quarta-feira, outubro 26, 2005

Aviso

Avisa-se os utentes e as utentas deste Canil que o mesmo, por motivo de limpeza-desinfecção-desinfestação, se vai encontrar sem novidades cerca de 2 ou 3 semanas.
A alternativa é o Komissar Rex (na SIC, 14h00 de 2ª a 6ª).
Obrigado e até breve.



Daniel Abrunheiro
Tondela, 25 de Outubro de 2005

terça-feira, outubro 18, 2005

Luis Sepulveda Dixit

"Assistimos a uma perda evidente de identidade. E identidade nem sempre tem que ver com fetiches como os símbolos da pátria. A identidade está directamente relacionada com a memória pura, com o que sabemos de nós próprios. O mundo está a correr o sério perigo de se tornar uma nação de imbecis como são os norte-americanos, que não têm identidade porque renegam sistematicamente a sua história. O cidadão típico norte-americano só conhece a história do seu país nos últimos 50 anos. Mais nada. E, à parte de não viajarem e o mundo não lhes interessar, ainda têm essa tristeza existencial de manifestar uma espécie de orgulho do seu próprio isolamento. Há alguns anos, Portugal viveu o mesmo perigo quando Salazar definiu a forma de ser dos portugueses: orgulhosamente sós. O mais preocupante desta sociedade mediática em que vivemos é que se está a perder a espontaneidade e a capacidade de nos expressarmos de uma maneira não tanto inteligente, mas inteligível."

in Mil Folhas, Público, 15 de Outubro de 2005

sexta-feira, outubro 14, 2005

Higiene Íntima com Agradecimento

Sacode do escombro os cárpatos da caspa
raspa do peito pelames moleques
espargos remelam purúleos a vista
cerúleo orelhame preenche os musseques.

Das v'rilhas viris desvara o bodum
nestum tu retira d'axila pilosa
murtosa fialha cebôleo carnum
com caco de vidro desvitra a sebosa.

Dedinhos patudos bojudam terrume
esterquinho de prata platina o nalgal
desfolha pencoelho de seu outonume
ketchupa esmijanço da ponta do pal.

Desmosta o pingúrrio do fosso nasal
Tira às bargalhotas o rodo al montado
No fim queima as meias fora no quintal
E toma um banhinho e muito obrigado.



