quarta-feira, maio 24, 2006

Fusão e Chinela - um esclarecimento final

Só acredito na total e incondicional fusão da arte com a vida.
O verdadeiro artista é o que funde a sua arte com a sua vida.
Quando não, não é artista – é artesão.
Posto isto (que não é pouco: demora toda a vida), devo dizer que o texto de ontem (sobre o meu irmão Jorge) é uma coisa matinal: escrevi-o cedo no dia. Toda a lucidez me acompanhou. Também quero dizer que o texto “Consciência” (curto, grosso, malcriado) nasceu como resposta a determinados remoques e indirectas de que tenho sido alvo.
Não alinho (já não alinho, nunca mais alinho) em moralidades ocas de artesãos. Por mais hiper-correctazinha que seja a obra dessa gente. Por mais bem-comportadinha que seja a solipsista-umbilical escrita dessa gente tão cheia de sua mesma condescendência. Não alinho.
Cometi, eu sei, a asneira de convidar alguém para o lançamento coimbrão d’O Preço da Chuva. Nem resposta tive. Tenho-a agora: indirecta, remoqueira, trauliteira, pseudopaternalista. Bardamerda. Vou pela minha vida e pela minha arte. Não estou ao aluguer de gente “bem”. Nem a minha pessoa, nem a minha arte.
Pai, só tive um.
Mas há mais: escrevi dois livros, centenas de crónicas, milhares de poemas. Valem o que valem. Não tenho de justificar nada. O que não quero é a “vidinha” tão execrada pelo Alexandre O’Neill. Deus e o Diabo me livrem de não ser capaz de tentar. Todos os dias, há muitos anos: toda a vida.
Estou em paz com os meus mortos – também eu vou morrer, também eles viveram.
Não provoquei ninguém, não tratei mal ninguém. Esperar troco disso é vão: a invejazita desproporcionada pode encher paredes, mas não me coça um chato no saco testicular.
Referir a essa gente o binómio Maugham-Greene é perder tempo.
Ter paciência e estender a essa gente a esmola bibliográfica de Proust-Joyce, perder tempo é.
Um pintor (por exemplo, um pintor) ou é Van Gogh ou não é pintor: falo, naturalmente, da tal fusão vida-arte.
Tudo isto provém de uma aguda urgência de dignidade: como ensinar isto?
No Caramulo, há um café chamado “Marte”. Nem de propósito: Marte. É o café preferido de homens e mulheres arrecadados pelas famílias em lares de repouso pós-era dos sanatórios.
Dois desses homens, vejo-os todos os dias à mesma mesa da janela. Estão um com o outro. Não falam. Entre ambos, não há nem tabuleiro nem peças de xadrez. Mas eu acho-os xadrezistas. Como explicar isto a um artesão? Impossível.
Um gajo pode ser coxo, gago, paneleiro. Pode ser bêbado. Não pode é ser indigno. Acho eu.
Que a mão direita não saiba o que a esquerda dá. E vice-versa. Mas vão lá ter com o merceeiro explicar isso.
Convém sempre crescer. Ser melhor hoje que ontem.
Ontem, evoquei um morto meu. A propósito disso, a minha amiga Ana Sá contou-me que o povo finlandês tem por certo que “estamos vivos enquanto formos lembrados”. Nesse sentido, sem magias mediúnicas nem tolices quejandas, é natural que o meu irmão Jorge siga vivo.
Palavra de honra: estou-me a borrifar para atiradores furtivos, para a sua cobardia física e moral, para a sua mesquinhez escarninha e para as suas agendas telefónicas cheias de nomes de doutores.
Eu andei (confesso) na universidade: quero lá saber que sim. Recuso-me a ser coimbrinha: sou apenas uma pessoa.
Como apenas-pessoa, não estive sempre bem. Mas tentei-o sempre. Comigo e com os outros. Falhei. Lamento. Mas continuo vivo. E vou continuar (desculpa lá, pá) a escrever. Não vá o sapateiro além da chinela, nem vá o pintor muito acima dela.
No Caramulo, há um parque lindíssimo: voltarei ao parque, não ao assunto.



Caramulo, manhã de 24 de Maio de 2006

terça-feira, maio 23, 2006

Jorge (23 de Maio de 1986 – 2006)


Há vinte anos, o meu irmão Jorge morreu.
Tinha 31 anos. Deixou de usar sabão, comer frango, ir à tarde ao cinema, ensinar desenho e cerâmica, poupar a roupa até ao fio, comprar livros em segunda mão no quiosque da Sereia.
Não sei que lhe diga. Estou vivo. Cito de cor Camilo José Cela: “Do irmão, nem a glória nem a morte.” Não quero saber da glória. Há quem queira. Eu não quero. Sei da morte. É um jogo muito praticado. Quando no-lo fazem jogar, lesiona.
Tenho duas idades: 42 e vinte anos.
A um canto da casa, voluminhos esquecidos de Pierre Loti e de Guy de Maupassant. Bilhetes de cinema, também. Desenhos tipo BD em fragmentos de papel. Cassetes de som roçagado, arenoso. Foram dele.
Herdei dele umas botas que calcei no inverno 1986/87 de Peniche. As calças, muito limpas e coçadas, ficavam-me grandes. Tive de desistir delas como dele.
À esquina da Farmácia Donato, em Coimbra, deixou de aparecer.
Fui logo que pude para Peniche. Ia ver a Nau dos Corvos. Dediquei-me a tempo inteiro à literatura e ao alcoolismo. Escorei a morte dele com essas duas dimensões tão humanas. Não me arrependo: o meu umbigo é irrelevante.
Uma vez, não muito tempo depois de ele ter morrido, encontrei uma das mulheres que o amaram. Ela parecia ter naufragado: toda molhada em plena rua urbana, toda coberta de limos, a roupa rasgada de farpas de madeira náutica. Falámos alguma coisa. O meu corpo (alguns gestos involuntários) poderá ter-lhe acordado a volumetria do corpo dele. As minhas palavras também. Despedimo-nos com o coração para obras de restauro: nunca mais a vi.
Pierre Loti e Guy de Maupassant, que ele não leu, pouco importam.
Tenho dois projectos que me fazem sorrir, pois que me lembram os dele. No meu caso, aprender a tocar acordeão e a falar alemão. Ele tinha projectos destes. O homem é irmão do homem: duas tristezas geminadas pelo sangue e pelo leite.
Nestas duas décadas exactas sem ele, prossegui o escândalo de sobreviver. Fiz duas filhas e dois livros: não é mau. As filhas são muito boas e muito honestas; os livros são honestos e esquecíveis. Já não me lembro dele todos os dias. A dor, ela própria, anestesia-se. Mantenho a minha estratégia: leio e escrevo, escrevo e leio. Quando levanto a cabeça, sucede que uma inclinação da luz mo recupera, a ele: as botas bem ensebadas, a ganga coçada e limpa, o bigode viril, a boca comedora de mulheres e frangos.
Na fotografia da sala da nossa mãe, o olhar continua-lhe apreensivo. Não sei se foi tirada antes ou depois da ida a Veneza.
Nunca fui a Veneza. Talvez nunca vá. Isso não tem importância. Uma pessoa perde importância: com os anos, com a morte de um irmão.
À sombra do desastre irreparável da morte do Jorge, pratiquei amores eróticos sem entrega: como se fodesse vestido. Depois, abandonava essas camas frias e ia beber.
Sucederam-se-me cidades também irreparáveis: Peniche, Coimbra, Figueira da Foz, Leiria, Aveiro, Marinha Grande, Pombal, Viseu, Porto, Lisboa, Praia, Bruxelas. E mil aldeias e vilas mais, onde matriculei a insensatez hepática da minha língua portuguesa.
Não posso cobrar-lhe isso. Sou hoje bem mais idoso que ele. Sei mais coisas que ele: internet, cinema, clarinete, literatura espanhola, whisky irlandês.
Uma vez, lá na infância, um rapaz da minha rua puxou-me o cabelo. Magoou-me muito. O rapaz era mais velho do que eu. Chamava-se Guilherme. Já morreu, também. Desatei a chorar. O Jorge estava em casa. Perguntou-me. Eu disse-lhe. Ele saiu de casa. O Guilherme estava na rua. O Jorge abrasou-o com duas lambadas sonoras. Senti-me protegido para o resto da vida. Não estava.
Fui ao velório do Guilherme, tantos anos depois, numa noite de há quinze anos. Era um cadáver bonito: um busto francês. Desatei a chorar outra vez. Escrevi sobre ele uma crónica, publicada depois num jornal da cidade. Não adiantou: o Guilherme não regressaria.
A filha do Jorge está viva. É muito alta e muito formosa. Estuda, joga voleibol. Imagino que lhe repita determinada luz, certa sombra, um jeito de repor os ombros à largueza do tronco. O lábio de baixo, nutrido e sensual, acamará frases lentas, como as dele.
Acontece-me voltar à cidade natal e passar ao número 210 da última das ruas dele. A rua tem nome de suicida: Antero de Quental, o santo de Eça. Destruíram o Teatro Avenida. Digo-vos que visitei com ele os camarins desse teatro-cine. Foi há muitos anos. Tinham guardado lá os despojos de uma escola secundária. Lembro-me sobretudo dos répteis conservados em frascos.
A churrascaria onde comemos frango está viva. Situei nela um dos textos de Noite de Homens-Cantores, aquele que tem o cantor Art Garfunkel.
Um homem sobrevive. Eu faço isso. Faço como toda a gente: o dia amanhece, entardece e anoitece. Vinte anos disto.
Tenho lido umas coisas e bebido outras. Ele não voltará a Veneza, mas eu voltarei a Peniche. Tenho outras botas. Aprender acordeão não é, como o Jorge é, nada do outro mundo.



Caramulo, manhã exacta de 23 de Maio de 2006

segunda-feira, maio 22, 2006

Consciência

Sei de duas formas de má consciência: a própria e a alheia.
Com a própria, posso eu bem.
Com a alheia, bardamerda.
Por hoje, é isto.


Caramulo, 22 de Maio de 2006

domingo, maio 21, 2006

Santos dos Últimos Dias

Simenon - Pedigree
Eça - O Primo Basílio
Rick Moody - Tempestade de Gelo
Torrente Ballester - Os Anos Indecisos
Ernesto Sabato - O Túnel
Sousa Dias - E Ítaca Eras Tu
Vergílio Ferreira - Alegria Breve
Cunha Rêgo - Liberdade
Margery Allingham - Cuidado com a Senhora
John Buchan - Os 39 Degraus
Carson McCullers - Reflexos nuns Olhos de Oiro
Harold Pinter - A Colecção
F.-A. Almeida - Estórias de Portugal
Tilman Spengler - O Cérebro de Lenine
Angelica Liddell - A Falsa Suicida

quarta-feira, maio 17, 2006

No Parque - soneto para o filho mais novo do Sr. Serafim

Anda, Rui, comigo ver o parque.
É como estar na catedral.
Ocultas aves hão-de vir dar que
cantar. Ouvi-las, Rui, é celestial.
Gente extinta aqui se fez
mais só e mais dada à sua extinção.
Agora entanto é a nossa vez,
curtamos o bálsamo desta estação.
As áleas frecham toda a luz solar,
há coriscos d'ouro brilhando no húmus.
Levemos connosco mel, sandes e sumos.
Já pois que é lusa nossa natureza,
usemos a sombra e a pedra da mesa
e comendo tracemos nossos novos rumos.



