domingo, fevereiro 19, 2006

Boletim Breve

Suponho que envelhecer seja prestar mais e mais atenção à meteorologia.
Ontem, na minha cidade, estive a ver chover.
Choveu bem.
As pessoas, decapitadas pelas copas negras dos guarda-chuvas, eram só pernas.
Um momento houve em que a precipitação até fazia vapor na calçada.
Tive pena das pombas, obrigadas cedo de mais ao recolher dos beirais, talvez com fome ainda.
Circulei pelas zonas de sombra vaporosa: vapor e rosa.
Fui feliz, quase jovem.



Coimbra, tarde de 19 de Fevereiro de 2006

sábado, fevereiro 18, 2006

Sábado, Fevereiro

Outro dia.
A cidade sobreviveu à chuvada nocturna.
Na saleta, deitado sobre grená, estive até horas pardas a ver se a televisão era ou não capaz de sedar-me.
Não foi.
Seguiu-se uma colecção de três sonhos sem interesse narrativo.
Às sete da manhã, o mundo pôs-se a chiar como uma chaleira.
Levantei-me, dei as costas ao espelho e despenhei-me de amarelas águas.
Decidi não fazer a barba.
Aqueci café na cafeteira azul.
Sentei-me à janela da cozinha e deixei passar.
De repente, estou aqui.
De repente, já não.



Coimbra, manhã de 18 de Fevereiro de 2006

sexta-feira, fevereiro 17, 2006

Hoje em Coimbra

Chuva miudinha.
Pessoas fundidas como velas.
Humidade comercial.
Uma menina com acordeão-miniatura.
O rio vertical à chuva.
As árvores inclinadas como cumprimentos.
Na Rua dos Sapateiros, de manhã, o sol,
apertado alto entre prédios,
parecia um chuveiro de ouro.
No Montepio, o homem de cabeleira grande recolhendo moedas.
A estátua escrutinando pombas, recenseada de cocó columbino.
Desci a Ferreira Borges, o coração um pouco apertado na caixa.



Coimbra, 17 de Fevereiro de 2006

quarta-feira, fevereiro 08, 2006

Fábula

Conhece-te nos teus dias e reconhece-te nas tuas noites - disse o Pássaro.
Sim - respondeu a Minhoca.



Coimbra, noite de 8 de Fevereiro de 2005

quarta-feira, fevereiro 01, 2006

Olaria

Uma olaria de sangue - o coração.
As mãos sujas de coração.
As mãos encarnadas escrevendo apelos.
Muitas cartas - um só apelo de barro:
I wish not to die, I wish not to live.

quinta-feira, janeiro 19, 2006

Presidenciais


Já não somos povo, mas público. De TV, sobretudo.
Como tal, nenhum de nós leu qualquer documento ou manifesto de qualquer dos candidatos às eleições presidenciais que aí estão à porta. Nenhum de nós verdadeiramente reflectiu sobre o assunto. Quando muito, olhou. Mas nem sequer viu. Ficámo-nos todos pela superfície enganosa da televisão: as frases feitas, os bailaricos, os senhores candidatos a gabar as gastronomias locais, os ranchos, os pauliteiros e os trauliteiros. O costume.
À partida para a primeira (única?) volta, temos D. Sebastião disfarçado de Cavaco. Depois de dez anos de autoritarismos à la Chef como primeiro-ministro, quer agora presidenciar. Guia-o, diz ele, uma vontade de repor Portugal no rumo certo. Pelos vistos, andou dez anos a pô-lo no errado. A figura é estranha num país democrático, dada a ferragem do seu ricto ditatorial, dos seus maxilares mentais e da sua intolerável intolerância. É um arauto do neoliberalismo sem freio. Mas quer ser nosso Presidente.
Também temos Soares, o da tentação monárquica. Numa fase da vida (a dele e a do País) em que o curial seria viajar pelo mundo (mas agora por conta própria…) e coleccionar selos no recato da mansão doméstica, o veterano político quer reinar de novo. Não se percebe porquê, a não ser recorrendo à desmedida ambição de uma figura que se supõe insubstituível, inultrapassável, incomparável, imperecível e imperdível. A realidade adjectiva é, porém, outra: imperdoável.
“Imperdoável”: assim de Soares disse Alegre, o candidato desde sempre socialista agora sem PS-aparelho por trás. O poeta-deputado, que vagamente secretariou no Estado nos primeiros anos da Revolução para depois se assentar de vez no hemiciclo, aparece com irrecusável dignidade na corrida. Ele é o contraponto humanístico possível à sanha economicista-financeira de Cavaco e às inconsequências geriátricas de Soares.
Restam os residuais Jerónimo, Louçã e Garcia Pereira para completar o ramo da Esquerda mais estilhaçada de que há memória numas presidenciais. Todos têm mensagem, todos apresentam forma, todos revelam conteúdo. Mas, para além dos subsídios do Estado às campanhas que chegam ao boletim de voto, o que há verdadeiramente a ganhar quando é de presidenciais e não de legislativas que se trata?
Certo, aparecer junto às fábricas fraudulentamente falidas. Levar aos desempregados o megafone por que possam fazer ecoar a desumanidade da sua condição de formigas operárias despedidas por cigarras neoliberais. Dizer da banca, dos seguros, das multinacionais e dos espanhóis aquilo que todos pensamos mas transformamos, na hora da revolta, em benfica-benfica-sporting-sporting-selecção-selecção. Tacticamente, estarão bem. Estrategicamente, não me parece sequer que estejam.
Resta o quê? A Democracia. A Liberdade. A Televisão. Uma das três anda a papar as outras duas.
Mas o público é quem mais ordena.

quarta-feira, janeiro 18, 2006

ALMANAQUE VILÃO - 3. Próprios e Alheios

Não apenas os mortos próprios mortos como também os próprios mortos alheios surgem e se insurgem, pouco pacíficos, à vista desarmada chateados com tanta ausência, tanta indiferença lhes votada. Querem acção, parece. Aparecer mais nas conversas, ao menos. Faço-lhes, sempre que posso, a vontade. E tenho podido muito. Nos sonhos, nos cadernos, na extra-realidade (quando ouço música, quando leio L’Illustration do século XIX, quando no jardim, quando em alguma das pastelarias espaciais nocturnas, quando as estrelas se despenham no lago), revivo os mortos próprios e os próprios mortos alheios. Invento até alguns, o que julgo pode ser absurdo em meu haver mais que em meu deve. Tias de renda & gato, defuntas do fígado e/ou da vesícula, que pretendem retomar seus chás de lazareto perpétuo; avôs de bengala-caçadeira de cana, aluídos de trombose, que exigem voltar a caçadeirar inocentes coelhos de história infantil em pinhais geriátricos; bambinos leucémicos de antes da Revolução, revoltados por nunca poderem jogar à bola como os outros; o senhor Sacramento, que continua despertando na morte ao clarim pontual dos galos das 5h13 da madrugada. Todos esses e outros tantos que me não socorrem, antes concorrem dispara(ta)ndo primazias de sol-posto, lunarismos, zodíacos caducados, glaucas epifanias de tristes, pobres defuntos sem outro lugar que este caderno onde cair mortos.

Tondela, tarde de 21 de Dezembro de 2005

terça-feira, janeiro 17, 2006

ALMANAQUE VILÃO - 1. Casal com Serpente Verdamarelanegra

Na casa da aldeia, enfronhado nas mantas da cama, sepultado quente no abafo, o corpo escapou ao mundo. Pernas e peças roçagam calor de gato. Satisfação geral do metabolismo. Persianas corridas sobre os olhos. Um sonho abre-se como um pano de palco.
Um casal na erva. Ele é chinês, ela é indiana. Estão a penetrar-se com atenção, ambos de olhos fechados, ambos com muito prazer e toda a consideração. Uma serpente envolve-os, desenvolve-os, larga-os, retoma-os, cola-se-lhes, liberta-os. A cada passagem dela por eles, colora-os de suas escamas colantes: verdes, amarelas, negras. Os amantes, matizados, perfeitas estampas duplas verdamarelanegras, continuam o amor de olhos fechados. A cobra, muito grande, desaparece sob a alcatifa de erva. O chinês ergue o rosto impresso de serpente: os olhos, agora abertos, vêem a câmara fotográfica da narração através dos losangos verdes, amarelos, negros. Quando avanço para o casal, piso o corpo oculto da cobra, em relevo por baixo do ervado. Da erva, os dentes afiados da besta emergem para navalhar a descrição. Não sinto medo. Devo evitar ser esfaqueado, é tudo. Não é tudo. Quero ver de perto a pintura do duplo corpo, a estátua enganchada dos amantes. Quero ver se são ainda um homem e uma mulher separáveis ou se a serpente os colou para sempre, siamesando-os sem retorno. Nisto, os três (ou uma+dois) desaparecem. Resto eu e o cenário, não isentos ambos de novas aventuras, uma destas noites.



Tondela, tarde de 20 de Dezembro de 2005

segunda-feira, janeiro 16, 2006

ALMANAQUE VILÃO - 0. Stum-Stum

Não sou deste mundo mas não há outro.
Há outros sítios mas são iguais a este. Uma capela (com sorte, uma igreja), uma rotunda, uma pastelaria, uma escola e um campo da bola. Perto, uma vila, que da aldeia se distingue pelo quartel de bombeiros, a farmácia e a segunda pastelaria.
Não sou nunca de nenhum aqui.
Não faz mal nenhum. Não faz mal nenhum começar tantas frases por “não”. A minha história também não é diferente, pelo que não pode deixar de ser contada. Isto é – revivida.
É um homem sentado a uma mesa coberta de toalha amarela num sábado à noite. Todas as outras mesas mereceram toalhas idênticas. O empregado aproximou algumas mesas para que os grupos pudessem conversar e tomar café mais juntos. Eu não trouxe ninguém, uma mesa chega-me. Até já cedi uma cadeira. Há um ecrã gigante na parede do fundo. O futebol acabou, o empregado mudou para um canal de videomúsica. Só dá para ver as imagens. A música no ar de fumo é um stum-stum que provém da aparelhagem áudio, caixotes negros suspensos das colunas do bar. O som aleija, mas as pessoas vieram buscar isto. Conversam aos gritos, riem-se aos gritos, descansam aos gritos. Se eu saísse daqui e procurasse outro sítio, pensaria a mesma coisa. Mesmo em casa, a minha cabeça estaria aqui. Disparada pela mesma imaginavisão, a minha cabeça estaria aqui a aleijar-se de stum-stum e de videomúsica sem legendas nem sentido.
Quando me cumprimentam, sou deste mundo. Retribuo, sorrio, digo ou ouço uma graça, informo o retardatário quanto ao resultado do futebol, aceito ou declino uma chávena de café. Hoje, não apareceu ninguém cumprimentável. Vou mais vezes ao sítio das toalhas vermelhas. Hoje vim aqui a este por ser igual ir a outro. Um piano, um sax barítono e dois homens no ecrã. O pianista canta, o barítono tem as bochechas intumescidas. Não os ouço. Cantam e tocam para ninguém. Só há o stum-stum. Não tem mal. Sempre é uma sensação. O som bate nos claustros do peito, as costelas formam um mosteiro com o monge triste lá dentro a ouvir o órgão. E o órgão só ressoa stum-stum. Em torno, a mocidade. Agora diz-se “juventude”. Já não tão juventude assim. Alguns perto dos trinta, outros já bem lá. Deixaram os pais em casa e vieram gritar para aqui. Defeitos em série. Todos muito ocidentais, mas com avós que rezam à lareira. Aqui, hambúrgueres, mas em casa o porquinho na salgadeira. Bons rapazes, boas raparigas, filhos de alguém se não d’algo. Falta pouco para ser amanhã, o que sempre dá para esperar alguma coisa. Um número, uma perspectiva, outro jornal, outro pequeno-almoço.
Esta gente desaparece toda à semana. Vão para as cidades universitárias tirar os desempregos dos futuros deles e delas. Enquanto o sábado dura, trocam mensagens telemóveis com os namorados e as namoradas, que a esta hora estão a aleijar-se do stum-stum deste mundo noutro sítio igual. Não há indivíduos. É uma espécie de lei. Uma espécie de música. As pessoas seguem a lei como se dançassem. Maratonam as vidas. Digo isto porque a minha foi assim. É a indução. Não tarda nada, estou a voar deste sítio e a imagidaraver sequências animadas pelo último mundo possível. Estou a querer dizer isto mesmo. Isto é, dizer mais do que apenas sábado à noite, toalhas amarelas, rapazes, raparigas, colunas, bar, ecrã, pais trancados em casa, bombeiros, pastelarias, campo da bola. E o que aconteceria se eu não quisesse permitir a este mundo a intolerabilidade dele. Isso é algo que já tenho praticado. Agora, hoje, preciso mais disso. Necessito com algum ardor de indivíduos, de filmes com som, de música a sério, de saudações para lá do formal e do formol. De modo que tenho de inventar tudo isso. Sou capaz disso. Já o fiz antes. Não há um método, não há uma receita. Mas há uma fervura, uma temperatura, um istmo, um ritmo, uma ardência, uma cadência – já começou.
Fotografias eidéticas, bioimagens borbulham já no caldeirão craniano. Nem todas prestam. Algumas impor-se-ão. Destacar-se-ão como aparições, revelações de fotografias. Devirão, então, palavras, linhas, capítulos. Numa massa não desprovida de esplendor, baterão asas e hão-de servir-se de todos os truques mais sujos e de todos os pensos mais assépticos para chegar aonde pretendem.
A mim não deve ser, mas, se for, que o seja. Quero assistir. Ainda aqui estou, stum, pronto, stum.