Tondela, tarde de 13 de Outubro de 2005

quinta-feira, outubro 13, 2005

O Jantar do Vendedor

Júlio Roventa, vendedor de máquinas de fritar, janta só no restaurante Desiderato, à saída da auto-estrada em trevo. Músicambiente: Nancy Sinatra, Barbra Streisand, Alcione, Los Malacuecos, Pai da Nancy e Tony Bennett.
Entra de queijo de ovelha, broa de milho, azeitonas esfregadas em alho, cebolinhas de vinagre. Mete água mineral e vinho negro. Sorve sopa de espinafres. Quis cozido. Mastiga.
Em torno, um grupo de saxofonistas repesca fanecas fritas de montículos de arroz branco. E um casal aposentado que lhe dá no lombo assado com batatinhas douradas e grelos. Saudades de Mueda, 1968. Um empregado de mesa e uma empregada de mesa. Ele, alto e quebrado e amarelíneo como um palito usado. Ela, cavalona roliça de 1,54m. Servem bem, com dois sorrisos estatísticos e uma expressão de joanetes dolorosos.
A noite avança para a heteronímia de balcão-frigorífico: mousses de chocolate e ananás, doce-da-casa, baba-de-camelo, pudinflã, 3sabores3, doce-de-bolacha, molotófe, salada-de-frutas-com-molho-de-laranjada-superfresco, bolo-de-nozes, alberto-caeiro e fruta (hoje só pêssegos). Júlio Roventa não arrebenta, mas, saciado um pouco de mais, procura encosto filosófico no café com conhaque-napoleão. Tilinta a colherinha no bordo cerâmico. Roda o balão, joão, na mão.
Atrás de tudo isto, quilómetros de estrada e um casamento estragado. Mantido a remessas de transferência bancária, porém. O mais velho tem 11 anos, a caninita apenas 4. Há que manter as aparências e as opulências de arregala-vizinho. Rita, a esposa-professora, galga namoro com um do directivo da escola, consabida associação carnal que só não mais alua por ele, o do directivo, ser também ainda e casado. Júlio sabe. Conduz quilómetros, factura roventas, cospe contra o vento da modernidade.
Uma tarde, ao quilómetro 118, parou a ver um incêndio. A GNR, muito fluorescente, muito rayban, comandava a fila. Ardia de bordo junto ao ráile. As chamas vermelhejavam como cunilingos, raivosas de resina: um espectáculo oximórico. Júlio lamentou a estragação ecológica, mas não se permitiu abandonar a estética do facto, que ardia. A noite que se seguiu ao incêndio parecia um casaco de cabedal com luzes. Ele lembra agora, sabe lá como, o incêndio.
No fundo, entristece. Piscou o olho ao 1,54m, que lhe devolveu uma insolência juvenil de comprometida. Isto de andar na estrada.
Depois é que é o carago. Quarto de primeirandar, pensão Primavera, vinteuros, águas correntes. O Rafael litografado sobre a cabeceira, a gardénia de plástico no jarro cagado das moscas, o capacho de ventosas no amarelo-porcelana do pólibã. O arroto a flã.
Piscapiscassaranica, minha pálpebra pesada. Pesadumbre, soninho vão. Amanhã tarda, hoje já não.
Nisto, ouve-se Tony Bennett. Ainda.
Botulho, noite de 12 de Outubro de 2005

Soneto com Cona e Salazar

Eu vi uma vez uma santa senhora
cuja cona dava até ao pescoço
cabeluda de peitos uma lavoura
vapor de nariz que largo que grosso.

Toda uma festa manifestação
e bruta de ser pesada de pés
no todo era uma estragação
a falar não contava de um até dez.

Nada disto fende tende ou jura
é só memória que escreve não mais
se rimar de força nos dá sinecura
sinapismo que torça montes vendavais
que cona tão grande é uma ditadura
contr'o nosso povo, salazar nunca mais.



Botulho, noite de 12 de 2005,
porque sim e porque o ódio faz bem ao coração

Do Valor do Estudo da História

O cuspo direccionado
libertado com razão
cospe fogo libertado
queima d'água o pulmão.

Há que ter força excrescente
quem não escarra não é gente
e é preciso libertar
a força oculta sindical
cuspir fora não faz mal
bem pior é não lembrar.




Botulho, noite de 12 de Outubro de 2005

Paralex

Quem nos dera a clarividência fosse
como o anis
isto é
para consumo da casa
sou como sabe
um animal ex-tinto
o que mais bem me permite dizer
coisas terríveis e ócuas
soltaram-se-me os cães
round the corner
é uma maneiringlesa de falar
já reparou decerto
na quantidade
de shópópticas que abrem
por que será
será
whatever will be will be
em terra de cegos
quem tem uma lente é mon'arca
noé?
o resto é a vidinha da cidade
o sacrocomércio
jeans carlos magno
pólos amundsen
mas tudo isto já (se) sabe
nem em si cabe
de contente
o conhecimento menos que o reconhecimento
falo daquele
à chuva à porta
na noite do mosteiro
filme que me contou
a par daqueloutro do
outro que tresandava a peixe
fumado injectado
tresandava e tresandou
oito dias depois
à porta do banco
como um pedinte
de migalhas cardíacas
à mesa peitoral da rainha
que cruéis podemos ser
verdade?
os brancos pés em sandalinhas de ouro-pele
as coxas dóricas
os joelhos jónicos
o coríntio púbis
a vulva grega
a cama de hotel esticadasséptica
os sabonetinhos de roubar
a mão que puxa o ombro
o sangue rosando os joelhos
a queixa doce esmagada de fadiga
amêijoas cortando o braço
a imensa normandia para um
desembarque impossível
depois as nossas mães
cativando o fruto de vosso ventre,
jesus.