Caramulo, tarde de 17 de Maio de 2006

segunda-feira, maio 15, 2006

Eternitardes - I

Montanha e Tempo

Habito uma casa do vale e trabalho na montanha.
Cada dia é inaugural. Não é como quando nas cidades. A luz, rica de bosques acamados, esclarece. Há poucas ou nenhumas putas. Alguns gatos.
Não alimento, já não, remorsos inconsequentes. É-me agora fácil dispor do senhor Alexis de Tocqueville com a mesma sem-cerimónia com que recorro, na tarde solar de sábado, aos préstimos da senhora Margery Allingham.
Na aldeia do vale, andam há meses arranjando o largo junto à igreja. Tiveram de derrubar uma árvore, o que é lamentado com resignação pelo presidente da Junta. Ele mo disse, ontem. A obra há-de estar concluída em dois meses, a tempo do Verão emigrante.
Entretenho-me adiando as releituras de Mann, Joyce e Proust: A Montanha Mágica, Ulysses e Em Busca do Tempo Perdido. São monumentos a que tenho de voltar. Porquê? Por me terem marcado a vida anterior. E porque me embalo, cada manhã inaugural, para o futuro. Hei-de gostar, no futuro, de ter relido esses livros monumentais, montanhosos. Mas entretanto, Allingham (Cuidado com a Senhora).
Anteontem (5ª, 11), verifiquei, sem pressa nem pólvora, que a minha mortalidade (a minha mortal idade, mesma coisa) é uma coisa viva. Depois de almoço (era na montanha), desci ao parque. No parque, a luz e a hora, quentes como mãos sãs, tornavam definitivo o instante: a eternitarde. Suspenso da titilação da folhagem, sobrepassei a minha mesma condição. Digo que me desumanizei, aderindo à pedra dos degraus. O parque tem escadarias não subidas nem descidas: estão ali há tanto tempo não contado, que adquiriram o direito da erva, dos florões e da brisa irreparável de mil maios. Apeteceu-me fazer por ali a sesta. Cheguei a considerar algumas sombras, mas a urgência idiota da minha vida social impediu a satisfação desse desejo tão justo. Tinha trabalho à tarde. Perante a glória desumana das árvores e da erva, mirando a quietude sensata das múltiplas escadarias, decidi não ignorar.
À noite, depois de jantar, descido já ao vale, continuei não ignorando: nasce-se e morre-se só. O entretanto é uma política: uma arbitrariedade. Onde morar, onde trabalhar, onde permitir que o sono nos mate/resgate – por exemplo político, arbitrário.
As horas e as noites de dois dias passaram. A ideia não passou: inaugurar cada dia. E Mann e Joyce e Proust, sem remorsos.


Botulho, 13 de Maio de 2006

José

Os olhos azuis do meu avô paterno apagaram-se 34 anos antes de eu nascer.Sei que eram azuis por crónicas de família. A única fotografia que se conserva dele é toda cinza. Ainda assim, os olhos desse homem improvável ardem de claridade por cima de um bigode viril e secular. Era um homem múltiplo: conduzia eléctricos, amanhava a terra, enxertava árvores e fazia ele mesmo a roupa aos muitos filhos. Levou-o a tuberculose de 1930. Fez muita falta. Para sustentar aquele rancho todo, a minha avó foi vendendo, retalho a retalho, as terras que ele tinha ido comprando. Foram anos negros, depressivos, fundos como poços sem água. O meu pai falava do pai dele com uma veneração comovente. Eu gostava desse espectáculo: o meu pai a ser filho. A cor azul não chegou a mim. Tenho vulgares olhos castanhos de pardal português. Não sei enxertar árvores, já não há eléctricos, compro a hortaliça e nada sei de alfaiataria. Só sei que, por causa de meu pai, admiro e gosto de um homem que não conheci, um homem que me olha de azul do meio de um clarão cinza.



escrito na Figueira da Foz, 24 de Abril de 2006
publicado n'O ECO (ed. 2770, 27 de Abril de 2006, ou www.oeco.pt)

sexta-feira, maio 12, 2006

Três Citações

1

"Gostava da percepção das possibilidades contidas nas coisas tristes."

Rick Moody, Tempestade de Gelo
2

"... mas viver consiste em construir recordações futuras..."
Ernesto Sabato, O Túnel
3
"... porque há uma invencível lei do homem que é a da sua libertação, a sua conquista inexorável de uma cada vez maior dignidade."
Vergílio Ferreira, Alegria Breve

quinta-feira, maio 11, 2006

42 Anos – um Balanço

Vesti o casaco de um pássaro e voei rente ao chão.
Conheci senhoras endomingadas à quarta-feira.
Desfolhei em torno as flores do milho, farinha de cor, méxicos pessoais.
Numa garagem cheia de caixas de sapatos, abordei descalço o segredo e a volúpia.
Levantei do chão um homem, era em Lisboa e chovia.
Mantive cães e gatos em harmonia.
De roídas unhas, toquei viola para pescadores silenciados.
Requisitei em igrejas a frialdade, ardia fora um sol de febre.
Na terra de meu pai, antes do ano 1970, vi um caixão ao sol: outro homem para nunca mais.
Lapso de luz: outro funeral, mas de criança, pelos mesmo dias eléctricos.
O pó e o suor irmanam-se.
Lavei-me de ambos com o rio, entre a folhagem que gritava de pássaros e ciganos.
Então, o bosque púbico coçava.
Rápida, a amargura precoce.
Alguma euforia, sextas à noite.
Tudo confirmava a autoridade da escrita.
Segui esse trilho, essa insolação.
Às vezes, num autocarro, a evidência da inutilidade.
Outras vezes, não: junto ao mar.
O coração – um barco de saída.
A esperança, como um rímel, borrando os olhos.
A atenção prestada aos quintais alheios, onde animais e laranjeiras enferrujam.
Caixas de ananás dos Açores.
O fontanário público decorado de azulejos brancazuis: o carneiro, o peru, o cavalo, o galo, a andorinha, o porco.
As letras que escreviam esses bichos (a generosidade das vogais; a soberba das consoantes).
O menino embebedado de alegria: perceber embebeda.
A importância da História: cada velho esperando o crepúsculo em cada quintal de netos futebolistas.
O que dobrava guardanapos no restaurante era Miguel e tinha nascido a 5 de Outubro de 1910.
Um cedro respirava no extremo da passagem.
Junto ao cedro, o poste telefónico.
O sol de tremoços, domingo de manhã.
Os pedintes à porta, domingo de manhã.
No monte, tufos de espargos e comparações métricas de piças.
O absoluto esplendor dos comboios.
A galinha afogada, irrecuperável, no poço dos cabo-verdianos.
Dez filhos tinham os cabo-verdianos: viviam de nada.
Os caracóis chegavam à frente ao futuro.
Uma noite, houve fados.
Fritaram toucinho, laminaram broa.
Cantaram, dava a lua nas figueiras.
Essa dor da música.
Outra noite, uma casa ardeu: vi o povo, não já cada pessoa.
Isto é tudo agora, como já era.




Caramulo, 8 de Maio de 2006

Um Ajudante de Farmácia

Era por essa hora a que os autocarros, de tão vazios e anoitecidos, tornam idênticos, como gotas de água, a serenidade e o desespero.
Orlando Gil, ajudante de farmácia, seguia de autocarro. Viajava muito atento às ruas desertas de pobres-de-pedir. Era mais uma viagem ao desamparo das coisas sem escolta: o cinema fechado, a cruz verde-néon da farmácia pulsando nos plátanos, o taipal cerrado da tabacaria, nos beirais as pombas adormecidas como matraquilhos sem moeda, o livor gasogénio do rio, a mata púbica do parque, as urbanizações dormitórias da cidade nova.
Desceu na paragem correcta, entrou no bar correcto e foi atendido de imediato sem ter de dizer uma palavra. Ali esteve os decilitros de silêncio os suficientes até que a vida reatasse os nós da resignação. Pagou, deixou as boas-noites, caminhou quarenta metros até à pensão e imergiu no quarto como se o quarto fosse um rio escuro e vertical.
Sonhou com portas infinitas, sucessivas ao longo de um corredor apainelado de madeira. Eram como a existência: não tinham indicações precisas. “Empurre” ou “Puxe” – não diziam. No sonho, soube, sem vê-las, que havia uma mulher atrás de cada porta. Uma poderia ter sido a dele.
Acordou cedo, tomou banho e saiu. Caminhou muito, assimilando a manhã. Integrou a hemorragia escura que sulcava a praça de mármore branco: um formigueiro de gente vestida de preto, cinzento e azul-negro. E às cinco para as nove vestia a bata de ajudante de farmácia.
Às dezanove e cinco, já sem bata, escolheu algumas revistas caducadas da mesinha de espera da farmácia e trouxe-as. Nessa noite, não as folheou no quarto, preferindo guardá-las para um domingo de chuva, como veio a ser o seguinte.
Nesse domingo, sesteou. Deitou-se na cama e não pensou dormir. Cabeceou uma nova pista do mistério Lady Di e acabou por adormecer. O sono e os sonhos sucederam-se-lhe com a natureza do vento nos cedros. Depois, acordou para verificar o sítio do mundo. Era o mesmo. Sentiu ter envelhecido um pouco, como uma estrela ou uma pedra. Teve a certeza de que o vento não envelhece. Isso fê-lo sair do quarto. Andou os quarenta metros até ao bar.
Cada último domingo do mês, visitava a mãe no Lar de Santa Teresa, à rua do mesmo nome. Estava branca e quase cega, ela que fora morena e rara como uma virgem brasileira e vidente e rara como uma virgem portuguesa. Nos outros domingos, cedia à incerteza. Naquele em que sesteou, era fevereiro. Depois de dormir, esfregou a cara em mãos e água fria. Acalentou-se no bar com conhaque. Saiu para a cidade eclipsada de molha-tolos. A tristeza era tanta, que as pombas do município tinham mirrado à volumetria de pardais. O domingo era maior do que a vida, pelo que desceu a calçada do Colégio dos Órfãos, passou a Funerária Alho e a capela arruinada de São Nicolau, cheirou o mar apodrecido do mercado do peixe e desembocou sem remédio no alto da rua do Corpo de Deus. Aí, parou para acender um cigarro de pura autocomiseração.
Aos domingos, o emprego dele era dominar a tristura. O trabalho consistia todo em pensar que para se ter uma vida é preciso manter-se um corpo. E que só há uma vida e um só corpo.
Orlando Gil passou em frente à florista e acabou na fronteira de ar e vidro da Ferreira Borges com a Visconde da Luz. E aí continuou sentindo, com menor mágoa já, quanto o domingo é o país das pombas. Um músico de rua tocava para ninguém. À Portagem, um polícia autuado pelo tédio guardava a agência do Banco de Portugal. Do outro lado da praça, aos pés de onde o médico Adolfo Rocha manuscrevia os poemas e os diários de Miguel Torga, africanos e eslavos coçavam as virilhas dominicais. A única pastelaria aberta da praça engolia grupos de excursionistas ávidos de queijadas de Tentúgal e de pastéis de Santa Clara antes do regresso aos autocarros estacionados na Banda d’Além.
Desconhecendo que fazer de tanto tempo e tão pouca vida, Orlando Gil entrou para uma chávena de café. A chuva tinha cessado. Operou muitas coisas cerebrais simultâneas: café, Mãe, mulher, humidade, vapor, brilho.
Com a noite, havia a alternativa da prostituição em apartamentos para o efeito anunciados nos jornais da cidade ou em pensões esconsas da Baixa com mulheres recrutadas ao longo da Fernão de Magalhães, quando o anoitecer toma do Navegador os descobrimentos mais antigos do mundo.
Não teve de pensar na mãe para renunciar à hipótese de um amor de aluguer. Regressou de autocarro até à paragem correcta, reentrou no bar correcto e viu os resumos da jornada desportiva entre homens casados.


quarta-feira, maio 10, 2006

Pensão Acabamento

Era uma pensão vazia.
O tempo tinha passado, tinha levado as pessoas. Não havia outro tempo depois. Não estimaram as janelas, que se quebraram. Cada outono, folhas em revoada tinham entrado pelos buracos das janelas, acabaram de murchar nas salas, nos corredores. A pedra mantinha de pé a casa, como os ossos aos homens. Os quartos fechados fechavam nenhum sono.
Não já o alegre viajante comercial rompia o vestíbulo. Nunca mais a sopa encheu as terrinas de louça. Uma senhora-de-fátima aparecerá ainda aos ratos, sob uma mesa manca. O tempo acabou à porta da pensão. A inconsciente passarada rejubila no telhado. Automóveis rasam a portaria tossindo combustível e rastilhos radiofónicos. É onde acaba a ladeira e começa o parque. Do outro lado da rua, a insolente pastelaria pensa-se futura. O inverno é um cavalo d’água. De dentro da pastelaria, escrevo a pensão. Gosto da sua lição. Nunca é hoje, quando a olho, muito menos quando a escrevo. A esperança reside na rua: uma árvore de folha perene que, muito senhoril, subiu o vestido ao vento. Agora não há tempo. As pessoas foram levadas. Quando era, como seria?
A sopa fumegando nas terrinas portuguesas. As conversas comensais, a sisudez apócrifa da patroa. No fundo, um bom coração. O marido da patroa descalçando as galochas na cozinha depois de depositar na larga mesa de mármore os legumes e a mercearia. O filho de ambos a fazer-se médico em Lisboa. O avô que salivava obscenidades às criadas, as quais roliçavam as ancas nédias e as bochechas camoesas. O tempo havia. No pátio traseiro, a criação engordava de lavagem. Coelhos filosóficos picotavam talos de couve. O galo velho, muito sanguíneo, discutia sozinho. O cão sacudia com uma orelha os pintos. A porca toucinhava de pura saúde.
O meu tempo também acaba, excepto quando escrevo.





