sexta-feira, dezembro 02, 2005

O Cedro e a Lua - XI - 14 de Novembro de 2005







HSC, 14 de Novembro de 2005, 2ª feira, 9h04

Estado gripal incómodo. Começou ontem, domingo, no Botulho, em casa. Saudades da gata de lá, a Agostinha, e da Benfica de cá. Um dos enfermeiros quer acabar com a vizinhança do animal. Comi uma maçã e uma laranja, a ver se vitamino a gripose. Trouxe mais material para ler. À espera de uma resposta da Suzana Ramos, da Dinalivro, para trabalho de revisão do livro técnico (cuja tarefa não terminei, entretanto, mea culpa). Porra p’rà gripe. O pequeno-almoço ainda não está servido. Tempo húmido, mas não especialmente frio. A gripe é uma coisa melancolizadora.

Mesma manhã, 10h33

Nada de outro mundo, tudo deste – um pouco de febre. De tarde, o Artistonitólogo vai falar com a doutora. Hoje, às 7h30 foi a recolha de sangue em jejum para análise. Só depois a ingestão da maçã. Ao contrário, portanto, do Velho Testamento, livro em que a Maçã antecedeu o Sangue e a Análise. Uma imbecil mulher no imbecil programa televisivo da manhã: “Um sorriso de criança é um acto de amor”. Patati patatá. Ervilha-frita-batata-bonita. Não é que seja mentira. É só tão exausto, tão banal, trivial, lateiro, cristóide, evanjófilo, o-raio-que-os-parta. Impaciência – outro fruto do estado gripal, enfim.

Mesma manhã, 11h37

Conversa na sala-de-convívio com FP, da Mealhada. Já aqui esteve antes. Primeiro, como toxi: andou fumando pó hípico. Agora, repete a estadia na qualidade de orni. Uma filha de sete anos. Ele, 33.
– A ver se recupero o equilíbrio – professa. – E se mantenho o lugar de chefe de linha de montagem – segura.
FP trabalha com homens e com vidro: tudo coisas frágeis (“ESTE LADO PARA CIMA”). “Exactamente como a vida que levamos/nos leva”, concluo eu sem falar alto e armado em filósofo. Ou em parvo, o que dá no mesmo.

Tarde de 14, 15h35

Visões Gripais

Uma japonesa entre pinheiros mansos.
Uma japonesa mansa entre cedros.
Um louco só a vida toda louco a vida toda só.
Um guincho picotado de telefone a tocar no corredor de todas as esperas.
A gripe sem vírgulas.
Recordação de uma nascente aos pés de uma montanha com um castelo na cabeça a montanha.
Caligrafia mental busca e trova papel próprio.
Tinta roxa tinta verde.
Papel no nariz água de ranho.
Ouvidos de aterragem de avião.
Estacionados carros vermelhos vivos à espera de homens e mulheres directores de condução.
A condução humana.
A humanidão serva no navio da naifa.
Loucura controladora de palavras.
Controle de palavras loucas sós a vida toda só loucas todas a vida.
A japonesa-beleza-do-líbano-cedrina.
Não poder aromar-se por causa do entupimento das árvores.
Quartos-de-hora quartos-de-lua quartos-de-pensão terço-amor meia-foda zero-futuro.
O Gripartistonitólogo gripa-se pira-se.
Tintarroxa verdetinta página 28 do manusgripto.




Noite de 14, 18h14

O vírus faz do corpo um colchão-de-água com molas de ossos. A luz do dia, os esparsos cachorros mendigos de comida hospitalar, os pássaros rápidos, o medronheiro que excresce rubis rugosos – a realidade é sentida difusamente por causa do (ou “derivadó”) cabrão do vírus.

Mesma noite, 18h29

Saindo-se a sala-de-convívio, abrem-se o terraço, o jardim (sem flores, só relva circuncisada de passeios de pedra) e uma das ruas deste labirinto mental. A esta hora já invernosa, a noite instalou já, como se para sempre, um circo de estrelas. A visão do balcão do terraço é límpida, muito pura e quase triste sem remédio(s): recorda-me (sem ser por artifício de recordação pictórico-literária, juro), O Império das Luzes, tela do grandinorme artista René Magritte. Os candeeiros, semiocultos pela folhagem, dão à luz a ilusão de frios frutos. As árvores, negras de contraste, humanizam o espectador siderado pela evidência da finitude infinita de pensar sentido (como o Outro, de outro modo). E no céu, chumbado de frígidos cúmulos, a Lua lu(t)a por mostrar-se inteira. Recolho à sala-de-convívio, por esta hora plena de adormecidos gasalhados de lã, passo ao refeitório, onde, escritor de silêncio, me sinto e sento só. Pois muito bem.

Mesma noite, 20h56

Combati a chata da gripe com mais uma laranja roubada a uma das árvores do Hospital. Colhida de noite e da parte baixa da laranjeira, apareceu-me na mão toda verde por fora. Mas, descascada e comida, revelou um coração tão citrino como generoso. Arrefecida do relento, acidula-me agora no porão gástrico de mui prazenteiro modo. Guardei para a matina próxima o kiwi da sobremesa do jantar. O meu irmão Zé Daniel bem me ensinou como combater as griposes: “Avinha-te, abifa-te e abafa-te.” Avinhar-me, não no posso. Mas abifei-me, por assim dizer, com uma bela posta de peixe grelhado e uma hidrocarbono-lambada de puré cremoso de batata mais pão. E, indo para a cama, dormirei duplamente pijamado e de meias, de modo a suar o febrão no curso e no corso da noite. Enquanto não, sigo na leitura dos Textos de Guerrilha (2ª Série) do enormigrande Luiz Pacheco e de uma novela de Joseph Conrad, Mocidade. Poderia ser pior, convenhamos. E eu convenho, que remédio.

quarta-feira, novembro 30, 2005

O Cedro e a Lua - X - 12 de Novembro de 2005

Tondela, 12 de Novembro de 2005, sábado, 9h45

Isto é sábado, isto é Tondela. Fim-de-semana (merecido) do heroicoólico. Sober among sobers. Compra de jornais (Público, El Pais) do dia. Leitura dos Textos de Guerrilha do Pacheco, que mos emprestou meu irmão Zé Daniel. Agora estão, os livros, a fotocopiar na Enseada (Papelaria & Decoração, Lda.), em pleno coração comercial da vilacidadedeTondela. S. foi trabalhar cedo a Viseu (8h00). Zuca e Johnny lá em casa a dormir. Dosagem medicamentosa tomada a horas e a preceito. Café-com-leite-pão-com-manteiga. Não chove, o nevoeiro dissipa-se no ar fino e fresco. Novembro, enfim. Este marcador de tinta douroverde é novo em folha (pautada). Comprei-o, com os jornais e mais lápis e afiadeiras, na mesma Enseada. Delícias de sábado matinal: jornais, café com leite, artigos de papelaria. A vida suspende, por vezes, a guilhotina. E aceita ser adoçada de meia saqueta de açúcar, lentamente acolherada, sorvida sem ruído lábio-associal. Na Loja do Chinês, comprei um gorro e um par de luvas. Tudo de lã, tudo de preta cor. Conforto tépido. Raios partam a comodidade, isto é, a sobriedade, que não rende versalhada tragicómica alguma de jeito. Pausa, enfim. Isté Tondela, faz sábado.

Mesma manhã, 11h13

Encontro e conversa com um casal amigo na Doce Pérola. Falei/falámos sobre alcoolismo. O meu e o dos outros. Amigos de verdade. Andavam preocupados. Folgaram por me saber em bolandas de tratamento. Um encontro consolador, um diálogo retemperador. E, ainda por cima, é sábado! (Tenho o Mil Folhas do Público e o Babelia do El Pais para encetar. Para já, que se lixe o secót’che e o áiríche!)

terça-feira, novembro 29, 2005

O Cedro e a Lua - IX - 11 de Novembro de 2005

HSC, 11 de Novembro de 2005, 6ª feira, 7h21

Dia de S. Martinho, parece. Despertei sem retorno às 5h50. Tudo bem. O dia anunciou-se no estore que a auxiliar se esqueceu de fechar à chave. Puxei-o: era o dia novo, eram os primeiros pássaros. As janelas trancadas que guardam a camarata aquecida não impediram a visão do vento penteando os cedros, as tangerineiras, os mansos pinheiros do hospital dos louc’omens. Espero agora a abertura da porta para descer à rua, onde passearei, veja-se, uma espécie de alegria.

Mesma manhã, 10h24

Uma espécie de alegria, pois por que não, sim? Ouvi música pelo discman, passeei todo aeróbico em roda quadrilátera dos pavilhões 1, 2, 3. Fumei um eficiente par de cigarros. O desjejum fora uma banana e a polpa de uma maçã. Dois copos de água valentes. Limpeza, desinfecção, desinfestação: sou um novo homem velho. Luto com a memória, ajudado pela experiência e pela paroxetina. O CMS e o CMM (também do internamento februário, regressou à base) estão comigo ao sol no terraço. Como se fora, ainda ou já, Fevereiro. Como se fôramos nossos mesmos filhos. O futuro de então era então isto. Mas quê? Tenho livros para ler (mais Luiz Pacheco – Textos de Guerrilha, 1ª e 2ª Séries – e mais muito outro autor). Que se trame a tram(p)a e enrede a rede. A vida segue.

Mesma manhã, 11h40

Chama-se, como a minha filhinha mais nova, T. Tem 40 anos e uma menina de dez. Anda há anos tentando descartar-se das malhas da heroa e da coca fumadas. Tem olhos emoldurados de ovos tristes, de pesadumbre tóxico. Não faz pena: faz só pen(s)ar. E este “só” é tanto.

segunda-feira, novembro 28, 2005

O Cedro e a Lua - VIII - 10 de Novembro de 2005

HSC, 10 de Novembro de 2005, 5ª feira, 6h10

Em vão desejei que os maus sonhos me não impedissem a segura navegação do sono. Ainda não são seis e meia da madrugada e já estou de olho vivo. Sonhei que me roubavam na Madeira durante um jogo entre o Nacional e o Braga. O Nacional ganhava 1-0 e eu perdia a paciência com um gajo e uma gaja que insistiam em me vasculhar a mochila à cata de bens revendáveis para a droga. Depois, S. estampava-se de carro contra o dinheiro que ia custar arranjá-lo (ao carro e ao dinheiro). Eis-me agora, pois, a esta hora lamentável, sentado na sanita para ter luz de escrita. Comi meia maçã no escuro, ouvi um trecho de sinfonia. Venha um cigarro e que Deus me dê lume sem me queimar de todo. (E já que estou assim sentado, adianto o outro serviço matinal. Raios partam os pesadilhos noctcórneos!)

Mesma manhã, 7h31

Não alinho na expressão – “Se eu soubesse o que sei hoje…”. Porque, se eu soubesse, então, o que sei hoje, que piada teria tido a vida tida entretanto então? Nenhuma. A mesma piada alguma que teria já saber hoje o que me falta saber amanhã ainda. Isto é, aprender. Aprender a viver, por exemplo.

Mesma manhã, 8h01

O Artistonitólogo acaba de dar um pão a um canito dos que cirandam pelo Hospital. E uma dose de manteiga à gata Benfica. Cão e gata sabem viver. Também eles. Sobretudo eles.

Mesma manhã, 8h25

ZA, invalidado por longos abus’anos de álcaro, amanhece no chão de madeira da enfermaria dupla reservada aos incapacitados de autolocomoção. Caiu da cama. Está enregelado. Por roupa única, a fralda descartável: parece um cristo mijado e frígido. Ajudo a levantá-lo do chão com o jovem HM. Pomo-lo na cama: bebé tóxico, cinquentão.

Fim da manhã, 11h44

PB, da Figueira da Foz. Toxinitólogo. Estoirou milhares de notas, próprias e do pai. Relacionou-se seis anos com “um amor que lhe chegou de Lisboa com a escola da droga toda”. Perderam a vida de um bebé de quatro meses. Heroína e coca defumadas como chouriços brancos. Miséria. Vontade de renascer, porém. O amor (ela) pisgou-se. Ouço a conversa entre P e J, ambos toxis. Ambos vivos.

Tarde, 14h39


(para Cesário Verde)



Ó poeta formoso ó dos formosos poemas
Luz do estrelado azeite leite do gás dos sistemas
Como raros raro foste luminoso alveolar
Língua nossa tua toda impossível de imitar.



