quarta-feira, outubro 12, 2005

Explicações - um Soneto Pedagógico

No silêncio branco de nossos têuns
carburamos a longa explicação
são seti50 à hora, atuns,
que as cavalas são noutra secção

Os burrinhos bebem logaritmos
azimutes sinédoques mas tudisso é sem
metáfora com veia de geo com istmos
13 a Descritiva pois fica-se bem

Filhos da urbe crescem na farinha
blocos urbanos crescem lá também
há que nutrir a massa tenrinha
tentúgal, setúbal, santiago do cacém

O resto é Plauto, Catulo e Séneca
Chumbas à primeira, há segunda época.



Tondela, tarde de 11 de Outubro de 2005

Domingo

O meu cão teve tosse e dias bons.
Uma pessoa não se livra da infância.
De noite fechava os olhos, vinham sons.
Comboios urdiam a distância.

Arroz de frango, água-torneira.
Pão de hoje duro de ontem.
Calendário descuteiro conscuteira.
Dias que passem, noites não contem.

Na cinza breve, minha ermida,
choupana glauca, minha vida,
o coração é pó rubro, sossega.

Atende e fala à despedida.
Os livros são p'ra ti, minha querida.
Espero domingo a tua entrega.



Tondela, tarde de 11 de Outubro de 2005

A Pureza

Também há a brutalidade da pureza.
Socorre-lhe a remediação.
Mas, por outro lado, pois com certeza.
Favor de entrar, pois como não.
Tondela, tarde de 11 de Outubro de 2005

Relatório Vespertino

no mesmo sítio
mas à tarde
um imbecil de camisola creme
ladra um monólogo
transcrevo
paga o quê? você por dois euros e pouco já compra uma garrafinha em condições de bom tinto é tudo muito bonito as pessoas falarem batatas a 20 cêntimos e ainda gozam xis quilos paguei xis e ainda gozam c'o agricultor o meu sogro e eu se fosse a rogar pessoal e tractor mais o conserto do tractor que é que se ganhava com isso por meia dúzia de quilos de cachos se fossem todos a pensar como você você havia de ver o que todos comiam eu nunca disse nada não era agora que ia dizer
o imbecil é português
diz hífen entre possa e mos
e queira e mos
e não se cala
e eu lapijo a mijo a minha pátria
átrio de pobres cobres
e de tractores por consertar
recreio de histórias de portugal
vendidas a quilo pelo círculo de leitores
escrevo na maré baixa
patinham-me o caderno caranguejos
de moleirinha mole
sargaço-me todo nos contrafortes da serra
maresia ia mares
lá longe ao cair da tarde
dentes de ferro comedido
gargantilha fátua feérica
no mais
gente histérica
só sei que chove
chove bem
o dia merece a sua lenta cortina louca
onde as mulheres de ninguém espadanam
sua beleza rectilínea
sua botânica beldade
de leopardo convertido à roma de
um verso
final
xis quilos disto.
Tondela, tarde de 11 de Outubro de 2005