Na volta da noite
around the corner
o rapaz que desce as escadas
sem sobremesa
as palavras muito aflitas
dentro dele
chamem os bombeiros
despeçam a polícia
era só perdição
não era malícia
e então como sempre
as tardes areadas como tachos
as noites-néon
gintonificadas
um círculo de giz estremava a loucura
lembro-me de um comprido muro
pintado de amarelo-bílis-the-kid
a quimera do brasil
a decência dos aristobailes
o cumprimento de onda
os cavalos também se abatem
horace mccoy
jane fonda na protagonista
antes de lhe dar na corneta
a ela jane
pás cassetes aeróbico-ted-turners
mais o senhor henry james
e o senhor borges e o senhor calvino
palomar para os amigos
e o senhor julio sem acento
cheira a lima a vizinha de cima
a cartaxo o vizinho de baixo
uma andorinha no chile
um albatroz na noruega
e o coiso na áustria
um apartamento em tróia
e um protesto
do meu mais sincero
atenciosamente



Tondela, tarde de 12 de Outubro de 2005

Rima-Cães

1 em LO

Embalei o coração em açúcar amarelo
pelo correio te vou mandá-lo
paguei os porte e selo a quilo
faz favor de andar co'ele ao colo

2 quase em IGO

Elas laboriosas não cedem palmo de terra.
As palavras, digo.

3 em ADO

Eu vinha para a feira
fui autuado
troquei perfil por frente
fiquei de (so) lado.

4 em ADA

Homens iguais a carapaus de cebolada
conversam da guelra e da paz
iscas de fígado alcatraz
pague à saída receba à entrada.

5 quase em UM

O coração bate-me
a mim que lhe não fiz mal alg1.



Tondela, tarde de 12 de Outubro de 2005

quarta-feira, outubro 12, 2005

Histeria da Literatura Portuguesa (ou então, Porra Porra Porra Foda-se)