Tondela, noite de 17 de Dezembro de 2005

sábado, janeiro 14, 2006

Incomunidade

Ela só esperava já que a paixão a deixasse viver.
Uma manhã, decerto, essa lotaria haveria de marcar o número pessoal.
Rota a paixão como uma meia velha, o amor tomaria o seu lugar à mesa, o lugar dele.
E ela passaria a servir o jantar frio e individual ao canto do balcão da cozinha, não já à mesa nupcial.
Isso aconteceu.
Retirou das madeiras e dos vidros os suportes fotográfico-frigoríficos que sorriem o passado afinal lacrimoso.
Ocupou de caixas de chapéus o canto dos sapatos grandes.
Utilizou a ficha tripla quase toda, na sala de estúdio.
E pôs-se a telefonar a amigos menos comuns do que a comum vida.
Atenderam-na.

terça-feira, janeiro 10, 2006

Sai Sempre

Deixo isto escrito.
A mulher por cima da loja entretém-se, moribunda de duas operações de barriga aberta que os doutores fecharam à pressa, a morrer.
Em baixo, espera-se.
Os clientes falam em surdina na loja, por respeito.
Há chocolates no jogo dos furinhos, sai sempre.
A arca frigorífica vertical suporta uma jarra de dourados perpétuos, não tanto assim, perpétuas, as flores suportadas nem a de cima.
Hão-de sair.



Botulho, noite de 9 de Janeiro de 2006

Canção da Florinha

(para o Iur Aierroc, que gosta de florinhas, não é segredo nenhum nem vergonha alguma)
A florinha cresce da terra escondida
O cão no pátio embolorece animal
Passa-se uma coisa florindo atrevida
Temos de pintar o nosso quintal
Nós temos de ter às vezes nem sempre
Um lume que arda no canto do corpo
Uma mancha de luz que quem passa sente
Como fora um calor deixado p'lo outro
Ir à pizzeria sair sexta à noite
Deixar pelo chão uma baba de sombra
Tecer um casaco penélope azeite
Uma gaze de nuvem que à lua se esconda
Colher da mulher a gota exacta
Ao beiral da hora sendo onze e meia
Colher a florinha registar a data
Que bela florinha não é nada feia.

sexta-feira, janeiro 06, 2006

Carne ao Sol

(para o Zuca)
A quieta carne um dia
Não amante já, não já fremente
Oca do que a si mesma enchia
E a volvia clara rara alma gente.

Os brancos ossos de teclado
Os escuros dentes comedores
A cava boca onde o fado
Teceu versos enternecedores.

Repousa ilesa a tristeza
Tanta alegria feita pó
Tanta a terra tanta a pobreza
Tanto o oiro e um sol só.



Tondela, tarde de 28 de Dezembro de 2005

domingo, janeiro 01, 2006

Primeiro de Janeiro

Arrumei livros na estante nova. Já o devo ter feito algumas vezes: os gestos saíram-me de cor, o trabalho correu depressa. Antecipam-se-me as horas de recolhimento neste quarto pequeno, como noutros quartos a partir de outros janeiros inaugurais. A gata dorme prolongadamente. Como outras gatas. A vida parece ser isto: primeira e janeira.



Botulho, casa, 1 de Janeiro de 2006

sábado, dezembro 31, 2005

2006 feliz


Sois vós a dar sentido a este sítio. Ah pois sois. Feliz 2006, gente!

Seguimento

Algumas mulheres (nem todas, é certo) exercem um poder fundador.
Adquiriram algures, não sei como nem quando nem para quê, o direito de cidade.
Exercem-no, é tudo quanto sei.
Daí que a economia, a da casa como a da rua, lhes fique bem entregue.
Algumas caminham mercê de colunas sobre que o perdido homem de Deus fundaria o Seu templo.
Não no pode.
O mais que pode, é entregar à mulher o seu dízimo de esperma e a confiança total quanto à hora do pão.
Depois, seguir-se-á o festim das nascenças, o carnaval oblíquo das parecenças, a insensatez do amor regular.
Nada lhes importa, a elas.
Seguem monstruosamente erigindo a ossatura tabernácula da solidão por mor da cria.
Pode ser, também, que nada disto seja assim.
Tudo bem nesse caso, ó sô Zé.
Siga.
Tondela, anoitecer de 30 de Dezembro de 2005

sexta-feira, dezembro 30, 2005

O Olhar do Pedreiro de Jazigos

para o Fernando Nabais, amigo máximo



As casas resistem ainda ao olhar
um pouco menos do que à chuva
mais porém do que o pedreiro
e a pontuação
É da natureza das coisas ser da natureza dos dias
como da natureza das noites é
fundir tudo em uma amalgamada cristalina
natura
Por exemplo escuros pêssegos escuros cães escuros pátios
escuras amêndoas escuras avós
escuros medos
Tive um claro sonho
claro não seria se não tão claramente
o não recordasse ainda
isto vos conto
Jogar-se-ia a bola a um cesto num cemitério
em hora e dia de visita aos amados defuntos
a que permanecemos mais que eles
fiéis
marias joaquinas carlos ruis serafins manuéis
eu estava demorando por ali meus ossos vivos
meu vivo sangue minha carne viva
minha aberta ferida de ter
também eu
um morto a quem visitar
um som soou a bola acabou
rodaram de pedra as portas
os brancos mortos
mortas fotografias de si mesmos
em carne não viva de si mesma
apareceram
que tristeza foi aparecerem
à própria visita
em suas mesmas casas
resistindo à chuva
à pontuação
e ao olhar do pedreiro.



Botulho, noite de 27 de Dezembro de 2005

quarta-feira, dezembro 21, 2005

Boletim Agrário

A fria noite amarfanha suas irritadas crianças
Confinadas aos quartos como aranhas de gelo
Nos pátios cristalizam os inúteis cães de caça acorrentados
As figueiras vigiam as demandas dos livres gatos
A Lua borra de cal molhada o céu de aviões
As aldeias papilam no veludo como giz esmigalhado
Conto os passos pelo esmigalhar da brita
Finjo tratar-se de areia sob outros pés os mesmos em pequeno
A outra temperatura longe da montanha glaciar
As pastelarias espaciais viajam na solidão sideral
Uma após outra no espaço-alma-tempo-ser
Frases rápidas parecem versos ditos a ninguém
Reclamos luminosos escaqueiram latim eléctrico
Nec ultra sine pro ab super cum a de te plus
Amanhã começa outro ontem
As pombas e os falcões assinalados sobre a rotunda
As casadas e as púberes e os malquistos e os imigrantes
As taxas de juro e o comércio e a feira de máquinas
E a nova novela do horário a que chamam nobre
E a esperança essa velha paspalhona.
O futuro semeia-se todos os ontens
Conforme o frio.


Tondela, noite de 20 de Dezembro de 2005

terça-feira, dezembro 20, 2005

As Pastelarias Espaciais

As pastelarias da modernidade são máquinas espaciais.
Não se deve mexer nos comandos nem na tripulação - a caixa registadora, as empregadas.
Cada viajante deve embarcar sozinho e assim se manter todo o inverno da viagem.
O televisor assegura a anestesia da memória.
As manhãs do televisor são para as velhinhas.
O casal de apresentadoras, composto de uma mulher amarela e de um mulheromem, parece um par de catarinetas fermentadas.
As refeições servidas a bordo separam os blocos de sono.
As tardes têm cantores de pleibéque inodoro.
As noites dão crimes solúveis como café sintético.
Há bolos.
Tondela, tarde de 20 de Dezembro de 2005

Carta Militar

Tondela, 10.XII.05

Aurora, meu amor, minha nespereira

Que me importa a mim que o teu amor esteja morto, se o meu nasce todos os dias em honra do teu nome? Escrevo-te na messe da imaginação. Escrevo Aurora de noite. Escrevo-te sempre, até, ou sobretudo, quando não escrevo fisicamente. Quando instruo rapazes mal-homens, quando marcho picadas incultiváveis, quando armo mãos e braços improváveis, quando atravesso rios de águas que não são para beber nunca mais, continentes, cabeças de gado que não pode compreender homens que não compreendem como gado. A guerra de fora, sabes, nada é, comparada com esta minha de dentro. Já perdi ambas, bem no sei de sobra. Ainda assim, não soçobro. Que valente herói sou e pareço, que não pereço. Por ti? Não, Aurora. Por mim. A rejeição acaba por voltar o amor contra um si mesmo, como uma pistola de suicida. Assim me despeço, como disparando. Adeus, Aurora. Amo-me.
Valentim, alferes de Artilharia

segunda-feira, dezembro 19, 2005

Tanguinho Valseado para Mentir a Meninas

TANGUINHO VALSEADO PARA MENTIR A MENINAS
mais outras canções de desagravo



para o Zeca Medeiros, Amigo


1. TANGUINHO VALSEADO PARA MENTIR A MENINAS

Vê se me tiras de cima
Os quilos do teu coração
Preciso duma aspirina
Pr’àsfixia da paixão

Eu preciso de sossego
Já sou meio secular
Durmo de dia sou morcego
À noite só quero luar

Na rua sou cão vadio
Passo fome passo frio
Minha própria sombra puxo
Vísceras roo corações
Já não lato por salões
Como os teus cães de luxo

Em bairros de fama triste
Fadistei outrora em riste
Navalhagens circunspectas
Hoje reformei viola
Nem bilhar nem carambola
Nem tacadas predilectas

Vê pois se me abandonas
E se me deixas partir
Para mais muito ressonas
Quero morrer quero dormir.


2. SOMBRA

Sombra transparente pasta por mim
Indecente como gente afinal
Animal inclinado que de mim somente
Dormente cai meu lastro letal

Branca de gaze cortina
Sombra minha de menina
Fátua forma fantasmal
Um homem outro no chão
Dormindo o próprio coração
Aos pés tão vivo o animal

Consciência medo existente
Quarto fechado poente
Liga a luz ó meu amor
Eu prometo não ser sombrio
Liga a luz eu tenho frio
Nua sombra sou de vapor


3. CAPITÃO

Trinta vezes sou capaz
Uma vez repetirei
Meia vez serei rapaz
Duas vezes meio rei

E tu só minha rainha
Trinta filhos esponsais
Cem amantes à tardinha
Juro eu que nunca mais

Leitões faisões douram espetos
Sáveis e maracujás
Convidados diplomatas
Grães-vizires e marajás

Capelães e capelistas
Saiotes e espadeirames
Caparão nossas revistas
Pintarão os macadames

Seremos reino dourado
Coutadas sem fim à vista
Sacos de oiro não contado
Capelão e capelista

Os pobres não serão pobres
Antes nobres serão todos
Todos servidos de cobres
Todos com bolos e bodos

Os palafréns arreados
De mortalhas de organdi
E os donzéis mais virginados
Com virgens de lazúli

Será este o nosso amor
Daqui até ser Sião
Deixa-me só por favor
Ser eu o teu capitão.