Mesma tarde, 15h00

Com o retomado camarada de fevereiro passado, o CMS, conversas moles de lagartos solarengos. Eu, na esperança (dúbia) de poder passar o fim-de-semana em casa (Botulho, Tondela). A ver. A viver. A escreviver.

domingo, novembro 27, 2005

O Cedro e a Lua - VII - 9 de Novembro de 2005

HSC, 9 de Novembro de 2005, 4ª feira, 8h38

Névoa densa e respiração fresca na manhã nova. Uma volta oxigiénica à volta do Pavilhão, abrindo e fechando as mãos, imprimindo bem os passos-sapatilhas, respirando fundo e bem. Uma tangerina e uma castanha. Um copo de água e um belo cigarro. AG vai-se hoje embora. AP foi ontem. Ontem, o Artistonitólogo fechou o serão cultural em beleza: depois do O’Neill, três temas de Charlie Parker & Companheiros (Gillespie, Smith, Coleman, Lester e Outros) na rodela do cêdê portátil + um soneto em puros decassílabos do grande Cesário Verde. Depois, cama. Agora, pronto para a quarta-feira.

Mesma manhã, 11h01

Altercação de dois doidinhos na cafetaria dos doentes, primeiro, e depois cá fora, por causa da (des)ordem na bicha para o café:
– Armados em enfermeiros ou a merda, querem ser atendidos primeiros qu’os outros.
– Chiu!
– Chiu?! ‘tou aqui ‘tou a usar as mãos!...
– Só se for p’ra me tocares ó bicho…
– Corto-te às postas, pá, ‘inda te corto mazé às postas!...
– Vai à cona à tua mãe…
– Isso era o qu’eu queria!
– Tens o cu maior q’a cabeça.
– Olha p’às costas, pá, não t’esqueças d’andar a olhar p’às costas…
– Mando-te mazé uma cabeçada na boca que ficas a cagar dentes uma semana e um dia.
– ‘tou aqui ‘tou a usar as mãos!...
– Queres levar agora ou daqui a bocado?
– Pode ser daqui a bocado.

Tarde, 14h25

À hora de almoço, visita rápida do meu irmão Fernando. Trouxe-me fraternidade, esta esferográfica-marcador de cor roxa-gel e dois livros. Um deles é o mais recente de Saramago, As Intermitências da Morte. O outro, de um autor cubano cujo nome está lá em cima no cacifo. Gostei da visita. Também, deve ser porque gosto do meu irmão. Agora, sol da tarde e mais Cesário Verde. Viva Cesário! Obrigado, Fernando.

Mesma tarde, 16h23

A má notícia que às vezes sou, torna-se pior com notícias como a de má hora que há minutos me chegou pelo amigo João Portulez, primeiro, e confirmada depois pelos amigos Adelino Mendes e Zé Gaspar – a do suicídio, ontem (ou hoje ainda, não percebi bem), do bom gigante Zé Marques. Sim, o Zé “Miséria” do Louriçal. Enforcou-se, não se sabe (nem interessa, agora) por que má ideia. Era grande na tamanhura e no coração. Matou-se, morreu. E eu que, há linhas-dias acima, escrevera “Viva a vida!”. Às vezes, não viva nada. Não, de todo. O funeral é amanhã.

Noite, 20h20

Ao fim da tarde, regressando de um copo de café na cafetaria dos doentes, reencontro com CMS, um camarada do primeiro internamento do Artista. É de Barcouço. S. trouxe-me Debaixo do Vulcão, do defuntalcoólico Malcolm Lowry (1909-1957). Lembrar, a propósito do grande escritor, o poema que lhe dedicou o também grande e enorme e imenso e gigante – e nosso – Carlos de Oliveira; ver Trabalho Poético. E uma revelação: um dos dois doidinhos altercadores referidos na nota das 11h01 de hoje era eu. Ou ele: o Artistonitólogo.

Mesma noite, 21h23

Não tanto as coisas que fiz nem as que pretendo fazer – contam agora, mormente, as que faço. Por exemplo, neste preciso instante, sim, isto, escrever. Depois, tomar chá e ingerir bolachas – mas no momento dele e delas: chá-momento, momento-bolachas. Depois-então-já: tostar na cama de sono o corpo. Dentro do son(h)o, resistir às imagens más, propiciar a floresta preta de dormir sem papões nem desamores nem raivas (ab)surdas. Fazer (por) isso, mas já. Parece-me um bom presente, até no sentido de oferenda.

sexta-feira, novembro 25, 2005

O Cedro e a Lua - VI - 8 de Novembro de 2005

HSC, 8 de Novembro de 2005, 3ª feira, 7h29

Sonhos insalubres acordaram o Ornitólogartista às 5h14. Levantou-se, derivou para a casa-de-banho e sentou-se sem produção para fumar um cigarro proibido pela gerência. Na volta, conseguiu reconciliar-se com o sono até às 6h40, hora a que se tornou escusado tentar o suborno de Morfeu. O camarada/camarata AP também já acordara. Barbeou-se, duchou-se, comeu uma tangerina, deu lume a RF, terceiro acordado. À hora a que a enfermeira abriu as portas do segundo piso, o cheiro a tabaco fê-la ralhar mansamente e sem remédio. O dia, no jardim, montara entretanto uma tenda fresca: ar-árvores, pipi-pipilar de penosos, o cheiro-brilho da nova luz, da nova batalha de horas, pães, doses de manteiga, cafeteiras pitingas, cigarros, O’Neill.

Mesma manhã, 8h00

Reunião geral dos doentes com outro enfermeiro. Ponto a ponto, homem a homem, falta sabão lá em cima, preciso de uma toalha, queres mudar de pijama para roupa civil, é preciso que as pessoas, sem nomear nomes, se habituem a tomar banho. AP confessa que retomou a sacra-vialcoólica mercê de um “roubo” que lhe fizeram da “morte de um netinho”. Assim dito, sem mais nem broas. A meio da manhã: “um netinho”.

Fim da manhã, 12h09

“Promovido a civil”: uso agora, por cromo-civil paradoxo, calças verde-tropa, sapatilhas pretas, camisola interior cinza, camisola exterior cinza verde. O Carlitos está aqui: dou-lhe um pacote de açúcar (tenho muitos, que guardo das bicas e das primeira e terceira refeições). Depois limpo-lhe a mão, os lábios e o queixo com o toalhete que traz amarrado ao pescoço. O Carlitos:
– Queu’a’nha’mãe…
Um velho mental-crónico que quer a mãe pelo fim da manhã, da vida. Muitos anos. Todos os dias. Açúcar.

Tarde, 14h10

Coincidências do carag’ato: a páginas 520 do O’Neill (Poesias Completas 1951-1986, INCM, 3ª ed. rev. e aum. , reimpressão de março de 1995) também se pressupõe um gato chamado “Benfica”. Mas a nossa do Pavilhão 3 é gata. E benfiquista mesmo.

Noite, 20h07

O’Neill todo lido. Oficiante (mas não oficial nem oficioso) desse republicano (e podre) reino chamado Literatura. Criou boas palavras novas, usou bem boas palavras velhas. Ou antigas. Dele recordarei aqui, em ponto de rebucitação (de rebuçado + citação, para brincar à maneira de Alexandre’le…):

“(…)

que a vida não é outra
senão a que fazemos
(e a vida é uma só
pois jamais voltaremos).

(…)

E que melhor pretexto
(quem o saiba que o diga!)
Teremos p’ra viver
senão a própria vida?”


E pronto: senhoras & senhores, meninos & meninas, voilá Alexandre O’Neill (1924-1986 e uns trocos).

quinta-feira, novembro 24, 2005

O Cedro e a Lua - V - 7 de Novembro de 2005

HSC, 7 de Novembro de 2005, 2ª feira, 8h10

Despertar e erguer às 6h59. Uma banana, um cigarro. Duche quente. Um copo de água, uma tangerina. Dois ou três poemas de O’Neill. Às 8h00, ala para baixo. Alvorada de foguetório de festa numa aldeia à vista. Noticiário na rádio e na têvê: merda sociopopular, e da grossa, em França; o cabrão corrupto(r) nipo-peruano Fujimori detido em Santiago do Chile; pesquisas chinesas para energia fotovoltaica; chuvas ácidas, cidades poluídas; mais um tornado contra USamericanos, desta vez nos estados de Indiana e Kentucky (Deus deve ser terrorista também, há-de “pensar”, por assim dizer, o burro-bush). Sol matino. Algumas nuvens esfarrapadas. A malta à espera do desjejum de café com leite e pão com manteiga. Moi, contentinho de fruta no barrigol. Brincadeiras entre o pagode. O internamento (o tédio) torna pueris homens descriados. Lembram-me a primeira frase que compus em latim, por obra e graça da maestria do meu explicador, o doutor Moura: “In agro pueri arborum fructos legebant.” (“No campo, os rapazes colhiam frutos das árvores.”) Este tem 55 anos, aquele tem 45. Eu, 41. Tudo na brincadeira. Bocas e palmadas. Ternas obscenidades.

Mesma manhã, 10h55

Há quem saia daqui com a promessa de ir a pé a Fátima se o álcool lhes não voltar às unhas e às beiças. Há quem volte aqui. Há de tudo, como na farmácia e nas grandes superfícies do senhor Belmiro Azevedo. Por mim, o Artista só garante limpeza/desinfecção/desinfestação por 2/3 semanas. Depois, a roda-viva (felizmente viva) de um-dia-por-dia, uma-noite-por-noite. Rever as filhinhas, retomar os amigos, o trabalho. Os livros, não é preciso retomá-los: eles vieram comigo, retornarão comigo. E não há-de ser preciso ir a Fátima, esse nome árabe que faz ajoelhar tantos católicos e tantas católicas. O que interessa é a graça deste sol de novembro, branco de ouro branco, nutridor de árvores e suas sombras japonesas. Reconstruo o pensamento, vivo interiormente a vida escrita de Camilo Ardenas. E também a de Luciano Décio Santo, embora menos. Sinto-me feliz por ter, antes de vir para aqui repousar e retemperar-me, entregado à editora do Rui Grácio o livro com a história do senhor Leal Casimiro e com os outros relatos crónicos. Viva a porra da vida, enfim.

Manhã finda, 12h46

O enfermeiro V., em reunião de terapia de grupo, falou da necessidade de perdoar (a)o passado. Tenho, realmente tenho, alguma(s) memória(s) a pacificar. Assim seja. Mas...

From what I can see
Of the people like me
We get better
But we never get well

Paul Simon

Noite de 7, 20h44
Não é uma lição nova
Mas uma instrução
Que se renova
Cada dia se conquista
Manhã cedo noite à vista.


Mesma noite, 21h02

(E com Paul Simon, ainda, em passagem de testemunho cantado para a Leonor e para a Teresa,

I’m gonna watch you shine
Gonna watch you grow
Gonna paint a sign
So you’ll always know
As long as one and one is two
There could never be a father
Who loves his daughter
More than I love you


fica tudo cantad’ito, filhas minhas.)

quarta-feira, novembro 23, 2005

O Cedro e a Lua - IV - 6 de Novembro de 2005

HSC, 6 de Novembro de 2005, domingo, 11h33

Domingo. J. foi-se embora para Matosinhos. Veio o pai buscá-lo. Bom rapaz: deixou moedas e todo o tabaco ao velho G., que passa a vida na crava. Dormiu muito, de novo, o Artistonitólogo. Comeu um pequeno-almoço lauto: cinco casqueiros com três triângulos de queijo e duas doses de manteiga. Duas chávenas de café com leite. Ao despertar, pelas 7h30, não havia água quente. O duche foi frio e bom. Depois do desjejum, o Artista dormitou estendido no sofá da sala da televisão. Depois, lagartou no terraço sob o guarda-sol. Está, de feito, um sol glorioso. Nenhuma brisa. Nem parece novembro. Viver nem parece difícil. Mesmo ao domingo, afinal.