o goucha escreveu o em banho-manel
e o doces sem açúcar
ganhou a aposta aparece muito mais na tv
que o quitério
o lobantunes sofre muito e coça-se muito mais
é mais querido em israel do que o saramago
aquele cujo avô abraçava as árvores
vejam-me lá se isso é coisa que se faça
o herberto helder está desaparecido
desde que nasceu com a cabeça entre as mãos
no café gelo
aparado pelo lacinho-braboleta do baptista bastos
o abelaira escreve em falsetto
assim com dois tês parece apartamento
da ttorraltta não parece
mas a cidade das flores nem está mal
lisboa à italiana
com casais que mal copulavam
desatavam logo a falar de política
como nos pá-lopes
o problema é a mania que eles têm de morrer
o cardoso pires sempre muito scotch-bruto
a ver as letras escritas ao contrário de propósito
e lidas do avesso de profundis
o sttau monteiro com garrafas e garrafas de
óleo fula para o jantar
mas felizmente há luar
o bernardo santareno de grossas hastes
e cigarro chutado para canto
da boca
o ruy belo em queluz naquele verão
do mundial da argentina
o assis pacheco a almoçarar meia-desfeita
e a deixar-se escorrer ventinhos melífluos
de cós de calças na livraria
o torga sempre muita chateado
com as homenagens nunca bastantes
o eugénio de andrade sempre
a pensar nas cabras caiadas de cal
e nos rapazes brancos litorais de sol
e sul e etc e sal
o pessoa triste mas a gozar a um canto da arcada
a aguardente que bebi foi o campos que a bebeu
o cesariny que eu saiba está vivo mas
não é fácil
o luiz pacheco está arrumado num albergue
agora já não faz filhos nem deixa que lhos
façam
o camões recebe da segurança social
uma carta registada
que diz a sua tença está atrasada
favor verificar domicílio de
dom sebastião
os espanhóis gozam c'a gente como mouros pretos
de ceuta e melilla
uns são filhos-da-puta
outros têm uma puta-por-filha
a gente aqui c'o possidónio cachapa
e eles lá com o montalbán
a gente aqui c'o peixoto
e eles lá com o javier marías
a gente aqui c'as marias
judite
horta
velho
palla
Santíssima
e eles lá com a rodoreda e a rosalía
a gente aqui com o grass-moura
e eles lá com o rivas
foda-se foda-se foda-se foda-se
ca malha
mas enfim
havia o carlos de oliveira
que esteve em febres-cantanhede
como o meu amigo tó-mané que vive
e um rapaz chamado fernando que morreu
o carlos de oliveira desespartilhou-se
do neo-realismo
e amandou-se-nos com aquele trabalho poético todo
o manuel da fonseca deu-nos o largo
a larga seara de vento
que antigamente se estudava aos 13 anos
nas escolas oficiais
agora não agora nunca mais
agora não tarda nada é o agualusa
contra moscas melgas e mosquitos
é o joão a guiar o pedro paixão para NY
sobram o joão de melo em lágrimas de engatar gajas
e o mário de carvalho em pura graça
qu'é feito do zambujal do domingo desportivo
o dinis machado rebentou tudo c'o molero
o namora plagiava o vergílio
o vergílio destilava pus a conta-corrente mas era bom
a agustina porra porra porra porra
quem me cala a mulher
ca cheiro a mijo de gato
a pedrosa a dar instrução aos amantes
e o melga ferreira a dar-lhe o título
as manas pinto correia o glamour o drama o horror a tragédia
a batata assada em papel de prata
o NYTimes embrulhando chicharro de cacharel
só falta o represas escrever poemas para o
vítor de sousa ler no elevador
o júdice que queria ser gastão
aqueles telerapazespivôs das oito da noite que escrevem romances-próteses
o sousa tavares é co'a dor
de corno talvez
1-2-3-macaquinho-do-chinês
afinal o roberto carneiro foi ministro da inducação no
intervalo de fazer filhos
o deus pinheiro também no
intervalo dos 18 buracos
a ferreira leite também não
se sabe porquê
e depois é isto
é o carlitos pinto coelho fotógrafo de casamentos corrido
do acon(a)tece pelo
mogais sagmento
é o frágil esteve-cardoso a orelhar romances
inacreditável comóque a sírialvim foi na conversa
mas infim
cada um é pó cu-lhe-dá
esporremos que não volte a acon(a)tecer
o jorge de sena tinha bué de razão e razões
o rodrigues miguéis esse excelente rapaz
teve de readersdigestar para digerir
ninguém sabe nem conhece h. silva letra
o d'a palavra fascinante editorial inova porto
n. em 1927 em vieira de leiria
ninguém s'apercebe de que o antónio osório
é um bem maior do que
a ignorância da morte
a ignorância da vida
qualquer dia até o herman josé escreve um livro
o quê
ai já escreveu
qual é que é
ah
é o herman josé saraiva
aquele das anedotas da história
o fialho de almeida e o pinheiro chagas e o camilo muito
ressabiados c'o eça
por causa de o eça ser melhor
que vinho do porto em umbigo de shania twain
o ferreira de castro absoluto n'a lã e a neve
o soeiro tão certo nos esteiros
o redol tão dos-passos nos gaibéus
mas nisto tudo acabei por ouvir o castrim
em casa dele mesmo
avenida luís bívar lx
uma vez que lá fui levar-lhe um livro
a dizer bem do goucha
de modo que não sei
porra porra porra porra.