4. DEIXAMENTO


Deixa-me só por favor
Quando é companhia que quero
Não me acompanhes no perto
Quando é por longe que te espero
A loucura tem matizes
Como as bolas coloridas
Como os olhos e os narizes
Dos palhaços suas vidas
Suas lonas alfarrábias
Suas risadas loucas sábias
Suas tendas estendidas
Deixa-me longe sem favor
Me amar sem ser amor


5. FADO COM SAÍDA À FRANCESA

(Entrada sincera, dizendo

A minha alma é uma criança mal educada pelo vento. Deita-se na erva de barriga para o ar e espera que o sol a alimente de borla. A minha alma não gosta de trabalhar. Canta fados e depois espera que chova só lá fora.

Canta)


Figuras magras de viela mal acesa
Que da pobreza mal retratam o bolor
Barcos sem mar que um dia por tristeza
Fizeram de seu mal um dó menor

Gatos e ratos cascas solas de sapatos
Bacias espinhas peixes divorciados
Polícias penhores loiças facas e retratos
Casas de tias sobrinhos vinhos fados

Não há Lisboa p’ra ninguém
De onde vim mais ninguém vem
Deixei tudo arrumadinho
Agora azeitonas queijo e broa
Não há pátria não há Lisboa
Que haja ao menos um jarro de vinho.

(Saída à francesa, dizendo

O meu corpo vai-se embora um dia e há-de ser de noite, aposto. Dez contra um, mil contra um, contra nada, contra mim. Eu já cantei. Assim seja, que há-de ser assim.)





Daniel Abrunheiro
Tondela, 16 de Dezembro de 2005




quarta-feira, dezembro 14, 2005

Natal Cínico

Natal não é assunto de que me apeteça falar em Dezembro, até porque a quadra começa cada vez mais cedo, Novembro, Outubro, Setembro, qualquer ano havemos de estar na praia em Agosto ou Julho e uma sacana duma avioneta há-de passar com um pai-natal insuflável no rabo a dar às barbas vendilhonas nos céus comerciais.
Natal? Na tal coisa de que falamos, a sociedade anónima empanturra-se de nada que brilha muito, comprando muito o que vale nada. As criancinhas aprendem nos hipers a cobiça consumista, os velhinhos resmungam nos lares a artrite e a artrose, os adultos passeiam nas ruas a falência envergonhada e os ricos musculam nas assembleias a vergonha falida.
Nas lojas honestas, os comerciantes sustentam as moscas antigas com vinagre novo. Nas estátuas novas, floresce já o musgo do esquecimento. Nas cervejarias, as classes envelhecidas das antigas primárias tremoçam e imperializam como reis magos que foram beber e deixaram os camelos lá fora.
Tudo isto é, admito-o sem rebuço, algo cínico. É da minha infância sem catolicismo, explico. Cresci sem mistério. Boa vontade a sério, só a do merceeiro. Paz na terra, só quando a tasca fechava cedo. Amor e tal, só de ouvir dizer. Cinismo é, aliás, uma corrente filosófica grega cuja raiz etimológica é cão. Segundo essa filosofia, o ideal humano seria a imitação do comportamento animal, no que ele tem de puro, de não interesseiro, de genuíno, de vital.
Pensando bem, se o Natal humano fosse mais assumidamente cínico e menos, por assim dizer, natalício, talvez fosse mais cristão. E menos humano. Isto é, menos vendilhão. Ou não. Talvez eu esteja só a ser camelo.

sábado, dezembro 10, 2005

Nacional de Hipérboles Peca por Exagero



Realizou-se na Cova da Piedade, com manifesto gozo da Piedade, o I Nacional de Hipérboles.
O primeiro concorrente era cá de Setúbal e tirou do nariz matéria primata a suficiente para calafetar um petroleiro sueco.
Seguiu-se-lhe uma senhora virgem de Fátima, que foi eliminada por falta de originalidade. E por descúnfia.
Concorreu também um autarca que garantia, sem se rir, ser a favor da limitação de mandatos, além da limitação de felgueiras, valentins e de autarcas a sério. O concorrente chamava-se Miguel Bombarda, calçava sapatilhas brancas e tem sido avistado a cravar cigarros e a beber vermutes nas crónicas de António Lobo Antunes.
Camões concorreu postumamente sob o pseudónimo “Vasco Graça Moura e Pereça”, o transsexual que, sob o heterónimo “Guta”, foi recentemente corrido do CCB por causa dos seus lindos olhos e por ter conseguido casar com a filha de Miguel Torga. Teve má fortuna e aguardente. Não o torne o tempo a dar.
A última concorrente era dupla, na pessoa geminada de um matrimónio siamês de espanhol com holandês mais um cabrão maltês arrecobicho 1-2-3.
De modo que a coisa foi ganha por Teresa Guilherme, secretamente casada com Manuel Luís Goucha, o também apresentadora que assumiu chamar-se doravante (camarada) Manuel Luís Gouchilherme.

sexta-feira, dezembro 09, 2005

Stock

(O que ganho destes dias é a tapeçaria nervosa de referências para memória futura. Passo, aliás, a enumerar antes que me esqueça:)

Os azulejos daquela casa azul onde não vive alguém
O cão solitário que mira as laranjas para ele cinzentas
As vivendas-cogumelos a que acorrem as famílias-musgos
A robustez leitosa da moçoila que freme dedos de farinheira ao lavar de adeuses a janela
A tinta-da-china do pinheiro manso no papel-de-seda da respiração
As notas do piano dentro da cabeça para mais ninguém
O fumo do cigarro em repouso subindo a prumo perfeito antes de enlouquecer
Os automóveis em fila na noite como carneiros heterónimos
O caos arrumadinho da existência em stock

(Para consulta integral do stock, virar tapeçaria do avesso.)



Tondela, Padaria-Pastelaria Rosicar 2, noite de 9 de Dezembro de 2005

Alguns Outros Dias

1. XZ
Coimbra, noite de 5 de Dezembro de 2005



Palpititilações luminosas de município fililampam ao longo do rio e das autovias. Faz um frio que aperta o ar em torno de ferro. Carros piriluzem mínimos. Pobres-de-pedir ombreiam cartões-embalagens de fogões sem fogões dentro. Fitas de strapex pendem dos pobres como suspensórios de duro plástico agrafado aos pobres. Temperatura do ar: xis. Hora: zê. Autocarro carregado de fadistas conduzido à viola por homem de patilhas com caspa – passa no frio escuro da noite como uma árvore de natal deitada a preto-e-branco. Igreja antiga restaurada em centro comercial: bancas de florista, troféus & medalhas, snack, perfumaria, mercearia, chinês, cabeleireira. Ontem, hoje e amanhã. Escola nocturna: entrada e saída de trintões e quarentões em busca do liceu perdido. Gárgula do fontanário, mercado municipal fedendo a peixe e a tripas de couve, elevador dos ceguinhos da lotaria, previdência, cisnes, palmeiras chicoteadas por si mesmas, bancos nocturnos polidos por cus aposentados, avenida inclinada como um copo e uma boca, a praça republicana, o jardim lúgubre onde a pederastia coxeia o sexo abútreo e tristonho de um desejo por rotina. Paragem para uma chávena escaldada no café com nome grego, escadarias já antigas que abrem para o absurdo, absurdo não sei porquê, a evidência aí está. Globos cor-de-laranja haloados de pó de chuva, farfalhados pela ramaria das árvores mais circunspecta do mundo, passos teqteqteqteq na calçada, um pouco de fadiga muscular. Decidir-me pela direita, curvando depois à esquerda descendente como o comboio da canção, desembocando na garagem do sapateiro, depois na garagem do fruteiro, no papa curto, no S. Sebastião aliviado de flechas, sentindo já a paraplegia académica de la tradition, os volumétricos colhões d’el-rey D. Dinis, o território dizimado da antiga Alta. Nasceu por aqui muita gente, de X a Z.

2. O que É
Coimbra, noite de 5 de Dezembro de 2005

É o meu mundo.
Vou querendo outros.
Enquanto assim, menos mal.

3. Diagrama
Coimbra, noite de 5 de Dezembro de 2005

Extrema delicadeza no desenho
feito pelos pássaros no ar.
O mesmo a dizer das árvores,
com menos acção embora.
Os homens que trabalham na estrada
formigam de crude e máquinas.
Também desenham, por grosso
e atacado. Reservam forças para a
noite, para as mulheres, para
outros homens.
Tudo isto visto do cimo, dá um
diagrama mais do que apenas
humano. A arvorestação, o
picotado da passaragem, a
linha hominiviária.
É um diagrama, isso sim, muito
delicado: é um diagrama
extremo.

4. Conta
Coimbra, noite de 5 de Dezembro de 2005


Estamos por nossa conta
no espaço sideral
aberto ao infinito
além da escotilha do avião.
Inumeráveis nuvens-ovelhas
róseas-argênteas da eterna alba-noite.
Não é já a vida.
Não é a morte ainda.
É apenas a nossa conta.

5. O Leal Jardineiro
(para John Le Carré)


Tondela, 6 de Dezembro de 2005


Pode a tarde ser deserta,
Ser sombria e invernosa.
Tens a escrita pulsaberta:
Refulge e explode, feita rosa.

6. Relatório
Tondela, 7 de Dezembro de 2005

(Escrevo à noite, dedicatório, votivo.)
Perfumado ainda dos pinhais de ontem.
Visão perfuratória dos animais.
Cabelo contado.
Pele esfregada a sabão.
Frio concreto como cimento líquido.
Árvores mais densas.
Senhoras velhas mais velhas.
Roda dos dias amaciada pelo
deitar-cedo-cedo-erguer.
Inflamação no olho esquerdo
resolvida ao espelho, como
tudo.
Detroit continua a dois e 20,
por enquanto.
BT prepara Operação Natal&AnoNovo.
Alguma música (pouca) nos
interstícios das horas.
A paciência feita saber.
A amizade tida por certa
e a regularidade da caligrafia.

7. Saudades à Prima
Tondela, 7 de Dezembro de 2005

Cercada pela geometria implacável da vilacidade, a floresta primeva resiste, implacável também e mais ainda até. Sobreviverá aos incendiários, mais que ela combustíveis, e ao cimento. Tem a pedra do lado dela. O tijolo escaqueira-se como os ossos. O mar voltará a estas areias montanhosas e escuras. Sinto-o com nitidez, a milénios de distância (para trás, para a frente) o sinto. Nem me preocupa a eventualidade de ter razão. Estaremos, então (para a frente, para trás), devidamente disseminados pelas fluências combativas: o mar de nuvens-medusas, o horizonte de árvores-barbatanas, os ranchos de peixes falantes, as desaldeias de casas submarinas.
Calma: todas as saudades terão sido mortas.

8. Palavras Encruzilhadas
Tondela, 7 de Dezembro de 2005

O homem-silhueta parado-a na encruzilhada.
Vai-se embora o homem.
Fica a silhueta.
Nasce o Sol, o homem volta.
A Lua leva-a.

9. A Criação Húmida
Tondela, 7 de Dezembro de 2005

O homem molha a mulher
que absorve a hum(na)idade
do homem que buscou na mulher
a morte temporária do
orgabismo
e a encontrou.
Olhada
molhada
a mulher
que ama na cama
a carne de lama
do homem que quer
sente a trepadura
adentro de ela
da nova criatura
o novo homem-ele
a nova mulher-ela
que do abismorganiza
a trepadela.

10. Ração
Tondela, 7 de Dezembro de 2005


Por uma questão de economia emocional,
racionar a dor em porções de alegria.
E ir ao talho como à peixaria.

11. Teias
Tondela, 7 de Dezembro de 2005

No tálamo, enrodilhar
os olhos nas teias de várias
aranhas: os amores secos
como moscas.

