quinta-feira, junho 22, 2006

Mas Eu Tenho Dinheiro

Acho que temos de ter uma história para contar
quando a noite traça o risco, à noite.
Cada dia não é uma moeda que se perca.
Não é uma coisa gasta, à noite.
Eu falo assim porque sei.
Tenho uma caderneta de meses, colo pelas
costas os dias, quadrado a ano, ano a quadrado.
Era uma vez quantas vezes forem precisas.
As informações sociais são peremptórias:
as pessoas adoecem, súbditas, de súbito.
Um primo por afinidade da minha irmã
começou registando uma constipação longa.
A irmã dele fez chá com mel cortado de limão.
Mas era um cancro nas mucosas.
Cheguei a ver uma fotografia dele.
Era antes do cancro.
Um rapaz normal: um cidadão.
Zinga, já está.
De modo que temos de chegar à noite
portadores de uma história nova.
Sabedores de fresco, contadores de ribalta.
Na longa tarde dos pátios infantis, a bola
de borracha tocada contra a parede.
A sucessão dinástica dos cachorros e dos gatos.
A vizinha de cima alimentadora de um papagaio guatemalteco.
Alguém nos deu atenção, alguém nos espera.
Só temos de levar-lhe alguma mercearia.
E uma história.
Que foi que fizeste hoje, fiz isto assim assim.
E tu.
Tudo isto é um bem de primeira necessidade.
Não podemos poupar.
Fora disto (mas nisto) ando a escrever uma coisa que
começa assim
"Eu tenho dias, talvez anos."
Todos os dias me conto essa história enquanto
se me não acaba a história,
o contar.
Tenho uma moeda, vai ser noite,
mas tenho uma moeda, mas vai ser noite.



Caramulo, tarde de 21 de Junho de 2006

quarta-feira, junho 21, 2006

Que É Feito

Vejo daqui a calma das aves
garantido o pão de cada dia
volatizando curvas suaves
sobre céu tinto de malvasia

Daqui vejo o antigo homem
pantufas de pano canelas magras
arroios e córregos e azinhagas
viagem finita ter sido jovem

Colchas à janela a banda passou
ao longe se sente ainda tocar
às vezes até eu sinto que sou
mais que homem modo de olhar

Vejo o crocante gafanhoto
um jardim eu vejo e tão bem tratado
guardado p'lo cão chamado Piloto
da casa amarela aqui mesmo ao lado

Cola de cuspo as coisas a paz
ascensora serra urzando o nariz
o sono da gata parece que faz
um homem olhando sentir-se feliz

Amanhã eu não sei
Sei hoje entretanto
Basta p'ra ser rei
Meia c'roa se tanto

Mesmo deitado ergue de pé
erecto amor rijo molhado
olhado parece o amor que é
o dia mais novo à noite roubado

Dando para exemplo
que é isto escrever
é dar fundo de tarde ao tempo
estand'a manhã 'ind'a ser

Dar nome Piloto a um cão
que não existe nem ladra
uma colcha à janela em dia de v'rão
pode ser a morte a menina não abra

Já passou a filarmónica
leva saudades de mim
quero limão e água tónica
mais um suspiro de gin

Quando outra vez enlouquecer
e disser que a gata dorme
vem caladinha comigo ver
a breve vida a serra enorme

Daquele lado como branqueja
o casario todo inclinado
a torrezita da igreja
parece um giz muito aprumado

Meu Pai o senhor queira conhecer
qu'é feito do filho da vida enfim
diz que foi ali'ó café'screver
coisas que não são mas são mesm'assim

É vermelho às vezes o arvoredo
rubrica rubis alberga o temor
opala-se nele precioso medo
safira se fira se perca fulgor

Oh eu sei conheço eu sei
pantufas de pano aqui sossegado
mais meia c'roa só para ser rei
do reino ao fim tão despovoado

Dorme a gata ladra o cão
Passa a banda irrompe a flor
queira conhecer o senhor
versos da imaginação

Assim se cumpre a manhã
prometo logo ao fim do dia
rever a calma pura e sã
de aves no céu cor da malvasia.



Caramulo, manhã de 21 de Junho de 2006

Quatro Vezes Coimbra Quatro

1. Balada Coimbrã

Rio a nós paralelo
Diz a hora secular
Reza ao sol amarelo
Reza à rosa que é lunar

Casas da gente pobrinha
Do lado de Santa Clara
Um'alma não'stá sozinha
Coimbra pobre tão cara

2. Outra Balada Coimbrã

Quando era p'la Rainha
Santa cuspiam nas bocas
Da pobreza adormecida
As estudantadas loucas

Isto está documentado
Isto era mesmo assim
O povo nunca é doutorado
O cuspo nunca tem fim

3. E Outra

Coimbrinhas coimbrinhas
Ides a lado nenhum
Pois comprais muitas latinhas
Amarelinhas de atum

Quando a merda der tese
Lá na Sala dos Capelos
Será dra. a maionese
Brilhantina de cabelos

4. Só Mais Uma

Rua Antero de Quental
Rua Visconde da Luz
Da Ladeira do Cidral
À igreja de Santa Cruz

Putas da Casa do Sal
Tanta miséria: mais de mil
Calhabé não não calha mal
Ao fim da Rua do Brasil



Caramulo, tarde de 21 de Junho de 2006

terça-feira, junho 20, 2006

Lisboa para o Corpo nº 1995

As coisas que foram e as que são
- todas por aí, em todos os corpos.
Só quando digere, é concreto, o meu.
No resto, esparso como os vossos.
Expu-lo já à chuva lateral
em paragens de autocarros e
estações de comboios.
Em pastelarias matinais, senti.
Em cinemas, perdi
o filme em proveito
da memória.
Vi repetidas, reactivadas, algumas emoções
outrora minhas, agora nos olhos do
caixa do banco, no casaco hirto de esterco do arrumador,
na estátua fervilhante de pombos
que exclama a praça.
Deixamos filhas em toda a gente, Fernando.
Lembrar-se-á do que fui,
um novembro, o homem
que vendia pires de vísceras de
passarinhos?
Conversámos um pouco, quase nada.
A mulher desse inverno levou-me
leite, uma agenda com nomes de
outros corpos, um bilhete de autocarro.
Ou de comboio, hoje não sei.
Fui concreto digerindo passarinhos.
Abandonei o homem-pires
à sua sorte.
Os dedos dele, gordos de molho.
O olhar invisível dele, amarrado
pelas cordas da chuva à estante de vidro
onde garrafas explodiam de ouro
e demandas de esquecimento.
Uma mulher-polícia tinha tirado
o boné e compunha o cabelo, na
praça da estátua.
O corpo dela, cinzazul, cumprindo
horas extraordinárias.
O corpo dela exilado na cidade capital,
telefonando à noite para a província
onde o namorado seguiria olhando com os meus
olhos, na caixa do banco.
Na manhã da pastelaria, eu ficava.
Pensava nos barcos brancos.
O corpo ficava na pastelaria,
eu embarcava.
Era na Rocha Conde d'Óbidos.
Os monhés vendiam bifanas numa rulote,
eu largava a barra.
Crucificadas em pleno voo, as gaivotas
gritavam como se as capasse
a cutelaria do vento.
Eu passava meses nórdicos em alto-mar.
Na pastelaria, um jovem gordo,
manuseador de massas tenras,
oferecia cafés de borla ao meu corpo.
No barco norueguês, eu era
contemporâneo dessa abordagem nédia.
Insisti em pagar os cafés, o gordo
fez boquinha-de-cu-de-galinha,
saí e não me encontrei,
rumava longe o barco branco.
Novembro tinha rendido as
lanças chuvosas, Lisboa era
uma louca mansa derrubada
sobre a própria saia de cal.
As minhas coisas encontravam-se
umas às outras, sem que as contasse
o meu corpo.
Voltava-me quando lhe dava de comer.
Sopa de nabiças, croquetes de carne, bifanas.
Homens negros algaraviavam sem latim
dentro de cabinas telefónicas.
Tu ficas por aqui, eu volto logo.
Combinava hora e sítio com o meu
corpo,
partia.
Tudo partia. Tudo se partia.
No sopé da Glória, um sportinguista
vendia garrafas de cervejas a 150 escudos,
não era caro, havia pípechô.
Ele era seco, alto e Fernando.
Ele admirava-se de mim, tão
transparente eu aparecia.
- Deixei o corpo por aí -
explicava-lhe eu.
- Ah - compreendia ele.
Suponho que muito gostaria ele
de fazer o mesmo, mas não
podia, estava
muito preso ao trabalho, muito preso
às duas filhas de diferentes duas
mulheres,
vivia sozinho com as filhas na
cabeça.
O sol era o mesmo nos Restauradores
de quando Fialho
vinha sentar-se numa cadeira na
Clássica.
Vós sabeis, o do País
das Uvas, o d'Os
Gatos.
Cheirava a pólvora carbonária,
a folhas amarelas de António
José d'Almeida,
a país piolhoso, a Palace.
A minha esperança desse 1995 era
não reencontrar-me com o meu
corpo.
Vogar, só. Vogar só.
Eu hoje sei que não é assim que
as coisas são.
O corpo volta sempre ao sítio
combinado.
Quer ingerir e digerir passarinhos como
uma estátua.
Faz-se praça de si
mesmo.
Eu entendo-o, comovo-me
até.
Estamos os dois um pouco
envelhecidos.
Eu não disse
envilecidos.
Somámos os dois tempos,
eu e ele,
e a soma é 2006,
20 de Junho.
Não é muito.
Não é de mais, ainda, já, outroragora.
E não é Lisboa,
já.
É outra reunião.
Agora é outrora quando
se escreve.
Uso a mão direita dele,
ele diz-me piadas porcas
quando a mão esquerda dele
me coça as viris ilhas,
eu sorrio na suspensão
de cristais,
largada a barra,
longe o senhor
Conde d'Óbidos,
longe o senhor
Fernando da Glória,
e convosco é a mesma coisa,
a diferença está no facto de não
escreverdes, de não
sentirdes as bifanas aferventadas
onde era a loja de espingardas,
à boca do Rossio,
onde a estátua, as pombas
e suas vísceras, a mulher-polícia
e a chuva
conciliam,
na aspersão,
o que as coisas foram, são e serão.
É o que faz
pensar em barcos brancos,
espera aí que eu já vou,
corpo.
Glória.




Caramulo, esta manhã, 20 de Junho de 2006

segunda-feira, junho 19, 2006

Alimentícia

Rissóis de bacalhau afiambrámos
lingotados em toalha de papel.
Eram entradas.
Rissolando, pois, entrámos
aos fritos d'ouro com pele.
Veio a salada verdejar
o vinagrete laminado de cebola.
Houve um de nós (pessoa tola)
que se não quis alfacear.
Breve chegava o arroz
(tanto bem haja quem no-lo pôs!)
de vera galinha recheado.
Sangrara esta o seu bocado
no imo daquele cabidelado.
Mais vinagre nervosinho
espichou a travessa de louçã louça.
Comi de mais! Ai Deus te ouça
em quanto digas, cozinheirinho!
Tudo não era: mais havia
e viria que servir.
Cálice doce de malvasia
nos haveria de sorrir.
Antes dele porém sem custo
(quem gemesse houve: "Disparate!")
rojou vinho o mais vetusto
e uma sopinha de tomate.
Logo crustificado
(mesmo na morte se mexe)
o carapau frit'encebolado:
mudogritou, mas que escabeche!
Peititos tenros da tenra codorniz,
servidos sem soutien,
frescos de pura manhã,
em talo de funcho e anis.
Em tanto, a ampla costeleta
da vitela virginal
rivalizou com a punheta
esfiapada, seminal.
Grelos rijos alquebrados
de fervura cerce e sã
vinham à mesa alheados
do sumo alho de Ançã.
Canja havia para descanso
a quem quisera enxundiar:
ôlha gorda de remanso
com massa pouca pr'àssentar.
Estoirar, morrer:
ai quem se arrisca
do leitão 'inda morder
a ternuríssima isca?
Todos riscámos, pois pudera!
Melhor fora não houvera,
em tão gentil bacanal,
um cantinho posto à espera
do hepático animal...
Veio então a doçaria
(e digo isto por mim)
que à fria frutaria
fui preferindo pudim.
Um palito, ó fàxavôr!
Não, não quero melancia.
Queira trazer-me o senhor
o tal copito de malvasia.