Caramulo, tarde de 9 de Maio de 2006

terça-feira, maio 09, 2006

Males menores

As aparições desacreditam o mal menor.
O mínimo cão da vizinha vivenda.
Seu ladrar proprietário.
O retorno espanholado do assentador de ladrilhos.
A vida é o mal menor.
Mínimo, o cão.
Menos que a vida.
Cão superlativo, cão gramatical.
Da peanha triangular do canto do café, o televisor emana amor de actrizes.
Maquilhado amor de brasileiras actrizes.
Mulherões.
Gostam mais de teatro, mas fazem telenovelas.
Pastilhas elásticas rosiplastificadas decompõem-se de açúcar plástico em boiões idem.
Por cima delas, o jogo dos furinhos: sai-sempre-um-brinde: um euro.
O domingo vigora na aldeia.
É de tarde, a igreja fechou-se sobre si mesma, entristecendo os santos que a um canto tentam violar, de chave de fendas nas mãos de cera, a vazia caixa de esmolas.
O próspero peixeiro, endomingado, fala de Peniche e da operação da mãe.
Hérnia elefantina.
A cozinheira do café, em seus dela cinquentas, passeia a mama pingada em redor dos homens que bebem ao balcão.
Ela é uma aparição: pingente, celeste, aventalada, ainda.
O balcão é fórmico.
Pintalga-se de baquelite como um leopardo sintético.
Ele é feliz na consumpção, na aldeia, na felicidade.
Eles saem, abandonando-o à felicidade.
Um rapaz quarentão de pulôver resiste, sozinho, ao filme da televisão.
O filme arrasta uma perseguição de carros.
Um dos detectives é preto.
O herói é branco.
Há uma santificação diegética da ladroagem.
No fim, uma bomba de relógio decrescente há-de ser desactivada a tempo.
Ainda isso é o mal menor.
Entra a inconsciente plebeia azul.
Na verdade, ela é castanha.
Franco lancil de ancas, mas bom peitoril.
Mas aqueles olhos azuis que dardejam sem literatura.
Magnetiza um namorado de motorizada e capacete, tonto de jovem, que sorri.
Saem os dois, ele sorrindo sempre, fica o porta-guardanapos, que diz “Sagres” como o Infante dos Descobrimentos.
“Homem de Deus!”, exclama a cozinheira.
O homem divino é um emplastro de oitenta anos que sorve martinis ao pé da jarra de rosas.
Já deveria ter entregado, a Deus, os oitenta anos e as outras tantas rosas.
Não o fez, porém.
Resiste, ele também, ao domingo, aparição ele mesmo, mal menor de si mesmo.




Botulho, domingo à tarde, 7 de Maio de 2006

sexta-feira, maio 05, 2006

Montanha, uma Noite e uma Manhã

Noite

Nas terras não conquistadas ainda pelos hipermercados colossais, a ternura comercial é ainda vigente.
Num café frequentado de manhã por dementes mansos de lares clínicos e à noite por mim, demoro-me a inventariar os bens expostos no mostrador do balcão de jornais: rebuçados peitorais, pilhas, dentífricos, cremes de barbear, lâminas, cola, lápis, esferográficas, lenços de papel, flores, tesouras para as unhas, postais, preservativos, cêdês, batatas fritas, camisolas, livros, atlas.
O meu coração derrama-se, perante o rol. Gosto de ver as coisas do manso comércio. Mas entretanto faz-se noite.

Manhã

Sobrevivi ao vento frio que descia da montanha anoitecida. Regressei de manhã para seguir inventariando o manso comércio. Tomei café noutro estabelecimento. Era numa zona a descer. A casa tinha lareira, jornais atrasados (como todos) e duas velhas que escorropichavam o cálice de porto matinal dos resignados. Um zéfiro fresco teletransportou-me ao local. Penetrei. Havia um poster da equipa local, um azulejo benfiquista, garrafas amortalhadas de resina e um bolor de eternidade que empalhava o cão adormecido aos pés da lareira sem lume. Prossegui aí a minha felicidade serôdia. O meu casaco preto de cabedal foi apreciado com respeito pelo motociclista que mamava martinis consecutivos ao cotovelo do balcão.
Eu regressarei sempre.



Caramulo, noite de 4 e manhã de 5 de Maio de 2006

quinta-feira, maio 04, 2006

A Felicidade no Esconderijo

Numa tarde embaciada como uma janela de inverno, ele teve momentos felizes. Tinha entrado num estabelecimento mínimo chamado "Esconderijo". As paredes, forradas de meias ripas redondas de pinho, eram cravejadas de penduricalhos de louça e de papel, entre pratos com dizeres populares e anúncios de bailes. Três mulheres casadas palravam agudamente. Uma criança invisível gritava nalgum pátio interior. Uma gata estendia num cesto uma sesta nédia. Pediu uma caneca de café e um bolo de canela. Merendou sem infelicidade, encalmado pela beberagem chilra. Enquanto tasquinhava o biscoito, mirou o boneco do queres-fiado-toma, sorrindo por dentro à justiça do manguito. A criança invisível materializou-se à entrada da tasca com uma bola na mão e um sorriso, a que faltava um dente, na boca. Parecia um sapo ruço. As mulheres meteram-se com o miúdo. Deram-lhe um caramelo espanhol.
Lá fora, havia um jardim público muito grande. O arvoredo antigo presidia à decência geométrica dos canteiros. Bancos de pedra sem espaldar arrefeciam à espera de ninguém, na tarde de grés. Algum carro raro subia a esforço a calçada.
Pediu um conhaque nacional e aceitou a memória instantânea da felicidade. As mulheres saíram, ele ficou-se. O miúdo da bola teve de sentar-se à mesa da entrada. A mãe trouxe-lhe um iogurte e um pão com fiambre. Outra criança entrou. Era mais velha e irmã do jogador. Também foi servida de iogurte, mas preferiu queijo no pão.
No mostrador, um prato de carapaus envinagrava de cebola emurchecida o olhar e as moscas. Ao lado dos peixes, um naco de presunto amarelejava sem saída. Outro pires sustentava uma mancha de queijo. O ar, suculento, merceava um compósito de café, petiscos e sabão. Três mesas, na sala exígua, amparavam dezasseis cadeiras. O calendário da parede demorava-se em abril, mas maio já era. Caixas de papelão, inchadas de botelhas de água mineral, geometrizavam ao canto direito da entrada, nas costas do menino. Os cinzeiros eram conchas de baquelite que lhe lembraram mãos de dedos colados, infantis e tóxicas. Uma balança das antigas pontificava no segundo balcão, em cujo mostrador vivia o silêncio grená de um presunto. Ele foi coleccionando as coisas pelo lado da emoção, agradecendo a hora.
A senhora informou-o de que o lavabo se situava no exterior. Era um cubículo esconso. Dentro, uma cagadeira turca, igual às das escolas primárias salazaristas, convidava ao agachamento cócoro. Urinou do alto, acertando no sumidouro com garbo e pressão. Regressou ao "Esconderijo" com antecipações felizes.
Tinha entrado uma velha enxuta. Pela autoridade, supô-la com acerto mãe da patroa. A mulher estendia uma voz metálica que vibrava nas tampas mal enroscadas dos boiões de amendoins. Falaram de mortos e de política municipal. Ele escutou, deliciado com a desimportância da vida. Apreciou o estanho da garrafa de ponche, em cujo rótulo se coloria uma sensualidade de mil-e-uma-noites. Havia toda uma existência de vinhos abafados, portos, madeiras, espumantes, brandes-mel, licores de coco, tangerina e noz. E medronheiras.
Para mais, tinha os pés quentes, favorecidos pela regularidade da digestão e a paz de espírito. Não longe do "Esconderijo", o cume da montanha era um nariz frio juncado de pêlos vegetais. No vale, os casarios fumavam por chaminés rupestres. Depois, teria de sair, regressar, matricular-se naquilo a que, à falta de melhor esconderijo, chamamos "realidade".

Caramulo, tarde de 4 de Maio de 2006

sábado, abril 29, 2006

O Preço da Chuva em Lisboa

Vai ser no Bar do Teatro A Barraca, ao Largo de Santos, Lx.
Dia 1 de Maio, pelas 19 horas.
Abraços.
D.

segunda-feira, abril 17, 2006

Para Penamacor

1. Um Dia

É para morrer mas ainda é cedo
não cessaram de todo as oliveiras
há ainda pessoas ainda há casas
horas para quase tudo sendo tarde

É para viver um dia mas ainda é cedo
um barco na capa do jornal
o natal antecipado mais e mais breve
a infância endurecida na boca

É para outro dia a mesma noite
o vento trata o gelo por tu
será um dia verão teremos sorte
teremos um dia um dia vocês verão.



2. Continuação

Todos nós já fizemos tudo por coisa nenhuma.
Até filhos, versos, serventias, tias, reversos.
Revolvemos universos de espuma.
Temos sido delicadamente perversos.

Somos apenas gente. Assustada e diferente.
Acossada, malograda, nua e inclemente.
Viajamos à mercê da lua milenar.
Tudo nos é possível. Menos continuar.



Coimbra, 20 de Março de 2006

domingo, abril 16, 2006

O Regresso do Emigrante

À saída do comboio, sentiu que o tempo tinha mudado de espessura. A ausência tinha oxidado os pombos e as palmeiras. O jardim era do esmalte que consubstancia o futuro anterior. No coreto, fantasmas filarmónicos tocavam Roberto Carlos.
Comeu um quarto de frango numa churrasqueira enegrecida. O recepcionista da pensão aceitou-lhe as malas com um gemido artrítico.
De volta ao largo, conferiu a eternidade das mercearias, os jogadores de cartas aposentadas, a sesta dos táxis e a fragrância mortífera da desesperança.
Trinta anos em França. Doze na Alemanha. As mãos dormentes de tanto trabalho. E, agora, o regresso, essa missão impossível. As crianças tinham-se casado. As aldeias eram iguais entre si como requeijões. As pastelarias repetiam-se umas às outras como sonhos feios. Os arquitectos pariam cubos de cimento como galinhas geométricas. Os farmacêuticos aviavam pastilhas contra o problema de ter nascido. E os futebolistas da equipa local eram brasileiros que entristeciam de frio na noite dos cafés cibernéticos.
Ao jantar, na mesma churrasqueira, ainda considerou a possibilidade de voltar para trás: França, Alemanha. Mas decidiu que não, que ficaria.
Que, no próprio dia seguinte, trataria de comprar um táxi ou um baralho de cartas, de modo a poder usufruir, em pleno esmalte, da glória de Roberto Carlos tocado até nunca mais pelos benignos fantasmas da filarmónica de quando isto era vila e ele não tinha partido para sempre.

sábado, abril 15, 2006

Bragança

Nunca cá tinha vindo.
Agora vim.
Vi a pedra de que a terra é feita.
Igrejas talhadas a ouro.
Um Cristo nordestino lá dentro.
Um castelo com casas de gente viva.
A comida, forte e nutritiva, serve contra a força do frio.
Faz frio, mesmo a meio abril.
O verde e o castanho ondulam, muito humanos, por quanto é olhar.
Cá vim uma vez, cá espero voltar.



Bragança, noite de 15 de Abril de 2006
(para o Quim Jorge, que hoje completa 43 anos)

segunda-feira, abril 10, 2006

Outro Dia

Livro lançado (fora, dentro), segue-se outro dia com sua dele noite.
Outro vento nos mesmos cedros.
Vi gente.
Isto não pára.
Até que uma noite com sua dela dia.