12. Estação de Ferrovida
Tondela, 7 de Dezembro de 2005

Enquanto não é tempo do comboio
curtir a estação as estações
a primavera das revistas do quiosque
o inverno da cafetaria
o verão das mulheres que esperam de pé
o outono dos pássaros nas linhas de música dos telefones

13. Relógio
Tondela, 8 de Dezembro de 2005



O Sol, muito aberto, não subsidia a leitura, que se quer fechada em si mesma e penetrada, só, dos ventos molhados dos outros dias que rastejam chuvas horizontais sobre pedras negras. Hoje, assim não é. Pelo contrário. É tudo oiro novo. Parece que toda a gente lavou os carros e a cara. Famílias pastelejam com avidez e cafécomleitam-se em manada manhã cedo, rouquejam, grunhas, propinas e impropérios de ralhete alimentício-carnal, com celofanes de folhado farinhento adejando nas beiças lustrais. No fim, semelham gatarrões saciados de nutrição sustentando a sangue mole moscas diagonais nos vértices egípcios das orelhas. Para piorar muito o cenário, é dia feriado. Religioso, ainda por cima: da Senhora da Conceição de uma religião anticoncepcional.
Tenho algumas horas para ser feliz. Neste momento, uma figura chamada Justin Quayle viaja em busca da compreensão do passado. Revisita as acções de sua defunta esposa Tessa. Vou na página 192. Se chovesse, leria decerto mais depressa. Mas tudo tem o seu tempo. Hoje, o tempo é marcado, e aberto, pelo relógio do sol.

14. Ela-Leão
Tondela, 8 de Dezembro de 2005


Cabeleira de um fogo ensanguentado. Sardas no rosto de um desenho forte. Olhos preocupados com a savana interior. No exterior, roupa negra: seda e couro. Argolas de prata sinalizam a audição, dentes rijos marcam a natureza e a função predatória do animal. Recebe uma amiga com uma imitação de sorriso-delta. Agradece ao empregado o gesto de abaixar o estore. O sol incendiava-lhe, mais ainda, o sangue da cabeça poderosa: leão em chamas. Não leoa mas leão, dada a juba.




quarta-feira, dezembro 07, 2005

O Cedro e a Lua - XV - 18 de Novembro de 2005 - Alta

HSC, 18 de Novembro de 2005, 6ª feira, 8h09

Derradeira manhã inicial. Despertar às rigorosas 7h00. Banho. Nada para comer na gaveta da cabeceira. Vestir. Descer, ir às laranjas. Colhi uma mão-cheia para consumo da casa. Não muito doces, mas totalmente frias e totalmente de oiro. A boca agro-agradecida. Um começo vitamínico. A malta vai surgindo no terraço. Dois jogam matraquilhos na sala-de-convívio. Ab., de boné verde e excelente disposição, demonstra um sentido de humor que me encanta sem reservas. Conversa de matinadores.

Mesma manhã, 8h53

Ontem à tarde, acabei a Mocidade do Conrad. E à noite, a magnífica 2ª Série dos Textos de Guerrilha do magnífico Pacheco. Impressionante, a demonstração cabal (cf. O Caso do Sonâmbulo Chupista) de como Fernando Namora plagiou Vergílio Ferreira. E como pode tudo isto ter ficado em águas-de-bacalhau? Se, via Nuno Moura, vier a conhecer, como espero, o Vítor Silva Tavares da &etc., gostarei de tirar esta porra a limpo. Esta e outras: Luiz Pacheco é um mundo. Na 1ª Série dos Textos de Guerrilha, ele até refere a passagem do Serviço de Alcoologia, em Coimbra, de Celas para o Sobral Cid. Trilhos comuns no desmesurado mundo breve.

Mesma manhã, 9h45

A doutora P. já cá está, cedo veio. S. ainda não chegou. Está uma manhã de santos. Vivi duas semanas e uma manhã sem sinais de trânsito quase, quase sem bulício doloroso. O velho senhor J., que passa a vida a perder dinheiro e objectos, vê-me a escrever.
– Isso é um bom entretém para passar o tempo – diz-me.
Escuso de dizer-lhe a minha verdade: “Senhor J., isto é o Tempo.”


FIM
(?)

terça-feira, dezembro 06, 2005

O Cedro e a Lua - XIV - 17 de Novembro de 2006

HSC, 17 de Novembro de 2005, 5ª feira, 7h49

Despertar pouco depois das 6h00, justatempo de estar revivo. Um kiwi, uma laranja, um banho forte, extenso, esfregado. Um cigarro fumado com mais dois camaradas no cubículo do lavatório-sanita. Risotas matinais. Cachopices adultas. Mais de uma hora para o pequeno-almoço. Já deu tempo para ler as seis páginas de Uma Viagem quase Trivial, história pachecal inserta na 2ª Série dos Textos de Guerrilha. Agora, uma volta ao ar livre, fino, frio e lavado do novo dia, rasando o cedro titular na manhã escrita.

Mesma manhã, 8h29

Duas voltas higio-respiratórias (mas com tabacório) em torno dos pavilhões 3, 2, 1. Primeiro, só com CMS. Depois, também com FP e JH. Na volta, comentamos a boa qualidade da terra para ervilhal na quinta de Terapia Ocupacional. E CMS dá-nos noção de poda de árvores. Não deixar medrar de mais, mantendo a folhagem. Recorre a palavras como “canoco” e “olhos”: palavras vegetais de uma ciência tão antiga. Ouço calado, vendo como salta, recolhe um “braço” frágil e o “limpa”. Gente da verdade das palavrárvores: gente de verdade, gente de palavra.

Mesma manhã, 10h59

A partir de segunda-feira recente, a mudança de certa pastilha tem-me dado uma seren(al)idade diferente: mais laxa/lassa, sobretudo no termo matutino, uma pax química desfrutadora de arborescências e oxigenações. Bons despertares, bons duches, bons pequenos-almoços. Mas, também, leitura mais vagarosa e mais lerda dos escritos alheios (Pacheco e Conrad, de momento). Não muitos cigarros. O café, em copos de plástico, muito apreciado, em aroma, calor e doce, na língua e no palato e na respiração. A caligrafia, ela-também, um tanto incipiente, escolar, pueril. Muita decisão necessária para um passeio ao ar livre, a escolha de má poltrona de napa na sala-de-convívio, a aceitação ou a declinação de um convite para um par de partidas de matraquilhos ou sueca. Erotismo, nenhum. Nenhum pendor recordatório-onanístico. Nenhuma epifania de pensão: nenhuma micção científica, portanto.

Tarde de 17, 14h10



Mulher oriental em renque de árvores:
japonesálea.
Homem de blusão amarelo: um português impermeável
de sapatilhas brancas.
Visões no regresso pós-prandial da cafetaria.
Sossego solar.
Digestão farmacológica e de bacalhau.
Calma.
Pés quentes, forrados a lã e cabedal.
Mulher passando na estrada (quinze
metros, ombro direito da visão), casaquinho
de lã cor-de-tijolo. Também
portuguesa: de óculos.




Mesma tarde, 16h20

Alta – amanhã de manhã. Consulta com a minha médica e a minha assistente social. Tudo encarreirado. S. amanhã, também, na consulta de saída. Boa notícia. Não beber. Viver. Escreviver.


Noite de 17, 18h17

A degradação continua. Nos termos do Hospital, a instituição não se responsabiliza por empréstimos, dívidas, negócios estabelecidos entre os doentes. Louco por tabaco, o deprimente/depressivo/deprimido/divorciado/doente/decadente/CMM acaba de vender o (bom) casaco por dez euros e um maço de Detroit a HM. Já está lá fora a fumar o primeiro dos 20 cigarros. Veio logo dizer-me que “quando receber os dez euros do casaco” (isto é, vendeu fiado), me paga o que lhe emprestadei. Disse-lhe que esquecesse. Vou-me embora amanhã. Isto entristece. JH usa a pulseira de prata ex-CMM. HM deve os dez euros a CMM, além de dois que pediu emprestados hoje à tarde a CMS para comprar um maço de tabaco (o mesmo com que “sinalizou” a aquisição do casaco a CMM). Hospital/hospício/presídio: alma, mala (em castelhano, ), lama (em português).

Mesma noite, 21h33

Antes do meu derradeiro chá-bolachas (a que aqui se chama “ceia”) deste internamento. Sessão vitoriosa de sueca. Eu e HM despachámos, primeiro, JH e CMS, depois FP e RC: parciais de 5-2 e 5-1, respectivamente. CMM, afinal, fica mais tempo. Falou com a assistente social. Vai ter visitas de família (talvez até do filho e da ex-mulher) na 2ª feira. Espero que lhe tragam roupa lavada e dinheiro. Por dignidade, que não por esmola. Quanto a mim, volto à civilização da barbárie. “Barbárie” começa, naturalmente, por “bar”: cuidado com o cão. Com o “alcãoól”. Raios partam o coparete. Desenvolver, quanto antes, a história de Camilo Ardenas. Estudar muito, ler muitíssimo. Dar explicações a xis euros à hora (falar com o Fernando Nabais a propósito): possibilidade. Ler Lowry, Beckett, Faulkner, Pinter, Platão, Sófocles. Tudo isto é tão fácil, que basta estar vivo e sóbrio. Só brio.

segunda-feira, dezembro 05, 2005

O Cedro e a Lua - XIII - 16 de Novembro de 2005

HSC, 16 de Novembro de 2005, 4ª feira, 8h27

O clarim do despertar foi às 6h40: JH e FP já conversavam. Juntei-me à conversa, fomos às abluções. HM deixou-se ficar mais um pouco: a gripe deixou-me para o tomar a ele. A banana do jantar serviu de desjejum. Expedição às laranjas com CMS: um êxito retumbante. Em fura-regras, fomos à cafetaria dos doentes para um primeiro café clandestino. Lixámo-nos, eram só 8h00 e o tasco só abria meia hora depois. Regressámos para partilhar as laranjas. No caminho, vi no chão uma borboleta mínima e de perfeita simetria branco-prata. Consultei os pratos da gata: limpos, depois dela, pelos canitos da madrugada. Cena triste: CMM anda a perguntar a cada um dos outros “como é que pode ser amigo”. E tentou vender a pulseira de prata (de prata como a borboleta do chão) a Ab. por dois euros. Desesperado por tabaco. Dei-lhe um cigarro. Mas é um sem-fim: privado de cigarros, só pensa em cigarros. Vou dizer-lhe que fale com a assistente social para que o que lhe resta de família lhe envie algum dinheiro. Disse-lhe agora mesmo. Suspendi a escrita e fui dizer-lho. Respondeu-me que tentou ligar ontem para casa e não conseguiu. Ab. não aceitou o negócio da pulseira. Emprestadei-lhe dois euros e vinte cêntimos para um maço de Detroit, novidade no mercado.

Mesma manhã, 10h44

Não sei quanta, nem que qualidade de, verdade há na história, mas conto-a na mesma começando por – Parece que o Carlitos, do Pavilhão 2 (Crónicos Vitalícios), viu os pais morrer num acidente. Daí que hoje ainda, tantas décadas depois, diga “…’nha Mãe, ‘nha Mãe!...”. Não sei. Dou-lhe açúcar, laranjas, compro-lhe bolos (os maiores do expositor da cafetaria), limpo-lhe a boca e o queixo e componho-lhe as calças e o casaco. É o posso fazer de maternal.

Tarde de 16, 14h19

Entre as 11h30 e as 12h30, Terapia Ocupacional no piso superior do Pavilhão 3. Comovida, a terapeuta informou-nos de que as sessões vão acabar, pelo menos ali, por “decisão superior de serviço”. A tarefa da sessão era uma folha branca dividida em seis: Solidão, Felicidade, Medo, Sabedoria, Velhice, Amor. Tínhamos de desenhar simbolicamente os conceitos. Houve resultados lacrimosos, pensativos, humanos, decisivos, irrisórios, inapressáveis, inapreçáveis. E solitários, felizes, medrosos, sabedores, velhos e amorosos. Agora, acabam. Depois, continuam. Noutra sala, noutras vidas, noutros alcoolismos.

