sexta-feira, setembro 30, 2005

Versos Contra a Poesia e Pouco a Favor da Vida

1
Ode Ornitológica


Codornizes farfalham folhas
secas, é o fim do verão.
Tu olhas, vês, tu olhas.
Livre de livros, desfolhas
a minha encadernação.

Deixa-me em paz. Liberta
livre quem gastar não podes.
É misericórdia. Acerta
bem mais quem deserta
da discórdia e das odes.

Oxalá de nada precises.
Que nada seja condição.
Toda a gente tem deslizes.
Até, claro, as perdizes
pobres e secas, findo o verão.

Botulho, noite de 24 de Setembro de 2005




2
Poema do Ano


Em Janeiro saio cedo. Regresso com lenha fresca e água quente.
Fevereiro, tenho sono e medo. Tenho a vida.
Março vem, parto eu. Fico longe até de mim. O cego pede que lhe dêem a esquina.
Em Abril, o Mais Velho foi-se embora. Disse até amanhã e não cumpriu.
Em Maio, tinha ido o Outro. Até amanhã o caraças.
Junho: lírios, delírios, delíquios. Um punho de sal que gema: um poema.
Julho, eu já não esperava nem atendia. Ganhava cada dia que perdia.
Agosto, não conto. D-existo. Sob o castanheiro, quieto, de pé, contando as couves com uma aritmética de rosas.
Em Setembro, que me acabe o velho caderno. Tenho um lápis novo.
Outubro, Novembro, Natal
- circularemos em frios automóveis,
médios acesos nos dias mínimos,
o que a gata tem crescido.

Botulho, noite de 26 de Setembro de 2005



3
Fazer Aquilo


Não acontece sempre.
Às vezes acontece.
Tenho uma vela vermelha.
Uma tenda de carne.
Um homem e uma mulher.
Saudação, exsudação.
A eminência, a iminência.
Unhas nas costas.
Gingar de ancas.
Empurrão, pão da boca.
Choupanas na neve.
Equadores de ventre,
entre faz favor.
Uma mulher e um homem.
Nem sempre.
Mas, às vezes, siameses.
Depois, o silêncio no pátio.
Lá fora, quase outubro.
Um véu de silêncio.
Tapo. Cubro. Descubro.
Escrevo. Trevo. Atrevo. Olha.

Botulho, noite de 26 de Setembro de 2005




4
Menino ou Menina

Sabe bem evocar.
Arrancar da voz.
Pés nus lavados a areia e sal.
Nenhuma tremura, então.
Ainda nenhuma perdição.
Dou água mineral ao lado.
Ela cresce na cal na luz na cal.
Tanta areia na praia: tempampulheta aos pés.
O marisco pobre (percebes, mexilhão)
cresce na rocha como uva em cacho.
É o ano décimo.
Ela azula, sem querer, o mundo.
Ela olha, assim azula.
Há um restaurante na costa.
Um rancho de norueguesas
envelhecidas como ostras de montra.
Não sabíamos.
Grave.
Nenhum susto, porém, nem
perdição também.
Eram os quatro pés escavando a areia: o tempo.
O mar de cimento.
Era o momento.
As coisas estavam para ali todas postas
como uma mesa
de hotel.
Não me doía nada.
Faltava-me a acidez.
Às vezes, a acidez é precisa.
Eu tinha um carro branco.
Eu tinha deixado o carro nas bombas.
O azul chegou a horas prometidas.
O caranguejo de pedra.
O cedro-do-líbano.
A dor igual: equa, égua, dor.
A montagem.
Azul, tão azul.
Todo o mar-oceano.
Lembro-me de uma parte de costa,
de costas.
Atlântica menina.
Senhor chofer, faz favor,
ponha o pé no acelerador.
Antropometria.
Ginometria.
O que desaparecia.
Era o tempo, era a hora,
mas agora tudo era eivado
de condições, por exemplo,
prestações
no banco
de areia
de sal e prata e ouro e nada,
nada, esqueci-me,
menino ou menina.

Botulho, noite de 26 de Setembro de 2005




5
Canção de Lx.


Um lance de rio Tejo.
Olha a Rocha do Conde d’Óbidos.
A circulação de tanto sangue.
Marinheiros alheios
vêm cá proceder a interacções
com putas tão nacionais como
brasileiras.
O Zé Viana já não vive.
Nem o Tony de Matos.
Nem a Beatriz Costa, sozinha no Hotel Tivoli.
Há um Carlos do Carmo.
Por que é que não um Carlos da Trindade?
Houve aqui alguém que se enganou.
Mas não, talvez não.
Talvez seja só a nossa natural condição.
Vocês já viram a paciência do Luxemburgo?
Com 30 e tal mil por cento de portugueses
e o futebol ainda não lhes é nacional
de bandeiras manjeriqueiras?
A maioria faz de Maria.
Poupa um i.
Poupa um ó.
Poupa é
uma rola encabrestada.
Morrem em casas senhoriais.
Nem mais.
Trouxe-nos uma coisa
que não é
uma trouxa d’ovos.
É para os ovos, Zé.
Estamos desiludidos, Tony.
Não fizemos nada.
Estamos fodidos, Beatriz.
Estamos aqui.

Botulho, noite de 26 de Setembro de 2005




6
Quadrinha para Azulejo


Nunca se sabe.
Tem-se uma ideia.
O lobo cabe?
Mais alcateia.