Caramulo, com fome, manhã de 16 de Junho de 1906

Lavor

Que madureza é, minha senhora, esta?
Quão sossego pode assim sossegar?
Natura e lavoura consumam-se festa?
Nada disso sei, só sei obliterar.
Só sei acudir sem choro nem riso
na boca, nos olhos, na fronte convexa
àqueles momentos em que só preciso
da suave palavra que não tem V. Exa.
Tantos anos disto. Tant'outros virão
talvez ressentir a palavra dada.
Às vezes, manhã. Às vezes, verão.
Em Junho um punho de água esmurrada.
Folclores, ciclismos; suores, abismos;
e cestos de fruta à mesa do rei.
Madura a fruta, ele há naturismos
despidos, senhora, à face da lei.
Hei-de não amar-te. Não t'ele amará.
Eu'screvo na loja, cadeira a um canto.
Gent'entra, sai gente e mais gente virá.
Lavor da natura: está escrito? Está.



Caramulo, tarde de 13 de Junho de 2006

terça-feira, junho 13, 2006

Tomada de Posse

O que não tenho, invento:
detenho em vento.
Possuo uma duna lembrada.
Capataz sou de brancos operários:
cinco dedos desta mão.
Tenho uma segunda edição (1926) de
Andam Faunos pelos Bosques.
Quatro cigarros, ainda, no maço.
Uma chávena vazia, uma tarde íntegra.
Um boião de mel e uma gata.
Um nome igual ao Pai.
Bruscas, masturbatórias incursões
na memória almóada:
correrias, quero dizer, de cavalasno
pela planilembrança.
Uma garrafa-termos com chá,
Conan Doyle, um pássaro no quarto.
Farei escritura das palavras que
não vieram já por não ser ainda
tempo delas.
Faço usucapião de meu corpo.
O tempo virá, um pouco mais.
Sopa, fogo de lenha, gata no quintal.
Mar congelado, criogénico cardume.
Leitaria de neve na serra,
álgido estio.
Outonumano: invernomem.
Raparigas solteiras de chinelinho de borracha a
daradar.
Baile beneficente, ceguinho acordeonista pai
de organista filho, mais tarde.
Vês, vês? Estou vivo sem ti.
A posse é possível.
Crio como uma ferida - pa'larvas.
Nada te dou: tudo
te abandono.
Falo com propriedade.
Não mais a puberdade gónada
me fará seminar.
Educo a febre há tantos anos,
sabes.
Possui-se um pássaro
vendo-o.
Na cidade, outrora, eu fui.
Era num beco junto ao teatro.
Cheirava a terra de vasos e a
chilras menopausas.
Já então era
muito violento não amar,
não ser capaz.
O vento enchumaçava a gabardine paterna.
Oh sim, claro que sim, então:
John Steinbeck, Manuel da Fonseca.
Água na lameira descendo? - café com leite.
O rapaz crocitava. Lambia sal.
Atraía-o a maresia de café torrado
à porta da mercearia.
O feijão a litro.
A chuva nos ombros.
A aguadilha espermática.
A tangerineira pintada de perfume.
Ávida, almorávida vida:
correrias sempre.
Às seis da manhã, uma vez,
reclinado numa cadeira campista,
um banho de lua
rente à roseira da Mãe.
O cão amarelo, apreensivo de
tanta poesia, ciracheirando
marcas aduaneiras de próprio mijo.
Falo desse milagre: todas
as palavras, todas
as combinações.
Vê-se que as pa'larvas
do futuro sempre
vieram
entretanto.
Aqui estão: ei-las.
Confesso, húmido de alegria, primaciais
toques em frente:
Vitorino Nemésio evocando
Herculano e Camilo;
Carlos de Oliveira afogando
abelhas;
Soeiro Pereira Gomes afluindo
galos e laranjas;
Bocage trepando
caralhaz contumácia;
Martim Codax gravado
em pastoril VHS;
Dinis Machado estocando
a pura forma romanesca;
Teixeira de Pascoaes saudadando
a universal serra;
e Fernando Pessoa (faz hoje 118 anos que nasceu) pedindo
ao barbeiro aguardente.
Isto são posses.
Valem casas, moedas, austrálias.
Transporto isto.
Se me angustia a pastelaria,
850 km de costa marítima
compensam.
Moles vísceras gangrenam notícias
más.
Aflições telefónicas avisam
horários de enterros.
Amigos apagam-se como velas.
Carago.
Nectarino, sumarento, o meu
rapaz segue.
Ufano, flâmulo, peripatético,
gárrulo, bandeirante, trívio,
ínvio, zuco, lábil, o meu
rapaz prossegue.
Damos, nós, cegos,
nós cegos: fundimos
mas confundimos,
em mulher,
penetração com posse.
Valha-te a tosse:
nada, nem alguém, se
possui.
Adentrar coralinas húmidas
não equivale a guardar
almas.
Para isso foram criados
os bancos, as seguradoras.
Só é o homem.
O homem é só
o ab-de-homem.
Cascalhosas romarias agostam
o nacional verão: organistas
cardiológicos, de cegos filhos, colunam
baques (traques) de dois-por-quatro.
Sente-se na cama a bailação.
Às onze da noite, despedido o sono,
o serôdio rapaz faz abandono
da cama e vai ao
baile.
A aldeia, lampadária de furta-cor,
adra foguejeiras e cervetórios.
Ancam ao piso ninfas rurais.
Viúvas de palimpséstica ruga
cadeiram lonas no pó da dança.
Passa isto, passa o verão.
Sobrevém a colheita, o mosto em-
bebedor de moscas.
Chuvilhas tracejam o ditado da luz.
Videiras enroxam o ferro.
Magro cão esburga magro osso.
Tomo disso posse. Ouço
(sanguínea, lenta)
a sanguinolenta relatação de
homem mata mulher e depois
voluntário viúvo por instantes
mata-se.
Gelo, geleia, gelosia:
o belo é uma coisa fria.
Paris e Londres cheias de pretos.
Lima e Assunção molhadas de brancos.
Internet no Alaska e
nazis na Noruega, filhos de
1940.
Irrupções candelárias.
Ousar dias por calendária ousadia
- só não usa quem teme.
Ele diz ao rapaz:
"Teima sempre."
O rapaz tem-ma.
Ele tem.
O que ele não tem,
inventa.
Nisto, o vento.




Caramulo, tarde de 13 de Junho de 2006

LUSOFOLIA – 1

Sumário – O coração em sentido contrário ao do relógio. Tempo de ver, ao sol e à lua. Come qualquer coisinha. Pousa e repousa no sofá. Funções excretórias, procriação incluída. Carpe diem cerevisiamque, ou lá como se diz. Escrita e leitura. Antes que seja tarde.



Alaparda, lerdo, teu dia. Farás bem, se dele não pretenderes, ou fingir, mais colher que passagem. Represo ao pulso do coração, o relógio canhoto, mediado a cinta de terileno, pulsa contra o coração: em seu sentido contrário, goleando-o: 24 a zero.
Conheço que de tua quotidianidade assaz não sobra (soçobra, antes) que torrada sombra burocrática: caminho do emprego; e fora dele. Tempo de ver.
Um dia com a noite dele, e dela noivo. Sua meda de feixes lunares, sua rosácea cremosa de pus: tu, mais sol e lua.
Pequenas ternuras de gato lamberás: aba da vaca cozida com cebola e cenoura: agulhoso arroz acintado de pimento mordaz; a manilha ossobucal boqueando tutano encarnado; mais a esconsa batata de cozedura.
Então, solapado pela gárrula nutrição, colapso de arrotinhos contentes, ferverás ao lume da carpete os nacos dos pés, de onde apontam, amarelas, as unhas sua delas insensatez zoológica. Do sofá, vês na têvê, que te vê como és, alguma cloaca de amor casadoiro à brasuca.
Adormeces, agora: anjo porcino, inocente mamão, bola láctea, recolector de frangos ao sol de filarmónicas, ardendo o estio. Peidinhos pagãos soltas sem ofensa, com verruma de cheiro sim. Se solteiro, bem. Casado, incomodas a barbuda faneca com quem comprometeste tudo e a quem nada quase meteste: o suficiente, ainda assim, e assado ainda, para geração de dois cabeçudos girinos a baptizar.
De modo que, de teu dia, haverias, ou ás, de fazer romanidade: curtição dele, entre panos de luz estrambelhando folhedos de parque e cervejas trigais tiradas a espuma de mar.
Jigajogam em meu crédito escrevente a parvoeira maila assumpção dela. Em teu haver lusofolião, a arenosa verdade e seus caramujos ontológicos. O que conta, é do dia tirar provento todos os dias todo o dia, antes que sobre ele, mariposa de lâmpada, recade a noitaranha sua dela teia lápide-dadora.



Caramulo, tarde de 12 de Junho de 2006

sexta-feira, junho 09, 2006

Adiantamento

Alguns poetas - nem todos- lixam-se
de lhes andarem as musas por hipermercados
enquanto eles se desunham lapijando
ânsias e tesões.

Eles aos versos
elas aos tostões.

Eles ao soneto
elas ao knorr.

Mas no fim
juntos jantam.

Nem uns
nem outras
adiantam.

Nótula: este poema, que fiz agorinha mesmo, não vale uma badana de cu. I know. I knorr. Mas tinha de fazê-lo. Passei uma boa porção da manhã e idem outra da tarde a ler um bom poeta mais sua muito boa poesia: falo de Emanuel Félix (n. 1936, Angra do Heroísmo, Ilha Terceira). Lendo-o, cansou-me o contraponto lembrado de tantos e tão maus poetas.Os maus poetas distinguem-se logo por uma coisa imediata: são todos campeões morais. Nunca beberam nada. Nunca foderam sem ser por amor. Nunca casaram por dinheiro. Nunca tiveram um piano que não soubessem tocar. E nunca foram à puta que os pariu antes que os mandasse eu. Pois mando agora. Tirando a puta, em caso de coincidência.