Noite de 16, 18h32

Cena chata: por volta das 16h00, eu e CMS (que agora à noite me apresentou os filhos em visita) fomos, à revelia do regulamento, tomar café e comprar cigarros à cafetaria. Azar: ele teve uma visita não prevista duma assistente social da zona de residência, que perguntou por ele, que não estava, que chegou à psiquiatra, que telefonou para a cafetaria, que respondeu termos lá estado. Resultado: ambos, um de cada vez, pedimos desculpa aos enfermeiros de turno, que levaram piçada da médica-chefe. Ainda por cima, sem culpa nenhuma dos enfermeiros, posto não ter sido no turno deles que a nossa infantilidade foi praticada. Outra coisa (bem mais) degradante: apesar de ter comprado cigarros com o dinheiro que lhe emprestadei, CMM continua a tentar vender a pulseira de prata. Acho que JH vai aproveitar a pechincha. CMM quer “dois euros e um maço de tabaco” por ela. JH só quer dar os dois euros. CMM diz que me paga os dois euros e vinte cêntimos “sábado ou domingo”. Vai-se embora, diz ele, por ter falado com a médica. Mais do que alcoolismo, o problema é a longa depressão decorrente da separação/divórcio. Ele não queria, a ex-mulher não queria outra coisa. Ele quer voltar ao trabalho. É carpinteiro de cofragens na construção civil, não ganha mal. “Ganhas para o tabaco”, penso eu. Diz que não pensa tanto nas coisas más, trabalhando. Tem razão, claro. Vou ver do negócio. Degradante, degratriste negócio de prata de borboleta deprimida.

Mesma noite, trinta segundos depois

Negócio feito: por dois euros e um cigarro. JH declara:

– Ó Daniel, eu já cá ando há muito tempo! A pulseira é para a minha mulher.

E pronto. Afivela-a ao próprio pulso, em guarda de fiel depositário. Mankind must goes on, como dizem os de Setúbal.

Mesma noite, 19h30

A felicidade não resiste à análise.
O inverso é igualmente verdadeiro.
(Ou talvez ambos os raciocínios sejam da medicação.)

Mesma noite, 20h16


O Cedro e a Lua

O Cedro na noite.
No topo do Cedro, a Lua.
A Lua no topo do Cedro como
um pensamento de
banda desenhada.
Desenho o pensamento:
um homem-silhueta,
num terraço de alcoologia,
visto de costas.

sábado, dezembro 03, 2005

O Cedro e a Lua - XII - 15 de Novembro de 2005

HSC, 15 de Novembro de 2005, 3ª feira, 10h45

Falo com Ab., de perto do Senhor da Serra, Coimbra. Ao sol, no terraço, sob os chapéus de pano azul seguro por varetas brancas. Diz-me ter, como eu, duas filhas. Uma de 25, outra de 13. Diz mais. Tirou o filho mais velho de uma fossa, morto por intoxicação/afogamento. Outro filho nasceu-lhe morto. Estas pessoas, estas vidas, estas mortes, estas histórias, estes terraços ao sol, estas eternidades.

Tarde de 15, 13h56

Entre as 11h30 e as 12h30, uma sessão de Terapia Ocupacional. Representar “A Minha Família” através de recortes de revistas colados numa folha de papel. Pus velhos (Os Mais Velhos da Família), política e futebol (Aquilo de que se Fala). Não representei as minhas filhas. Depois, fiquei a olhar para a folha.

Mesma tarde, 15h49

Visita retemperadora de S.: solidariedade vital. Até que enfim.

Mesma tarde, 16h41

Discussão grossa. Vozearia no terraço a propósito do mais precioso e apreciado bem material de qualquer internamento (voluntário ou compulsivo, hospitalar ou prisional): o tabaco. CMM não tem dinheiro. Portanto, pede cigarros a toda a gente. Quase toda a gente lhos nega. CMS ralha com ele. Chama-lhe “chulo” à frente de toda a gente. Acusa-o de “explorar” o velho J., de ter tentado roubar um maço da mesinha-de-cabeceira de P.. Cena chata e constrangedora. O réu encolhe-se, a depressão que aqui o trouxe deve estar a aumentar graus e graus centígrados, o silêncio incrimina-o à vista armada. O acusador, impante de razão, tosse justiça. E puxa de um cigarro.

Princípio da noite de 15, 18h24

Na última incursão do dia à cafetaria dos doentes, aprendo o nome de duas árvores: carvalho-indiano e pimenta-do-reino. O HSC é, também, um Jardim Botânico. Mercê benigna, vá lá, do salazarento Bissaya, a folha do carvalho-indiano entontece de tão bela. À luz solar, enrubesce como uma deliciosa obscenidade geométrica. É de uma cor mais virtual que deste mundo. Ganhei absolutamente o dia, reconhecendo-lhe a cor e, graças ao enfermeiro V., conhecendo-lhe o nome.

Um minuto depois

Combinações secretas do Comité Secreto Para a Alimentação da Gata Benfica Contra a Ordem dos Enfermeiros (CSPAGBCOE): cortar uma garrafa de plástico de litro e meio de modo a obter um copo (que esconderei no meu saco de livros e cadernos) em que lhe levar os restos do jantar. Ontem, resultou em papel de guardanapo. Mas hoje, ao almoço, precipitei-me e fui detectado pela enfermeira, que topou a posta de raia embrulhada. A enfermeira, simpática, contemporizou e deixou andar. Eu e CMS presidimos, vogalizamos, fiscalizamos e assembleamos o CSPAGBCOE.

Mesma noite, 19h50

Operação CSPAGBCOE coroada de êxito: uma pratada de arroz de galinha para a gatosa. A comida foi acondicionada a preceito, o animal comeu até as orelhas lhe mudarem de sítio. Passei-lhe a mão pelo espinhaço. Ronronou como um cobertor lavado, mais que linda. Vejo-a agora: trepou para o balcão do terraço, recortando a silhueta farta e formosa e felina contra a matéria álgida e agra e argêntea da Lua Cheia. “Uma tremenda solidão animal”, sinto (e escrevo), sem bem precisar a que(m) me refiro. Só como um homem louco, desses que por aí vejo, como aquele que cospe – e o cuspo sai-lhe da boca em esparadrapo, grumando-se em trapézio à queixada. Mas só a solidão é afim da gata com o homem louco. Ela é muito limpa, muito lúcida, toda de inteligentes bigodes que vêem no escuro, de assassinas patinhas de feltro corr(o)edoras do silêncio da noite, da Lua. Belo bicho.

Mesma noite, 21h13

A Assembleiólica assiste ao futeboólatra: até ao momento, Irlanda do Norte, 0 – Portugal, 1. No intervalo da partida, cigarradas no terraço e combinação de surtida matinal às laranjas: CMS et moi. Tudo pela vitamina C, pela aventura, pelo retorno à infância cleptofrutívora. Daqui a umas horas. Entre estas linhas e as laranjas, o futuro de uma noite mais. Golo da Irlanda do Norte.

sexta-feira, dezembro 02, 2005

O Cedro e a Lua - XI - 14 de Novembro de 2005







HSC, 14 de Novembro de 2005, 2ª feira, 9h04

Estado gripal incómodo. Começou ontem, domingo, no Botulho, em casa. Saudades da gata de lá, a Agostinha, e da Benfica de cá. Um dos enfermeiros quer acabar com a vizinhança do animal. Comi uma maçã e uma laranja, a ver se vitamino a gripose. Trouxe mais material para ler. À espera de uma resposta da Suzana Ramos, da Dinalivro, para trabalho de revisão do livro técnico (cuja tarefa não terminei, entretanto, mea culpa). Porra p’rà gripe. O pequeno-almoço ainda não está servido. Tempo húmido, mas não especialmente frio. A gripe é uma coisa melancolizadora.

Mesma manhã, 10h33

Nada de outro mundo, tudo deste – um pouco de febre. De tarde, o Artistonitólogo vai falar com a doutora. Hoje, às 7h30 foi a recolha de sangue em jejum para análise. Só depois a ingestão da maçã. Ao contrário, portanto, do Velho Testamento, livro em que a Maçã antecedeu o Sangue e a Análise. Uma imbecil mulher no imbecil programa televisivo da manhã: “Um sorriso de criança é um acto de amor”. Patati patatá. Ervilha-frita-batata-bonita. Não é que seja mentira. É só tão exausto, tão banal, trivial, lateiro, cristóide, evanjófilo, o-raio-que-os-parta. Impaciência – outro fruto do estado gripal, enfim.

Mesma manhã, 11h37

Conversa na sala-de-convívio com FP, da Mealhada. Já aqui esteve antes. Primeiro, como toxi: andou fumando pó hípico. Agora, repete a estadia na qualidade de orni. Uma filha de sete anos. Ele, 33.
– A ver se recupero o equilíbrio – professa. – E se mantenho o lugar de chefe de linha de montagem – segura.
FP trabalha com homens e com vidro: tudo coisas frágeis (“ESTE LADO PARA CIMA”). “Exactamente como a vida que levamos/nos leva”, concluo eu sem falar alto e armado em filósofo. Ou em parvo, o que dá no mesmo.

Tarde de 14, 15h35

Visões Gripais

Uma japonesa entre pinheiros mansos.
Uma japonesa mansa entre cedros.
Um louco só a vida toda louco a vida toda só.
Um guincho picotado de telefone a tocar no corredor de todas as esperas.
A gripe sem vírgulas.
Recordação de uma nascente aos pés de uma montanha com um castelo na cabeça a montanha.
Caligrafia mental busca e trova papel próprio.
Tinta roxa tinta verde.
Papel no nariz água de ranho.
Ouvidos de aterragem de avião.
Estacionados carros vermelhos vivos à espera de homens e mulheres directores de condução.
A condução humana.
A humanidão serva no navio da naifa.
Loucura controladora de palavras.
Controle de palavras loucas sós a vida toda só loucas todas a vida.
A japonesa-beleza-do-líbano-cedrina.
Não poder aromar-se por causa do entupimento das árvores.
Quartos-de-hora quartos-de-lua quartos-de-pensão terço-amor meia-foda zero-futuro.
O Gripartistonitólogo gripa-se pira-se.
Tintarroxa verdetinta página 28 do manusgripto.




Noite de 14, 18h14

O vírus faz do corpo um colchão-de-água com molas de ossos. A luz do dia, os esparsos cachorros mendigos de comida hospitalar, os pássaros rápidos, o medronheiro que excresce rubis rugosos – a realidade é sentida difusamente por causa do (ou “derivadó”) cabrão do vírus.

Mesma noite, 18h29

Saindo-se a sala-de-convívio, abrem-se o terraço, o jardim (sem flores, só relva circuncisada de passeios de pedra) e uma das ruas deste labirinto mental. A esta hora já invernosa, a noite instalou já, como se para sempre, um circo de estrelas. A visão do balcão do terraço é límpida, muito pura e quase triste sem remédio(s): recorda-me (sem ser por artifício de recordação pictórico-literária, juro), O Império das Luzes, tela do grandinorme artista René Magritte. Os candeeiros, semiocultos pela folhagem, dão à luz a ilusão de frios frutos. As árvores, negras de contraste, humanizam o espectador siderado pela evidência da finitude infinita de pensar sentido (como o Outro, de outro modo). E no céu, chumbado de frígidos cúmulos, a Lua lu(t)a por mostrar-se inteira. Recolho à sala-de-convívio, por esta hora plena de adormecidos gasalhados de lã, passo ao refeitório, onde, escritor de silêncio, me sinto e sento só. Pois muito bem.