Pombal, tarde de 27 de Setembro de 2005

Muito

Era muito o amor
Assim está escrito na página 38 de um livro, esqueci qual, quem quiser saber só tem de abrir todos os livros portugueses na página 38, que por ser par fica do lado esquerdo, o do muito sítio - o do coração.
Era muito o amor
Mas nisto entra no café da aldeia um maluco de outra aldeia, como se esta não tivesse já bastantes. Este vive a fantasia de ser polícia e uniforma-se a rigor. Tem um dólman verdadeiro, um cassetete pintado de branco e um coldre também branco de tinta de armário de cozinha. Veste adequado par de calças de azul-escuro. A coisa só descamba no calçado: um par de botas de borracha. No entanto, as botas são debruadas a amarelo-adesivo no alto do cano. Tem olhos de um azul aguado: um azul magoado.
O polícia falso bebe uma cerveja verdadeira, vai ao lavatório molhar as mãos, leva a mão direita pingando ainda à sobrancelha do mesmo lado (falta-lhe só o boné) e, boatardando os presentes, sai de cena.
Pergunto à senhora do balcão por ele.
- É um de Santiago que não funciona bem, tem a mania que é polícia. Mas este não faz mal a ninguém. A guarda já lhe tirou o uniforme umas vezes por causa de ele fazer operações stop, mas ele arranja logo outro, não se sabe como. Agora ele disse que se os guardas lhe tirarem outra vez a farda, que ele vai pegar fogo às matas. E capaz disso é ele.
Era muito o amor
E o amor, toda a gente sabe, é fogo que arde etc.
Botulho, noite de 24 de Setembro de 2005

Quem Disse

O homem vestido de escuro surgiu como uma exclamação muda na chuva da tarde. Contornou a esquina, parou em frente ao contentor municipal, remexeu a camada superior do lixo. Não encontrou o que procurava. Virou costas ao lixo, deixou-se molhar minutos e mais minutos. Tinha um chapéu escuro. Tinha uma boca fina e horizontal de travessão de diálogo com ninguém. Era só um homem vestido de chuva na tarde escura.
Recupero hoje essa visão violenta. Senti, então, uma mesquinha misericórdia. Também, às vezes, sou cristão sem querer. Depois, critico-me com aspereza. Pena por quê, para quê, por alma de quem? Por nada, para nada, por ninguém. Havia o café amarelo ali perto. Eu tinha já estes quase tantos anos. Acampei na mesa junto ao aparador (guardanapos dobrados, talher, cesto da fruta, palitos, tintos e brancos, galheteiros, pratos, sal & pimenta, extintor). Tirei a única certeza. O caderno. Então, o homem da chuva continuou.
Era um homem vestido de escuro na tarde de chuva. Ele procurava. Não estava no lixo o que procurava. Estaria alhures. A chuva desalmava até a respiração, a água babujava nas sarjetas entupidas, niquelava nos pátios abandonados o folhame dos plátanos senhoriais, fazia do ar uma grade sem limite nem sentido. Era o céu desabado, toda a tristeza do mundo. O homem saltou o muro da casa abandonada, dirigiu-se ao plátano maior e remexeu a terra. Não encontrou o que procurava. Ali o deixei por instantes.
No café amarelo, atento às moscas refugiadas, cocei a mão esquerda com a direita, ouvi os impropérios do rapaz reformado aos 27 anos por pancada mental, dei-lhe um cigarro e agarrei-me ao caderno enquanto o desespero me colava à boca a fita de goma do costume. Não dei atenção ao desespero. Um homem é um homem.
Um homem vestido de plátano procurava uma coisa na chuva. Saltou o muro, abandonou o quintal abandonado, foi pela calçada foi pela calçada foi pela calçada até que chegou à parede onde luzia a santa do mesmo nome. Era um nicho ogival onde tinham embutido a santa. Duas velas ardiam dentro de água: os olhos do homem escurecido. O homem olhava a santa, que olhava o homem. Tremendo duelo de almas.
Nessa altura, eu procurava moedas nas calças. Estavam no casaco. Fizeram-me a conta, paguei e saí para a chuva que aluminiava o mundo como o mundo era essa tarde. Não foi assim há tanto tempo. Já era, suponho, o futuro.
O homem tinha deixado a santa entregue ao martírio afinal benigno da solidão. Ele era agora uma interrogação oblíqua parada em frente à montra da loja dos rádios. Olhava os aparelhos japoneses. Não era isso, nem a santa, o que ele procurava. Era outra coisa.
A mesma coisa me esperava à saída do café amarelo. E era a vida. A vida era tarde, já então. Esquerda ou direita, igual. Subi a calçada de pedra subi a calçada de pedra subi a calçada de pedra até que cheguei ao bar de putas. Estava fechado. Quando um homem vai a um bar de putas e o bar de putas está fechado, alguma coisa se desacertou sem remédio na vida desse homem.
Esse homem já não era perante os rádios, tinha seguido pela tira de terra e cacos de tijolo que leva à via férrea. Por aí eu fui.
O homem esperava o comboio. Tinha desistido de procurar o que procurava. Toquei-lhe com a mão direita, a que escreve, no ombro do mesmo lado. Ele virou-se:
- Finalmente. Andava à tua procura.
Disse ele.
Disse eu.


(Escrito para o sítio na net: www.liberal-caboverde.com
na tarde de 27 de Setembro de 2005, em Pombal.)

sexta-feira, setembro 23, 2005

Regresso a Casa pela Padaria

É a hora de arrumar os lápis no saco.
O ar é uma ourivesaria.
A brisa é.
Uma pátina de sombra azula os relvados e as hortas.
Um homem caminha direito à padaria.
Um saco de papel, pães pequenos e mornos dentro do saco.
Beber um café antes de retomar caminho.
O senhor dos lápis toma o seu café suburbano.
Escolheu a mesa da montra.
Dá para a rotunda do hipermercado, mas também para a serra.
Pinheiros mansos, muito altos.
A brasileira de serviço sorri trocos.
O senhor do jornal desportivo resmunga sporting sporting.
Meia dúzia de horas para, de novo, fazer por merecer o mar do sono.
A ver.