Caramulo, agorinha, tarde de 8 de Junho de 2006

Fadinho do 31

1
Uma flor é uma flor:
não é capaz de fingir.

2
Estamos presos na árvore:
a grade é a gravidade.

3
As mulheres mostram as mamas:
a praia povoa-se de bebés serôdios.

4
Dizemos "lótus":
preferimos lotaria.

5
O leite dele fez-se sangue:
chamo-lhe Pai.

6
Sol branco nas cortinas encarnadas:
rosa vertical.

7
A Mãe envelhece:
nunca mais hei-de morar.

8
Olhas os sucessivos gatos:
percebes o que significa "dinastia".

9
Uma nobreza pobre:
a mão no pão.

10
Eu andei no vinho:
Cristo, nas águas.

11
Ligo a luz cabeceira:
sombra tua deitada.

12
Tenho telefonado pouco:
evito palavras no escuro.

13
Pedra de ouro:
laranja de arremesso.

14
Em Paris serias feliz:
mas não sabes francês.

15
Os pés ao lume de Eça de Queiroz:
o olhar dele nos pés.

16
Noruega e Japão matam baleias:
mas têm Segurança Social.

17
O Imperador masturba-se:
a plebe dribla o jacto.

18
Esperança e Economia:
enganosa letra E.

19
Ainda amas o gajo:
e ele nas putas.

20
Esvaziei o coração:
atira-me uma laranja.

21
O pénis habita a alma:
nunca paga a renda.

22
Jornal de Notícias, 8 de Junho:
não li.

23
Urina é mijo:
não há que enganar.

24
A palavra ao poder:
vota, mudo.

25
Boa-nova:
Susana-22anos.

26
Rugas na terra:
pescoço do lavrador.

27
Junco, Junho:
água, sol.

28
Unha encravada:
também o corpo é estúpido.

29
Vigo, Maio de 1990:
casaco verde, alma idem.

30
Preservativo embainhado:
morrer na praia.

31
Faço sombra:
pagam-me em lâmpadas.



Caramulo, manhã de 8 de Junho de 2006

quinta-feira, junho 08, 2006

Dez minutos

Estive ontem um pouco mais de dez minutos ao telefone com a minha filha Leonor.
Liguei à noite. Naturalmente, fez-se logo dia.
Conversei com esse meu futuro feminino, púbere de novo, inocente.
Algumas dificuldades a Francês, ela. Nada de especial.
Gostaria de poder ajudá-la no être e no avoir.
É evidente que não sou a pessoa indicada, dadas as minhas comprovadas dificuldades quanto a être. Do avoir, então, nem falo.
Ela falou-me com a impiedosa lucidez dos doze anos.
Gostei muito de falar com ela.
Eu tinha já ganho e perdido o meu dia.
Uma pessoa, em Junho, é uma pedra de luz maciça.
Não lhe disse esta frase (este verso).
Temos ambos necessidade de ir comer uma pizza ao Aniano.
Ela viaja no tempo: nasceu de leite, fez-se licor de água, anda rosa de todo.
Suspeito da sua beleza invencível, do coração forte com que nasceu para dizer ao mundo:
- Uma criança é assim que é.
Faz-se entretanto rapariga. Tem telemóvel, amigos e amigas. Aprendeu clarinete.
Tem as coisitas dela. É sacanita.
E é a minha vida.
A minha vida um pouco mais breve, cada vez que o telefone se desliga.



Caramulo, manhã de 8 de Junho de 2006

Festapresentação da Caramulana

quarta-feira, junho 07, 2006

Nossa Senhora de Fátima usa Fósforos Lusitanos

"As minhas mãos não são mãos de senhora. São mãos de homem."

Assim falou uma mulher no telejornal da hora de almoço. Proprietária florestal, ardeu-lhe a mata. Diz que tem dois filhos na universidade, que contava com as árvores para lhes sustentar os estudos, que não sabe agora como fazer. Mostra as mãos à câmara: são mãos de homem, realmente. Olhos embargados, cera na garganta. Cabeça católica, blusa humilde. Um cordão de ouro ao pescoço frango. Atrás, uma parede mal caiada. Som do vento no microfone. Mais atrás, o País. Peregrinações a pé e de bicicleta até Fátima. Lisboa, exposições universais, festivais de rock e sida envergonhada. Segurança Social em descalabro sempre adiado. Lei anti-tabágica à la USA. Plano Nacional de Leitura. Camões na gaveta. Justiça de pantanas. Ensino, nunca mais. Nisto, no canto inferior esquerdo, aparece a cárie sorridente do incendiário. Ele apoia a Selecção no Mundial. Nação valente, na qual até as senhoras têm mãos de homem.




Caramulo, início da tarde de 7 de Junho de 2006

terça-feira, junho 06, 2006

Tu me Amas, meu Brasil, mas Desampara-me a Loja

Gostamos do fogo, mas não podemos
que tudo arda. Não percamos o
mistério. Isto é, vivamos. Mesmo
sem o amor televisivo e brasileiro,
vivamos. Em mercearias decerto
nos atenderá a senhora gorda, tão
sabedora de conservas, sabão, verduras.

Uma mulher muito lésbica de colete preto,
como um mandador de rancho, na gare de comboios.
Duas moscas em torno de seus malares sólidos.
Um tasco de bifanas e traçados, na
esconsa viela. Fados, navalhadas e
iscas em vinagre. Mais moscas.

Exulto, eu sei. É de ser Junho.
Tu, não sei não. Deixei-te cair na
gravidade, essa lei de maçãs.
Meia cambota faz de cinzeiro. Suponho
nem sempre bem. Quase sempre
atiro o verso, que adere e fixa.

Aqueles homens de chinelos, a unha
negra de nascença do dedo grande.
Pior: de calções e surrobeco, os joelhos
com pelagem, flácidas as barrigas
das pernas. E flácidas suas frases
portuguesas, brancas, gordas.

Os mansos dementes dos lares passeando sob
as árvores conventuais. Trila o grilo, rala o ralo.
O sol, branco de leite fervido, ainda
nos acode - a mim e ao que escreve,
autónomo, automático. Um pouco triste,
também, mas é de ter sido Maio
e já não ser.

Quanta beleza. Até a dos carros
estacionados. Casais casados sonham
na cama independentes sonhos. Longe,
a genealogia esquece seus tantos filhos. Atilhos
de gaze asfixiam o sangue do
joelho. Mármore e batatas fritas.
Idades clássica e de ter juízo.

Prefab Sprout, manhã cedo, no leitor
de cassetes do carro. Pastelarias e camião de rações.
A aldeia tem já semáforos: europeia
união, de tudo calibradora. Olha a merda: já nem há
anchovas, colheres de pau. Há
passarinhos, suas vísceras em colorau.

Quando amámos, entregámos o cacau
todo. Algum anjo canhoto se enojou
de nós, posto que no Brasil não há
anjos, só capítulos seguintes. Rico ama pobre.
Pobre rompe na vida. Gere fábrica?
É doutora. Tem filho secreto de
polícia militar que a violou. Coitada.

Em Lisboa, por esta hora, o Saldanha
há-de refulgir de comerciais a
gasóleo. Recordo a minha vida de
Lisboa. Longe da filha, tão perto de um
rio espanhol, eu tão perto de um
rio espanhol. A filha em Coimbra, guardada
por gatos e vasos de sardinheiras.

Celebremos ambos a coruscância: o que
escreve e eu, como nós fôssemos.
Górdios, cegos - nós. Nunca descartar
o conhecimento que salva: Ardenas, Verdun,
El Alamein, Odessa, Estalinegrado, Boers,
Christiania, Waterloo, Buçaco, Ourique,
Barcelona, Little Big Horn e Coimbra, onde
a filha e a Praça da Feira.

Resistir é um swing. Glenn Miller,
trombonista, morto à la Saint-Exupéry
em vol-de-nuit. Coisas aos quadradinhos.
No resto, cegueira voluntária: os idosos
dos lares clínicos fingindo que não
é nada, que não vão morrer nada.
Eu é que sei.

É preciso que o leitor não seja
um imbecil. Que se não deixe
foder, a menos que lhe paguem. E mesmo
assim, só exigindo um carinho de vez
em quando. Alvin Toffler, Henri Levy,
Maria Carrilho e Pinheiro Chagas:
cagar na merda aumenta-a, mas alivia.

Sorumbatismo, só em sozinhismo. No
resto, alegria. Cada bala mata um.
Você abusou, tirou partido de mim.
Verd'amarelo, verd'amarelo: matas
crianças de rua na rua. Hás-de ter uma
moral do caralho, Vera Lombardi, Bruna
Fischer.

De modo que a lusofonia. Muita
África e tal, mui boas intenções e naufrágio
de Sepúlveda. Rapazes brasileiros de
bigodinho à Errol Flynn mandando matar
os moleques que estiverem a mais para o
futebol de praia.
Nelson Rodrigues de direita até que o filho lhe doa.

Macarena e Maracanaã: bodas de
multiplicados peixes podres. Buenos
Aires, Escola de Mecânica, Borges
beijando o chão ensanguentado do
Chile antes de almoçar às cegas com Pinochet,
o Augusto.

É quase meio-dia. Tenho de me
ir embora. Eu depois volto, mas
isto tinha de ser dito. Na gare de
comboios, nenhuma lésbica já: o
tempo passa como comboios. Ainda
agora pensava nisto e já está escrito.
Viu? Sacou?



Caramulo, manhã de 6 de Junho de 2006

segunda-feira, junho 05, 2006

Fala o Áugure

para o José Antunes Ribeiro, logo também para o Miguel

Habitarás pouco tempo tua casa.
Alguma dor inchará a hora, não os anos.
Serás corrupto e corromperás.

Ao espelho da barba, a cor branca dos fios.
Ao mesmo, o outro olhar sem actor.
Despojarás as tripas de sua merda fiel.

A rosa e o pardal podem comover-te.
Tudo misturarás: a rosa castanha, o encarnado pardal.
A cidade far-te-á mal.

Recordarás sempre o outro mar.
Não o que iça barcos e gaivotas,
mas o que enche de areia o coração.

Nunca amarás. Ou nunca mais o farás.
O fresco outonal acabarás preferindo.
Haverás de comer em pensões frias.

Os outros que morram. Num caderno
depositarás esse sal. E ainda
o de seguires vivo sem nudez, nem fé.

Recebeste cedo a oferenda da língua.
Entregá-la-ás tarde e a más horas.
Bestas de relincho apuparão cada verso.

O étimo infante não fala.
Tu falarás, ouvindo: o vento nos cedros,
o gasóleo nos carros, o pardal na rosa.

Sofrerás tua vaidade. Contrapô-la-ás
à transparência da mudez. Quando
te afligir o tabaco, fumarás.

Preceitos e receitas não te valerão.
Preferível te será ver a bola
em pastelarias iguais ao milénio.

De idiomas bárbaros saberás um pouco.
Convém, sempre convém, saber
perguntar a rua ao presidente americano.

Prata abrasarás como sardinha.
Pimentos e melão serão o estio.
Escrever é como ter frio.

Morrerás de cor: assim não vivesses.
Ele há exposições universais:
por um dólar, o Japão e as Ilhas Tropicais.

Haja saúde. Que a virtude
só há no praticado. Além dela
temos sopa, pão, azeitonas.

Constantino, Imperador, errou.
O Peixe comeu os leões.
De Roma emana a praga egípcia.

Subido à serra, na noite-mapa,
confundirás estrelas com minutos.
Assim são, na verdade.

Numa associação recreativa,
entre homens de vidro, serás
de pedra. Jogarás o ás.

Repara agora: recolhem já
o baralho, os cinzeiros, as cadeiras.
Espero-te aqui amanhã.



Caramulo, manhã de 5 de Junho de 2006

sexta-feira, junho 02, 2006

Dá-lhe Corda

Um gajo nasce, e de pronto
terrível coisa lhe dão:
é a Vida, esse desconto
entre escuro e escuridão.

É coisa boa, viver. Porém
a dor entra e já não sai.
Veja-se o caso da Mãe.
Veja-se o caso do Pai.

E se um gajo tem um filho,
pronto nele espelho quer.
Mas esquece (é um sarilho)
que metade é da mulher.

Três metades tem a cria.
A terceira é condição
que o momento em que nascia
fosse d'emancipação.

Eu cá nunca fiz rapaz.
Fiz meninas e desde então
que me sinto até capaz
de dar corda ao coração.

Havia na minha rua,
quando era rapaz moço,
um cãozito cor da lua
a quem eu fazia almoço.

Morre o cão, e eu sozinho
percebo logo que a sorte
nem sequer é um destino,
nem é vida, nem é morte.

É um deixar andar o vento.
É um saber sem explicação.
É ir ao rio e num momento
ou afogar ou natação.

Dia a dia. Lua a lua.
Sempre com tola dignidade.
Quem na tem, chama-lhe sua:
quero dizer, a liberdade.