Mesma noite, 20h56

Combati a chata da gripe com mais uma laranja roubada a uma das árvores do Hospital. Colhida de noite e da parte baixa da laranjeira, apareceu-me na mão toda verde por fora. Mas, descascada e comida, revelou um coração tão citrino como generoso. Arrefecida do relento, acidula-me agora no porão gástrico de mui prazenteiro modo. Guardei para a matina próxima o kiwi da sobremesa do jantar. O meu irmão Zé Daniel bem me ensinou como combater as griposes: “Avinha-te, abifa-te e abafa-te.” Avinhar-me, não no posso. Mas abifei-me, por assim dizer, com uma bela posta de peixe grelhado e uma hidrocarbono-lambada de puré cremoso de batata mais pão. E, indo para a cama, dormirei duplamente pijamado e de meias, de modo a suar o febrão no curso e no corso da noite. Enquanto não, sigo na leitura dos Textos de Guerrilha (2ª Série) do enormigrande Luiz Pacheco e de uma novela de Joseph Conrad, Mocidade. Poderia ser pior, convenhamos. E eu convenho, que remédio.

quarta-feira, novembro 30, 2005

O Cedro e a Lua - X - 12 de Novembro de 2005

Tondela, 12 de Novembro de 2005, sábado, 9h45

Isto é sábado, isto é Tondela. Fim-de-semana (merecido) do heroicoólico. Sober among sobers. Compra de jornais (Público, El Pais) do dia. Leitura dos Textos de Guerrilha do Pacheco, que mos emprestou meu irmão Zé Daniel. Agora estão, os livros, a fotocopiar na Enseada (Papelaria & Decoração, Lda.), em pleno coração comercial da vilacidadedeTondela. S. foi trabalhar cedo a Viseu (8h00). Zuca e Johnny lá em casa a dormir. Dosagem medicamentosa tomada a horas e a preceito. Café-com-leite-pão-com-manteiga. Não chove, o nevoeiro dissipa-se no ar fino e fresco. Novembro, enfim. Este marcador de tinta douroverde é novo em folha (pautada). Comprei-o, com os jornais e mais lápis e afiadeiras, na mesma Enseada. Delícias de sábado matinal: jornais, café com leite, artigos de papelaria. A vida suspende, por vezes, a guilhotina. E aceita ser adoçada de meia saqueta de açúcar, lentamente acolherada, sorvida sem ruído lábio-associal. Na Loja do Chinês, comprei um gorro e um par de luvas. Tudo de lã, tudo de preta cor. Conforto tépido. Raios partam a comodidade, isto é, a sobriedade, que não rende versalhada tragicómica alguma de jeito. Pausa, enfim. Isté Tondela, faz sábado.

Mesma manhã, 11h13

Encontro e conversa com um casal amigo na Doce Pérola. Falei/falámos sobre alcoolismo. O meu e o dos outros. Amigos de verdade. Andavam preocupados. Folgaram por me saber em bolandas de tratamento. Um encontro consolador, um diálogo retemperador. E, ainda por cima, é sábado! (Tenho o Mil Folhas do Público e o Babelia do El Pais para encetar. Para já, que se lixe o secót’che e o áiríche!)

terça-feira, novembro 29, 2005

O Cedro e a Lua - IX - 11 de Novembro de 2005

HSC, 11 de Novembro de 2005, 6ª feira, 7h21

Dia de S. Martinho, parece. Despertei sem retorno às 5h50. Tudo bem. O dia anunciou-se no estore que a auxiliar se esqueceu de fechar à chave. Puxei-o: era o dia novo, eram os primeiros pássaros. As janelas trancadas que guardam a camarata aquecida não impediram a visão do vento penteando os cedros, as tangerineiras, os mansos pinheiros do hospital dos louc’omens. Espero agora a abertura da porta para descer à rua, onde passearei, veja-se, uma espécie de alegria.

Mesma manhã, 10h24

Uma espécie de alegria, pois por que não, sim? Ouvi música pelo discman, passeei todo aeróbico em roda quadrilátera dos pavilhões 1, 2, 3. Fumei um eficiente par de cigarros. O desjejum fora uma banana e a polpa de uma maçã. Dois copos de água valentes. Limpeza, desinfecção, desinfestação: sou um novo homem velho. Luto com a memória, ajudado pela experiência e pela paroxetina. O CMS e o CMM (também do internamento februário, regressou à base) estão comigo ao sol no terraço. Como se fora, ainda ou já, Fevereiro. Como se fôramos nossos mesmos filhos. O futuro de então era então isto. Mas quê? Tenho livros para ler (mais Luiz Pacheco – Textos de Guerrilha, 1ª e 2ª Séries – e mais muito outro autor). Que se trame a tram(p)a e enrede a rede. A vida segue.

Mesma manhã, 11h40

Chama-se, como a minha filhinha mais nova, T. Tem 40 anos e uma menina de dez. Anda há anos tentando descartar-se das malhas da heroa e da coca fumadas. Tem olhos emoldurados de ovos tristes, de pesadumbre tóxico. Não faz pena: faz só pen(s)ar. E este “só” é tanto.

segunda-feira, novembro 28, 2005

O Cedro e a Lua - VIII - 10 de Novembro de 2005

HSC, 10 de Novembro de 2005, 5ª feira, 6h10

Em vão desejei que os maus sonhos me não impedissem a segura navegação do sono. Ainda não são seis e meia da madrugada e já estou de olho vivo. Sonhei que me roubavam na Madeira durante um jogo entre o Nacional e o Braga. O Nacional ganhava 1-0 e eu perdia a paciência com um gajo e uma gaja que insistiam em me vasculhar a mochila à cata de bens revendáveis para a droga. Depois, S. estampava-se de carro contra o dinheiro que ia custar arranjá-lo (ao carro e ao dinheiro). Eis-me agora, pois, a esta hora lamentável, sentado na sanita para ter luz de escrita. Comi meia maçã no escuro, ouvi um trecho de sinfonia. Venha um cigarro e que Deus me dê lume sem me queimar de todo. (E já que estou assim sentado, adianto o outro serviço matinal. Raios partam os pesadilhos noctcórneos!)

Mesma manhã, 7h31

Não alinho na expressão – “Se eu soubesse o que sei hoje…”. Porque, se eu soubesse, então, o que sei hoje, que piada teria tido a vida tida entretanto então? Nenhuma. A mesma piada alguma que teria já saber hoje o que me falta saber amanhã ainda. Isto é, aprender. Aprender a viver, por exemplo.

Mesma manhã, 8h01

O Artistonitólogo acaba de dar um pão a um canito dos que cirandam pelo Hospital. E uma dose de manteiga à gata Benfica. Cão e gata sabem viver. Também eles. Sobretudo eles.

Mesma manhã, 8h25

ZA, invalidado por longos abus’anos de álcaro, amanhece no chão de madeira da enfermaria dupla reservada aos incapacitados de autolocomoção. Caiu da cama. Está enregelado. Por roupa única, a fralda descartável: parece um cristo mijado e frígido. Ajudo a levantá-lo do chão com o jovem HM. Pomo-lo na cama: bebé tóxico, cinquentão.

Fim da manhã, 11h44

PB, da Figueira da Foz. Toxinitólogo. Estoirou milhares de notas, próprias e do pai. Relacionou-se seis anos com “um amor que lhe chegou de Lisboa com a escola da droga toda”. Perderam a vida de um bebé de quatro meses. Heroína e coca defumadas como chouriços brancos. Miséria. Vontade de renascer, porém. O amor (ela) pisgou-se. Ouço a conversa entre P e J, ambos toxis. Ambos vivos.

Tarde, 14h39


(para Cesário Verde)



Ó poeta formoso ó dos formosos poemas
Luz do estrelado azeite leite do gás dos sistemas
Como raros raro foste luminoso alveolar
Língua nossa tua toda impossível de imitar.



Mesma tarde, 15h00

Com o retomado camarada de fevereiro passado, o CMS, conversas moles de lagartos solarengos. Eu, na esperança (dúbia) de poder passar o fim-de-semana em casa (Botulho, Tondela). A ver. A viver. A escreviver.

domingo, novembro 27, 2005

O Cedro e a Lua - VII - 9 de Novembro de 2005

HSC, 9 de Novembro de 2005, 4ª feira, 8h38

Névoa densa e respiração fresca na manhã nova. Uma volta oxigiénica à volta do Pavilhão, abrindo e fechando as mãos, imprimindo bem os passos-sapatilhas, respirando fundo e bem. Uma tangerina e uma castanha. Um copo de água e um belo cigarro. AG vai-se hoje embora. AP foi ontem. Ontem, o Artistonitólogo fechou o serão cultural em beleza: depois do O’Neill, três temas de Charlie Parker & Companheiros (Gillespie, Smith, Coleman, Lester e Outros) na rodela do cêdê portátil + um soneto em puros decassílabos do grande Cesário Verde. Depois, cama. Agora, pronto para a quarta-feira.

Mesma manhã, 11h01

Altercação de dois doidinhos na cafetaria dos doentes, primeiro, e depois cá fora, por causa da (des)ordem na bicha para o café:
– Armados em enfermeiros ou a merda, querem ser atendidos primeiros qu’os outros.
– Chiu!
– Chiu?! ‘tou aqui ‘tou a usar as mãos!...
– Só se for p’ra me tocares ó bicho…
– Corto-te às postas, pá, ‘inda te corto mazé às postas!...
– Vai à cona à tua mãe…
– Isso era o qu’eu queria!
– Tens o cu maior q’a cabeça.
– Olha p’às costas, pá, não t’esqueças d’andar a olhar p’às costas…
– Mando-te mazé uma cabeçada na boca que ficas a cagar dentes uma semana e um dia.
– ‘tou aqui ‘tou a usar as mãos!...
– Queres levar agora ou daqui a bocado?
– Pode ser daqui a bocado.

Tarde, 14h25

À hora de almoço, visita rápida do meu irmão Fernando. Trouxe-me fraternidade, esta esferográfica-marcador de cor roxa-gel e dois livros. Um deles é o mais recente de Saramago, As Intermitências da Morte. O outro, de um autor cubano cujo nome está lá em cima no cacifo. Gostei da visita. Também, deve ser porque gosto do meu irmão. Agora, sol da tarde e mais Cesário Verde. Viva Cesário! Obrigado, Fernando.

Mesma tarde, 16h23

A má notícia que às vezes sou, torna-se pior com notícias como a de má hora que há minutos me chegou pelo amigo João Portulez, primeiro, e confirmada depois pelos amigos Adelino Mendes e Zé Gaspar – a do suicídio, ontem (ou hoje ainda, não percebi bem), do bom gigante Zé Marques. Sim, o Zé “Miséria” do Louriçal. Enforcou-se, não se sabe (nem interessa, agora) por que má ideia. Era grande na tamanhura e no coração. Matou-se, morreu. E eu que, há linhas-dias acima, escrevera “Viva a vida!”. Às vezes, não viva nada. Não, de todo. O funeral é amanhã.

Noite, 20h20

Ao fim da tarde, regressando de um copo de café na cafetaria dos doentes, reencontro com CMS, um camarada do primeiro internamento do Artista. É de Barcouço. S. trouxe-me Debaixo do Vulcão, do defuntalcoólico Malcolm Lowry (1909-1957). Lembrar, a propósito do grande escritor, o poema que lhe dedicou o também grande e enorme e imenso e gigante – e nosso – Carlos de Oliveira; ver Trabalho Poético. E uma revelação: um dos dois doidinhos altercadores referidos na nota das 11h01 de hoje era eu. Ou ele: o Artistonitólogo.

Mesma noite, 21h23

Não tanto as coisas que fiz nem as que pretendo fazer – contam agora, mormente, as que faço. Por exemplo, neste preciso instante, sim, isto, escrever. Depois, tomar chá e ingerir bolachas – mas no momento dele e delas: chá-momento, momento-bolachas. Depois-então-já: tostar na cama de sono o corpo. Dentro do son(h)o, resistir às imagens más, propiciar a floresta preta de dormir sem papões nem desamores nem raivas (ab)surdas. Fazer (por) isso, mas já. Parece-me um bom presente, até no sentido de oferenda.

sexta-feira, novembro 25, 2005

O Cedro e a Lua - VI - 8 de Novembro de 2005

HSC, 8 de Novembro de 2005, 3ª feira, 7h29

Sonhos insalubres acordaram o Ornitólogartista às 5h14. Levantou-se, derivou para a casa-de-banho e sentou-se sem produção para fumar um cigarro proibido pela gerência. Na volta, conseguiu reconciliar-se com o sono até às 6h40, hora a que se tornou escusado tentar o suborno de Morfeu. O camarada/camarata AP também já acordara. Barbeou-se, duchou-se, comeu uma tangerina, deu lume a RF, terceiro acordado. À hora a que a enfermeira abriu as portas do segundo piso, o cheiro a tabaco fê-la ralhar mansamente e sem remédio. O dia, no jardim, montara entretanto uma tenda fresca: ar-árvores, pipi-pipilar de penosos, o cheiro-brilho da nova luz, da nova batalha de horas, pães, doses de manteiga, cafeteiras pitingas, cigarros, O’Neill.

Mesma manhã, 8h00

Reunião geral dos doentes com outro enfermeiro. Ponto a ponto, homem a homem, falta sabão lá em cima, preciso de uma toalha, queres mudar de pijama para roupa civil, é preciso que as pessoas, sem nomear nomes, se habituem a tomar banho. AP confessa que retomou a sacra-vialcoólica mercê de um “roubo” que lhe fizeram da “morte de um netinho”. Assim dito, sem mais nem broas. A meio da manhã: “um netinho”.