Tarde de 6, 14h59

Uma sensação de corpo sujeito a pousio. Boa sensação. Leitura de Alexandre O’Neill (Poesias Completas 1951-1986, edição da INCM). Cigarros calmos, copos de café fraco mas aromático. Pão, batatas, peixe, carne. À noitinha, chá e bolachas. O melhor de tudo tem sido o descampado do sono: sem sonhos, sem fantasmas, sem batalhas, sem freguesia. O duche frio da manhã foi retemperador. O gabinete de enfermagem já chamou o electricista, que veio já e, com ele, o fluxo forte de água quente. Unhas dos pés e das mãos aparadas com vigor, higiene e geometria. Desodorizante, champô, sabão azulibranco, pasta dentífrica e elixir bucal. E O’Neill. (Dei um pão ao Carlitos, que, por vitalício do Pavilhão 2, tem direito a nome por extenso. E também um pacote de açúcar, que lhe administrei às doses na língua. E dei bacalhau à Benfica, que tem passado a tarde a lamber os bigodes noruegueses.) Falo sobretudo com AG., figura suave e civilizada de homem. É de Águeda, foi dando cabo da vida com vinho branco. Quer recuperar a vida e perder de alcance o branco. Tem sérias hipóteses de o conseguir. O emprego mantém-se, a família também. Trocámos endereços e números telemobilísticos. Trocamos palavras, somos vizinhos de cama: eu sou o H24; ele, o H23.

Noite de 6, 18h09

O domingo subiu alto com o sol. Repete a graça com a Lua a quarto crescente. Céu laminado de estrelas, terra estrelada de aldeias – pontos de luz que é possível coleccionar sem possuir, como aos amores de uma vida.

terça-feira, novembro 22, 2005

O Cedro e a Lua - III - 5 de Novembro de 2005

HSC, 5 de Novembro de 2005, sábado, 8h59

O Artistonitólogo celebra em silêncio-só-conseus-botões uma noite bem dormida – de cabo-a-rabo, de fio-a-pavio. E mais: manhãzinha muito cedo, um céu sem um nuvem e com um sol. Passam hoje nove meses certinhos sobre o primeiro internamento do Ornitartistoólatra neste mesmo Pavilhão 3. Copo vazio, copo cheio. Rei morto, rei ressacado. Daria para ter concebido um bebé novo. Deu para isto – um ano novo tornado velho, um livro escrito e terminado (O Preço da Chuva, a sair nos princípios de 2006, talvez, na editora conimbricense Pé de Página). Daqui a pouco, pequeno-almoço. Depois, um cigarro, uma ida à cafetaria dos doentes (ornitólogos, hipólogos, cocólogos e demais fauna de neurónios escaqueirados). Viva a vida!

Mesmo dia, 13h55

De manhã, no regresso da cafetaria, o enfermeiro P. e o grupo de pijamas conversam sobre “juizinho”: não beber, não drogar, poupar dinheiro, ganhar saúde. Tudo sem grandes moralismos. Tudo em sossego, com o estômago e a boca acalentados pelo copo de café. Às tantas, F. sai-se com esta:
– Um vizinho meu deixou de fumar e começou a pôr num jarro as moedas que gastaria se ainda fumasse. Poupou poupou poupou até que comprou uma casa. Vai daí um dia a casa ardeu. Claro, aquele dinheiro já era p’ra queimar…
Os pijamas, enfermeiro incluído, riem-se. É história forjada, mas dá para a risota. Um dos nossos, menos dados a subtilezas anedóticas, ainda protesta:
– Mas isso é história!
– Claro que é! E depois? – contestamos todos.
E assim arde o Tempo. O enfermeiro P., bom rapaz (22 anos, só) ligou o computador portátil dele ao televisor (que é novo, não já a velharia chuvosa de fevereiro) para que possamos ver um filme em dêvêdê: Samuel L. Jackson, Peter Strauss, Willem Dafoe etc. Uma coisa cheia de (d)efeitos especiais. Assim chegamos ao almoço, cuja atracção principal é o empadão de atum. Mais pão, alface, maçã e água. A Benfica lamberá uma boa porção das sobras. E sombras faz a luz. O céu continua lavado como uma prata azul. Os eucaliptos e os cedros pintam-se a si mesmos em gravuras de cinco/seis metros de altura. Minutos para a ida da tarde à cafetaria. Continuo a ouvir os outros.

Mesma tarde, 14h43

No regresso do café da tarde, ainda com a bonomia tutelar do enfermeiro P. (jovem, calmo, humano), conversa sobre mezinhas e curandices populares. Por exemplo, a história de J., tóxico das Fontainhas (Matosinhos, Porto). Parece que teve papeira em pequenino. E a quem os hospitais com nomes de santos (António, João) terão sido incapazes de debelar a moléstia. O remédio santo ter-lhe-á chegado do próprio avô. “O Velho sabia Coisas”, garantiu J. Madrugada cedinha, mandava-lhe para dentro com broa de milho e aguardente (lhe a ele, avô). E assim passou além do Bojador dos 90 e tal anos de vida. Curou, parece, a papeira ao netinho mandando-o deitar, pondo-lhe em cima a canga do boi e botando umas rezas. A papeira de J. bateu em retirada. Maravilhas da tecnologia antiga. Não da tanga, mas da canga. Eu mandei, a propósito, uma piada:
– Comigo foi ao contrário. Tive a papeira em pequeno, mas só em grande é que me puseram a canga.
Os pijamas, enfermeiro incluído, riram-se. Chegámos todos sãos e salvos à Base de Ornitologia – Pavilhão 3. Seguiu-se o dêvêdê do Homem-Aranha.

Mesma tarde, 17h00

Um dos ornitalcoólogos borrou-se todo na sanita mais próxima da porta. Eu tinha ido dar cabo do meu mijo quando o fedor (que não Dostoievsky) me chegou pelo alto do muro comum que divide as duas retretes. Em aura cristiana, alertei a auxiliar L. para o cacacontecido. A senhora lá tratou do merdassunto. Li mais uma história da Highsmith, embora me não apetecesse por aí além. Já li muito melhor, sem comparação possível, embora aqui o tenha comparado, dela. Os outros livros estão guardados no saco, a que por enquanto não tenho acesso. Agora, é hora de cafetaria. Somos quatro, escoltados por L., uma enfermeira baixinha e gentil.

Anoitecer, 17h56

Dois assaltos bastaram. No café pós-almoço, J. assediou a empregadita da cafetaria com um “Dá-me o teu coração!”. E, bem-parecido, com barba no rosto de não aparentes apenas 22 anos, acrescentou:
– O bolo…
O bolo (o coração) era um palmiê. Os olhos da rapariga riram-se com aquela volúpia resinosa de fêmea cortejada. Poucas horas depois, no café pós-merenda, ela já lhe sorria um sorriso ímpar. J. acaba de me mostrar um papel com o número de telemóvel autografado a esferográfica azul pela moça. Todos os pobres de Deus escrevem a esferográfica azul. J. garante-me que não troca a “mulher” dele (a namorada, mas ele diz mulher com aspas para que eu sinta a seriedade de uma relação com cinco anos) por nada. É uma mulher do Norte, carago.
– Mas era gajo para cá vir abaixo a Coimbra dar uma volta a isto…
Não virá, claro que não. Já tomou duas porções do medicamento antagonista (ele não é orni, é hipo), sente-se mais lavado dos fumos da heroína e vai partir, 2ª, com o pai, para Bilbau, onde trabalham ambos. Mas tudo isto me rende um episódio precioso para o diário do segundo internamento. É uma não-história, mais bem dizendo, mas é das boas. Outras não-histórias vivas correm pelas alamedas e azinhagas do hospital psiquiátrico: são os internados vitalícios, trôpegos de pernas, pedintes manuais de cigarros e moedas para café; pássaros coxos, partidos bonecos vagamente humanos articulados por invisível ventríloquo – assim me semelham. Cristãos sem Cristo, loucos sem cura. Dormem ao lado, no Pavilhão 2.

O Cedro e a Lua - II - 4 de Novembro de 2005

HSC, 4 de Novembro de 2005, 6ª feira, 14h20

O Artista é admitido a regime de internamento completo antes da hora de almoço. A entrada coincide com o licenciamento por alta do grande amigo RM, que hoje completa as suas três semanas. A fauna humana restante – o costume. Por enquanto, só uma mulher. Em fevereiro passado havia três. Uma novidade boa: há uma gata. A mascote dos ornitólogos chama-se Benfica. É idêntica, mas em grande, à Agostinha, a gata do Artistonitólogo. O Tempo é outra coisa, no hospital. Feito de uma rotina medicamentosa, alimentar, sanitária – e, claro, reflexiva. O problema (a Doença) está dentro. A Solução, também. Permitir que o Tempo não doa tanto, dar-lhe Espaço. Fornecer-lhe Cabeça (mais) e Coração (embora menos). O Estômago, sem a frequência de copos & garrafas, trabalha como uma betoneira macia. Assim os dentes não doam. Leituras para o dia: Vicente Sanches (Última Vontade juntamente com Aforismos Acerca da Última Vontade, teatro da colecção dos Livros Cotovia), Javier Tomeo (Querido Monstro, adaptação teatral da novela Amado Monstro do Autor feita por J.J Préau, Jacques Nichet e Jöelle Grãs, traduzida pelo grande hispanista José Bento, também colecção da Cotovia); e ainda uma colectânea (já encetada em casa, no Botulho) de onze contos da Patrícia Highsmith (Sereias no Campo de Golfe). No saco, há mais: Sófocles, Bachelard, Mourão-Ferreira, O’Neill etc. no verso deste mesmo caderno, uma história manuscrita apenas começada, de que o Artista vai recolher apenas, em princípio, uma ideia (a do poster de futebol com os nomes dos onze jogadores, a linha completa dos titulares) para a nova história a manuscrever (mas já em construção) em torno da personagem chamada Camilo Ardenas. Há sol entre nuvens. Algum azul. O ar, fresco e lavado das chuvas da semana, é bom de respirar. Controlar sem ansiedade o tabaco. Ser mais esperto do que até aqui. Mais forte, menos de louça. Mais com (ou para com) a bonita idade de 41 anos e quase seis meses. Da tristeza, tirar o suco (para a escrita) e mandar fora a casca (pró caralho, nem menos). A ver. São quinze menos quinze, o que, se na aritmética dá resto zero, aqui um quarto para as três. Da tarde. Da lucidez.

Mesmo dia, 17h07

Dei leite da merenda à Benfica. Num copo de plástico da máquina da água. A tipa gostou, embora de início tenha cabeceado um pouco (à Nuno Gomes) por causa da quentura. Leite aguado, chilro como o sol de Bruxelas (imagem a utilizar no Camilo Ardenas), mas nós bebemos e ela, agora, também. Um tempo temperado, suave como um sabonete. Vê-se daqui uma parte da muita mata ardida no verão. Ou na “época de incêndios”, como lhe chamou, aliás com razão, um politidiota qualquer. Um correspondente estrangeiro aqui desterrado espantou-se, também com razão, da naturalidade com que os Portugueses têm “época de incêndios” como têm a natalícia, a carnavalesca, a pascal e a do raio-que-nos-parta-a-todos, povo merdoso que somos. A floresta sobrevivente (sobrevivente a este ano, ou “época”, pelo menos) continua linda, muito respiratória, de um verde agora tocado pela graça flava do outono. Caminho, respiro, vejo, escrevo. O camarada AP, de perto de Soure, é falador. Fez-se-me de recepcionista. Devo tê-lo desiludido um pouco.
– Já cá estive antes – disse-lhe eu.
– Ai sim, então quando? – quis saber ele.
– Em Fevereiro deste ano, de 5 a 18 – datei eu.
E ele, exultante: “Ah, mas eu estive cá há quinze anos!”. Reconheço a derrota com humildade, apesar de ser bicampeão de ornitologia no mesmo ano. AP conta-me depois que um irmão dele se matou na linha de comboio. Eu quis saber há quanto tempo (por exemplo, se há quinze anos…).
– Há já muito tempo. – diz ele. – Há quatro anos.
“Porra!”, penso eu. “O meu irmão Jorge não se matou, morreu apenas, vai fazer 20 anos em Maio próximo, mas continua a ser ontem. E eu com ele às costas. E este a chamar ‘muito’ a quatro anos. Quem me dera ser capaz de encaixar assim as coisas, como as encaixa esta gente diferentigual de/a mim. Quatro anos, num episódio de morte fraterna, é sempre agora. Ou não? Ou são exactamente quatro anos quatro vezes doze meses? Falo por mim, bebi tanto (também) por isso mesmo – por mim, não por ele. Ele não é (não pode ser) pretexto para uma degradação tanto e tantos anos afundada, afundante, espumada, espumante. Escre(vi)vamos os mortos, sim. Mas não os vivamos. A culpa não é deles. AP tem 56 anos, quase. Teria 51/52 quando o irmão (“sem necessidade nenhuma”, diz ele, sabe lá ele) foi caminhando no centro da dupla linha contra o comboio, que apitava desesperado, o freio no máximo desfechando chispas desesperadas.
– Esteve em Angola a fazer a guerra do Ultramar, foi coisa que o Diabo lhe fechou na cabeça, o genro e o filho ainda o puxaram para abrirem todos juntos um armazém, que sempre abriram, e vai ele depois mata-se sem quê nem praquê contra o comboio. Não foi debaixo, foi contra, ele a andar a direito, o comboio não se arredou porque não podia – diz AP.
Digo eu então:
– Se calhar, o teu irmão também não podia.
Ele fica a olhar para mim como se eu fosse maluco. Naturalmente devo ser, até pelo sítio onde escrevo. E por que escrevo. E que escrevo.