Tondela, entardecer autobiográfico de 22 de Setembro de 2005

Rol para o Lavadeiro

Castanheiro grande liberando ouriços.
Erva estiada sulcada por gatos transterrenos.
Couves carnudas com seu quê de maternal.
Lenha pronta para a machadinha.
Som raspante da carrinha do peixeiro.
Da obra ao lado, inofensivas obscenidades pedreiras.
Estatismo do muro.
Sardaniscas rápidas.
Céu de esmalte coalhado de nuvens.
Veias da parra translúcidas de sol.
Eternidade desde que se escreva: “Eternidade”.
Valor da respiração.
Sapatos de borracha nos pés do louco.
Vontade de versos.
Assador frio escamado de sardinha.
Roupa no varal sem corpos dentro.
Sexualidade apaziguada.
Cabelo e unhas crescendo: filme mudo sem piano de fundo.
Zoeira de sonhos.
Limoeiros carregados de ouro ácido.
Visão do vizinho lavando o carro.
Gato do vizinho dormindo sob a laranjeira vizinha.
Respiração do mesmo gato.
Valor da respiração do gato.
Paciência do castanheiro.
Aldeia.


Tondela / Botulho, tarde de 22 de Setembro de 2005

quinta-feira, setembro 22, 2005

Conversas Cônjuges - 2


Este gajo morreu d'álcool antes dos 40.
Quem?
O Dylan Thomas.
Nunca li.
Não está nos tops.
Qu'é que queres dizer com isso?
Só digo. Não quero nada.
Estúpido.
Estúpido, não, que eu já li Dylan Thomas.



Tondela, tarde de 21 de Setembro de 2005

quarta-feira, setembro 21, 2005

Conversas Cônjuges - 1

Devíamos ter tido filhos.
Nós temos filhos: tu tens um, eu tenho dois.
Eu digo um com o outro.
O que está feito, está feito.
Eu digo: o que devia ter sido feito.
Não vás por aí. Sofres com isso?
Não é sofrer. Às vezes, parece-me que seria como ter escolhido um gato.
Ou um canário, não? Filhos, não é como bichinhos.
Acho que sabes o que eu quero dizer.
Não. Só sei o que dizes. Não o que queres dizer.
Tens tanta razão como crueldade.
Crueldade? Exagero.
Não estamos mais novos.
Li numa revista que é uma questão de espírito.
Essas revistas são traduções feitas por estagiários jovens.
Não interessa com quem fizemos os filhos.
Não?
Não. Desde que os tratem bem quando lhos levamos.
Fácil para ti.
Não, nada fácil. Só que não vivo emperrada no passado.
E eu vivo?
Às vezes, até quando é do futuro que falas me parece que é no passado que estás.
Gostava de ter tido filhos contigo. No passado.
Ai senhor.

Tondela, tarde de 20 de Setembro de 2005

terça-feira, setembro 20, 2005

Redondilheta Maior Cujo Sentido Não Tem Mas Também Não Se Perde Nada

Indulcíngua tenebris
Compostura santiaga
Masticásia se abris
Dulce palha aziaga
Gorda borda oceatlân
Quânti ting'assemetriz
Jeito d'or ou de titã
Falha a filha meretriz
Dum dum dá não dá nem deu
Dum dum fá nem tu nem eu
Silv'ajuda como for
Seu direito prescreveu.
O mais rico já morreu.
Olh'arranj'um novo amor.



Ficton, Tondela, tarde de 16 de Setembro de 2005

segunda-feira, setembro 19, 2005

Colecção Confessada

Alguns seres humanos partilham com os mais belos animais a nebulosa graça da inocência.
Tão inocente inocência é ela, que dela nem mostram consciência.
Por mim, antes assim.
Eu colecciono visões e epifanias.
Animais propriamente ditos, raramente.
Comigo, é mais gente.



Ficton, Tondela, tarde de 16 de Setembro de 2005

Tony Carreira em Tondela

Quem sendou já o desespero - pode bem, momentaneamente a salvo dele, esplanar-se ao sol de Outono, ir enxotando as moscas com o braço-cauda, evocar o desespero outro, o idem lúcido de Fernando Pessoa. Por exemplo, de Fernando Pessoa. Pode bem fazê-lo - desde que vá mantendo-se a salvo.