Tondela, manhã de 12 de Outubro de 2005

A-Manhã

Diz-se que não se sabe o dia de amanhã
ah mas eu sei
é hoje
e ontem eu já sabia
vocês também
recapitulemos
minimercado
folhas de fiambre
senhora de prata à janela d'água
vendo o verão
compro o inverno
um livro para ler
outro para escrever
a roda dentada das horas
as carrinhas de abastecimento
o comércio sossegado
o barbeiro e seu empregado
lá está o rapaz do gato fedorento
a serra ao longe duplicada
pelas nuvens espessas castelãs
o alcatrão estanhando as ruas
tudo muito tranquilo
muito católicuménico
se não é isto a felicidade
rai's partam a felicidade
tempo de chá lareir&conan doyle
gato no colo água nos vidros nos olhos
a manhã contém ainda a noite
a manhã contém já a noite
o mais é amanhã
eu conto



Tondela, manhã de 12 de Outubro de 2005

Explicações - um Soneto Pedagógico

No silêncio branco de nossos têuns
carburamos a longa explicação
são seti50 à hora, atuns,
que as cavalas são noutra secção

Os burrinhos bebem logaritmos
azimutes sinédoques mas tudisso é sem
metáfora com veia de geo com istmos
13 a Descritiva pois fica-se bem

Filhos da urbe crescem na farinha
blocos urbanos crescem lá também
há que nutrir a massa tenrinha
tentúgal, setúbal, santiago do cacém

O resto é Plauto, Catulo e Séneca
Chumbas à primeira, há segunda época.



Tondela, tarde de 11 de Outubro de 2005

Domingo

O meu cão teve tosse e dias bons.
Uma pessoa não se livra da infância.
De noite fechava os olhos, vinham sons.
Comboios urdiam a distância.

Arroz de frango, água-torneira.
Pão de hoje duro de ontem.
Calendário descuteiro conscuteira.
Dias que passem, noites não contem.

Na cinza breve, minha ermida,
choupana glauca, minha vida,
o coração é pó rubro, sossega.

Atende e fala à despedida.
Os livros são p'ra ti, minha querida.
Espero domingo a tua entrega.



Tondela, tarde de 11 de Outubro de 2005

A Pureza

Também há a brutalidade da pureza.
Socorre-lhe a remediação.
Mas, por outro lado, pois com certeza.
Favor de entrar, pois como não.
Tondela, tarde de 11 de Outubro de 2005

Relatório Vespertino

no mesmo sítio
mas à tarde
um imbecil de camisola creme
ladra um monólogo
transcrevo
paga o quê? você por dois euros e pouco já compra uma garrafinha em condições de bom tinto é tudo muito bonito as pessoas falarem batatas a 20 cêntimos e ainda gozam xis quilos paguei xis e ainda gozam c'o agricultor o meu sogro e eu se fosse a rogar pessoal e tractor mais o conserto do tractor que é que se ganhava com isso por meia dúzia de quilos de cachos se fossem todos a pensar como você você havia de ver o que todos comiam eu nunca disse nada não era agora que ia dizer
o imbecil é português
diz hífen entre possa e mos
e queira e mos
e não se cala
e eu lapijo a mijo a minha pátria
átrio de pobres cobres
e de tractores por consertar
recreio de histórias de portugal
vendidas a quilo pelo círculo de leitores
escrevo na maré baixa
patinham-me o caderno caranguejos
de moleirinha mole
sargaço-me todo nos contrafortes da serra
maresia ia mares
lá longe ao cair da tarde
dentes de ferro comedido
gargantilha fátua feérica
no mais
gente histérica
só sei que chove
chove bem
o dia merece a sua lenta cortina louca
onde as mulheres de ninguém espadanam
sua beleza rectilínea
sua botânica beldade
de leopardo convertido à roma de
um verso
final
xis quilos disto.
Tondela, tarde de 11 de Outubro de 2005