Mesmo dia, 19h59

Vicente Sanches lido, Javier Tomeo lido. Também lido um dos contos da Highsmith. Sanches: uma angustiosa confrontação político-religiosa. Tomeo: uma incursão (já tinha lido, há anos, a prosa, agora a dramaturgia) no domínio do (nem tão) absurdo; bom livro, boa peça – a de Tomeo. A de Sanches: notória vontade (aliás expressa pelo A. nas indicações dramatúrgicas) de peça-debate (ao vivo, com a plateia; no imo, com o leitor). O jantar, pontual, às 19 horas. Um (bom) peixe de pele negra com batatas cozidas e feijão verde. A gata Benfica refastelou-se com as sobras gordas que lhe levei. O pessoal assiste na sala-de-convívio a um videofilme requisitado aqui no hospital. Disseram-me que também há biblioteca ao dispor dos doentes. Segunda-feira, já vejo que volumes por lá estarão ao pó. Gostaria de lá encontrar o Debaixo do Vulcão, do colega ornitólogo Malcolm Lowry, rebentado pelo gin, parece (o Luiz Pacheco refere livro e autor em o Diário Remendado 1971-1975, que li entre anteontem e ontem). Também preciso de ler o Molloy do Beckett. AP foi de fim-de-semana. E depois deve ter alta na terça-feira. Já me convidou a passar pela aldeia dele para petiscarmos. “Com sumos e depois café”, salvaguardou. Disse-lhe que sim-se-puder. Destas coisas que se falam a bem nos hospitais e depois se dissipam na rotina da vida livre, ou civil, ou não-internada. O videofilme deles é o At First Sight, com Val Kilmer (que fez um excelentíssimo papel de Jim Morrison em The Doors, realizado pelo sempre contundente Oliver Stone) a fazer de cego e a Mira Sorvino a fazer de boa. Género “romance-drama” com final feliz (às escuras). Gostei muito do Kilmer-Morrison. Mas hoje não me apetece cinema. Ler, sim. E eu tenho mais Highsmith etc. Além disso, já vi isto na tv há uns anos.

segunda-feira, novembro 21, 2005

O Cedro e a Lua - I - Nota Prévia

O Cedro e a Lua é o registo diarístico do meu segundo internamento, entre 4 e 18 de Novembro de 2005, no Serviço de Tratamento de Alcoologias (Pavilhão 3) do Hospital Sobral Cid (Ceira, Coimbra). Por graça, chamo “ornitologia” à alcoologia. É piada pessoal, não ligueis.
Compor um diário não tem nada de especial. Mas expô-lo (sendo, para mais, de cariz alcoológico), pensando bem, para quê? Ou para quem? Na verdade, a pergunta sobrepassa o diarismo e atinge a geral literatura. Publicar (seja, em arte, o que for, realmente, para quê? Tenho esta teoria: para que o artístico exista de facto, depois de, de facto ou não, vivido. No meu caso-
-álcool, de facto-bebido.
Segundo internamento, disse. O primeiro decorrera entre 5 e 18 de Fevereiro de 2005. Já este ano, portanto. Fora o feliz culminar, por assim dizer, de uma longa e pedregosa ascese. Não tenho culpas a atribuir. Nem a nada, nem a ninguém. Ou se a algo, a tudo. E se a alguém, a mim.
Cheguei a Fevereiro provindo de uma amarga decepção sentimental e de uma amargurante desilusão pessoal/profissional. Para mais, via pouco ambas as minhas filhas, não por culpa delas nem por culpa das mães, mas pela (des)vida dita-literária que escolhi (e assumo, e carrego) para mim. De modo que saí do Pavilhão 3 a 18 de Fevereiro e aguentei a seco durante quase seis meses. Herói!
Paradoxalmente, as coisas começaram a correr-me bem desde então. Ofereceram-me trabalho como escritor de teatro e de matérias quejandas numa companhia muito bonita de/em Tondela, uma editora convidou-me para publicar um livro (aceitei, vai sair em 2006, espero), arranjei uma casa com lareira e gata e tudo. Ah, e retomei a companhia do meu amigo Jameson (irlandês, tripla destilação), um fulano de pele de vidro verde e olhos cor-de-ouro que, tomado em jejum, nunca desilude, bem antes pelo contrário. Antes que ele, Jameson, ganhasse o que eu perdesse, voltei a Coimbra. Ao Pavilhão 3, sim. De onde agora regresso com este Cedro e esta Lua. Para que se tornem definitivamente reais. E para vós.
À vossa saúde.


Botulho, 20 de Novembro de 2005

quarta-feira, outubro 26, 2005

Aviso

Avisa-se os utentes e as utentas deste Canil que o mesmo, por motivo de limpeza-desinfecção-desinfestação, se vai encontrar sem novidades cerca de 2 ou 3 semanas.
A alternativa é o Komissar Rex (na SIC, 14h00 de 2ª a 6ª).
Obrigado e até breve.



Daniel Abrunheiro
Tondela, 25 de Outubro de 2005

terça-feira, outubro 18, 2005

Luis Sepulveda Dixit

"Assistimos a uma perda evidente de identidade. E identidade nem sempre tem que ver com fetiches como os símbolos da pátria. A identidade está directamente relacionada com a memória pura, com o que sabemos de nós próprios. O mundo está a correr o sério perigo de se tornar uma nação de imbecis como são os norte-americanos, que não têm identidade porque renegam sistematicamente a sua história. O cidadão típico norte-americano só conhece a história do seu país nos últimos 50 anos. Mais nada. E, à parte de não viajarem e o mundo não lhes interessar, ainda têm essa tristeza existencial de manifestar uma espécie de orgulho do seu próprio isolamento. Há alguns anos, Portugal viveu o mesmo perigo quando Salazar definiu a forma de ser dos portugueses: orgulhosamente sós. O mais preocupante desta sociedade mediática em que vivemos é que se está a perder a espontaneidade e a capacidade de nos expressarmos de uma maneira não tanto inteligente, mas inteligível."

in Mil Folhas, Público, 15 de Outubro de 2005

sexta-feira, outubro 14, 2005

Higiene Íntima com Agradecimento

Sacode do escombro os cárpatos da caspa
raspa do peito pelames moleques
espargos remelam purúleos a vista
cerúleo orelhame preenche os musseques.

Das v'rilhas viris desvara o bodum
nestum tu retira d'axila pilosa
murtosa fialha cebôleo carnum
com caco de vidro desvitra a sebosa.

Dedinhos patudos bojudam terrume
esterquinho de prata platina o nalgal
desfolha pencoelho de seu outonume
ketchupa esmijanço da ponta do pal.

Desmosta o pingúrrio do fosso nasal
Tira às bargalhotas o rodo al montado
No fim queima as meias fora no quintal
E toma um banhinho e muito obrigado.



Tondela, tarde de 13 de Outubro de 2005

quinta-feira, outubro 13, 2005

O Jantar do Vendedor

Júlio Roventa, vendedor de máquinas de fritar, janta só no restaurante Desiderato, à saída da auto-estrada em trevo. Músicambiente: Nancy Sinatra, Barbra Streisand, Alcione, Los Malacuecos, Pai da Nancy e Tony Bennett.
Entra de queijo de ovelha, broa de milho, azeitonas esfregadas em alho, cebolinhas de vinagre. Mete água mineral e vinho negro. Sorve sopa de espinafres. Quis cozido. Mastiga.
Em torno, um grupo de saxofonistas repesca fanecas fritas de montículos de arroz branco. E um casal aposentado que lhe dá no lombo assado com batatinhas douradas e grelos. Saudades de Mueda, 1968. Um empregado de mesa e uma empregada de mesa. Ele, alto e quebrado e amarelíneo como um palito usado. Ela, cavalona roliça de 1,54m. Servem bem, com dois sorrisos estatísticos e uma expressão de joanetes dolorosos.
A noite avança para a heteronímia de balcão-frigorífico: mousses de chocolate e ananás, doce-da-casa, baba-de-camelo, pudinflã, 3sabores3, doce-de-bolacha, molotófe, salada-de-frutas-com-molho-de-laranjada-superfresco, bolo-de-nozes, alberto-caeiro e fruta (hoje só pêssegos). Júlio Roventa não arrebenta, mas, saciado um pouco de mais, procura encosto filosófico no café com conhaque-napoleão. Tilinta a colherinha no bordo cerâmico. Roda o balão, joão, na mão.
Atrás de tudo isto, quilómetros de estrada e um casamento estragado. Mantido a remessas de transferência bancária, porém. O mais velho tem 11 anos, a caninita apenas 4. Há que manter as aparências e as opulências de arregala-vizinho. Rita, a esposa-professora, galga namoro com um do directivo da escola, consabida associação carnal que só não mais alua por ele, o do directivo, ser também ainda e casado. Júlio sabe. Conduz quilómetros, factura roventas, cospe contra o vento da modernidade.
Uma tarde, ao quilómetro 118, parou a ver um incêndio. A GNR, muito fluorescente, muito rayban, comandava a fila. Ardia de bordo junto ao ráile. As chamas vermelhejavam como cunilingos, raivosas de resina: um espectáculo oximórico. Júlio lamentou a estragação ecológica, mas não se permitiu abandonar a estética do facto, que ardia. A noite que se seguiu ao incêndio parecia um casaco de cabedal com luzes. Ele lembra agora, sabe lá como, o incêndio.
No fundo, entristece. Piscou o olho ao 1,54m, que lhe devolveu uma insolência juvenil de comprometida. Isto de andar na estrada.
Depois é que é o carago. Quarto de primeirandar, pensão Primavera, vinteuros, águas correntes. O Rafael litografado sobre a cabeceira, a gardénia de plástico no jarro cagado das moscas, o capacho de ventosas no amarelo-porcelana do pólibã. O arroto a flã.
Piscapiscassaranica, minha pálpebra pesada. Pesadumbre, soninho vão. Amanhã tarda, hoje já não.
Nisto, ouve-se Tony Bennett. Ainda.
Botulho, noite de 12 de Outubro de 2005

Soneto com Cona e Salazar

Eu vi uma vez uma santa senhora
cuja cona dava até ao pescoço
cabeluda de peitos uma lavoura
vapor de nariz que largo que grosso.

Toda uma festa manifestação
e bruta de ser pesada de pés
no todo era uma estragação
a falar não contava de um até dez.

Nada disto fende tende ou jura
é só memória que escreve não mais
se rimar de força nos dá sinecura
sinapismo que torça montes vendavais
que cona tão grande é uma ditadura
contr'o nosso povo, salazar nunca mais.



Botulho, noite de 12 de 2005,
porque sim e porque o ódio faz bem ao coração

Do Valor do Estudo da História

O cuspo direccionado
libertado com razão
cospe fogo libertado
queima d'água o pulmão.

Há que ter força excrescente
quem não escarra não é gente
e é preciso libertar
a força oculta sindical
cuspir fora não faz mal
bem pior é não lembrar.