Como um espiga de milho
descontada grão a grão:
já sou pai, eu já fui filho,
sei dar corda ao coração.



Caramulo, manhã de 2 de Junho de 2006

quarta-feira, maio 31, 2006

Praça da Alegria

Gosto de aqui vir todas as manhãs. Em horas mais frias, já vi a lareira acesa, sendo convocado pela magia hipnótica do fogo. Há vários dias que a não acendem: o sol subiu à serra para exercer o seu egipto. Na televisão, ocorre o programa da manhã para reformados e poetas inúteis.
Esta hora diária faz-me bem. A outra vida recolhe as garras, por uma hora. Entro no limbo, lendo. Aqui entrei na memória da senhora Phyllis Bentley, na cabeça de Pedro Juan Gutiérrez, na bonomia de Mário de Carvalho. A inglesa, o cubano e o lusitano (Um Deus Passeando pela Brisa da Tarde, que belo título) gostam, livrescos e cavalheirescos, de aqui estar – num café par(a)do da serra. Faço-lhes companhia. O resultado é uma obra de melhoramento: da solidão inelutável de todo (mas todo) o ser humano, da asfixia respiratória (há outro tipo de asfixias) de todo (mas todo) o ser vivente.
Também há as putas das moscas. Zamboam rente às orelhas. Têm de ser sacudidas com um gesto cabrão, irritado, contra Deus. Lá para dentro, há sala de restaurante. Ainda lá não fui comer. Hei-de ir. Ele há mais dias – assim se espera.
Esta é a última manhã (última para sempre) deste Maio irrepetível. Amanhã é Junho, o mês claro. Há um livro, que nunca li mas hei-de, com um título muito bonito: Inventário de Junho. Escreveu-o Teixeira Gomes. Gosto tanto de livros como de títulos. Há autores muito secos no que respeita ao baptismo do que escrevem e dão a lume. Moravia e Kundera são exemplos: do primeiro, A Atenção, O Desprezo e A Romana; do segundo, A Imortalidade e A Ignorância. Por exemplo(s). Outros há que mostram garbo na titulação. Mia Couto (fraco, simpático escritor) inventou Cada Homem é uma Raça. Esteve bem. Luís Filipe Costa, esse gigante, romanceou Agora e na Hora da Vossa Morte e Borboleta na Gaiola. Cardoso Pires, o espertalhaço, ancorou o anjo.
O meu Pai, que não era escritor (nem se disfarçava disso) titulou filhos e netos a partir do seu nome seméninaugural: Carlos Daniel, José Daniel, Daniel, Carlos Daniel, José Daniel, Rui Daniel, Daniela, Sofia Daniel, Leonor Daniel. Outras famílias igualmente tentaram, a cada nascimento, a reedição do livro patronímico respectivo. Joões, Josés, Antónios; Marias, Teresas, Joanas.
Onde eu já vou. Interrompo, vou ao balcão, converso com a senhora (Maria) sobre Fé. Conto-lhe de uma coisa que ontem soube e escrevi ontem, em crónica, para O Eco: que há um chico-esperto em Cascais a ganhar cacau (depósito directo ou transferência bancária) pagando promessas por outros. O gajo (diz que) vai a pé a Fátima na vez de quem não pode. A senhora Maria ouve isto e depois desconcerta-me: “Eu tinha uma promessa a Nossa Senhora também, mas o meu marido não me deixa ir. Falei com o senhor padre e paguei para que alguém fosse por mim.” O sangue arenou-me as rosetas. Balbuciei: “Mas pronto, a senhora é um caso.”
Um caso. Disse-lhe que respeitava a fé dos outros, que os meus pais me não tinham criado na fé. Respeitar, no meu caso, é calar-me. Ela disse-me que aqui na freguesia “há muitos jeovás, mas pessoas de respeito que se não metem com ninguém”. Depois foi para a cozinha. Eu fiquei sozinho na sala de café. Sozinho à confiança.
O programa da manhã não é apresentado pelo Malato, o bem-disposto-profissional que também é “jeová”. É apresentado pelo Jorge Gabriel, o neto ideal das avós de Portugal. Estou sozinho na sala de café: as vezes que isto me tem sucedido. Na fronteira calendária Maio-Junho. A Praça da Alegria suspende-se para intervalo publicitário.
Tenho alguma cultura. Querem ver? Antigamente, este programa era apresentado por uma das minhas fixações: o Goucha. O Manuel Luís: a neta ideal das avós de Portugal. Lembro-me de o gajo assinar, há mais de vinte anos, uma crónica no entretanto extinto O Jornal. A crónica era gastronómica-restaurantina e chamava-se Em Banho-Manel. Eram textos bem escritos, lembro-me. O fulano é tudo menos burro. O “pobo” gostaria de que ele, Manel, se casasse com essa inenarrável distracção de Deus chamada Teresa Guilherme. Mas ele, népias. Está no direito dele. Eu faria o mesmo. Eu também preferiria ser, sei lá, entrefolhante, por assim dizer.
Para minha pura alegria, dá-se uma banda filarmónica no programa. Filmada na rua, interpreta uma marcha de concerto. Vou ver se me dizem de que filarmónica se trata.
Já disseram: Sociedade Recreativa e Musical Loriguense (de Loriga). A roliça fresquinha curricular previsível idêntica pepsodêntica democrática larclínica gerontófila loura apresentadora salienta que falta menos de um mês para a comemoração do centenário da Banda. Do melhorzinho que o “pobo” se lembra, é de manter as bandas filarmónicas. Digo eu, que sou suspeito neste amor por bombardinos, tubas, requintas, tarolas, sopranos, flautins, trombones, maestros, secretários e foguetes.
E quando vou a ver, é meio-dia: rima com alegria. O sol amareleja nas resistências cromáticas: o azul-azulejo do céu, o verde-cedro dos cedros, o branco urbano dos casais e a negrura domesticada do meu coração. Dizem que as cores são criações do cérebro. Que somos nós a pintar o mundo. Que cães e gatos vêem a preto-e-branco. E eu, que gosto de pintores e de pintura, fico sempre na antemão desse prodígio. Posso dar um exemplo: quando era infante, acontecia ser de bom-tom gostar de “azul”. Gostar, não: preferir. “Qual é a tua cor preferida?”, perguntavam às crianças quando, no meu tempo, toda a gente era criança. “Azúli”, respondiam as crianças todas. Eu também respondi isso. Mas era mentira. Era mentira, e eu sabia. A minha era a que é hoje e há-de ser sempre – a cor amarela. Negociei esta lucidez (e outras, e outras) comigo mesmo. Chegado a tardio adolescente (SG Gigante a 44 escudos, primeiras cervejas), refilei: “Amarelo. Gosto mais do amarelo.” Isto aconteceu em 1981.
Em 1981, comecei a sair à noite. O candeeiro público flashava o cedro privado do prédio. Era ao pé da curva. O meu prédio era amarelo e verde: uma coisa tão linda como uma omeleta de janelas. Fomos para lá viver em Junho de 1964. Não me lembro disso, mas algum dos daniéis anteriores se lembrará. Passam-se dezassete anos num fósforo, e começo a sair à noite. Sextas e sábados, Café Nelídia. Rapaziada e homenziaria, fumo e ruído, bilhar e pacman, cerveja e sextissábado.
Parece que nos estou a ver. Os jogos eram lá dentro. Passava-se pelas grades empilhadas no corredor cor-de-tijolo e húmido de canalização. O pacman era a cinco paus. Eu só gastava os cinco paus: foi o (único) jogo da minha vida, cheguei à nona chave (mais de 500 mil pontos). Dando uma porrada seca na ranhura, o cérebro electrónico tinha uma trombose benigna e dava três créditos. 3 x 500 mil igual a um milhão e meio de pontos. Eu era feliz, fazia o milhão e meio, o meu irmão estava vivo, o mundo parecia uma coisa arrumável, mesmo que não fosse sexta ou sábado. Lembro-me de rir. Eu já ri. E as essências perfumadas da língua portuguesa já me adentravam: o padre António Vieira e o Correia Garção de

O louro chá no bule fumegando
De mandarins e brâmanes cercado
Ruiva manteiga em alvo pão torrado (…)


Que coisa. Levanto a cabeça. A cabeça levanta-me. Meio-dia e 25: não voltarei aqui este Maio.



Caramulo, manhã de 31 de Maio de 2006

segunda-feira, maio 29, 2006

Deve Ser Cedo a Noite Porque Antes Faz-se Tarde

Estes dias, estes dias.
Calor e claridade. Mais papel e mais luz: Phyllis Bentley, Colin Wilson, John Osborne, Alan Sillitoe. Não só. Também Ian Brady, o assassino dos Moors, Inglaterra.
Visão, beleza e desfaçatez do Mundo.
O homem muito velho consultando um mapa de Portugal na esplanada do Avenida, Caramulo.
Estas palavras escritas a caneta verde sobre mesa redonda, de ferro, azul (o mesmo azul do caderno de que me servi para anotar António Sérgio, Ensaios-I, há 25 anos).
Estas coisas que ficam: uma cor ou duas.
O meu cão amarelo.
Uma dulcíssima fadiga.
Deus nenhures.
Só homens e mulheres formigando, alguma motorizada, carros a gasóleo.
Dois pardais. Um, com uma estrela de palha na boca. O outro, sem estrela.
O homem velho, a dois metros de esplanada, diz-me:
- Não fumo há mais de 25 anos.
Digo-lhe:
- O senhor é que tem juízo.
Eu fumo. Fumo devagar, passa das sete e meia da tarde, uma brisa tecla, uma a uma, as folhas dos plátanos.
Tenho um mau livro de poesia (ou um livro de poesia má) para acabar de ler. Preciso de ler também coisas más - para ver como se não deve fazer.
Depois de almoço, hoje, vi um homem praticando verbos: cambalear, tartamudear, exacerbar, perder, lembrar, beber. Era um bêbado-todos-os-dias. Esgazeou, também. Quando me levantei para ir pagar ao balcão, disse-me:
- Eu tive um rádio de altas frequências.
Eu não disse nada. Ele disse:
- E uma máquina de escrever.
E pôs-se a fazer com a mão direita gestos de caneta. Depois corrigiu-se e usou as duas mãos para fazer como a brisa às folhas dos plátanos.



Caramulo, tarde de 29 de Maio de 2006

Deitado

1
O passado tem uma qualidade magnífica.
Não é a morte.
É o futuro ao contrário.
2
Jogamos ao xadrez com as recordações.
Umas vezes, perdemos.
Outras, ganhamos.
3
Viver é empatar tecnicamente, logo.
4
"One should not unjustifiably inflict one's personal emotions on other people.
Phyllis Bentley, O Dreams, O Destinations, p.78
5
"For everything you have missed, you have gained something else."
Ralph Waldo Emerson, cit. por Phyllis Bentley, op. cit., p. 195
6
Por que razão estas palavras estrangeiras me dizem tanto? Porque dizem o que eu já senti-sabia em português.
7
"Estavas tão bem deitado", disse-me Inner Voice, uma senhora estrangeira minha conhecida.



1, 2 e 6: Caramulo, 20 de Abril de 2006
3 e 7: Caramulo, 29 de Maio de 2006
4 e 5: O Dreams, O Destinations, Phyllis Bentley, London, Victor Gollanz Ltd, 1962

Saindo ao Calor da Noite para Tomar Café

Nada sei de agricultura, nada sei de meteorologia:
não sei trabalhar a terra, não sei trabalhar o céu.



Botulho, anoitecer de domingo, 28 de Maio de 2006

sexta-feira, maio 26, 2006

Duas

A minha vida e esta árvore:
duas sombras.