Caramulo, entardecer de 10 de Abril de 2006

quinta-feira, março 30, 2006

Obrigado, Pombal

Foi ontem, 29 de Março.
Uma noite bonita, cheia de gente generosa que quis estar presente no lançamento d'O Preço da Chuva.
São os leitores quem dá sentido aos livros.
Eu agradeço.
Segue-se Coimbra, sábado, dia 1. às 18h30, na Sala Polivalente da Casa Municipal da Cultura.
Uma rosa para todos.

quarta-feira, março 15, 2006

O Preço da Chuva em Pombal

Mais informo que o lançamento d'O Preço da Chuva em Pombal já está marcado: 29 de Março, pela noite, na livraria K de Livro.

Beijos e abraços.

sexta-feira, março 10, 2006

Lançamento d'O Preço da Chuva


O Preço da Chuva
vai ser lançado em Coimbra no dia 1 de Abril de 2006, pelas 18h30, na Casa Municipal da Cultura.
Já está disponível em http://www.pedepagina.pt/

sexta-feira, março 03, 2006

Oito Menos Dez da Manhã

Vi a rola no alto do cedro.



Coimbra, manhã de 3 de Março de 2006

domingo, fevereiro 19, 2006

Boletim Breve

Suponho que envelhecer seja prestar mais e mais atenção à meteorologia.
Ontem, na minha cidade, estive a ver chover.
Choveu bem.
As pessoas, decapitadas pelas copas negras dos guarda-chuvas, eram só pernas.
Um momento houve em que a precipitação até fazia vapor na calçada.
Tive pena das pombas, obrigadas cedo de mais ao recolher dos beirais, talvez com fome ainda.
Circulei pelas zonas de sombra vaporosa: vapor e rosa.
Fui feliz, quase jovem.



Coimbra, tarde de 19 de Fevereiro de 2006

sábado, fevereiro 18, 2006

Sábado, Fevereiro

Outro dia.
A cidade sobreviveu à chuvada nocturna.
Na saleta, deitado sobre grená, estive até horas pardas a ver se a televisão era ou não capaz de sedar-me.
Não foi.
Seguiu-se uma colecção de três sonhos sem interesse narrativo.
Às sete da manhã, o mundo pôs-se a chiar como uma chaleira.
Levantei-me, dei as costas ao espelho e despenhei-me de amarelas águas.
Decidi não fazer a barba.
Aqueci café na cafeteira azul.
Sentei-me à janela da cozinha e deixei passar.
De repente, estou aqui.
De repente, já não.



Coimbra, manhã de 18 de Fevereiro de 2006

sexta-feira, fevereiro 17, 2006

Hoje em Coimbra

Chuva miudinha.
Pessoas fundidas como velas.
Humidade comercial.
Uma menina com acordeão-miniatura.
O rio vertical à chuva.
As árvores inclinadas como cumprimentos.
Na Rua dos Sapateiros, de manhã, o sol,
apertado alto entre prédios,
parecia um chuveiro de ouro.
No Montepio, o homem de cabeleira grande recolhendo moedas.
A estátua escrutinando pombas, recenseada de cocó columbino.
Desci a Ferreira Borges, o coração um pouco apertado na caixa.



Coimbra, 17 de Fevereiro de 2006

quarta-feira, fevereiro 08, 2006

Fábula

Conhece-te nos teus dias e reconhece-te nas tuas noites - disse o Pássaro.
Sim - respondeu a Minhoca.



Coimbra, noite de 8 de Fevereiro de 2005

quarta-feira, fevereiro 01, 2006

Olaria

Uma olaria de sangue - o coração.
As mãos sujas de coração.
As mãos encarnadas escrevendo apelos.
Muitas cartas - um só apelo de barro:
I wish not to die, I wish not to live.

quinta-feira, janeiro 19, 2006

Presidenciais


Já não somos povo, mas público. De TV, sobretudo.
Como tal, nenhum de nós leu qualquer documento ou manifesto de qualquer dos candidatos às eleições presidenciais que aí estão à porta. Nenhum de nós verdadeiramente reflectiu sobre o assunto. Quando muito, olhou. Mas nem sequer viu. Ficámo-nos todos pela superfície enganosa da televisão: as frases feitas, os bailaricos, os senhores candidatos a gabar as gastronomias locais, os ranchos, os pauliteiros e os trauliteiros. O costume.
À partida para a primeira (única?) volta, temos D. Sebastião disfarçado de Cavaco. Depois de dez anos de autoritarismos à la Chef como primeiro-ministro, quer agora presidenciar. Guia-o, diz ele, uma vontade de repor Portugal no rumo certo. Pelos vistos, andou dez anos a pô-lo no errado. A figura é estranha num país democrático, dada a ferragem do seu ricto ditatorial, dos seus maxilares mentais e da sua intolerável intolerância. É um arauto do neoliberalismo sem freio. Mas quer ser nosso Presidente.
Também temos Soares, o da tentação monárquica. Numa fase da vida (a dele e a do País) em que o curial seria viajar pelo mundo (mas agora por conta própria…) e coleccionar selos no recato da mansão doméstica, o veterano político quer reinar de novo. Não se percebe porquê, a não ser recorrendo à desmedida ambição de uma figura que se supõe insubstituível, inultrapassável, incomparável, imperecível e imperdível. A realidade adjectiva é, porém, outra: imperdoável.
“Imperdoável”: assim de Soares disse Alegre, o candidato desde sempre socialista agora sem PS-aparelho por trás. O poeta-deputado, que vagamente secretariou no Estado nos primeiros anos da Revolução para depois se assentar de vez no hemiciclo, aparece com irrecusável dignidade na corrida. Ele é o contraponto humanístico possível à sanha economicista-financeira de Cavaco e às inconsequências geriátricas de Soares.
Restam os residuais Jerónimo, Louçã e Garcia Pereira para completar o ramo da Esquerda mais estilhaçada de que há memória numas presidenciais. Todos têm mensagem, todos apresentam forma, todos revelam conteúdo. Mas, para além dos subsídios do Estado às campanhas que chegam ao boletim de voto, o que há verdadeiramente a ganhar quando é de presidenciais e não de legislativas que se trata?
Certo, aparecer junto às fábricas fraudulentamente falidas. Levar aos desempregados o megafone por que possam fazer ecoar a desumanidade da sua condição de formigas operárias despedidas por cigarras neoliberais. Dizer da banca, dos seguros, das multinacionais e dos espanhóis aquilo que todos pensamos mas transformamos, na hora da revolta, em benfica-benfica-sporting-sporting-selecção-selecção. Tacticamente, estarão bem. Estrategicamente, não me parece sequer que estejam.
Resta o quê? A Democracia. A Liberdade. A Televisão. Uma das três anda a papar as outras duas.
Mas o público é quem mais ordena.

quarta-feira, janeiro 18, 2006

ALMANAQUE VILÃO - 3. Próprios e Alheios

Não apenas os mortos próprios mortos como também os próprios mortos alheios surgem e se insurgem, pouco pacíficos, à vista desarmada chateados com tanta ausência, tanta indiferença lhes votada. Querem acção, parece. Aparecer mais nas conversas, ao menos. Faço-lhes, sempre que posso, a vontade. E tenho podido muito. Nos sonhos, nos cadernos, na extra-realidade (quando ouço música, quando leio L’Illustration do século XIX, quando no jardim, quando em alguma das pastelarias espaciais nocturnas, quando as estrelas se despenham no lago), revivo os mortos próprios e os próprios mortos alheios. Invento até alguns, o que julgo pode ser absurdo em meu haver mais que em meu deve. Tias de renda & gato, defuntas do fígado e/ou da vesícula, que pretendem retomar seus chás de lazareto perpétuo; avôs de bengala-caçadeira de cana, aluídos de trombose, que exigem voltar a caçadeirar inocentes coelhos de história infantil em pinhais geriátricos; bambinos leucémicos de antes da Revolução, revoltados por nunca poderem jogar à bola como os outros; o senhor Sacramento, que continua despertando na morte ao clarim pontual dos galos das 5h13 da madrugada. Todos esses e outros tantos que me não socorrem, antes concorrem dispara(ta)ndo primazias de sol-posto, lunarismos, zodíacos caducados, glaucas epifanias de tristes, pobres defuntos sem outro lugar que este caderno onde cair mortos.

Tondela, tarde de 21 de Dezembro de 2005

terça-feira, janeiro 17, 2006

ALMANAQUE VILÃO - 1. Casal com Serpente Verdamarelanegra

Na casa da aldeia, enfronhado nas mantas da cama, sepultado quente no abafo, o corpo escapou ao mundo. Pernas e peças roçagam calor de gato. Satisfação geral do metabolismo. Persianas corridas sobre os olhos. Um sonho abre-se como um pano de palco.
Um casal na erva. Ele é chinês, ela é indiana. Estão a penetrar-se com atenção, ambos de olhos fechados, ambos com muito prazer e toda a consideração. Uma serpente envolve-os, desenvolve-os, larga-os, retoma-os, cola-se-lhes, liberta-os. A cada passagem dela por eles, colora-os de suas escamas colantes: verdes, amarelas, negras. Os amantes, matizados, perfeitas estampas duplas verdamarelanegras, continuam o amor de olhos fechados. A cobra, muito grande, desaparece sob a alcatifa de erva. O chinês ergue o rosto impresso de serpente: os olhos, agora abertos, vêem a câmara fotográfica da narração através dos losangos verdes, amarelos, negros. Quando avanço para o casal, piso o corpo oculto da cobra, em relevo por baixo do ervado. Da erva, os dentes afiados da besta emergem para navalhar a descrição. Não sinto medo. Devo evitar ser esfaqueado, é tudo. Não é tudo. Quero ver de perto a pintura do duplo corpo, a estátua enganchada dos amantes. Quero ver se são ainda um homem e uma mulher separáveis ou se a serpente os colou para sempre, siamesando-os sem retorno. Nisto, os três (ou uma+dois) desaparecem. Resto eu e o cenário, não isentos ambos de novas aventuras, uma destas noites.



Tondela, tarde de 20 de Dezembro de 2005

segunda-feira, janeiro 16, 2006

ALMANAQUE VILÃO - 0. Stum-Stum

Não sou deste mundo mas não há outro.
Há outros sítios mas são iguais a este. Uma capela (com sorte, uma igreja), uma rotunda, uma pastelaria, uma escola e um campo da bola. Perto, uma vila, que da aldeia se distingue pelo quartel de bombeiros, a farmácia e a segunda pastelaria.
Não sou nunca de nenhum aqui.
Não faz mal nenhum. Não faz mal nenhum começar tantas frases por “não”. A minha história também não é diferente, pelo que não pode deixar de ser contada. Isto é – revivida.
É um homem sentado a uma mesa coberta de toalha amarela num sábado à noite. Todas as outras mesas mereceram toalhas idênticas. O empregado aproximou algumas mesas para que os grupos pudessem conversar e tomar café mais juntos. Eu não trouxe ninguém, uma mesa chega-me. Até já cedi uma cadeira. Há um ecrã gigante na parede do fundo. O futebol acabou, o empregado mudou para um canal de videomúsica. Só dá para ver as imagens. A música no ar de fumo é um stum-stum que provém da aparelhagem áudio, caixotes negros suspensos das colunas do bar. O som aleija, mas as pessoas vieram buscar isto. Conversam aos gritos, riem-se aos gritos, descansam aos gritos. Se eu saísse daqui e procurasse outro sítio, pensaria a mesma coisa. Mesmo em casa, a minha cabeça estaria aqui. Disparada pela mesma imaginavisão, a minha cabeça estaria aqui a aleijar-se de stum-stum e de videomúsica sem legendas nem sentido.
Quando me cumprimentam, sou deste mundo. Retribuo, sorrio, digo ou ouço uma graça, informo o retardatário quanto ao resultado do futebol, aceito ou declino uma chávena de café. Hoje, não apareceu ninguém cumprimentável. Vou mais vezes ao sítio das toalhas vermelhas. Hoje vim aqui a este por ser igual ir a outro. Um piano, um sax barítono e dois homens no ecrã. O pianista canta, o barítono tem as bochechas intumescidas. Não os ouço. Cantam e tocam para ninguém. Só há o stum-stum. Não tem mal. Sempre é uma sensação. O som bate nos claustros do peito, as costelas formam um mosteiro com o monge triste lá dentro a ouvir o órgão. E o órgão só ressoa stum-stum. Em torno, a mocidade. Agora diz-se “juventude”. Já não tão juventude assim. Alguns perto dos trinta, outros já bem lá. Deixaram os pais em casa e vieram gritar para aqui. Defeitos em série. Todos muito ocidentais, mas com avós que rezam à lareira. Aqui, hambúrgueres, mas em casa o porquinho na salgadeira. Bons rapazes, boas raparigas, filhos de alguém se não d’algo. Falta pouco para ser amanhã, o que sempre dá para esperar alguma coisa. Um número, uma perspectiva, outro jornal, outro pequeno-almoço.
Esta gente desaparece toda à semana. Vão para as cidades universitárias tirar os desempregos dos futuros deles e delas. Enquanto o sábado dura, trocam mensagens telemóveis com os namorados e as namoradas, que a esta hora estão a aleijar-se do stum-stum deste mundo noutro sítio igual. Não há indivíduos. É uma espécie de lei. Uma espécie de música. As pessoas seguem a lei como se dançassem. Maratonam as vidas. Digo isto porque a minha foi assim. É a indução. Não tarda nada, estou a voar deste sítio e a imagidaraver sequências animadas pelo último mundo possível. Estou a querer dizer isto mesmo. Isto é, dizer mais do que apenas sábado à noite, toalhas amarelas, rapazes, raparigas, colunas, bar, ecrã, pais trancados em casa, bombeiros, pastelarias, campo da bola. E o que aconteceria se eu não quisesse permitir a este mundo a intolerabilidade dele. Isso é algo que já tenho praticado. Agora, hoje, preciso mais disso. Necessito com algum ardor de indivíduos, de filmes com som, de música a sério, de saudações para lá do formal e do formol. De modo que tenho de inventar tudo isso. Sou capaz disso. Já o fiz antes. Não há um método, não há uma receita. Mas há uma fervura, uma temperatura, um istmo, um ritmo, uma ardência, uma cadência – já começou.
Fotografias eidéticas, bioimagens borbulham já no caldeirão craniano. Nem todas prestam. Algumas impor-se-ão. Destacar-se-ão como aparições, revelações de fotografias. Devirão, então, palavras, linhas, capítulos. Numa massa não desprovida de esplendor, baterão asas e hão-de servir-se de todos os truques mais sujos e de todos os pensos mais assépticos para chegar aonde pretendem.
A mim não deve ser, mas, se for, que o seja. Quero assistir. Ainda aqui estou, stum, pronto, stum.