terça-feira, outubro 11, 2005

Relatório Matinal

o verão que pendure de vez as botas
assim está-se bem
o ar já não é amarelo-febre
é cartão-caixa-de-sapatos
é humano viver de novo
claro tudo isto é relativo
a caminho do minimercado
a comprar fiambre
vi uma senhora à janela
entre cortinas gázeas seu rosto clássico
flor de prata antiga
talvez esperasse o sol que despedi
talvez esperasse o outro verão
o verão 1943
em que terá sido feliz
não sei
numa casa abandonada
no extremo baixo das escadas
vi dois gatos infantes
comendo arroz de alguém e de ervilhas
dois animais vivos no susto demorado da infância
depois vi um pederasta de gabardine
ao balcão do totoloto estava
tentando a sorte os milhões outra vida
como se esta não fosse a única
tinha óculos fumados
olhos fumados
dedos de nicotina
mãos de menina
não tinha grande saúde dentária
tentou sorrir saiu-lhe azul-cárie o ricto
boa gabardine porém
de detective sem crime
pá perna costela acém
de cachimbo sem lume
de membro sem receptáculo
de pilinha sem furinho
de cu de menino
eu não joguei o totoloto
aposto pouco deve ser da idade
do tempo caixa-de-sapatos
ou do sol quando faz sol
queixo-me em silêncio só para dentro
de uma perna
distendeu-se-me um tendão
como uma toalha mole
talvez volte à piscina
a molhar o bacalhau
se bem me lembro era bom
dentro de água o corpo natatório
e cá fora chovendo
a chuva municipal da província
o corpo dentro do azul-cloro
e cá fora chovendo-claro
as casas antigas com senhoras clássicas
à janela
entre gazes
olhando 1943
acabei por comprar o fiambre
oito folhas dezasseis páginas
uma porcina literatura translúcida
que li com os dentes
enrolei em suco digestivo
assimilei sem esforço nem glória
a caminho deste relatório
que escrevo sobre baquelite
enquanto fumo um cilindro de palha
foi-se embora o pederasta
ficou a senhora da lotaria
tem uma filha pequena
como ela flava como ela fulva
gatinha ruça pequena a vulva
que conta até dez
como se fora no circo
e a tarola da orquestra rufasse
o sem-rede da vida
pequenina de quatro cinco anos não mais
delgada como uma anchova branca
um arenque de sapatinhos vermelhos
e eis que chove
a fina chuva humilde do nosso país fadista
ainda há gente de manga curta
não está frio está-se bem
é bom entristecer sem dor em outubro
alma-caixa-de-sapatos
clemente cançoneta na tv
uma canção de amor sacudido a palmas
nas portadas de vidro do banco
cartazes com a cara do rapaz do gato fedorento
estanhado de água o alcatrão das ruas
os pneus fazem frufru de saliva de borracha
uma pomba gástrica pousa consolada
num telhado pintado de tijolo
a mulher do sul o homem do norte
a terça-feira muito estabelecida
muito esponsal de sua pluviometria
ainda a vida mais um dia
amor de mãe angola 1967
moçambique 1971 I-love-e-um
em casa arrumadinhos
os autos de gil vicente
as tragédias de sófocles
e a lata de ovas de bacalhau do intermarché
recordo um corrimão de madeira
que raspei envernizei num outroutubro
foi há quatro anos
o tempo que fazia era o de hoje
estão as pontes atiradas
2001-2005
um rio sobre elas corre
a pessoa atira o eu ao mar
deriva à flor das águas como uma cortiça
com um galo em cima
também eu senhora
tenho o meu verão 1943
quem o não tem
não é filho de boa mãe
olhai-me esta árvore
negra de tão verde
pinga cachos de sementes
pluvigotículas lhe pranteiam o perfil
assombrada visão verdenegra
sobre chumbo de céu
automóveis prateados como sardinhas
dormem o sono tecnológico de aluguer de longa duração
enquanto não retornam seus amos bancários
que trabalham no reverso do rapaz do
gato fedorento
a perna está-me melhor obrigado
cozinho às vezes rins em cerveja
alho banha colorau sal
marlon lume lume brando
banho-maria-das-dores
senhora-dos-aflitos
gritos de cães enjaulados na noite de correntes
memória e ablução
história e absolvição
a maria-da-fonte não foi por sindicância
nem comunismo
foi por superstição
não queriam os mortos enterrados
em salubre cemitério
queriam-nos na igreja como santinhos de pèdropeito
revejamos a história a memória a ablução a absolvição
rommel suicidou-se à força
e churchill sim também era
racista
não fosse ele inglês
tudo existe ao mesmo tempo
o tempo de resistir é outra história
o tempo dos verbos é o mesmo tempo
só que de outro modo
conjuntivo indicativo não interessa
imperativo é-o ele sempre
havia o diário de lisboa
o dinis machado molero rapaz
a chuva de 1935 quando morreu pessoa
o verão 1943 daquela senhora
pessoa finalmente liberto/a
escravidão do inefável
heterónimo como uma abelha
todavia fado
tiraram-nos dos prazeres
que aliás não fruiu
depuseram-nos nos coisos jerónimos
pobre tia anica pobre ophelia
1888-1935
parece pouco visto daqui
tinha parado de chover
voltou a
agora mesmo
está-se bem assim
no cinzumbre
a meninarenque vai almoçar
rissóis de caramelo com salada de legos
ela conta as folhinhas verdes
diz que quer mousse instantânea como ela
é 1943 agora para a menina
manhã acabada
fiz o meu relatório
a ninguém devo nada.