Caramulo, tarde de 26 de Maio de 2006

O Tempo das Rosas

1

Cada dia tem o seu outono.
Esmorece a luz, a luz tem sono.
Boa hora para ir buscar um amor
- pode ser um filho, pode ser um cão (mesmo sem dono).

Quando em Lisboa, acontecia
eu ir ver passar os carros regressando
aos dormitórios de fim de dia
- tristes carneiros: seguindo, parando...

Sempre m'assim foi. Assim será
mais sempre, suponho. E todavia
acordo cedo, sabendo já
que outono não há sem invernia.


Quem diria... O meu Pai, tão brincalhão,
tinha por fé (com muita razão)
que amar um filho é com'amar um cão.

Hoje o entendo, duas filhas depois:
são de olhos tão mansos quão mansos os bois.

Quão manso de hoje o outono! (Mas é primavera.
Vou deitar-me cedo. O verão já me espera.)

2

Nasci como os outros: não faço diferença.
Nascer é bem menos de quanto se pensa.
Morrer não é tanto que se não aceite
qual sono em sossego e puro deleite.

Viver é diferente: é (todos os dias)
ser eu e ser gente sem mais demasias.
Tem isto um truque? Um truque isto tem:
foi chegar-se o pai tão perto da mãe.

3

Era o tempo das rosas. Maria
saindo à rua sentiu comoção:
palavras fugidas da pele do papel
andavam (as tontas!) nuas pelo chão.

A palavra "rosa". A palavra "sim".
Palavras, palavras - que não tinham fim.
A palavra "espera". E outra, enfim,
jurava que ela era só p'ra mim.

Compôs ao pescoço o lenço correcto.
De chita, o vestido (seu tanto obsoleto)
traía a pobreza que a pobre vestia.

Qual outra palavra? Como só p'ra mim?
Eu só disse: "Espera!". Eu só disse assim:
"Era o tempo das rosas. Maria..."



Caramulo, tarde de 25 de Maio de 2006

quinta-feira, maio 25, 2006

Os Animais são Nossos Amigos, Mas

Braboleta braboleta
gosto bem do teu boar
não tens corno nem corneta
não se oube o teu soar

Olha lá mulher casada
teu marido adromeceu?
Chega aqui tua regueifa
chega aqui que mando eu

Ó fromiga fromigueta
nunca te bi a fumar
a cigarra branquipreta
passa o estio a esfumaçar

Era um chato lá envaixo
munto daba que coçar
deile um murro nos tomates
e fartei-me de saltar.



Óvrigadinho. Caramulo, tarde de 25 de Maio de 2006

Meia Pálpebra

Duas intensas sessões de trabalho (reportagem de manhã, estúdio depois de almoço) não impediram, antes propiciaram, o usufruto do descanso ao sol das três da tarde.
O sol acontecia largo, abundante e total como o ar, sendo a causa mais forte da realidade. Ao perto como ao longe, o mundo parecia inocente como um bebé descomunal.
Bocejei ao pé de um tufo de flores amarelas. Abelhas trabalhavam nelas. Um cão castanho, de cabeçorra derretida de sono, sustinha a custo meia pálpebra. Passou no horário a camioneta de carreira. Aos pés, a raspa de cinza das palavras usadas até ao momento. Não exerci o poder da recordação: a província é o presente perpétuo.
Agora, espero que arrefeça, que a Nação progrida e que as abelhas tenham boa sorte, que faz sempre jeito.




Caramulo, tarde de 25 de Maio de 2006

quarta-feira, maio 24, 2006

Os Prémios

(Porque não há senão sem bela, decidi dedicar este texto à senhora Lina Nicolau. Devo ter feito bem, já que, logo a ter decidido, me encontrei sorrindo sem quê nem para quê.)
Há momentos em que a minha vida pára, se aparta e vai passear. Fico eu. Assobio para o lado enquanto ela não volta.
Há vezes em que nem desejo que volte. Ela volta. Anda por aí como uma gata. Volta para se alimentar. Eu perdoo-lhe: sobreviver é uma espécie de cristianismo sem assembleia.
Esta tarde, quando esperava por ela, entretive-me a ver os prémios do jogo dos furos. O prémio principal era um relógio embutido numa máquina de costura castanha com uma águia vermelha por cima: o Tempo rapace, o costureiro Tempo. Havia uma pistola-isqueiro e um canhão-isqueiro, também. Havia um aquecedor eléctrico de café. Havia canivetes e cachimbos, curvos todos, marinheiros todos. Não joguei.
Depois, um ligeiro estremeção, uma frenologia, um arrepio medular: era ela de volta ao corpo que não joga mas sabe os prémios.
Caramulo, agora, tarde de 24 de Maio de 2006

Fundação Pessoal para a Alegria no Trabalho

Se o meu corpo tem memória, és a alegria póstuma dele.
O amor pode morrer, não o ter amado.
Não cederei à evidência trágica dos livros: fundamentá-la-ei, antes.
Isto é um modo de vida.
Amo-te mas fez-se noite.
Olho em volta: vejo homens assustados, acossados pela magreza luminotécnica dos cafés.
As mulheres em casa, grávidas, fazendo mais sopa.
O rumor terrível da aldeia: as vidas engaioladas, as vidas cheias de arames, móveis coxos, cascas de laranja, baldes sujos.
Não cederei ao terror do amor: elegiá-lo-ei, antes.
Estou agora muito mais vivo.
Tu também.
Estou agora muito mais entregue ao meu ofício – como um peixe à natação.
Na noite muito escura e pura, conheço o limoeiro, o poço fundo, o vento mineral.
Isto é tudo verdade.
Eu derivo.
Tenho um coração de cortiça.
Tenho uma alma neurotransmissora.
Num hotel da cidade do Porto, certo outubro, sentei-me a ouvir o pianista.
A música acontecia tão materialmente quanto uma pessoa ou um vaso com flores.
Figuras-Hopper tomavam cálices doces ao balcão.
Eu estava em serenidade.
Suponho que estava vivo, apesar de ti.
Depois, gerou-se a confusão.
Digo: o hotel evanesceu, conheci uma mulher, as luzes públicas sucediam-se sem respirar na berma da estrada.
O tempo mexeu as barbatanas.
Os dentes tiveram frio.
Um ventre chupava o outro, ultimatava-o de licor de leite.
Oh sim, eu fiz por sobreviver, claro que sim!
Exaurido, eterno, pessoal como uma rosa genética, abandonei o carro a tremer de calor.
Havia em frente uma parede onde tinham escrito uma obscenidade anarca.
Puxei as calças para cima.
Tartamudeei dois passos laterais.
A porta da sacristia estava aberta, alguém lá dentro remuneraria o padre.
Desci uma viela íngreme.
Fritavam toucinho algures, o perfume inquietava-me a mim e aos cães acorrentados em pátios submersos.
Talvez eu não mereça tanta beleza, sabes?
Estou como quem não quer a coisa, e vai daí um cinzeiro, um portão encarnado, uma unha roída, um aniversário infantil – tudo me comove tanto, Pai.
Foi para isto que me fizeste.




Caramulo, manhã de 24 de Maio de 2006

Dez Textos Para que os Leia Sandra Bernardo

(Liguemos, em 91.2 FM, a rádio)


1

Tu queres ser aquele que renasce. Queres ser aquele que vive um pouco mais. Um pouco mais ainda. Tu queres. Tu és.

2

É Maio, mas na casa da montanha ainda a lareira arde. Em Junho, queimarás ainda um punho. No Verão, queimarás a própria mão.

3

Quatro homens batem as cartas na mesa. A carta de Angola colonial para o Amor de Mãe na metrópole. A carta de despedimento da noiva carnal, infiel. A carta de recomendação aos anjos falidos de Deus, Administrador. E o ás de espadas, que nada corta: o trunfo é ouros.

4

Na tua ausência, aumentei a minha presença.
Fui à mercearia, comprei latas e hortaliças.
No terraço, o gato cumpria a Lua.
Deitei-me cedo, já a luz estava apagada de véspera.

5

O mundo é uma bola para jogar ao pontapé. Se sentires alguma pontada nas costas, tens três hipóteses: ou a China, ou a América, ou a memória.

6

Quanta beleza, a dos gelos perpétuos. Quanta formosura, a das neves eternas. E o sol, em cima, derretendo tudo.

7

Uma mulher mansa com um saco cheio de coisas: um pacote de bolachas, uma molhada de agriões, uma fotografia de menina. Dela mesma, quando não ia às compras e tudo era de graça.

8

O dono do carrossel não tem dinheiro para a conta da luz. os cavalinhos de madeira estão parados. Correm em volta as crianças.

9

A montanha é um manequim maior do que a montra. Tem recantos feminis, zonas de sombra erógena. É perigosa e estéril, a montanha: faz filhos, mas come-os.

10

Guardaremos o silêncio num envelope prateado. Uma cinta vermelha há-de atar o envelope. Não vamos metê-lo no correio. Do outro lado, a resposta será calada.




Caramulo, tarde de 23 de Maio de 2006

Fusão e Chinela - um esclarecimento final

Só acredito na total e incondicional fusão da arte com a vida.
O verdadeiro artista é o que funde a sua arte com a sua vida.
Quando não, não é artista – é artesão.
Posto isto (que não é pouco: demora toda a vida), devo dizer que o texto de ontem (sobre o meu irmão Jorge) é uma coisa matinal: escrevi-o cedo no dia. Toda a lucidez me acompanhou. Também quero dizer que o texto “Consciência” (curto, grosso, malcriado) nasceu como resposta a determinados remoques e indirectas de que tenho sido alvo.
Não alinho (já não alinho, nunca mais alinho) em moralidades ocas de artesãos. Por mais hiper-correctazinha que seja a obra dessa gente. Por mais bem-comportadinha que seja a solipsista-umbilical escrita dessa gente tão cheia de sua mesma condescendência. Não alinho.
Cometi, eu sei, a asneira de convidar alguém para o lançamento coimbrão d’O Preço da Chuva. Nem resposta tive. Tenho-a agora: indirecta, remoqueira, trauliteira, pseudopaternalista. Bardamerda. Vou pela minha vida e pela minha arte. Não estou ao aluguer de gente “bem”. Nem a minha pessoa, nem a minha arte.
Pai, só tive um.
Mas há mais: escrevi dois livros, centenas de crónicas, milhares de poemas. Valem o que valem. Não tenho de justificar nada. O que não quero é a “vidinha” tão execrada pelo Alexandre O’Neill. Deus e o Diabo me livrem de não ser capaz de tentar. Todos os dias, há muitos anos: toda a vida.
Estou em paz com os meus mortos – também eu vou morrer, também eles viveram.
Não provoquei ninguém, não tratei mal ninguém. Esperar troco disso é vão: a invejazita desproporcionada pode encher paredes, mas não me coça um chato no saco testicular.
Referir a essa gente o binómio Maugham-Greene é perder tempo.
Ter paciência e estender a essa gente a esmola bibliográfica de Proust-Joyce, perder tempo é.
Um pintor (por exemplo, um pintor) ou é Van Gogh ou não é pintor: falo, naturalmente, da tal fusão vida-arte.
Tudo isto provém de uma aguda urgência de dignidade: como ensinar isto?
No Caramulo, há um café chamado “Marte”. Nem de propósito: Marte. É o café preferido de homens e mulheres arrecadados pelas famílias em lares de repouso pós-era dos sanatórios.
Dois desses homens, vejo-os todos os dias à mesma mesa da janela. Estão um com o outro. Não falam. Entre ambos, não há nem tabuleiro nem peças de xadrez. Mas eu acho-os xadrezistas. Como explicar isto a um artesão? Impossível.
Um gajo pode ser coxo, gago, paneleiro. Pode ser bêbado. Não pode é ser indigno. Acho eu.
Que a mão direita não saiba o que a esquerda dá. E vice-versa. Mas vão lá ter com o merceeiro explicar isso.
Convém sempre crescer. Ser melhor hoje que ontem.
Ontem, evoquei um morto meu. A propósito disso, a minha amiga Ana Sá contou-me que o povo finlandês tem por certo que “estamos vivos enquanto formos lembrados”. Nesse sentido, sem magias mediúnicas nem tolices quejandas, é natural que o meu irmão Jorge siga vivo.
Palavra de honra: estou-me a borrifar para atiradores furtivos, para a sua cobardia física e moral, para a sua mesquinhez escarninha e para as suas agendas telefónicas cheias de nomes de doutores.
Eu andei (confesso) na universidade: quero lá saber que sim. Recuso-me a ser coimbrinha: sou apenas uma pessoa.
Como apenas-pessoa, não estive sempre bem. Mas tentei-o sempre. Comigo e com os outros. Falhei. Lamento. Mas continuo vivo. E vou continuar (desculpa lá, pá) a escrever. Não vá o sapateiro além da chinela, nem vá o pintor muito acima dela.
No Caramulo, há um parque lindíssimo: voltarei ao parque, não ao assunto.