ao conjunto fictício das estrelas
o esplendor nenhum da vida...
- como aconteceu, algures, numa das tantas vidas escritas do poeta finalmente defunto em 1935. E como me aconteceu ontem mesmo, noite meã de Setembro 2005.
Era na feira. Pipocas multicolores, farturas gordas que rechinavam nos mostradores, ébanos africanos, marfins coloniais, cachorros, bebidas, cêdês, fios, missangas, camisolas, crianças alheias; balões pesados como bolas de bilhar, emigrantes descapotáveis, imigrantes encharcados de aguardente vínica, filas e filas de automóveis com os rádios a gritar, raparigas casadoiras de chinelas escolhidas a dedo, rapazolas tontos mascando pastilhas de boca aberta, cinquentões de rabo-de-cavalo usurpando um look hippy-happy, aparelhagem sonora no máximo, lá em cima o céu anulado pela feir'aqui; matronas agrícolas com cadeirinhas de campismo, homens endomingados com fatos de sábado, moscas agudas nos antebraços recamados de cabelo português.
No todo, uma tão notória como geral insuficiência psíquica. Uma estética descalça, uma alegria de calendário, uma euforia de bifana. Mãos terminavam em copos de plástico e de cerveja. Empurrões sem peculiar erotismo. Algumas pisadelas exclamadas. Centenas de cus. Famílias completas. Varandas de em torno acolchoadas de vasos com as únicas plantas horríveis do mundo. Os autarcas louvadeusando passoubens. Artistas de informática com projectos de cerâmica sanitária. Exposição de ferragens, carpetes, doçaria, vitela no forno, cozinhas de fórmica demonstradas por estagiárias insufláveis, o móvel à medida da sua sala à medida da sua vida, os destinos individuais tracejados pela fita métrica da fadiga de viver, a banda filarmónica com os bombardinos casados à frente e as solteiras de clarinete atrás, dez e meia da noite.
Luzes, câmara municipal, acção - às onze e sete, senhoras e senhores, pela primeira vez em Tondela, Tony Carreira.
Ficton, Tondela, tarde de 16 de Setembro de 2005

sexta-feira, setembro 16, 2005

Uma Gaja Boa

Uma mulher longa como uma armação gradeada – vertical até à cintura, horizontal até onde as rótulas cedem verticalidade às tíbias, que desistem no chão em prol dos pés horizontais também longos.
Uma cabeleira frondosa é o mais do cartaz. Farta cabeleira, que sobe dos ombros até à zona onde se emaranham o olhar e os pensamentos, passada que foi a linha diagonal da boca que pensa, por mordaz.
Lábios finos, dentes largos. O sol da tarde, que as cortinas prensam como a uma torrada, legitima a blusa rarefeita, de onde pomam os dois lácteos hemisférios à sorrelfa entrevistos em convívio de renda elástica.
Boas pernas separáveis: longitudinais, ossudas sem excesso de magreza, tudo tendão, gordura nenhuma. Unhas fortes, que o verniz visitou de branco, sobre a mesa como na ponta das sandálias de perfumado couro.
(Deixam-nas andar assim, e depois elas incandescem o ar da respiração, tornando oftalmológica a dificuldade de viver. Um homem olha, uma mulher vê.)
Levanta-se sem esforço, por pura articulação de planos. A pele, muito ginástica, ginga o esqueleto fibroso no sentido, mais ainda, da altura. Condescende moedas no balcão, mulher de contado consumo.
Mineral, aduanária, pontuda, capital, frutívora – sai de cena, deixa nódoas de luz no soalhado, respiga centelhas de ouro à porta de vidro e deixa a preto-e-branco o cartaz dos gelados, qu’inda até há poucochinho vos juro que era a cores.



(Escrito para o sítio na net: www.liberal-caboverde.com
na tarde de 15 de Setembro de 2005, em Tondela.)

quinta-feira, setembro 15, 2005

(Mais) Histórias de Portugal
















(Ó Toninho, ficas aqui à esquerda que até te lixas!)




Salazar, o António de Oliveira, foi, enquanto pessoa, uma essência murcha, malsã e incompleta. Enquanto político, foi uma pedra de gelo num cálice de sacristia. A mitomania do Herói de Finanças, do Oiro Arrecadado na Palha do Colchão – não cumpre. De que vale o ouro no cofre quando o analfabetismo e a piolheira grassam no povo?
Lá fora, o teutónico Hitler e o macarrónico Mussolini arengava de varandas de mármore às massas ululantes, egóticas e vis. Franco, o galego envergonhado, garrotava a Espanha de sacro hissope nas mãos tintas para sempre de sangue. Entretanto, os norte-americanos calculavam xis de liberdade com ípsilon de estratégia.
Veio o 25 de Abril para cá. A política tornou-se parecida com o futebol. Bandeiras, maralhal aos berros, leitura nenhuma, MRPP e MIRN. Egrégios avós. Nobre povo. Ou pobre novo. Mais LCI, PCP(R), MÊS, PRP-BR, OCPML, LUAR, MDP-CDE, PS(P), PCP, PPD, CDS. MFA. SUV. FUP. SLB. SCP. Siglas cegas.
Sá-Carneiro voou, mas poucochinho. Mário Soares engordou, mas muito. Alegre fez versos alegres, bardo oficial. O padre Max é morto à bomba, pergunte-se ao cónego Melo. O professor José Hermano Saraiva transita do Antigo Regime para a Dieta Nova, com estágio no Brasil dos coronéis. O Pacheco Pereira também transita. A Zita espera que a coisa Seabra. Evanescente, Paulo Portas tirita olores de santidade, pagando submarinos com a caixa de esmolas dos bombeiros. Tarde, o País arde. Trinta anos disto.
O Moita Flores escreve novelas para a mulher e quer ser presidente da Câmara. O careca do Benfica já é. O filho do Soares também quer ser, mas decerto por birra. Cinco gueis aparecem na TV para um concurso popular: cinco novos presidentes de autarquia em potência?
O povo não se levanta mas ri. Ri de si mesmo, mas não sabe. Fernando Rocha é o génio pós-modernista, perdão, pós-Zé Maria. Teresa Guilherme, de alargados maxilares, dentifrica 1-2-3. O Goucha sacode-se, ungido de velhas marretas que, em directo, sujam as próteses dentárias com queijadas de Tentúgal. O Rodrigues dos Santos arrecada o Prémio RTP do Grande Comunicador RTP. As rádios-rebanhos seguem o pastor-playlist. Telemóveis para todos. O Jardim da Madeira continua vivo. A cidade de Pombal também não.
Portugal, allez!