Botulho, noite de 12 de Outubro de 2005

Paralex

Quem nos dera a clarividência fosse
como o anis
isto é
para consumo da casa
sou como sabe
um animal ex-tinto
o que mais bem me permite dizer
coisas terríveis e ócuas
soltaram-se-me os cães
round the corner
é uma maneiringlesa de falar
já reparou decerto
na quantidade
de shópópticas que abrem
por que será
será
whatever will be will be
em terra de cegos
quem tem uma lente é mon'arca
noé?
o resto é a vidinha da cidade
o sacrocomércio
jeans carlos magno
pólos amundsen
mas tudo isto já (se) sabe
nem em si cabe
de contente
o conhecimento menos que o reconhecimento
falo daquele
à chuva à porta
na noite do mosteiro
filme que me contou
a par daqueloutro do
outro que tresandava a peixe
fumado injectado
tresandava e tresandou
oito dias depois
à porta do banco
como um pedinte
de migalhas cardíacas
à mesa peitoral da rainha
que cruéis podemos ser
verdade?
os brancos pés em sandalinhas de ouro-pele
as coxas dóricas
os joelhos jónicos
o coríntio púbis
a vulva grega
a cama de hotel esticadasséptica
os sabonetinhos de roubar
a mão que puxa o ombro
o sangue rosando os joelhos
a queixa doce esmagada de fadiga
amêijoas cortando o braço
a imensa normandia para um
desembarque impossível
depois as nossas mães
cativando o fruto de vosso ventre,
jesus.

Na volta da noite
around the corner
o rapaz que desce as escadas
sem sobremesa
as palavras muito aflitas
dentro dele
chamem os bombeiros
despeçam a polícia
era só perdição
não era malícia
e então como sempre
as tardes areadas como tachos
as noites-néon
gintonificadas
um círculo de giz estremava a loucura
lembro-me de um comprido muro
pintado de amarelo-bílis-the-kid
a quimera do brasil
a decência dos aristobailes
o cumprimento de onda
os cavalos também se abatem
horace mccoy
jane fonda na protagonista
antes de lhe dar na corneta
a ela jane
pás cassetes aeróbico-ted-turners
mais o senhor henry james
e o senhor borges e o senhor calvino
palomar para os amigos
e o senhor julio sem acento
cheira a lima a vizinha de cima
a cartaxo o vizinho de baixo
uma andorinha no chile
um albatroz na noruega
e o coiso na áustria
um apartamento em tróia
e um protesto
do meu mais sincero
atenciosamente



Tondela, tarde de 12 de Outubro de 2005

Rima-Cães

1 em LO

Embalei o coração em açúcar amarelo
pelo correio te vou mandá-lo
paguei os porte e selo a quilo
faz favor de andar co'ele ao colo

2 quase em IGO

Elas laboriosas não cedem palmo de terra.
As palavras, digo.

3 em ADO

Eu vinha para a feira
fui autuado
troquei perfil por frente
fiquei de (so) lado.

4 em ADA

Homens iguais a carapaus de cebolada
conversam da guelra e da paz
iscas de fígado alcatraz
pague à saída receba à entrada.

5 quase em UM

O coração bate-me
a mim que lhe não fiz mal alg1.



Tondela, tarde de 12 de Outubro de 2005

quarta-feira, outubro 12, 2005

Histeria da Literatura Portuguesa (ou então, Porra Porra Porra Foda-se)


o goucha escreveu o em banho-manel
e o doces sem açúcar
ganhou a aposta aparece muito mais na tv
que o quitério
o lobantunes sofre muito e coça-se muito mais
é mais querido em israel do que o saramago
aquele cujo avô abraçava as árvores
vejam-me lá se isso é coisa que se faça
o herberto helder está desaparecido
desde que nasceu com a cabeça entre as mãos
no café gelo
aparado pelo lacinho-braboleta do baptista bastos
o abelaira escreve em falsetto
assim com dois tês parece apartamento
da ttorraltta não parece
mas a cidade das flores nem está mal
lisboa à italiana
com casais que mal copulavam
desatavam logo a falar de política
como nos pá-lopes
o problema é a mania que eles têm de morrer
o cardoso pires sempre muito scotch-bruto
a ver as letras escritas ao contrário de propósito
e lidas do avesso de profundis
o sttau monteiro com garrafas e garrafas de
óleo fula para o jantar
mas felizmente há luar
o bernardo santareno de grossas hastes
e cigarro chutado para canto
da boca
o ruy belo em queluz naquele verão
do mundial da argentina
o assis pacheco a almoçarar meia-desfeita
e a deixar-se escorrer ventinhos melífluos
de cós de calças na livraria
o torga sempre muita chateado
com as homenagens nunca bastantes
o eugénio de andrade sempre
a pensar nas cabras caiadas de cal
e nos rapazes brancos litorais de sol
e sul e etc e sal
o pessoa triste mas a gozar a um canto da arcada
a aguardente que bebi foi o campos que a bebeu
o cesariny que eu saiba está vivo mas
não é fácil
o luiz pacheco está arrumado num albergue
agora já não faz filhos nem deixa que lhos
façam
o camões recebe da segurança social
uma carta registada
que diz a sua tença está atrasada
favor verificar domicílio de
dom sebastião
os espanhóis gozam c'a gente como mouros pretos
de ceuta e melilla
uns são filhos-da-puta
outros têm uma puta-por-filha
a gente aqui c'o possidónio cachapa
e eles lá com o montalbán
a gente aqui c'o peixoto
e eles lá com o javier marías
a gente aqui c'as marias
judite
horta
velho
palla
Santíssima
e eles lá com a rodoreda e a rosalía
a gente aqui com o grass-moura
e eles lá com o rivas
foda-se foda-se foda-se foda-se
ca malha
mas enfim
havia o carlos de oliveira
que esteve em febres-cantanhede
como o meu amigo tó-mané que vive
e um rapaz chamado fernando que morreu
o carlos de oliveira desespartilhou-se
do neo-realismo
e amandou-se-nos com aquele trabalho poético todo
o manuel da fonseca deu-nos o largo
a larga seara de vento
que antigamente se estudava aos 13 anos
nas escolas oficiais
agora não agora nunca mais
agora não tarda nada é o agualusa
contra moscas melgas e mosquitos
é o joão a guiar o pedro paixão para NY
sobram o joão de melo em lágrimas de engatar gajas
e o mário de carvalho em pura graça
qu'é feito do zambujal do domingo desportivo
o dinis machado rebentou tudo c'o molero
o namora plagiava o vergílio
o vergílio destilava pus a conta-corrente mas era bom
a agustina porra porra porra porra
quem me cala a mulher
ca cheiro a mijo de gato
a pedrosa a dar instrução aos amantes
e o melga ferreira a dar-lhe o título
as manas pinto correia o glamour o drama o horror a tragédia
a batata assada em papel de prata
o NYTimes embrulhando chicharro de cacharel
só falta o represas escrever poemas para o
vítor de sousa ler no elevador
o júdice que queria ser gastão
aqueles telerapazespivôs das oito da noite que escrevem romances-próteses
o sousa tavares é co'a dor
de corno talvez
1-2-3-macaquinho-do-chinês
afinal o roberto carneiro foi ministro da inducação no
intervalo de fazer filhos
o deus pinheiro também no
intervalo dos 18 buracos
a ferreira leite também não
se sabe porquê
e depois é isto
é o carlitos pinto coelho fotógrafo de casamentos corrido
do acon(a)tece pelo
mogais sagmento
é o frágil esteve-cardoso a orelhar romances
inacreditável comóque a sírialvim foi na conversa
mas infim
cada um é pó cu-lhe-dá
esporremos que não volte a acon(a)tecer
o jorge de sena tinha bué de razão e razões
o rodrigues miguéis esse excelente rapaz
teve de readersdigestar para digerir
ninguém sabe nem conhece h. silva letra
o d'a palavra fascinante editorial inova porto
n. em 1927 em vieira de leiria
ninguém s'apercebe de que o antónio osório
é um bem maior do que
a ignorância da morte
a ignorância da vida
qualquer dia até o herman josé escreve um livro
o quê
ai já escreveu
qual é que é
ah
é o herman josé saraiva
aquele das anedotas da história
o fialho de almeida e o pinheiro chagas e o camilo muito
ressabiados c'o eça
por causa de o eça ser melhor
que vinho do porto em umbigo de shania twain
o ferreira de castro absoluto n'a lã e a neve
o soeiro tão certo nos esteiros
o redol tão dos-passos nos gaibéus
mas nisto tudo acabei por ouvir o castrim
em casa dele mesmo
avenida luís bívar lx
uma vez que lá fui levar-lhe um livro
a dizer bem do goucha
de modo que não sei
porra porra porra porra.




Tondela, manhã de 12 de Outubro de 2005

A-Manhã

Diz-se que não se sabe o dia de amanhã
ah mas eu sei
é hoje
e ontem eu já sabia
vocês também
recapitulemos
minimercado
folhas de fiambre
senhora de prata à janela d'água
vendo o verão
compro o inverno
um livro para ler
outro para escrever
a roda dentada das horas
as carrinhas de abastecimento
o comércio sossegado
o barbeiro e seu empregado
lá está o rapaz do gato fedorento
a serra ao longe duplicada
pelas nuvens espessas castelãs
o alcatrão estanhando as ruas
tudo muito tranquilo
muito católicuménico
se não é isto a felicidade
rai's partam a felicidade
tempo de chá lareir&conan doyle
gato no colo água nos vidros nos olhos
a manhã contém ainda a noite
a manhã contém já a noite
o mais é amanhã
eu conto



Tondela, manhã de 12 de Outubro de 2005

Explicações - um Soneto Pedagógico

No silêncio branco de nossos têuns
carburamos a longa explicação
são seti50 à hora, atuns,
que as cavalas são noutra secção

Os burrinhos bebem logaritmos
azimutes sinédoques mas tudisso é sem
metáfora com veia de geo com istmos
13 a Descritiva pois fica-se bem

Filhos da urbe crescem na farinha
blocos urbanos crescem lá também
há que nutrir a massa tenrinha
tentúgal, setúbal, santiago do cacém

O resto é Plauto, Catulo e Séneca
Chumbas à primeira, há segunda época.



Tondela, tarde de 11 de Outubro de 2005

Domingo

O meu cão teve tosse e dias bons.
Uma pessoa não se livra da infância.
De noite fechava os olhos, vinham sons.
Comboios urdiam a distância.

Arroz de frango, água-torneira.
Pão de hoje duro de ontem.
Calendário descuteiro conscuteira.
Dias que passem, noites não contem.

Na cinza breve, minha ermida,
choupana glauca, minha vida,
o coração é pó rubro, sossega.

Atende e fala à despedida.
Os livros são p'ra ti, minha querida.
Espero domingo a tua entrega.



Tondela, tarde de 11 de Outubro de 2005

A Pureza

Também há a brutalidade da pureza.
Socorre-lhe a remediação.
Mas, por outro lado, pois com certeza.
Favor de entrar, pois como não.
Tondela, tarde de 11 de Outubro de 2005

Relatório Vespertino

no mesmo sítio
mas à tarde
um imbecil de camisola creme
ladra um monólogo
transcrevo
paga o quê? você por dois euros e pouco já compra uma garrafinha em condições de bom tinto é tudo muito bonito as pessoas falarem batatas a 20 cêntimos e ainda gozam xis quilos paguei xis e ainda gozam c'o agricultor o meu sogro e eu se fosse a rogar pessoal e tractor mais o conserto do tractor que é que se ganhava com isso por meia dúzia de quilos de cachos se fossem todos a pensar como você você havia de ver o que todos comiam eu nunca disse nada não era agora que ia dizer
o imbecil é português
diz hífen entre possa e mos
e queira e mos
e não se cala
e eu lapijo a mijo a minha pátria
átrio de pobres cobres
e de tractores por consertar
recreio de histórias de portugal
vendidas a quilo pelo círculo de leitores
escrevo na maré baixa
patinham-me o caderno caranguejos
de moleirinha mole
sargaço-me todo nos contrafortes da serra
maresia ia mares
lá longe ao cair da tarde
dentes de ferro comedido
gargantilha fátua feérica
no mais
gente histérica
só sei que chove
chove bem
o dia merece a sua lenta cortina louca
onde as mulheres de ninguém espadanam
sua beleza rectilínea
sua botânica beldade
de leopardo convertido à roma de
um verso
final
xis quilos disto.
Tondela, tarde de 11 de Outubro de 2005