Fim da manhã, 12h09

“Promovido a civil”: uso agora, por cromo-civil paradoxo, calças verde-tropa, sapatilhas pretas, camisola interior cinza, camisola exterior cinza verde. O Carlitos está aqui: dou-lhe um pacote de açúcar (tenho muitos, que guardo das bicas e das primeira e terceira refeições). Depois limpo-lhe a mão, os lábios e o queixo com o toalhete que traz amarrado ao pescoço. O Carlitos:
– Queu’a’nha’mãe…
Um velho mental-crónico que quer a mãe pelo fim da manhã, da vida. Muitos anos. Todos os dias. Açúcar.

Tarde, 14h10

Coincidências do carag’ato: a páginas 520 do O’Neill (Poesias Completas 1951-1986, INCM, 3ª ed. rev. e aum. , reimpressão de março de 1995) também se pressupõe um gato chamado “Benfica”. Mas a nossa do Pavilhão 3 é gata. E benfiquista mesmo.

Noite, 20h07

O’Neill todo lido. Oficiante (mas não oficial nem oficioso) desse republicano (e podre) reino chamado Literatura. Criou boas palavras novas, usou bem boas palavras velhas. Ou antigas. Dele recordarei aqui, em ponto de rebucitação (de rebuçado + citação, para brincar à maneira de Alexandre’le…):

“(…)

que a vida não é outra
senão a que fazemos
(e a vida é uma só
pois jamais voltaremos).

(…)

E que melhor pretexto
(quem o saiba que o diga!)
Teremos p’ra viver
senão a própria vida?”


E pronto: senhoras & senhores, meninos & meninas, voilá Alexandre O’Neill (1924-1986 e uns trocos).

quinta-feira, novembro 24, 2005

O Cedro e a Lua - V - 7 de Novembro de 2005

HSC, 7 de Novembro de 2005, 2ª feira, 8h10

Despertar e erguer às 6h59. Uma banana, um cigarro. Duche quente. Um copo de água, uma tangerina. Dois ou três poemas de O’Neill. Às 8h00, ala para baixo. Alvorada de foguetório de festa numa aldeia à vista. Noticiário na rádio e na têvê: merda sociopopular, e da grossa, em França; o cabrão corrupto(r) nipo-peruano Fujimori detido em Santiago do Chile; pesquisas chinesas para energia fotovoltaica; chuvas ácidas, cidades poluídas; mais um tornado contra USamericanos, desta vez nos estados de Indiana e Kentucky (Deus deve ser terrorista também, há-de “pensar”, por assim dizer, o burro-bush). Sol matino. Algumas nuvens esfarrapadas. A malta à espera do desjejum de café com leite e pão com manteiga. Moi, contentinho de fruta no barrigol. Brincadeiras entre o pagode. O internamento (o tédio) torna pueris homens descriados. Lembram-me a primeira frase que compus em latim, por obra e graça da maestria do meu explicador, o doutor Moura: “In agro pueri arborum fructos legebant.” (“No campo, os rapazes colhiam frutos das árvores.”) Este tem 55 anos, aquele tem 45. Eu, 41. Tudo na brincadeira. Bocas e palmadas. Ternas obscenidades.

Mesma manhã, 10h55

Há quem saia daqui com a promessa de ir a pé a Fátima se o álcool lhes não voltar às unhas e às beiças. Há quem volte aqui. Há de tudo, como na farmácia e nas grandes superfícies do senhor Belmiro Azevedo. Por mim, o Artista só garante limpeza/desinfecção/desinfestação por 2/3 semanas. Depois, a roda-viva (felizmente viva) de um-dia-por-dia, uma-noite-por-noite. Rever as filhinhas, retomar os amigos, o trabalho. Os livros, não é preciso retomá-los: eles vieram comigo, retornarão comigo. E não há-de ser preciso ir a Fátima, esse nome árabe que faz ajoelhar tantos católicos e tantas católicas. O que interessa é a graça deste sol de novembro, branco de ouro branco, nutridor de árvores e suas sombras japonesas. Reconstruo o pensamento, vivo interiormente a vida escrita de Camilo Ardenas. E também a de Luciano Décio Santo, embora menos. Sinto-me feliz por ter, antes de vir para aqui repousar e retemperar-me, entregado à editora do Rui Grácio o livro com a história do senhor Leal Casimiro e com os outros relatos crónicos. Viva a porra da vida, enfim.

Manhã finda, 12h46

O enfermeiro V., em reunião de terapia de grupo, falou da necessidade de perdoar (a)o passado. Tenho, realmente tenho, alguma(s) memória(s) a pacificar. Assim seja. Mas...

From what I can see
Of the people like me
We get better
But we never get well

Paul Simon

Noite de 7, 20h44
Não é uma lição nova
Mas uma instrução
Que se renova
Cada dia se conquista
Manhã cedo noite à vista.


Mesma noite, 21h02

(E com Paul Simon, ainda, em passagem de testemunho cantado para a Leonor e para a Teresa,

I’m gonna watch you shine
Gonna watch you grow
Gonna paint a sign
So you’ll always know
As long as one and one is two
There could never be a father
Who loves his daughter
More than I love you


fica tudo cantad’ito, filhas minhas.)

quarta-feira, novembro 23, 2005

O Cedro e a Lua - IV - 6 de Novembro de 2005

HSC, 6 de Novembro de 2005, domingo, 11h33

Domingo. J. foi-se embora para Matosinhos. Veio o pai buscá-lo. Bom rapaz: deixou moedas e todo o tabaco ao velho G., que passa a vida na crava. Dormiu muito, de novo, o Artistonitólogo. Comeu um pequeno-almoço lauto: cinco casqueiros com três triângulos de queijo e duas doses de manteiga. Duas chávenas de café com leite. Ao despertar, pelas 7h30, não havia água quente. O duche foi frio e bom. Depois do desjejum, o Artista dormitou estendido no sofá da sala da televisão. Depois, lagartou no terraço sob o guarda-sol. Está, de feito, um sol glorioso. Nenhuma brisa. Nem parece novembro. Viver nem parece difícil. Mesmo ao domingo, afinal.

Tarde de 6, 14h59

Uma sensação de corpo sujeito a pousio. Boa sensação. Leitura de Alexandre O’Neill (Poesias Completas 1951-1986, edição da INCM). Cigarros calmos, copos de café fraco mas aromático. Pão, batatas, peixe, carne. À noitinha, chá e bolachas. O melhor de tudo tem sido o descampado do sono: sem sonhos, sem fantasmas, sem batalhas, sem freguesia. O duche frio da manhã foi retemperador. O gabinete de enfermagem já chamou o electricista, que veio já e, com ele, o fluxo forte de água quente. Unhas dos pés e das mãos aparadas com vigor, higiene e geometria. Desodorizante, champô, sabão azulibranco, pasta dentífrica e elixir bucal. E O’Neill. (Dei um pão ao Carlitos, que, por vitalício do Pavilhão 2, tem direito a nome por extenso. E também um pacote de açúcar, que lhe administrei às doses na língua. E dei bacalhau à Benfica, que tem passado a tarde a lamber os bigodes noruegueses.) Falo sobretudo com AG., figura suave e civilizada de homem. É de Águeda, foi dando cabo da vida com vinho branco. Quer recuperar a vida e perder de alcance o branco. Tem sérias hipóteses de o conseguir. O emprego mantém-se, a família também. Trocámos endereços e números telemobilísticos. Trocamos palavras, somos vizinhos de cama: eu sou o H24; ele, o H23.

Noite de 6, 18h09

O domingo subiu alto com o sol. Repete a graça com a Lua a quarto crescente. Céu laminado de estrelas, terra estrelada de aldeias – pontos de luz que é possível coleccionar sem possuir, como aos amores de uma vida.

terça-feira, novembro 22, 2005

O Cedro e a Lua - III - 5 de Novembro de 2005

HSC, 5 de Novembro de 2005, sábado, 8h59

O Artistonitólogo celebra em silêncio-só-conseus-botões uma noite bem dormida – de cabo-a-rabo, de fio-a-pavio. E mais: manhãzinha muito cedo, um céu sem um nuvem e com um sol. Passam hoje nove meses certinhos sobre o primeiro internamento do Ornitartistoólatra neste mesmo Pavilhão 3. Copo vazio, copo cheio. Rei morto, rei ressacado. Daria para ter concebido um bebé novo. Deu para isto – um ano novo tornado velho, um livro escrito e terminado (O Preço da Chuva, a sair nos princípios de 2006, talvez, na editora conimbricense Pé de Página). Daqui a pouco, pequeno-almoço. Depois, um cigarro, uma ida à cafetaria dos doentes (ornitólogos, hipólogos, cocólogos e demais fauna de neurónios escaqueirados). Viva a vida!

Mesmo dia, 13h55

De manhã, no regresso da cafetaria, o enfermeiro P. e o grupo de pijamas conversam sobre “juizinho”: não beber, não drogar, poupar dinheiro, ganhar saúde. Tudo sem grandes moralismos. Tudo em sossego, com o estômago e a boca acalentados pelo copo de café. Às tantas, F. sai-se com esta:
– Um vizinho meu deixou de fumar e começou a pôr num jarro as moedas que gastaria se ainda fumasse. Poupou poupou poupou até que comprou uma casa. Vai daí um dia a casa ardeu. Claro, aquele dinheiro já era p’ra queimar…
Os pijamas, enfermeiro incluído, riem-se. É história forjada, mas dá para a risota. Um dos nossos, menos dados a subtilezas anedóticas, ainda protesta:
– Mas isso é história!
– Claro que é! E depois? – contestamos todos.
E assim arde o Tempo. O enfermeiro P., bom rapaz (22 anos, só) ligou o computador portátil dele ao televisor (que é novo, não já a velharia chuvosa de fevereiro) para que possamos ver um filme em dêvêdê: Samuel L. Jackson, Peter Strauss, Willem Dafoe etc. Uma coisa cheia de (d)efeitos especiais. Assim chegamos ao almoço, cuja atracção principal é o empadão de atum. Mais pão, alface, maçã e água. A Benfica lamberá uma boa porção das sobras. E sombras faz a luz. O céu continua lavado como uma prata azul. Os eucaliptos e os cedros pintam-se a si mesmos em gravuras de cinco/seis metros de altura. Minutos para a ida da tarde à cafetaria. Continuo a ouvir os outros.

Mesma tarde, 14h43

No regresso do café da tarde, ainda com a bonomia tutelar do enfermeiro P. (jovem, calmo, humano), conversa sobre mezinhas e curandices populares. Por exemplo, a história de J., tóxico das Fontainhas (Matosinhos, Porto). Parece que teve papeira em pequenino. E a quem os hospitais com nomes de santos (António, João) terão sido incapazes de debelar a moléstia. O remédio santo ter-lhe-á chegado do próprio avô. “O Velho sabia Coisas”, garantiu J. Madrugada cedinha, mandava-lhe para dentro com broa de milho e aguardente (lhe a ele, avô). E assim passou além do Bojador dos 90 e tal anos de vida. Curou, parece, a papeira ao netinho mandando-o deitar, pondo-lhe em cima a canga do boi e botando umas rezas. A papeira de J. bateu em retirada. Maravilhas da tecnologia antiga. Não da tanga, mas da canga. Eu mandei, a propósito, uma piada:
– Comigo foi ao contrário. Tive a papeira em pequeno, mas só em grande é que me puseram a canga.
Os pijamas, enfermeiro incluído, riram-se. Chegámos todos sãos e salvos à Base de Ornitologia – Pavilhão 3. Seguiu-se o dêvêdê do Homem-Aranha.

Mesma tarde, 17h00

Um dos ornitalcoólogos borrou-se todo na sanita mais próxima da porta. Eu tinha ido dar cabo do meu mijo quando o fedor (que não Dostoievsky) me chegou pelo alto do muro comum que divide as duas retretes. Em aura cristiana, alertei a auxiliar L. para o cacacontecido. A senhora lá tratou do merdassunto. Li mais uma história da Highsmith, embora me não apetecesse por aí além. Já li muito melhor, sem comparação possível, embora aqui o tenha comparado, dela. Os outros livros estão guardados no saco, a que por enquanto não tenho acesso. Agora, é hora de cafetaria. Somos quatro, escoltados por L., uma enfermeira baixinha e gentil.