Tondela, 23 de Agosto de 2005

O Onicófago - II - Corpo, Casa da Noite

(Segundo texto d'O Onicófago. Mesma explicação, se a há. Com esta ressalva: entre o I e este texto, mudei de casa. De vida, não.)



Corpo, Casa da Noite

Convém, é claro, aceitar que o corpo que levamos (eu-o-meu, tu-o-teu) disponha de interiores como uma casa, mesmo que fechada. Chamar a essas salas nomes como alma, mente, sonho -pouco importa. Mas, cá dentro, recusar isso, negar com vidência a evidência alheia. Ou seja: postular que o corpo é maciço, que é maciça a vida dele, que entre ele e as estrelas não há distância possível. É preciso esperar a noite e a pouca poluição para que as estrelas se tornem visíveis, eu sei. Mas sei mais e muito melhor que isso: sei que me basta fechar os olhos para vê-las: lesões luminosas no verso das pálpebras corridas como persianas de carne.
Por cautela, vesti uma camisola sobre a camisa. Mas a humidade da tarde de Setembro atraiu a sede do sol, e o sol abriu-se como uma promessa. Depois do almoço, a semana varreu da rua as pessoas. Só os ociosos ficaram, fiéis para sempre às esplanadas mobiladas de plástico branco e vinho tinto com gasosa. Já sofro mal este mundo, que foi outrora o meu e que agora, pela insensatez da literatura, entrego ao silêncio estridente da tinta de caneta. Verde. A tinta.
Linhas e linhas verdes num caderno de capas amarelas. Também o ócio é amarelo. Na esplanada de plástico, sei que o nada existe. Que o nada não é a ausência das coisas, mas a ausência de quem as conheça. Nesse sentido, os vivos vivem no nada dos mortos. O que existe, é o que sobra do nada: a duração (não a adoração) da vida, os ardis da poesia, a dimensão paralela que é a a linguagem. Enquanto não telefono ao Jorge a saber do carro velho e branco que vou ou não vou comprar-lhe, a tarde presta-se-me à usura de uma suave amargura - a minha, a do meu corpo caçador de meninas babadas que se esquecem até de estar vivas na floresta. Um cavalheiro de camisa branca sem gravata tenta sacar um relógio de pulso de dentro de uma espécie de caixão de vidro vertical. Injecta uma moeda de cem, um manípulo acciona um braço eléctrico de três garras que desce e persegue o relógio. O relógio foge como um ratito. Não é desta que o desengravatado tem o seu prémio. Vocifera baixinho, olha de lado, descobre-me dobrado sobre um caderno de suspeitas capas amarelas, vê que estou a olhar para ele e rosna-me:
- Que está você a olhar para mim?
- Estou a escrevê-lo. Agora, você vai desaparecer na penumbra do café - digo-lhe.
O homem desaparece na penumbra do café.
Já me recuso a anunciar toda e qualquer totalidade. Nenhuma vida é total, como nenhuma morte o é. Precisamos dos outros para, ao menos, entender a totalidade. E os outros não estão aqui para nós, para mim. Andarão ou não por aí. Isto torna-me fragmentário. Hoje, ao menos. Depois, há o Tempo. A hora da tarde, o peso financeiro da semana, a estepe do mês, o horror de cada ano contado para trás e para o fundo.

O homem sem gravata desaparece na penumbra do café, eu saio para a canja da noite, que preparo num rés-do-chão exposto à filosofia dos operários sem filosofia. A casa é húmida. Vivo sobre as brasas do lugar: cadeiras forradas de fórmica, cinzeiros de vidro martelado, uma televisão pequena, um estante com livros e cassetes, uma panela para a canja. Um telefone, de que me chegam às vezes as vozes de mulheres sem matrimónio e sem alternativa. Não me custa pensar que o meu nome seja, mais que uma risca sideral, a última linha das agendas telefónicas dessas mulheres.
Mas falava da totalidade. Já a não reconheço senão como abstracção, imagem mental criada como impotência, pela tua e minha incapacidade de aceitar a fragmentação, a dispersão, o farrapo de cada vida. Granadas rebentadas, espalhamo-nos aos ventos. Inútil incinerarem-nos: já o estamos. Essa ideia de felicidade para sempre: uma casa para morar, um carro para guiar, uma carreira para se contar nos beberetes: pois sim, pois não, pois a ver vamos.O Jorge atende o telemóvel. Vai a caminho de Mangualde, impossível vermos hoje o carro branco, para a semana será. Ou não.
A canja ferve, leio a biografia de alguém. Quem me deu o direito de entrar na vida de um morto? Os homens são assim: escondem a vida, como Kafka, mas não encontram maneira de fugir à lâmpada indiscreta dos necrólogos. A lâmpada da cozinha emana um amarelo doentio, uma luz de cansa-olhos. A chama do fogão parece uma rosa azul. A cafeteira grande de aquecer água para as abluções repousa sobre o tachinho de arroz branco com línguas de cebola. Quando o animal doméstico se fecha em casa, o corpo rejubila de tão maciço. A minha vida e a minha morte escrevem obscenidades religiosas nos azulejos das paredes.
O telefone toca na casa do homem verde de capa amarela. É uma mulher. É a voz dessa mulher. Imperatriz das suas pequenas coisas, deusa do seu automóvel escuro e veloz, senhora da sua pele tensa como de um tambor educado. Mulher de cheiro vegetal, telefonadora do homem isolado, verde, amarelo. A canja está pronta, ele convida, ela recusa, vão encontrar-se à hora a que o rio atrai os primeiros frios da estação, essa hora a que as pastelarias morrem de cansaço. Hão-de falar do trabalho que dá procurar trabalho. Ela está desempregada, ele ganha pouco, bocejam antes do amor, são felizes sem totalidade e sem alternativa. Mas mesmo isto não interessa. É coisa comum. Milhões de pessoas, milhares de cidades, tantos telefonemas, tantas noites: não interessa.