Tondela, noite de 17 de Dezembro de 2005

sábado, janeiro 14, 2006

Incomunidade

Ela só esperava já que a paixão a deixasse viver.
Uma manhã, decerto, essa lotaria haveria de marcar o número pessoal.
Rota a paixão como uma meia velha, o amor tomaria o seu lugar à mesa, o lugar dele.
E ela passaria a servir o jantar frio e individual ao canto do balcão da cozinha, não já à mesa nupcial.
Isso aconteceu.
Retirou das madeiras e dos vidros os suportes fotográfico-frigoríficos que sorriem o passado afinal lacrimoso.
Ocupou de caixas de chapéus o canto dos sapatos grandes.
Utilizou a ficha tripla quase toda, na sala de estúdio.
E pôs-se a telefonar a amigos menos comuns do que a comum vida.
Atenderam-na.

terça-feira, janeiro 10, 2006

Sai Sempre

Deixo isto escrito.
A mulher por cima da loja entretém-se, moribunda de duas operações de barriga aberta que os doutores fecharam à pressa, a morrer.
Em baixo, espera-se.
Os clientes falam em surdina na loja, por respeito.
Há chocolates no jogo dos furinhos, sai sempre.
A arca frigorífica vertical suporta uma jarra de dourados perpétuos, não tanto assim, perpétuas, as flores suportadas nem a de cima.
Hão-de sair.



Botulho, noite de 9 de Janeiro de 2006

Canção da Florinha

(para o Iur Aierroc, que gosta de florinhas, não é segredo nenhum nem vergonha alguma)
A florinha cresce da terra escondida
O cão no pátio embolorece animal
Passa-se uma coisa florindo atrevida
Temos de pintar o nosso quintal
Nós temos de ter às vezes nem sempre
Um lume que arda no canto do corpo
Uma mancha de luz que quem passa sente
Como fora um calor deixado p'lo outro
Ir à pizzeria sair sexta à noite
Deixar pelo chão uma baba de sombra
Tecer um casaco penélope azeite
Uma gaze de nuvem que à lua se esconda
Colher da mulher a gota exacta
Ao beiral da hora sendo onze e meia
Colher a florinha registar a data
Que bela florinha não é nada feia.

sexta-feira, janeiro 06, 2006

Carne ao Sol

(para o Zuca)
A quieta carne um dia
Não amante já, não já fremente
Oca do que a si mesma enchia
E a volvia clara rara alma gente.

Os brancos ossos de teclado
Os escuros dentes comedores
A cava boca onde o fado
Teceu versos enternecedores.

Repousa ilesa a tristeza
Tanta alegria feita pó
Tanta a terra tanta a pobreza
Tanto o oiro e um sol só.



Tondela, tarde de 28 de Dezembro de 2005

domingo, janeiro 01, 2006

Primeiro de Janeiro

Arrumei livros na estante nova. Já o devo ter feito algumas vezes: os gestos saíram-me de cor, o trabalho correu depressa. Antecipam-se-me as horas de recolhimento neste quarto pequeno, como noutros quartos a partir de outros janeiros inaugurais. A gata dorme prolongadamente. Como outras gatas. A vida parece ser isto: primeira e janeira.



Botulho, casa, 1 de Janeiro de 2006

sábado, dezembro 31, 2005

2006 feliz


Sois vós a dar sentido a este sítio. Ah pois sois. Feliz 2006, gente!

Seguimento

Algumas mulheres (nem todas, é certo) exercem um poder fundador.
Adquiriram algures, não sei como nem quando nem para quê, o direito de cidade.
Exercem-no, é tudo quanto sei.
Daí que a economia, a da casa como a da rua, lhes fique bem entregue.
Algumas caminham mercê de colunas sobre que o perdido homem de Deus fundaria o Seu templo.
Não no pode.
O mais que pode, é entregar à mulher o seu dízimo de esperma e a confiança total quanto à hora do pão.
Depois, seguir-se-á o festim das nascenças, o carnaval oblíquo das parecenças, a insensatez do amor regular.
Nada lhes importa, a elas.
Seguem monstruosamente erigindo a ossatura tabernácula da solidão por mor da cria.
Pode ser, também, que nada disto seja assim.
Tudo bem nesse caso, ó sô Zé.
Siga.
Tondela, anoitecer de 30 de Dezembro de 2005

sexta-feira, dezembro 30, 2005

O Olhar do Pedreiro de Jazigos

para o Fernando Nabais, amigo máximo



As casas resistem ainda ao olhar
um pouco menos do que à chuva
mais porém do que o pedreiro
e a pontuação
É da natureza das coisas ser da natureza dos dias
como da natureza das noites é
fundir tudo em uma amalgamada cristalina
natura
Por exemplo escuros pêssegos escuros cães escuros pátios
escuras amêndoas escuras avós
escuros medos
Tive um claro sonho
claro não seria se não tão claramente
o não recordasse ainda
isto vos conto
Jogar-se-ia a bola a um cesto num cemitério
em hora e dia de visita aos amados defuntos
a que permanecemos mais que eles
fiéis
marias joaquinas carlos ruis serafins manuéis
eu estava demorando por ali meus ossos vivos
meu vivo sangue minha carne viva
minha aberta ferida de ter
também eu
um morto a quem visitar
um som soou a bola acabou
rodaram de pedra as portas
os brancos mortos
mortas fotografias de si mesmos
em carne não viva de si mesma
apareceram
que tristeza foi aparecerem
à própria visita
em suas mesmas casas
resistindo à chuva
à pontuação
e ao olhar do pedreiro.



Botulho, noite de 27 de Dezembro de 2005

quarta-feira, dezembro 21, 2005

Boletim Agrário

A fria noite amarfanha suas irritadas crianças
Confinadas aos quartos como aranhas de gelo
Nos pátios cristalizam os inúteis cães de caça acorrentados
As figueiras vigiam as demandas dos livres gatos
A Lua borra de cal molhada o céu de aviões
As aldeias papilam no veludo como giz esmigalhado
Conto os passos pelo esmigalhar da brita
Finjo tratar-se de areia sob outros pés os mesmos em pequeno
A outra temperatura longe da montanha glaciar
As pastelarias espaciais viajam na solidão sideral
Uma após outra no espaço-alma-tempo-ser
Frases rápidas parecem versos ditos a ninguém
Reclamos luminosos escaqueiram latim eléctrico
Nec ultra sine pro ab super cum a de te plus
Amanhã começa outro ontem
As pombas e os falcões assinalados sobre a rotunda
As casadas e as púberes e os malquistos e os imigrantes
As taxas de juro e o comércio e a feira de máquinas
E a nova novela do horário a que chamam nobre
E a esperança essa velha paspalhona.
O futuro semeia-se todos os ontens
Conforme o frio.


Tondela, noite de 20 de Dezembro de 2005

terça-feira, dezembro 20, 2005

As Pastelarias Espaciais

As pastelarias da modernidade são máquinas espaciais.
Não se deve mexer nos comandos nem na tripulação - a caixa registadora, as empregadas.
Cada viajante deve embarcar sozinho e assim se manter todo o inverno da viagem.
O televisor assegura a anestesia da memória.
As manhãs do televisor são para as velhinhas.
O casal de apresentadoras, composto de uma mulher amarela e de um mulheromem, parece um par de catarinetas fermentadas.
As refeições servidas a bordo separam os blocos de sono.
As tardes têm cantores de pleibéque inodoro.
As noites dão crimes solúveis como café sintético.
Há bolos.
Tondela, tarde de 20 de Dezembro de 2005

Carta Militar

Tondela, 10.XII.05

Aurora, meu amor, minha nespereira

Que me importa a mim que o teu amor esteja morto, se o meu nasce todos os dias em honra do teu nome? Escrevo-te na messe da imaginação. Escrevo Aurora de noite. Escrevo-te sempre, até, ou sobretudo, quando não escrevo fisicamente. Quando instruo rapazes mal-homens, quando marcho picadas incultiváveis, quando armo mãos e braços improváveis, quando atravesso rios de águas que não são para beber nunca mais, continentes, cabeças de gado que não pode compreender homens que não compreendem como gado. A guerra de fora, sabes, nada é, comparada com esta minha de dentro. Já perdi ambas, bem no sei de sobra. Ainda assim, não soçobro. Que valente herói sou e pareço, que não pereço. Por ti? Não, Aurora. Por mim. A rejeição acaba por voltar o amor contra um si mesmo, como uma pistola de suicida. Assim me despeço, como disparando. Adeus, Aurora. Amo-me.
Valentim, alferes de Artilharia

segunda-feira, dezembro 19, 2005

Tanguinho Valseado para Mentir a Meninas

TANGUINHO VALSEADO PARA MENTIR A MENINAS
mais outras canções de desagravo



para o Zeca Medeiros, Amigo


1. TANGUINHO VALSEADO PARA MENTIR A MENINAS

Vê se me tiras de cima
Os quilos do teu coração
Preciso duma aspirina
Pr’àsfixia da paixão

Eu preciso de sossego
Já sou meio secular
Durmo de dia sou morcego
À noite só quero luar

Na rua sou cão vadio
Passo fome passo frio
Minha própria sombra puxo
Vísceras roo corações
Já não lato por salões
Como os teus cães de luxo

Em bairros de fama triste
Fadistei outrora em riste
Navalhagens circunspectas
Hoje reformei viola
Nem bilhar nem carambola
Nem tacadas predilectas

Vê pois se me abandonas
E se me deixas partir
Para mais muito ressonas
Quero morrer quero dormir.


2. SOMBRA

Sombra transparente pasta por mim
Indecente como gente afinal
Animal inclinado que de mim somente
Dormente cai meu lastro letal

Branca de gaze cortina
Sombra minha de menina
Fátua forma fantasmal
Um homem outro no chão
Dormindo o próprio coração
Aos pés tão vivo o animal

Consciência medo existente
Quarto fechado poente
Liga a luz ó meu amor
Eu prometo não ser sombrio
Liga a luz eu tenho frio
Nua sombra sou de vapor


3. CAPITÃO

Trinta vezes sou capaz
Uma vez repetirei
Meia vez serei rapaz
Duas vezes meio rei

E tu só minha rainha
Trinta filhos esponsais
Cem amantes à tardinha
Juro eu que nunca mais

Leitões faisões douram espetos
Sáveis e maracujás
Convidados diplomatas
Grães-vizires e marajás

Capelães e capelistas
Saiotes e espadeirames
Caparão nossas revistas
Pintarão os macadames

Seremos reino dourado
Coutadas sem fim à vista
Sacos de oiro não contado
Capelão e capelista

Os pobres não serão pobres
Antes nobres serão todos
Todos servidos de cobres
Todos com bolos e bodos

Os palafréns arreados
De mortalhas de organdi
E os donzéis mais virginados
Com virgens de lazúli

Será este o nosso amor
Daqui até ser Sião
Deixa-me só por favor
Ser eu o teu capitão.