Anoitecer, 17h56

Dois assaltos bastaram. No café pós-almoço, J. assediou a empregadita da cafetaria com um “Dá-me o teu coração!”. E, bem-parecido, com barba no rosto de não aparentes apenas 22 anos, acrescentou:
– O bolo…
O bolo (o coração) era um palmiê. Os olhos da rapariga riram-se com aquela volúpia resinosa de fêmea cortejada. Poucas horas depois, no café pós-merenda, ela já lhe sorria um sorriso ímpar. J. acaba de me mostrar um papel com o número de telemóvel autografado a esferográfica azul pela moça. Todos os pobres de Deus escrevem a esferográfica azul. J. garante-me que não troca a “mulher” dele (a namorada, mas ele diz mulher com aspas para que eu sinta a seriedade de uma relação com cinco anos) por nada. É uma mulher do Norte, carago.
– Mas era gajo para cá vir abaixo a Coimbra dar uma volta a isto…
Não virá, claro que não. Já tomou duas porções do medicamento antagonista (ele não é orni, é hipo), sente-se mais lavado dos fumos da heroína e vai partir, 2ª, com o pai, para Bilbau, onde trabalham ambos. Mas tudo isto me rende um episódio precioso para o diário do segundo internamento. É uma não-história, mais bem dizendo, mas é das boas. Outras não-histórias vivas correm pelas alamedas e azinhagas do hospital psiquiátrico: são os internados vitalícios, trôpegos de pernas, pedintes manuais de cigarros e moedas para café; pássaros coxos, partidos bonecos vagamente humanos articulados por invisível ventríloquo – assim me semelham. Cristãos sem Cristo, loucos sem cura. Dormem ao lado, no Pavilhão 2.

O Cedro e a Lua - II - 4 de Novembro de 2005

HSC, 4 de Novembro de 2005, 6ª feira, 14h20

O Artista é admitido a regime de internamento completo antes da hora de almoço. A entrada coincide com o licenciamento por alta do grande amigo RM, que hoje completa as suas três semanas. A fauna humana restante – o costume. Por enquanto, só uma mulher. Em fevereiro passado havia três. Uma novidade boa: há uma gata. A mascote dos ornitólogos chama-se Benfica. É idêntica, mas em grande, à Agostinha, a gata do Artistonitólogo. O Tempo é outra coisa, no hospital. Feito de uma rotina medicamentosa, alimentar, sanitária – e, claro, reflexiva. O problema (a Doença) está dentro. A Solução, também. Permitir que o Tempo não doa tanto, dar-lhe Espaço. Fornecer-lhe Cabeça (mais) e Coração (embora menos). O Estômago, sem a frequência de copos & garrafas, trabalha como uma betoneira macia. Assim os dentes não doam. Leituras para o dia: Vicente Sanches (Última Vontade juntamente com Aforismos Acerca da Última Vontade, teatro da colecção dos Livros Cotovia), Javier Tomeo (Querido Monstro, adaptação teatral da novela Amado Monstro do Autor feita por J.J Préau, Jacques Nichet e Jöelle Grãs, traduzida pelo grande hispanista José Bento, também colecção da Cotovia); e ainda uma colectânea (já encetada em casa, no Botulho) de onze contos da Patrícia Highsmith (Sereias no Campo de Golfe). No saco, há mais: Sófocles, Bachelard, Mourão-Ferreira, O’Neill etc. no verso deste mesmo caderno, uma história manuscrita apenas começada, de que o Artista vai recolher apenas, em princípio, uma ideia (a do poster de futebol com os nomes dos onze jogadores, a linha completa dos titulares) para a nova história a manuscrever (mas já em construção) em torno da personagem chamada Camilo Ardenas. Há sol entre nuvens. Algum azul. O ar, fresco e lavado das chuvas da semana, é bom de respirar. Controlar sem ansiedade o tabaco. Ser mais esperto do que até aqui. Mais forte, menos de louça. Mais com (ou para com) a bonita idade de 41 anos e quase seis meses. Da tristeza, tirar o suco (para a escrita) e mandar fora a casca (pró caralho, nem menos). A ver. São quinze menos quinze, o que, se na aritmética dá resto zero, aqui um quarto para as três. Da tarde. Da lucidez.

Mesmo dia, 17h07

Dei leite da merenda à Benfica. Num copo de plástico da máquina da água. A tipa gostou, embora de início tenha cabeceado um pouco (à Nuno Gomes) por causa da quentura. Leite aguado, chilro como o sol de Bruxelas (imagem a utilizar no Camilo Ardenas), mas nós bebemos e ela, agora, também. Um tempo temperado, suave como um sabonete. Vê-se daqui uma parte da muita mata ardida no verão. Ou na “época de incêndios”, como lhe chamou, aliás com razão, um politidiota qualquer. Um correspondente estrangeiro aqui desterrado espantou-se, também com razão, da naturalidade com que os Portugueses têm “época de incêndios” como têm a natalícia, a carnavalesca, a pascal e a do raio-que-nos-parta-a-todos, povo merdoso que somos. A floresta sobrevivente (sobrevivente a este ano, ou “época”, pelo menos) continua linda, muito respiratória, de um verde agora tocado pela graça flava do outono. Caminho, respiro, vejo, escrevo. O camarada AP, de perto de Soure, é falador. Fez-se-me de recepcionista. Devo tê-lo desiludido um pouco.
– Já cá estive antes – disse-lhe eu.
– Ai sim, então quando? – quis saber ele.
– Em Fevereiro deste ano, de 5 a 18 – datei eu.
E ele, exultante: “Ah, mas eu estive cá há quinze anos!”. Reconheço a derrota com humildade, apesar de ser bicampeão de ornitologia no mesmo ano. AP conta-me depois que um irmão dele se matou na linha de comboio. Eu quis saber há quanto tempo (por exemplo, se há quinze anos…).
– Há já muito tempo. – diz ele. – Há quatro anos.
“Porra!”, penso eu. “O meu irmão Jorge não se matou, morreu apenas, vai fazer 20 anos em Maio próximo, mas continua a ser ontem. E eu com ele às costas. E este a chamar ‘muito’ a quatro anos. Quem me dera ser capaz de encaixar assim as coisas, como as encaixa esta gente diferentigual de/a mim. Quatro anos, num episódio de morte fraterna, é sempre agora. Ou não? Ou são exactamente quatro anos quatro vezes doze meses? Falo por mim, bebi tanto (também) por isso mesmo – por mim, não por ele. Ele não é (não pode ser) pretexto para uma degradação tanto e tantos anos afundada, afundante, espumada, espumante. Escre(vi)vamos os mortos, sim. Mas não os vivamos. A culpa não é deles. AP tem 56 anos, quase. Teria 51/52 quando o irmão (“sem necessidade nenhuma”, diz ele, sabe lá ele) foi caminhando no centro da dupla linha contra o comboio, que apitava desesperado, o freio no máximo desfechando chispas desesperadas.
– Esteve em Angola a fazer a guerra do Ultramar, foi coisa que o Diabo lhe fechou na cabeça, o genro e o filho ainda o puxaram para abrirem todos juntos um armazém, que sempre abriram, e vai ele depois mata-se sem quê nem praquê contra o comboio. Não foi debaixo, foi contra, ele a andar a direito, o comboio não se arredou porque não podia – diz AP.
Digo eu então:
– Se calhar, o teu irmão também não podia.
Ele fica a olhar para mim como se eu fosse maluco. Naturalmente devo ser, até pelo sítio onde escrevo. E por que escrevo. E que escrevo.

Mesmo dia, 19h59

Vicente Sanches lido, Javier Tomeo lido. Também lido um dos contos da Highsmith. Sanches: uma angustiosa confrontação político-religiosa. Tomeo: uma incursão (já tinha lido, há anos, a prosa, agora a dramaturgia) no domínio do (nem tão) absurdo; bom livro, boa peça – a de Tomeo. A de Sanches: notória vontade (aliás expressa pelo A. nas indicações dramatúrgicas) de peça-debate (ao vivo, com a plateia; no imo, com o leitor). O jantar, pontual, às 19 horas. Um (bom) peixe de pele negra com batatas cozidas e feijão verde. A gata Benfica refastelou-se com as sobras gordas que lhe levei. O pessoal assiste na sala-de-convívio a um videofilme requisitado aqui no hospital. Disseram-me que também há biblioteca ao dispor dos doentes. Segunda-feira, já vejo que volumes por lá estarão ao pó. Gostaria de lá encontrar o Debaixo do Vulcão, do colega ornitólogo Malcolm Lowry, rebentado pelo gin, parece (o Luiz Pacheco refere livro e autor em o Diário Remendado 1971-1975, que li entre anteontem e ontem). Também preciso de ler o Molloy do Beckett. AP foi de fim-de-semana. E depois deve ter alta na terça-feira. Já me convidou a passar pela aldeia dele para petiscarmos. “Com sumos e depois café”, salvaguardou. Disse-lhe que sim-se-puder. Destas coisas que se falam a bem nos hospitais e depois se dissipam na rotina da vida livre, ou civil, ou não-internada. O videofilme deles é o At First Sight, com Val Kilmer (que fez um excelentíssimo papel de Jim Morrison em The Doors, realizado pelo sempre contundente Oliver Stone) a fazer de cego e a Mira Sorvino a fazer de boa. Género “romance-drama” com final feliz (às escuras). Gostei muito do Kilmer-Morrison. Mas hoje não me apetece cinema. Ler, sim. E eu tenho mais Highsmith etc. Além disso, já vi isto na tv há uns anos.

segunda-feira, novembro 21, 2005

O Cedro e a Lua - I - Nota Prévia

O Cedro e a Lua é o registo diarístico do meu segundo internamento, entre 4 e 18 de Novembro de 2005, no Serviço de Tratamento de Alcoologias (Pavilhão 3) do Hospital Sobral Cid (Ceira, Coimbra). Por graça, chamo “ornitologia” à alcoologia. É piada pessoal, não ligueis.
Compor um diário não tem nada de especial. Mas expô-lo (sendo, para mais, de cariz alcoológico), pensando bem, para quê? Ou para quem? Na verdade, a pergunta sobrepassa o diarismo e atinge a geral literatura. Publicar (seja, em arte, o que for, realmente, para quê? Tenho esta teoria: para que o artístico exista de facto, depois de, de facto ou não, vivido. No meu caso-
-álcool, de facto-bebido.
Segundo internamento, disse. O primeiro decorrera entre 5 e 18 de Fevereiro de 2005. Já este ano, portanto. Fora o feliz culminar, por assim dizer, de uma longa e pedregosa ascese. Não tenho culpas a atribuir. Nem a nada, nem a ninguém. Ou se a algo, a tudo. E se a alguém, a mim.
Cheguei a Fevereiro provindo de uma amarga decepção sentimental e de uma amargurante desilusão pessoal/profissional. Para mais, via pouco ambas as minhas filhas, não por culpa delas nem por culpa das mães, mas pela (des)vida dita-literária que escolhi (e assumo, e carrego) para mim. De modo que saí do Pavilhão 3 a 18 de Fevereiro e aguentei a seco durante quase seis meses. Herói!
Paradoxalmente, as coisas começaram a correr-me bem desde então. Ofereceram-me trabalho como escritor de teatro e de matérias quejandas numa companhia muito bonita de/em Tondela, uma editora convidou-me para publicar um livro (aceitei, vai sair em 2006, espero), arranjei uma casa com lareira e gata e tudo. Ah, e retomei a companhia do meu amigo Jameson (irlandês, tripla destilação), um fulano de pele de vidro verde e olhos cor-de-ouro que, tomado em jejum, nunca desilude, bem antes pelo contrário. Antes que ele, Jameson, ganhasse o que eu perdesse, voltei a Coimbra. Ao Pavilhão 3, sim. De onde agora regresso com este Cedro e esta Lua. Para que se tornem definitivamente reais. E para vós.
À vossa saúde.


Botulho, 20 de Novembro de 2005