O Onicófago - I - Dolores, Mãe de Kafka

(Noutro caderno, uma escrita já remo(r)ta. Era decerto o ano 1999. Eu vivia virado para uma colina de pinhal onde uma casa velha e desabitada se me mostrava em plena glória acabada. Perto, um prédio de apartamentos nascia grossamente. Já não vivo onde vivia. O texto aguentou-se, calado, numa das gavetas que, teimoso, vou reabrindo. Como quem reabre feridas. Enfim. O livro inacabado, talvez para sempre inacabado, chamava-se O Onicófago.)


Dolores, Mãe de Kafka

Casa no monte.
Os habitantes saem de manhã cedo, voltam à noite.
Voltam à noite com a carga de cavalos das horas.
Comem, deitam-se no escuro.
Ao contrário do que acontece com os olhos, podemos controlar os braços e as pernas.
Os olhos produzem o olhar, que se serve de nós para manter a realidade no sítio.
O sítio da casa é o cimo de um monte pequeno.
A casa é verde, mas o tempo e os temporais têm despido a casa de a cor verde.
Sobra uma pele de estuque.
Os caixilhos das janelas nunca foram mudados.
O vento canta bailes.
Os habitantes da casa verde não ouvem.
Crianças (três). E os adultos: uma avó que geme, o pai seco, a mãe.
Sopa, a caixa do pão em que o pão se confunde com a madeira, o cubo de toucinho que açula as moscas.
Ninguém espera na casa.
A espera não é uma ciência.
Bocados de lenha parecem cães deitados.
A criança mais antiga balouça-se no carro de mão.
Baba filiforme assinala o sítio da boca.
Olhos de sabão azul. Pele de tanque da roupa.
A mãe está prenhe.
Saem muito cedo.
O pai pratica alvenarias, carrega caixas de fruta no mercado abastecedor.
A mãe leva as crianças para a cidade. Todas pedem.
A avó fica. Só a avó conhece o que é a casa de dia. O sol etc..
A realidade é enorme, toda minuciosa nos aparece.
O tempo não é de semanas, neste sítio. É feito de ossos que crescem, estalam, adivinham a chuva.
O céu é a cave das crianças adormecidas.
(O céu jaz sob nós na infância, escreve Wordsworth).
Cheira a pés e ao cubo de toucinho.
A ureia da avó substitui o ar.
A lenha incha e seca, apodrece e nasce.
A baba da menina semeia caracóis no panasco.
O vento cantor enfunaria o desespero, se o desespero fosse alguma coisa de comer.
O pai achou um livro no lixo.
É a Lolita de Nabokov.
Rasgam as folhas do livro para limpar o nó cego do corpo.
No catre conjugal, embora raro, o pai e a mãe discutem economia (quantas moedas recolheram do dia), sociologia (quantos automóveis e quantos homens ricos viram passar), obstetrícia (a barriga dela range como uma igreja), literatura (o que a mais velha disse a sonhar).
Um coto de lápis de marceneiro é encontrado pela mais velha.
Atira-o ao lume.
O pai acode, tira o lápis do lume.
Levanta a mão queimada para bater na criança.
A criança não se encolhe.
Os olhos de sabão azulam a cara do pai.
O pai recolhe a mão.
Devolve o lápis à menina.
A menina atira o lápis para o lume.
As horas são as flores da casa.
O lume solfeja a passagem.
A duração, não a adoração.
Cristo é só uma história da avó.
Partiram o queixo ao pai numa rixa de desempregados.
Havia uma greve. Ele precisava das moedas.
Então a mãe começou a levar as crianças.
A cara pulmonar ajudou-as nos primeiros dias.
Mas só os pobres dão esmola.
Se os pobres estão desempregados, não dão.
Há um julho qualquer nas famílias: um tempo dourado, uma maçã encastoada na memória, uma película de naftalina que evoca a História e os Antepassados.
(Não. Não creio nisto.
Não espero. Não sei.
Não gostaria de saber.
Escrevo contra a vida.
Tenho frequentado restaurantes.
Salões de dança.
Conheço a nossa vida de pêssegos:
um caroço de cianeto é-nos o coração.
Hoje, tenho a história da casa no monte.
Amanhã, tenho outra história.
Um dia, não.
Espero. Sei. Creio nisto. Sim.)
A noite ensina-lhes o regresso.
As crianças fazem pequenas corridas.
A mãe leva a mão à barriga, onde outro coração.
O Nabokov vai a meio.
O pai lê enquanto tudo se esvai: o corpo, o tempo.
Guarda o livro.
Mas as crianças e a mãe também gastam da literatura.
De modo que a história de Lolita tem sobressaltos que o pai colmata com a imaginação.
Habituou-se aos nomes estrangeiros do romance.
Parecem os nomes da fruta estrangeira sobre os ombros dele.
Bebe vinho uma vez por semana.
(Eu sei, não há semanas no tempo desta casa.
Isso foi o que eu disse.
Não acreditem em tudo o que digo.)
Regressa a casa como um imperador.
Sacode dos ombros a mosca do nada.
É dono do seu corpo. É dono do corpo da mulher.
As crianças ouvem-nos.
É uma ginástica mortal.
Ele pincha sangue e leite nela.
Ela recebe as marés.
Não é o amor da tradição. Isso, não.
É só um homem cravado numa mulher.
Aqui sim, há espera.
Ela espera que ele se acabe.
É como um ataque cardíaco.
Um estremeção, um ter subido aos níveos despojos da montanha, esse queijo masculino que inicia as almas do mundo, os trabalhos do mundo, as formigas do mundo.
O vinho está na semente do leite.
As crianças ouvem.
A avó sabe.
(Dispomos de todas as palavras erradas.
Não controlamos o olhar.
O produto dos olhos revela-nos: cloreto de sódio, literatura, uma casa no monte, o abominável homem das neves, a sardinha descomunal do Loch Ness, o prestígio da gabardine de couro negro, a rapariga de gaze que vi na tarde de comboios, os amigos que alimentam as toupeiras da consolação, esta vida demorada, esta tarde de comboios, esta tarde, hoje, esta casa, este monte, o homem cravado na mulher, a tristeza que sucede ao leite e antecede o sangue.)
A avó aparece morta como antes aparecia viva.
Levam-na numa caixa de madeira, como se ela fosse pão, ou fruta.
Fica dela o rumor da ausência, outra maneira de estar.
A Lolita vai nas últimas páginas.
O pai ganha mais moedas, bebe mais vinho.
Fechadas as sombras do corpo-prisão.
(Wordsworth, Yourcenar - agora sei.)
Oh como cresce a mais antiga das crianças!
Torna-se na mais nova das mulheres.
O perigo ronda. Ela há-de ser fértil, apesar do fio de baba que a desce.
Os flancos já crocitam, já se lhe amorangam os mamilos.
Lolita, Lolita.
(A intempérie no caldo de tormentas do meu coração.
As moscas esquadrilham os pés adormecidos dos meus mortos.
Cresço para ser uma árvore lúcida.
Colo a alma à parede para que um dia ma leiam.
Consulto no espelho a extensão e a profundidade da ferida chamada olhar.
Pestana diurética de quem se comove com facilidade.)
A rapariga baba-se no escuro da floresta.
O lenhador ia passando. Viu-a.
Olhou, roedor, em derredor.
Toma a menina, está desde sempre à tua espera.
Não menina já, não ainda mulher.
O pai há-de morrer numa rixa de bubas.
O tempo come e bebe o tempo.
O tempo defeca o tempo.
Quando Dolores parir, o tempo come o tempo, que é como os olhos, que não podemos controlar, como fez Kafka, parido por esta menina nove meses e tal depois desta história.