terça-feira, outubro 11, 2005

Relatório Matinal

o verão que pendure de vez as botas
assim está-se bem
o ar já não é amarelo-febre
é cartão-caixa-de-sapatos
é humano viver de novo
claro tudo isto é relativo
a caminho do minimercado
a comprar fiambre
vi uma senhora à janela
entre cortinas gázeas seu rosto clássico
flor de prata antiga
talvez esperasse o sol que despedi
talvez esperasse o outro verão
o verão 1943
em que terá sido feliz
não sei
numa casa abandonada
no extremo baixo das escadas
vi dois gatos infantes
comendo arroz de alguém e de ervilhas
dois animais vivos no susto demorado da infância
depois vi um pederasta de gabardine
ao balcão do totoloto estava
tentando a sorte os milhões outra vida
como se esta não fosse a única
tinha óculos fumados
olhos fumados
dedos de nicotina
mãos de menina
não tinha grande saúde dentária
tentou sorrir saiu-lhe azul-cárie o ricto
boa gabardine porém
de detective sem crime
pá perna costela acém
de cachimbo sem lume
de membro sem receptáculo
de pilinha sem furinho
de cu de menino
eu não joguei o totoloto
aposto pouco deve ser da idade
do tempo caixa-de-sapatos
ou do sol quando faz sol
queixo-me em silêncio só para dentro
de uma perna
distendeu-se-me um tendão
como uma toalha mole
talvez volte à piscina
a molhar o bacalhau
se bem me lembro era bom
dentro de água o corpo natatório
e cá fora chovendo
a chuva municipal da província
o corpo dentro do azul-cloro
e cá fora chovendo-claro
as casas antigas com senhoras clássicas
à janela
entre gazes
olhando 1943
acabei por comprar o fiambre
oito folhas dezasseis páginas
uma porcina literatura translúcida
que li com os dentes
enrolei em suco digestivo
assimilei sem esforço nem glória
a caminho deste relatório
que escrevo sobre baquelite
enquanto fumo um cilindro de palha
foi-se embora o pederasta
ficou a senhora da lotaria
tem uma filha pequena
como ela flava como ela fulva
gatinha ruça pequena a vulva
que conta até dez
como se fora no circo
e a tarola da orquestra rufasse
o sem-rede da vida
pequenina de quatro cinco anos não mais
delgada como uma anchova branca
um arenque de sapatinhos vermelhos
e eis que chove
a fina chuva humilde do nosso país fadista
ainda há gente de manga curta
não está frio está-se bem
é bom entristecer sem dor em outubro
alma-caixa-de-sapatos
clemente cançoneta na tv
uma canção de amor sacudido a palmas
nas portadas de vidro do banco
cartazes com a cara do rapaz do gato fedorento
estanhado de água o alcatrão das ruas
os pneus fazem frufru de saliva de borracha
uma pomba gástrica pousa consolada
num telhado pintado de tijolo
a mulher do sul o homem do norte
a terça-feira muito estabelecida
muito esponsal de sua pluviometria
ainda a vida mais um dia
amor de mãe angola 1967
moçambique 1971 I-love-e-um
em casa arrumadinhos
os autos de gil vicente
as tragédias de sófocles
e a lata de ovas de bacalhau do intermarché
recordo um corrimão de madeira
que raspei envernizei num outroutubro
foi há quatro anos
o tempo que fazia era o de hoje
estão as pontes atiradas
2001-2005
um rio sobre elas corre
a pessoa atira o eu ao mar
deriva à flor das águas como uma cortiça
com um galo em cima
também eu senhora
tenho o meu verão 1943
quem o não tem
não é filho de boa mãe
olhai-me esta árvore
negra de tão verde
pinga cachos de sementes
pluvigotículas lhe pranteiam o perfil
assombrada visão verdenegra
sobre chumbo de céu
automóveis prateados como sardinhas
dormem o sono tecnológico de aluguer de longa duração
enquanto não retornam seus amos bancários
que trabalham no reverso do rapaz do
gato fedorento
a perna está-me melhor obrigado
cozinho às vezes rins em cerveja
alho banha colorau sal
marlon lume lume brando
banho-maria-das-dores
senhora-dos-aflitos
gritos de cães enjaulados na noite de correntes
memória e ablução
história e absolvição
a maria-da-fonte não foi por sindicância
nem comunismo
foi por superstição
não queriam os mortos enterrados
em salubre cemitério
queriam-nos na igreja como santinhos de pèdropeito
revejamos a história a memória a ablução a absolvição
rommel suicidou-se à força
e churchill sim também era
racista
não fosse ele inglês
tudo existe ao mesmo tempo
o tempo de resistir é outra história
o tempo dos verbos é o mesmo tempo
só que de outro modo
conjuntivo indicativo não interessa
imperativo é-o ele sempre
havia o diário de lisboa
o dinis machado molero rapaz
a chuva de 1935 quando morreu pessoa
o verão 1943 daquela senhora
pessoa finalmente liberto/a
escravidão do inefável
heterónimo como uma abelha
todavia fado
tiraram-nos dos prazeres
que aliás não fruiu
depuseram-nos nos coisos jerónimos
pobre tia anica pobre ophelia
1888-1935
parece pouco visto daqui
tinha parado de chover
voltou a
agora mesmo
está-se bem assim
no cinzumbre
a meninarenque vai almoçar
rissóis de caramelo com salada de legos
ela conta as folhinhas verdes
diz que quer mousse instantânea como ela
é 1943 agora para a menina
manhã acabada
fiz o meu relatório
a ninguém devo nada.




Tondela, manhã de 11 de Outubro de 2005

Outra Gaja Boa

Apareceu em alto aparato de cavalo.
Toda uma carne ocupou o ar da respiração.
Uma morenidão vasta, queimando em derredor.
Uma ganga lavada e tensa enroupando as colunas das pernas.
Os bolsos de trás, muito apertados pela sessão das nádegas, asfixiavam o cartão multibanco, o bilhete didentidade.
Sapatos escarlates expondo o peito de cada pé: nervuras tenras de galinha alta.
Cascabelata ombreando as mamas fixas a cuspo ao tronco, em cujo bojo nenhum decerto coração.
Eu vi.
Ficavam-lhe ruças as coisas ao toque: a chávena de ouro, a colherinha de prata, de manhã cobre, à noite mata.
E depois aquela fadiga denga de cabeleireira, aquele lóquio de revista, aquele delta-éclair que firme e imprime a boa mulher.
Eu vi, eu contei.
E agora esqueço.
No fundo do fundo, um poço não posso.
Mas estremeço.



Tondela, tardinha tesífera de 10 de Outubro de 2005

A Realidade e também Jorge de Sena

A realidade esperava-me à saída dela.
Tinha dias.
Um rasto de lenha queimava a lembrança do estio.
Cegarregas sem-abrigo, formigas varridas pelo ar de forno, julho, fevereiro, agosto, tudo igual.
Jorge de Sena dactilografando o cancro pulmonar em carta para um zé no ano 1978.
A mercê de Mécia.
Os livros e tal.



Tondela, tarde de 10 de Outubro de 2005

Panteão Nacional

Tomás Taveira fica nos anais.





Tondela, 10 de Outubro de 2005

Soneto com Virtude e um Verso Suplementar como no Totoloto

Tanta santa virtude
tanta vidànoite.
Um lapso capaz
de contumaz relapso.
Tanto açoite.

Amora silvestre.
Salsicha alemã.
O coxo é mestre.
Abelha é anã.

Soneto se posso.
Não posso arreio.
Cuspirforéfeio.

Mas dou o qué nosso.
Cusponoquévòsso.
Chega de paleio.



Tondela, tardinha molhada de 10 de Outubro de 2005

Exercício

Te tenha a graça em fundo descanso.
De ti se amerceie o canal tão soez.
Que ele há poeta que é só rimanço.
Tu conta até zero e contoutra vez.




Tondela, tarde de 10 de Outubro de 2005

Poema com Deus

Deus me livre de alguma filha um dia
me escrever um poema assim
é mais só por elas
nem é por mim

mas como (bebo) dizia
Deus me livre de alguma filha um dia

ver na tarde declinante
o espumante poente
caramulado paciente
acintoso diamante

tarde raspejante coramina
renôs clios estacionados
e um vademecum de irmana
nos planos mais inclinados

no resto coisa igual
um sartório de surpresas
porra dizem as marquesas
no tempo do zolagerminal

é muito livro é muita coisa
muita serra da lousã
muito declínio prístino embora
muito sapo-sape gato-rã.



Tondela, tardinha pluvienta de 10 de Outubro de 2005

Temporal

Pedi chuva, chuva veio.
Tempo deu temporal.
Árvores oblíquas de vento.
Poucas vezes pedi que tivesse.

Pedi fresco, fresco faz.
A hora é grave, enevoada.
O corpo saúda a aragem.
Poucas vezes saudei que me saudasse.

Agora peço nada.
Tenho o que mereço.
Uma água diagonal, a cara fresca.
Nunca peço apenas nada.



Tondela, tarde de 10 de Outubro de 2005

Leite

Dormi em casa de minha mãe, de ontem para hoje.
Teve de ser na sala.
O meu irmão solteiro recuperou o quarto de antigamente.
Éramos três a respirar nocturnamente: a Mãe também conta.
A estante da televisão segurava os manuais escolares envelhecidos: latim, língua francesa, conversação alemã, física-química, geografia, economia, civilização.
Dormi aos pés dessa escolaridade anacrónica.
Dormi pouco.
Levantei-me para um copo de água, uma banana, uma inclinada versão de ureia.
Adiantei o volume 263 da colecção Vampiro (O Cigarro Denunciante, de Peter Cheyney).
O sono demorava como o futuro.
De olhos inutilmente cerrados, revi alguns filmes.
Inquietei-me, sosseguei-me, virei-me para o ladoladoladolado, barriga para cima, pensamento à flor da manta, cocei a barriga, entrevi lapsos de um erotismo triste, ruminei partículas biográficas que nenhum editor aceitaria sem ser por dinheiro.
No fim, dormi.
Acordei com uma caneca de leite morno perfumado de maternidade.
Era Ela, pronta para o novo dia.
Percebi.



Tondela, tarde de 10 de Outubro de 2005

sábado, outubro 08, 2005

O Crime de Negritarias (work in progress)