Tondela, manhã de 11 de Outubro de 2005

Outra Gaja Boa

Apareceu em alto aparato de cavalo.
Toda uma carne ocupou o ar da respiração.
Uma morenidão vasta, queimando em derredor.
Uma ganga lavada e tensa enroupando as colunas das pernas.
Os bolsos de trás, muito apertados pela sessão das nádegas, asfixiavam o cartão multibanco, o bilhete didentidade.
Sapatos escarlates expondo o peito de cada pé: nervuras tenras de galinha alta.
Cascabelata ombreando as mamas fixas a cuspo ao tronco, em cujo bojo nenhum decerto coração.
Eu vi.
Ficavam-lhe ruças as coisas ao toque: a chávena de ouro, a colherinha de prata, de manhã cobre, à noite mata.
E depois aquela fadiga denga de cabeleireira, aquele lóquio de revista, aquele delta-éclair que firme e imprime a boa mulher.
Eu vi, eu contei.
E agora esqueço.
No fundo do fundo, um poço não posso.
Mas estremeço.



Tondela, tardinha tesífera de 10 de Outubro de 2005

A Realidade e também Jorge de Sena

A realidade esperava-me à saída dela.
Tinha dias.
Um rasto de lenha queimava a lembrança do estio.
Cegarregas sem-abrigo, formigas varridas pelo ar de forno, julho, fevereiro, agosto, tudo igual.
Jorge de Sena dactilografando o cancro pulmonar em carta para um zé no ano 1978.
A mercê de Mécia.
Os livros e tal.



Tondela, tarde de 10 de Outubro de 2005

Panteão Nacional

Tomás Taveira fica nos anais.





Tondela, 10 de Outubro de 2005

Soneto com Virtude e um Verso Suplementar como no Totoloto

Tanta santa virtude
tanta vidànoite.
Um lapso capaz
de contumaz relapso.
Tanto açoite.

Amora silvestre.
Salsicha alemã.
O coxo é mestre.
Abelha é anã.

Soneto se posso.
Não posso arreio.
Cuspirforéfeio.

Mas dou o qué nosso.
Cusponoquévòsso.
Chega de paleio.



Tondela, tardinha molhada de 10 de Outubro de 2005

Exercício

Te tenha a graça em fundo descanso.
De ti se amerceie o canal tão soez.
Que ele há poeta que é só rimanço.
Tu conta até zero e contoutra vez.




Tondela, tarde de 10 de Outubro de 2005

Poema com Deus

Deus me livre de alguma filha um dia
me escrever um poema assim
é mais só por elas
nem é por mim

mas como (bebo) dizia
Deus me livre de alguma filha um dia

ver na tarde declinante
o espumante poente
caramulado paciente
acintoso diamante

tarde raspejante coramina
renôs clios estacionados
e um vademecum de irmana
nos planos mais inclinados

no resto coisa igual
um sartório de surpresas
porra dizem as marquesas
no tempo do zolagerminal

é muito livro é muita coisa
muita serra da lousã
muito declínio prístino embora
muito sapo-sape gato-rã.



Tondela, tardinha pluvienta de 10 de Outubro de 2005

Temporal

Pedi chuva, chuva veio.
Tempo deu temporal.
Árvores oblíquas de vento.
Poucas vezes pedi que tivesse.

Pedi fresco, fresco faz.
A hora é grave, enevoada.
O corpo saúda a aragem.
Poucas vezes saudei que me saudasse.

Agora peço nada.
Tenho o que mereço.
Uma água diagonal, a cara fresca.
Nunca peço apenas nada.



Tondela, tarde de 10 de Outubro de 2005

Leite

Dormi em casa de minha mãe, de ontem para hoje.
Teve de ser na sala.
O meu irmão solteiro recuperou o quarto de antigamente.
Éramos três a respirar nocturnamente: a Mãe também conta.
A estante da televisão segurava os manuais escolares envelhecidos: latim, língua francesa, conversação alemã, física-química, geografia, economia, civilização.
Dormi aos pés dessa escolaridade anacrónica.
Dormi pouco.
Levantei-me para um copo de água, uma banana, uma inclinada versão de ureia.
Adiantei o volume 263 da colecção Vampiro (O Cigarro Denunciante, de Peter Cheyney).
O sono demorava como o futuro.
De olhos inutilmente cerrados, revi alguns filmes.
Inquietei-me, sosseguei-me, virei-me para o ladoladoladolado, barriga para cima, pensamento à flor da manta, cocei a barriga, entrevi lapsos de um erotismo triste, ruminei partículas biográficas que nenhum editor aceitaria sem ser por dinheiro.
No fim, dormi.
Acordei com uma caneca de leite morno perfumado de maternidade.
Era Ela, pronta para o novo dia.
Percebi.