Caramulo, manhã de 24 de Maio de 2006

terça-feira, maio 23, 2006

Jorge (23 de Maio de 1986 – 2006)


Há vinte anos, o meu irmão Jorge morreu.
Tinha 31 anos. Deixou de usar sabão, comer frango, ir à tarde ao cinema, ensinar desenho e cerâmica, poupar a roupa até ao fio, comprar livros em segunda mão no quiosque da Sereia.
Não sei que lhe diga. Estou vivo. Cito de cor Camilo José Cela: “Do irmão, nem a glória nem a morte.” Não quero saber da glória. Há quem queira. Eu não quero. Sei da morte. É um jogo muito praticado. Quando no-lo fazem jogar, lesiona.
Tenho duas idades: 42 e vinte anos.
A um canto da casa, voluminhos esquecidos de Pierre Loti e de Guy de Maupassant. Bilhetes de cinema, também. Desenhos tipo BD em fragmentos de papel. Cassetes de som roçagado, arenoso. Foram dele.
Herdei dele umas botas que calcei no inverno 1986/87 de Peniche. As calças, muito limpas e coçadas, ficavam-me grandes. Tive de desistir delas como dele.
À esquina da Farmácia Donato, em Coimbra, deixou de aparecer.
Fui logo que pude para Peniche. Ia ver a Nau dos Corvos. Dediquei-me a tempo inteiro à literatura e ao alcoolismo. Escorei a morte dele com essas duas dimensões tão humanas. Não me arrependo: o meu umbigo é irrelevante.
Uma vez, não muito tempo depois de ele ter morrido, encontrei uma das mulheres que o amaram. Ela parecia ter naufragado: toda molhada em plena rua urbana, toda coberta de limos, a roupa rasgada de farpas de madeira náutica. Falámos alguma coisa. O meu corpo (alguns gestos involuntários) poderá ter-lhe acordado a volumetria do corpo dele. As minhas palavras também. Despedimo-nos com o coração para obras de restauro: nunca mais a vi.
Pierre Loti e Guy de Maupassant, que ele não leu, pouco importam.
Tenho dois projectos que me fazem sorrir, pois que me lembram os dele. No meu caso, aprender a tocar acordeão e a falar alemão. Ele tinha projectos destes. O homem é irmão do homem: duas tristezas geminadas pelo sangue e pelo leite.
Nestas duas décadas exactas sem ele, prossegui o escândalo de sobreviver. Fiz duas filhas e dois livros: não é mau. As filhas são muito boas e muito honestas; os livros são honestos e esquecíveis. Já não me lembro dele todos os dias. A dor, ela própria, anestesia-se. Mantenho a minha estratégia: leio e escrevo, escrevo e leio. Quando levanto a cabeça, sucede que uma inclinação da luz mo recupera, a ele: as botas bem ensebadas, a ganga coçada e limpa, o bigode viril, a boca comedora de mulheres e frangos.
Na fotografia da sala da nossa mãe, o olhar continua-lhe apreensivo. Não sei se foi tirada antes ou depois da ida a Veneza.
Nunca fui a Veneza. Talvez nunca vá. Isso não tem importância. Uma pessoa perde importância: com os anos, com a morte de um irmão.
À sombra do desastre irreparável da morte do Jorge, pratiquei amores eróticos sem entrega: como se fodesse vestido. Depois, abandonava essas camas frias e ia beber.
Sucederam-se-me cidades também irreparáveis: Peniche, Coimbra, Figueira da Foz, Leiria, Aveiro, Marinha Grande, Pombal, Viseu, Porto, Lisboa, Praia, Bruxelas. E mil aldeias e vilas mais, onde matriculei a insensatez hepática da minha língua portuguesa.
Não posso cobrar-lhe isso. Sou hoje bem mais idoso que ele. Sei mais coisas que ele: internet, cinema, clarinete, literatura espanhola, whisky irlandês.
Uma vez, lá na infância, um rapaz da minha rua puxou-me o cabelo. Magoou-me muito. O rapaz era mais velho do que eu. Chamava-se Guilherme. Já morreu, também. Desatei a chorar. O Jorge estava em casa. Perguntou-me. Eu disse-lhe. Ele saiu de casa. O Guilherme estava na rua. O Jorge abrasou-o com duas lambadas sonoras. Senti-me protegido para o resto da vida. Não estava.
Fui ao velório do Guilherme, tantos anos depois, numa noite de há quinze anos. Era um cadáver bonito: um busto francês. Desatei a chorar outra vez. Escrevi sobre ele uma crónica, publicada depois num jornal da cidade. Não adiantou: o Guilherme não regressaria.
A filha do Jorge está viva. É muito alta e muito formosa. Estuda, joga voleibol. Imagino que lhe repita determinada luz, certa sombra, um jeito de repor os ombros à largueza do tronco. O lábio de baixo, nutrido e sensual, acamará frases lentas, como as dele.
Acontece-me voltar à cidade natal e passar ao número 210 da última das ruas dele. A rua tem nome de suicida: Antero de Quental, o santo de Eça. Destruíram o Teatro Avenida. Digo-vos que visitei com ele os camarins desse teatro-cine. Foi há muitos anos. Tinham guardado lá os despojos de uma escola secundária. Lembro-me sobretudo dos répteis conservados em frascos.
A churrascaria onde comemos frango está viva. Situei nela um dos textos de Noite de Homens-Cantores, aquele que tem o cantor Art Garfunkel.
Um homem sobrevive. Eu faço isso. Faço como toda a gente: o dia amanhece, entardece e anoitece. Vinte anos disto.
Tenho lido umas coisas e bebido outras. Ele não voltará a Veneza, mas eu voltarei a Peniche. Tenho outras botas. Aprender acordeão não é, como o Jorge é, nada do outro mundo.



Caramulo, manhã exacta de 23 de Maio de 2006

segunda-feira, maio 22, 2006

Consciência

Sei de duas formas de má consciência: a própria e a alheia.
Com a própria, posso eu bem.
Com a alheia, bardamerda.
Por hoje, é isto.


Caramulo, 22 de Maio de 2006

domingo, maio 21, 2006

Santos dos Últimos Dias

Simenon - Pedigree
Eça - O Primo Basílio
Rick Moody - Tempestade de Gelo
Torrente Ballester - Os Anos Indecisos
Ernesto Sabato - O Túnel
Sousa Dias - E Ítaca Eras Tu
Vergílio Ferreira - Alegria Breve
Cunha Rêgo - Liberdade
Margery Allingham - Cuidado com a Senhora
John Buchan - Os 39 Degraus
Carson McCullers - Reflexos nuns Olhos de Oiro
Harold Pinter - A Colecção
F.-A. Almeida - Estórias de Portugal
Tilman Spengler - O Cérebro de Lenine
Angelica Liddell - A Falsa Suicida

quarta-feira, maio 17, 2006

No Parque - soneto para o filho mais novo do Sr. Serafim

Anda, Rui, comigo ver o parque.
É como estar na catedral.
Ocultas aves hão-de vir dar que
cantar. Ouvi-las, Rui, é celestial.
Gente extinta aqui se fez
mais só e mais dada à sua extinção.
Agora entanto é a nossa vez,
curtamos o bálsamo desta estação.
As áleas frecham toda a luz solar,
há coriscos d'ouro brilhando no húmus.
Levemos connosco mel, sandes e sumos.
Já pois que é lusa nossa natureza,
usemos a sombra e a pedra da mesa
e comendo tracemos nossos novos rumos.



Caramulo, tarde de 17 de Maio de 2006

segunda-feira, maio 15, 2006

Eternitardes - I

Montanha e Tempo

Habito uma casa do vale e trabalho na montanha.
Cada dia é inaugural. Não é como quando nas cidades. A luz, rica de bosques acamados, esclarece. Há poucas ou nenhumas putas. Alguns gatos.
Não alimento, já não, remorsos inconsequentes. É-me agora fácil dispor do senhor Alexis de Tocqueville com a mesma sem-cerimónia com que recorro, na tarde solar de sábado, aos préstimos da senhora Margery Allingham.
Na aldeia do vale, andam há meses arranjando o largo junto à igreja. Tiveram de derrubar uma árvore, o que é lamentado com resignação pelo presidente da Junta. Ele mo disse, ontem. A obra há-de estar concluída em dois meses, a tempo do Verão emigrante.
Entretenho-me adiando as releituras de Mann, Joyce e Proust: A Montanha Mágica, Ulysses e Em Busca do Tempo Perdido. São monumentos a que tenho de voltar. Porquê? Por me terem marcado a vida anterior. E porque me embalo, cada manhã inaugural, para o futuro. Hei-de gostar, no futuro, de ter relido esses livros monumentais, montanhosos. Mas entretanto, Allingham (Cuidado com a Senhora).
Anteontem (5ª, 11), verifiquei, sem pressa nem pólvora, que a minha mortalidade (a minha mortal idade, mesma coisa) é uma coisa viva. Depois de almoço (era na montanha), desci ao parque. No parque, a luz e a hora, quentes como mãos sãs, tornavam definitivo o instante: a eternitarde. Suspenso da titilação da folhagem, sobrepassei a minha mesma condição. Digo que me desumanizei, aderindo à pedra dos degraus. O parque tem escadarias não subidas nem descidas: estão ali há tanto tempo não contado, que adquiriram o direito da erva, dos florões e da brisa irreparável de mil maios. Apeteceu-me fazer por ali a sesta. Cheguei a considerar algumas sombras, mas a urgência idiota da minha vida social impediu a satisfação desse desejo tão justo. Tinha trabalho à tarde. Perante a glória desumana das árvores e da erva, mirando a quietude sensata das múltiplas escadarias, decidi não ignorar.
À noite, depois de jantar, descido já ao vale, continuei não ignorando: nasce-se e morre-se só. O entretanto é uma política: uma arbitrariedade. Onde morar, onde trabalhar, onde permitir que o sono nos mate/resgate – por exemplo político, arbitrário.
As horas e as noites de dois dias passaram. A ideia não passou: inaugurar cada dia. E Mann e Joyce e Proust, sem remorsos.