Uxoricídio seguido de suicídio. Cabo mata mulher e depois, voluntário viúvo por segundos, mata-se.
No café da aldeia de Negritarias, tinha bebido cerveja e aguardente. Militar de profissão, trazia sempre a arma, que sacava muitas vezes ao balcão da taberna. Nessa noite, bebeu calado e não mostrou a pistola. Pagou a despesa, levou o carro até perto de casa, deixou o carro a trabalhar na estrada, subiu as escadas para o primeiro andar da vivenda coberta de azulejos e entrou na escuridão. A filha de pequeninos anos já dormia no quarto infantil. Também a cabeleireira dormia já. Ele acordou-a. Disse-lhe saber que ela andava a enganá-lo com outro e que ia matá-la. A primeira coisa era mentira, a segunda tornou-se verdade logo a seguir. O cabo disparou um tiro suficiente, a cabeça da mulher recebeu o metal ardente, e o sangue ofereceu ao lençol a rosa do costume. Depois, o homem abriu a boca, fechou o cano da arma contra o palato e disparou. Caiu para trás, não partilhando com a mulher, uma derradeira vez, o leito conjugal. Antes, tinha fechado à chave a porta do quarto.
A menina acordou às oito da manhã. Deixou-se estar, gozando o feriado uterino da cama, até que a bexiga a fez chamar “Mamã!”. A mãe não veio. A menina levantou-se e foi bater à porta do quarto daquela que não vinha. Uma linha vermelha cobreava do interior por baixo da porta. A cor da cobra fez a menina pensar no verniz de pintar as unhas que a mãe partilhava com ela. Olhando o verniz, a menina mijou-se pernas a baixo. O mijo misturou-se no soalho com o sangue do pai. Não era verniz.
A vizinhança não estranhou o carro parado na estrada. Não era a primeira vez. Ninguém tinha então razões para saber que havia sido a última. De modo que ninguém fez nada. Mais de trinta horas depois, um vizinho velho passava à frente da casa quando viu a cabeça da menina à varanda. Em bicos de pés, a menina disse: “Quero papa.” O velho perguntou: “Os teus pais onde é que estão?” A menina, pálida como um lírio mas flagrante como uma rosa, respondeu: “A fazerem ó-ó.” Então, o velho subiu as escadas, esticou os braços até à varanda e resgatou a menina. Levou-a para casa, disse à mulher que desse leite e bolachas à criança e foi ao café telefonar à guarda.
O senhor Leal Casimiro ouviu a notícia na rádio local. No dia seguinte, leu os factos num jornal nacional especializado em sensações. O jornal publicou as fotos dele e dela, mas não a da filha que vagueara de fome pela casa dos mortos mais de trinta horas. A cara do assassino suicida era de fuinha. A cara da assassinada era uma cara de cabeleireira. Vinham também um grande plano da vivenda forrada por fora de azulejos e uma caixa pequena com as caras do vizinho salvador ladeado do presidente da junta e da mulher do presidente da junta, os três com cara de caso. O senhor Leal Casimiro fechou a loja de utilidades. Nem se deu ao trabalho de voltar para fora o rectângulo de cartolina azul “Volto Já”. Meteu-se na 4L e rumou a Negritarias sem saber por ou para quê. Havia muita gente na praça central da cidade.
A aldeia estava mais desamparada que de costume. O vento gania nas oliveiras como um cão vegetariano. Reconheceu logo a casa do caso. Procurou o vizinho velho, que lhe repetiu de cor toda a história do crime. O senhor Leal Casimiro observou isso: o velho repetia de cor a reportagem do jornal. Não era para menos, aliás: até tinha vindo no jornal. O senhor Leal Casimiro aceitou um cálice de vinho do Porto, recusou o palito la reine e pediu para ver outras fotografias da família que já não era, se ele as tivesse. O velho tinha-as. Era padrinho de baptizado da morta. Mostrou ao senhor Leal Casimiro uma da menina, quando ainda de colo, ao colo da “pobrezinha afilhada”. “Pobrezinha, de facto”, assentiu o senhor Leal Casimiro.
Esse amanhã do crime foi dia de uma manifestação do povo de Negritarias às portas do tribunal da sede de concelho. O povo queria justiça. Ninguém pareceu lembrar-se de que não haveria julgamento. A polícia municipal dispersou com calma o povo junto. O funeral era a derradeira justiça.
A cabeleireira era natural de Negritarias, freguesia de Vale Cão. Muita gente seguiu o carro funerário, o padre e os presidentes da câmara e da junta. O ar da capela estava saturado de flores que murchavam a olho nu. Candelabros de prata não esfregada suportavam velas míopes. O rosto dela parecia encerado pela evidência da extinção. A chuva compareceu à cerimónia, pelo que a terra se volveu lama. Homens e mulheres vestidos de preto como guarda-chuvas humanos morcegavam lugubremente contra um fundo alto de gelatina cinza, atrás do nada: um espectáculo ao preço da chuva.
Ele não era de Negritarias. Era do norte do país. Foi enterrado longe das maldições impotentes do povo de Negritarias, freguesia de Vale Chão, concelho natal do senhor Leal Casimiro.
A criança foi entregue à custódia dos avós maternos. Tempos depois, soube-se que os pais do cabo reclamavam para si a netinha. Houve indignações de missa e sermões de taberna em Negritarias. A Assistência Social foi determinante no caso. O tribunal, tempo depois, confirmou Negritarias como terra da menina. O senhor Leal Casimiro, no sossego sombrio da loja, achou bem. A vivenda do crime foi vendida a um casal de emigrantes, que no retorno de França procedeu a obras por dentro e por fora de modo a que nenhum azulejo nem vestígio de verniz algum pudessem assombrar-lhe a aposentação.

sexta-feira, outubro 07, 2005

Buscão

Chegou a hora de eu ir buscar um papel branco recoberto de fios pretos.
É num sítio perto do corpo.
Esta hora chega-me como o mar.
Eu fixo o corpo. Ela chega.
O papel estende-se como uma toalha ou um animal desejado.
É então que eu saco os fios pretos.



Tondela, tarde acabando-se de de 6 Outubro de 2005

Nuno Moura - um verso de

Tu começaste a ir de noite para os teus dias.
in Soluções do Problema Anterior, ed. &etc., Lx, 1996

As Mãos de Nick Cave ao Piano (work in progress)

Quantos de nós olhamos as próprias mãos, sem ser quando elas se lavam? Acontece-me muito olhar as minhas. Sou-lhes grato: alimentam-me, lavam-me, vestem-me, calçam-me, penteiam-me, folheiam-me os jornais e os livros, afiam-me os lápis, põem música a tocar, como outrora a cassete de Nick Cave. Tecem, soltas como aranhas, a teia mental: a caligrafia. Quão manuais somos? As mãos vêem no escuro. Dão sentido às chaves, aos interruptores, às persianas, aos copos de água das brechas do sono, ao outro amado corpo. Às vezes, na televisão, só filmam as mãos do pianista. O resto do corpo, invisível e cego, tem quatro mãos: na madeira polida como sapatos de casamento, aparecem (reflectidas, reflexivas) as duas outras, as do avesso da música: as que tocam as pausas. Outras vezes, surgem na rua enluvadas de couro negro, tornando parisienses as portuguesas. Outras vezes ainda, aranham-se, arranham-se, emaranham-se: essas são as vezes em que o amor as faz explodir como polvos, acácias ou estrelas. As mãos também gritam e sussurram também: as mãos do agressor, as mãos da mãe. As mãos, como as mães, afligem-se antes de nós. E nós, nós somos apenas o que está depois das mãos. Quantos, vivos, as olhamos vivas?

quinta-feira, outubro 06, 2005

Futebol

As formigas verdes querem comer, ou pelo menos matar, as brancas, que vêm contentes da casa das encarnadas, onde mataram e comeram na semana passada.
José Alves trabalha na Mutual e é fiel ao seu balão de anis, que toma ao balcão do senhor Assis. José Alves, branco, encarnadeja acintes ao senhor Assis, que, encarnado, branqueja de raiva.
Nisto, entra Filinto Elísio, um poeta de outro século. Não percebendo a discussão, sai de cena e vai tomar capilé a outro sítio, que alguém pintou de azul sem ser para provocar ninguém.
Botulho, noite de 3 de Outubro de 2005

Ornitologia, Pavilhão 3 - Segunda Versão

Houve um tempo em que vomitava tanto à noite, que as borbulhas das costas me apareciam de manhã nas orelhas.
Eu vivia, então, em plena euforia trágica, a que não era alheia a minha ornitologia. Quero dizer: levantava os olhos para os pássaros levando na mão um cristal vermelho à altura da boca. Era o vinho, meu Deus.
Outros homens faziam-no tanto como eu, escrevendo embora menos poemas. Mas esses tinham família, quiçá amores até. Eu tinha e mantinha os dois metros (maior e menor, 7 e 5) da redondilha clássica, a partir de que emaranhava rimas, primas, limas, climas e cristais encarnados. Anos disto.
Chegou então o dia número 5 de Fevereiro. Eram as onze da noite. Fui pela Nacional 1 até à margem ribeirinha de um largo maciço de arvoredo. Receberam-me bem. Era um homem vestido de branco como o papa, mas pouco propenso a sermões. Fez-me umas perguntas, revistou-me o saco à cata de eventuais binóculos de ornitólogo (mínimo 40º) e, não os encontrando, boavindou-me com um cardápio de regras de conduta, que acatei sem estrilho, que eu sou muito educadinho. Seguiu-se uma quinzena onírica.
Partilhei dormitório, refeitório e cafetaria com um rebanho de ovelhas de roupão iguais a mim. Todas ornitólogas como eu. Com os homens, conversei de trabalhos e dias. Hesíodo vivo. Com as mulheres, de casamentos e revistas. Fui gentil, comigo gentis foram.
Anoitecia de outra maneira, lá no Pavilhão 3 (Ornitalcoologia). Também de outro modo amanhecia. Uma manhã muito cedo, andei às laranjas com um bebepássaros chamado Carlos. As laranjas, frias de alba, eram esferas de ouro gelado. Apanhámos uma sacada delas, de que depois fizemos partilha com o rebanho.
Depois, licenciaram-me. Vi-me, de devolvido saco, ao sol. O autocarro colheu-me como a uma laranja. Segui viagem até lá baixo, lá onde o rio dava sentido à ponte, ao hotel antigo, à estação dos comboios, à avenida das seguradoras, à raposa embalsamada do barbeiro, à casa da mãe do Quim, à casa da minha Mãe.
Disse-me ela:
- Então, filho.
E eu:
- Olá, maior redondilha.



Tondela, tarde de 4 de Outubro de 2005

Ornitologia, Pavilhão 3 - Primeira Versão

É-me igual, agora: antes ou depois, igual. O corpo é o relógio do tempo do corpo. A biopsia deu negativo, mas as outras análises revelaram um fígado triste. Sem cancro para a troca, o médico, com uma severidade feliz, leu-me a bula hepática: “Anda aqui muito whisky, pá. Tens o fígado feito caca de pássaros. Hospital, quinze dias ou três semanas.” E eu, hospital. Assentei cama na especialidade de ornitologia.
Por exemplo, ainda esta manhã. Um domingo de Fevereiro. Esta manhã, vi pássaros. Um era negro, solitário e de boca amarela: um melro perfeito. Os outros eram um casal de peito cor-de-fogo. Todos eram livres, menos da obrigação de procurar comida. Os pássaros procuravam na relva. O sol explodia as duas acácias do jardim. Um cedro de troncos múltiplos pareceu-me uma mão firme cheia de anéis verdes. Fumei um cigarro durante o passeio. Só trago um par de cigarros no bolso do roupão. As pantufas do hospital, gastas de tão ancestrais, não se revelaram muito apropriadas para os passeios no exterior do pavilhão. Fui evitando as zonas afiadas do cascalho que borda os canteiros de flores. Como não tem chovido, o relvado não é uma ameaça para os ossos. Do chão, colhi uma folha de jornal com o mundo como o mundo era o mês passado. A enfermeira da manhã levou o grupo à cafetaria dos doentes. Um copo de café (bom, aliás) custa trinta e cinco cêntimos de euro. Já não há o escudo, que, multiplicado sete mil e quinhentas vezes, me dava um amor de motel. Os cigarros são ao preço oficial. Depois de almoço, voltámos à cafetaria com a enfermeira do turno da tarde. À noite, joguei a sueca com um colega ornitólogo contra dois adversários jóqueis. O Álcool ganhou à Heroína por dois riscos.
Quase todos temos filhos. Alguns ainda têm mulheres. Come-se bem. Pequeno-almoço frugal mas suficiente. Almoço bom, de carne. Merenda equivalente à primeira refeição. Jantar bom, de peixe. Antes de deitar, chá de casca de maçã com bolachas. Comprimidos são metidos para dentro com água do jarro. A temperatura interior é boa. Os quartos são aquecidos por radiadores montados na base das janelas. Cheguei ontem à noite, sábado, perto das vinte e três horas. Receava dormir mal. Dormi bem, afinal. Hoje, a sesta foi um algodão doce. No resto, deambulações amaciadas pela paroxetina. Tenho um livro para ler e outro para rever para a editora. Hoje, trabalhei pouco. Depois de almoço, peguei no décimo capítulo, mas o sono (o comprimido, talvez) estava a tirar-me acuidade. Fui dormir. Foi o que fiz melhor. Vi pássaros no sono. Conversei com os outros, integrando sem custo a comunidade de fígados filosóficos, a propósito dos divórcios repetidos a papel químico, do álcool universal, dos pássaros da manhã, dos comprimidos que engaiolam no sono da tarde a repetição dos pássaros da manhã, da carne do almoço, do jogo da sueca, do perfume a mundo exterior dos corpos casados ou solteiros das enfermeiras. Fumamos, ao fresco da noite, no terraço traseiro do pavilhão. As informações privadas vão chegando: de onde somos, por que estamos aqui. Para onde vamos, e quando, ninguém sabe. Nem os pássaros sabem, quanto mais nós. Só os gatos saberão.
Iço o olhar para o puré puríssimo das nuvens de um azul puríssimo. Terça-feira de Carnaval, H. foi-se embora. Pediu alta antecipada, assinou o termo de responsabilidade, o ex-sogro veio buscá-lo num mercedes velho de construtor civil com problemas de liquidez. H. tem um filho aqui em Coimbra, mas preferiu ir para Torres Vedras, onde tem uma filha mais pequena de outra mulher. Vimo-lo partir. Jurou: “Nunca mais bebo.”
P. recebeu a visita das duas raparigas dele: uma com o bebé dele de dois anos, outra grávida dele. Vieram no mesmo carro. São amigas.
C. também teve visita. A mulher trazia os papéis do divórcio para ele assinar. Ele não assinou. Ela aceitou ficar um bocado mais, deu-lhe tabaco e uma nota de dez euros, disse-lhe que o filho de três anos estava bem e que nem perguntava por ele. Gaja porreira.
Vi mais pássaros. Vi o mesmo melro. Adormeci mal, de ontem para hoje. Ou de ontem para amanhã: igual. Joguei dominó e damas com os outros como eu. Olhei mais para o céu. Ontem à noite, muitas estrelas nítidas. Pareceram-me iguais às de papel de que as crianças colam nas janelas das escolas. Hoje, as nuvens puríssimas no puré azul.
Na cama, revolvo o corpo no tempo. Os outros dormem ruidosamente. C. sopra pesadelos fanhosos de apneia. O velho M. suspira os nomes das filhas. Deram-lhe alta antes do Natal, mas nenhuma veio buscá-lo. Ele vai ficando. Viro-me para o lado da janela. O radiador emana sono. Recupero a menina de Negritarias, a ruça bêbada e nua dentro do volkswagen de miniatura, a montra poeirenta da loja do senhor Leal Casimiro, as minhas filhas, o touro de ouro, o sol que dava de chapa na igreja de Santa Isabel, uma sexta-feira de dezembro. E em vez do melro, a pomba.