terça-feira, outubro 11, 2005

Relatório Matinal

o verão que pendure de vez as botas
assim está-se bem
o ar já não é amarelo-febre
é cartão-caixa-de-sapatos
é humano viver de novo
claro tudo isto é relativo
a caminho do minimercado
a comprar fiambre
vi uma senhora à janela
entre cortinas gázeas seu rosto clássico
flor de prata antiga
talvez esperasse o sol que despedi
talvez esperasse o outro verão
o verão 1943
em que terá sido feliz
não sei
numa casa abandonada
no extremo baixo das escadas
vi dois gatos infantes
comendo arroz de alguém e de ervilhas
dois animais vivos no susto demorado da infância
depois vi um pederasta de gabardine
ao balcão do totoloto estava
tentando a sorte os milhões outra vida
como se esta não fosse a única
tinha óculos fumados
olhos fumados
dedos de nicotina
mãos de menina
não tinha grande saúde dentária
tentou sorrir saiu-lhe azul-cárie o ricto
boa gabardine porém
de detective sem crime
pá perna costela acém
de cachimbo sem lume
de membro sem receptáculo
de pilinha sem furinho
de cu de menino
eu não joguei o totoloto
aposto pouco deve ser da idade
do tempo caixa-de-sapatos
ou do sol quando faz sol
queixo-me em silêncio só para dentro
de uma perna
distendeu-se-me um tendão
como uma toalha mole
talvez volte à piscina
a molhar o bacalhau
se bem me lembro era bom
dentro de água o corpo natatório
e cá fora chovendo
a chuva municipal da província
o corpo dentro do azul-cloro
e cá fora chovendo-claro
as casas antigas com senhoras clássicas
à janela
entre gazes
olhando 1943
acabei por comprar o fiambre
oito folhas dezasseis páginas
uma porcina literatura translúcida
que li com os dentes
enrolei em suco digestivo
assimilei sem esforço nem glória
a caminho deste relatório
que escrevo sobre baquelite
enquanto fumo um cilindro de palha
foi-se embora o pederasta
ficou a senhora da lotaria
tem uma filha pequena
como ela flava como ela fulva
gatinha ruça pequena a vulva
que conta até dez
como se fora no circo
e a tarola da orquestra rufasse
o sem-rede da vida
pequenina de quatro cinco anos não mais
delgada como uma anchova branca
um arenque de sapatinhos vermelhos
e eis que chove
a fina chuva humilde do nosso país fadista
ainda há gente de manga curta
não está frio está-se bem
é bom entristecer sem dor em outubro
alma-caixa-de-sapatos
clemente cançoneta na tv
uma canção de amor sacudido a palmas
nas portadas de vidro do banco
cartazes com a cara do rapaz do gato fedorento
estanhado de água o alcatrão das ruas
os pneus fazem frufru de saliva de borracha
uma pomba gástrica pousa consolada
num telhado pintado de tijolo
a mulher do sul o homem do norte
a terça-feira muito estabelecida
muito esponsal de sua pluviometria
ainda a vida mais um dia
amor de mãe angola 1967
moçambique 1971 I-love-e-um
em casa arrumadinhos
os autos de gil vicente
as tragédias de sófocles
e a lata de ovas de bacalhau do intermarché
recordo um corrimão de madeira
que raspei envernizei num outroutubro
foi há quatro anos
o tempo que fazia era o de hoje
estão as pontes atiradas
2001-2005
um rio sobre elas corre
a pessoa atira o eu ao mar
deriva à flor das águas como uma cortiça
com um galo em cima
também eu senhora
tenho o meu verão 1943
quem o não tem
não é filho de boa mãe
olhai-me esta árvore
negra de tão verde
pinga cachos de sementes
pluvigotículas lhe pranteiam o perfil
assombrada visão verdenegra
sobre chumbo de céu
automóveis prateados como sardinhas
dormem o sono tecnológico de aluguer de longa duração
enquanto não retornam seus amos bancários
que trabalham no reverso do rapaz do
gato fedorento
a perna está-me melhor obrigado
cozinho às vezes rins em cerveja
alho banha colorau sal
marlon lume lume brando
banho-maria-das-dores
senhora-dos-aflitos
gritos de cães enjaulados na noite de correntes
memória e ablução
história e absolvição
a maria-da-fonte não foi por sindicância
nem comunismo
foi por superstição
não queriam os mortos enterrados
em salubre cemitério
queriam-nos na igreja como santinhos de pèdropeito
revejamos a história a memória a ablução a absolvição
rommel suicidou-se à força
e churchill sim também era
racista
não fosse ele inglês
tudo existe ao mesmo tempo
o tempo de resistir é outra história
o tempo dos verbos é o mesmo tempo
só que de outro modo
conjuntivo indicativo não interessa
imperativo é-o ele sempre
havia o diário de lisboa
o dinis machado molero rapaz
a chuva de 1935 quando morreu pessoa
o verão 1943 daquela senhora
pessoa finalmente liberto/a
escravidão do inefável
heterónimo como uma abelha
todavia fado
tiraram-nos dos prazeres
que aliás não fruiu
depuseram-nos nos coisos jerónimos
pobre tia anica pobre ophelia
1888-1935
parece pouco visto daqui
tinha parado de chover
voltou a
agora mesmo
está-se bem assim
no cinzumbre
a meninarenque vai almoçar
rissóis de caramelo com salada de legos
ela conta as folhinhas verdes
diz que quer mousse instantânea como ela
é 1943 agora para a menina
manhã acabada
fiz o meu relatório
a ninguém devo nada.