Tondela, tarde de 10 de Outubro de 2005

sábado, outubro 08, 2005

O Crime de Negritarias (work in progress)

Uxoricídio seguido de suicídio. Cabo mata mulher e depois, voluntário viúvo por segundos, mata-se.
No café da aldeia de Negritarias, tinha bebido cerveja e aguardente. Militar de profissão, trazia sempre a arma, que sacava muitas vezes ao balcão da taberna. Nessa noite, bebeu calado e não mostrou a pistola. Pagou a despesa, levou o carro até perto de casa, deixou o carro a trabalhar na estrada, subiu as escadas para o primeiro andar da vivenda coberta de azulejos e entrou na escuridão. A filha de pequeninos anos já dormia no quarto infantil. Também a cabeleireira dormia já. Ele acordou-a. Disse-lhe saber que ela andava a enganá-lo com outro e que ia matá-la. A primeira coisa era mentira, a segunda tornou-se verdade logo a seguir. O cabo disparou um tiro suficiente, a cabeça da mulher recebeu o metal ardente, e o sangue ofereceu ao lençol a rosa do costume. Depois, o homem abriu a boca, fechou o cano da arma contra o palato e disparou. Caiu para trás, não partilhando com a mulher, uma derradeira vez, o leito conjugal. Antes, tinha fechado à chave a porta do quarto.
A menina acordou às oito da manhã. Deixou-se estar, gozando o feriado uterino da cama, até que a bexiga a fez chamar “Mamã!”. A mãe não veio. A menina levantou-se e foi bater à porta do quarto daquela que não vinha. Uma linha vermelha cobreava do interior por baixo da porta. A cor da cobra fez a menina pensar no verniz de pintar as unhas que a mãe partilhava com ela. Olhando o verniz, a menina mijou-se pernas a baixo. O mijo misturou-se no soalho com o sangue do pai. Não era verniz.
A vizinhança não estranhou o carro parado na estrada. Não era a primeira vez. Ninguém tinha então razões para saber que havia sido a última. De modo que ninguém fez nada. Mais de trinta horas depois, um vizinho velho passava à frente da casa quando viu a cabeça da menina à varanda. Em bicos de pés, a menina disse: “Quero papa.” O velho perguntou: “Os teus pais onde é que estão?” A menina, pálida como um lírio mas flagrante como uma rosa, respondeu: “A fazerem ó-ó.” Então, o velho subiu as escadas, esticou os braços até à varanda e resgatou a menina. Levou-a para casa, disse à mulher que desse leite e bolachas à criança e foi ao café telefonar à guarda.
O senhor Leal Casimiro ouviu a notícia na rádio local. No dia seguinte, leu os factos num jornal nacional especializado em sensações. O jornal publicou as fotos dele e dela, mas não a da filha que vagueara de fome pela casa dos mortos mais de trinta horas. A cara do assassino suicida era de fuinha. A cara da assassinada era uma cara de cabeleireira. Vinham também um grande plano da vivenda forrada por fora de azulejos e uma caixa pequena com as caras do vizinho salvador ladeado do presidente da junta e da mulher do presidente da junta, os três com cara de caso. O senhor Leal Casimiro fechou a loja de utilidades. Nem se deu ao trabalho de voltar para fora o rectângulo de cartolina azul “Volto Já”. Meteu-se na 4L e rumou a Negritarias sem saber por ou para quê. Havia muita gente na praça central da cidade.
A aldeia estava mais desamparada que de costume. O vento gania nas oliveiras como um cão vegetariano. Reconheceu logo a casa do caso. Procurou o vizinho velho, que lhe repetiu de cor toda a história do crime. O senhor Leal Casimiro observou isso: o velho repetia de cor a reportagem do jornal. Não era para menos, aliás: até tinha vindo no jornal. O senhor Leal Casimiro aceitou um cálice de vinho do Porto, recusou o palito la reine e pediu para ver outras fotografias da família que já não era, se ele as tivesse. O velho tinha-as. Era padrinho de baptizado da morta. Mostrou ao senhor Leal Casimiro uma da menina, quando ainda de colo, ao colo da “pobrezinha afilhada”. “Pobrezinha, de facto”, assentiu o senhor Leal Casimiro.
Esse amanhã do crime foi dia de uma manifestação do povo de Negritarias às portas do tribunal da sede de concelho. O povo queria justiça. Ninguém pareceu lembrar-se de que não haveria julgamento. A polícia municipal dispersou com calma o povo junto. O funeral era a derradeira justiça.
A cabeleireira era natural de Negritarias, freguesia de Vale Cão. Muita gente seguiu o carro funerário, o padre e os presidentes da câmara e da junta. O ar da capela estava saturado de flores que murchavam a olho nu. Candelabros de prata não esfregada suportavam velas míopes. O rosto dela parecia encerado pela evidência da extinção. A chuva compareceu à cerimónia, pelo que a terra se volveu lama. Homens e mulheres vestidos de preto como guarda-chuvas humanos morcegavam lugubremente contra um fundo alto de gelatina cinza, atrás do nada: um espectáculo ao preço da chuva.
Ele não era de Negritarias. Era do norte do país. Foi enterrado longe das maldições impotentes do povo de Negritarias, freguesia de Vale Chão, concelho natal do senhor Leal Casimiro.
A criança foi entregue à custódia dos avós maternos. Tempos depois, soube-se que os pais do cabo reclamavam para si a netinha. Houve indignações de missa e sermões de taberna em Negritarias. A Assistência Social foi determinante no caso. O tribunal, tempo depois, confirmou Negritarias como terra da menina. O senhor Leal Casimiro, no sossego sombrio da loja, achou bem. A vivenda do crime foi vendida a um casal de emigrantes, que no retorno de França procedeu a obras por dentro e por fora de modo a que nenhum azulejo nem vestígio de verniz algum pudessem assombrar-lhe a aposentação.