4. DEIXAMENTO


Deixa-me só por favor
Quando é companhia que quero
Não me acompanhes no perto
Quando é por longe que te espero
A loucura tem matizes
Como as bolas coloridas
Como os olhos e os narizes
Dos palhaços suas vidas
Suas lonas alfarrábias
Suas risadas loucas sábias
Suas tendas estendidas
Deixa-me longe sem favor
Me amar sem ser amor


5. FADO COM SAÍDA À FRANCESA

(Entrada sincera, dizendo

A minha alma é uma criança mal educada pelo vento. Deita-se na erva de barriga para o ar e espera que o sol a alimente de borla. A minha alma não gosta de trabalhar. Canta fados e depois espera que chova só lá fora.

Canta)


Figuras magras de viela mal acesa
Que da pobreza mal retratam o bolor
Barcos sem mar que um dia por tristeza
Fizeram de seu mal um dó menor

Gatos e ratos cascas solas de sapatos
Bacias espinhas peixes divorciados
Polícias penhores loiças facas e retratos
Casas de tias sobrinhos vinhos fados

Não há Lisboa p’ra ninguém
De onde vim mais ninguém vem
Deixei tudo arrumadinho
Agora azeitonas queijo e broa
Não há pátria não há Lisboa
Que haja ao menos um jarro de vinho.

(Saída à francesa, dizendo

O meu corpo vai-se embora um dia e há-de ser de noite, aposto. Dez contra um, mil contra um, contra nada, contra mim. Eu já cantei. Assim seja, que há-de ser assim.)





Daniel Abrunheiro
Tondela, 16 de Dezembro de 2005




quarta-feira, dezembro 14, 2005

Natal Cínico

Natal não é assunto de que me apeteça falar em Dezembro, até porque a quadra começa cada vez mais cedo, Novembro, Outubro, Setembro, qualquer ano havemos de estar na praia em Agosto ou Julho e uma sacana duma avioneta há-de passar com um pai-natal insuflável no rabo a dar às barbas vendilhonas nos céus comerciais.
Natal? Na tal coisa de que falamos, a sociedade anónima empanturra-se de nada que brilha muito, comprando muito o que vale nada. As criancinhas aprendem nos hipers a cobiça consumista, os velhinhos resmungam nos lares a artrite e a artrose, os adultos passeiam nas ruas a falência envergonhada e os ricos musculam nas assembleias a vergonha falida.
Nas lojas honestas, os comerciantes sustentam as moscas antigas com vinagre novo. Nas estátuas novas, floresce já o musgo do esquecimento. Nas cervejarias, as classes envelhecidas das antigas primárias tremoçam e imperializam como reis magos que foram beber e deixaram os camelos lá fora.
Tudo isto é, admito-o sem rebuço, algo cínico. É da minha infância sem catolicismo, explico. Cresci sem mistério. Boa vontade a sério, só a do merceeiro. Paz na terra, só quando a tasca fechava cedo. Amor e tal, só de ouvir dizer. Cinismo é, aliás, uma corrente filosófica grega cuja raiz etimológica é cão. Segundo essa filosofia, o ideal humano seria a imitação do comportamento animal, no que ele tem de puro, de não interesseiro, de genuíno, de vital.
Pensando bem, se o Natal humano fosse mais assumidamente cínico e menos, por assim dizer, natalício, talvez fosse mais cristão. E menos humano. Isto é, menos vendilhão. Ou não. Talvez eu esteja só a ser camelo.

sábado, dezembro 10, 2005

Nacional de Hipérboles Peca por Exagero



Realizou-se na Cova da Piedade, com manifesto gozo da Piedade, o I Nacional de Hipérboles.
O primeiro concorrente era cá de Setúbal e tirou do nariz matéria primata a suficiente para calafetar um petroleiro sueco.
Seguiu-se-lhe uma senhora virgem de Fátima, que foi eliminada por falta de originalidade. E por descúnfia.
Concorreu também um autarca que garantia, sem se rir, ser a favor da limitação de mandatos, além da limitação de felgueiras, valentins e de autarcas a sério. O concorrente chamava-se Miguel Bombarda, calçava sapatilhas brancas e tem sido avistado a cravar cigarros e a beber vermutes nas crónicas de António Lobo Antunes.
Camões concorreu postumamente sob o pseudónimo “Vasco Graça Moura e Pereça”, o transsexual que, sob o heterónimo “Guta”, foi recentemente corrido do CCB por causa dos seus lindos olhos e por ter conseguido casar com a filha de Miguel Torga. Teve má fortuna e aguardente. Não o torne o tempo a dar.
A última concorrente era dupla, na pessoa geminada de um matrimónio siamês de espanhol com holandês mais um cabrão maltês arrecobicho 1-2-3.
De modo que a coisa foi ganha por Teresa Guilherme, secretamente casada com Manuel Luís Goucha, o também apresentadora que assumiu chamar-se doravante (camarada) Manuel Luís Gouchilherme.

sexta-feira, dezembro 09, 2005

Stock

(O que ganho destes dias é a tapeçaria nervosa de referências para memória futura. Passo, aliás, a enumerar antes que me esqueça:)

Os azulejos daquela casa azul onde não vive alguém
O cão solitário que mira as laranjas para ele cinzentas
As vivendas-cogumelos a que acorrem as famílias-musgos
A robustez leitosa da moçoila que freme dedos de farinheira ao lavar de adeuses a janela
A tinta-da-china do pinheiro manso no papel-de-seda da respiração
As notas do piano dentro da cabeça para mais ninguém
O fumo do cigarro em repouso subindo a prumo perfeito antes de enlouquecer
Os automóveis em fila na noite como carneiros heterónimos
O caos arrumadinho da existência em stock

(Para consulta integral do stock, virar tapeçaria do avesso.)



Tondela, Padaria-Pastelaria Rosicar 2, noite de 9 de Dezembro de 2005

Alguns Outros Dias

1. XZ
Coimbra, noite de 5 de Dezembro de 2005



Palpititilações luminosas de município fililampam ao longo do rio e das autovias. Faz um frio que aperta o ar em torno de ferro. Carros piriluzem mínimos. Pobres-de-pedir ombreiam cartões-embalagens de fogões sem fogões dentro. Fitas de strapex pendem dos pobres como suspensórios de duro plástico agrafado aos pobres. Temperatura do ar: xis. Hora: zê. Autocarro carregado de fadistas conduzido à viola por homem de patilhas com caspa – passa no frio escuro da noite como uma árvore de natal deitada a preto-e-branco. Igreja antiga restaurada em centro comercial: bancas de florista, troféus & medalhas, snack, perfumaria, mercearia, chinês, cabeleireira. Ontem, hoje e amanhã. Escola nocturna: entrada e saída de trintões e quarentões em busca do liceu perdido. Gárgula do fontanário, mercado municipal fedendo a peixe e a tripas de couve, elevador dos ceguinhos da lotaria, previdência, cisnes, palmeiras chicoteadas por si mesmas, bancos nocturnos polidos por cus aposentados, avenida inclinada como um copo e uma boca, a praça republicana, o jardim lúgubre onde a pederastia coxeia o sexo abútreo e tristonho de um desejo por rotina. Paragem para uma chávena escaldada no café com nome grego, escadarias já antigas que abrem para o absurdo, absurdo não sei porquê, a evidência aí está. Globos cor-de-laranja haloados de pó de chuva, farfalhados pela ramaria das árvores mais circunspecta do mundo, passos teqteqteqteq na calçada, um pouco de fadiga muscular. Decidir-me pela direita, curvando depois à esquerda descendente como o comboio da canção, desembocando na garagem do sapateiro, depois na garagem do fruteiro, no papa curto, no S. Sebastião aliviado de flechas, sentindo já a paraplegia académica de la tradition, os volumétricos colhões d’el-rey D. Dinis, o território dizimado da antiga Alta. Nasceu por aqui muita gente, de X a Z.

2. O que É
Coimbra, noite de 5 de Dezembro de 2005

É o meu mundo.
Vou querendo outros.
Enquanto assim, menos mal.

3. Diagrama
Coimbra, noite de 5 de Dezembro de 2005

Extrema delicadeza no desenho
feito pelos pássaros no ar.
O mesmo a dizer das árvores,
com menos acção embora.
Os homens que trabalham na estrada
formigam de crude e máquinas.
Também desenham, por grosso
e atacado. Reservam forças para a
noite, para as mulheres, para
outros homens.
Tudo isto visto do cimo, dá um
diagrama mais do que apenas
humano. A arvorestação, o
picotado da passaragem, a
linha hominiviária.
É um diagrama, isso sim, muito
delicado: é um diagrama
extremo.

4. Conta
Coimbra, noite de 5 de Dezembro de 2005


Estamos por nossa conta
no espaço sideral
aberto ao infinito
além da escotilha do avião.
Inumeráveis nuvens-ovelhas
róseas-argênteas da eterna alba-noite.
Não é já a vida.
Não é a morte ainda.
É apenas a nossa conta.

5. O Leal Jardineiro
(para John Le Carré)


Tondela, 6 de Dezembro de 2005


Pode a tarde ser deserta,
Ser sombria e invernosa.
Tens a escrita pulsaberta:
Refulge e explode, feita rosa.

6. Relatório
Tondela, 7 de Dezembro de 2005

(Escrevo à noite, dedicatório, votivo.)
Perfumado ainda dos pinhais de ontem.
Visão perfuratória dos animais.
Cabelo contado.
Pele esfregada a sabão.
Frio concreto como cimento líquido.
Árvores mais densas.
Senhoras velhas mais velhas.
Roda dos dias amaciada pelo
deitar-cedo-cedo-erguer.
Inflamação no olho esquerdo
resolvida ao espelho, como
tudo.
Detroit continua a dois e 20,
por enquanto.
BT prepara Operação Natal&AnoNovo.
Alguma música (pouca) nos
interstícios das horas.
A paciência feita saber.
A amizade tida por certa
e a regularidade da caligrafia.

7. Saudades à Prima
Tondela, 7 de Dezembro de 2005

Cercada pela geometria implacável da vilacidade, a floresta primeva resiste, implacável também e mais ainda até. Sobreviverá aos incendiários, mais que ela combustíveis, e ao cimento. Tem a pedra do lado dela. O tijolo escaqueira-se como os ossos. O mar voltará a estas areias montanhosas e escuras. Sinto-o com nitidez, a milénios de distância (para trás, para a frente) o sinto. Nem me preocupa a eventualidade de ter razão. Estaremos, então (para a frente, para trás), devidamente disseminados pelas fluências combativas: o mar de nuvens-medusas, o horizonte de árvores-barbatanas, os ranchos de peixes falantes, as desaldeias de casas submarinas.
Calma: todas as saudades terão sido mortas.

8. Palavras Encruzilhadas
Tondela, 7 de Dezembro de 2005

O homem-silhueta parado-a na encruzilhada.
Vai-se embora o homem.
Fica a silhueta.
Nasce o Sol, o homem volta.
A Lua leva-a.

9. A Criação Húmida
Tondela, 7 de Dezembro de 2005

O homem molha a mulher
que absorve a hum(na)idade
do homem que buscou na mulher
a morte temporária do
orgabismo
e a encontrou.
Olhada
molhada
a mulher
que ama na cama
a carne de lama
do homem que quer
sente a trepadura
adentro de ela
da nova criatura
o novo homem-ele
a nova mulher-ela
que do abismorganiza
a trepadela.

10. Ração
Tondela, 7 de Dezembro de 2005


Por uma questão de economia emocional,
racionar a dor em porções de alegria.
E ir ao talho como à peixaria.

11. Teias
Tondela, 7 de Dezembro de 2005

No tálamo, enrodilhar
os olhos nas teias de várias
aranhas: os amores secos
como moscas.

