resistir é um swing. Glenn Miller,
trombonista, morto à la Saint-Exupéry
em vol-de-nuit. Coisas aos quadradinhos.
No resto, cegueira voluntária: os idosos
dos lares clínicos fingindo que não
é nada, que não vão morrer nada.
Eu é que sei.

É preciso que o leitor não seja
um imbecil. Que se não deixe
foder, a menos que lhe paguem. E mesmo
assim, só exigindo um carinho de vez
em quando. Alvin Toffler, Henri Levy,
Maria Carrilho e Pinheiro Chagas:
cagar na merda aumenta-a, mas alivia.

Sorumbatismo, só em sozinhismo. No
resto, alegria. Cada bala mata um.
Você abusou, tirou partido de mim.
Verd'amarelo, verd'amarelo: matas
crianças de rua na rua. Hás-de ter uma
moral do caralho, Vera Lombardi, Bruna
Fischer.

De modo que a lusofonia. Muita
África e tal, mui boas intenções e naufrágio
de Sepúlveda. Rapazes brasileiros de
bigodinho à Errol Flynn mandando matar
os moleques que estiverem a mais para o
futebol de praia.
Nelson Rodrigues de direita até que o filho lhe doa.

Macarena e Maracanaã: bodas de
multiplicados peixes podres. Buenos
Aires, Escola de Mecânica, Borges
beijando o chão ensanguentado do
Chile antes de almoçar às cegas com Pinochet,
o Augusto.

É quase meio-dia. Tenho de me
ir embora. Eu depois volto, mas
isto tinha de ser dito. Na gare de
comboios, nenhuma lésbica já: o
tempo passa como comboios. Ainda
agora pensava nisto e já está escrito.
Viu? Sacou?



Caramulo, manhã de 6 de Junho de 2006

segunda-feira, junho 05, 2006

Fala o Áugure

para o José Antunes Ribeiro, logo também para o Miguel

Habitarás pouco tempo tua casa.
Alguma dor inchará a hora, não os anos.
Serás corrupto e corromperás.

Ao espelho da barba, a cor branca dos fios.
Ao mesmo, o outro olhar sem actor.
Despojarás as tripas de sua merda fiel.

A rosa e o pardal podem comover-te.
Tudo misturarás: a rosa castanha, o encarnado pardal.
A cidade far-te-á mal.

Recordarás sempre o outro mar.
Não o que iça barcos e gaivotas,
mas o que enche de areia o coração.

Nunca amarás. Ou nunca mais o farás.
O fresco outonal acabarás preferindo.
Haverás de comer em pensões frias.

Os outros que morram. Num caderno
depositarás esse sal. E ainda
o de seguires vivo sem nudez, nem fé.

Recebeste cedo a oferenda da língua.
Entregá-la-ás tarde e a más horas.
Bestas de relincho apuparão cada verso.

O étimo infante não fala.
Tu falarás, ouvindo: o vento nos cedros,
o gasóleo nos carros, o pardal na rosa.

Sofrerás tua vaidade. Contrapô-la-ás
à transparência da mudez. Quando
te afligir o tabaco, fumarás.

Preceitos e receitas não te valerão.
Preferível te será ver a bola
em pastelarias iguais ao milénio.

De idiomas bárbaros saberás um pouco.
Convém, sempre convém, saber
perguntar a rua ao presidente americano.

Prata abrasarás como sardinha.
Pimentos e melão serão o estio.
Escrever é como ter frio.

Morrerás de cor: assim não vivesses.
Ele há exposições universais:
por um dólar, o Japão e as Ilhas Tropicais.

Haja saúde. Que a virtude
só há no praticado. Além dela
temos sopa, pão, azeitonas.

Constantino, Imperador, errou.
O Peixe comeu os leões.
De Roma emana a praga egípcia.

Subido à serra, na noite-mapa,
confundirás estrelas com minutos.
Assim são, na verdade.

Numa associação recreativa,
entre homens de vidro, serás
de pedra. Jogarás o ás.

Repara agora: recolhem já
o baralho, os cinzeiros, as cadeiras.
Espero-te aqui amanhã.



Caramulo, manhã de 5 de Junho de 2006

sexta-feira, junho 02, 2006

Dá-lhe Corda

Um gajo nasce, e de pronto
terrível coisa lhe dão:
é a Vida, esse desconto
entre escuro e escuridão.

É coisa boa, viver. Porém
a dor entra e já não sai.
Veja-se o caso da Mãe.
Veja-se o caso do Pai.

E se um gajo tem um filho,
pronto nele espelho quer.
Mas esquece (é um sarilho)
que metade é da mulher.

Três metades tem a cria.
A terceira é condição
que o momento em que nascia
fosse d'emancipação.

Eu cá nunca fiz rapaz.
Fiz meninas e desde então
que me sinto até capaz
de dar corda ao coração.

Havia na minha rua,
quando era rapaz moço,
um cãozito cor da lua
a quem eu fazia almoço.

Morre o cão, e eu sozinho
percebo logo que a sorte
nem sequer é um destino,
nem é vida, nem é morte.

É um deixar andar o vento.
É um saber sem explicação.
É ir ao rio e num momento
ou afogar ou natação.

Dia a dia. Lua a lua.
Sempre com tola dignidade.
Quem na tem, chama-lhe sua:
quero dizer, a liberdade.

Como um espiga de milho
descontada grão a grão:
já sou pai, eu já fui filho,
sei dar corda ao coração.



Caramulo, manhã de 2 de Junho de 2006