Segunda-feira de manhã, regressava de comboio a Pombal. Vinha de casa de minha mãe, onde passara um domingo entregue aos ardis da nostalgia. Na carruagem, seguiam apenas três outras pessoas: duas mulheres que conversavam de doenças e um idoso que lutava contra a desordem das folhas do jornal. A minha alma viajava de pé, inquieta pelo receio premonitório de filho quarentão que deixa só em casa uma senhora de 80 anos.
E todavia não era uma hora precária. A glória democrática do sol fazia coruscar a pele das mãos, como se as tivesse de ouro. O comboio cantava como um escuteiro, as duas mulheres ladainhavam tranquilamente as respectivas hipocondrias, eu olhava os campos de água com que Novembro imita terrenamente o céu e o velho homem, tendo desistido de ordenar o Diário de Notícias, limpava as unhas reformadas com um canivete de cabo de madeira.
Foi então que do bolso do casaco me saiu um pipi de mensagem escrita. Saquei distraidamente o telemóvel. A mensagem era do João Pedro, pelo que me preparei para sorrir à esperada leitura de um dos amáveis insultos do costume. Não sorri. A mensagem era: “Morreu o Tó Mas!” Assim, sem mais nem menos, com a pureza lapidar da desgraça.
Toda a gente sabia que sim, que a doença do Tó era sem regresso. Mas mesmo assim. De repente, foi como se o meu comboio tivesse entrado num túnel. A sombra pariu o seu ovo negro. O sol perdeu a glória, a água alastrou pelos campos até não sobrar vestígio de terra, casa ou árvore. As aves debandaram dos céus agora baixos, mortais agora.
Sozinhos, valemos nada. Valemos os amigos que alcançarmos merecer, a família que soubermos manter, os amores que pudermos cativar. No desaparecimento de um amigo, passamos todos, cada um por si, consigo e em si, a valer menos. A morte de alguém como o Tó desbarata-nos em remédio. Empobrece-nos sem esperança. E, estranhamente, purifica-nos, porque nos revela como verdadeiramente somos: animais nus acossados pela evidência do malogro.
Desci do comboio de joelhos desconjuntados pela incerteza. Aonde ir, na manhã acabada? O meio-dia subia o escadote solar, indiferente à má notícia, mas as casas, os cães, as pombas e os pombalenses pareceram-me mais obscuros que de costume. No jardim, a brisa não catava à palmeira a caspa de pardais de outros dias: os dias de quando ainda o Tó. Procurei o alento de outros amigos destroçados: o César e o Arlindo, entre outros que a tarde me permitiu somar à resignação.
Terça-feira, 23, teremos todos estado no funeral. De olhos molhados como campos de Novembro, haveremos de ter conciliado a saudade viva com que, ao menos, se torna possível negar à morte a estupidez da sua vitória inútil.
E, no regresso de lá de cima, apaziguados finalmente pelo sono peremptório de tanto mármore, cada um de nós, Tó, terá retomado o comboio que a cada um de nós levará de novo até ti, um dia democrático e solar.