12. Estação de Ferrovida
Tondela, 7 de Dezembro de 2005

Enquanto não é tempo do comboio
curtir a estação as estações
a primavera das revistas do quiosque
o inverno da cafetaria
o verão das mulheres que esperam de pé
o outono dos pássaros nas linhas de música dos telefones

13. Relógio
Tondela, 8 de Dezembro de 2005



O Sol, muito aberto, não subsidia a leitura, que se quer fechada em si mesma e penetrada, só, dos ventos molhados dos outros dias que rastejam chuvas horizontais sobre pedras negras. Hoje, assim não é. Pelo contrário. É tudo oiro novo. Parece que toda a gente lavou os carros e a cara. Famílias pastelejam com avidez e cafécomleitam-se em manada manhã cedo, rouquejam, grunhas, propinas e impropérios de ralhete alimentício-carnal, com celofanes de folhado farinhento adejando nas beiças lustrais. No fim, semelham gatarrões saciados de nutrição sustentando a sangue mole moscas diagonais nos vértices egípcios das orelhas. Para piorar muito o cenário, é dia feriado. Religioso, ainda por cima: da Senhora da Conceição de uma religião anticoncepcional.
Tenho algumas horas para ser feliz. Neste momento, uma figura chamada Justin Quayle viaja em busca da compreensão do passado. Revisita as acções de sua defunta esposa Tessa. Vou na página 192. Se chovesse, leria decerto mais depressa. Mas tudo tem o seu tempo. Hoje, o tempo é marcado, e aberto, pelo relógio do sol.

14. Ela-Leão
Tondela, 8 de Dezembro de 2005


Cabeleira de um fogo ensanguentado. Sardas no rosto de um desenho forte. Olhos preocupados com a savana interior. No exterior, roupa negra: seda e couro. Argolas de prata sinalizam a audição, dentes rijos marcam a natureza e a função predatória do animal. Recebe uma amiga com uma imitação de sorriso-delta. Agradece ao empregado o gesto de abaixar o estore. O sol incendiava-lhe, mais ainda, o sangue da cabeça poderosa: leão em chamas. Não leoa mas leão, dada a juba.




quarta-feira, dezembro 07, 2005

O Cedro e a Lua - XV - 18 de Novembro de 2005 - Alta

HSC, 18 de Novembro de 2005, 6ª feira, 8h09

Derradeira manhã inicial. Despertar às rigorosas 7h00. Banho. Nada para comer na gaveta da cabeceira. Vestir. Descer, ir às laranjas. Colhi uma mão-cheia para consumo da casa. Não muito doces, mas totalmente frias e totalmente de oiro. A boca agro-agradecida. Um começo vitamínico. A malta vai surgindo no terraço. Dois jogam matraquilhos na sala-de-convívio. Ab., de boné verde e excelente disposição, demonstra um sentido de humor que me encanta sem reservas. Conversa de matinadores.

Mesma manhã, 8h53

Ontem à tarde, acabei a Mocidade do Conrad. E à noite, a magnífica 2ª Série dos Textos de Guerrilha do magnífico Pacheco. Impressionante, a demonstração cabal (cf. O Caso do Sonâmbulo Chupista) de como Fernando Namora plagiou Vergílio Ferreira. E como pode tudo isto ter ficado em águas-de-bacalhau? Se, via Nuno Moura, vier a conhecer, como espero, o Vítor Silva Tavares da &etc., gostarei de tirar esta porra a limpo. Esta e outras: Luiz Pacheco é um mundo. Na 1ª Série dos Textos de Guerrilha, ele até refere a passagem do Serviço de Alcoologia, em Coimbra, de Celas para o Sobral Cid. Trilhos comuns no desmesurado mundo breve.

Mesma manhã, 9h45

A doutora P. já cá está, cedo veio. S. ainda não chegou. Está uma manhã de santos. Vivi duas semanas e uma manhã sem sinais de trânsito quase, quase sem bulício doloroso. O velho senhor J., que passa a vida a perder dinheiro e objectos, vê-me a escrever.
– Isso é um bom entretém para passar o tempo – diz-me.
Escuso de dizer-lhe a minha verdade: “Senhor J., isto é o Tempo.”


FIM
(?)

terça-feira, dezembro 06, 2005

O Cedro e a Lua - XIV - 17 de Novembro de 2006

HSC, 17 de Novembro de 2005, 5ª feira, 7h49

Despertar pouco depois das 6h00, justatempo de estar revivo. Um kiwi, uma laranja, um banho forte, extenso, esfregado. Um cigarro fumado com mais dois camaradas no cubículo do lavatório-sanita. Risotas matinais. Cachopices adultas. Mais de uma hora para o pequeno-almoço. Já deu tempo para ler as seis páginas de Uma Viagem quase Trivial, história pachecal inserta na 2ª Série dos Textos de Guerrilha. Agora, uma volta ao ar livre, fino, frio e lavado do novo dia, rasando o cedro titular na manhã escrita.

Mesma manhã, 8h29

Duas voltas higio-respiratórias (mas com tabacório) em torno dos pavilhões 3, 2, 1. Primeiro, só com CMS. Depois, também com FP e JH. Na volta, comentamos a boa qualidade da terra para ervilhal na quinta de Terapia Ocupacional. E CMS dá-nos noção de poda de árvores. Não deixar medrar de mais, mantendo a folhagem. Recorre a palavras como “canoco” e “olhos”: palavras vegetais de uma ciência tão antiga. Ouço calado, vendo como salta, recolhe um “braço” frágil e o “limpa”. Gente da verdade das palavrárvores: gente de verdade, gente de palavra.

Mesma manhã, 10h59

A partir de segunda-feira recente, a mudança de certa pastilha tem-me dado uma seren(al)idade diferente: mais laxa/lassa, sobretudo no termo matutino, uma pax química desfrutadora de arborescências e oxigenações. Bons despertares, bons duches, bons pequenos-almoços. Mas, também, leitura mais vagarosa e mais lerda dos escritos alheios (Pacheco e Conrad, de momento). Não muitos cigarros. O café, em copos de plástico, muito apreciado, em aroma, calor e doce, na língua e no palato e na respiração. A caligrafia, ela-também, um tanto incipiente, escolar, pueril. Muita decisão necessária para um passeio ao ar livre, a escolha de má poltrona de napa na sala-de-convívio, a aceitação ou a declinação de um convite para um par de partidas de matraquilhos ou sueca. Erotismo, nenhum. Nenhum pendor recordatório-onanístico. Nenhuma epifania de pensão: nenhuma micção científica, portanto.

Tarde de 17, 14h10



Mulher oriental em renque de árvores:
japonesálea.
Homem de blusão amarelo: um português impermeável
de sapatilhas brancas.
Visões no regresso pós-prandial da cafetaria.
Sossego solar.
Digestão farmacológica e de bacalhau.
Calma.
Pés quentes, forrados a lã e cabedal.
Mulher passando na estrada (quinze
metros, ombro direito da visão), casaquinho
de lã cor-de-tijolo. Também
portuguesa: de óculos.




Mesma tarde, 16h20

Alta – amanhã de manhã. Consulta com a minha médica e a minha assistente social. Tudo encarreirado. S. amanhã, também, na consulta de saída. Boa notícia. Não beber. Viver. Escreviver.


Noite de 17, 18h17

A degradação continua. Nos termos do Hospital, a instituição não se responsabiliza por empréstimos, dívidas, negócios estabelecidos entre os doentes. Louco por tabaco, o deprimente/depressivo/deprimido/divorciado/doente/decadente/CMM acaba de vender o (bom) casaco por dez euros e um maço de Detroit a HM. Já está lá fora a fumar o primeiro dos 20 cigarros. Veio logo dizer-me que “quando receber os dez euros do casaco” (isto é, vendeu fiado), me paga o que lhe emprestadei. Disse-lhe que esquecesse. Vou-me embora amanhã. Isto entristece. JH usa a pulseira de prata ex-CMM. HM deve os dez euros a CMM, além de dois que pediu emprestados hoje à tarde a CMS para comprar um maço de tabaco (o mesmo com que “sinalizou” a aquisição do casaco a CMM). Hospital/hospício/presídio: alma, mala (em castelhano, ), lama (em português).

Mesma noite, 21h33

Antes do meu derradeiro chá-bolachas (a que aqui se chama “ceia”) deste internamento. Sessão vitoriosa de sueca. Eu e HM despachámos, primeiro, JH e CMS, depois FP e RC: parciais de 5-2 e 5-1, respectivamente. CMM, afinal, fica mais tempo. Falou com a assistente social. Vai ter visitas de família (talvez até do filho e da ex-mulher) na 2ª feira. Espero que lhe tragam roupa lavada e dinheiro. Por dignidade, que não por esmola. Quanto a mim, volto à civilização da barbárie. “Barbárie” começa, naturalmente, por “bar”: cuidado com o cão. Com o “alcãoól”. Raios partam o coparete. Desenvolver, quanto antes, a história de Camilo Ardenas. Estudar muito, ler muitíssimo. Dar explicações a xis euros à hora (falar com o Fernando Nabais a propósito): possibilidade. Ler Lowry, Beckett, Faulkner, Pinter, Platão, Sófocles. Tudo isto é tão fácil, que basta estar vivo e sóbrio. Só brio.

segunda-feira, dezembro 05, 2005

O Cedro e a Lua - XIII - 16 de Novembro de 2005

HSC, 16 de Novembro de 2005, 4ª feira, 8h27

O clarim do despertar foi às 6h40: JH e FP já conversavam. Juntei-me à conversa, fomos às abluções. HM deixou-se ficar mais um pouco: a gripe deixou-me para o tomar a ele. A banana do jantar serviu de desjejum. Expedição às laranjas com CMS: um êxito retumbante. Em fura-regras, fomos à cafetaria dos doentes para um primeiro café clandestino. Lixámo-nos, eram só 8h00 e o tasco só abria meia hora depois. Regressámos para partilhar as laranjas. No caminho, vi no chão uma borboleta mínima e de perfeita simetria branco-prata. Consultei os pratos da gata: limpos, depois dela, pelos canitos da madrugada. Cena triste: CMM anda a perguntar a cada um dos outros “como é que pode ser amigo”. E tentou vender a pulseira de prata (de prata como a borboleta do chão) a Ab. por dois euros. Desesperado por tabaco. Dei-lhe um cigarro. Mas é um sem-fim: privado de cigarros, só pensa em cigarros. Vou dizer-lhe que fale com a assistente social para que o que lhe resta de família lhe envie algum dinheiro. Disse-lhe agora mesmo. Suspendi a escrita e fui dizer-lho. Respondeu-me que tentou ligar ontem para casa e não conseguiu. Ab. não aceitou o negócio da pulseira. Emprestadei-lhe dois euros e vinte cêntimos para um maço de Detroit, novidade no mercado.

Mesma manhã, 10h44

Não sei quanta, nem que qualidade de, verdade há na história, mas conto-a na mesma começando por – Parece que o Carlitos, do Pavilhão 2 (Crónicos Vitalícios), viu os pais morrer num acidente. Daí que hoje ainda, tantas décadas depois, diga “…’nha Mãe, ‘nha Mãe!...”. Não sei. Dou-lhe açúcar, laranjas, compro-lhe bolos (os maiores do expositor da cafetaria), limpo-lhe a boca e o queixo e componho-lhe as calças e o casaco. É o posso fazer de maternal.

Tarde de 16, 14h19

Entre as 11h30 e as 12h30, Terapia Ocupacional no piso superior do Pavilhão 3. Comovida, a terapeuta informou-nos de que as sessões vão acabar, pelo menos ali, por “decisão superior de serviço”. A tarefa da sessão era uma folha branca dividida em seis: Solidão, Felicidade, Medo, Sabedoria, Velhice, Amor. Tínhamos de desenhar simbolicamente os conceitos. Houve resultados lacrimosos, pensativos, humanos, decisivos, irrisórios, inapressáveis, inapreçáveis. E solitários, felizes, medrosos, sabedores, velhos e amorosos. Agora, acabam. Depois, continuam. Noutra sala, noutras vidas, noutros alcoolismos.