Botulho, 13 de Maio de 2006

José

Os olhos azuis do meu avô paterno apagaram-se 34 anos antes de eu nascer.Sei que eram azuis por crónicas de família. A única fotografia que se conserva dele é toda cinza. Ainda assim, os olhos desse homem improvável ardem de claridade por cima de um bigode viril e secular. Era um homem múltiplo: conduzia eléctricos, amanhava a terra, enxertava árvores e fazia ele mesmo a roupa aos muitos filhos. Levou-o a tuberculose de 1930. Fez muita falta. Para sustentar aquele rancho todo, a minha avó foi vendendo, retalho a retalho, as terras que ele tinha ido comprando. Foram anos negros, depressivos, fundos como poços sem água. O meu pai falava do pai dele com uma veneração comovente. Eu gostava desse espectáculo: o meu pai a ser filho. A cor azul não chegou a mim. Tenho vulgares olhos castanhos de pardal português. Não sei enxertar árvores, já não há eléctricos, compro a hortaliça e nada sei de alfaiataria. Só sei que, por causa de meu pai, admiro e gosto de um homem que não conheci, um homem que me olha de azul do meio de um clarão cinza.



escrito na Figueira da Foz, 24 de Abril de 2006
publicado n'O ECO (ed. 2770, 27 de Abril de 2006, ou www.oeco.pt)

sexta-feira, maio 12, 2006

Três Citações

1

"Gostava da percepção das possibilidades contidas nas coisas tristes."

Rick Moody, Tempestade de Gelo
2

"... mas viver consiste em construir recordações futuras..."
Ernesto Sabato, O Túnel
3
"... porque há uma invencível lei do homem que é a da sua libertação, a sua conquista inexorável de uma cada vez maior dignidade."
Vergílio Ferreira, Alegria Breve

quinta-feira, maio 11, 2006

42 Anos – um Balanço

Vesti o casaco de um pássaro e voei rente ao chão.
Conheci senhoras endomingadas à quarta-feira.
Desfolhei em torno as flores do milho, farinha de cor, méxicos pessoais.
Numa garagem cheia de caixas de sapatos, abordei descalço o segredo e a volúpia.
Levantei do chão um homem, era em Lisboa e chovia.
Mantive cães e gatos em harmonia.
De roídas unhas, toquei viola para pescadores silenciados.
Requisitei em igrejas a frialdade, ardia fora um sol de febre.
Na terra de meu pai, antes do ano 1970, vi um caixão ao sol: outro homem para nunca mais.
Lapso de luz: outro funeral, mas de criança, pelos mesmo dias eléctricos.
O pó e o suor irmanam-se.
Lavei-me de ambos com o rio, entre a folhagem que gritava de pássaros e ciganos.
Então, o bosque púbico coçava.
Rápida, a amargura precoce.
Alguma euforia, sextas à noite.
Tudo confirmava a autoridade da escrita.
Segui esse trilho, essa insolação.
Às vezes, num autocarro, a evidência da inutilidade.
Outras vezes, não: junto ao mar.
O coração – um barco de saída.
A esperança, como um rímel, borrando os olhos.
A atenção prestada aos quintais alheios, onde animais e laranjeiras enferrujam.
Caixas de ananás dos Açores.
O fontanário público decorado de azulejos brancazuis: o carneiro, o peru, o cavalo, o galo, a andorinha, o porco.
As letras que escreviam esses bichos (a generosidade das vogais; a soberba das consoantes).
O menino embebedado de alegria: perceber embebeda.
A importância da História: cada velho esperando o crepúsculo em cada quintal de netos futebolistas.
O que dobrava guardanapos no restaurante era Miguel e tinha nascido a 5 de Outubro de 1910.
Um cedro respirava no extremo da passagem.
Junto ao cedro, o poste telefónico.
O sol de tremoços, domingo de manhã.
Os pedintes à porta, domingo de manhã.
No monte, tufos de espargos e comparações métricas de piças.
O absoluto esplendor dos comboios.
A galinha afogada, irrecuperável, no poço dos cabo-verdianos.
Dez filhos tinham os cabo-verdianos: viviam de nada.
Os caracóis chegavam à frente ao futuro.
Uma noite, houve fados.
Fritaram toucinho, laminaram broa.
Cantaram, dava a lua nas figueiras.
Essa dor da música.
Outra noite, uma casa ardeu: vi o povo, não já cada pessoa.
Isto é tudo agora, como já era.




Caramulo, 8 de Maio de 2006

Um Ajudante de Farmácia

Era por essa hora a que os autocarros, de tão vazios e anoitecidos, tornam idênticos, como gotas de água, a serenidade e o desespero.
Orlando Gil, ajudante de farmácia, seguia de autocarro. Viajava muito atento às ruas desertas de pobres-de-pedir. Era mais uma viagem ao desamparo das coisas sem escolta: o cinema fechado, a cruz verde-néon da farmácia pulsando nos plátanos, o taipal cerrado da tabacaria, nos beirais as pombas adormecidas como matraquilhos sem moeda, o livor gasogénio do rio, a mata púbica do parque, as urbanizações dormitórias da cidade nova.
Desceu na paragem correcta, entrou no bar correcto e foi atendido de imediato sem ter de dizer uma palavra. Ali esteve os decilitros de silêncio os suficientes até que a vida reatasse os nós da resignação. Pagou, deixou as boas-noites, caminhou quarenta metros até à pensão e imergiu no quarto como se o quarto fosse um rio escuro e vertical.
Sonhou com portas infinitas, sucessivas ao longo de um corredor apainelado de madeira. Eram como a existência: não tinham indicações precisas. “Empurre” ou “Puxe” – não diziam. No sonho, soube, sem vê-las, que havia uma mulher atrás de cada porta. Uma poderia ter sido a dele.
Acordou cedo, tomou banho e saiu. Caminhou muito, assimilando a manhã. Integrou a hemorragia escura que sulcava a praça de mármore branco: um formigueiro de gente vestida de preto, cinzento e azul-negro. E às cinco para as nove vestia a bata de ajudante de farmácia.
Às dezanove e cinco, já sem bata, escolheu algumas revistas caducadas da mesinha de espera da farmácia e trouxe-as. Nessa noite, não as folheou no quarto, preferindo guardá-las para um domingo de chuva, como veio a ser o seguinte.
Nesse domingo, sesteou. Deitou-se na cama e não pensou dormir. Cabeceou uma nova pista do mistério Lady Di e acabou por adormecer. O sono e os sonhos sucederam-se-lhe com a natureza do vento nos cedros. Depois, acordou para verificar o sítio do mundo. Era o mesmo. Sentiu ter envelhecido um pouco, como uma estrela ou uma pedra. Teve a certeza de que o vento não envelhece. Isso fê-lo sair do quarto. Andou os quarenta metros até ao bar.
Cada último domingo do mês, visitava a mãe no Lar de Santa Teresa, à rua do mesmo nome. Estava branca e quase cega, ela que fora morena e rara como uma virgem brasileira e vidente e rara como uma virgem portuguesa. Nos outros domingos, cedia à incerteza. Naquele em que sesteou, era fevereiro. Depois de dormir, esfregou a cara em mãos e água fria. Acalentou-se no bar com conhaque. Saiu para a cidade eclipsada de molha-tolos. A tristeza era tanta, que as pombas do município tinham mirrado à volumetria de pardais. O domingo era maior do que a vida, pelo que desceu a calçada do Colégio dos Órfãos, passou a Funerária Alho e a capela arruinada de São Nicolau, cheirou o mar apodrecido do mercado do peixe e desembocou sem remédio no alto da rua do Corpo de Deus. Aí, parou para acender um cigarro de pura autocomiseração.
Aos domingos, o emprego dele era dominar a tristura. O trabalho consistia todo em pensar que para se ter uma vida é preciso manter-se um corpo. E que só há uma vida e um só corpo.
Orlando Gil passou em frente à florista e acabou na fronteira de ar e vidro da Ferreira Borges com a Visconde da Luz. E aí continuou sentindo, com menor mágoa já, quanto o domingo é o país das pombas. Um músico de rua tocava para ninguém. À Portagem, um polícia autuado pelo tédio guardava a agência do Banco de Portugal. Do outro lado da praça, aos pés de onde o médico Adolfo Rocha manuscrevia os poemas e os diários de Miguel Torga, africanos e eslavos coçavam as virilhas dominicais. A única pastelaria aberta da praça engolia grupos de excursionistas ávidos de queijadas de Tentúgal e de pastéis de Santa Clara antes do regresso aos autocarros estacionados na Banda d’Além.
Desconhecendo que fazer de tanto tempo e tão pouca vida, Orlando Gil entrou para uma chávena de café. A chuva tinha cessado. Operou muitas coisas cerebrais simultâneas: café, Mãe, mulher, humidade, vapor, brilho.
Com a noite, havia a alternativa da prostituição em apartamentos para o efeito anunciados nos jornais da cidade ou em pensões esconsas da Baixa com mulheres recrutadas ao longo da Fernão de Magalhães, quando o anoitecer toma do Navegador os descobrimentos mais antigos do mundo.
Não teve de pensar na mãe para renunciar à hipótese de um amor de aluguer. Regressou de autocarro até à paragem correcta, reentrou no bar correcto e viu os resumos da jornada desportiva entre homens casados.


quarta-feira, maio 10, 2006

Pensão Acabamento

Era uma pensão vazia.
O tempo tinha passado, tinha levado as pessoas. Não havia outro tempo depois. Não estimaram as janelas, que se quebraram. Cada outono, folhas em revoada tinham entrado pelos buracos das janelas, acabaram de murchar nas salas, nos corredores. A pedra mantinha de pé a casa, como os ossos aos homens. Os quartos fechados fechavam nenhum sono.
Não já o alegre viajante comercial rompia o vestíbulo. Nunca mais a sopa encheu as terrinas de louça. Uma senhora-de-fátima aparecerá ainda aos ratos, sob uma mesa manca. O tempo acabou à porta da pensão. A inconsciente passarada rejubila no telhado. Automóveis rasam a portaria tossindo combustível e rastilhos radiofónicos. É onde acaba a ladeira e começa o parque. Do outro lado da rua, a insolente pastelaria pensa-se futura. O inverno é um cavalo d’água. De dentro da pastelaria, escrevo a pensão. Gosto da sua lição. Nunca é hoje, quando a olho, muito menos quando a escrevo. A esperança reside na rua: uma árvore de folha perene que, muito senhoril, subiu o vestido ao vento. Agora não há tempo. As pessoas foram levadas. Quando era, como seria?
A sopa fumegando nas terrinas portuguesas. As conversas comensais, a sisudez apócrifa da patroa. No fundo, um bom coração. O marido da patroa descalçando as galochas na cozinha depois de depositar na larga mesa de mármore os legumes e a mercearia. O filho de ambos a fazer-se médico em Lisboa. O avô que salivava obscenidades às criadas, as quais roliçavam as ancas nédias e as bochechas camoesas. O tempo havia. No pátio traseiro, a criação engordava de lavagem. Coelhos filosóficos picotavam talos de couve. O galo velho, muito sanguíneo, discutia sozinho. O cão sacudia com uma orelha os pintos. A porca toucinhava de pura saúde.
O meu tempo também acaba, excepto quando escrevo.