Nota: este texto já tinha entrado neste blog, mas sem foto.
Hoje, lembrei-me do Tó. Era um homem bom. Só isso, que é tanto: um homem bom.

Matt Marriott


Não é tanta, a infância.
Não o tempo que foi.
É mais a distância.
Não mata, Matt, mas dói.







Imagem: © Tony Weare

Texto: Tondela, tarde de 14 de Setembro de 2005

quarta-feira, setembro 14, 2005

Telefonemicama

A hoje velha que
ontem me pariu
telefona-me.

- Então, filho.
- 'tão, Mãe.
- Como vais?
- Bem.
(Mentira: vou pela poesia e pelo teatro.)
-Deus te ajude, meu filho, e o diabo a quatro.
(Mas Deus é verso para uns. Para outros, drama.)
- Boa noite, Mãe. Vou para a cama.


Augaciar, Botulho, noite de 12 de Setembro de 2005

A Figura Feminina e Outras

1

A missão secreta é merecer, em pleno outono, o inverno que talvez venha.
Merecê-lo entre casas de pedra e ruas de ar negro.
Ir sendo um homem na construção desse conventual inverno eventual.
Num lapso quântico, a fulguração do fontanário entre o canavial e as alminhas.
Um prato de cobre na face da árvore.
Uma árvore tem quatro lados e tu só podes um.
A árvore amestrada, assustada, tu seco, o rio seco, tu assustado sem mestre.
A enumeração fluida, minha velha amiga.
A tristeza sumptuosa - vermelhágua incolorosa.
Deixar tranquilo o dispositivo sexual.
Ser apenas um homem que trabalha o seu mesmo merecimento.

2

A figura feminina
de astro feita alabastrina
convoca o rumorosmos
cosmicalada.
Cadecadente, imperial.
Fulgurosa, astral.
Masturbada opalina:
a figura feminina.
Masculastra, meteorológica,
solar, lânguida, pluviológica,
ginotrópica, antropológica.
E com seu quê d'inda menina?
A figura feminina.

3

Penso pelo cabelo.
Dunas pisadas de erva incomestível.
Ansioceana vizinhança.
Um meio passo de dança.
Agora é que é de ir à praia.
Num saco de pano
um pão, um peixe, uma saciedade:
devolver tudo ao mar,
ficar careca.

4

Eu não sou brasileiro.
Eu não digo "falar" quando é "dizer" que dizer quero.
Dizer é outra coisa que falar não diz - só fala.

5

O meu pai comprou-me Chomsky sem saber, nem eu, quem o Chomsky era e dizia.
O meu pai comprou-me tudo.
Mas foi de borla que me deu o dia.

6

Bolos secos travados no sabor pelo limão.
Água de chá, morna no coração.
O pardalibertado, no quarto do ano 1981.
Este ano, outro inverno
- mais um.

Augaciar, Botulho, noite de 12 de Setembro de 2005

terça-feira, setembro 13, 2005

Uma Coisa Assim - Conversas Partidas de Café de Aldeia

(De secretário fiz a uma roda de homens que me não contrataram nem conhecem. Foi num café de aldeia. Era de noite.)
...


- As células, tázaver?
- Isso esmorece.
- O mais bonito é saber, na sexta-feira.
- Sábado, tinha um casamento.
- Mas a gente ser operado, a gente tinha de estar sempre em cima dele, com aquele ritmo cardíaco não é fácil.
- Ó Jorge, uma máquina de cortar cabelo.
- Julgas que ele não sabia que ele ia para ali?
- Se vier cá o meu primo, vais ver.
- E então.
- Devagarinho.
- Ó João, ao meio-dia.
- Vai mais uma rodada, eu não bebo mai'nada.
- Até logo.
- Anda lá, Espanhol.
- Paga metade que eu pago a outra metade.
- Dois e setenta.
- Ainda se dissesses qualquer coisa.
- Do momento que toca a família.
- Isso digo eu: mulher e filho.
- Não tem nada.
- O meu genro chegou com o carro com a luz nos mínimos, lá em cima.
- Portem-se bem.
- E eu também.
...

(Os senhores do café falam no café. Noite alta. Eu ouço e estenografo. Eu estou calado. Nada do que não digo se aproveitaria. A TV ladra cores altas. "Impensável", diz a TV. Vou tentar ouvir mais um pouco, só mais um pouco. Nem parece que se está só, é um exercício muito higiénico.)

- A minha mãe, descobriram-lhe uma infecção urinária.
- Como é que sabem?
- Aquilo não é nada.
- Mas já lhe descobriram mais alguma coisa?
- Se fosse só para o lado do bom, mas a gente só fica descansado no fim de descobrir.
- Agora antes de nascer já se descobre umas coisas.
- Não é como eu.
- Posso estar muito mal, mas espaços, mas espaços.
- Uma coisa assim.
- Então quanto é que se deve?
- Metade de dois e setenta é um e trinta e cinco.


Botulho, 23 de Agosto de 2005

Colagem Portuguesa

Com versos "ipsis verbis" dos poetas portugueses indicados infra, esta bela quadra:


Como as cousas qu'hão-de ser
Logo dão no coração
Eu mesmo a mim mesmo estranho
Com as espadas na mão


vv. 1-2: Garcia de Resende
v. 3: Bernardim Ribeiro
v. 4: Garcia de Resende