Noite de 16, 18h32

Cena chata: por volta das 16h00, eu e CMS (que agora à noite me apresentou os filhos em visita) fomos, à revelia do regulamento, tomar café e comprar cigarros à cafetaria. Azar: ele teve uma visita não prevista duma assistente social da zona de residência, que perguntou por ele, que não estava, que chegou à psiquiatra, que telefonou para a cafetaria, que respondeu termos lá estado. Resultado: ambos, um de cada vez, pedimos desculpa aos enfermeiros de turno, que levaram piçada da médica-chefe. Ainda por cima, sem culpa nenhuma dos enfermeiros, posto não ter sido no turno deles que a nossa infantilidade foi praticada. Outra coisa (bem mais) degradante: apesar de ter comprado cigarros com o dinheiro que lhe emprestadei, CMM continua a tentar vender a pulseira de prata. Acho que JH vai aproveitar a pechincha. CMM quer “dois euros e um maço de tabaco” por ela. JH só quer dar os dois euros. CMM diz que me paga os dois euros e vinte cêntimos “sábado ou domingo”. Vai-se embora, diz ele, por ter falado com a médica. Mais do que alcoolismo, o problema é a longa depressão decorrente da separação/divórcio. Ele não queria, a ex-mulher não queria outra coisa. Ele quer voltar ao trabalho. É carpinteiro de cofragens na construção civil, não ganha mal. “Ganhas para o tabaco”, penso eu. Diz que não pensa tanto nas coisas más, trabalhando. Tem razão, claro. Vou ver do negócio. Degradante, degratriste negócio de prata de borboleta deprimida.

Mesma noite, trinta segundos depois

Negócio feito: por dois euros e um cigarro. JH declara:

– Ó Daniel, eu já cá ando há muito tempo! A pulseira é para a minha mulher.

E pronto. Afivela-a ao próprio pulso, em guarda de fiel depositário. Mankind must goes on, como dizem os de Setúbal.

Mesma noite, 19h30

A felicidade não resiste à análise.
O inverso é igualmente verdadeiro.
(Ou talvez ambos os raciocínios sejam da medicação.)

Mesma noite, 20h16


O Cedro e a Lua

O Cedro na noite.
No topo do Cedro, a Lua.
A Lua no topo do Cedro como
um pensamento de
banda desenhada.
Desenho o pensamento:
um homem-silhueta,
num terraço de alcoologia,
visto de costas.

sábado, dezembro 03, 2005

O Cedro e a Lua - XII - 15 de Novembro de 2005

HSC, 15 de Novembro de 2005, 3ª feira, 10h45

Falo com Ab., de perto do Senhor da Serra, Coimbra. Ao sol, no terraço, sob os chapéus de pano azul seguro por varetas brancas. Diz-me ter, como eu, duas filhas. Uma de 25, outra de 13. Diz mais. Tirou o filho mais velho de uma fossa, morto por intoxicação/afogamento. Outro filho nasceu-lhe morto. Estas pessoas, estas vidas, estas mortes, estas histórias, estes terraços ao sol, estas eternidades.

Tarde de 15, 13h56

Entre as 11h30 e as 12h30, uma sessão de Terapia Ocupacional. Representar “A Minha Família” através de recortes de revistas colados numa folha de papel. Pus velhos (Os Mais Velhos da Família), política e futebol (Aquilo de que se Fala). Não representei as minhas filhas. Depois, fiquei a olhar para a folha.

Mesma tarde, 15h49

Visita retemperadora de S.: solidariedade vital. Até que enfim.

Mesma tarde, 16h41

Discussão grossa. Vozearia no terraço a propósito do mais precioso e apreciado bem material de qualquer internamento (voluntário ou compulsivo, hospitalar ou prisional): o tabaco. CMM não tem dinheiro. Portanto, pede cigarros a toda a gente. Quase toda a gente lhos nega. CMS ralha com ele. Chama-lhe “chulo” à frente de toda a gente. Acusa-o de “explorar” o velho J., de ter tentado roubar um maço da mesinha-de-cabeceira de P.. Cena chata e constrangedora. O réu encolhe-se, a depressão que aqui o trouxe deve estar a aumentar graus e graus centígrados, o silêncio incrimina-o à vista armada. O acusador, impante de razão, tosse justiça. E puxa de um cigarro.

Princípio da noite de 15, 18h24

Na última incursão do dia à cafetaria dos doentes, aprendo o nome de duas árvores: carvalho-indiano e pimenta-do-reino. O HSC é, também, um Jardim Botânico. Mercê benigna, vá lá, do salazarento Bissaya, a folha do carvalho-indiano entontece de tão bela. À luz solar, enrubesce como uma deliciosa obscenidade geométrica. É de uma cor mais virtual que deste mundo. Ganhei absolutamente o dia, reconhecendo-lhe a cor e, graças ao enfermeiro V., conhecendo-lhe o nome.

Um minuto depois

Combinações secretas do Comité Secreto Para a Alimentação da Gata Benfica Contra a Ordem dos Enfermeiros (CSPAGBCOE): cortar uma garrafa de plástico de litro e meio de modo a obter um copo (que esconderei no meu saco de livros e cadernos) em que lhe levar os restos do jantar. Ontem, resultou em papel de guardanapo. Mas hoje, ao almoço, precipitei-me e fui detectado pela enfermeira, que topou a posta de raia embrulhada. A enfermeira, simpática, contemporizou e deixou andar. Eu e CMS presidimos, vogalizamos, fiscalizamos e assembleamos o CSPAGBCOE.

Mesma noite, 19h50

Operação CSPAGBCOE coroada de êxito: uma pratada de arroz de galinha para a gatosa. A comida foi acondicionada a preceito, o animal comeu até as orelhas lhe mudarem de sítio. Passei-lhe a mão pelo espinhaço. Ronronou como um cobertor lavado, mais que linda. Vejo-a agora: trepou para o balcão do terraço, recortando a silhueta farta e formosa e felina contra a matéria álgida e agra e argêntea da Lua Cheia. “Uma tremenda solidão animal”, sinto (e escrevo), sem bem precisar a que(m) me refiro. Só como um homem louco, desses que por aí vejo, como aquele que cospe – e o cuspo sai-lhe da boca em esparadrapo, grumando-se em trapézio à queixada. Mas só a solidão é afim da gata com o homem louco. Ela é muito limpa, muito lúcida, toda de inteligentes bigodes que vêem no escuro, de assassinas patinhas de feltro corr(o)edoras do silêncio da noite, da Lua. Belo bicho.

Mesma noite, 21h13

A Assembleiólica assiste ao futeboólatra: até ao momento, Irlanda do Norte, 0 – Portugal, 1. No intervalo da partida, cigarradas no terraço e combinação de surtida matinal às laranjas: CMS et moi. Tudo pela vitamina C, pela aventura, pelo retorno à infância cleptofrutívora. Daqui a umas horas. Entre estas linhas e as laranjas, o futuro de uma noite mais. Golo da Irlanda do Norte.

sexta-feira, dezembro 02, 2005

O Cedro e a Lua - XI - 14 de Novembro de 2005







HSC, 14 de Novembro de 2005, 2ª feira, 9h04

Estado gripal incómodo. Começou ontem, domingo, no Botulho, em casa. Saudades da gata de lá, a Agostinha, e da Benfica de cá. Um dos enfermeiros quer acabar com a vizinhança do animal. Comi uma maçã e uma laranja, a ver se vitamino a gripose. Trouxe mais material para ler. À espera de uma resposta da Suzana Ramos, da Dinalivro, para trabalho de revisão do livro técnico (cuja tarefa não terminei, entretanto, mea culpa). Porra p’rà gripe. O pequeno-almoço ainda não está servido. Tempo húmido, mas não especialmente frio. A gripe é uma coisa melancolizadora.

Mesma manhã, 10h33

Nada de outro mundo, tudo deste – um pouco de febre. De tarde, o Artistonitólogo vai falar com a doutora. Hoje, às 7h30 foi a recolha de sangue em jejum para análise. Só depois a ingestão da maçã. Ao contrário, portanto, do Velho Testamento, livro em que a Maçã antecedeu o Sangue e a Análise. Uma imbecil mulher no imbecil programa televisivo da manhã: “Um sorriso de criança é um acto de amor”. Patati patatá. Ervilha-frita-batata-bonita. Não é que seja mentira. É só tão exausto, tão banal, trivial, lateiro, cristóide, evanjófilo, o-raio-que-os-parta. Impaciência – outro fruto do estado gripal, enfim.

Mesma manhã, 11h37

Conversa na sala-de-convívio com FP, da Mealhada. Já aqui esteve antes. Primeiro, como toxi: andou fumando pó hípico. Agora, repete a estadia na qualidade de orni. Uma filha de sete anos. Ele, 33.
– A ver se recupero o equilíbrio – professa. – E se mantenho o lugar de chefe de linha de montagem – segura.
FP trabalha com homens e com vidro: tudo coisas frágeis (“ESTE LADO PARA CIMA”). “Exactamente como a vida que levamos/nos leva”, concluo eu sem falar alto e armado em filósofo. Ou em parvo, o que dá no mesmo.

Tarde de 14, 15h35

Visões Gripais

Uma japonesa entre pinheiros mansos.
Uma japonesa mansa entre cedros.
Um louco só a vida toda louco a vida toda só.
Um guincho picotado de telefone a tocar no corredor de todas as esperas.
A gripe sem vírgulas.
Recordação de uma nascente aos pés de uma montanha com um castelo na cabeça a montanha.
Caligrafia mental busca e trova papel próprio.
Tinta roxa tinta verde.
Papel no nariz água de ranho.
Ouvidos de aterragem de avião.
Estacionados carros vermelhos vivos à espera de homens e mulheres directores de condução.
A condução humana.
A humanidão serva no navio da naifa.
Loucura controladora de palavras.
Controle de palavras loucas sós a vida toda só loucas todas a vida.
A japonesa-beleza-do-líbano-cedrina.
Não poder aromar-se por causa do entupimento das árvores.
Quartos-de-hora quartos-de-lua quartos-de-pensão terço-amor meia-foda zero-futuro.
O Gripartistonitólogo gripa-se pira-se.
Tintarroxa verdetinta página 28 do manusgripto.




Noite de 14, 18h14

O vírus faz do corpo um colchão-de-água com molas de ossos. A luz do dia, os esparsos cachorros mendigos de comida hospitalar, os pássaros rápidos, o medronheiro que excresce rubis rugosos – a realidade é sentida difusamente por causa do (ou “derivadó”) cabrão do vírus.

Mesma noite, 18h29

Saindo-se a sala-de-convívio, abrem-se o terraço, o jardim (sem flores, só relva circuncisada de passeios de pedra) e uma das ruas deste labirinto mental. A esta hora já invernosa, a noite instalou já, como se para sempre, um circo de estrelas. A visão do balcão do terraço é límpida, muito pura e quase triste sem remédio(s): recorda-me (sem ser por artifício de recordação pictórico-literária, juro), O Império das Luzes, tela do grandinorme artista René Magritte. Os candeeiros, semiocultos pela folhagem, dão à luz a ilusão de frios frutos. As árvores, negras de contraste, humanizam o espectador siderado pela evidência da finitude infinita de pensar sentido (como o Outro, de outro modo). E no céu, chumbado de frígidos cúmulos, a Lua lu(t)a por mostrar-se inteira. Recolho à sala-de-convívio, por esta hora plena de adormecidos gasalhados de lã, passo ao refeitório, onde, escritor de silêncio, me sinto e sento só. Pois muito bem.

Mesma noite, 20h56

Combati a chata da gripe com mais uma laranja roubada a uma das árvores do Hospital. Colhida de noite e da parte baixa da laranjeira, apareceu-me na mão toda verde por fora. Mas, descascada e comida, revelou um coração tão citrino como generoso. Arrefecida do relento, acidula-me agora no porão gástrico de mui prazenteiro modo. Guardei para a matina próxima o kiwi da sobremesa do jantar. O meu irmão Zé Daniel bem me ensinou como combater as griposes: “Avinha-te, abifa-te e abafa-te.” Avinhar-me, não no posso. Mas abifei-me, por assim dizer, com uma bela posta de peixe grelhado e uma hidrocarbono-lambada de puré cremoso de batata mais pão. E, indo para a cama, dormirei duplamente pijamado e de meias, de modo a suar o febrão no curso e no corso da noite. Enquanto não, sigo na leitura dos Textos de Guerrilha (2ª Série) do enormigrande Luiz Pacheco e de uma novela de Joseph Conrad, Mocidade. Poderia ser pior, convenhamos. E eu convenho, que remédio.