Caramulo, tarde de 9 de Maio de 2006

terça-feira, maio 09, 2006

Males menores

As aparições desacreditam o mal menor.
O mínimo cão da vizinha vivenda.
Seu ladrar proprietário.
O retorno espanholado do assentador de ladrilhos.
A vida é o mal menor.
Mínimo, o cão.
Menos que a vida.
Cão superlativo, cão gramatical.
Da peanha triangular do canto do café, o televisor emana amor de actrizes.
Maquilhado amor de brasileiras actrizes.
Mulherões.
Gostam mais de teatro, mas fazem telenovelas.
Pastilhas elásticas rosiplastificadas decompõem-se de açúcar plástico em boiões idem.
Por cima delas, o jogo dos furinhos: sai-sempre-um-brinde: um euro.
O domingo vigora na aldeia.
É de tarde, a igreja fechou-se sobre si mesma, entristecendo os santos que a um canto tentam violar, de chave de fendas nas mãos de cera, a vazia caixa de esmolas.
O próspero peixeiro, endomingado, fala de Peniche e da operação da mãe.
Hérnia elefantina.
A cozinheira do café, em seus dela cinquentas, passeia a mama pingada em redor dos homens que bebem ao balcão.
Ela é uma aparição: pingente, celeste, aventalada, ainda.
O balcão é fórmico.
Pintalga-se de baquelite como um leopardo sintético.
Ele é feliz na consumpção, na aldeia, na felicidade.
Eles saem, abandonando-o à felicidade.
Um rapaz quarentão de pulôver resiste, sozinho, ao filme da televisão.
O filme arrasta uma perseguição de carros.
Um dos detectives é preto.
O herói é branco.
Há uma santificação diegética da ladroagem.
No fim, uma bomba de relógio decrescente há-de ser desactivada a tempo.
Ainda isso é o mal menor.
Entra a inconsciente plebeia azul.
Na verdade, ela é castanha.
Franco lancil de ancas, mas bom peitoril.
Mas aqueles olhos azuis que dardejam sem literatura.
Magnetiza um namorado de motorizada e capacete, tonto de jovem, que sorri.
Saem os dois, ele sorrindo sempre, fica o porta-guardanapos, que diz “Sagres” como o Infante dos Descobrimentos.
“Homem de Deus!”, exclama a cozinheira.
O homem divino é um emplastro de oitenta anos que sorve martinis ao pé da jarra de rosas.
Já deveria ter entregado, a Deus, os oitenta anos e as outras tantas rosas.
Não o fez, porém.
Resiste, ele também, ao domingo, aparição ele mesmo, mal menor de si mesmo.




Botulho, domingo à tarde, 7 de Maio de 2006

sexta-feira, maio 05, 2006

Montanha, uma Noite e uma Manhã

Noite

Nas terras não conquistadas ainda pelos hipermercados colossais, a ternura comercial é ainda vigente.
Num café frequentado de manhã por dementes mansos de lares clínicos e à noite por mim, demoro-me a inventariar os bens expostos no mostrador do balcão de jornais: rebuçados peitorais, pilhas, dentífricos, cremes de barbear, lâminas, cola, lápis, esferográficas, lenços de papel, flores, tesouras para as unhas, postais, preservativos, cêdês, batatas fritas, camisolas, livros, atlas.
O meu coração derrama-se, perante o rol. Gosto de ver as coisas do manso comércio. Mas entretanto faz-se noite.

Manhã

Sobrevivi ao vento frio que descia da montanha anoitecida. Regressei de manhã para seguir inventariando o manso comércio. Tomei café noutro estabelecimento. Era numa zona a descer. A casa tinha lareira, jornais atrasados (como todos) e duas velhas que escorropichavam o cálice de porto matinal dos resignados. Um zéfiro fresco teletransportou-me ao local. Penetrei. Havia um poster da equipa local, um azulejo benfiquista, garrafas amortalhadas de resina e um bolor de eternidade que empalhava o cão adormecido aos pés da lareira sem lume. Prossegui aí a minha felicidade serôdia. O meu casaco preto de cabedal foi apreciado com respeito pelo motociclista que mamava martinis consecutivos ao cotovelo do balcão.
Eu regressarei sempre.



Caramulo, noite de 4 e manhã de 5 de Maio de 2006

quinta-feira, maio 04, 2006

A Felicidade no Esconderijo

Numa tarde embaciada como uma janela de inverno, ele teve momentos felizes. Tinha entrado num estabelecimento mínimo chamado "Esconderijo". As paredes, forradas de meias ripas redondas de pinho, eram cravejadas de penduricalhos de louça e de papel, entre pratos com dizeres populares e anúncios de bailes. Três mulheres casadas palravam agudamente. Uma criança invisível gritava nalgum pátio interior. Uma gata estendia num cesto uma sesta nédia. Pediu uma caneca de café e um bolo de canela. Merendou sem infelicidade, encalmado pela beberagem chilra. Enquanto tasquinhava o biscoito, mirou o boneco do queres-fiado-toma, sorrindo por dentro à justiça do manguito. A criança invisível materializou-se à entrada da tasca com uma bola na mão e um sorriso, a que faltava um dente, na boca. Parecia um sapo ruço. As mulheres meteram-se com o miúdo. Deram-lhe um caramelo espanhol.
Lá fora, havia um jardim público muito grande. O arvoredo antigo presidia à decência geométrica dos canteiros. Bancos de pedra sem espaldar arrefeciam à espera de ninguém, na tarde de grés. Algum carro raro subia a esforço a calçada.
Pediu um conhaque nacional e aceitou a memória instantânea da felicidade. As mulheres saíram, ele ficou-se. O miúdo da bola teve de sentar-se à mesa da entrada. A mãe trouxe-lhe um iogurte e um pão com fiambre. Outra criança entrou. Era mais velha e irmã do jogador. Também foi servida de iogurte, mas preferiu queijo no pão.
No mostrador, um prato de carapaus envinagrava de cebola emurchecida o olhar e as moscas. Ao lado dos peixes, um naco de presunto amarelejava sem saída. Outro pires sustentava uma mancha de queijo. O ar, suculento, merceava um compósito de café, petiscos e sabão. Três mesas, na sala exígua, amparavam dezasseis cadeiras. O calendário da parede demorava-se em abril, mas maio já era. Caixas de papelão, inchadas de botelhas de água mineral, geometrizavam ao canto direito da entrada, nas costas do menino. Os cinzeiros eram conchas de baquelite que lhe lembraram mãos de dedos colados, infantis e tóxicas. Uma balança das antigas pontificava no segundo balcão, em cujo mostrador vivia o silêncio grená de um presunto. Ele foi coleccionando as coisas pelo lado da emoção, agradecendo a hora.
A senhora informou-o de que o lavabo se situava no exterior. Era um cubículo esconso. Dentro, uma cagadeira turca, igual às das escolas primárias salazaristas, convidava ao agachamento cócoro. Urinou do alto, acertando no sumidouro com garbo e pressão. Regressou ao "Esconderijo" com antecipações felizes.
Tinha entrado uma velha enxuta. Pela autoridade, supô-la com acerto mãe da patroa. A mulher estendia uma voz metálica que vibrava nas tampas mal enroscadas dos boiões de amendoins. Falaram de mortos e de política municipal. Ele escutou, deliciado com a desimportância da vida. Apreciou o estanho da garrafa de ponche, em cujo rótulo se coloria uma sensualidade de mil-e-uma-noites. Havia toda uma existência de vinhos abafados, portos, madeiras, espumantes, brandes-mel, licores de coco, tangerina e noz. E medronheiras.
Para mais, tinha os pés quentes, favorecidos pela regularidade da digestão e a paz de espírito. Não longe do "Esconderijo", o cume da montanha era um nariz frio juncado de pêlos vegetais. No vale, os casarios fumavam por chaminés rupestres. Depois, teria de sair, regressar, matricular-se naquilo a que, à falta de melhor esconderijo, chamamos "realidade".

Caramulo, tarde de 4 de Maio de 2006

sábado, abril 29, 2006

O Preço da Chuva em Lisboa

Vai ser no Bar do Teatro A Barraca, ao Largo de Santos, Lx.
Dia 1 de Maio, pelas 19 horas.
Abraços.
D.

segunda-feira, abril 17, 2006

Para Penamacor

1. Um Dia

É para morrer mas ainda é cedo
não cessaram de todo as oliveiras
há ainda pessoas ainda há casas
horas para quase tudo sendo tarde

É para viver um dia mas ainda é cedo
um barco na capa do jornal
o natal antecipado mais e mais breve
a infância endurecida na boca

É para outro dia a mesma noite
o vento trata o gelo por tu
será um dia verão teremos sorte
teremos um dia um dia vocês verão.



2. Continuação

Todos nós já fizemos tudo por coisa nenhuma.
Até filhos, versos, serventias, tias, reversos.
Revolvemos universos de espuma.
Temos sido delicadamente perversos.

Somos apenas gente. Assustada e diferente.
Acossada, malograda, nua e inclemente.
Viajamos à mercê da lua milenar.
Tudo nos é possível. Menos continuar.



Coimbra, 20 de Março de 2006

domingo, abril 16, 2006

O Regresso do Emigrante

À saída do comboio, sentiu que o tempo tinha mudado de espessura. A ausência tinha oxidado os pombos e as palmeiras. O jardim era do esmalte que consubstancia o futuro anterior. No coreto, fantasmas filarmónicos tocavam Roberto Carlos.
Comeu um quarto de frango numa churrasqueira enegrecida. O recepcionista da pensão aceitou-lhe as malas com um gemido artrítico.
De volta ao largo, conferiu a eternidade das mercearias, os jogadores de cartas aposentadas, a sesta dos táxis e a fragrância mortífera da desesperança.
Trinta anos em França. Doze na Alemanha. As mãos dormentes de tanto trabalho. E, agora, o regresso, essa missão impossível. As crianças tinham-se casado. As aldeias eram iguais entre si como requeijões. As pastelarias repetiam-se umas às outras como sonhos feios. Os arquitectos pariam cubos de cimento como galinhas geométricas. Os farmacêuticos aviavam pastilhas contra o problema de ter nascido. E os futebolistas da equipa local eram brasileiros que entristeciam de frio na noite dos cafés cibernéticos.
Ao jantar, na mesma churrasqueira, ainda considerou a possibilidade de voltar para trás: França, Alemanha. Mas decidiu que não, que ficaria.
Que, no próprio dia seguinte, trataria de comprar um táxi ou um baralho de cartas, de modo a poder usufruir, em pleno esmalte, da glória de Roberto Carlos tocado até nunca mais pelos benignos fantasmas da filarmónica de quando isto era vila e ele não tinha partido para sempre.

sábado, abril 15, 2006

Bragança

Nunca cá tinha vindo.
Agora vim.
Vi a pedra de que a terra é feita.
Igrejas talhadas a ouro.
Um Cristo nordestino lá dentro.
Um castelo com casas de gente viva.
A comida, forte e nutritiva, serve contra a força do frio.
Faz frio, mesmo a meio abril.
O verde e o castanho ondulam, muito humanos, por quanto é olhar.
Cá vim uma vez, cá espero voltar.



Bragança, noite de 15 de Abril de 2006
(para o Quim Jorge, que hoje completa 43 anos)

segunda-feira, abril 10, 2006

Outro Dia

Livro lançado (fora, dentro), segue-se outro dia com sua dele noite.
Outro vento nos mesmos cedros.
Vi gente.
Isto não pára.
Até que uma noite com sua dela dia.



Caramulo, entardecer de 10 de Abril de 2006

quinta-feira, março 30, 2006

Obrigado, Pombal

Foi ontem, 29 de Março.
Uma noite bonita, cheia de gente generosa que quis estar presente no lançamento d'O Preço da Chuva.
São os leitores quem dá sentido aos livros.
Eu agradeço.
Segue-se Coimbra, sábado, dia 1. às 18h30, na Sala Polivalente da Casa Municipal da Cultura.
Uma rosa para todos.

quarta-feira, março 15, 2006

O Preço da Chuva em Pombal

Mais informo que o lançamento d'O Preço da Chuva em Pombal já está marcado: 29 de Março, pela noite, na livraria K de Livro.

Beijos e abraços.

sexta-feira, março 10, 2006

Lançamento d'O Preço da Chuva


O Preço da Chuva
vai ser lançado em Coimbra no dia 1 de Abril de 2006, pelas 18h30, na Casa Municipal da Cultura.
Já está disponível em http://www.pedepagina.pt/

sexta-feira, março 03, 2006

Oito Menos Dez da Manhã

Vi a rola no alto do cedro.



Coimbra, manhã de 3 de Março de 2006