sexta-feira, outubro 07, 2005

Buscão

Chegou a hora de eu ir buscar um papel branco recoberto de fios pretos.
É num sítio perto do corpo.
Esta hora chega-me como o mar.
Eu fixo o corpo. Ela chega.
O papel estende-se como uma toalha ou um animal desejado.
É então que eu saco os fios pretos.



Tondela, tarde acabando-se de de 6 Outubro de 2005

Nuno Moura - um verso de

Tu começaste a ir de noite para os teus dias.
in Soluções do Problema Anterior, ed. &etc., Lx, 1996

As Mãos de Nick Cave ao Piano (work in progress)

Quantos de nós olhamos as próprias mãos, sem ser quando elas se lavam? Acontece-me muito olhar as minhas. Sou-lhes grato: alimentam-me, lavam-me, vestem-me, calçam-me, penteiam-me, folheiam-me os jornais e os livros, afiam-me os lápis, põem música a tocar, como outrora a cassete de Nick Cave. Tecem, soltas como aranhas, a teia mental: a caligrafia. Quão manuais somos? As mãos vêem no escuro. Dão sentido às chaves, aos interruptores, às persianas, aos copos de água das brechas do sono, ao outro amado corpo. Às vezes, na televisão, só filmam as mãos do pianista. O resto do corpo, invisível e cego, tem quatro mãos: na madeira polida como sapatos de casamento, aparecem (reflectidas, reflexivas) as duas outras, as do avesso da música: as que tocam as pausas. Outras vezes, surgem na rua enluvadas de couro negro, tornando parisienses as portuguesas. Outras vezes ainda, aranham-se, arranham-se, emaranham-se: essas são as vezes em que o amor as faz explodir como polvos, acácias ou estrelas. As mãos também gritam e sussurram também: as mãos do agressor, as mãos da mãe. As mãos, como as mães, afligem-se antes de nós. E nós, nós somos apenas o que está depois das mãos. Quantos, vivos, as olhamos vivas?