HSC, Coimbra, 5-18 Fevereiro de 2005

terça-feira, outubro 04, 2005

Da Noite das Palavras

Da noite das palavras subo à flor espumante da manhã, amanhã.
Mais um dia consegui.
Trata-se de uma enorme vitória mínima.
Estou pronto.
A aldeia joga as cartas ao tempo.
O homem-rei-de-paus boceja no intervalo da lucidez.
A mulher-dama-de-copas cose a saia em casa.
O gato-valete-de-ouros brilha no escuro para matar de terror os duques-pardais.
A velha-manilha-de-espadas vai amanhã a sepultar, velam-na hoje na igreja entre círios e lírios.
Sou a sena-de-joker.
Estou-me a rir.
Jogo poucas vezes, mas assisto sempre.
Quem quer ver?
Eu mostro.


É de noite. O senhor da lenha recolhe ao casebre onde vive as horas definitivas da velhice. Já viu algum mundo: foi de excursão às Amendoeiras em Flor, ao Caramulinho, a Fátima e a Badajoz. Tem alguns vivos que lhe contrariam benignamente a solidão: sete galinhas e um cão, para além de incontáveis ratos malquistos no barraco da lenha e de, na cabeça, a recordação de milhares de juvenis ovelhas e cabras. Já no lar, em panela negra sobre trempe, coze uma posta de peixe-vermelho, a que junta duas batatas, uma cabeça de nabo e seis páginas de couve. Desrolhou entretanto o vinho, de que se serviu um copo. Esfaqueou a broa, de que leva agora à boca uma telha fina. A lâmpada do tecto constela de moscas brilhantes a habitação: os pirilampos da pobreza. Um sobrinho fez a ligação clandestina, o senhor da lenha não paga a pouca luz que gasta. Acabada a ceia, aliás, faz questão de desligá-la. Então, a choupana retorna-se milénia: um homem, um cão, um lume. Vive porque nasceu. Teve, jovem ainda, uma contrariedade de amor. A partir desse malogro, deu-se-lhe a inteligência do mais-vale-só. Aceitou a derrota. Cumpriu a tropa, regressou às ovelhas e às cabras, enceleirou os descontos para a Casa do Povo e atravessou meio século sem outra poesia que a de nunca ter sofrido uma dor de dentes. Ou esta ainda: ver passar o comboio. Ainda gosta de ver passar o pouca-terra. Saúda os passageiros invisíveis que ligam nenhures a sítio algum. O senhor da lenha está reformado. Não se queixa da esmola que o governo lhe cospe cada fim de mês. O senhor da lenha não se queixa de nada. Só esta noite, cozido e comido o peixe-vermelho, ele se deixa pensar um pouco menos distraidamente à lareira. Há mais de meio século, ele quis o amor da manilha-de-espadas.


Sobe, minha noite, tuas propícias dunas.
Resina-te toda, minha amada noite.
O teu vento branco nas tuas ervas púbicas, o teu cheiro a lua nos meus sovacos, a tua lama entre os dedos dos meus pés.
O teu corpo no meu.
Durante ti, saio à eira a respirar as tréguas de agora, entre círios e lírios, dormires.
Gosto de quando, e quanto, litografas de luar o catolicismo adormecido das póvoas.
Gosto (preciso) de saber que agora não, mas que breve rouquejará o galo a manhã muçulmana.
Recebe, minha noite de espadas, a ablução das minhas palavras inúteis.
Inúteis, sim.
Assim são, como todas.
Todas as palavras.
Como todas as noites.



Botulho, noite de 3 de Outubro de 2005




Fado do Acidente Mortal

Saiu da estrada a malvada viatura
Brita aziaga lhe tirou peso e altura
Hora acabada desgraçada hora sem cura
Bateu na berma resvalou prá sepultura

Era um casal desses que pagam impostos
Contribuições taxas e selos fiscais
Amantes lindos celestinos siderais
Ardiam alto cá na terra fogos postos

Ele Manel ela Maria os dois Teixeira
Pelo Notário e p'la Igreja teixeirados
Recém-casados trilhavam a cordilheira
Do ignoto fado do porvir esperançado

(Refrãogue)
Lá tem de ser
Tem de ser tem muita força
Força é que seja
É de bandeja
Tem de ser


Um renô novo um clio qu'le'zia a matar
A prestações não suaves de pagar
Mas tinham ajuda do padrinho prometida
Mal eles sabiam que lhes custaria a vida

Casa arrendada um tê zero um brinquinho
Naperões novos e um tapete cor-de-vinho
Louça a estrear bicicleta de cambra d'ar
Uma vida nova uma trova de encantar

Maria ia já de esperanças confirmadas
Disse-l'a doutora da Caixa sem previdência
Pois paciência que ele há muitas casadas
Desconsoladas sofrendo dessa apetência

(Refrãogue)
Lá tem de ser
Tem de ser tem muita força
Força é que seja
É de bandeja
Tem de ser


Ele não fugiu dessinorme responsib'lidade
A de ser pai e ser Manel em tão brev'idade
Dissêl'assim: ó Maria tem de ser
Marca-s'o padre antes qu'ele venha a saber

Bodas tão claras
Ó tão raras laranjeiras
Rosas floriram
Até de várias nespereiras
Manel Maria amor é consolação
Maria Manel pele com pele estremecente
Os dois um só coração
Agora extinto p'lo funesto acidente

A Junta diz qu'a estrada era municipal
Já não são corpos não são vida não são gente
Isto é um fado não é política é Portugal
O dono da obra é pior qu'ma serpente

Moral da história não há quem possa saber
O dia que amanhã vamos ter ou não ter
Ó funeral foram trezentas pessoas
Treze eram más o resto eram todas boas

O carro foi prá sucata
A vida é lata
Lá tem de ser

Refrãogue
Lá tem de ser
Tem de ser tem muita força
Força é que seja
É de bandeja
Tem de ser


Botulho, Noite de 3 de Outubro de 2005

Sonho do Anjo

O anjo quebrado pelo raio arrasta a miséria pelo picoto do monte.
Chove o rescaldo da tempestade eléctrica.
O piroliteiro estremece de vento.
É o único arbust'abrigo.
Ali se filtra a chuva tensa.
O anjo lesionado acolhe-se a ele.
Pica a face cor-de-rosa nos espinhos verdes.
Ele adormece.
O anjo adormece.
Sonha que voa.



Este anjo é para o meu irmão Zé Daniel,
que hoje, 4, completa 57 anos.
Botulho, noite de 3 de Outubro de 2005

Contrariedade das Abelhas

O cuspo da tua boca alimenta as abelhas trabalhadoras.
Tu dizes que não, que porcaria.
Limpas a boca com um lenço de papel.
Antigamente, os lenços eram de tecido.
Antigamente, ninguém contrariava as abelhas.



Botulho, noite de 3 de Outubro de 2005

Sófocles na Aldeia (Baseado em Factos Reais)

É um volume com sete tragédias de Sófocles. Ájax é a primeira. Na eira que cimenta em torno a casa, o cão vizinho, prisioneiro de não sei que culpa, arrasta a corrente grossa contra o tacho de folha. Estou na sala. A gata flutua como um pano pela casa. A rádio alinha Duran Duran. O tempo é uma redoma. Sou a flor seca na redoma.
Arranjei alguma lenha, mas é insensato pô-la a arder com este calor. Nem a noite alivia a pele. O recurso é cerrar as persianas, molhar de sombra as paredes interiores, lavar com água fria o prato sujo de ovo (com água quente, o prato fica a cheirar a aviário).
A camomila infundiu-se na caneca de barro preto. Venho à rua, facto que a gata aproveita para tomar de assalto a vinha estiolada. Já cortaram os cachos, deixaram o ouro das folhas, o cacau endurecido das vides, a condição outonal da minha vida. Da vida de toda a gente.
Sófocles, paciente de dois milénios e meio, espera na mesa da cozinha.
Tondela, tarde de 3 de Outubro de 2005

Visão, Retrato e Moldura do Homem de Fato Cinza

Perante os teus olhos filmo a visão ambulatória do homem de fato cinza.
Ele ficou velho.
Fato inteiro de fazenda fina, de uma prata que pulsa conforme a luz do dia, a noite da lua e o néon das salas de fumo.
Vê a cabeça dele: farripas muito brancas e muito magras vassouram o crânio já museológico.
Vê a pele dele: manchas castanhas agarradas à pele de linfático.
A velhice enxugou-lhe os fluidos das articulações, de onde os gestos lhe resultam marionéticos.
Basta-te ver como se dão os passos dele, como limpam involuntariamente o chão arrastado.
Óculos de leitor do Jornal de Notícias, dedos nicotinos, joelhos agudos como flechas de osso.
Boca seca, pescoço rugoso e sanguíneo de peru apertado pelo tão impecável como implacável colarinho duro.
Casado há milhares de anos com a mesma mulher, a qual suporta a esta hora, em casa, na estufa anacrónica de Outubro, a asma invencível, a obesidade sem retorno e a flatulência regular do gato.
Vê tu como me olho eu nele.
Espero que não.



Tondela, tarde de 3 de Outubro de 2005

segunda-feira, outubro 03, 2005

Excursão Breve

Foi ontem, ontem fui.
A 17 quilómetros, a Serra do Caramulo chamava.
A bruma entrapava de gaze a serra.
Só posso chamar-lhe, à montanha, encapelado, endurecido mar alto.
Nas encostas vi pequenos barracos de guarda de alfaias, vinhedos de ouro ferroso, algum milho.
Os vinhedos eram alas de videiras disciplinadas por fio de arame seguro a estacas de madeira fossilizada.
À beira da estrada, descendo a pé, um rapaz de braço enfeixado ao peito.
À beira da estrada, castanhas e nozes postas à venda por uma mulher que descansava a barriga e a muleta à sombra do entrefolhedo.
Castanheiros trepavam como pulmões à boca do ar.
Verdade significa: quantidade de verde.
Um tufo gordo de pinho manso ressoava silêncio como uma catedral.
Remanescia uma possibilidade respiratória, lá no Caramulinho.
A formiga em cima do penedo contemplava o mapa vivo da paisagem.
Depois, como sempre, como para sempre,
desci.



Visões: Botulho-Caramulo, tarde de 2 de Outubro de 2005
Texto final: Tondela, tarde de 3 de Outubro de 2005

sábado, outubro 01, 2005

Boletim Meteorológico Rematado com Saudades

O calor voltou com uma brutalidade assustadora.
O ar da respiração adquiriu a densidade do anis.
Viver fora das igrejas é má ideia.
Na rua, os cães alinham-se um a um em fileiras de sombra, como pensamentos.
Mostram a língua moribunda, presa de uma sede irreparável que só a amnésia saciaria.
Os homens mais velhos da vila, únicos que conservam o bom hábito do chapéu, sentam-se de boca aberta sob as latadas.
As moscas bordam-lhes os lábios brancos, que eles não enxotam nem sentem.
Um homem, de quem me disseram ter enlouquecido de propósito, diz boas-tardes boas-tardes boas-tardes a tudo o que mexa.
Passo por ele e retribuo-as.
O calor ondulou-me pregas de zinco na pele, fazendo-me pensar com dobradiças em vez de palavras.
Tenho saudades da chuva a dar no mar.
Tondela, tarde muito quente de 30 de Setembro de 2005