Tondela, manhã de 11 de Outubro de 2005

Outra Gaja Boa

Apareceu em alto aparato de cavalo.
Toda uma carne ocupou o ar da respiração.
Uma morenidão vasta, queimando em derredor.
Uma ganga lavada e tensa enroupando as colunas das pernas.
Os bolsos de trás, muito apertados pela sessão das nádegas, asfixiavam o cartão multibanco, o bilhete didentidade.
Sapatos escarlates expondo o peito de cada pé: nervuras tenras de galinha alta.
Cascabelata ombreando as mamas fixas a cuspo ao tronco, em cujo bojo nenhum decerto coração.
Eu vi.
Ficavam-lhe ruças as coisas ao toque: a chávena de ouro, a colherinha de prata, de manhã cobre, à noite mata.
E depois aquela fadiga denga de cabeleireira, aquele lóquio de revista, aquele delta-éclair que firme e imprime a boa mulher.
Eu vi, eu contei.
E agora esqueço.
No fundo do fundo, um poço não posso.
Mas estremeço.



Tondela, tardinha tesífera de 10 de Outubro de 2005

A Realidade e também Jorge de Sena

A realidade esperava-me à saída dela.
Tinha dias.
Um rasto de lenha queimava a lembrança do estio.
Cegarregas sem-abrigo, formigas varridas pelo ar de forno, julho, fevereiro, agosto, tudo igual.
Jorge de Sena dactilografando o cancro pulmonar em carta para um zé no ano 1978.
A mercê de Mécia.
Os livros e tal.



Tondela, tarde de 10 de Outubro de 2005

Panteão Nacional

Tomás Taveira fica nos anais.





Tondela, 10 de Outubro de 2005

Soneto com Virtude e um Verso Suplementar como no Totoloto

Tanta santa virtude
tanta vidànoite.
Um lapso capaz
de contumaz relapso.
Tanto açoite.

Amora silvestre.
Salsicha alemã.
O coxo é mestre.
Abelha é anã.

Soneto se posso.
Não posso arreio.
Cuspirforéfeio.

Mas dou o qué nosso.
Cusponoquévòsso.
Chega de paleio.



Tondela, tardinha molhada de 10 de Outubro de 2005

Exercício

Te tenha a graça em fundo descanso.
De ti se amerceie o canal tão soez.
Que ele há poeta que é só rimanço.
Tu conta até zero e contoutra vez.




Tondela, tarde de 10 de Outubro de 2005