quinta-feira, outubro 06, 2005

Futebol

As formigas verdes querem comer, ou pelo menos matar, as brancas, que vêm contentes da casa das encarnadas, onde mataram e comeram na semana passada.
José Alves trabalha na Mutual e é fiel ao seu balão de anis, que toma ao balcão do senhor Assis. José Alves, branco, encarnadeja acintes ao senhor Assis, que, encarnado, branqueja de raiva.
Nisto, entra Filinto Elísio, um poeta de outro século. Não percebendo a discussão, sai de cena e vai tomar capilé a outro sítio, que alguém pintou de azul sem ser para provocar ninguém.
Botulho, noite de 3 de Outubro de 2005

Ornitologia, Pavilhão 3 - Segunda Versão

Houve um tempo em que vomitava tanto à noite, que as borbulhas das costas me apareciam de manhã nas orelhas.
Eu vivia, então, em plena euforia trágica, a que não era alheia a minha ornitologia. Quero dizer: levantava os olhos para os pássaros levando na mão um cristal vermelho à altura da boca. Era o vinho, meu Deus.
Outros homens faziam-no tanto como eu, escrevendo embora menos poemas. Mas esses tinham família, quiçá amores até. Eu tinha e mantinha os dois metros (maior e menor, 7 e 5) da redondilha clássica, a partir de que emaranhava rimas, primas, limas, climas e cristais encarnados. Anos disto.
Chegou então o dia número 5 de Fevereiro. Eram as onze da noite. Fui pela Nacional 1 até à margem ribeirinha de um largo maciço de arvoredo. Receberam-me bem. Era um homem vestido de branco como o papa, mas pouco propenso a sermões. Fez-me umas perguntas, revistou-me o saco à cata de eventuais binóculos de ornitólogo (mínimo 40º) e, não os encontrando, boavindou-me com um cardápio de regras de conduta, que acatei sem estrilho, que eu sou muito educadinho. Seguiu-se uma quinzena onírica.
Partilhei dormitório, refeitório e cafetaria com um rebanho de ovelhas de roupão iguais a mim. Todas ornitólogas como eu. Com os homens, conversei de trabalhos e dias. Hesíodo vivo. Com as mulheres, de casamentos e revistas. Fui gentil, comigo gentis foram.
Anoitecia de outra maneira, lá no Pavilhão 3 (Ornitalcoologia). Também de outro modo amanhecia. Uma manhã muito cedo, andei às laranjas com um bebepássaros chamado Carlos. As laranjas, frias de alba, eram esferas de ouro gelado. Apanhámos uma sacada delas, de que depois fizemos partilha com o rebanho.
Depois, licenciaram-me. Vi-me, de devolvido saco, ao sol. O autocarro colheu-me como a uma laranja. Segui viagem até lá baixo, lá onde o rio dava sentido à ponte, ao hotel antigo, à estação dos comboios, à avenida das seguradoras, à raposa embalsamada do barbeiro, à casa da mãe do Quim, à casa da minha Mãe.
Disse-me ela:
- Então, filho.
E eu:
- Olá, maior redondilha.



Tondela, tarde de 4 de Outubro de 2005

Ornitologia, Pavilhão 3 - Primeira Versão

É-me igual, agora: antes ou depois, igual. O corpo é o relógio do tempo do corpo. A biopsia deu negativo, mas as outras análises revelaram um fígado triste. Sem cancro para a troca, o médico, com uma severidade feliz, leu-me a bula hepática: “Anda aqui muito whisky, pá. Tens o fígado feito caca de pássaros. Hospital, quinze dias ou três semanas.” E eu, hospital. Assentei cama na especialidade de ornitologia.
Por exemplo, ainda esta manhã. Um domingo de Fevereiro. Esta manhã, vi pássaros. Um era negro, solitário e de boca amarela: um melro perfeito. Os outros eram um casal de peito cor-de-fogo. Todos eram livres, menos da obrigação de procurar comida. Os pássaros procuravam na relva. O sol explodia as duas acácias do jardim. Um cedro de troncos múltiplos pareceu-me uma mão firme cheia de anéis verdes. Fumei um cigarro durante o passeio. Só trago um par de cigarros no bolso do roupão. As pantufas do hospital, gastas de tão ancestrais, não se revelaram muito apropriadas para os passeios no exterior do pavilhão. Fui evitando as zonas afiadas do cascalho que borda os canteiros de flores. Como não tem chovido, o relvado não é uma ameaça para os ossos. Do chão, colhi uma folha de jornal com o mundo como o mundo era o mês passado. A enfermeira da manhã levou o grupo à cafetaria dos doentes. Um copo de café (bom, aliás) custa trinta e cinco cêntimos de euro. Já não há o escudo, que, multiplicado sete mil e quinhentas vezes, me dava um amor de motel. Os cigarros são ao preço oficial. Depois de almoço, voltámos à cafetaria com a enfermeira do turno da tarde. À noite, joguei a sueca com um colega ornitólogo contra dois adversários jóqueis. O Álcool ganhou à Heroína por dois riscos.
Quase todos temos filhos. Alguns ainda têm mulheres. Come-se bem. Pequeno-almoço frugal mas suficiente. Almoço bom, de carne. Merenda equivalente à primeira refeição. Jantar bom, de peixe. Antes de deitar, chá de casca de maçã com bolachas. Comprimidos são metidos para dentro com água do jarro. A temperatura interior é boa. Os quartos são aquecidos por radiadores montados na base das janelas. Cheguei ontem à noite, sábado, perto das vinte e três horas. Receava dormir mal. Dormi bem, afinal. Hoje, a sesta foi um algodão doce. No resto, deambulações amaciadas pela paroxetina. Tenho um livro para ler e outro para rever para a editora. Hoje, trabalhei pouco. Depois de almoço, peguei no décimo capítulo, mas o sono (o comprimido, talvez) estava a tirar-me acuidade. Fui dormir. Foi o que fiz melhor. Vi pássaros no sono. Conversei com os outros, integrando sem custo a comunidade de fígados filosóficos, a propósito dos divórcios repetidos a papel químico, do álcool universal, dos pássaros da manhã, dos comprimidos que engaiolam no sono da tarde a repetição dos pássaros da manhã, da carne do almoço, do jogo da sueca, do perfume a mundo exterior dos corpos casados ou solteiros das enfermeiras. Fumamos, ao fresco da noite, no terraço traseiro do pavilhão. As informações privadas vão chegando: de onde somos, por que estamos aqui. Para onde vamos, e quando, ninguém sabe. Nem os pássaros sabem, quanto mais nós. Só os gatos saberão.
Iço o olhar para o puré puríssimo das nuvens de um azul puríssimo. Terça-feira de Carnaval, H. foi-se embora. Pediu alta antecipada, assinou o termo de responsabilidade, o ex-sogro veio buscá-lo num mercedes velho de construtor civil com problemas de liquidez. H. tem um filho aqui em Coimbra, mas preferiu ir para Torres Vedras, onde tem uma filha mais pequena de outra mulher. Vimo-lo partir. Jurou: “Nunca mais bebo.”
P. recebeu a visita das duas raparigas dele: uma com o bebé dele de dois anos, outra grávida dele. Vieram no mesmo carro. São amigas.
C. também teve visita. A mulher trazia os papéis do divórcio para ele assinar. Ele não assinou. Ela aceitou ficar um bocado mais, deu-lhe tabaco e uma nota de dez euros, disse-lhe que o filho de três anos estava bem e que nem perguntava por ele. Gaja porreira.
Vi mais pássaros. Vi o mesmo melro. Adormeci mal, de ontem para hoje. Ou de ontem para amanhã: igual. Joguei dominó e damas com os outros como eu. Olhei mais para o céu. Ontem à noite, muitas estrelas nítidas. Pareceram-me iguais às de papel de que as crianças colam nas janelas das escolas. Hoje, as nuvens puríssimas no puré azul.
Na cama, revolvo o corpo no tempo. Os outros dormem ruidosamente. C. sopra pesadelos fanhosos de apneia. O velho M. suspira os nomes das filhas. Deram-lhe alta antes do Natal, mas nenhuma veio buscá-lo. Ele vai ficando. Viro-me para o lado da janela. O radiador emana sono. Recupero a menina de Negritarias, a ruça bêbada e nua dentro do volkswagen de miniatura, a montra poeirenta da loja do senhor Leal Casimiro, as minhas filhas, o touro de ouro, o sol que dava de chapa na igreja de Santa Isabel, uma sexta-feira de dezembro. E em vez do melro, a pomba.



HSC, Coimbra, 5-18 Fevereiro de 2005